terça-feira, 27 de março de 2012

Manifesto contra bad vibrations

Ou: O inferno são os outros - mas só às vezes

Eu sou uma pessoa um pouco chata. Por pessoa um pouco chata vocês entendam que eu sou alguém que se sente incomodada por certas coisas que costumam passar despercebidas por outras. Por exemplo, eu fico incomodada com gente que fala alto perto de mim, fico incomodada com quem fala "táx" ao invés de "táxi", da mesma forma que fico incomodada ao ponto de clamar pela a morte quando me cutucam, ou que andem devagar na minha frente quando estou com pressa e até mesmo os pés de terceiros me causam desconforto. Obviamente ninguém gosta, creio eu, de gente barulhenta, gente que cutuca, gente que empaca o caminho, mas essas pessoas provocam em mim uma irritação que excede o normal. E sei que esses exemplos são particulares, mas certamente você, querido leitor, também se incomoda com certas nuances da idiotice alheia. Não somos perfeitos, não somos anjos. 

Vocês certamente se lembram como eu penei ano passado tentando estudar na midiateca da escola. Era cada asno que brotava no chão com o único intento de fazer minha vida mais difícil que só de lembrar fico nervosa. 2011 foi um ano difícil pra mim, e muitas vezes eu deixava que os outros me afetassem de modo a destruir meu dia todo. O mais triste de tudo? Enquanto eu, a boba-da-corte, surtava e sofria, não fazia o que tinha que fazer e ainda alugava o ouvido alheio com meus mimimis, os outros continuavam suas vidas, sendo graciosamente idiotas, e o mundo continuava girando. Daí um dia eu parei pra pensar se eles eram realmente importantes ao ponto de alterar a dinâmica da minha vida, atrapalhar meu bom humor. Claro que não eram. E por que eu sofria tanto por isso? Comodismo, puro luxo, preguiça, sei lá.

Os hippies não estão errados quando dizem que tudo aquilo que a gente envia pro mundo acaba voltando pra gente. Um exemplo simples? Meu pai. Meu pai é uma pessoa que se estressa absurdamente no trânsito. Ele é a pessoa mais intransigente do mundo com a má direção alheia e isso é um problema seríssimo, pois moramos em Uberlândia, a capital nacional da barbeiragem. Não passo um par de dias sem estar no carro com meu pai e observá-lo ficar extremamente nervoso com alguém no trânsito e passar o resto do caminho resmungando e murmurando sobre essa pessoa. E isso chega a ser tão ou mais irritante que a própria pessoa. Ele se irrita, reclama, o que me irrita profundamente, o que me faz ficar monossilábica com ele, o que deixa ele bastante irritado, e aí aquele tempo que tínhamos pra ouvir música e jogar conversa fora se torna um momento em que cada um fica no seu canto, irritadíssimo, desejando uma morte lenta e dolorida ao próximo. E as pessoas barbeiras no trânsito, fazem o quê? Seguem suas vidas de direção perigosa, quase atropelando uns por aí, sem que nada mude. Ou seja, nada foi feito, só nosso dia que ficou um pouquinho pior. Qual o propósito disso?

Em um artigo no NY Times que nem tem tanto a ver com isso, Bill Maher diz que precisamos aprender a coexistir com as pessoas que nos irritam. É uma atitude digna de criança mimada querer viver num mundo onde ninguém te afeta de alguma forma. Bater o pé no chão e querer que elas sumam não é nem de longe a solução. Uma alternativa? Se desviar dos conflitos. Parei de frequentar a midiateca em época de prova. Meu pai deveria ligar o som alto, respirar fundo e fingir que não viu aquele cara não dar seta. Dê unfollow naquela pessoa idiota que só diz bobagem no Twitter. Adiante aquele livro enquanto o palpiteiro da sua sala diz abobrinhas pro professor. Faça sua vida fácil, e de quebra ajude os outros também. Sei que não parece, mas eu acredito que pessoas cheias de energia negativa contaminam as outras ao seu redor. O rancor, a raiva, e a irritação com coisas pueris contaminam a gente por dentro. Por isso, antes de reclamar, antes de ser escroto como uma pessoa porque foram escrotos com você antes, antes de mandar aquele cerumano pegar fogo, pense se realmente vale a pena gastar sua massa cinzenta com ele. 

Ao sugerir isso, não quero dizer que devemos ignorar tudo que nos incomoda e passar diante da vida como se estivéssemos frequentemente sob efeito de Fluoxetina, maconha e afins. Só quero dizer que a gente tende a mimimizar por pouca coisa e precisa se desprender disso. Tentar ser alguém melhor. Não é fácil. É muito mais simples reclamar e passar a vibe negativa pra frente do que deixar aquilo pra trás e seguir mais leve. Tão mais fácil! Mas o que você ganha por isso? Vai resolver seu problema e te fazer sentir melhor? Acredite, na maioria das vezes não. 

Quem pede isso é uma pessoa que já deixou muito idiota arruinar seu dia, chegou do outro lado e viu que é possível ser uma pessoa melhor.





sexta-feira, 23 de março de 2012

Chiquérrimo

Ler a biografia do Chico Buarque me trouxe dois sentimentos distintos: amor e descrença.

Quem escreveu o livro foi Regina Zappa, jornalista que já publicou outras coisas a respeito dele e mulher que, suponho, deve babar colorido por causa daqueles olhos também. Digo isso porque o livro todo é quase como uma ode à pessoa de Chico Buarque. Fala sim da história, dos perrengues, das dores e discos, mas sempre fazendo questão de ressaltar como ele é incrível, foda e querido. Com toda essa parcialidade fica difícil não se apaixonar mais ainda. A cada página que lia só conseguia pensar: que homem é esse, meu Deus? Parcial, sim, mas se até Nelson Rodrigues, o homem que declarou que toda unanimidade é burra, chamou-o de "única unanimidade nacional", que posso eu fazer senão derreter-me? 

O livro divide a cronologia de sua vida e carreira em blocos, cujo início traz uma contextualização histórica do período e depois relata o que lhe ocorreu e o que fez de mais interessante. Além disso, vem com pequenos perfis das pessoas que passaram por sua vida e descreve a forma como elas o viam. Maria Bethânia, a própria, por exemplo, declara que "Ele se esconde no charme que tem. O fato de ele se sentir Chico é problema dele, porque na verdade ele é uma presença diferenciada no palco. Dançava, brincava, fazia números. Desinibido, lindo. Não posso falar dele sem falar no cavalheiro que é. Tem uma alma elegante. Sou uma vergonha falando de Chico, babo de paixão por ele.". O jornalista Tarso de Castro numa reportagem sobre ele disse que Tom Jobim havia dito que não aguentava mais vê-lo falar bem de Chico e desafiou-o a encontrar um defeito no próprio. Sua resposta? O fato de Chico ser casado. Tom, por sua vez, pedia ajuda pra Chico na hora de "amarrar" suas composições e diz no livro que ele é "um excelente músico, excelente letrista, excelente cantor, excelente pessoa". Vinícius, o Poetinha, também compôs muito a quatro mãos com Chico - acho que minha página preferida do livro é a que contem alguns postais que os dois trocaram e o processo criativo de Valsinha - e ainda o chamava de Chiquérrimo (amei muito e já adotei na hora de gritar por Chico, o poodle).

Com o respaldo de tanta gente ótima, só me resta o amor. Amor de doer lá no fundo e deixar os olhos brilhando. Assim como Bethânia, babo de paixão. 

Além de apaixonada, também fiquei descrente de tão impressionada. Primeiro que antes de estourar no Brasil fazendo todo mundo parar pra ver a banda passar Chico já era sensacional. Mais novo que eu esse homem já tinha morado na Itália, já tinha lido mil livros, já desenhava cidades fantásticas, já conhecia um mundo de música e pingava eruditismo. Daí que assim, no susto e pela graça, ele compõe A Banda, que dispensa comentários. Seu amadurecimento só trouxe coisa boa e ele podia ser considerado um Midas - não só da música, mas teatro e cinema também - porque onde ele punha o dedo saía coisa incrível. Daí olho pra mim mesma e fico intimidada, sabe? Meio com vergonha. Sinto aquele livrão lindo e olhos (azuis? verdes?) do homem me encarando na capa como se perguntasse: Anna Vitória, minha filha, 18 anos no mundo e o que você fez?

Não sou dessas saudosistas de um passado que não vivi (ou evitava viver), mas fico meio com pena da minha geração. Não que não tenhamos hoje pessoas talentosas e incríveis, mas não se encontra gente do naipe dele hoje no país. E na época dele, não era só ele. Acredito que Chico só é quem é hoje porque cresceu num meio muito frutífero, com músicos, escritores e intelectuais fazendo saraus intermináveis na sua casa, em que os gênios eram acessíveis, em que a fama e o reconhecimento eram uma consequência de um trabalho muito bem feito, e não o contrário. Ele viveu uma era de verdadeiros artistas. Não pretendo entrar na discussão, mas a época dele foi diferente, o espírito era outro - LPs, festivais, folhetins, o Brasil inteiro cantando seu samba e não deixando-o reservado a uma pretensa elite - e fico pensando que ele viveu algo muito, muito bom - apesar das coisas ruins.

Recomendo sua biografia para todos, fãs ou não. É um livro babão sim, mas quem não quiser babar junto certamente ficará de olhos cheios com tanto material legal disponível: fotos, rascunhos de músicas, curiosidades, pitadas de história do Brasil e o melhor de tudo: um apanhado imenso de reportagens da época. Para mim, em todos os sentidos, foi uma delícia de livro. Analu e Renata não poderiam escolher mais certo.



terça-feira, 20 de março de 2012

Existe vida sem celular

(Post para ser lido com vocês fazendo uma imagem mental da minha pessoa sentada numa poltrona confortável, olhando vocês nos olhos e gesticulando muito, imagem em preto e branco e uma música meio brega tocando ao fundo. Pensem naquele quadro O Que Vi da Vida, do Fantástico, porque hoje tenho uma história de vida pra contar.)


Acho engraçado o modo como a gente se apropria de certas coisas novas que não conhecíamos antes e criamos uma necessidade quase patológica de tê-las por perto sempre, como se não tivéssemos vivido (e muito bem) por anos a fio sem elas. Celular é um belo exemplo disso. Por milhares de anos a humanidade viveu e atingiu grandes feitos sem a ajuda dele, mas foi só ele chegar para que o fato de você não ter um celular fosse sentido quase como se algum membro de importância vital lhe fosse extirpado. Comigo não foi assim. 

Pra ser sincera, ficar quase dois meses sem celular, pra mim, não foi nem um pouco difícil, a começar pelo fato de que eu nunca liguei pra isso (atentem para o trocadilho, por favor) e até poderia dizer que desgostava. Não gosto de celular tocando, não gosto de atender celular, não gosto de ligar pros outros. Gosto menos ainda de saber que tem despertador no celular e de que tenho que dar notícias de cada passo que dou fora de casa pros meus pais. Enche o saco, dá fadiga. De início, portanto, minha vida incomunicável foi só alegria e não senti falta nem do Pedro Horsch, aquele lindo.

No entanto, passei certos perrengues. Perdi a conta de quantas vezes tomei chá de cadeira de horas ou tive que contar apenas com minhas próprias pernas pra me locomover porque não tinha como falar com meus pais e pedir uma carona. Deixei de sair porque não tinha como avisar, saí e levei bronca porque não consegui falar com ninguém, fiquei dependendo do celular dos amigos e dos telefones públicos, e meus amigos falaram bastante com meus pais quando eles ligavam atrás de mim. 

O momento mais difícil? *respira fundo* Foi logo no início do ano, no dia que passei no vestibular, combinei de sair com os amigos pra comemorar. Cumprindo fielmente a resolução de ser uma pessoa mais pontual em 2012, cheguei ao restaurante 20h10. Ninguém tinha chegado ainda, ninguém havia feito a resolução de ser mais pontual. Sentei sozinha numa mesa enorme, com aquela sensação gostosa de que estava todo mundo me olhando. Não tinha como ligar ou mandar mensagem pra ninguém avisando que eu já havia chegado. Tinha esquecido meu iPod. Tinha esquecido meu livro. Por mais de uma hora fui a pessoa mais forever alone da cidade. Sozinha, num restaurante lotado, sendo abordada pelos garçons de cinco em cinco minutos e dizendo na maior cara de pau do mundo que precisava segurar aquelas mesas porque, apesar de não parecer, *olhos se enchem de lágrimas* algumas pessoas iam chegar. Acho que nunca quis tanto um celular como naquela noite. *voz engasgada* Pra ligar pra alguém e jogar conversa fora, para mandar algum sms mal educado pros amigos que me deixaram esperando, pra fingir que estava fazendo alguma coisa muito importante enquanto, na verdade, jogava Sudoku.

Apesar de estar levando uma vida mais leve e desapegada, minha falta de celular, por incrível que pareça, estava atrapalhando a vida dos outros ao meu redor. E foi única e exclusivamente por causa da pressão exercida por terceiros que voltei a ser alguém no universo da telefonia móvel. O que atrasou um pouco minha re-incursão nesse mundo foi minha indecisão sobre qual linha seguir: celular liga-manda-sms-calculadora-despertador ou celular tchop-tchura-liga-tira foto-entra-no-twitter-traz-o-homem-amado-em-10-dias?

Nunca liguei pra celular e sempre tive modelos que mais pareciam brindes vindos no Cheetos, mas eles me serviam bem. Não davam problema, a bateria era eterna, eram muito resistentes (coisa importante para uma pessoa desastrada como yo) e o melhor de tudo: ninguém queria. Sou uma pessoa que anda a pé e de ônibus, e não gosto de ficar na paranoia pensando que vão me enfiar a faca e roubar meu celular. Dispenso, já tenho neuras demais. Além de tudo, era (sou) meio ideologicamente contra smartphone. Tenho ojeriza de gente que passa o dia inteiro grudado no celular, que fica digitando ensandecidamente enquanto você tenta conversar. Acho patético ouvir pessoas dizendo que não existem sem seus celulares (oi Matheus) e sei como é fácil virar uma dessas pessoas. Vi isso acontecer com vários amigos meus e temia que acontecesse comigo. 

No entanto, porém, entretudo, contanto, todavia, lá no fundo eu queria um celular tchop-tchura-liga-tira-foto-entra-no-twitter-traz-o-homem-amado-em-10-dias. Sou uma futura jornalista, preciso me conectar, preciso de aplicativos legais, preciso fingir que sou descolada e que minha vida é interessante no Instagram, poxa. Dá licença?

E aí que agora eu tenho um smartphone. Estamos juntos há quase um mês e até agora posso dizer que minha vida nem mudou tanto. Digo que ainda não o entupi de quinquilharias por preguiça, mas na verdade é um instinto de auto-preservação. Tenho que ficar de olho. Meus maiores delitos tem sido fotografar meu cachorro a todo instante, sempre que posso, e outras coisas meio bobas, como meus pés. É engraçado como tudo parece interessante nas cores do Instagram. Espero que continue assim. *olha fixo pra câmera* Eu não vou me render não. Não é um celular que vai fazer com que eu me esqueça de quem sou de verdade. *sorriso prepotente e olhos marejados*

                                                             Chico versão caxumba style

                                                                      Chico versão Dudu Bertholini


                                                                                        Sapatinhos de cristal

                                                             Chico versão Holly Golightly

                                                                                        Chico versão ressaca

                                                                                      Chico versão portrait

                                                                                     Chico versão Carolina

(Trilha sonora aumenta, o áudio é cortado e enquanto os créditos rolam a câmera me mostra fazendo caretas e tirando fotos idiotas com a câmera do celular. Fim)

Alguém aí poderia me informar qual o melhor aplicativo de Tetris? rs.



sexta-feira, 16 de março de 2012

Epifania pelo fim das paixões de cinco minutos

"Então eu prefiro me agarrar a esses poucos minutos em que eu fico imaginando. Eu penso que aquele olhar meio perdido, que lembra muito o meu, não é uma coincidência. Eu penso que ela só não me viu porque, assim como eu, está com a cabeça nas nuvens e, de lá, manda sinais, também para todos os lados. E é assim que eu me apaixono, meus caros, mesmo que seja por um punhado de minutos. Todo dia é assim." Lucas Beeshop

Sou dessas que leu Jane Austen e assistiu comédias românticas em demasiado e acabou com uma mania triste de andar por aí e se apaixonar pelas pessoas. Não posso ver um barbudinho de óculos e All Star pela rua que, de repente, me vejo dentro da cena inicial de Closer: as pessoas ao redor passam a mover-se em câmera lenta, ao fundo começa a tocar The Blower's Daughter enquanto andamos um em direção ao outro, eu contendo uma gargalhada tímida e ele sem fazer ideia do que se passa. Nos cruzamos enfim, e cada um segue seu caminho. The end.

Paixões de cinco minutos não têm hora e nem lugar para acontecer: no ônibus, na rua, na cantina da escola, na faculdade, na midiateca. É incontrolável. Invento amores imaginários e logo existo. O mais patético de tudo é que eu tenho até um padrão que aqueles me conhecem já sabem de cor, e basta eu chegar contando sobre minha última paixonite que eles já traçam o perfil completo da mesma: ou é um barbudo de óculos e cara de bobo, ou o cara com a camiseta do The Who, ou o que gosta do Chico, ou o que está lendo um livro que eu ame no ônibus ou o baixista da banda. A lista é infinita.

Daí que assistindo 500 Days of Summer pela trigésima oitava vez, parei para prestar atenção numa coisa muito série, dita pela irmã de Tom, muito sensata, acerca da paixão dele pela Summer:

"Just because she likes the same bizarre crap you do, doesn't mean she's your soul mate"

Meu mundo caiu quando me dei conta da veracidade dessa declaração, afinal, ela nega tudo aquilo que venho fazendo involuntariamente desde sempre, que é quase uma consequência da pessoa que sou. Porque o único problema nessa história de romances imaginários é eles nunca perderem sua condição platônica, mesmo que anos se passem (sim, isso acontece) e isso é triste, sabe? A reação automática é fingir que isso não é nada demais, sacudir a poeira e já acionar o radar em busca de outro protótipo que venha de encontro aos meus ideais românticos, mas ultimamente tenho me sentido a Carolina do Chico, olhando do outro lado de uma janela que dá para uma esteira onde passam pessoas que fazem meu coração bater mais forte sem que eu saiba, na maioria das vezes, quem elas são direito. "Adivinhando em nuvens outras nuvens escondidas, e é assim que eu jogo fora a minha vida". O único problema dessas histórias açucaradas é quando a gente percebe que acredita demais nelas.

Acho que tô cansada de viver nas nuvens.

"Quando eu digo que o futuro é agora, quero dizer que o final dessa história depende do começo, da primeira linha, da primeira palavra. É por isso que eu pego a caneta pra escrever os meus dias nas calçadas, nas marquises, vitrines e paredes. É por isso que eu vou vagar sem rumo, sem mapa, por essas ruas, seja de São Paulo, ou de qualquer outro lugar do universo. É porque eu tenho certeza de que, um dia, eu vou tropeçar em ti, mesmo que tu ainda não exista. Mesmo que tu sejas uma utopia, uma ilusão que eu criei na minha cabeça. Mesmo que tu não passes de uma paixão-de-5-minutos. Mesmo que, para isso, eu tenha que esquecer como é que se volta pra casa." 


EXPECTATIONS
~HELLO STRANGER~

REALITY



quarta-feira, 14 de março de 2012

Uma história muito triste

Eu tinha uns 10 anos quando, no dia das crianças, minha mãe me deu R$50 pra eu gastar como quisesse. Pra uma criança isso é uma pequena fortuna. Fui até a loja de cds e comprei o In The Zone, da Britney Spears, e o Fallen, do Evanescence - porque aos 10 anos a gente não sabe muito bem o que quer da vida. 

Foi mais ou menos nessa época que eu virei fã da Britney e comecei a acompanhar a carreira dela. Foi na época que os dvds de show surgiram, então assisti todas as apresentações dela, na frente da tv, dançando junto. Comprava as revistas em que ela aparecia na capa e lembro que achei muito estranho quando ela se casou em Las Vegas e anulou o feito algumas horas depois. Achei mais estranho ainda quando ela surtou, raspou a cabeça e apareceu por aí dando guarda-chuvadas em paparazzis, de peruca cor-de-rosa. Eu não tinha mais 10 anos, mas ainda era nova o suficiente para não entender direito o que estava acontecendo.

Nunca fui uma grande fã de música pop, e mesmo perdendo o interesse pelo estilo, continuei comprando todos os cds que ela lançou desde o In The Zone, porque, sim, eu gosto dela.

Nessas férias assisti ao Britney: For The Record, documentário que ela quis gravar para tentar se redimir diante do público e explicar o que estava passando pela cabeça dela naqueles tempos. O mais comovente de tudo é que, tentando se explicar, a coisa que ela mais diz nos depoimentos é que não faz ideia do que estava pensando. E querem saber de uma coisa? Acredito nela.

Sei que a gente deve desconfiar de um documentário encomendado pela pessoa que é o tema do próprio, mas ela me pareceu muito sincera. Não ficou se fazendo de vítima, disse que foi feio o que passou, que foi estúpida, que perdeu as referências, não sabia o que estava fazendo e deixou pessoas más entrarem na sua vida. Ela disse que hoje olha pra trás e vê como foi burra por ter permanecido em Los Angeles, cercada pela mídia, enquanto poderia muito bem ter fugido para a casa de sua família no interior da Louisiana até colocar a cabeça no lugar. Fala que até hoje vive como uma prisioneira dentro de casa, por causa dos paparazzis, e naquela época, por estar doida demais, não conseguia voltar pra casa e encarar os filhos, por isso pegava o carro e ia pra algum lugar fazer besteira. Não sei como isso soa pra vocês, mas minha leitura da situação é muito essa.

Essa história de estrelato é toda muito maluca e errada. Já repararam que a maioria das pessoas que cresceu nessa vida, diante das câmeras, acabou se perdendo em algum ponto? Não sei o que é que existe ali que acaba com o bom senso das pessoas. Ou vai ver que é mais ou menos o que a Madonna disse em depoimento no documentário: todo mundo erra, todo mundo escolhe errado, todo mundo se envolve com quem não deve, mas poucas pessoas fazem isso com o mundo inteiro servindo de plateia.

“Ela é inteligente o suficiente para saber o que o mundo queria dela: que fosse criada como uma virgem a ser deflorada diante de nós, para nossa apreciação e deleite. Ela não tem vergonha de sua nova personalidade – ela quer que saibamos o que fizemos com ela. Pode ser que seja verdade que Britney sofra de alguma doença mental (ou uma doença criada pela fama, ainda sem nome)(…)”              

                                                The Tragedy Of Britney Spears, Vanessa Gregoriadis

No documentário, Britney chora e diz estar muito triste, que seu maior sonho é poder sair com os filhos e fazer coisas banais, como ir ao supermercado. Fico pensando que ela poderia muito bem pegar o dinheiro que tem, sumir do mapa e ir para no interior do Acre, por exemplo. Cortar o cabelo, comprar um sobrado amarelo e abrir uma banquinha de açaí na praça, ir trabalhar numa escola e ficar encarregada de montar os musicais que as crianças apresentam em datas festivas. Se funciona nos programas de proteção às testemunhas que a gente vê nos filmes, ela com certeza tem dinheiro suficiente para criar para si um Programa de Proteção Ao Popstar de Saco Cheio, dar uma banana pro mundo e ir viver feliz e anônima num lugar inóspito, passeando com seus filhos no supermercado. E é aí que entra a loucura do estrelato que falei acima: a própria Britney diz que a fama é uma coisa engraçada, depois que ela te pega, é difícil demais sair dela; vai além das forças da pessoa e mesmo sendo um inferno, nunca para de ser divertido. Tem que ver isso aí, hein.

Já assisti o documentário duas vezes, li a enorme e deprimente reportagem que a Rolling Stone trouxe sobre seu surto, e ainda assim não sei direito o que pensar disso tudo. Só sei que acho toda essa história muito, muito triste, e que torço para que ela segure as pontas.

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sexta-feira, 9 de março de 2012

Júlia

Ou: O gosto do cheiro

A primeira e única vez que vi Júlia aqui no prédio foi na semana na qual ela se mudou para cá e bateu na porta de casa perguntando se eu sabia onde o síndico morava. Como também havia me mudado há pouco tempo, não sabia lhe informar e realmente senti muito: ela estava desesperada porque precisava colocar para assar uma fornada de pães doces e não havia gás em seu apartamento. Minha mãe apareceu e chutou o número da porta onde ela achava que podia morar o síndico, e Júlia, satisfeita, foi embora.

Algumas horas depois ela bateu aqui em casa com uma vasilha cheia de pães doces, como um agradecimento pela ajuda que havíamos lhe dado mais cedo. O síndico realmente morava no apartamento que minha mãe sugeriu e, falando com ele, ela resolveu o problema do gás e pôs seus pães no forno. Eles estavam agora numa tupperware verde, na mesa de casa.

Foram os melhores pães doces que já comi na vida. Macios e cheirosos, lindos de morrer, ficaram perfeitos com muito requeijão e uma caneca de café. Quando era mais nova, tive uma amiga cuja cozinheira sempre fazia pães doces quando eu ia passar a tarde de sábado na casa dela brincando, e nós duas nos empanturrávamos daquelas coisas lindas enquanto assistíamos Crossroads. Ah, os pequenos prazeres da boa vizinhança e a nostalgia palatável que certos quitutes suscitam!

Nunca mais vi Júlia e poderia acreditar que ela havia se mudado não fosse por dois detalhes: o primeiro é que, não sei como, minha mãe sempre tem notícias dela. Um dia chegou aqui contando que ela havia se separado do marido e tinha engordado muito. Fiquei imaginando a pobre Júlia curtindo a fossa enquanto se enchia dos seus pães doces maravilhosos e lembrei da Izzie, de Grey’s Anatomy, que passava o dia assando muffins para superar o luto. Minha mãe disse também que achava que ela trabalhava com comida, pois estava sempre cozinhando, e esse é o segundo detalhe que me deixa ciente de que ela nunca saiu daqui: o cheiro das coisas que ela cozinha.

Quase todos os dias, no fim da tarde, naquela hora em que bate a larica do pôr-do-sol em que a gente morre de vontade de comer uma-coisa-boa-que-não-sabe-o-que-é, um cheiro de coisas gostosas assando invade o prédio e todo o meu apartamento. Alguns dias é cheiro de bolo, mas na maioria deles é de pão doce. Aquele pão doce. E eu fico aqui, flutuando no aroma como um personagem glutão de desenho animado, quase abocanhando o ar na esperança de que haver ali o gosto do cheiro que exalam os pães. Incontáveis vezes já vasculhei pelas padarias da vizinhança algo que tivesse o gosto daquilo que eu tanto desejava, mas nem os pães mais bonitos, as roscas mais cheirosas, os bolos mais macios, nenhum deles tinha o gosto do cheiro das coisas que Júlia fazia. Pus na cabeça que aprenderia a fazer pães doces e que compraria a máquina de pão da Polishop.

Até que um dia desses minha mãe passou numa padaria que fica longe de casa, famosa por seus pães de queijo divinos e pamonhas, que não serão adjetivadas porque não gosto delas; além do pão de queijo, das pamonhas, broas e rosca, mamãe trouxe um pacote de pães. Pães doces. Não dei atenção a eles pois estava cansada de imaginar que poderia existir algo que se equiparasse aos pães da Júlia e me decepcionar depois, mas numa bela manhã, na falta de outra coisa para comer, peguei dois deles para comer no café da manhã. Lágrimas vieram aos meus olhos: foi como se eu finalmente tivesse conseguido abocanhar o ar e sentido o gosto do cheiro que invadia minha casa sem pedir licença todo fim de tarde. Foi como voltar àquela tarde em que Júlia bateu aqui com sua tupperware verde e quis ser boa vizinha, e foi como se minha amiga estivesse me esperando na sala de tv para que cantássemos If It Makes You Happy junto ao filme. Descobri – ou melhor, minha mãe descobriu – uma fonte inesgotável de pães doces, e agora eu não teria mais aquele buraco negro no meu estômago que só queria mais um daqueles pães da Júlia.

E a Júlia, por falar nisso, tem cozinhado muito menos ultimamente. Minha mãe encontrou com ela no elevador esses dias e me contou que ela emagreceu muito e está toda bonita. Engraçado que penso muito nela e acho que nem lembro a cara que ela tem. Só sei que se parece muito com uma prima da minha mãe, e, agora, sempre que penso na Júlia a enxergo com a cara da prima. Juro que tenho vontade de descobrir onde ela mora porque tenho vontade de sentar pra falar com ela, tomar café e ouvir a história do fim do casamento que a fez engordar como uma pipa e que guinada radical foi essa que a fez largar os pães e doces e entrar em forma.

Perguntaria também a receita dos tais pães e o segredo para cheirarem tão bem, porque confesso que ainda não tirei da cabeça a ideia de fazê-los também.

* Depois de escrever esse post, fui procurar uma imagem ilustrativa e me deparei com uma foto tão grotesca dos pães que deixou minha nuca arrepiada de horror. Aconselho aos tripofóbicos amantes de pães que se quiserem continuar comendo e amando, não abram a imagem.



quarta-feira, 7 de março de 2012

Flower Power

Eu nunca me considerei feminista. Nunca me considerei porque nunca tinha, de fato, parado para pensar a respeito. Não que eu fosse completamente ignorante da causa feminina, respirem fundo, só não tinha pensado em todas as suas questões assim unidas como uma causa única. O negócio é que de uns tempos pra cá venho pensando cada vez mais nisso, mas não como uma causa, novamente, mas sim como ideias soltas que me ocorrem vez ou outra quando me deparo com certas coisas por aí que me tiram do sério.

Eu realmente queria conseguir colocar em palavras tudo que venho pensando, para aproveitar a data de amanhã e tudo o mais, mas, para variar, sempre quando quero ou preciso escrever sobre algo assim pré-determinado pela minha consciência, me falta a inspiração. Por isso fiz uma mixtape.

Não é música de protesto, não há nada de engajado ali: apenas músicas que reuni, cantadas por mulheres que eu admiro de certa forma. Talvez um toque de rebeldia possa ser encontrado, mas não foi nada premeditado. As fotos lindíssimas que usei para fazer a capa e a contracapa vieram de um lookbook da Wildfox, que pode ser considerado um dos meus editoriais de moda favoritos de todos os tempos.

flowerpower1

flowerpower2

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sexta-feira, 2 de março de 2012

Não gosto de fotografia

“Oi, meu nome é XYZ e escolhi Jornalismo porque blablabla whiskas sachê eu gosto de fotografia.”

Essa frase acima certamente foi a que mais ouvi durante esta que foi a minha primeira semana na faculdade. A coisa que mais fiz foi me apresentar pros outros, e ouvindo apresentações alheias cheguei à conclusão que 80% da minha turma, se não mais, está ali porque gosta de fotografia. Enquanto as pessoas afirmavam seu amor pela fotografia, eu ficava ali, meio desconfortável, olhando pros lados, esperando que alguns furúnculos irrompessem no meu rosto denunciando a pária social que eu me revelava naquela sala por ser talvez a única que não estava nem aí para as fotos.

tumblr_lx1t85VeUJ1qze8quo1_1280_large_largee                                    Todo mundo tem uma foto assim, menos eu

Não é que eu não goste de fotografia, querido leitor. Não precisa fechar a página e parar de seguir o blog. Só não sou uma aficcionada por fotos. Se tivesse, por exemplo, que enumerar três razões que me levaram ao Jornalismo, fotografia não seria uma delas. E caso tivesse que dizer cinco coisas que tenho como passatempo, fotografia também não estaria entre minhas preferências. Pronto, simples assim. Continuo sendo uma pessoa limpinha, simpática e que ama os animais.

Digo isso porque às vezes tenho a impressão que não amar fotografia hoje em dia é o equivalente a dizer em voz alta que não gosta de chocolate ou que os Beatles são superestimados. Todo mundo ama foto, na minha nova sala de aula e na internet. As pessoas saem de casa para tirar fotos. As pessoas trocam figurinhas sobre lentes, câmeras e até filmes. As pessoas marcam encontros em parques para ficar fotografando umas às outras. As pessoas fazem projetos para tirar uma foto por dia (e eu fico vendo, achando amor e bonitinho, pensando que seria legal fazer algo parecido, mas só de pensar em tirar uma foto por dia, e de buscar criatividade para fotografar coisas menos óbvias, desisto). As pessoas postam sobre fotógrafo X e olha, meu Deus, que legal isso e… eu costumo pular esses posts. Se eu parasse pra olhar, certamente acharia bacana, bonito, inspirador, mas ficar vendo foto é uma coisa com a qual não tenho lá tanta vontade de gastar meu tempo. Acho que a única vez que uma exposição de fotografias mexeu comigo a ponto de eu passar mais de um dia pensando nela, foi a do Wim Wenders que eu vi no MASP, “Lugares, estranhos e quietos”; também sou apaixonada por aquele livro que tem a última sessão de fotos da Marylin Monroe, quase chorei na primeira vez que passei os olhos nele. De resto, pouca coisa mudou minha vida.

Para mim, fotografia é como frango: é uma coisa que eu gosto, mas não amo. Entre bife de frango ou de vaca, sempre escolherei o de vaca. São raras as vezes em que acordo pensando “Puxa, que vontade de comer frango!”. E também não costumo ir a um restaurante e pedir algum prato com frango. Mas se tiver frango, eu como feliz. No almoço de hoje, por exemplo, tinha frango ao molho com uma farofa melhor que a vida e eu comi e me fartei, felizona; mas, se me perguntassem se para o almoço de sexta da semana que vem eu prefereria um revival do frango ou um bifinho, escolheria o bife sem pestanejar.

E agora que já desabafei e tirei esse peso dos ombros, podemos voltar com a programação normal do blog. E vocês que não curtem fotos, manifestem-se! A única razão pela qual eu exponho minhas estranhezas aqui é para que alguém se identifique com elas e eu me sinta mais normal ou menos solitária na minha anormalidade.