quarta-feira, 31 de março de 2010

Mistérios de Pelicana: a triste história de uma borracha.

Parte 1

Tudo começou em 2009, no início do ano letivo. Naná exibe toda orgulhosa seus novos materiais escolares. Para quem não a conhece, pode parecer normal, mas já digo que materiais escolares e pequena Anaisa têm uma relação muito particular, uma vez que a pequenina garota dos olhos esbugalhados perde suas coisas gradualmente ao longo do ano, encarregando seus amigos de sustentá-la no que diz respeito a grafite, corretivo e, principalmente, borrachas. Cansada dessa má fama e de ouvir as reclamações de sua amiga Anna Vitória, sempre a vítima na hora de emprestar coisas à pequena perigosa, (uma vez que não satisfeita em somente pegar emprestado, little Naná tinha um enorme apreço em levar para casa aquilo que era dos outros), fez uma revolução: comprou uma borracha.

Não era qualquer borracha, corriqueiro instrumento usado para apagar os erros feitos no papel por um grafite errante; não, era a borracha, maior que todas as outras, comprida, branca, dura, encapada por um papel resistente azul marinho com inscrições em alemão. "Pelikan", o nome dela, acompanhada de uma logomarca que ilustrava um grande pelicano apontando o bico para um pequeno, que enquanto pelicano filhote mais parecia um pato. Posto que gostasse de dar vida à coisas inanimadas e inusitadas - nunca uma boneca, ou um macaco de pelúcia, mas potes de álcool gel e bichos de pensamento -, Anaisa logo olhou a todos com a vingança em seus - grandes - olhos: "Essa é a Pelicana, minha borracha, não preciso mais de vocês".

E por semanas a fio durou o caso de amor entre as duas, erros propositais eram feitos só para que Pelicana entrasse em ação. A garota rabiscava desenhos desconexos em mesas alheias - sempre da pobre Anna Vitória - só para, com grande glória, retirar o retângulo branco feito de látex de seu estojo, e pôr a Pelicana para trabalhar. "Minha Pelicana, eu tenho a Pelicana, vocês não, hahahaha, Pelicana, minha borracha, a mais legal de todas..." era o que ela proclamava para quem quisesse ouvir, com sangue nos olhos. Matheus, sempre propenso a surtos repetinos e inexplicáveis, um dia, cansado de ouvir diariamente Anaisa se gabar de sua borracha querida, e de ter que enfrentar a dura realidade de que seu estojo era o mais incompleto de todos, num dos surtos exibicionistas de pequena Naná, arrancou-lhe a borracha das mãos, e num repente que até hoje permanece inexplicado, mordeu um pedaço de Pelicana.

Acredita-se que o poder de corrosão de sua saliva - que seria explorado mais tarde no episódio "O Vampiro do Sangue Azul" - veio a quase partir Pelicana em dois. Anaisa, protótipo de Monica Geller, com todo cuidado resgatou a borracha do chão, que agora não parecia nem um pouco com o imponente objeto que ela tanto exibia. Era só uma massa disforme toda babada, com um envoltório azul, agora já pouco reluzente, e ameaçando deteriorar-se. Muitos dias se passaram sem que se ouvisse falar dela. Da borracha misteriosa.

Meses depois, Naná chega com uma novidade: "Olha, essa é a Pelicana". O que ela tinha nas mãos era uma bolinha branca, pequena, franzina, tristonha, com um coração desenhado a lápis de escrever. "Mas Anaisa, aquela borracha daquele tamanho virou isso?!" "Sim, foi o que sobrou dela." "E o outro pedaço, o que foi feito dele?" "Não sei, só tenho isso dela". Disse, com lágrimas nos olhos, que quando pôde resgatar o que restou de sua amada Pelicana, ferveu-a em água, bezuntou-a de álcool gel. Pôs a borracha para descansar, secar, e agora, aquilo era o que restava dela. A roupa, a brilhante capa azul com jeito de alemã, ninguém sabia o que tinha sido feito dela.

Um dia, caminhando na rua da escola, eis que a pequena garota grita: "PELICANA, PELICANA, É A ROUPA DA PELICANA!!!!". Ela e Anna Vitória olhavam-se boquiabertas, era realmente o envoltório azul de Pelicana. O que ele fazia ali, pisado, amassado e rasgado na calçada da escola elas não sabia dizer. "Anna, promovo-te agora a guardiã oficial da memória da Pelicana. Leva essa capa pra casa, e guarde, porque um dia nós ainda vamos nos lembrar da Pelicana".

Quando mostrada aos outros convivas e testemunhas da tragédia que se sucera à borracha, ninguém acreditou. Como havia ido parar lá os restos mortais de Pelicana, é um mistério que permanece vivo até hoje. Da pobre Pelicana, temos ainda o restolho, aquela bolinha pequena, que diminui a cada dia que passa, pois Anaisa insiste em usá-la até o último sopro de vida.

O que ninguém sabia é que na torre de marfim onde instalava-se o Centro de Inteligência Pelikan ouvia-se um burburinho de vingança. "Perdemos em 2009, mas em 2010 retornaremos. Eles que nos aguardem..."


(Os restos de Pelicana, sob minha guarda. Não reparem nas minhas cutículas)

(continua...)



domingo, 28 de março de 2010

O carinha do aeroporto.

Não existe lugar melhor pra se estar do que um aeroporto, em época de Natal, num dia chuvoso. E era lá que eu estava, tomando um chá de cadeira, porque meu voo estava atrasado por conta do mau tempo. Vi-o pela primeira vez na fila do check-in, estava na minha frente. Confesso que o que me chamou atenção a princípio fora o perfume, desses que vão adentrando pelas narinas, e ocupando todos os sentidos, e depois de um tempo você até consegue enxergar todas as notas de cheiro em forma de notas musicais.

Era alguns centímetros mais alto que eu, vestia camisa social azul claro, com mangas dobradas, colarinho desabotoado, gravata afrouxada. Toda aquela roupa de escritório dava-lhe a aparência de cara sério e bem mais velho, mas abstraindo o vestuário, os cabelos penteadinhos, os óculos de grau, não tinha mais de vinte e cinco anos. Tinha a barba bem feita, pele lisinha, e por trás do perfume, um cheirinho de banho tomado com sabonete comprado pela mãe; mãe que aliás estava com ele, e que ele beijara ternamente a testa ao se despedir. O filhinho da mamãe, garoto prodígio da família.

Depois do check-in fui procurar algo pra fazer até que meu vôo saísse. Passei um tempo na revistaria folheando todas as Vogue do mundo, tomei bem devegar dois cafés com mamãe, e como não dava mais para fazermos hora na cafeteria devido à quantidade de gente esperando uma mesa vaga, fomos esperar em outro lugar. Imaginem minha surpresa ao ver que haviam dois lugares vagos justo ao lado dele! Sentei-me. Ele estava por demais compenetrado em sua leitura para notar qualquer movimento a seu redor. Meu coração quase saiu pela boca quando, depois de muitos malabarismos para parecer discreta, vi que livro ele lia: antologia de contos de Machado de Assis, um volume que tenho em casa.

Cruzava e descruzava as pernas, nem sabia mais em que página da palavra cruzada eu estava, tamanha era minha aflição e curiosidade para descobrir qual dos contos ele estava lendo. Que vontade de ser cara de pau e descontraída para puxar assunto com desconhecidos, não seria ótimo engrenar uma conversa, uma vez que estávamos eu e ele ali, reféns de um mau tempo que não nos deixava embarcar? Opa, a mulher da voz serena convida os passegeiros para a sala de embarque. Olho o meu cartão, ele também, nos levantamos quase ao mesmo tempo. Estávamos no mesmo vôo.

A vontade de enfiar a cabeça em qualquer lugar para nunca mais sair foi inenarrável quando mamãe, com seu jeito todo mãe, avisou para a aeromoça que eu estava embarcando sozinha. Menor desacompanhada, essas coisas. E ele ali na frente. Que cena patética deve ser sido aquela. Na fila para ir para o avião, torci o tempo inteiro que a TAM fosse desorganizada e tivesse poucos guarda-chuvas, e nos fizesse dividir com a pessoa da frente. Chuviscava fino ainda. Pra minha tristeza, haviam suficientes, a aeromoça bem penteada e sorridente abriu aquele guarda-chuva vermelhinho e me entregou. Ele ia na frente, de certo aborrecido de estar andando com seus sapatos sociais no chão molhado de chuva do dia inteiro.

Ele entrou na parte de trás da aeronave, e eu na da frente. Se minha última esperança era de que ele se sentasse ao meu lado, ela já não mais existia. E até hoje quando pego aquele livro de contos, me pergunto qual ele estaria lendo.

(Essa história aconteceu mesmo, no fim de 2008. Lembrei do caso dia desses, numa conversa, e procurei o rascunho da crônica. Só finalizei, porque estava incompleto.)



terça-feira, 23 de março de 2010

Not just a fest at all.

Dia desses tava tentando ensinar o Matheus a gostar de Radiohead. Ouvíamos o "Ok Computer", e eu relatava um pouco sobre o show pra ele. Logo que começou "Paranoid Android" e as lembranças da música voltaram, eu fiquei arrepiada como se tivesse voltado àquele momento, e meus olhos se encheram d'água. Parece coisa idiota de fã alucinada, e talvez seja, mas só entende quem já viu uma de suas bandas favoritas tocando num palco a poucos metros de você. O post que a Carol fez relatando todas as emoções do show do Guns N' Roses e o fato de que ontem fez um ano exatamente que fui ao show me motivaram a relembrar aqui um pouquinho dessa noite mágica. Los Hermanos e Radiohead, duas bandas favoritas, de uma vez só, não é pouca porcaria não!

Trânsito infernal e a teimosia de papai ("Francamente, Anna Vitória, acha mesmo que seu pai, com quarenta anos de idade, vai sair 15h prum show as 18h? Meus joelhos não aguentam isso mais não, na verdade, faria algo assim só se fossem os Beatles, no auge, com a formação completa!") me fizeram chegar lá quando o show do Los Hermanos já havia começado. Quando cheguei tocava "Morena", e quando finalmente entrei, os primeiros acordes de "A Outra" já estavam começando. O Amarante no palco é a coisa mais graciosa do mundo, ali no cantinho, dando seus pulinhos, brincando com a guitarra, sorri enquanto canta. Meu momento preferido foi quando tocaram "Sentimental", minha favorita, companheira em tantos momentos de profunda fossa, tão linda e tão cruelmente triste... "Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir... e rir.".


Um monte de gente foi embora e eu consegui ir bem pra perto do palco. Começa Kraftwerk. Que me perdoe quem é fã, eles podem ser precursores e revolucionários do que quiserem, mas pra mim aquela barulheira sempre vai ser o Ross tocando teclado de um jeito mais conceitual ainda.



E a única palavra pra descrever a apresentação do Radiohead é: épica. O jogo de luzes, o som equalizado de um jeito perfeito, de modo que nem as músicas mais nervosas incomodavam pela barulheira, e Thom Yorke era ouvido com perfeição sem ter que gritar. E ele lá, baixinho, caolho, estranho, hiperativo, com uma câmera quase dentro do olho em "You and Whose Army", tocando piano em "Videotape", pedindo corinho na hora de "Creep". Quase chorei em "All I Need", mas acho que estava tão hipnotizada que nem isso eu consegui. Foi meu segundo momento preferido. Nada ganha de "Paranoid Android". O coro do pessoal gravado na hora e posto em sampler, misturado com o coro ao vivo e a repetição de "God loves his children, God loves his children..." (se não quiserem ver o vídeo todo, avancem pro 6:50) pelo Thom Yorke. Eles nem tocaram "Airbag", "No Surprises" e "Let Down", mas não teria como ficar mais incrível.



Acho que toda essa nostalgia é porque eu tô seca por um show. Porque eu tô chateada pois perdi um show do Móveis Coloniais de Acaju aqui por conta do PAAES. E porque sir. Paul McCartney não oficializa nunca sua vinda pra cá. Quero logo a loucura pelos ingressos, quero logo ter a certeza de que não vou morrer sem ouvir "A Day In The Life" e "Something" ao vivo. E se não for pedir muito, "You Never Give Me Your Money" também.



segunda-feira, 22 de março de 2010

Prometo que é a última vez que falo de PAAES.

Eu corri tanto no último mês que nem tive tempo pra ficar nervosa em relação à prova. Porque quando eu parava de estudar eu só queria não pensar em estudos, e dormir. Foi então que no sábado eu tive um ataque de pânico. Ou uma coisa muito próxima a isso. Tive aula de manhã, e no fim do dia fui ao cinema com a Sofia e passei uma tarde tão divertida que só me lembrei da prova quando fui me despedir dela e sem pensar muito disse "Até amanhã!", e foi essa frase que acabou comigo. Foi como se o peso de tudo isso tivesse se revelado todo de uma vez. Como aqui só tem um shopping, e a tradição de dia pré e pós vestibular/PAAES é todo mundo ir pra lá, portanto estava lotadíssimo. Uma sensação tão horrível me acometeu, um medo enorme, misturado com uma tristeza repentina, insegurança, nem sei como definir. Eu só queria ir pro banheiro chorar. Como não podia fazê-lo, fui para a livraria, peguei um livro do Calvin, sentei num cantinho e comecei a respirar. Sabe aquela cena de filme da mocinha desesperada respirando num saco de pão? Bem isso, só que sem a sacolinha.

Pra piorar, papai estava demorando muito para me buscar. Nem sei quantas voltas eu dei na Siciliano, na Americanas e na Renner, as lojas que me acalmam. Preciso ver livros, dvds e roupas bonitas, já que não tenho árvore de dinheiro em casa e não posso esquecer meus problemas comprando um sapato incrível. No carro, papai despejou todo aquele discurso que eu não precisava ficar nervosa, que eu já tinha feito minha parte, que o importante era o esforço, e aquele nervosismo só ia me prejudicar, e acho que ele realmente tinha pensado que quando eu disse que ia vomitar, era num sentido figurado.

A noite foi horrível, passei mal e sonhei com todas as possibilidades imagináveis de que tudo desse errado, desde eu chegar lá e descobrir que eu tinha que levar uma experiência pra prova prática (de onde eu tirei isso?) até um terremoto que me impediu de chegar na hora, tudo se passou pela minha cabeça. No domingo de manhã tive aula de véspera, e foi a melhor coisa que me aconteceu. Já é tradição da minha escola fazê-la, de aula tem pouca coisa, 10 minutos com cada professor, onde eles jogam um assuntinho de última hora, que eles acham que tem grande chance de cair. O bom da aula é mesmo o horário cultural, onde os professores passam por um momento stand-up comedy, contam piadas, cantam, nos ensinam gritos de guerra para passar confiança ("fui fazer uma provinha-nha, infestada-da de questão-tão-tão, saiu de lá-lá-lá uma listinha-nha, olhou pra mim, olhou pra mim e disse assim: PASSEI"). Foi muito bom porque me diverti a beça e recuperei minha confiança, sem falar que cantei até ficar rouca e presenciei cenas épicas como meu professor de História imitando o Cazuza e Ney Matogrosso, e meu professor de Geografia, todo sério, ensaiando um Rebolation!

Na porta da UFU rolou todo um esquema da escola também, cantamos musiquinhas, rimos mais um pouco, e eu que tinha ido de rímel a prova d'água porque estava pensando que ia cair no choro, se chorei, foi de rir. Comecei a prova pela redação, como a escola orientou. As três propostas eram relacionadas a preconceito, uma com carta argumentativa, outra carta pessoal, e relato de experiência. Fiquei com a carta pessoal. A prova em si eu achei tranquila. Biologia e Química eu quis bater no responsável, porque estava retardadas de tão fáceis. Passei semanas recordando histologia e embriologia pra ver cair numa questão de um jeito idiota. E Química foi uma prova muito mais de conhecimentos gerais do que de Química em si. A questão discursiva, que todo mundo tem medo, foi de Geografia, e não podia ser menos estúpida. Dois métodos para diminuir a emissão de gases do efeito estufa. É sério. Matemática foi bem como todos dizem, uma questão impossível, uma difícil, uma média e uma fácil. Física foi relativamente tranquilo, gráfico, teoria, uma mais trabalhosinha, mas não foi uma coisa de outro mundo. No total, foi uma prova tranquila.

Já saiu o gabarito e eu fiquei feliz com meu desempenho. De 140 questões, acertei 114, e meu saldo total foi de 25,05 pontos. Não sei bem o que isso significa ainda, porque a gente não avalia pela nota total, mas sim através da média de pontos da etapa. Resta aguardar pra saber qual foi a média. Mas tô feliz, acho que me saí tão bem quanto andei estudando. Valeu a pena. Agora posso dormir em paz, e voltar pra minha velha rotina, e dar adeus, pelo menos por enquanto, àquela vida ingrata de estar na escola pela manhã, a tarde e a noite. E dar uma trégua pra vocês, que não devem estar aguentando mais meu falatório sobre isso.



sexta-feira, 19 de março de 2010

O mundo anda tão complicado!

Toda essa história de processos seletivos inevitavelmente traz uns sentimentos que, apesar de não serem saudáveis, existem. A gente começa a se preocupar com concorrentes, e colocar em estatísticas internas as probabilidades de fracasso alheio que, querendo ou não, dar-nos-ão vantagens. E isso alivia. Na hora do desespero, é confortante pensar que um tanto de pessoas vai perder a prova porque esqueceu o RG ou se atrasou, e algumas outras vão zerar a redação só porque assinaram uma carta ou entitularam-na. Tem aquelas que vão preencher o gabarito errado, e as que não vão ter tempo de preenchê-lo por completo. E aquelas que não sabem mesmo, por um motivo ou outro. E isso é o que mais incomoda.

Minha prova foi adiada porque a reitoria não decidia se fechava o processo seriado apenas para a rede pública, ou mantinha aberto. O argumento usado é aquele já conhecido, porque os estudantes de colégios públicos nunca poderão competir de igual pra igual com um de colégio particular. Concordo. Nem todo o ensino público está na lama. Existem ainda escolas boas e professores competentes, e mais do que isso, um turbilhão de alunos interessados, competentes e cheios de força de vontade. Mas venhamos e convenhamos, o nível não é o mesmo. Exemplos não faltam de jovens perseverantes, que apesar das dificuldades estudaram, se dedicaram e chegarão lá, no sonho da universidade federal (equivalente adolescente ao sonho da casa própria). Mas ainda são exceções. Aulas muitas vezes improdutivas, muitos recessos, falta de estrutura e material, quadro de professores defasado pra listar os problemas mais recorrentes. No cursinho de revisão que estou fazendo na escola, que é aberto para alunos de outras escolas, uma menina comentou que em Física tinha aprendido só até Queda Livre, conteúdo que ano passado, se não me engano, vi em meados de abril.

Eu estudo na melhor escola da cidade. Numa sala bonitinha, com cadeiras acolchoadas, ar condicionado, sala com computador, projetor e professores que são mestres e doutores. À minha disposição, tenho também uma sala de estudos, plantões todas as tardes, aulas virtuais, e no site da escola posso ter acesso às provas antigas de todos os processos seletivos que eu escolher. Pra quem como eu, que tem a oportunidade de estudar lá, ou numa escola qualquer de qualidade, para conseguir uma vaga na universidade, basta querer. Depende só do aluno. E se o mundo fosse um lugar justo, o que não é mas realmente deveria ser, deveria depender única e exclusivamente do aluno em todos os casos.

Aí eu fico pensando que além de culpa, claro, de uma política que nunca prioriza a educação, o Brasil vive uma situação assim por causa da desigualdade tão falada por aí. E isso não é de hoje, nem de ontem, e nem de uns vinte anos atrás. São séculos que fizeram a gente chegar até aquii. Um sistema irracional, cujas circunstâncias foram favoráveis para mim e meus colegas de escola, e desfavoráveis pra esse monte de gente que não recebe a educação de qualidade que lhes é de direito. Direito deles, e meu também, porque teoricamente, meu pai não deveria gastar uma grana pra que eu estude numa boa escola, já que ele também gasta uma nota de imposto, o mesmo imposto que os pais dos alunos das escolas públicas pagam. E aí eu pergunto, eu sou mais especial que eles? Eu mereço mais? Não, claro que não! Me tira o sono essa história, de saber que tem gente de pés e mãos atados, com o futuro na mão de circunstâncias e mais circunstâncias infelizes, porque a regra que nos rege hoje, o que manda a mão invisível é que uns ganham e outros perdem, só que em proporções astronômicas.

Eu vejo gente que tá se esforçando ao máximo pra correr atrás do tempo e da matéria perdida, e o dia inteiro na escola o que mais vejo é gente que não está nem aí. Indo a Deus dará, deixa a vida me levar, com aquele discursinho de que "sou muito novo, não vou me desgastar com isso" ou "sei que não vou passar mesmo, melhor encarar o cursinho e o vestibular tradicional"e pior, "posso entrar numa particular sem precisar disso", e há quem nem pense nisso,quer mais é passar a tarde assistindo televisão. Eu não tenho nada a ver com isso, mas o que me deixa fula é pensar que tem tanta, tanta gente que daria tanto pra estar ali, e quem tem de mão beijada não dá valor. E que tem pais que, na falta de uma expressão equivalente, "work their ass off" pra dar o melhor pro filho, e ele, tchun, quer mais é ir pra micareta no final de semana.

E pensar que isso é a vida. Isso é como as coisas são. Eu não tenho estrutura psicológica pra viver. Pelo menos não nesse mundo.

* PAAES é domingo. Pensar nisso semana passada me dava ânsia de vomito, literalmente, mas agora, estou tão acabada e cheia de estudar em jornada tripla que quero mais é que acabe logo. Aí pra não surtar ocupo meu tempo com essas coisas deprês que escrevi.




segunda-feira, 15 de março de 2010

"If a body meets a body coming through the rye..."

"Pra você, o melhor livro que eu já li.", foi o que disse meu primo Pedro há uns três anos atrás, quando me entregava, embrulhado no papel prateado da Fnac, meu presente de Natal: um exemplar d'O Apanhador no Campo de Centeio. Eu tinha de doze para treze anos, e me pus logo a lê-lo, aquele livro bonito de capa cinza com o título em amarelo. E quando terminei, me perguntava se meu primo não havia se enganado ou algo assim. Como aquele diário de um adolescente revoltado poderia ser o melhor livro que ele já leu? Logo ele, sempre minha fonte de livros, filmes e músicas incríveis, como poderia me desapontar tanto assim?

Revoltada, pus de lado. Quando ele veio saber o que eu tinha achado do livro, murmurei um "legal" sem vontade.

Aos 14 resolvi dar outra chance a obra. Se era o livro favorito-de-todos-os-tempos do garoto que tem um dos melhores (e mais parecido com o meu) gostos do mundo, e é cultuado mundo a fora por leitores ávidos, inspiração pra tantos escritores, iluminação juvenil de muitos intelectuais, não poderia ser um mero blablabla de um garoto problemático. A problemática deveria ser eu. Dê-me a mão, Holden, vou te dar outra chance.

Gostei, gostei mais. O livro "conversou" mais comigo do que da outra vez, talvez fossem necessários uns anos a mais de vida, umas neuras na cabeça, confusões e perda da inocência de que o mundo é perfeito. Que livro bom, que livro profundo mas que se faz de simplório e raso, que final triste e que aperto no coração!

E por fora o livro parece falar mesmo somente de um relato de alguns dias que um garoto problemático, Holden Caulfield, passa parambulando pela cidade de Nova York depois de ter saído mais cedo da escola que acabava de expulsá-lo. Ninguém sabia que ele estava ali, e ele não sabia ao certo o que de fato fazia ali. Sentia raiva de todas as pessoas, achava-as hipócritas, e se incomodava diante das menores atitudes. E ao mesmo tempo sentia uma solidão pungente, que ele não percebia, que o fazia querer a companhia de qualquer um. O pianista que se achava, a garota insuportável que ele saía vez ou outra, o espinhento Ackler, a prostituta adolescente... Holden se sente um lixo, e ao mesmo tempo não quer mudar, não liga para nada, bebe e fuma como um condenado, "just to the hell of it", como ele repete incessantemente.

No último mês, com a nem-tão-recente morte de J.D.Salinger, o homem que concebeu a história, resolvi ler o livro novamente, porque eu acho que quanto mais se lê um bom livro, mais coisa boa se tira dele. Dessa vez resolvi ler o original, em inglês. É o primeiro livro "de verdade" (fanfics de Harry Potter não contam) em inglês que li, porque essa é uma das minhas resoluções de ano novo, e achei a experiência deveras interessante. Dá pra sentir mais o Holden em sua língua original, o excesso de gírias, todos os "phonies" que ele usa para descrever todos que passam pelo seu caminho, isso fica mais palpável. E nos deixa envolver bem mais, e sentir muito mais do que ele é.

Eu nunca tinha reparo no lado sensível de Holden, e nessa terceira leitura, o que mais me tocou foi exatamente essa face dele. A admiração profunda pelos irmãos, o amor e a saudade que ele sente de Allie, o irmão que morreu de leucemia, e como ele sente inferior a ele (e a todos de sua família). A confiança quase total dedicada a irmã de pouco mais de sete anos, a pequena Phoebe, a única que ele confia o segredo de que está na cidade. Como ele a acha muito melhor que ele, e como ela sofre diante dos fracassos do irmão, um garoto quase homem tão vivido, tão independente, e que no fundo só queria estar num campo de centeio, apanhando as crianças na beirada, porque na verdade, ele só queria que alguém o pegasse também.



sexta-feira, 12 de março de 2010

Guerra aos Na'vi.

Domingo passado eu assisti ao Oscar inteiro pela primeira vez na vida. Desde o countdown cheio de encheção de linguiça na E!, passando pelo red carpet (minha parte favorita) e a premiação em si. Perdi preciosas horas de sono ficando acordada até as 2h da manhã num domingo, sendo que eu teria aula e uma exaustiva tarde de estudos na segunda. Aguentei aquela premiação chata, toda a entrega de prêmios técnicos, e achei que valeu muito a pena. Valeu a pena só por ver a Kathryn Bigelow levar o Oscar por melhor direção e melhor filme com o seu "Guerra ao Terror". Sendo bem sincera, não assisti ao filme, e se for pra torcer por alguém, minha torcida mais efusiva é única e exclusivamente de Tarantino e seus bastardos inglórios.

Eu só não queria que "Avatar" ganhasse as duas estatuetas mais importantes.

Esse filme sim, assisti, logo quando estreiou, quando estava aquele buzz louco acerca do empreendimento milionário de James Cameron. Não é um filme ruim, não é mesmo. Os gráficos são fantásticos, como se alerdeou em todos os cantos, o filme de fato nos proporciona uma imersão muito grande no planeta Pandora. As cenas de vôo são de tirar o fôlego. Porém, o filme tem um grande problema: é chato. O roteiro é manjadíssimo, e assim que a história toma forma, você já sabe como ele vai terminar, e pode até prever os diálogos. Me desculpem, mas não é um monte de imagens incríveis que me prendem por quase três horas numa sala de cinema.

Cochilei, joguei sudoku no celular, me mexia pra cá, espreguiçava pra lá, comi quase dois pacotes inteiros de Halls, e o filme não acabava. Acho que tô ficando velha, porque minha tolerância para filmes grandes anda muito pequena. O filme tem que ter um roteiro muito incrível pra me fazer sair da sala de cinema depois de mais de duas horas sem ter me sentido enfadada vez ou outra. Um dos fatores que levo em consideração ao pensar se gostei ou não de um filme é quantas vezes eu olhei no relógio para ver quanto tempo faltava pra acabar. E acreditem, em "Avatar" isso aconteceu muitas, muitas vezes.

E dizem que nem sempre o Oscar vai para o melhor filme de fato. Tem que cair no gosto da Academia. Só que o prêmio ainda tem certa valia, um peso, um crédito. Eu sei que eu perderia minhas esperanças no futuro do cinema se um filme com roteiro fraco e batido levasse os dois prêmios mais importantes só porque foi feito com uma tecnologia revolucionária. Dizem que a tendência a partir de agora é fazer com que a interação espectador-película seja cada vez maior, que os filmes se tornem mais palpáveis. Olha minha cara de quem se importa. Acho que é por isso que eu tenho uma birra com 3D, uma certa relutância. Estão querendo reduzir os filmes a um apanhado de imagens incríveis.

As coisas tem ficado cada vez mais tácteis, mais mastigadas. Tem-se reduzido a quantidade de palavras e aumentado as gravuras, as fotos num jornal impresso nunca foram tão importante.s Não sou contra, mas não quero ver isso tomar conta. Me desculpe, Alice, mas pra mim não há graça nenhuma num livro só com ilustrações. Livros são de histórias, palavras que juntas formam frases que tecem amores, conflitos e dramas que nos acompanham e marcam pro resto da vida. E filmes são feitos de um roteiro bem pensado, bem sacado, bem executado, com diálogos marcantes - ou não. Pra não dizer que minha briga é com as imagens, peguemos como exemplo "2001 - Uma odisséia no espaço", um filme quase sem diálogos, com imagens e efeitos espetaculares. São quase 3h de filme e menos de 40min de falas. Mas o filme é genial. As imagens contam uma história, e a mensagem passada através daquilo é tão sublime, mas tão urgente e incrível!

Um filme independente bater o grande trunfo de um megalomaníaco é motivo de gravar o Oscar e assistir a premiação inteira novamente. Lembro uma vez que um professor de inglês disse que a principal coisa que um filme precisava para ser bom era uma boa produtora, porque filme sem orçamento milionário não decolava. Não me surpreende que ele tenha dito que o diretor não fazia tanta diferença. Eu acho que uma história bem pensada e bem executada é o mais importante. Quantos filmes low-budget que vemos por aí que são incríveis? "Guerra ao Terror" é um deles, porque para um filme de guerra, o orçamento foi baixíssimo.

Meu maior medo é que essa febre por 3D e gráficos faça com que as pessoas esqueçam do fundamento de um bom filme, e pensem que monstros coloridos e originais, e homenzinhos azuis com cabo USB embutido em alta resolução sejam tudo. Ainda que o cinema daqui esteja exibindo "Avatar" até hoje desde a estréia, em três salas, e filmes como "Guerra ao Terror", "Precious" e "Inglorious Bastards" tenham ficado em cartaz por uma semana, com dois ou três horários de exibição. É que eu já perdi a esperança no cinema daqui, mas ainda boto fé no bom senso da Academia.



segunda-feira, 8 de março de 2010

Do Sétimo Andar.

Ele seguiu seu caminho em uma direção, apressando o passo para poder revelar logo as fotos e ver surgir sob a atmosfera da luz vermelha as coisas bonitas que via. Enquanto isso, ela seguia na rua em caminho oposto, de volta à padaria, pois decidira que queria algo doce para curar-lhe as mágoas do amor platônico.

Pediu à atendente um sonho recheado de doce de leite. Oras, se não podia ter a quem queria, nem seu amor de padaria, que juntasse os dois numa coisa só: o sabor no doce de leite, e o sonho – que era ele – no sonho propriamente dito. Infame trocadilho. Voltou para casa devorando o quitute, sem perceber que tinha falsos bigodes brancos feitos com açúcar de confeiteiro grudado no doce, sem se importar com as gotas de recheio que caiam, e lambendo vorazmente os dedos, agora impregnados de gosto de sonho não realizado.

O dia era uma sexta, e já estava no fim da tarde quando ele enfim chegara em casa do trabalho. Sentia-se estranhamente empolgado, o coração disparado e um sentimento de alegria constante, como perfeitamente descrevera Eça de Queiroz: “como se houvesse entrado enfim numa existência superiormente interessante, em que cada hora tinha seu encanto diferente, cada passo conduzia-lhe a um êxtase e a alma encobria-se de um luxo radioso de sensações”. Era bem assim que se sentia. Que lhe perdoasse Luíza, mas tal sentimento não lhe era exclusivo, apesar de ser o frenesi da amante de Basílio que o português descrevera com precisão assustadora. Já ele? Ele? Quem era ele? Só um humilde fotógrafo que vivia sua vida registrando momentos que para sempre estariam gravados em papel especial após passar por um banho de revelador na sala de luz vermelha, onde naquele momento pendia no varal em que secavam as fotografias, mais de dez fotos em que a câmera foi apontada quase inteiramente para cima para captar o farfalhar dos cabelos da garota do sétimo andar, iluminados pela luz que a noite começava a mandar embora, a garota que ele observava do chão sempre que caminhava calmamente pela rua quando voltava do trabalho. Suas horas de encantos diferentes, na verdade, se resumiam aos meros minutos que duravam sua caminhada, quando ele sentia palpitar forte no coração a ansiedade para vê-la de novo. Seus passos, naquela fatídica sexta-feira, haviam lhe conduzido ao êxtase de poder enfim comprovar que a moça do sétimo andar de fato existia, que seus cabelos eram mais bonitos do que quando vistos ao longe, que tinha os modos engraçados e que gostava certamente de biscoito de maisena.

Abriu o pacote onde trouxera da padaria um sonho de doce de leite, junto com os pães de costume. Trouxe uma das fotos de seu laboratório de revelação e ficou ali para por fim entregar-se ao luxo radioso de sensações que sua alma era coberta no momento, que só amores jovens e doces de tardes de março trazem às pessoas. Reparou dessa vez que ela tinha sempre uma caneca verde nas mãos, que, apesar de não conseguir sentir o cheiro lá da rua, ele podia ter certeza absoluta que estava cheia de café quente. Um café a essa hora da tarde cairia bem, obrigada, uma pena que ele não aprendera a preparar antes de sair da casa da mãe. Ah, se a garota do sétimo andar soubesse que ali, a alguns quarteirões de distância de seu reduto havia ele, que, mesmo sem conhece-la tanto ansiava por sua companhia! Ele sabia que ela acharia graça da chuva de margaridas que ele vira na rua naquele dia mais cedo.

Percorreu o olhar pela parede onde pendurava seus trabalhos favoritos e concluiu, sem surpresa, que as fotos mais bonitas eram da garota do sétimo andar, a moça das listras azuis e da caneca verde, que com certeza continha café quente, que complementaria os pães, e lhe aqueceria o coração. “Ah, se ela soubesse, se fosse verdade...” foi o que lhe passou pela cabeça quando ele lambeu os dedos. Ao fundo podia-se ouvir o som da abertura da novela das seis.
(Fim. Por enquanto.)



sábado, 6 de março de 2010

Da minha recente vida tripla.

PAAES foi marcado pro dia 21 de março. Vocês tem idéia do que isso significa? (PAAES é um processo seriado da federal daqui, que eu deveria ter feito a primeira etapa no fim do ano passado, mas não o fiz por uma série de confusões, e a prova foi adiada pro começo desse ano) Significa que vida é uma lembrança distante, que eu já tive, lembro mais ou menos como era, mas não tenho mais. Tudo gira em torno disso. Desde os primeiros pensamentos quando eu acordo - planejando como organizarei os estudos do dia - até as conversas, porque parece que alguém da família todos os dias tem que fazer algum comentário a respeito, como se eu fosse me esquecer ou algo assim.

Começou a revisão na escola. Terça e quinta a noite tenho aula, e sábado de manhã também. Aulas corridas, para enxugar um ano de matéria em um mês. Volto com a mão, os dedos e o pulso completamente duros, porque faço anotações num ritmo frenético. Só assim que aprendo. Mas tem sido muito bom, cansativo, porém muito importante. Tem me deixado mais tranquila, sanado um pouco aquele pânico de ter esquecido tudo aquilo que aprendi no decorrer do ano passado. Matemática? Sinceramente, já entreguei nas mãos de Deus. Vou contar com o que sei de Geometria, logarítmos, leitura de gráficos e progressões numéricas. O resto é história.

A escola virou meu mundo praticamente. Tenho ido para lá a tarde também, para estudar. Minha escola tem um espaço muito bom de estudos, que tem sido melhor que em casa, onde eu tenho além do computador, todo o sono do mundo para me desviar do meu intento. Lá eu posso contar com vários livros, uma cabininha só pra mim, ar condicionado na medida, silêncio absoluto, e rendimento de vento em popa. Passo o dia lá e juro que não vejo o tempo passar, chego a levar susto quando o celular toca e é mamãe me avisando que está na porta me esperando. Eu gosto de estudar, me distraio, me interesso. O duro é começar. Largar o que estou fazendo, dizer não ao sono gostoso pós almoço, aos seriados que me esperam no computador, dos blogs que estou deixando de ler. Uma vez que eu estou lá, o que me resta é me afundar nos livros.

Tenho tentado não viver só disso. Um episódio de House antes de dormir, uma fugida pra comer pastel no meio da tarde. Ontem, mesmo tendo passado o dia inteiro na escola, arranjei forças do além para pegar uma sessão de cinema. Queria ver "Precious", mas acabei em "It's Complicated" e foi bem melhor, precisava relaxar. Saí para bater perna e fazer compras hoje, e amanhã tem o Oscar. Fazendo o possível para não me auto-sabotar com minha ansiedade, e até agora está funcionando bem.

Dia 21 está aí, e eu não sei se rio ou choro com isso. Choro de medo, de nervoso, e de frio no estômago, mas rio porque vou ter uma folguinha pra voltar pra minha rotina - que apesar de não ser mole, é razoável. Se eu demorar um pouquinho pra responder os comentários, portanto, estou desculpada?



quarta-feira, 3 de março de 2010

Com o coração. Ou não.

A partir de hoje fica aqui declarado que eu não assisto mais Big Brother. Essa edição, pelo menos, não tem mais vez comigo. Antes que torçam o nariz e venham me falar de cultura inútil, programa vazio, já me adianto que eu adoro um reality show. Um pouco de barraco e sub-celebridades nunca fez mal pra ninguém. Pouco me importo se é tudo manipulado pela Globo, não é como se fosse mudar minha vida ou algo assim. É um entretenimento, nada mais que isso. Esclarecida essa questão, voltemos à razão pela qual abdicarei do programa.

Eu pensei que a edição atual seria a melhor de todas, porque os participantes foram escolhidos a dedo. Poucas moscas mortas - que foram saindo logo no início do programa - e bastante gente sem medo de jogar e de chutar o pau da barraca. Ah, vã ilusão! Eu sou completamente a favor de jogo, afinal o programa nada mais é do que isso, e eu não acredito, não acredito mesmo que uma pessoa tenha a capacidade de entrar numa casa, onde é vigiado 24 hrs por dia, competindo com outras pessoas por um milhão e meio de reais, e ser ela mesma. Não dá, meus caros, é humanamente impossível. Ou você vai se retrair (o caso das samambaias - aqueles que entram mudos e saem calados), ou vai extravazar. Por isso que eu tenho vontade de jogar uma bomba na cabeça daqueles que dizem que estão sendo eles mesmos. Eles podem acreditar nisso, problema deles, mas que não fiquem repetindo isso a todo segundo. Outra coisa que me deixa louca da vida é a ladainha de agir com o coração. Concordo que a pessoa pode optar por não passar por cima dos seus princípios - isso é louvável - mas ficar falando que tá fazendo aquilo porque "o coração mandou, não importa se vai ou não me prejudicar no jogo" é história pra boi dormir. Não sei qual o problema as pessoas tem de assumir que estão cientes de que aquilo é uma competição. Como se fosse feio correr atrás do que quer - pra entrar numas de discurso de ex-BBB. Amigo(a), se você já se rebaixou ao ponto de entrar no BBB, não tem porque fazer pose de quem não está nem aí. E aqueles que dizem que o dinheiro ali não é o mais importante? Que o que vale é o auto-conhecimento, e a experiência adquirida? zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

Mas falemos dessa edição. A coisa já começou completamente errada quando tiraram Tessália, nossa querida Twittess, no terceiro paredão. Ela pode ser tudo, mas era uma jogadora excelente. Aquele não era o sonho da vida dela, ela tava afim única e exclusivamente do dinheiro, e não estava nem aí que os outros pensassem que ela estava jogando. Ela seria um elemento importantíssimo pra fazer o jogo rolar. Na casa, outras duas pessoas tem o perfil dela. Lia e Elenita. Lia é jo-ga-do-ra, assim, com todas as sílabas, tem uma visão de jogo muito boa, um poder de convencimento ímpar, mas tá do lado do coração. Faz tudo de caso pensando, manipula até dizer chega, e aí me vem com o discurso de "olha nos meus olhos", "eu acredito na minha verdade", "não sou pecinha de madeira" e acaba com tudo. Ela é insuportável, mas eu eu relevaria aquela sobrancelha tatuada se não fosse esse discurso. Já Elenita era diferente. Inteligente, autêntica, não tinha medo de dar a cara a tapa, mas não era fria e calculista que nem a Tessália. Perdoem o trocadilho, mas ela era quente e letrista, e não aceitava quieta que as pessoas naquela casa eram infinitamente mais toscas que ela. Não tinha estrutura psicológica pr'aquilo. Surtou, como bem vimos. E rodou.

A situação do ano passado se repetiu. Declararam um vencedor nas primeiras semanas, e agora a gente precisa engolir. Eu gostava do Max, e muito, mas concordo que ele foi declarado o vencedor logo no começo e todo mundo ficou cego pra todo o resto que ele fazia. Com Dourado foi assim. Era o mais odiado no começo, chorou, fez o jogo da vítima que o brasileiro tanto adora, e ganhou todo mundo. Até eu gostava dele. Só que ele ganhou o poder supremo, voltou de um paredão, se aliou à Lia e começou a escrotizar. Falava o que pensava, não fazia questão de ser legal. Parou de jogar com o público. Não acho que ele seja homofóbico - acho que o termo se banalizou tanto ultimamente que é difícil defini-lo - , acho-o ignorante. Muito. Não tenho PPV, posso estar errada, mas até agora o que eu vi foi um cara brutão, meio matuto, que não sabe direito o que fala dizendo besteira. Mas todo mundo tá suscetível a isso.

Mas minha torcida de verdade era pra Morango. Não é só porque ela é uberlandense, mas porque eu sempre gostei dela. Era uma das maiores partidárias do discurso do coração, mas ela dava a cara a tapa. Falava na cara, não ia na onda dos outros e não tinha medo de defender aquilo que achava certo. E foi fazendo isso que ela cavou sua cova, falou demais, perdeu a cabeça, e foi fofocar justo com o Dicésar. O que se sucedeu foram erros e mais erros, o quarto branco terminou de enterrá-la. Mesmo assim minha torcida ia pra ela, porque apesar do discursinho melodramático, ela era diferente dos outros que estavam ali. Depois que ela saiu, aquilo perdeu o sentido pra mim. Ainda restava o Michel, que é o tipo de cara que eu simpatizo logo de cara, porque eu adoro esse tipo loser-fofo. Perdeu ponto comigo quando comeu na mão da Tessália, mas voltou a ganhar quando resolveu enfrentar a Lia. Ele tava afim de jogo, e o Puxadinho não teria se ferrado tanto se tivessem resolvido assumir o jogo assim que ele se declarou. Mas todo mundo ouviu o coração, Michel viu que a dele não colou e aceitou, e quando eles acordaram era tarde demais. Deu no que deu.

Aí ontem a Cacau saiu e eu me perguntei se era só eu que estava assistindo ao programa. O romance dela com o Eliéser foi o mais fail de todos os tempos, mas ainda assim, ser eliminada pela LIA, a Lia que arranja briga pra tudo, a Lia que manipula a casa inteira, a Lia que faz tempestada em copo d'água o dia inteiro, a Lia que acha que tudo - absolutamente tudo - é uma ameaça contra ela, a Lia, uma das pessoas mais insuportáveis que já pisou naquela casa. Será que só eu vejo isso? Fato é que eu perdi a paciência. Se só eu estou vendo, eu paro de ver agora, porque eu simplesmente me recuso a ver Dourado, Fernanda, Cadu e Serginho (esse eu não tenho nada contra) como finalistas. E é isso que vai acontecer. Aguardem.