Já me disseram que tenho um jeito um tanto pueril de enxergar o mundo, que as coisas se dão de uma maneira simples demais no universo ao meu redor. Concordo em partes. Desisti de tentar entender o mundo, essa grande incógnita que vivemos, simplesmente porque cheguei a conclusão que ele é todo errado. Do princípio ao fim. As coisas desandaram com a primeira pessoa que fez uma escolha errada, que desencadeou mais um tanto, e foram circunstâncias erradas gerando situações absurdas e cá estamos nós, (com o perdão da expressão) afundados na merda. Procurar uma lógica naquilo que é ilógico é tentar provas que dois mais dois é igual a cinco. Você pode fazer um monte de contas e realmente chegar a prová-lo, como já me fizeram, mas, pegando os princípios da didática mais infante, se você tem duas laranjas e ganhar mais duas, você sempre terá quatro laranjas. E ponto.
Dane-se se você queria cinco para fazer um bolo ou um suco mais consistente. Algumas coisas a gente tem que simplesmente aceitar que assim o são, senão enlouquecemos.
Sou a primeira a me levantar contra a alienação, àquelas pessoas que não enxergam nada além do seu próprio mundinho colorido, que aplaudem de pé enquanto lhes dão porrada por trás, só porque na sua frente estão uns trapezistas charmosos. A política do pão e circo tão conhecida. Um antigo professor de História, o melhor que já tive, é que adorava dizer o quão lamentável era a situação do povo miserável que enquanto ganhavam balinhas dos políticos sorriam e faziam-lhe muitas festas, esquecendo-se completamente de que aquelas balas seriam sua única refeição do dia. Concordo completamente. A gente tem que abraçar o mundo e enxergá-lo em sua totalidade, suas cores de Almodóvar e seus tons gris e não aceitar as coisas só porque alguém disse, como quando na Idade Média os servos aceitavam sua condição porque um senhor lhe dizia que era assim que o mundo funcionava.
Entretanto, sou obrigada a me levantar contra também àqueles que se condenam a uma auto-comiseração e auto-flagelação por conta de todos os males do mundo, e talvez também dos seus. As pessoas, todas, têm o direito de serem felizes.
E ser feliz não é dar risada quando se vê com aliança no dedo e logo depois observa o príncipe encantado sair galopando na garupa de outra ou, sendo mais radical, quando não se tem o que dar de comer pros seus filhos; ser feliz não é abraçar as filosofias de Poliana e procurar enxergar um lado bom nas maiores desgraças, porque existem coisas que simplesmente não têm lado bom. Para mim, ser feliz é, a princípio, se dar a chance de ser feliz. É borrar o rímel chorando por conta de um garoto idiota, mas depois comer brigadeiro com as amigas falando mal de todos os homens do mundo dando muita risada, é se alegrar diante dos primeiros passos do seu filho e ficar feliz porque naquele dia se conseguiu trazer algo melhor à mesa ou simplesmente porque você apontou para a primeira estrela no céu e não surgiu verruga alguma em seu dedo.
Mesmo aqueles que não são acometidos por tantos revezes podem dizer que é egoísmo ser feliz enquando existe um sem número de pessoas sendo maltratadas pela vida ou ainda sabendo que o mundo é todo errado e incoerente,
viver e não ter a vergonha de ser feliz sem ao menos se questionar ou contestar sobre o que tudo aquilo é ou deixa de ser. Já adianto a resposta, ser assim, escolher viver assim, é escolher passar a vida querendo respostas para um problema que não tem solução. E não há nada, absolutamente nada que a gente possa fazer. Se condenar a um questionamento eterno faz com que nossa cabeça dê um nó impossível de ser desfeito, e vocês podem ver que fim tiveram os grandes contestadores. Deprimidos, desiludidos, infelizes. Não estou de forma alguma desprezando o pensar, o questionar, o procurar respostas, já disse aqui o quando o eu gosto de Filosofia, o tempo que eu perco pensando em coisas sem explicação; mas há um limite para tudo nessa vida. Tem horas que a gente tem que parar porque, é clichê mas, pensar enlouquece. E entristece.
Se for chamar de ilusão, de inocência exacerbada, até mesmo de alienação, para os mais radicais, essa minha postura diante da vida, que chamem, não me importo. Prefiro ser assim do que me condenar a um sofrimento sem fim. Não adianta servirem-se de ditos como "é
melhor amargar uma verdade do que se deliciar com uma mentira", porque não é mentira isso que eu vivo. Sou plenamente ciente do Universo ao meu redor, assim em maiúsculo pra diferenciar do primeiro parágrafo, agora falo desse Universo enorme que não se entende e não se tem controle. Só aceitei que as coisas são como são, e que tudo está errado e que não cabe a mim mudar aquilo que só poderia mudar se fosse desfeito e refeito por perfeitas mãos; posso e devo dar o máximo de mim para, ao meu alcance, tentar mudar, mas o mundo não vai ganhar nada comigo me entregando a um eterno sofrer diante do que é preto no branco.
Sei bem também que quem assim o é, ou seja, infeliz, não é por razão própria. Não é diante desses que me oponho. Sou contra quem se recusa a ser feliz. Tenho visto muito House nesses dias (meu novo vício e paixão) e no personagem principal da série vejo muito dessa postura. Ele cria contínuos obstáculos para separar a si mesmo da felicidade, porque acha os felizes estúpidos, simples demais, ignorantinhos demais. Do que me adianta ser toda entendida das coisas se no final da história eu vou estar sempre, sempre infeliz?
Escolho então enxergar alegria plena numa tarde passada na varanda da casa de algum amigo, tomando Coca Cola e dando risada, ou então ficar até altas horas em dia de semana assistindo House só porque o episódio está bom demais para deixar no meio, e fazer de um domingo a noite festa por conta de um macarrão com atum improvisado junto ao meu pai no fogão, e fugir no meio da tarde para tomar café num lugar charmoso com minha mãe, jogar conversa fora na mesa da cozinha com minha avó, e sentar no colo do meu avô, mesmo já sendo alguns centímetros maior que ele, e ouvi-lo contar pela milésima vez seus casos da Bahia. Já dizia uma personagem que eu muito aprecio e me inspiro sempre, Claire Colburn, em palavras semelhantes a estas, que a verdadeira grandeza consiste em levar muita porrada da vida e continuar de pé, para que os outros se perguntem porque eu continuo sorrindo.
Já me perguntaram no Formspring, que conselho eu daria para qualquer pessoa que aparecesse, que eu julgasse uma das coisas de mor importância para se levar pra vida. Excluí a pergunta, porque não sabia como responder, mas agora posso fazer uma resposta atrasada. Não aconselharia, repassaria um conselho que já foi dito e até musicado há alguns anos atrás:
é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe.
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não