terça-feira, 31 de agosto de 2010

#BlogDay 2010

Blog Day 2010

Confesso que foi com muito custo que decidi participar do #blogday esse ano. O motivo principal foi a preguiça, como vocês já devem ter imaginado. Sempre ela! Na verdade, eu nunca fui muito boa com listas e indicações, vocês sabem bem meu problema em me decidir por um número determinado de ítens, sejam eles filmes, frutas da estação e blogs queridos. Mas como esse blog já não tem tradição alguma, resolvi não deixar essa chance de fazer parte do movimento escapar. A lista, claro, foi feita "do meu jeitinho", com 7 ítens, só para não perder o charme.

Championship Vinyl: Clicando em links aleatórios em algum ponto entre o fim do ano passado e início deste topei com o blog do Rob e fiquei fã, tanto dos textos como desse cara, em poucos posts. Apesar dele frisar com frequência de que é baixinho, barbudo e careca, lendo os textos é impossível não pensar que ele é o próprio Rob Gordon de Alta Fidelidade. Rob escreve sobre seu cotidiano, as pessoas bizarras que passam por seu caminho com exagerada frequência, as hilárias e apaixonantes histórias de Besta-Fera, seu cachorro, e claro, os episódios com a Síndica do prédio. Já fui às lágrimas várias vezes com o Championship Vinyl, seja de tanto rir, ou pela carga emocional fortíssima de alguns textos.

Sobre Fatalismos: Nina é a escritora que eu quero ser quando crescer. Leio as maravilhosas crônicas dessa garota que insiste em se dizer amadora e não acredito que ela seja só dois anos mais velhas do que eu. Compartilhamos um monte de preferências, tantas que acho que não saberia listar, Jane Austen, História, Antonio Prata, Chico Buarque, o Caetano que eu comecei a ouvir com mais atenção de tanto lê-la falar sobre ele... Nina posta textos fictícios e também pautados na realidade, mas são todos tão lindos, cheios de poesia, que é difícil distinguir o que realmente aconteceu, o que é imaginação, e o que é trecho de música ou livro, que ela sabe inserir tão bem no meio de seus escritos.

Lonesome Pumpkin: Não sei quando topei com o blog da Rê por aí, só sei que é uma das leituras mais divertidas e interessantes que tenho no meu blogroll. A Rê tem um estilo muito seu de escrever e contar as coisas que soa engraçado mesmo quando o assunto é sério. Compartilho muito de sua visão sobre o mundo, concordo demais com muitas coisas que ela diz, o que faz dela além de uma inspiração, uma grande querida. Ela faz parte do meu time das que adoram posts enormes e garanto que você vai se assustar ao ver que acabou de ler, sei lá, dez parágrafos enormes, porque a leitura é tão cativante e divertida que as muitas linhas passam despercebidas.

Dois Ponto Um: A Luiza é um prodígio! Mantém blog há muito tempo, já foi do Grupo de Apoio da Folha Teen, da Galera Capricho, publicou várias matérias, ganhou prêmios com uma monografia e tem só 21 anos completos há pouco tempo. Ela escreve sobre seu cotidiano, vida na faculdade, aleatoriedades, conta histórias de suas viagens, fotos, fala de música e filmes e além disso está comigo no lado Audrey Hepburn maníaco da Força e também é uma assídua paciente daquele famoso médico, o Dr. Google!

Você De Novo Não!: O Gustavo é um conterrâneo meu (aliás, abro esse espaço para parabenizar a terra gentil que seduz em que eu moro, que faz aniversário hoje!) que em seu blog compartilha seu olhar acerca da sociedade dessa curiosa cidade em que vivemos. Talvez os uberlandenses se identifiquem mais com os exemplos, mas é impossível não sair de lá sem dar muitas risadas e reconhecer nos "personagens" dos textos alguns elementos com os quais você é obrigado a conviver.

And Make Me Smile: Acompanho a Luh desde a época de suas pelejas de vestibulanda, e hoje fico bem feliz em ler sobre os detalhes de seu tão sonhado curso de Jornalismo na UFSC e principalmente as palestras mega legais que ela assiste por lá! Além disso a Luh escreve sobre livros, viagens e filmes pelos quais adquire uma leve obsessão, como The Graduate, haha. Acho que foi de tanto acompanhá-la que tive a certeza que minha experiência de vida não será completa enquanto não tiver experimentado Guaraná Jesus!

Maçãs Verdes: Outra blogueira querida que eu acompanho desde a época em que vivia a atribulada rotina de vestibulanda e que agora é uma estudante de Jornalismo, Amandoca sempre me divertiu com seus textos hilários, sua falta de papas na língua para falar sobre as coisas e pessoas que a incomodam, seus posts completamente apaixonados que até me fazem acreditar num felizes para sempre. Também sempre pude contar com comentários cheios de graça e animação aqui no blog, e conversas divertidíssimas no MSN.



domingo, 29 de agosto de 2010

Sonho dentro do sonho

Este post não contém spoilers

Já faz tempo que ouvi falar sobre a Origem pela primeira vez, se não me engano quando saiu o primeiro cartaz, com a cidade toda virada. Fiquei intrigada, e fui simpática àquela ideia desde o início, mesmo sabendo muito pouco do que se tratava. Quando vi o trailer, tive mais certeza ainda que seria um filme bem bacana. Entratanto, quando filme foi lançado, passei a ficar dividida. Li críticas que o cobriam de elogios, mas também li algumas bastante rígidas. Entre amigos, tive aqueles que amaram, e os que odiaram. Essa divisão de opiniões fez com que eu entrasse no cinema de forma imparcial. Sabia que poderia estar prestes a assistir um filme bem bacana, mas sabia que poderia também ser um fiasco.

Quando o filme acabou tive a sensação de que tinha sido chutada para fora de uma realidade completamente diferente. Como se estivesse saindo de um sonho. O filme me envolveu de tal forma que enquanto assistia eu estava totalmente entregue à ele, como se não existisse mais nada além daquele mundo cheio de níveis, subconscientes, projeções e cidades que começam a se dobrar. Acho que isso se deve ao fato de que por ficar com medo de perder os pequenos detalhes num filme onde eles contam muito, me concentrei tanto que foi como se estivesse numa outra realidade. E acho que essa entrega é essencial para que se aprecie o filme como se deve.

É evidente que gostei bastante. Saí da sala olhando para os lados, reparando em todos ao meu redor, seriam aquelas pessoas projeções do meu próprio subsconsciente? O mundo de sonhos de Christopher Nolan não apresenta pontos sem nós, a princípio foi essa a impressão que tive. Um roteiro bem amarrado, e as peças do quebra-cabeça vão se encaixando a medida que a história se desenvolve. Como já foi dito por aí, acho também que ele saiu pouco da zona de conforto, explorou pouco o nonsense caótico que é o mundo de sonhos, como já vimos David Lynch fazer de forma brilhante em Cidade dos Sonhos, mas o fato de o filme não se embrenhar tanto nas esquinas escuras da nossa cabeça não faz com que ele fique entediante.

Um monte de gente não vai entender, a crítica não abraçou por ser pouco ousado, os cultzinhos vão dizer que é pretencioso porque não é do David Lynch, e vai ter gente que vai curtir a experiência, como eu.

O cinema por sí só para mim pode ser visto como uma espécie de sonho. Mencionei num post antiquíssimo que para apreciar um filme você deve se entregar cem por cento a ele, mergulhar na história e aceitar o que lhe é apresentado. Com Inception não é diferente, o que muda é que além de mergulhar no sonho do filme, haverão sonhos dentro de sonhos para serem descobertos.

Sempre bom te ver, Joseph Gordon-Levitt!



sábado, 28 de agosto de 2010

Jon Foreman me entenderia

Eu não quero mudar o mundo
E eu não quero ser alguém
E eu não quero escrever o livro
- Eu farei o filme

Porque não sou eu
Eu sou como qualquer um (eu sou como qualquer um)
Eu sou como qualquer um
Switchfoot - "Chem 6A"


Já ouvi de professores que a maioria das coisas que aprendemos no Ensino Médio não tem utilidade prática alguma nas nossas vidas depois disso. Um deles, que me deu aula de Matemática no ano passado, dizia enquanto explicava algum conteúdo que estávamos aprendendo aquilo para que se um dia, por acaso, alguém nos parasse na rua e perguntasse a forma do gráfico de uma função afim, saberíamos responder.

Isso que me faz ter uma vontade genuína de parar de estudar. Logo eu, que sempre fui tão partidária da filosofia de que é a educação que vai mudar o mundo. Até então eu sempre havia sido uma pessoa que gostava realmente de estudar, podia até ter uma preguiça antes de começar, mas depois de já sentada em frente aos livros eu nem via o tempo passar. Repetindo e frisando: até então.

Tudo por conta dessa coisa abominável chamada vestibular. Esse sistema idiota de ingresso nas universidades. Não existe nada mais terrível do que você ser obrigada a dedicar quase 12 horas do seu dia a uma prova que não faz o menor sentido, que só encherá sua cabeça de conteúdos e mais conteúdos vazios, que você aprenderá de forma mecânica para no dia seguinte à tão esperada e temida prova, esquecer tudo. É difícil pra caramba ter que se dedicar desse tanto a um troço que você não acredita, que faz com que até o sonho dourado da universidade não pareça tão dourado assim. Meses, anos talvez, muito dinheiro, neurônios e paz de espírito jogados no lixo.

Nunca tanto estudo me foi cobrado, e nunca eu nunca quis tanto fazer qualquer coisa que não fosse estudar. E eu poderia escrever muitas linhas mais sobre toda minha ideia de que esse sistema de educação está tão, tão errado e é por isso que o Brasil não vai pra frente, mas hoje eu só queria exprimir aqui minha revolta com tudo isso. Tem dias que o pior de mim é despertado por conta dessa maratona de estudos, um crescente ímpeto de jogar tudo pro alto e ser uma zé ninguém na vida, vender tudo que eu tenho e colocar o pé no mundo, viver de luz e de brisa, ganhando trocados nas ruas de Paris explicando para as pessoas o que diabos é uma função afim.

Aliás, uma prova da ineficácia de tudo isso é que agora me dei conta que nem eu sei mais o que é uma função afim, e qual é a forma de seu maldito gráfico. Parem o mundo que eu quero descer.


Update: A me enviou um vídeo muito ótimo falando sobre o sistema de educação atual, tudo a ver com o tema dessa postagem. Recomendo muito.




terça-feira, 24 de agosto de 2010

Devem ser os nargulés

Existem dias em que chego a acreditar que em algum quarto escuro de um submundo habita uma legião de pessoas e objetos cuja existência se justifica puramente no propósito de me enlouquecer. Lá vivem as ruas que mudam de lugar para fazer com que eu me perca, crianças falando aos berros, me derrubando suco e estourando bombinhas nas minhas pernas, atendentes de locadora que bradam que não existem filmes do Woody Allen lançados em DVD e um exército de seres pequenos, travessos e cleptomaníacos que passam para o mundo de cá, vez ou outra, para pegar tudo que é importante para mim e deixar para sempre numa sala gigantesca cheia de guarda-chuvas, chaves de várias casas, papéis importantes e lapiseiras, como na Sala Precisa de Hogwarts onde os alunos escondem seus objetos.

Semana passada, depois de ter minha lapiseira favorita roubada no ano passado, comprei uma igual. Era uma daquelas Pental, de metal, cara, que pode te acompanhar por anos, uma vez que ela não quebra nunca. A não ser, claro, que tirem ela de você.

Por conta do trauma do último roubo, andava com a lapiseira nova para todos os cantos, e verificar se ela estava ali comigo tinha tornado-se quase um tique nervoso. Hoje na escola, durante o intervalo, coloquei ela presa na espiral do meu caderno e fui até o fundo da sala conversar com umas amigas. Me sentei de costas para minha cadeira porque, claro, que pessoa é obcecada o suficiente para ficar de olho numa lapiseira à distância? É demais até pra mim. Voltando para a mesa, vi que a lapiseira não estava lá. Respirei fundo, (nada de pânico, Anna Vitória, vai ver ela só caiu no chão), olhei em todo chão ao meu redor, entre as folhas dos livros e cadernos, na bolsa, nos bolsos (respire, 1, 2, 3), perguntei se as pessoas que se sentam perto de mim por acaso não a haviam guardado por engano, (calma, Anna Vitória, uma lapiseira não some do nada), perguntei para a sala inteira se alguém tinha visto ela caída no chão (já pode surtar?), revistei tudo ao meu redor de novo. Nada. Surtei.

Só não sapateei e chorei ali na hora porque não pegaria bem aprontar um escândalo na frente de todos, mas que minha vontade era de fazer bico e birra era enorme, não vou negar. Se tem uma coisa que eu sou neurótica é com meu material escolar. Quer dizer, não estou nem aí se perco canetas vermelhas todos os dias, se a tampa da cor-de-rosa sumiu, se o fundo da roxa quebrou, mas nada pode acontecer com minha lapiseira de estimação, minha caneta Bic de fazer prova, minha borracha, meu marca-texto, meus cadernos e minhas apostilas de Exatas. Eu não penso direito sem eles.

Ano passado desapareceu misteriosamente meu caderno de Exatas e minha apostila de Química. A principal apostila de Química. O caderno em que eu anotava absolutamente TUDO que valia a pena ser lembrado e muito bem aprendido. Nunca encontrei. Fui em Achados e Perdidos, revirei minha casa, a casa dos outros, enlouqueci meus pais e amigos, os funcionários da escola, nada do caderno. Tirei 3 numa prova de Química por causa disso, já que perdi o caderno na semana de provas e não consegui recuperar todas as anotações e exercícios a tempo da dolorosa. Já fui mal em uma prova de Matemática porque esqueci minha borracha e na época tinha vergonha de pedir material pros fiscais de prova. Eu errava tudo e ia apagando com a borracha da lapiseira até que a bendita acabou. Desespero, sofrimento, lágrimas e notas ruins, só isso acontece quando perco minhas coisas.

Ah é, estou praticamente sem voz desde segunda, não consigo engolir nada mais consistente do que mingau - tenho me nutrido de açaí escondida dos meus pais, já que é gelado -, estou com a coluna estropiada, minhas provas começam amanhã e eu não sei nada de Geometria. Posso ter uma licença poética para surtar por conta da minha lapiseira? Se não,vou ali morrer um pouquinho, me acordem por favor quando já existir um CTRL + F na vida real.





sábado, 21 de agosto de 2010

Direito de ir e vir


Que rufem os tambores para esse acontecimento apoteótico que estou prestes a lhes colocar a par: essa semana andei de ônibus! Verdade seja dita, tenho dezesseis anos na cara e até ontem não sabia andar de ônibus. Muito disso se deve ao fato de ser filha única de pais superprotetores que gostam de ver a menininha de açúcar aqui sempre debaixo das asas, confortavelmente acomodada na bolha em que fui colocada dentro; e também à minha total inaptidão geográfica e facilidade incrível de me perder, o que lhes inspira certa cautela justificável, afinal imaginem só soltar na cidade essa criatura que já foi capaz de ficar perdida no próprio bairro! Duas vezes.

"Mãetorista, mãetorista, não basta ser mãe, tem que ser motorista!" cansada de ouvir isso da boca de mamãe todas as vezes em que ela me levava em algum lugar e de depender dos meus pais para ir e vir, resolvi dar meu grito do Ipiranga. Cansei de ter que adequar meus afazeres à rotina sempre inconstante de mamãe, programar minhas saídas de acordo com a disponibilidade dos meus pais e de ter que ouvir muitas reclamações. Quis dar um basta nisso, afinal, já cheguei a deixar de sair só para poupar meus ouvidos do falatório de mamãetorista e papaitorista na minha cabeça.

"Hoje vou voltar pra casa de ônibus, já pesquisei qual tenho que pagar, está tudo sob controle", foi esse meu ultimato para papai. Curta e grossa para que não houvesse contestações. O almoço daquele dia foi todo de terrorismo típico de papai, que mascara em suas excessivas recomendações de cautela, sugestões de que posso me dar muito mal fazendo certas coisas, para que desista de fazê-las e ache que ele não tem nada a ver com isso. Bela tentativa, não dessa vez. Eu estava irredutível. Dinheiro trocado nos bolsos, o suficiente para eu pegar uns três ônibus errados e ainda conseguir chegar em casa, celular no bolso da frente, eu sei que não devo passar no meio da praça, pode deixar que não vou tirar o iPod da bolsa e ficarei atenta no ponto, te ligo quando chegar, pode deixar. E fui.

Cheguei em casa viva, inteira, e sem ter me perdido nenhuma vez. Ok, eu não estava de todo sozinha. Na escola encontrei duas amigas que iriam fazer o mesmo trajeto que eu, que me fizeram uma ótima companhia durante o caminho. Preciso dizer que sem elas comigo com certeza não teria conseguido chegar no Terminal Central sem me perder algumas vezes, e lá dentro teria demorado um tempo até achar o guichê. E as plataformas? Que confusão! Devo admitir que muito provavelmente teria me enrolado bem mais caso elas não estivessem comigo para me indicar para onde ir. Ok. Mas eu fui uma vez e isso já é um começo.

Até chegar em casa recebi ligações de mamãe, papai e até minha avó queria saber se tinha sobrevivido ou se por distração não tinha pego o ônibus errado e estava seguindo rumo ao Morumbi. Parece absurdo, mas é muito minha cara acontecer isso. Na semana que vem repetirei essa experiência, só que sozinha. Caso desapareça por alguns dias podem saber que estou em algum bairro distante, ou até mesmo em Araguari, andando em círculos e tentando descobrir uma maneira de voltar pra casa.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Não se vê mais amor como nos tempos do cólera

"Talvez o que me compete seja justamente diagnosticar a completa inexistência do romance, ou constatar que trata-se de um bobo conceito hipotético. Uma ideia que nos inspira, que nos motiva, que nos estufa o peito através de um brusco sopro do mais puro nada. Uma isca que nós, mesmo após fisgados sucessivas vezes, seguimos mordendo, constantemente e com convicção. (...)"
"... ou não." - Lucas Silveira

Nesse fim de férias me vi envolvida no delicioso romance entre Florentino Ariza e Fermina Daza, do livro O Amor nos Tempos do Cólera, que além de contar uma ótima história nos conquista completamente devido a prosa fluida e agradável de ser lida de Gabriel García Márquez, que nesse primeiro contato nosso já me pôs a certeza que tem tudo para virar um dos meus escritores favoritos. Mas não é do livro em si que quero falar hoje, e sim do que ele me fez pensar.

Hoje em dia as coisas são, teoricamente, fáceis demais. Não existem mais obstáculos intransponíveis, famílias arqui-rivais, fugas secretas para o leste ou qualquer outra tragédia para separar os amantes. As coisas funcionam numa simplicidade tão assustadora que basta juntar a fome com a vontade de comer para que seja satisfeito o apetite, sem explicações, sem constrangimentos, compromissos, mãos dadas e telefonemas no dia seguinte. Simples assim.

Entretanto, tenho comigo que todas essas coisas acontecendo na velocidade da luz, avançando sinais e ignorando placas de "mais devagar" tem feito das pessoas mais bobas, inseguras e medrosas. Na falta de obstáculos que a vida e as convenções sociais (sempre elas!) nos impõe, temos uma necessidade crônica de tornar as coisas mais complicadas do que são de fato. Fugimos do compromisso, mas sonhamos com cafés da manhã na cama e almoços de domingo; odiamos rótulos, mas não queremos ver nossos digníssimos olhando para os lados. O medo do desapontamento e da desilusão é tão enorme que ficamos de pés e mãos atadas por umas prerrogativas que não fazem o menor sentido e que fazemos questão de enfeitá-las com filosofias de vida modernas e prafrentex só para fugir do fato de que, por dentro, ainda somos crianças assustadas morrendo de medo de dar o braço a torcer, de saltar sem saber o que nos espera ali embaixo.

"Pois mesmo vinte braças debaixo da terra teria reconhecido de pronto aquela voz de metais surdos que carregava na alma desde a tarde em que a ouviu dizer no tapete de folhas amarelas de um parque solitário 'Agora vá embora e não volte até que eu lhe avise.' Sabia que estava sentada no assento atrás do seu, junto do esposo inevitável, e percebia sua respiração cálida e bem medida, e aspirava com amor o ar purificado pela boa saúde do seu alento. (...)Deleitava-se com os hálitos do perfume de amêndoas que lhe chegava vindo da intimidade dela, ansioso por saber como achava ela que deviam se apaixonar as mulheres do cinema para que seus amores doessem menos que os da vida. Pouco antes do final, num clarão de júbilo, percebeu de repente que nunca estivera tanto tempo tão perto de alguém que amava tanto."
"O Amor Nos Tempos do Cólera" - Gabriel García Márquez

Florentino Ariza amou Fermina Daza na primeira vez que botou os olhos nela. Era feio e triste, mas todo amor e jurou que esperaria por ela mesmo quando ela viajou para longe a mando do pai, mesmo quando a única certeza que ele tinha eram cartas, mesmo quando até as cartas sumiram e ela se casou com o homem mais ilustre da cidade e ele continuava sendo o jovem com cara de velho com seu chapéu funebre e guarda-chuva de vampiro. Ele esperaria por ela e a amaria até o dia em que o marido rival morresse, ou que se desse seu próprio último suspiro. E para não dizer que isso são romances de livros, meus avós namoraram escondidos por bilhetes que iam passando por milhares de mãos de colegas de escola prestativos, até o dia que ele viu que podia dar a ela um futuro que lhe fosse digno, e foi lhe pedir a mão em casamento a meu bisavô.


"E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo - o verdadeiro encontro se dá ao tirarmos os pés do chão -, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto."
"O Salto" - Antonio Prata


E aí vamos ficar dando uma de maricas diante da nossa própria felicidade ao invés de correr o risco? Pode dar certo, como pode não dar também e a gente saia dessa história com um coração partido em mil pedaços, com histórias trágicas para contar e passemos semanas ouvindo Chico Buarque como se o sol nunca mais fosse nascer. Mas ele nasce, um dia há de nascer, e se a gente der esse empurrão para a vida, teremos nossos cafés da manhã na cama e almoços de domingo.



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Cães de Aluguel

Seis caras contratados para um roubo de diamantes numa joalheria. Eles não se conhecem, nunca se viram antes e não sabem nada um do outro. A única referência que tem é um codinome escolhido arbitrariamente pelo mandante do crime, são eles Mr. Blue, Mr. Brown, Mr. White, Mr. Orange, Mr. Blonde e Mr. Pink. (Não lhes foi dada a oportunidade de escolha porque, de acordo com experiências anteriores, todos entram numa briga sem fim para ver quem será o Mr. Black - uma das minhas cenas favoritas).

Na hora do crime algo não vai bem. O alarme dispara, os policiais cercam o local, um deles se desespera e atira em tudo que vê pela frente. Dois mortos e um ferido com um tiro no abdômem, que agoniza. Os remanescentes se encontram num galpão e chegam a conclusão que o cerco de policiais só seria possível se por acaso dentre eles houvesse um tira infiltrado. Eis o roteiro brilhante desse filme tão bacana, violento e engraçado que é Cães de Aluguel. Tarantino consegue em meros 99 minutos nos envolver nessa trama aparentemente simples mas cheia de mudanças repetinas, guinadas cronológicas na narrativa, trilha sonora impecável e bastante sangue.

Foi o filme passado no segundo encontro do Clube do Filme e acho que conseguimos impressionar o pessoal e fazê-los simpatizar com os personagens de moral ambivalente e entender Like A Virgin de um jeito diferente. Orelhas cortadas, tiros, diamantes roubados, humor negro e K-Billy's Super Sounds of the Seventies. Vocês precisam ver esse filme.





terça-feira, 10 de agosto de 2010

O dia que eu entrei no Google pra saber se estava infartando

Não sei se já contei aqui que sou meio hipocondríaca e completamente paranoica, características que vem se agravando depois que comecei a assistir House. Contei? Não? Prazer, meu nome é Anna Vitória e qualquer coisa mínima que eu sinto que não é diagnosticada como crise de rinite alérgica ou infecções de ouvido ou garganta eu já imagino que seja um tumor gigantesco e inoperável, igual ao personagem do Woody Allen em Hannah e Suas Irmãs.


Já fazem uns dois anos que um dia comecei a sentir uma dor bizarra no braço esquerdo. Do nada. Não era uma dor forte, mas era uma dor chata pra caramba, dessas que não te deixam prestar atenção em mais nada, além de se concentrar para não, em hipótese alguma, dobrar os dedos, pois a dor aí sim tornava-se insuportável. Achei aquilo estranho demais, e só conseguia pensar no Bussunda. Para refrescar a memória, Bussunda era o cara do Casseta e Planeta que morreu de ataque do coração na Alemanha, durante a cobertura da Copa de 2006, e poderia ter evitado tudo isso caso tivesse prestado atenção ao sintomas que teve antes do fatídico momento, dentre eles a dor no braço esquerdo. Diagnóstico feito: eu estava tendo um infarto agudo do miocárdio.

Para averiguar outros sintomas, me esgueirei sorrateiramente já tremendo até o computador do meu pai e pesquisei: infarto + sintomas + dor no braço. Dentre outros sintomas de um infarto silencioso estavam descritas dores que irradiam pelo braço, pescoço e costas, suor, falta de ar, tontura, e ao final a fatídica dor fortíssima no peito. É claro que a medida que ia lendo tudo aquilo os novos sintomas começavam a aparecer, e devo ter terminado minha breve pesquisa já empapada de suor e sem conseguir digitar, de tanto que tremia. Era uma questão de minutos até sentir a pontada. Sabendo que meu pai daria pouco crédito às minhas suspeitas, ainda mais porque já passava da meia-noite, me sentei no sofá e me pus em alerta. Olhei pra cima: "Deus, se eu tiver que ir mesmo, me leva de uma vez e não me deixe sentir dor." Apaguei ali no sofá mesmo, acordei no outro dia sem dor no braço. Ufa, essa foi por pouco.

Aí que esses dias meu braço esquerdo começou a doer de novo. Do nada. Era uma dor tão chata que eu peguei um lenço e improvisei uma tipoia. Enquanto andava para lá e para cá com aquela coisa lilás e florida segurando meu braço, mamãe já dizia que só podia ser por causa de computador, de tanto digitar, já que pra ela qualquer coisa que eu sinta é culpa do (segundo ela excessivo) tempo em que passo na internet. Falei para que então no dia seguinte procurássemos um médico e comprássemos uma daquelas munhequeiras para quem tem tendinite, para evitar a fadiga. Apesar disso eu não estava em paz. Me lembro que sentei no sofá e fiquei um tempão encarando o braço, com certamente uma enorme ruga de preocupação na testa, afinal mamãe entrou na sala e já foi dizendo:

- Anna Vitória, pelo amor de Deus, nem pense em me dizer que você acha que está infartando de novo!

(Post inspirado no post "Doutor Google: o médico dos médicos", do Dois Ponto Um)




domingo, 8 de agosto de 2010

Coisas aleatórias que aprendi com meu pai

  1. Entrar na internet;
  2. Usar a faixa da direita para dirigir devagar;
  3. Todas as coisas que eu não gosto de comer fazem bem pra preula;
  4. Formigas andam em fila porque seguem o rastro de feromônio deixado pela companheira da frente;
  5. Ouvir Pearl Jam, Oasis e Aerosmith;
  6. Caso eu esteja em dúvida a respeito de fazer ou não alguma coisa em alguma festa, lembrar que as recomendações mais importantes começam sempre com nunca/jamais/em hipótese alguma;
  7. Manter sempre uma distância de cautela de qualquer carro com placa do interior de Goiás, principalmente Catalão (piada uberlandense);
  8. Se por um acaso eu não souber qual caminho seguir, me esforçar para manter, independente de qual seja meu destino final, o privilégio da escolha;
  9. Wasabi com tomate é uma combinação interessante;
  10. Que ele é o meu melhor amigo.



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Entre estantes

A Siciliano do shopping fechou há um mês mais ou menos. Não me surpreendi, pois sabia que isso aconteceria, e o fato teria passado incólume por aqui não fosse hoje o momento de iluminação que tive a respeito de como aquela loja fez parte da minha vida. Quando ela surgiu ali, no único shopping de Uberlândia, era a maior livraria que eu já tinha visto e exercia em mim um fascínio sem igual.

Quando era pequena almoçava com meus pais no shopping praticamente todos os domingos. Íamos para a praça de alimentação e eu, como toda criança, mal sentava e já estava comendo. O mesmo macarrão, do mesmo buffet de massas, com os mesmos ingredientes (combinação que repito quase sempre que vou a esse restaurante, até hoje). Quando terminava, papai mal tinha chegado na metade de seu primeiro chopp, o que significava que havia muito tempo pela frente, e não me restava nada além de ir para a Siciliano. Todo domingo eu ficava lá mais ou menos das 13 às 15 horas, sentada nas cadeirinhas da seção infantil tendo todos os livros do mundo ao alcance das minhas mãos. Chegou uma época em que eu de fato tinha noção de todo o acervo infanto-juvenil da loja, e era capaz de dizer quando haviam chegado novidades, ou se mudaram os livros de lugar. Alguns atendentes me conheciam de vista, sorriam para mim ao me verem entrar, e já me avisavam quando meus pais apareciam ali na porta, me chamando para ir embora.


Foi nessa Siciliano que comprei meu primeiro Harry Potter, foi lá que eu chorei lendo um livro pela primeira vez (“Para Francisco”, que comecei a ler enquanto esperava por 2h o início de uma sessão de cinema), foi lá que comprei o maior livro da minha vida até hoje – e ainda um dos mais queridos: Toda Mafalda, um calhamaço gigante com todas as tirinhas da Mafalda já publicadas, que ganhei sob protestos de papai, que dizia que eu nunca leria um livro daqueles nem que vivesse mil anos. (Sim, já o li inteiro. Duas vezes!)


Com a adolescência, a Siciliano passou a ser o meu ponto de encontro com os amigos. Se íamos ao cinema, nos encontrávamos na Siciliano antes da sessão, se íamos só vadiar no shopping, era lá que o passeio começava. Engraçado que até a loja fechar, há poucos dias, sempre ouvia ou dizia “a gente se encontra na Siciliano”, embora eu e todos os meus amigos soubéssemos que o único lugar no mundo para se encontrar antes de qualquer coisa era a Siciliano. Era lá também que eu passava muitas horas com meu primo, provavelmente dividindo um pufe (já reparou o quanto era raro encontrar um pufe ou cadeira vazia naquela Siciliano?), com o livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer, folheando-o e comentando sobre os filmes que já tínhamos assistido (fazemos isso em toda livraria que pisamos).


Foi lá que eu tive a coisa mais próxima que já cheguei a ter de um ataque de pânico. Na véspera do PAAES estava sozinha no shopping quando de repente me caiu a ficha da importância da prova que eu faria no dia seguinte. Fui andando meio perdida pelos corredores do shopping e quando vi já estava na porta da Siciliano, o lugar em que eu mais me sentia segura. Foi lá que eu me sentei atônita em uma cadeira e tentei respirar e parecer normal enquanto fingia que lia um livro do Calvin.


Semana passada fui ao shopping bater perna com a Naná e cheguei bem mais cedo do que ela, e foi estranho pra caramba não ter a Siciliano para me refugiar enquanto esperava. Mesmo tendo passado um tempo enorme nas liquidações de sapatos, os minutos pareciam passar muito devagar, porque eu sabia que se estivesse enfiada nas prateleiras bagunçadas onde ficavam praticamente jogados ao léu livros da Taschen, minha espera não duraria mais que um piscar de olhos.


A Siciliano fechou para dar lugar a uma Saraiva Megastore, um dos meus maiores sonhos de loja que enfim se tornou realidade. A loja é magnífica, linda e reluzente, com todos os livros do mundo em proporção bem maior e além disso milhares de DVDs. Não estou acostumada a encontrar um “Crepúsculo dos Deuses” na primeira prateleira de filmes que fuço. E apesar de toda essa lindeza, Naná falou uma coisa muito certa, ainda que tenha sido uma brincadeira: “Não queria que a Siciliano tivesse fechado, onde a gente combinar de se encontrar agora?” “Agora tem a Saraiva!” “Eu sei, mas não a mesma coisa.”


Pior é que não é mesmo.




segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As manhãs não existem

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias (...)
Meus Oito Anos - Casimiro de Abreu

Minha hora preferida do dia é a manhã e, ironicamente, é a hora do dia que eu menos presencio. Manhãs me remetem a leite com Nescau as oito da manhã no sofá da sala assistindo As Trigêmeas. Era meu rito sagrado matinal, que perdurou durante todos os anos em que eu estudei no turno da tarde, que foram muitos. Por volta das 10h saía para minhas aulas de inglês/ballet/sapateado/natação, sempre a pé, acompanhada pela moça que trabalhava em casa. Mesmo com o sol um tanto mais alto e forte, não era como se ele fosse esturricante, e o céu me parecia sempre de um azul absurdo, as folhas mais verdes, e apesar do cenário ensolarado havia um ventinho gelado. Talvez o bairro lindo que eu morei durante a minha infância tenha contribuído para toda essa memória afetiva em relação às manhãs, já que eu ia me deixando conduzir pela mão e parando para prestar atenção em qualquer detalhe que fosse do caminho, tão absorta naquilo que mesmo fazendo o caminho semanalmente durante anos, nunca decorei os itinerários.

Com a mudança para o turno da manhã foi-se embora o leite com Nescau e eu nunca mais assisti As Trigêmeas. O café da manhã passou a ser substituído por um pão na chapa comido às pressas, que ao longos dos anos foi involuindo para a coisa que estivesse mais ao alcance da mão, na cozinha, cuja praticidade era proporcional ao quão atrasada eu estava para a escola - cada dia um pouco mais. Passei a gastar minhas manhãs numa sala de aula hermeticamente fechada, com um ar condicionado sempre tão frio que não importa quantas camadas de roupa eu use, ainda estarei com a ponta do nariz e dos dedos sempre gelados. Se não estou presa em sala de aula, estou atada por Morfeu nos edredons, seja por trocar o dia pela noite, nas férias, ou por uma necessidade extrema de recuperar um sono perdido durante toda a semana, aos sábados e domingos.

As manhãs não existem, agora não mais, apesar de se repetirem todos os dias quando o sol se despede do Japão e vem dizer um alô pra gente. Os mesmos azuis, de um mesmo céu limpo banhado pelo mesmo sol e acariciado pela mesma brisa gelada. O que não existe mais é aquele eu sem preocupações, que se aboletava no sofá de meia e pijamas e saía nas ruas com seu colant azul e meia calça cor-de-rosa, que fingia dores no estômago para faltar às aulas de natação e não passava mal quando tomava leite achocolatado. As manhãs não existem, essas não mais, e é bom que permaneçam assim, sendo perfeitas enquanto guardadas com carinho nesses repentes nostálgicos que me fazem suspirar e pensar como o poeta, oh que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais!, olhando para a janela, às 7h (hora da manhã fria e sem graça), como num filme da Sofia Coppola.

As manhãs não existem, como não são possíveis de existir vinte e quatro horas de aurora. Ando por aí procurando uma nova hora do dia pra achar o céu sempre lindo.