terça-feira, 29 de novembro de 2011

Manifesto contra frescuras no café

Não sou uma pessoa fina e cheia de frescuras em se tratando de comida. Sou mineira do interior, e por mais que tenha sido criada em cativeiro e me transformado nesse ser urbanoide que sou, não nego que tenho cá meu pé na roça. Fui criada na base de frango caipira, farofa e doce de compota. Gosto de mesas e pratos fartos e esse papo de que em restaurante fino de chef celebridade a gente vai pra ~degustar~ e não encher a barriga me deprime um bocado. Qual a graça de comer sem se fartar? Odeio porções pequenas, odeio frescurites e acima de tudo, odeio beber café na xícara.

Minha mãe sempre foi viciada com café, vício que herdou da minha avó - cuja casa serve café fresco a qualquer hora do dia - e mesmo quando era a única que bebia em casa, não deixava de, todas as tardes, preparar uma garrafa só pra ela e tomar sozinha. Até o dia que eu resolvi experimentar aquilo que era tão cheiroso, e que ela tomava com tanto gosto e amor, e me apaixonei também. Desde então, somos duas cafeinômanas que tomam uma garrafa inteirinha de café aos fins de tarde e manhãs preguiçosas de fim de semana. 

Foi mamãe que me ensinou a fazer café e me disse que não existe esse papo de medida certa. É uma coisa de olho, tanto pra água, como para o pó e o açúcar. Assim faço desde que ela me ensinou, e são poucas as vezes que erro a mão e meu café não fica sensacional. Que me perdoem a falta de modéstia, mas não troco meu café por nenhum café do mundo. Por muitas vezes já desejei uma máquina estilo Nespresso ou Dolce Gusto, mas sei que elas só me valeriam para capuccino ou para as raras vezes que tomo um espresso, porque acredito num café roots, desses de coador. Espresso bom é espresso cowboy, e desses só consigo tomar quando estou muito necessitada de uma energizada diferente, o faço como se fosse uma dose: viro de uma vez e não se fala mais nisso.

Meu avô só bebe café no copo de vidro, aquele americano de boteco sujinho ou então o bom e velho copo de requeijão. Quando sai o café fresco ele chega, coloca três dedos no fundo do copo e sai. Em Tupaciguara eu também só tomo café no copo e acho que tem toda uma bossa especial que não sei explicar. Aqui em casa somos adeptas das canecas, temos uma coleção. Canecas coloridas, canecas de bichinhos, canecas desenhadas, canecas da Hello Kitty, temos de tudo um pouco. O segredo é encher de café até um pouco abaixo da metade, porção que serve bem, apesar de eu sempre tomar duas (ou três), e não esfria se o papo estiver bom. Tomo café em tudo quanto é lugar, menos na xícara.

Em um episódio de Gilmore Girls, Lorelai teve uma de suas tantas brigas com o Luke e as duas precisam arranjar um outro lugar para tomar café-da-manhã. Encontram uma casa de chás até charmosinha, mas Rory não deixa de esconder seu horror ao ver que lá se serve café na xícara. Que inapropriado! Que afronta! Me senti compreendida no fundo da alma: eu não estava sozinha. Xícaras de café são minúsculas e, pra início de conversa, a boca da gente mal cabe lá dentro. O outro - e maior, e mais óbvio - problema é o da quantidade. É sério que tem gente que se satifaz com aquela dose de passarinho? É sério que tem gente que chega numa cafeteria, paga uns três reais por aquele golinho, se levanta e vai embora? 

Quem bebe café na xícara está perdendo uma grande experiência de vida, que é a de tomar um bom café numa enorme caneca, dessas que chegam a tampar nosso rosto quando viradas. Isso é que é vida, isso é que é felicidade. Café na xícara é uma espécie de coito interrompido da cafeína, com o perdão da grotesca metáfora. É por isso que quando chego nos lugares que servem café, sempre opto pelo capuccino e raramente tomo café fora de casa. Na casa dos outros tenho que fazer a fina e tomar umas 5 xícaras não pega muito bem, e nas cafeterias eles inventam tanta moda com os cafés que sempre acabo frustrada. O capuccino pelo menos vem numa xícara grande e permite mais invencionices sem que a coisa dê errado com facilidade.

Para as xícaras abro só uma excessão: o cafézinho que se toma após o almoço. Nesse caso, a xícara torna-se a medida ideial. Depois do almoço ninguém quer café pra ser feliz, quer só "dar um tempo pra comida assentar", como se diz por aqui, relaxar antes de seguir com o dia ou uma desculpa para mais dez minutos de conversa. De resto, por mim, xícaras seriam abolidas dos chiques jogos de porcelana e substituídas por coloridas e fofas canecas gigantes.




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Aquele com o prato de salada no cinema

Essa história seria bem mais engraçada caso vocês conhecessem a personagem principal: Anaisa, minha melhor amiga para todo sempre, salve salve. Faria mais sentido se vocês soubessem por meio de anos de convívio que Anaisa parece uma personagem de sit-com, uma fusão entre Joey, Phoebe e Monica, de Friends, porque aí, ao fim desse texto, vocês só pensariam: mas é mesmo a cara da Anaisa. Como nem tudo é do jeito que a gente idealiza, vocês fiquem aí imaginando uma pessoinha minúscula com enormes olhos verdes, que reúne em si uma falta de noção bem Tribbiani, com as excentricidades da Phoebe, aliados à neurose da Monica, açúcar, tempero e tudo que há de bom e tente imaginar a Anaisa.

Estava na fila do cinema junto com a Isabela, esperando a Anaisa para assistirmos Meia-Noite Em Paris (sim, esse episódio é antigo). Ela, claro, chegou meia hora depois do combinado, descabelada e aflita, e pediu que esperássemos mais 10 minutos porque na correria ela não tinha comido nada e precisava jantar alguma coisa. Esperamos. Mesmo em se tratando da Naná, imaginei que ela voltaria com uma pipoca, uma batata ou, no máximo, um sanduíche. Não. Anaisa voltou com um prato de salada. E não era uma cumbuquinha prática como as do McDonalds, mas sim um senhor prato de salada, cujo diâmetro era maior (bem maior) que o de um prato tradicional.

Depois de perguntar por que raios ela tinha comprado uma salada ao invés de escolher alguma coisa mais prática, rir da cara dela e encher muito o saco, ainda tivemos que ajudá-la a enfiar aquilo dentro da bolsa, porque, claro, não se pode entrar no cinema com um prato de salada. Felizmente conseguimos escondê-lo e as luzes já estavam parcialmente apagadas quando ela o tirou lá de dentro e colocou-se a postos para comer. "Hm, que gostosinho", ela disse, ao retirar a tampa de plástico. Eu ri, a Isabela riu, porque nós sabíamos que não seria tudo tão simples assim.

Estávamos lá abraçados com o Owen Wilson, a Marion Cotillard e o casal Fitzgerald quando ouvimos um murmúrio de nojo. "Eca, essa salada tá muito ruim". Perguntei qual era o problema, e Anaisa disse que provavelmente tinha colocado um molho ruim. "Mas Anaisa, minha cara, você não escolheu uma coisa que gosta?", perguntei. "Ah, eu costumo pedir esse prato, mas aí decidi inovar no molho e agora descobri que não gostei. Experimenta um pouco pra você ver como tá ruim!" Claro que eu não experimentei. Já não sou a maior saladeira do mundo, ia lá trocar minha pipoca por uma garfada de alface que a senhora dona Anaisa ainda havia dito que estava ruim? O cheiro já não era dos mais convidativos, e eu tinha certeza que havia alguma castanha ou passa ali no meio. Dispenso.

E entre uma risada com o Salvador Dalí ali e um suspiro pelo Hemingway acolá, Anaisa murmurava: "Não acredito que paguei vinte reais nesse troço... vinte reais, meu rico dinheiro... poderia estar comendo um macarrão muito mais gostosinho que isso... e agora vou ter que jogar isso fora, que desperdício de comida e dinheiro..." e assim foi até o fim do filme. Lá pela metade ela desistiu completamente de salvar a salada e estava comendo os restos das minhas pipocas junto com os amendoins da Isa.

O filme acabou e saímos do cinema, eu, Anaisa, Isabela, e aquele enorme prato de salada. Anaisa pediu para esperarmos, pois ela precisava fazer uma coisa. Não entendi direito o que ela tinha que fazer, afinal já passava da meia-noite e as únicas pessoas naquele shopping eram os faxineiros e quem estava saindo do cinema. Ela explicou então que como não havia mais talheres descartáveis no restaurante, a atendente do Salad Creations havia lhe emprestado um garfo e uma faca do lugar, fazendo-a prometer que devolveria ao fim da sessão. O problema era como iríamos fazer aquilo, já que o restaurante estava fechado.

No fim das contas a pequena e intrépida Anaisa muito discretamente jogou os talheres por baixo do toldo do lugar, enquanto eu e Isabela morríamos de rir olhando de longe, para que ninguém pensasse que éramos uma quadrilha de mocinhas elegantes que, no tempo livre, resolvem assaltar restaurantes da praça de alimentação do shopping de madrugada.

As meninas vieram dormir aqui em casa depois e o prato com os restos da salada foi parar na minha geladeira. No dia seguinte, quando estava indo embora, Anaisa saiu correndo e disse muito esperta que ia deixar a sala pra minha mãe, já que ela não ia comer mesmo. Sem tempo de questionar, deixei. Mais tarde, quando minha mãe chegou, foi logo me gritando e quando vi ela estava na cozinha com um garfo na mão provando a salada, perguntando de onde aquilo tinha surgido e o que tinha naquele troço que estava deixando tudo tão ruim. É mesmo a cara da Anaisa.




sábado, 19 de novembro de 2011

Who's that girl?

   
In Zooey Deschanel I trust

Não vou esmiuçar aqui os motivos que me levaram a ter essa relação ambígua de amor e ódio que tenho com a Zooey Deschanel. O fato é que comecei a assistir New Girl única e exclusivamente por causa dela, e no fim das contas cheguei ao sexto episódio vendo sua figura com mais amor do que implicância. Ajuda bastante o fato da série estar ficando mais bacana e engraçada a cada episódio, e apesar da personagem dela ser um tanto caricata demais pro meu gosto, sinto que dali ainda pode vir coisa boa. Até lá, sigo sendo team Schmidt, uma espécie de Joey Tribbiani só que mais bobo e sem noção. Sim, isso é possível.

No entanto, não são apenas os excessos de Jess - a personagem de Zooey - que me incomodam. Ela é a protagonista da série, que depois de flagrar o namorado com outra enquanto tentava seduzí-lo fazendo coisas sexys com a almofada (quem assiste vai entender), vai morar num apartamento com três caras bem diferentes que tem que aprender a conviver com o Jess way of life. No episódio piloto, assim que ela chega pra entrevista, imaginei que os caras do apartamento não iam pensar duas vezes antes de aceitá-la como moradora, enxergando a presença dela ali como uma chance única na vida, sonho de infância tornando-se realidade: eles iriam morar com aquela garota maravilhosa. Tipo, não é isso que eles deveriam pensar?

Não. Em New Girl, eles discutem longamente sobre aquilo ser ou não uma boa ideia, e mesmo quando Jess consegue se mudar, eles passam mais tempo constrangidos do que deslumbrados por ela. E não é um constrangimento do estilo 'ela é areia demais pro meu caminhãozinho', é mais uma coisa 'que garota louca, quem trouxe ela aqui?'. Em New Girl, Jess não é a Zooey Deschanel, e isso faz com que eu ache a série um tanto quanto inverossímil. Jess não é vista como musa maravilhosa, e sim como uma garota esquisita, que gosta de cantar para si mesma, é obcecada por Dirty Dancing e assusta os caras com tanta excentricidade. Ela, com seus óculos de aro grosso e roupas retrô, não faz sucesso com os homens nem mesmo antes de abrir a boca e ser ela mesma e estragar tudo. Só eu que acho isso muito estranho?

Se eu fosse homem, seria completamente obcecado pela Zooey Deschanel. Poderia dispensar todas as ressalvas que tenho em relação à ela - que eu imagino que pra maioria dos caras não fazem o menos sentido - e a colocaria como um norte, critério de comparação, sinônimo de perfeição, da mesma forma que tenho, por exemplo, Adam Brody, Ed Westwick, Jon Foreman e Chico Buarque como referências na minha vida. Muito me assusta o fato de eu já ter ouvido vários homens - sim! - dizerem que nem acham ela tão bonita assim. Vai ver eu não entendo nada de mulher. Ou não sei muito sobre os homens. Pior: talvez eu não saiba absolutamente nada sobre nenhum dos dois, o que eu acho até provável. Uma coisa que muito me intriga é que, num universo onde Zooey Deschanel é uma coisa meio qualquer nota, O QUE É QUE SOBRA PRA MIM?

Isso me lembrou de uma passagem de As Virgens Suicidas que tanto me intrigou que eu nunca esqueci e estava só esperando a oportunidade para usá-la aqui como gancho para um debate:

“Durante a dança, sustentou uma conversa educada, do tipo que as belas mulheres tinham com os duques durante as valsas nos filmes antigos. Mantinha-se bem empinada, com Audrey Hepburn, que todas as mulheres idolatram e em quem os homens nem pensam."

Se isso for mesmo verdade, a única conclusão à qual consigo chegar é que estou fazendo as coisas muito, muito errado e vai ver é por isso que estou aqui escrevendo esse post, numa noite de sábado, esperando um filme com a Lindsay Lohan começar na Globo. Dublado. Não que eu vá mudar ou algo do tipo, mas é só pra deixar registrado que estou ciente da forma que estou amarrando meu jegue, e do vestido que uso enquanto faço isso. 




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Na natureza selvagem

Olha, não me levem a mal, mas eu acho brega pra caramba esse papo de natureza. Não que eu tenha algo contra ela, pelo contrário, só me irrita um pouco a pieguice da qual as pessoas abusam sempre que algo verde entra em questão. É um papo de Mãe Natureza, Mãe Terra Em Revolta, Verde-Que-Te-Quero-Verde, Pulmão do Mundo, etc, etc, etc, que me brocha deveras, tipo gente que ama dizer que busca estar sempre em sintonia com o universo ao seu redor, suas energias e vibrações e esse tipo de conversa. Meu sono eterno pra essas pessoas.

Daí que esses dias eu estava na escola, feliz e amando o mundo mais do que o normal, graças ao meu bom resultado na prova de Física que havia acabado de fazer, e achando tudo lindo mesmo. Reparei no flamboyant, todo vermelho de primavera, aquele solzinho da manhã apesar do dia frio, o céu todo azul, aquele passarinho gordo ciscando ao redor e... oi, o pardalzinho estava sentado em cima de três plumas cinzas, que logo percebi que eram seus filhotes que provavelmente caíram do ninho. Antes que pudesse soltar um pouco mais do OWWNNN interior que se apoderava de mim, um lagarto enorme e nojento foi para cima dos bichinhos, e a mãe pássaro tentou defender a prole batendo as asas muito rápido e tentando bicar a cabeça daquele réptil atrevido. Saí correndo de perto, claro, mas assim que a confusão passou tive que voltar pra ver os filhotes, uma vez que a mãe havia escafedido para sei lá onde.

Um deles devia estar morto há um tempo, pois estava coberto de formigas. Teve que ir pro lixo. O outro, coitado, também morto e sem uma perna. Troço brutal que é a natureza, matutava ali com meus botões, observando a seleção natural agir diante dos meus olhos. Os mais fortes sobrevivem, pensava eu ao lembrar das minhas aulas sobre Evolução, os vestibulares que me aguardavam, o Big Brother Brasil e toda a antropologia prática que meus 17 anos de vida me puseram em contato. O negócio é que ando com essas ondas maternais e profundamente sentimentais, e não conseguia ficar em paz. Chamei um amigo, também tocado com a situação, e fomos até a horta enterrar decentemente o Sem Pernas - nome que demos ao bichinho (estava lendo Capitães da Areia). Um montinho de terra e uma pedrinha pra assentar e eu já estava quase em paz com o mundo novamente.

Restou um filhote, esse vivo. Uma bolinha que mal tinha penas, miúdo e frágil, do tipo que ia embora fácil com um vento mais forte. Suspirei de novo e pensei que a natureza era uma coisa realmente admirável, via ali aquele passarinho, cujos olhos nem estavam abertos ainda, as patinhas minúsculas e a pele tão fina que quase nos deixava ver o coração e os pulmões, que se enchiam e esvaziavam, único sinal que nos permitia ver que ele ainda vivia. Troço estranho que é a natureza, aquele ali estava destinado a morrer. Imaginei a mãe-passáro, olhando pra ele com desdém de cima da árvore, como mães japonesas linha-dura que acreditam que melhor ter um filho morto do que um filho falho. Coitado. Aquela história já havia me deprimido tanto que eu, achando que não podia fazer mais nada, queria ia embora logo.

Foi aí que apareceu, do nada, um técnico da companhia de energia. Meu amigo gritou e perguntou se ele por um acaso não tinha ali uma escada bem grande. Ele tinha não só a escada como a boa vontade para nos emprestá-la. O inspetor da escola subiu até o degrau que o permitia alcançar o galho onde estava o ninho dos pardais, e quase sendo atacado pela mãe que estava ali de guarda, colocou a ovelha negra de volta ao seu lar quentinho, onde a mãe dá comida na boca e ele tem os outros irmãos para esquentá-lo. Fiquei tão feliz com o desfecho da história, que antes tinha tudo pra me deprimir, que saí da escola saltitante, entrei no ônibus assoviando, imaginando que a Branca de Neve (ou a criança Anna Vitória viciada em Branca de Neve) se orgulharia daquele gesto. E fui andando até a casa da minha avó pensando que, naquele dia, todo o mundo, e a natureza, e a Mãe Natureza e o Verde-Que-Te-Quero-Verde e as breguices que as pessoas inventam, estavam do meu lado. Ha.

Quando é que eu ia imaginar que, naquela tarde, o "Pereirão" que minha mãe havia chamado para dar um jeito nos encanamentos de casa iria descobrir que o registro hidráulico do meu banheiro estava quebrado da forma mais desastrosa possível? Sim, foi essa a conclusão que ele chegou quando algo nas entranhas do apartamento estourou, fazendo uns 20 mil litros de água jorrarem por segundo, por uns 10 minutos, do enorme buraco que ele abrira. Estava no meu quarto e foi tão rápido e insano que eu mal tinha entendido o que havia se passado quando a água começou a invadir o ~meu mundinho~ e eu tive que me virar para proteger todos os cabos, tomadas e fios do computador. Aguaceira controlada, andei pela casa, toda inundada e pensei, novamente, que a natureza era uma coisa hardcore mesmo. A gente pensa que tem noção da força da água quando leva um caixote no mar e come areia ou algo do tipo, mas não imagina o tanto que a coisa é feia até ter que tentar, desesperadamente, conter todo aquele volume, com panos e toalhas, torcendo para os quartos não se molharem tanto assim e pro enorme tapete da sala não apodrecer. Chico, coitado, subiu no sofá e ficou tendo tremeliques, enquanto eu me resignei ao triste destino daquela tarde, que era rapar e rapar e rapar e rapar e rapar todo aquele Tejo de dentro de casa. Entre uma passada de rodo e outra, não conseguia parar de pensar nas pessoas que são vítimas das enchentes, nas pessoas de Nova Orleans que não tiveram só suas casas, mas sua cidade inteira coberta pela água, e naquela senhora que tentou salvar seus cachorros da força da água. Um tapete mofado não era nada perto disso, e ia pensando nessas coisas melancólicas para evitar que um aff-que-bosta-perdi-a-hora-na-manicure bem egoísta e classe média sofre saísse da minha boca por acidente. Porque a fala na real é, novamente, aff que bosta, quem foi que inventou essa história que só que é forte sobrevive?

Confesso, foi uma quinta-feira meio filosófica e inspirada.

Ao fim do dia, aceitei o convite da minha querida Isabela para acompanhá-la a uma caminhada de cachorros, uma cãominhada de lua cheia. E mesmo com as costas doídas, a cabeça pesada, e sabendo que perdi um dia todo passando o rodo no apartamento, vendo aquele céu, a lua enorme, o vento gostoso, e aquela infinidade de cachorrinhos lindos e maravilhosos, suspirei e pensei comigo mesma, pela quinquilhonésima vez ao dia: êta Deus maravilhoso, a natureza é algo bacana sim. E voltei a ficar em sintonia com o universo ao meu redor, suas energias e vibrações.



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Virgens suicidas, só que ao contrário


Ontem No dia que escrevi esse post,  havia assistido Heathers pela segunda vez em uma semana e não consigo parar de me perguntar como vivi 17 anos da minha vida sem ter visto esse filme. Para explicá-lo, basta pedir para que vocês peguem Meninas Malvadas, Gossip Girl, Clueless e John Hughes, joguem num caldeirão juntamente com Clube da Luta, Quentin Tarantino, Alice no País das Maravilhas, Winona Ryder como protagonista e misturem bem. Parece piada, mas eram os frutíferos e saudosos anos 80, quando algo assim era concebível e realizado.

Veronica - Winona Ryder musa - é uma garota que faz parte do grupo das populares da escola - as Heathers - , mas meio contra sua vontade. Apesar de reconhecer que aquilo é realmente estúpido e que as coisas que suas amigas fazem com os outros (em parceria com os jogadores de baseball musculosos e descerebrados) é um bocado cruel, ela não consegue fugir daquilo. Todas as vezes que tenta se desvencilhar de sua panela, é puxada de volta pela líder, Heather Chandler, que, com seu incrível poder de persuasão, lembra Veronica da triste realidade que a espera fora daquele grupo. Sem as Heathers ela iria do topo ao completo ostracismo.

Tudo muda, no entanto, quando ela se envolve com JD, o garoto novato e misterioso que após fisgar Veronica e ouví-la murmurar sobre o profundo ódio que nutre por Heather Chandler e seu bizarro poder de influência, convence a garota a pregar uma peça na "amiga", plano que no final sai um pouco do controle quando eles acabam por matá-la (sim!!!!) e fazem todos acreditarem que foi um suicídio motivado pela descrença dela diante do enorme vazio que era ser a garota mais popular da escola.

O macabro plano de JD, no entanto, era mais abrangente que simplesmente dar cabo à vida de Heather: o que ele queria mesmo era protestar contra aquela sociedade capitalista hipócrita, perfeitamente representada no microcosmo das escolas e em seu sistema de hierarquia que subjugava e hostilizava os jovens americanos, fazendo-os pessoas malvadas, egoístas e profundamente traumatizadas enquanto eles deveriam era estar lendo o Manifesto Comunista ou algo do tipo - essa inserção de Karl Marx na história fica por minha conta. De que forma ele planejava fazer isso? Matando seus ícones ou simplesmente explodindo o colégio. Um embrião de Tyler Durden, basicamente.

O filme é claramente a fonte de onde os roteiristas de Meninas Malvadas beberam, uma vez que a personagem da Lindsay Lohan, que inicialmente deseja sabotar a rainha má Regina George, mas que depois se vê seduzida e presa àquele mundo que a reconhecia, temia e idolatrava. Mais claramente ainda enxergamos Gossip Girl, principalmente no que diz respeito à estética: as meias calças coloridas e as tiaras enormes na cabeça das rainhas do Upper East Side vieram diretamente do universo das Heathers, com exceção das tiaras, uma vez que, no filme, o maior símbolo de poder é uma fita vermelha. A Veronica, no caso, seria a Jenny, garota que faz de tudo para entrar naquele meio e depois faz de tudo para acabar com ele. A referência ao Tarantino fica por conta do humor negro e do extremismo da história: não gosta da menina popular? Mata. Se ele fosse dirigir um filme adolescente, esse é exatamente o tipo de coisa que aconteceria.

Enquanto As Virgens Suicidas, em toda sua melancolia e profundidade coloca o suicídio como forma de reação e escape ao aprisionamento que é ser uma garota numa sociedade repressora, Heathers opta pelos assassinatos disfarçados de suicídios para denunciar a brutalidade do meio escolar e das pressões sociais que vem com a adolescência. Os tons pastéis e pálidos da Coppolinha, com suas personagens quase etéreas, são contrapostos pelas vibrantes cores dos anos 80 e a explosividade do filme de Michael Lehmanm. Um não é melhor nem pior que o outro. São diferentes e se complementam, e qualquer um que seja atraído pelos muitos elementos supracitados ou deseja ver um filme realmente divertido, deveria assistir Heathers urgentemente.




quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O amor nos tempos do SMS

Lá estava eu deitada no sofá, encolhida embaixo do meu cobertor lilás com uma bolsa de água quente na barriga numa bruta terça feira, quatro da tarde, assistindo Friends. Motivo? Nasci mulher. Mas isso são outras quinhentas reclamações, a história que quero contar hoje é diferente. Eu estava lá deitada, quase morrendo, quando meu celular apita. Uma mensagem. Pensei que deveria ser da minha mais fiel correspondente, a Tim, que não passa um dia sem me mandar mensagens que não me interessam, mas não, não dessa vez. Eis que eu li:
"vic linda ate hj naum consegui te eskecer e qria saber se rola nois d novo /pedro xxx" (sic)
Nesse momento, algo dentro de mim começou a se agitar. Vocês sabem que existe algo na minha pessoa que atrai bizarrices, tombos e gente estranha que cisma com a minha cara e, apesar da na maior parte das vezes isso mais me aborrecer do que divertir - apesar de que episódios do tipo costumam render altas histórias engraçadas para contar aqui - , eu sempre torci para que alguém, por acidente, começasse e enviar mensagens pro meu celular. Só pela graça. E mesmo sem saber se esse era o caso da mensagem - e não só alguma amiga minha querendo me encher o saco - senti que ali havia potencial para divertir minha tarde solitária de dor e peso na consciência por não estar estudando. Fiquei com dó de trollar de imediato e mandei um singelo "oi??" como resposta, para ver se obtia melhor esclarecimento sobre meu remetente. Eis que minutos depois recebo de volta:
"na vdd agnt nunk fico mas é q eu to mto afim" (sic)
Ok. Antes o Pedro queria um revival com a Vic e agora a história já é outra, eles nunca ficaram antes. Fico pensando nessa Vic, recebendo essa mensagem assim no meio do dia. Seria ela tosca o suficiente para se alvoroçar diante de tão tocante declaração de amor ou apenas uma pobre coitada atormentada com um encosto vileno no seu pé? Resolvi dar mais uma chance para o príncipe encantado escapar da oportunidade de virar história aqui e disse-lhe, pacientemente, que ele estava mandando mensagem pra menina errada. Mas ele, intrépido, não se fez vexado:
"né n ah do exitus msm vc é mto linda /pedro. eu so feio por isso se vc naum quiser eu vo entender mas eu qro te amar qro te encontra vc pra mim e tudo minha terra meu ceu meu mar. tchugurugundagtcurunn" (sic)
Pedro, meu caro, imagino que você deva sofrer de problemas de auto-estima. Primeiro porque parece valorizar muito a lindeza da tal Vic, já que não cansa de destacá-la, e isso é bom, porque mulheres amam ser elogiadas; depois porque você, antes mesmo de ficar com a menina, já está aí se desvalorizando e achando que o fato de eu ter dito que não era a destinatária correta dos seus amores era sinônimo de um toco. Já fizeram isso com você antes? Fingiram amnésia ou inventaram uma irmã gêmea? Dicona: não desvalorize seu produto assim de cara, você compraria alguma coisa que te alerta na embalagem que não presta?  Sobre a parte da música eu vou me abster de comentar, porque né. Kid Abelha das antigas, deve ter feito sucesso na época dos meus pais e vai ver esses versos já ajudaram vários caras a conquistarem suas amadas, mas estamos em 2011 e a coisa agora é diferente - não, não estou falando pra você escrever uma letra do Luan Santana. Quer dizer, quem sou eu pra falar, né? Vai que a Vic curte. Eu não, mas tenho que te cumprimentar pela transcrição genial do tchururu da música, eu não teria feito melhor.

Respondi, de novo, que eu não era a menina que ele queria estar ~azarando~ via SMS, e ele pareceu entender. Ou não:
"intaum desculpaa foi a muie errada. mas msm assim rola alguma coisa?"
Foi a gota d'água. Homens, por quê? Se nós somos as loucas, vocês não facilitam, mas muito contribuem. Nesse momento cansei de ser legal e respondi - com palavras completas, acentos e vírgulas - que só podia ser palhaçada ele estar me perguntando aquilo sendo que: a) a gente não se conhecia b) ele tinha se declarado pra outra menina há poucos minutos c) se ele pensava que chamar alguém de 'muie', principalmente se esse alguém sou eu, conduz a algum tipo de envolvimento, ele estava muito enganado ou convivendo com garotas idiotas. Não resisti, desculpa. Resposta?
"esse meu jeito de falar nao reflete minha cultura. vc é linda sou amg de uma amg sua" (sic)
Minha mensagem deve ter ficado um pouco grande, porque acho que enquanto o Tico lia o que estava escrito e o Teco ajudava a entender, os dois neurônios simplesmente jogaram ao vento todo aquele esclarecimento que muito trabalhosamente o fiz chegar sobre eu.não.ser.a.tal.da.Vic e nem conhecer ele e muito menos a menina. Nesse momento comecei a pensar que deveria ter o dedo da Carolina nessa história, porque estava inacreditável demais até para um acontecimento da minha vida. Se aquilo fosse verdade, minhas esperanças para com o futuro da humanidade diminuiríam para quase serem perdidas de vista. Por isso, resolvi dar corda para ver se algo acontecia, e perguntei qual amiga.
"tehtezinha"
Ele estava falando sério. E, apesar de aquilo estar engraçadíssimo, resolvi falar mais sério ainda e respondi que não iria falar de novo que eu não era a Vic, que não conhecia ele, que não era amiga de Tehtezinha alguma, não estudava no Exitus e não iria ficar com ele.
"ok bjoooos sua linda"
E essas foram as derradeiras palavras do guerreiro Pedro, que provavelmente deve ter chegado na escola hoje espalhando pra todo mundo que a Vic era uma vaca metida e arrogante que não tem coragem de dizer não e fica inventando desculpas esfarrapadas, e quiçá emendou que nem se ela viesse de joelhos ele ficaria com ela, por mais que ela fosse areia demais pro caminhão dele. Isso, claro, até o dia que ele, depois de olhar as fotos dela no Facebook pela milésima vez, resolvesse engolir o orgulho e tentar mais uma vez, pedir desculpas. Abriria então o Vagalume e talvez procurasse na letra de Garotos (estou sendo muito otimista? Amar Não É Pecado é mais provável?) algum verso que pudesse atingir o coração de gelo da Vic. Enviaria-lhe então outro sms, como se acenasse uma bandeira branca, e eu só espero que dessa vez seja esperto para ao menos acertar o número. Ou não.

Sério, onde é que vamos parar?