quarta-feira, 26 de maio de 2010

California, here we come

Aos 11 anos, a única coisa que fazia da vida além de ir para a escola, inglês e aulas de ballet e sapateado, era vagabundar. Seja na televisão, computador (era viciada em The Sims e fanfics de Harry Potter), livros da Meg Cabot, eu não fazia nada. Chegava em casa do colégio, fazia meus deveres de casa no menor tempo que era capaz, e ia para a televisão. Flintstones (que saudades da época dos desenhos clássicos no Boomerang!), Dr. 90210, Vale a Pena Ver de Novo, Gilmore Girls, The OC e Disk MTV. Mamãe trabalhava a tarde nessa época, única maneira dessa esbórnia televisiva acontecer sem maiores danos.

Acho que seria mais justo se, antes de nascermos, assistíssemos a uma palestra nos dando alguns pareceres sobre a vida na qual estaríamos prestes a entrar. Só assim poderíamos desfrutar integralmente dessa pouca idade, da pré-adolescência tão leve, maravilhosa e cheia de tosqueiras, sem querer o tempo todo crescer, o mais rápido possível. Quando é que eu conseguiria encaixar, na minha rotina atual de casa-escola-casa-escola-casa-escola-house-twitter-friends (porque eu também vivo), toda essa maratona de programas deliciosamente vazios? Ah, se eu ao menos soubesse...

Posso dizer sem medo de ser injusta que The OC é a séria da minha vida. A que mais me marcou, e olha que só se pode dizer isso uma vez na vida. Marcou porque ela me lembra dos meus 11, 12, 13 anos, em que tudo era tão simples e lindo, e que meu maior problema era não ter coragem de adicionar o menino que eu gostava no msn e que minha vida social era muito precária se comparada à das coleguinhas prafrentex da escola (opa, isso ainda acontece). Ao ouvir as primeiras notas da musiquinha tema, "we've been on the run, driving in the sun, looking up foir number one, California, here we come, right back where we started from...", mergulhava nos mares azuis de Orange County, com seus dias ensolarados e muitos problemas embaixo do tapete. Via a Marissa, a chata, com todos os seus infindáveis dramas pessoais e familiares; Ryan, o eterno salvador da pátria, carregando todo mundo nas costas e arrumando brigas ao final de cada festa; Summer, tão divertida e histérica, com sua madrasta viciada em Valium e os constantes "ew"; a incrível Anna, que eu me identificava tanto; Kirsten e Sandy Cohen, sempre com seus conflitos ideológicos; Julie Cooper-Nichol e os golpes do baú; e claro, last but not least, Seth Cohen, minha maior, mais intensa e nunca superada paixão platônica televisiva juvenil, com suas camisetas fofas, tiradas divertidas (que eu ainda sei de cor), gosto musical impecável - que era o meu na época - e amor incondicional pela Summer. Quero pra mim ainda. Nunca superei.

Mesmo não assistindo há um bom tempo, vejo referências a The OC em tudo quanto é lugar, até porque a série é responsável por enorme parte do meu gosto musical, tendo acrescentado muito à playlist de quase cem por cento de todos os espectadores. Não conheceria Death Cab For Cutie, Rooney, Jem, The Subways, The Walkmen, Nada Surf, The Killers e acho que toda raíz de indie-rock que eu só ouço até hoje, descoberta no site Music From The OC, que eu visitava assim que o episódio acabava. E ouvir essas músicas me remetem imediatamente ao cotidiano dos pobres meninos ricos de Orange County, afinal, que tipo de fã é capaz de ouvir "A Movie Script Ending" sem se lembrar da viagem pra Tijuana, "Champagne Supernova" e sorrir internamente lembrando do beijo de Homem Aranha, "If You Leave" sem se lembrar da Anna, e como não dizer, "Hallelujah" e sentir algo doído por dentro, depois daquele episódio que preferimos não lembrar.

Depois de muito tempo sem assistir, nas férias de janeiro um dia tive um surto The OC. Lembro que era um dia que mamãe tinha um jantar de aniversário de uma amiga e voltaria tarde, e eu não tinha nada para fazer, nenhum filme para ver. Fritei batatas e passei a noite reassistindo meus episódios favoritos, chorando horrores nas mesmas partes que eu sempre choro horrores, rindo das mesmas piadas e xingando as mesmas coisas (porque apesar de amar muito, não posso negar que The OC me faz umas raivas). Quando mamãe chegou, deu uma leve olhada para a tv, revirou os olhos, suspirou e disse, "O Seth voltou".

Eu sempre tento atrair as pessoas para o movimento The OC, mas sou sempre ignorada. Enfiei a primeira temporada goela abaixo do Matheus, que sempre dizia que achava um saco - sem ter assistido. Resultado? Viciou, e agora eu finalmente tenho alguém para comentar todos aqueles episódios tantas vezes visto. Essa semana, só porque me bateu uma enorme nostalgia, me peguei assistindo (online mesmo, já que os dvds estão emprestados) um dos meus episódios favoritos da primeira temporada, e estou decidida a acompanhar a segunda junto com Matheus. California here we come all over again. Alguém, por favor, avise minha mãe que o Seth voltou.




domingo, 23 de maio de 2010

Narcisos na mesa de centro

Acordei com a sensação de que todos os móveis do quarto pareciam vibrar no mesmo compasso acelerado que batia meu coração. Fechei os olhos novamente para aflorar as lembranças do sonho que tive. Estava num lugar incrível, ao meu redor só via um gramado verde sem fim, salpicado de árvores como nunca vi iguais, e o chão coberto por um tapete de narcisos amarelos. Ao longe, um homem encarava-me.

Meu estômago deu uma volta só de me lembrar do seu rosto ainda distante. Era ele. Dizem que os sonhos nunca se repetem, que isso é apenas uma ilusão causada pela perda da noção espaço-tempo ocorrida quando estamos inconscientes, mas meu diário não me deixava crer que aquilo era um artefato do meu cérebro para me confundir. Ele estava lá, como esteve nos meus outros sonhos daquela semana. Um homem alto, de cabelos castanhos, olhos doces e penetrantes, um sorriso muito tímido. Não era o homem mais bonito que eu já vira em toda a minha vida, mas certamente era o mais intrigante. Era inegavelmente atraente, e o que mais me chamava atenção era a maneira como me olhava, de um jeito que ia além, muito além dos meus olhos. Como se ele me conhecesse há muito tempo e simultaneamente tivesse algo que tentava descobrir.

Me acostumei à sua curiosa presença. Mais do que rotineira, suas aparições em meus sonhos eram prazeirosas. Passava meus dias na constante expectativa da hora de dormir, quando eu poderia deitar a cabeça no travesseiro e me encontrar com ele. Via-o sempre um tanto distante, mas com o passar dos dias, ele começou a chegar mais perto, as vezes tanto que se eu quisesse poderia roçar a mão em seu rosto, de tão próximo ao meu que ficava. Aquilo não poderia não ser real. Sentia-me como se houvesse saído de um casulo desde o de dia que ele pôs seus olhos nos meus, bem fundos, desvendando lá algo que nem eu mesma sabia o que era. Nossos encontros eram longos o suficiente para que eu conseguisse passar o resto do dia ainda sentindo-o ali comigo, e curtos o bastante para que nosso tempo juntos mais parecesse um mero piscar de olhos.

Naquela noite ele estava diferente. Por um segundo ele encarou o chão, e quando voltou seus olhos aos meus, aquelas bolotas flamejantes antes tão intensas me pareceram estranhamente vazias e... mortas. Ele sorriu, dessa vez um sorriso aberto, e pela primeira vez tomou minhas mãos nas suas. Apertou tanto que cheguei a pensar que ele queria transformar aquelas quatro em apenas duas. Me olhou profundamente, mais do que jamais havia olhado, e desapareceu num piscar de olhos. Acordei chorando.

Saí do quarto logo. Queria sentir que aquilo fora um sonho, queria não estar sentindo aquela pressão em minhas mãos. Ao entrar na sala percebi algo diferente. Na mesa de centro encontravam-se espalhados muitos narcisos amarelos. Coloquei-os num vaso ao lado da minha cama.

Não sonhei mais com ele, mas sentia-o ali ao acordar quando olhava para o vaso de narcisos, que nunca, nunca morreram.



quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mais um para a cúpula dos cachorros

Pode parecer estranho para a maioria, mas eu tenho um cachorro compartilhado. Tudo começou com mamãe e um amigo dela, que é nosso vizinho, querendo muito um cãozinho. Só que ele é médico e não pára em casa, e eu e mamãe também não paramos quietas. Foi unir o útil ao agradável. Em 2008 veio o Happy, o cachorro da raça dos meus sonhos, um pug gordo, enrugado, maluco, a coisa mais gostosa do mundo. E nosso esquema funciona muito bem, obrigada, até hoje. Ele, que é de uma raça muito carente, não fica sozinho, a gente não se cansa e nem se estressa hora nenhuma, e se divide até quando ele adoece (o que acontece muito, raça problemática) e necessita de cuidados durante a noite.

(divo)

Só que ultimamente ando lendo tantos casos de adoção de cachorrinhos, principalmente no Twitter, onde direto é anunciado um pobrezinho abandonado precisando de dono com urgência, que fiquei com a ideia na cabeça de adotar um cachorro. Mamãe a princípio ficou meio assim assim, porque uma coisa é quando você divide as responsabilidades de um bichinho com outra pessoa, outra totalmente diferente é quando ele fica com você 24hrs por dia. Havia o problema de ficarmos muito tempo fora, do Happy não se adaptar, de nós não nos adaptarmos... E o fato de que é raro encontrar cachorros pequenos para adoção. E já que moramos em apartamento, ser pequeno é uma exigência. O plano foi ficando para depois.

Até que na segunda-feira mamãe me liga contando que uma amiga dela ouviu dizer que um veterinário, dono de uma clínica, que tem o hábito de resgatar cãezinhos de rua, estava com um poodlezinho abandonado em casa e precisa muito arranjar um dono para ele, já que não estava dando conta de mantê-lo com seus outros milhões de cachorros. Era aquela coisa de agora ou nunca, e eu não pensei duas vezes em aceitar. Quando vi aquele carneirinho de orelhas muito peludas entrando aqui em casa, vi que tinha feito a escolha certa.

O nome? Foi um conflito interno para decidir. Já tinha ficado acordado entre eu e eu mesma que caso eu viesse a ter outro cachorro, ele levaria o nome de algum dos tantos caras que eu admiro. Queria homenagear um dos Beatles, mas John, Paul e George são muito clichês, e eu tenho lá minhas implicâncias com o Ringo. Tinha cogitado Cohen, em referência a Seth Cohen, minha nunca superada paixão platônica da pré-adolescência, mas acabei achando bobo. Aí tudo fez sentido. Nada de alusões à paixões passadas enquanto tenho uma bruta paixão - ainda adolescente - por outro alguém, cujo nome casaria perfeitamente com meus intentos. Que seja Chico. Buarque de Hollanda Ferreira Rocha caso venham questionar-me.

Estou encantada. Ele e Happy são bem diferentes. Happy é uma lerdeza só, e Chico é elétrico. Como já disse, parece um carneirinho. O que mais gosto é do fato de que dá para colocá-lo no colo, coisa que Happy não deixa de jeito maneira. Tem dormido a noite inteira, dado um certo trabalho na hora que saímos pela manhã, mas o veterinário disse que é coisa de três, quatro dias de adaptação. Não sou eu que passeio com ele, é ele que passeia comigo, quando sai correndo pela calçada me arrastando atrás, com o focinho grudado no chão feito o cachorro detetive de 101 Dálmatas.

Câmera estragada, vai webcam mesmo.

(a cúpula dos cachorros a qual me referi no título é o grupo de cachorros que tenho com meus amigos, meus representantes Happy e Chico, a Meg do Matheus, a Princesa da Naná, a Mel da Sofia, a Nina, a Pepita, a Pitucha e a Meg do Caio, a Jade da Rinna, e os cachorros bobos sem nome do Lucas)





sábado, 15 de maio de 2010

Quando a vida dói

"Meu caro amigo, eu até quis telefonar/mas a tarifa não tem graça/Eu ando aflito pra fazer você ficar/a par de tudo que se passa/Aqui na Terra 'tão jogando futebol/tem muito samba, muito choro e rock'n'roll/Uns dias chove, noutros dias bate sol/Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui tá preta/Muita careta pra engolir a transação/E a gente tá engolindo cada sapo no caminho/E a gente vai se amando que, também, sem um carinho/Ninguém segura esse rojão"

Fosse eu Chico Buarque escrevendo pra qualquer amigo distante sobre os últimos dias e não poderiam ser mais verdadeiras essas palavras acima. Como não sou, pego as dele emprestadas e conto pra vocês como andam as coisas do lado de cá. Queridos leitores, meu mar não está para peixe, muito menos pôneys (aquapôneys). Por aqui tem nadado só lontras, e as águas antes cristalinas nunca foram tão lamacentas. Eu precisava usar essa analogia, me desculpem. Uma zica sem precedentes caiu sobre mim e minha turma de amigos, e cada dia é uma nova coisa que acontece, e a gente se equilibra um no outro pra que ninguém caia e haja sempre ombro compreensivo para um eventual damage control.

E tem sido exatamente como o senhor Buarque tem descrito, tem dias que chove e é gente chorando para tudo quando é lado, mas tem os dias de sol que a gente cai gritando na piscina, joga água pra cima e se diverte com hidromassagem como se fosse coisa nunca experimentada antes. Literalmente. A gente passa dias pulando ao som de "Honey, Honey" ao mesmo tempo que escuta "The Winner Takes It All" e "Trocando Em Miúdos" sentindo uma verdade absurda em cada verso cantado. Essa semana em particular tá um frio danado e tem tempo que minha cabeça não dói tanto, mas a gente segura no abacaxi e pensa, e ri, e arranja tempo pra falar de todos os assuntos possíveis no meio de uma semana de entrega de trabalhos, porque se não fosse assim ninguém segura esse rojão. Ou os rojões.

Eu não teria segurado rojão algum e já estaria aqui, só no pó, certamente escrevendo coisas desanimadas, tristes e desconexas, pra ninguém entender nada. Mas tenho sido uma entusiasta da felicidade, porque a risada que se ri quando antes se queria chorar até secar é muito mais verdadeira e melhor. Tenho sim vontade de morder o pé da mesa vez ou outra, mas só ameaço enfiar a mão inteira dentro da boca durante a aula de Literatura e provocar algumas risadas, proferir o arrependimento perpétuo alheio e bora engolir mais sapo com muito samba e rock'n'roll.

A todos os meus amigos, obrigada aí por cada um de vocês que tem segurado essa barra comigo. Em especial, Matheus, Naná e Sori, porque sofrer junto é sofrer menos. Amo muito vocês.

(depois de um tempo esquecidos na gaveta, desenterrei meus óculos de Willy Wonka!)



terça-feira, 11 de maio de 2010

Crimes e Pecados

"Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas tem grande peso. A maioria delas não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fazemos, na verdade, somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com a nossa capacidade de amar, que atribuímos sentido a um Universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos tem a habilidade de continuar lutando e até de encontrar prazer nas coisas simples, como sua família, seu trabalho, na esperança de que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior."


É esse incrível monólogo que encerra "Crimes e Pecados", um dos últimos filmes que vi do Woody Allen, e um grande candidato aos meus favoritos, tanto do diretor, como em favoritos no geral. É um filme lindo! Nele, duas histórias são contadas: a de um médico bem-sucedido que vê toda sua estabilidade ser ameaçada por sua amante em crise, e a de um cineasta desconhecido, cujo casamento é um fracasso, assim como sua carreira. Judah, o médico, criado em uma família judaica, nunca aceitou os preceitos de sua religião, vivendo a margem dela, é confrontado com as opiniões mais expressivas de seu pai a respeito de moral, quando decide abraçar a visão pessimista e realista do irmão sobre um mundo preto-e-branco e contraditoriamente amoral. Já Cliff, o cineasta, decide ir contra tudo que sempre acreditara, os preceitos do tão cultuado por ele Prof. Louis Levy (autor do monólogo acima), para filmar um especial exaltando a "genialidade" do superficial e pedante Lester, outro cineasta - só que este bem-sucedido e rico.

"Crimes e Pecados" é um filme extremamente profundo, que nos conecta às angústias e emoções mais obscuras e escondidas de todos os personagens que nos são apresentados, todos eles em conflito com o que sempre acreditaram e novas realidades, novas visões, que vem a tona. O roteiro é impecável, e como se fosse novidade, Woody Allen arrebenta na direção nos trazendo cenas de tirar o fôlego e deixar sem de piscar; sobretudo na hora que mistura a realidade com as lembranças dos personagens, lindo, lindo!

Eu sou suspeita pra falar, porque sou apaixonada pelo trabalho do Woody Allen, os filmes dele produzem tal encantamento em mim que é capaz de eu ficar dias seguidos só pensando e falando deles sem parar. A verdade é que "Crimes e Pecados" nunca chamou tanto a minha atenção como outros títulos dele, e acho que não existe nada melhor do que se surpreender muito positivamente com um filme, ainda mais se o diretor já é alguém de muita estima. É um querido favorito, junto com "Annie Hall", "A Rosa Púrpura do Cairo" e "Vicky Cristina Barcelona", apesar de que este última parece-me muito mais um filme do Almodóvar do que do Woody Allen, mas enfim.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

Felicidade não tem de ser clandestina

Já me disseram que tenho um jeito um tanto pueril de enxergar o mundo, que as coisas se dão de uma maneira simples demais no universo ao meu redor. Concordo em partes. Desisti de tentar entender o mundo, essa grande incógnita que vivemos, simplesmente porque cheguei a conclusão que ele é todo errado. Do princípio ao fim. As coisas desandaram com a primeira pessoa que fez uma escolha errada, que desencadeou mais um tanto, e foram circunstâncias erradas gerando situações absurdas e cá estamos nós, (com o perdão da expressão) afundados na merda. Procurar uma lógica naquilo que é ilógico é tentar provas que dois mais dois é igual a cinco. Você pode fazer um monte de contas e realmente chegar a prová-lo, como já me fizeram, mas, pegando os princípios da didática mais infante, se você tem duas laranjas e ganhar mais duas, você sempre terá quatro laranjas. E ponto.

Dane-se se você queria cinco para fazer um bolo ou um suco mais consistente. Algumas coisas a gente tem que simplesmente aceitar que assim o são, senão enlouquecemos.

Sou a primeira a me levantar contra a alienação, àquelas pessoas que não enxergam nada além do seu próprio mundinho colorido, que aplaudem de pé enquanto lhes dão porrada por trás, só porque na sua frente estão uns trapezistas charmosos. A política do pão e circo tão conhecida. Um antigo professor de História, o melhor que já tive, é que adorava dizer o quão lamentável era a situação do povo miserável que enquanto ganhavam balinhas dos políticos sorriam e faziam-lhe muitas festas, esquecendo-se completamente de que aquelas balas seriam sua única refeição do dia. Concordo completamente. A gente tem que abraçar o mundo e enxergá-lo em sua totalidade, suas cores de Almodóvar e seus tons gris e não aceitar as coisas só porque alguém disse, como quando na Idade Média os servos aceitavam sua condição porque um senhor lhe dizia que era assim que o mundo funcionava.

Entretanto, sou obrigada a me levantar contra também àqueles que se condenam a uma auto-comiseração e auto-flagelação por conta de todos os males do mundo, e talvez também dos seus. As pessoas, todas, têm o direito de serem felizes.

E ser feliz não é dar risada quando se vê com aliança no dedo e logo depois observa o príncipe encantado sair galopando na garupa de outra ou, sendo mais radical, quando não se tem o que dar de comer pros seus filhos; ser feliz não é abraçar as filosofias de Poliana e procurar enxergar um lado bom nas maiores desgraças, porque existem coisas que simplesmente não têm lado bom. Para mim, ser feliz é, a princípio, se dar a chance de ser feliz. É borrar o rímel chorando por conta de um garoto idiota, mas depois comer brigadeiro com as amigas falando mal de todos os homens do mundo dando muita risada, é se alegrar diante dos primeiros passos do seu filho e ficar feliz porque naquele dia se conseguiu trazer algo melhor à mesa ou simplesmente porque você apontou para a primeira estrela no céu e não surgiu verruga alguma em seu dedo.

Mesmo aqueles que não são acometidos por tantos revezes podem dizer que é egoísmo ser feliz enquando existe um sem número de pessoas sendo maltratadas pela vida ou ainda sabendo que o mundo é todo errado e incoerente, viver e não ter a vergonha de ser feliz sem ao menos se questionar ou contestar sobre o que tudo aquilo é ou deixa de ser. Já adianto a resposta, ser assim, escolher viver assim, é escolher passar a vida querendo respostas para um problema que não tem solução. E não há nada, absolutamente nada que a gente possa fazer. Se condenar a um questionamento eterno faz com que nossa cabeça dê um nó impossível de ser desfeito, e vocês podem ver que fim tiveram os grandes contestadores. Deprimidos, desiludidos, infelizes. Não estou de forma alguma desprezando o pensar, o questionar, o procurar respostas, já disse aqui o quando o eu gosto de Filosofia, o tempo que eu perco pensando em coisas sem explicação; mas há um limite para tudo nessa vida. Tem horas que a gente tem que parar porque, é clichê mas, pensar enlouquece. E entristece.

Se for chamar de ilusão, de inocência exacerbada, até mesmo de alienação, para os mais radicais, essa minha postura diante da vida, que chamem, não me importo. Prefiro ser assim do que me condenar a um sofrimento sem fim. Não adianta servirem-se de ditos como "é melhor amargar uma verdade do que se deliciar com uma mentira", porque não é mentira isso que eu vivo. Sou plenamente ciente do Universo ao meu redor, assim em maiúsculo pra diferenciar do primeiro parágrafo, agora falo desse Universo enorme que não se entende e não se tem controle. Só aceitei que as coisas são como são, e que tudo está errado e que não cabe a mim mudar aquilo que só poderia mudar se fosse desfeito e refeito por perfeitas mãos; posso e devo dar o máximo de mim para, ao meu alcance, tentar mudar, mas o mundo não vai ganhar nada comigo me entregando a um eterno sofrer diante do que é preto no branco.

Sei bem também que quem assim o é, ou seja, infeliz, não é por razão própria. Não é diante desses que me oponho. Sou contra quem se recusa a ser feliz. Tenho visto muito House nesses dias (meu novo vício e paixão) e no personagem principal da série vejo muito dessa postura. Ele cria contínuos obstáculos para separar a si mesmo da felicidade, porque acha os felizes estúpidos, simples demais, ignorantinhos demais. Do que me adianta ser toda entendida das coisas se no final da história eu vou estar sempre, sempre infeliz?

Escolho então enxergar alegria plena numa tarde passada na varanda da casa de algum amigo, tomando Coca Cola e dando risada, ou então ficar até altas horas em dia de semana assistindo House só porque o episódio está bom demais para deixar no meio, e fazer de um domingo a noite festa por conta de um macarrão com atum improvisado junto ao meu pai no fogão, e fugir no meio da tarde para tomar café num lugar charmoso com minha mãe, jogar conversa fora na mesa da cozinha com minha avó, e sentar no colo do meu avô, mesmo já sendo alguns centímetros maior que ele, e ouvi-lo contar pela milésima vez seus casos da Bahia. Já dizia uma personagem que eu muito aprecio e me inspiro sempre, Claire Colburn, em palavras semelhantes a estas, que a verdadeira grandeza consiste em levar muita porrada da vida e continuar de pé, para que os outros se perguntem porque eu continuo sorrindo.

Já me perguntaram no Formspring, que conselho eu daria para qualquer pessoa que aparecesse, que eu julgasse uma das coisas de mor importância para se levar pra vida. Excluí a pergunta, porque não sabia como responder, mas agora posso fazer uma resposta atrasada. Não aconselharia, repassaria um conselho que já foi dito e até musicado há alguns anos atrás: é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe.


Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não



segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coisa que só tem em estreia

Meus pais me olharam como se eu fosse um extraterrestre quando, ano passado, eu saí de casa as 11h da manhã pra assistir Harry Potter e o Enigma do Príncipe, numa sessão que começava as 15h. Não entendiam o motivo de eu ter almoçado sentada no chão do shopping, e passado umas duas horas na fila, e outras duas dentro da sala esperando o filme. Sexta retrasada eu cheguei da escola, almocei correndo e fui pro shopping ver Alice na estreia. "Mas Anna, esse filme não vai estar passando amanhã, ou semana que vem? Tem que ir hoje?" Tem, pai, tem que ser hoje sim, apesar de o filme ser o mesmo amanhã, e no fim de semana que vem, existem coisas que só acontecem numa estreia.

Contei um pouco das pérolas do dia da estreia d'O Enigma do Príncipe, mas não sei se adicionei que meu primo de São Paulo disse que esse virá para cá para assistir As Relíquias da Morte só porque pra ele, ver o Matheus, meu amigo, pulando enlouquecidamente quando o logo da Warner começou a aparecer na tela, foi uma riquíssima experiência antropológica. E tem os caras que sempre se vestem com o uniforme de Hogwarts, e os que vão pra frente do telão, antes do filme começar, pra pedir que não haja algazarra quando começar, já que depois de dois anos sem magia no cinema (sic) a gente tinha que aproveitar bastante.

No dia de Alice aconteceu uma coisa mais inusitada. O pessoal do cinema liberou a sala meia hora antes do filme começar, o que foi muito bom já que eu estava com metade da minha sala, fora os agregados que foram chegando depois que estávamos na sala e que precisavam ser acomodados. No fim, enchemos duas fileiras de pessoas. Quando inalmente consegui sentar e sossegar, sem ter que me preocupar com vigiar lugar, levar ingresso, comprar pipoca, comecei a ouvir um rebuliço na fileira de trás.

Aliás, eu nem deveria ter me espantado com essa agitação, já que a sala estava uma bagunça completa. A sessão era, em sua maioria, composta por neo-emos de cabelo e calças coloridas que ficavam tirando fotos, um pessoal do fã clube oficial de Twilight em Uberlândia (sim, isso existe), umas crianças em bando acompanhadas por uma mãe Madre-Tereza (uma santa, afinal, que tipo de pessoa topa levar uma cambada de crianças numa estreia de filme super esperado?), e a gente, que não posso salvar do grupo dos descompensados e barulhentos.

O que me chamou atenção na fileira de trás, primeiro foi um menino pedindo para que uma garota pegasse a cartola dela e fosse tirar foto. A Menina da Cartola já tinha me chamado atenção antes, já que ela andava pra lá e pra cá na ante-sala do cinema com uma cartola feita por ela mesma, numa tentiva frustrada de imitar a do Chapeleiro. Era uma das coisas mais mal feitas que eu já tinha visto, acho que eu não teria feito pior. Era de cartolina, com uns rabiscos e papéis colados com uma cola vagabunda, já que eles já estavam despregando. Quando ela chegou junto ao pessoal, rolou todo um falatório a respeito de como a cartola dela era legal e que eles estavam morrendo de inveja. Eles se amontoaram e logo eu ouvi "ei, alguém da fileira de baixo, bate a foto aí pra gente".

Eu nem me mexi. Que me desculpem as boas almas solidárias e animadas, mas eu tenho lá meus ais de rabujice, e não ia mesmo me movimentar, logo quando eu havia acabado de sentar, depois de disputar o meu lugar e vigiar o dos outros (em dia de estreia movimentada só não vale matar e roubar, o resto, dedo no olho, mordida e puxão de cabelo, vale tudo por um lugar ao sol). Sem contar o fato de que eu tenho aquela fobia de altura e lugares íngremes e um certo trauma de cinema - uma vez que eu já caí da escada mais de duas vezes. Não estava afim de ficar em pé e ter que me inclinar para trás para tirar aquela foto. Não, obrigada.

O garoto chamou umas três vezes, até que eu senti alguém cutucar o meu ombro. "Hey girl, tira uma foto pra gente?", disse um garoto que, quando virei-me para trás, balançou a cabecinha de um jeito que nem Regina George faria melhor. Como negar um pedido de um garoto que apreciava uma cartola feita de cartolina, usava a camiseta do fã clube oficial Twilight e ainda mexia a cabecinha e me chamou dizendo "hey girl"? Levantei sorrindo (não) esperei que eles fizessem pose e XIS. A foto ficou uma porcaria. Eles estavam em umas 15 pessoas, ou seja, só dava pra enquadrar todo mundo se eu estivesse a pelo menos dois metros de distância, coisa impossível entre duas fileiras de cinema. Só se eu fosse muito ninja e desse aquela inclinada para trás, uma coisa meio matrix. Olha minha cara de quem faz isso.

Eles olharam a foto, deram aquele sorrisinho amarelo, e pediram pra outra menina fazê-lo. A outra menina é da minha sala, minha amiga Valéria. Nem cinco minutos depois da foto, ela e Caio, outro amigo meu, estavam num papo animadíssimo com todo o fã clube Twilight, numa cumplicidade que eu já sentia que não podia estar correta, uma vez que a integridade desses dois a gente sempre questiona. As luzes foram se apagando e eles cochichavam. Lá vinha bomba. "Quando eu disser três...", foram as últimas palavras de Caio. As luzes se apagaram por completo. "Um... dois... três..." "SEEEEEEEEEEXOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

E meu pai ainda pergunta por que eu gosto tanto de estreias.