domingo, 31 de outubro de 2010

Pausa pro jabá


Interrompemos nossa programação para a auto-promoção obrigatória gratuita:

Há mais ou menos dois meses estou envolvida num novo projeto de blog, totalmente diferente da proposta do So Contagious. Estou nessa empreitada com duas amigas muito queridas, que vocês já leem bastante a respeito aqui, Naná e Isabela (que são umas desnaturadas e abandonam seus respec-tivos blogs), e nesse meio tempo estivemos metidas em convenções via MSN, troca frenética de e-mails, busca insana por inspiração e é até estranho pensar que as coisas vão começar pra valer agora, porque pra mim o blog já existe faz tempo.

Opposite Way é o lugar onde vou falar sobre um lado meu que não é abordado aqui no blog, que é o meu lado, digamos assim, espiritual. Quem me conhece melhor sabe que sou cristã, frequento igreja e há muito venho sentindo a necessidade de um espaço onde possa compartilhar algumas coisas a respeito disso, e essa é a proposta do Opposite Way. Não queremos, através dele, doutrinar ninguém, dizer o que é certo e o que é errado. Somos três amigas de ideais e ideias parecidas que desejam compartilhar com o mundo aquilo que é a essência das nossas vidas. Buscamos abordar o assunto de um jeito que seja diferente dos esteriótipos e clichês que existem aos montes por aí afora, e tentar mudar a imagem negativa que os "crentes" tem por aí.

Se você se interessa pelo tópico, partilha certas convicções, tem vontade de conhecer mais, ou é simplesmente curioso, convido você a dar uma passadinha por lá. O primeiro post foi escrito por mim, e creio que ele resume nosso propósito através dele. Certinho?



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pessoas que não são bonitas mas são

Vinícius querido que me perdoe, serei obrigada a contradizê-lo em um de seus mais famosos versos, aquele que diz "As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental", no poema "Receita de Mulher". Sou obrigada a discordar sobremaneira porque volta e meia topo por aí com pessoas cuja incalculável imperfeição contitui-se na coisa mais bela e mais perfeita de toda a Criação inumerável, novamente citando o Poetinha.

Não serei protagonista de Malhação ao ponto de dizer que, ao adentrar num ambiente diferente com rostos desconhecidos, não vá deter o olhos primeiramente naqueles que despontam pela beleza, seja dos olhos, do sorriso, dos ombros largos ou do conjunto em si que me parece muito agradável. Andando na escola meus olhos param mesmo é no rosto de desconhecidos colegas adoráveis, nos de cabelo bagunçado, cara de sono e sorriso enorme, não existe nada que prenda tanto minha atenção como as características enumeradas. Entretanto, sou capaz de ver os caras mais lindos do mundo naqueles rostos que, a priori, passam despercebidos. Se é charme, se é encanto a segunda (ou terceira, ou quarta) vista, ou se é só mesmo a famigerada beleza interior que desponta, não sei, mas sei que o mundo está recheado de pessoas que não são bonitas mas são.

Podem reparar, sempre tem aquele cara que você nunca botou fé, nunca parou pra reparare aí, de repente não mais que de repente, ele diz alguma coisa muito interessante, ou apenas demonstra ter um papo legal, dá lugar pra velhinha no ônibus, escreve uma coisa bonita, sorri assim de canto de modo a retirar o brilho de todas as estrelas do céu, lê seu livro favorito ou qualquer outra coisa digna de nota e pronto, de um tribufu ignorável ele passa a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto/Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.

O contrário infelizmente também ocorre, quando aquela pessoa antes tida como bonita de verdade, dessas que você, se a visse num lugar desconhecido cheio de rostos desconhecidos, pararia o olhar de primeira, faz algo e toma atitudes que acabam por enfeiá-la, a pobre. E os responsáveis por esse retrocesso no campo da beleza posta pelos olhos de cada um podem ser vários, desde um português errado, uma opinião controversa, o fato de ter uma postura realmente reprovável ou até mesmo confundir francês com galego-português. A verdade é que assim como pequenos gestos dão beleza aos feios, pequenos tropeções são capazes de fazer qualquer Jude Law virar o Costinha.

E sabe, nem é (só) de charme que eu falo. Aquele do olhar, da postura, do tom de voz, aquele que faz a gente olhar o Bogart carrancudo em Casablanca e querer casar com ele na hora, que nos faz querer largar tudo e dançar cheek to cheek pra sempre com Fred Astaire e fugir pra Oviedo com o Javier Barden. Falo daquele mais sutil que nem os dotes de dança ou um sotaque latino perigoso é capaz de dobrar, aquele que vem de gente que olha nos olhos, tem opinião formada e sabe das coisas sem ser mala.

Isso sim, os feios estrábicos ou de olhos verdes e corpo escultural que me perdoem, mas é fundamental.



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

SimuNa 2010

Eu sou aquele tipo de pessoa que na hora do oba-oba se envolve em um monte de atividades e depois, quando precisa arcar com as responsabilidades delas, fica louca, estressada, se arrepende amargamente de ter se envolvido e jura nunca mais se meter com nada, nenhuma atividade extracurricular e organização de qualquer coisa que seja. A verdade é que até a manhã de quinta-feira eu estava amaldiçoando o dia em que resolvi me inscrever pro SimuNa, que é um simulado de relações internacionais organizado pela escola que eu estudo. Nessa atividade nós alunos viramos representantes de diversos países e nos reunimos em diversos comitês para discutir as questão em pauta de cada um. Por quatro dias deixamos de ser nós mesmos para sermos os senhores e senhoritas Delegados(as), abraçando e defendendo uma cultura e política diferentes das nossas, que nem sempre estamos de acordo.

E olha, mesmo cansada e esgotada depois dessa maratona, digo que me arrependo, hoje, do dia em que eu declarei que só iria participar porque já tinha pago minha inscrição. Foi tudo muito, muito legal! Meu comitê era o do Conselho de Direitos Humanos, que estava se reunindo para discutir as práticas de tortura no mundo. Bem, eu representava a China. Num comitê contra a tortura. Sabe, a expressão "tortura chinesa" não existe por acaso. A China é um país que até hoje tortura pessoas a torto e a direito, com respaldo do PCC, que além de tudo encobre esses casos,á que a legislação chinese proibe a tortura.

No começo estava morrendo de medo, por razões óbvias. Repetindo: eu era a China, num comitê de Direitos Humanos, discutindo sobre a tortura. Existia um alvo desenhado na minha testa. Pra mim o mais legal nessas simulações é você ser obrigada a defender uma coisa que você não aceita ou acredita. É necessário que você abrace completamente a visão do país, eu entrava naquela sala e não era mais a Anna Vitória, defensora da paz mundial cujo lema de vida é "all you need is love", mas sim a senhorita Delegada da República Popular da China que acreditava na tortura como método de manter a unidade social de modo a proporcionar estabilidade política e social assim como o desenvolvimento econômico, que se dizia a favor dos Direitos Humanos, assinava documentos a respeito mas não aceitava qualquer tipo de interferência ou fiscalização externa em seu país.

Meu comitê possuia delegações orientais muito fortes, e logo formamos uma aliança nos atendo a esse argumento acima, além daqueles países árabes que também podiam fundamentar suas posições através do Alcorão. Apesar de ter vários parceiros, muitas vezes eu me desesperava para buscar argumentos e propostas que poderiam diminuir as práticas de tortura de forma prática e eficaz, e ao mesmo tempo impedindo a ação de qualquer órgão internacional para a fiscalização. É um exercício e tanto de retórica, de pense rápido e também um tanto de cara de pau, uma vez que muitas vezes o país se contradiz em suas posições, outros países percebem isso e te cobram e, bem, você tem que fingir que não ouviu ou se valer de uma justificativa bem babaca. No final, a proposta de resolução que elaboramos ficou muito boa de acordo com tudo o que havíamos discutido, mas foi extremamente inútil. Tinha caráter recomendatório, respeitava as Constituições de cada país (ou seja, aqueles países que legalizavam a tortura não tinham com o que se preocupar), e se fosse numa situação verdadeira, poderíamos dizer que acabou em pizza.

Foi uma experiência muito bacana, que eu recomendo a todos vocês que gostam desse tipo de atividade, se tiveram a oportunidade, não se deixem levar pela preguiça de ter que fazer estudos extras (a preparação é primordial), fazer os trabalhos, ou pensem que vai ser perda do final de semana, de tempo livre ou coisa assim. Sábado eu fiquei na escola das 9h às 20h30, com pausa apenas pra almoço e café da tarde, com três sessões de 3 horas de duração. Parece muito, mas na hora, no calor da discussão, o tempo voa. Sem falar que você aprende um monte, passa a enxergar culturas diferentes com muito mais tolerância e dar muito mais valor e crédito a elas - por mais que alguns aspectos sejam bizarros de acordo com o que está habituado - e além disso você aprende a argumentar, debater, manipular e a falar em público com linguagem rebuscada e diplomática. E se diverte muito, por que não? O evento acabou a poucas horas e já estou morrendo de saudades de tudo, por mim tinha haveria um SimuNa a cada duas semanas!

E ainda é uma ótima desculpa pra passar quatro dias usando trajes formais, coque, pérolas, pretinhos básicos, meia calça, sapato de salto, batom vermelho, terninhos e camisas!

(Até que eu faça um apanhado geral das conclusões do formulário, vocês ainda podem ser fofos e deixarem suas opiniões! Aqui!)



terça-feira, 19 de outubro de 2010

Agora que já pulei pela casa e parei de tremer

O melhor nessa vida é não manter expectativas. Eu sei que o friozinho na barriga da incerteza muitas vezes parece irresistível, e há quem diga que ele que dá o tempero da coisa, mas se vocês querem saber de uma coisa, já passei mais de uma semana chorando toda noite e quase um mês sem ouvir uma das minhas bandas preferidas por ter colocado expectativas no topo e depois vê-las frustradas. No final tudo deu certo, mas podia não ter dado e não ia ser nada legal. Eu não precisava passar por isso de novo. Aí eu fiquei quietinha no meu canto esperando as coisas acontecerem, do jeito mais blasé possível. E olha, o frio na barriga nem fez falta depois de ontem, com a explosão de toda a euforia reprimida, que pôs minhas mãos tremendo de tal maneira que eu não conseguia digitar e contar isso pra alguém.

Agora que eu consigo, agora que eu já rodei meu apartamento inteiro com o Chico no colo berrando "YOOOU SAY YEEEESSS I SAAAY NOOO YOU SAY STOOP AND I SAAY GO GO GOOOOOO", agora que as mãos não tremem mais, posso contar pra vocês:

EU VOU VER O PAUL MCCARTNEY


Tenho medo do que pode acontecer se esse homem fizer isso no dia 21.



domingo, 17 de outubro de 2010

Papo sério

Olha, se eu pudesse sair eu te garanto que já estava longe daqui faz tempo.

Quer dizer, poder eu até posso, basta conseguir, só que eu sou esperta o suficiente pra saber que não sobrevivo sozinha. Ruim com você (muito ruim mesmo), só que é muito pior sem. Porque sem você eu morro sabia? Não me olhe com essa cara de quem está se achando, porque sem mim você morre também que eu sei. Se não morrer vai ser um nada, afinal eu sou a sua essência.

Você me envergonha, eis a verdade. Ah como eu queria ter um controle maior sobre você, te arrastar fora desse sofá, fazer seus braços se movimentarem, suas pernas ganharem o mundo, tudo ia ser tão melhor. Se você se mexesse um pouquinho que fosse a gente ia se dar tão bem, poderíamos enfim ser amigas. Você sabe de tudo o que tem que fazer, mas finge que todas essas coisas não existem e as joga nas minhas costas. E isso pesa, e isso dói de um jeito que você nem sabe como, porque sou eu que tenho que carregar. Meu único jeito de compensar isso é fazendo aquilo que eu faço de melhor, modéstia a parte, que é te importunar. Interromper suas leituras de Harry Potter, invadir seus sonhos no meio da noite, pausar seus filmes pra te lembrar de tudo que você vem escondendo embaixo do tapete. Quer dizer, embaixo do tapete não porque ainda não me rebaixei a esse nível: tudo aquilo que você esconde nas lustrosas e perfeitas profundezas de mim.

Sei que na última noite eu peguei pesado. Você leu Harry Potter antes de dormir, viu coisas lindas durante o dia, chorou com Denny Duquette a semana toda, mas eu tive que arranjar um espacinho que fosse pra enfiar os meus interesses também. Ontem foi sábado, o fim de semana está chegando ao fim e o horário de verão nos tirou uma hora, eu tenho que correr atrás do tempo perdido. Sua inércia, minha filha, é a maior de todas, são necessários inúmeros empurrões para rompê-la, daqui a pouco vou ter que dar um jeito de te arranjar brotoejas, quem sabe algumas bem feias nesse seu rostinho vão te fazer enxergar que você precisa fazer alguma coisa, você já aprendeu a lidar com a dor de cabeça (maldito seja o chocolate!) e até mesmo com suas crises de ansiedade. Mais uma vez, maldito seja o chocolate que arruina todos os meus planos.

Negócio é o seguinte. Você teve uma semana inteirinha de nadas pra fazer. Quer dizer, na teoria, já que as obrigações você me entregou e eu que lidasse com elas. Ficou me dando a desculpa que estava com visitas em casa, depois foi a desculpa da recente semana de provas que ficou te devendo um descanso, e aí foi aniversário do seu amigo e eu juro que na sexta-feira eu pensei que você fosse fazer alguma coisa, porque saiu de casa tão determinada a resolver sua vida! Que nada, fez tudo pela metade, me enganou direitinho, até mesmo saí para bater um lero com a senhora Vida Sentimental - que me contou que as coisas andam devagar quase parando pro lado dela, está até entediada - e quando vi, pimba, lá estava você comendo lasanha e assistindo Meninas Malvadas!

Os pesadelos que te enfiei na cabeça noite passada foram até que úteis, pois hoje você colocou o rabinho entre as pernas e passou a tarde resolvendo uma de suas pendências, morri de orgulho e até tentei cancelar a dor de cabeça que tinha deixado programada pra essa noite, mas como você deve estar sentindo (hihi) não funcionou. Já que você resolveu me ignorar, chamei aqueles crápulas que você odeia, mas que sabem fazer um trabalho eficiente (é duro admitir uma derrota): Angústia e Desespero. Eles estão aqui comigo, peguei um pouco do que sobrou do frozen açaí de ontem (pelo menos suas escapulidas rendem bons frutos) e estamos aqui no maior papo. Eu sei como você está agora, pensando em tudo que deveria ter feito e não fez, sentindo as obrigações se multiplicarem e o tempo diminuir. E isso só vai piorar ao longo da semana. Sabe o que eu acho disso? Acho é pouco. Quem mandou se meter comigo? Isso é pra você aprender que quando você resolve ficar de papo com a dona Procrastinação as coisas só ficam feias pro teu lado; é má influência, nunca ouviu o que tua mãe disse? Pff, besteira perguntar, se você não ouve nem à mim, que sou parte de você, que dirá à sua mãe?

Olha, as coisas estão feias pro teu lado, mas por favor, não comece a bater a cabeça na parede porque eu não estou no clima de terremotos.

Atenciosamente,

Sua Consciência

(Ainda dá tempo - e eu ia achar muito legal - de responder ao formulário feliz do post passado! Aqui)



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

I want you

Hoje meu papo é com você. É, você mesmo aí do outro lado. Não precisa olhar pros lados, não é como se aqui fosse o centro da cidade e eu fosse algum tipo de pessoa incoveniente que para no meio da rua abanando os braços gritando "OIÊ" pra todo mundo e pra ninguém. Hoje meu papo é com você do lado de lá do monitor, que está de pijama tomando Toddynho no aconchego do lar (opa, sou eu); você que deveria estar estudando (não se acanhe, eu também deveria); você aí que disse pra mãe que está fazendo trabalho, mas que está perdendo tempo aqui (Matheus, estou falando com você); você que é um psicopata buscando a melhor maneira de me sequestrar; e até você que pesquisou "medo de infartar, ter um derrame, aneurisma, avc" no Google e acabou aqui: hoje eu quero saber de vocês.

Lembro que quando explodiu a moda do Formspring sempre me batia uma curiosidade insana ao receber perguntas anônimas, ficava me perguntando quem seria o desconhecido(a) que perdia minutos do seu tempo para descobrir meu sabor favorito de sorvete (é abacaxi, aos interessados). Recebo cerca de 10-20 comentários por post, mas o Analytics me revela que tenho um número maior de pessoas me acompanhando e isso me deixa alegre - porque vejo que tem gente que gosta do que escrevo -, me assusta - porque é como se vocês soubessem muito sobre mim (como eu falei um dia pro Adônis) e eu permanecesse no escuro - , e me deixa muito curiosa - afinal, quem são vocês? Então eu vi o Rob falando sobre seus quatrocentos seguidores no blog de um jeito que me fez pensar que todos vocês aí do outro lado, citando o próprio, "mais que números, são pessoas que dedicam (ou dedicaram) alguns minutos do seu dia a parar o que estavam fazendo por alguns minutos e ler o que eu escrevo. E sem pedir nada em troca."

Eu poderia até dar um puxão de orelha em todos os leitores-fantasma que passam por aqui e nunca dão um alô, mas se o fizesse estaria sendo hipócrita, pois sou assim também. Eu acompanho muitos blogs, mas participo e comento só na minoria; sou invisível na maior parte deles. Os motivos? Aqueles de sempre: é a falta de tempo, a preguiça, uma certa vergoinha, ou então falta do que dizer, pura e simples. Acontece. Entretanto, tenho tentado mudar de atitude. Sei que se quisesse comentar (e comentar não é só escrever qualquer coisa, é dar uma opinião) em todos os blogs que acompanho, teria que reduzir o número em mais da metade e isso eu não quero; mas tenho me esforçado para dizer alguma coisa legal naqueles que gosto muito, ou então nos posts que mais me intrigaram porque, como blogueira, sei como isso é importante. E aliás, já ganhei muito com isso também. Quando criei coragem e comentei no blog do Antonio Prata ele me respondeu com um e-mail adorável que está na minha caixa de entrada marcado com estrela até hoje. Essa semana comentei no recente blog da Iwana, que veio acompanhado de uma DM cheia de reciprocidade e fofura. A blogosfera é feita dessa troca.

Falando mais uma vez no Rob, queria fazer desse post um apoio à campanha iniciada por ele no post "Vida", que vocês realmente deveriam ler. Faço deste texto o meu apelo à vocês, seja você um mero leitor, um blogueiro, um leitor-blogueiro, tanto faz. Não quero números e rasgação de seda, quero mais dessa troca bacana que, pra mim, é o que faz esse blog valer a pena, como já disse tantas vezes. Passe essa campanha adiante! Se você é blogueiro e sente falta disso, junte-se ao movimento! Pensando num post mais ou menos sobre isso da Nathália, vi que através daqui tive a oportunidade de "conhecer" muita gente bacana e interessante, e isso nunca é demais.

Por fim, só queria reiterar que tenho muita curiosidade a respeito de cada um que está aí por trás. Tanta que tomei a liberdade de me apossar da ideia genial da Nicole de fazer um formulário para que vocês respondessem (é rapidinho). Através dele posso ter uma melhor noção de quem você é, do que gosta e ao que veio, e posso enfim me sentir um pouquinho em pé de igualdade. Como já disse, isso aqui é uma parte enorme de mim, e diante de tantos "estranhos", é como se estivesse no escuro. Sejam legais como eu sei que vocês são e respondam isso (todos vocês, independente de ser leitor-fantasma ou não) pra mim: ir para o formúlário feliz.

E não se esqueçam:




terça-feira, 12 de outubro de 2010

40 gotinhas de Novalgina

Meu organismo tem um senso de oportunidade espetacular. Semana de prova? Faço um bolão comigo mesma pra saber o que meu sistema imunológico vai aprontar: infecção de garganta? de ouvido? virose? piriri? No início da semana passada, quando foi dada a largada da louca maratona, eu obviamente acordei com dor de garganta e ouvido. Enquanto procurava desesperadamente por uns remédios para que eu me entupisse e ainda conseguisse estudar (ou seja, não poderia dar sono), fiquei pensando no quanto era mais legal ficar doente quando criança.

Tudo começava quando passávamos o dia mais pra lá do que pra cá. Brincávamos pouco, conversávamos menos, comíamos feito passarinhos. O pai comenta que estamos abatidos, a mãe coloca a mão na testa pra sentir a temperatura, e mesmo sem febre ela comenta, "Anna Vitória vai adoecer...". No outro dia, batata, amanhecíamos com aquela cara de cachorro sem dono, uma tosse querendo tomar conta, o ouvido falhando... ganhávamos o direito de faltar a aula de ballet pela manhã - que era passada no sofá da sala em companhia de desenhos animados em volume baixo, muito líquido e Tylenol.

Eu não tinha problemas com Tylenol. Me lembro direitinho do potinho branco com o nome do remédio escrito em letras vermelhas. Lembro da cor esverdeada e até mesmo do cheiro. Não era bom, mas também não era ruim. Tomava sem muitas firulas. Tylenol é remédio pra quando se está febril, aqueles 37ºC que você torce desesperadamente para tornarem-se 38ºC, afinal, a partir de 37,5ºC você ganha o direito de faltar de aula. Com 37ºC você toma Tylenol e ganha um bilhetinho da mãe no caderno, avisando a professora do estado febril, os telefones de contato do pai, da mãe e dos avós, e as orientações caso você precise ser medicada.

Só que aí a dor de garganta aumenta você atinge a marca dos tão almejados 37,5ºC e a coordenação da escola liga pros pais te buscarem. Você ainda faz aquele muxoxo e cara de sofrimento para enfatizar que precisa ir embora e rápido, para que ainda dê tempo de assistir a Sessão da Tarde, ou Pokemón, que começava as 17h no Cartoon Network. O pai questiona se não é melhor ligar pra Márcia Berbet, a pediatra, daquele jeito preocupado dos pais, em que cada infecção de garganta é sentença de morte, e a mãe tranquiliza, daquele jeito maternal de quem sabe que existe sempre uma dessas enfermidades a espreita ao menos umas três vezes por ano.

Naquela madrugada você se sente mal e passa pra cama dos seus pais. Achar o termômetro de madrugada é aquele suplício, você começa a suar, o pai coça a cabeça. 38,5ºC é a sentença de febre que ninguém quer ouvir no meio da noite. Significa que em segundos sua mãe vai falar: "melhor entrarmos com o antinflamatório, mas antes vou dar um banho nela". Não sei se suas respectivas mães já enfiaram vocês num chuveiro meio frio, no meio da noite, pra abaixar a febre. É horrível. Você está morrendo de frio, com o corpo doendo e querendo morrer e sua mãe tentando te tranquilizar, "é pra abaixar a temperatura, meu bem, só mais mais um pouquinho!".

O pai, que havia saído de pijama, todo amarrotado, para comprar Scaflan chega em casa, você toma aquele remédio branco leitoso, mas docinho, e acaba dormindo na cama dos pais, entre os dois.

No outro dia, pela manhã, sua mãe anuncia, nada de escola naquele dia. Você até ficaria feliz se não estivesse se sentindo mal de verdade, tanto que nem consegue chamar as amigas do prédio pra brincar. Os avós passam em casa pra te visitar, tomam um café, "coitadinha dela, os olhinhos estão fundos, ficou abatidinha", constata a avó, toda chorosa. Como a mãe precisa trabalhar, você passa a tarde na casa da avó, sendo mimada e cuidada o dia inteiro. Chegando lá já tem um local no sofá reservado, com cobertor, travesseiros, meias, e os remédios enfileirados na mesa. De meia em meia hora os pais ligam para saber como você está. "Ainda está quietinha, mas sem febre, dormiu um pouco, não quer comer".

Mais tarde chega a hora da temida Novalgina. Poucas coisas são tão ruins quanto, ou piores, que Novalgina em gotas. Tomar aquele remédio sempre foi um suplício para mim. Minha avó, na melhor das intenções, pingava as gotas numa xícara minúscula de flores,e punha um pouquinho de açúcar. Mal sabia ela que ficava pior ainda. Eu chorava, fazia vômito, meu pai começava a ficar nervoso com a manha. Minha mãe apertava minha boca, do jeito que se faz com cães, e meu pai com toda aquela paciência enfiava a colher de sopa - que nem cabia na minha boca - com a mistura nojenta goela abaixo. "Se vomitar é pior, vai ter que tomar de novo".

Aí que eu, de volta a 2010 e à semana de provas, encontrei uma Novelgina em gotas no meio dos remédios do meu pai. Ele me sugeriu tomar umas 40 gotinhas, para acabar com a dor e não me deixar ter febre, e tudo isso me veio a mente. Os termômetros, os banhos no meio da noite, a Novalgina com açúcar, o "se vomitar toma de novo" e acabei deixando a Novalgina de lado. Tomei um inútil comprimido de Tylenol e concluí que era mais legal ficar doente quando criança, mas nessa época eu não podia tomar comprimidos.

Feliz dia das crianças!



sábado, 9 de outubro de 2010

Para nós


Essa é a terceira postagem de aniversário que eu escrevo para a mesma pessoa, e fico aqui me perguntando se vocês já não estariam de saco cheio de me ler over and over again falando a respeito da mesma pessoa. Mas aí me lembro também que se eu deixar de escrever, ainda que seja a mesma coisa, essa pessoa provavelmente vai fazer um escândalo, até porque ela está me cobrando isso há algumas semanas, e decido então que devo sim escrever, para evitar dores de cabeça futuras, mas para, principalmente, reiterar a importância dela na minha vida.

Obrigada, Matheus, por estar vivo mais um ano e por ser meu amigo. A gente provavelmente passa muito mais tempo brigando do que num clima amistoso, principalmente porque você me conhece tanto e tão bem que sabe exatamente aquilo que mais me irrita e me deixa louca da vida: inventa de querer me mandar, fala que eu não estudo, me liga só pra me acordar, me cutuca, fala ininterruptamente sobre trabalhos de escola, não me deixa prestar atenção na aula e ainda por cima acha que pode me obrigar a fazer as coisas.

Só que, poxa, o que eu faria nessa vida sem você o dia inteiro pra me atormentar? Fazer desenhos de mim a aula inteira e ainda ouvir quando eu resolvo criar a roupa que eu quero, xingar as atrizes adolescentes e mirins da Globo, apostar corrida nos corredores do shopping, sem você roubando comida do meu prato e enfiando a colher no meu sorvete de leite que custa os olhos da cara, derrubando minhas amoras, caindo de rir de música sertaneja brega nas Lojas Americanas, brincando de rico e depois de ricos em guerra, tirando fotos vilenas no espelho do shopping e todo esse monte de coisa estúpida e feliz que a gente faz o dia inteiro.

Meu irmãozinho mais, novo, feliz aniversário. Agora chega de amor, xô, passa fora vira-lata, sem vergonha, passa, xô. Passa fora indecente, picareta, passa, xô.



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sem título, começo ou fim

D'onde estava, confortavelmente acomodado no sofá amarelo, com os pés esticados no pufe a sua frente, via no chão uns fios de cabelos escuros, feitos em ondas, espalhados. Via também o começo de uma testa, sobrancelhas, e quase poderia flagrar um par de olhos não fosse o jornal o aberto em página dupla que, da maneira como ela se ajeitava, cobria-lhe quase todo o tronco permitindo que dos membros superiores fossem vistos somente os quatro dedos de cada mão nas extremidades do periódico. Após o fim da folha era possível ver acima dos joelhos redondos a barra não feita do que outrora fora uma calça mas que dela trazia somente os fiapos restantes da metade inferior amputada, dando-lhe ares de bermuda; se avançasse mais os olhos observaria, apoiados no sofá, os finos pés e as unhas pintadas de cor de laranja.

Fingindo olhar na tv muda o futebol, ele acompanhava o ritmo da mudança de páginas do jornal diminuir, os dedos segurarem as pontas com menos determinação - sinal de que os olhos também já começavam a ceder por detrás do caderno de Literatura. E mesmo sem ver a redenção dela ao cochilo vespertino, ele intensificava a suavidade com que lhe afagava as canelas finas para que logo se desse, por fim, a entrega; quando os dedos folgassem de vez e o jornal lhe caísse na face, ele então o recolheria e poderia, do lugar onde estava sentado, admirar-lhe o rosto por inteiro.

(Eu tinha a nítida lembrança de ter pensado nesse fragmentozinho enquanto lia o jornal preguiçosa na cama numa manhã de domingo, mas não me lembrava que o tinha de fato escrito. Eis que o encontro no meio do meu caderno de Geografia. Pequeno e bobinho, só pra dar uma arejada nessa semana de provas turbulenta.)



sábado, 2 de outubro de 2010

É por isso que o Brasil não vai pra frente

Não é de hoje que quero escrever sobre eleições. Há nos meus arquivos um rascunho há muito começado, visitado quase diariamente em busca de uma conclusão daqueles pensamentos que rodam aqui dentro a cada horário eleitoral, entretanto não saio das ideias soltas. Portanto, apelo a uma entidade superior, que disse muito e que eu nunca almejaria fazer melhor. Atentem à data em que foi escrita a crônica que irei postar logo abaixo, 15 de agosto de 1876, e finda a leitura, pensem se muita coisa mudou.

Analfabetismo

Machado de Assis - 15 de Agosto de 1876

"Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

- Quando uma constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

- A nação não sabe ler. Há 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, - por divertimento. A constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

Replico eu:

- Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições ...

- As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem...” dirá uma coisa extremamente sensata.

E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento."