terça-feira, 31 de julho de 2012

A culpa é da Katniss

Eu nunca tinha ouvido falar sobre Jogos Vorazes, até que de uma hora pra outra não ouvi falar de outra coisa. Não fazia ideia do que se tratava e odiava, e depois do que soube do que se tratava odiei também. Aí fui ver o filme, gostei, e resolvi que leria os livros nas férias. Pra começo de conversa, a trilogia conta a história de uma América do Norte distópica, transformada em Panem, composta por treze distritos e uma Capital. Os distritos funcionam como colônias de exploração, produzindo para uma metrópole que esbanja e não devolve quase nada. Nos Dias Escuros, os distritos se levantaram contra a Capital, liderados pelo treze, que foi transformado em cinzas. Desde então, a Capital adotou uma política ainda mais severa, de modo a não dar abertura para novas rebeliões e deixar todo mundo bem ciente de quem é que manda ali. O principal instrumento para imobilizar os cidadãos de medo foi o reality show chamado Jogos Vorazes: anualmente, cada distrito deve fornecer dois tributos - um menino e uma menina com menos de 18 anos - para participar da competição que faz apenas um vencedor, aquele que consegue sobreviver. 

Que me perdoe Suzanne Collins, mas acho esse mote inicial bobo e pouco crível. Mas nossa, um programa em que crianças e adolescentes tem que matar uns aos outros pra sobreviver num mundo miserável é bobo? Hm, é. Eu não consigo comprar essa história. Mas ok, é um livro, é uma distopia, resolvi encará-lo na esperança dele tornar aquele universo um pouco mais tangível e digno de ser levado a sério. Não rolou. Na minha humilde opinião, o maior problema  da série é ser superficial. Já contei sobre o problema que tenho com livros fantásticos, principalmente porque sinto falta de um desenvolvimento muito minucioso desses mundo para poder mergulhar dentro deles e passar a acreditar no que se passa ali. Acho que o maior mérito da J. K. Rowling com Harry Potter é construir um universo de forma tão absurdamente detalhada e cuidadosa que até hoje, lá no fundo, eu acredito que existe uma rua sem saída perdida em Londres que levará ao Beco Diagonal quem conseguir bater nos tijolinhos do jeito certo. 

Quem nos conta a história dos Jogos Vorazes e de Panem é Katniss Everdeen, uma garota do distrito mais pobre de todos, que teve de se tornar o homem da casa após a morte de seu pai. A irmã mais nova de Katniss é sorteada para participar dos jogos, o que faz com que ela se apresente como voluntária no lugar de Prim. A narração em primeira pessoa limita um bocado a compreensão de como as coisas funcionam, afinal, a percepção e o conhecimento dela são limitados e isso faz com que o livro perca bastante em conteúdo. Eu adoraria ler a respeito de como se deu a conversão dos Estados Unidos em Panem - já que há breves referências disso em vários pontos da saga, que me deixaram bem curiosa - e, principalmente, amaria que os personagens fossem mais trabalhados e desenvolvidos. Eu, que amo tragédias e dramas existenciais (lê-se: eu, que sou um poço sem fundo de boringness), vejo numa história em que jovens são forçados a matar uns aos outros um terreno fértil para um esmiuçamento de psiques e ok, ok, ok, estamos falando de um livro infanto-juvenil e não de Crime e Castigo, mas aqui na minha insignificância acredito que com um bocado de esforço e talento é possível construir uma trama que seja digerível e ao mesmo tempo redondinha. 

Além de não dar espaço para conhecermos melhor personagens interessantes, como Peeta ou Haymitch, a primeira pessoa prejudica a leitura porque, convenhamos, Katniss Everdeen é um porre. Comparando novamente com Harry Potter, dá pra dizer que em se tratando de foco narrativo, Jogos Vorazes é o que aconteceria com HP se o Harry nos contasse a história. Ele e Katniss são muito parecidos: a questão da tragédia pessoal e o embate constante com um inimigo. O dele é Voldemort, o dela, a Capital. Quem leu HP muito provavelmente se lembra de todos os momentos de culpa, auto-comiseração disfarçada e rei na barriga do Harry. Imaginem ele contando sua história com esses olhos por sete livros. Mate-me por favor. Com Katniss é um pouco pior, porque ela possui o carisma de um rinoceronte faminto e ainda por cima quer que a gente acredite que o cara mais bacana, doce e interessante de toda a história é irremediavelmente apaixonado por ela. Ao lado de Peeta Mellark, Katniss é o monstro do pântano.

Resumindo, todo meu incômodo com o a saga se deve ao fato da narrativa da Katniss. Eu tenho a impressão que gostaria bem mais, e teria para com ela uma boa vontade bem maior, se o foco estivesse na terceira pessoa.

Isto posto, não posso negar que foi uma leitura bem bacana para as férias. Tirando os momentos em que ficava difícil demais suportar a tromba da Katniss e a única coisa que eu queria é que ela pegasse fogo de uma vez, me diverti lendo, concordo quando dizem que é uma leitura que te prende e instiga e gostei especialmente do último livro, A Esperança, que deu à saga um final que, a meu ver, foi bem pensado, bem digno e aí sim bem possível - dormiria melhor sem o epílogo, mas resolvi ser florzinha e ignorar, preferindo optar pelo lado da Força que considerou bacana e nada mais. Bom seria se todo ele fosse assim, mas não dá pra levar a vida e os livros cem por cento a sério o tempo todo, né?

#freepeeta




sábado, 28 de julho de 2012

Manifesto contra o filé ao molho madeira

Se tem duas coisas que acontecem em abundância na igreja dos meus avós, certamente são casamentos e funerais. Toda semana, invariavelmente, alguém se casa e alguém morre, e meus avós são convidados para ambos os eventos. Posto que tenho horror a caixões, coroa de flores e, hm, gente morta, desde pequena sempre gostei de acompanhá-los nos casamentos, ao melhor estilo arroz-de-festa do mundo, tirando uma noite de sábado para ser paparicada por todos que passam e comentam "já viu como está grande a neta da irmã Cristina e do irmão Edvaldo?", ouvir muitas histórias de moléstias da coluna e dos olhos e fazer um ranking dos melhores (e piores) buffets e vestidos de noiva. Por causa dessa turnê casamenteira, tive a oportunidade de marcar presença em festividades do Oiapoque ao Chuí da pirâmide social, chegando a conclusão que se existe um denominador comum para eles, além da noiva usar sempre branco, é o do filé ao molho madeira no cardápio. 

Quando você para pra pensar em termos práticos sobre as melhores opções de comidas a serem servidas num evento como um casamento (sim, eu já fiz essa análise), o filé ao molho madeira - acompanhado de rondeli quatro queijos - acaba sendo a escolha mais democrática. Contempla aqueles primos com alergia a frutos do mar, os amigos vegetarianos, as crianças e todas as exceções que acabam por tolher a criatividade do mais inventivo chef. Se você não nada no dinheiro para conseguir servir alternativas sofisticadas e criativas para todas as particularidades dos seus convidados, acaba tendo que se contentar com o filé ao molho madeira. Para a maior parte dos convidados, no entanto, principalmente aos habitués desse tipo de festa, que maçada! A certeza do filé ao molho madeira simplesmente aniquila a maior expectativa daqueles que, assim como eu, tem o ritual da alimentação em grande conta. Sou dessas que assim que é convidada pra qualquer tipo de festa já pensa na comida e não nego, e que graça tem esse exercício se você já tem a certeza de que o que espera por você é filé ao molho madeira e rondeli quatro queijos?

O problema nem é o prato em si, mas o que fazem com ele. Buffets tem o talento especial pra cobrar muito dinheiro em troca de uma coisa absolutamente banal e sem gosto. Já fui em muitos casamentos na minha vida e posso dizer com segurança que na esmagadora maioria deles o prato tinha o mesmo gosto de papinha de neném, ou seja, de nada. Em maio fui ao casamento da filha da minha tia-avó, também conhecida como a tia rica da família. Por conta desse adjetivo, imaginem só minha expectativa com relação aos comes e bebes da festa. Tinha certeza absoluta de que lá sim eu encontraria um cardápio decente que seria um marco na minha vida, mas com exceção da genial ilha de comida japonesa, me deparei com o arroz-com-feijão dos eventos e quando o comi e senti o mesmo gosto de mesma coisa de todas as outras festas, me senti como imagino que o Hitler deve ter se sentido ao ouvir as notícias ruins vindas de Stalingrado: agora ferrou. 

Estou com 18 anos e mais ou menos desde quando saí da barriga da minha mãe venho alimentando uma coleção de antipatias, restrições pessoais, falta de tolerância e rabugices com relação a várias das coisas que me rodeiam, ficando pior a cada ano. Pelo andar da carruagem, me imagino daqui a alguns anos ou abraçando a misantropia de vez ou despirocando totalmente e fazendo tudo que um dia eu condenei, tipo uma tatuagem de borboleta no tornozelo e adoção de tênis de salto ao meu guarda-roupas. Por ora, gosto de me imaginar no futuro como uma dessas pessoas esquisitas e livres que despacham tudo que possui potencial mínimo pra lhes encher os pacovás: não terei carro, nem celular, e se Deus me ajudar também não terei Facebook ou Instagram, usarei apenas leggings pretas e comerei o mesmo prato, no mesmo restaurante, nas raras vezes em que sair de casa pra isso. 

Minha manicure um dia me contou uma história de uma cliente noiva que estava organizando o casamento do século, com direito ao melhor salão e ao melhor buffet da cidade e tudo que lhe era de direito, até que alguns meses antes da cerimônia a mulher engravidou, teve que cancelar tudo e acabou se casando numa cerimônia na fazenda da família, pra pouco mais de cinquenta pessoas, numa festa em que se serviu galinhada feita pelas tias e doces de compota de sobremesa. Se fosse comigo, seria bem capaz de que fizesse uma peregrinação anual à Terra Prometida para agradecer por essa maravilhosa guinada do destino, porque a ideia de trocar uma festa num salão chique e meio cafona em que se serviria filé ao molho madeira com rondeli totalmente insípidos, por uma na fazenda com galinhada no cardápio me parece absolutamente genial e perfeitamente adequado ao meu eu futuro que dá uma banana para o mundo e as convenções sociais. 

No dia mais feliz da minha vida eu quero poder comer uma coisa que me deixe feliz e realizada, e se até lá não tiver dinheiro para contratar o buffet da Nina Horta (porque nela eu confio), declaro desde já que no meu enlace matrimonial será servido um panelão de galinhada, desses de festa de igreja, e a mesa de sobremesa contará com dois tachos de cobre gigantescos: um com doce de leite e outro com brigadeiro de colher. Nada de cerimonialistas de terno surrado andando pra lá e pra cá dizendo aos outros onde se sentar e me mandando cortar um maldito bolo fake recheado de ameixas, amêndoas e muito glacê ao som de Kenny G. Os convidados poderão juntar ou separar as mesas como quiserem, e eu quero bolo de chocolate com recheio de cocada branca (de preferência feito pela minha avó) e Carpenters na trilha sonora. Depois de uma festa assim, fica difícil demais não ser feliz pra sempre, porque tenho uma teoria, que preciso elaborar melhor, que comprova que o alto índice de divórcios atual se deve, em parte, ao filé ao molho madeira servido no casamento, já que por mais de primeira que seja a carne dos bifes, só consigo associar uma vida meio sem sal a um prato tão igualmente insípido. 

Nia Vardalos me entenderia



quinta-feira, 26 de julho de 2012

A casa

Imaginem vocês uma casa. Simples assim. Não uma casa de arquiteto, com paredes envidraçadas e design de vanguarda ou a casa dos sonhos dos pequenos burgueses com traços neo-neo-neo-clássicos, mas uma casa absolutamente banal e inegavelmente encantadora, dessas que vocês e o resto do mundo desenhavam - ou tentavam desenhar, no meu caso - quando crianças. Topei com uma dessas hoje. A coisa mais normal e bonita que já vi na vida, porque passei minha infância desenhando (ou tentando desenhar) casotinhas como aquelas, que se pareciam com as casas normais que via nos filmes da Disney, nos desenhos animados e nos livros infantis, e quando saía pela cidade, as casas que encontrava pelo caminho não tinham nada a ver com meus rabiscos. Mas não essa. Essa casa, queridos leitores, era uma Casa: cerquinha, base triangular, janelas quadradinhas, varanda com banco de madeira e capacho, jardim florido de azaléias cor-de-rosa choque e  - oh! wait! - uma placa de VENDE-SE pintada à mão amarrada ao portão.

Tive um impulso forte e instantâneo de anotar o telefone para contato e realizar a compra logo quando chegasse em casa. Quem se importa com o dinheiro? Talvez se eu vendesse todos os meus livros, meus filmes, meu notebook e meu celular eu conseguiria um décimo do dinheiro necessário para a entrada e o resto eu descolaria com meus pais e avós como presente de aniversário e Natal dos próximos dez anos, não ligo. A única coisa que me importava realmente naquele instante era comprar aquela casa antes que alguém o fizesse, colocando ela abaixo logo depois ou transformando-a numa deprimente clínica odontológica, como fizeram com o imóvel ao lado.

Vamos aos fatos: a localização era realmente terrível para uma casa, entre duas avenidas muito movimentadas da cidade, sem sinal de residência alguma num raio de muitos metros e talvez quilômetros, em frente a uma empresa que ocupa um quarteirão todo e ladeada por um consultório de dentista e um terreno baldio. A vizinhança dos sonhos, só que ao contrário. E mesmo assim, se fosse pra ter aquela casa, eu ignoraria solenemente os dissabores a meu redor para ser plenamente feliz na pequena parte de latifúndio que me caberia, como se ao passar por aquele portão eu automaticamente deixasse o mundo real e fosse viver no colorido universo paralelo da música Lápis de Cor, que saía de uma sala da minha antiga escola de ballet por uma falha no isolamento acústico da mesma. Aos 10 anos de idade eu achava aquela a música mais bonita do mundo, e imaginem só o suplício de uma realidade sem MP3 e muito menos Youtube em que, para ouvir minha música favorita, eu ficava a mercê dos trechos que conseguia absorver no intervalo das aulas, quando a professora nos liberava para beber água. Ia acumulando os pedacinhos de música que já tinha ouvido, tentando montar uma sequência na cabeça, torcendo para os trechos estarem certos. A música descrevia uma casa dos sonhos, desenhada com amor, lápis de cor e lápis de cera, e quando bati os olhos na Casa, pude ouvir ao fundo a canção antiga, que agora ouço inteira, sem interrupções, no Youtube, apaixonada por essa tecnologia como se a tivesse descoberto há cinco minutos, porque ela, a Casa, é uma descrição quase perfeita daquela cantada na canção.

Dividida entre a nostalgia da recente lembrança da música e os planos fantasiosos para morar naquela casa o quanto antes, me lembrei de outra música e de outra casa, dessa vez imaginada e escrita pelo meu Poetinha. Desde criança que essa música muito me deprime e confunde. Primeiro porque minha cabecinha de bagre jamais conseguiu vislumbrar uma casa propriamente dita sem chão, que não podia ser entrada, ou paredes que comportariam uma rede. Pior de tudo é pensar na falta de banheiro. Ninguém podia fazer xixi! - minha infância foi assombrada por esse verso. O pior de tudo, no entanto, eram os versos finais, colocados ali, suponho, para dar um alento a quem já estava morrendo de dó da casa, assegurando que apesar de não ter teto, não ter nada, ela fora feita com muito esmero. Esmero, gente. Esmero é uma maneira mais poética de se dizer esforço, mais séria, no entanto, do que apenas dizer capricho. Esses versos funcionam como um tapinha nas costas diante de um fracasso, um o importante é competir diante de uma perda vergonhosa.

Quando lancei um último olhar sobre a Casa, fui tomada por uma melancolia dos infernos, porque vi nela a casa do Vinícius. Olhei a parede recém-pintada, os detalhes amarelos e brancos e pensei: que bosta, é uma casa engraçadinha. Consegui enxergar ali todo o esmero com a qual ela fora feita e cuidada ao longo dos anos, e até a vida quase completamente feliz que os antigos donos viveram ali e que agora provavelmente se apertam num apartamento tristinho tentando se convencer de que ali é melhor quando na verdade odeiam cada segundo daquela vida sem jardim. E por fim, vi a Casa de repente não ter teto e nem ter nada - porque pessoa alguma em sã consciência teria coragem de comprá-la pra viver ali, naquele lugar terrível, sendo atormentada por carros e buzinas vinte e quatro horas por dia - e tudo de bom que observei nela se tornou um verso de alento em forma da música do ballet, o jeito mais doce do mundo de contar como uma casa absolutamente simples é feita com "fumaça na chaminé e o sol a brilhar no canto da página", para consolar quem quer que fosse bobo o suficiente pra ficar triste por ela. O tapinha nas costas, aquele quase, mas não foi dessa vez. 

E tudo isso por causa de uma maldita casa na rua, que observei por cinco minutos ou menos. Quando dizem a poesia estraga a gente, é disso que estão faltando. 



domingo, 22 de julho de 2012

Baladas que não fui: até quando?

Eu gosto de brincar que minha vida parece um sit-com, porque tem coisas que só comigo mesmo. E pra forçar a barra da comédia da famosa expressão que muito define muitos episódios da minha existência - seria cômico se não fosse trágico - gosto de imaginar minha vida como uma série cômica, mas imaginar mesmo, como procurar as deixas de humor, criar roteiros, trilha sonora e por vezes até ouço o som das claques e já antevejo pequenas cenas virando gifs no Tumblr e depois aparecendo no Como Me Sinto Quando. É um consolo e um alívio cômico naqueles momentos em que eu queria socar a cara de todos ao meu redor, mais ou menos o que aconteceu ontem. 

Existe uma balada trash aqui em Ubercity, e a respeito dela, há boatos de que toca de É O Tchan a Empreguetes, de Kelly Key a Sandy e Jr., o tipo de proposta que poderia classificar como tudo que já sonhei pra minha vida. Mal consigo me imaginar num lugar desses. A festa acontece uma vez ao mês, e a impressão que tenho é que todo mês combino de ir com os meus amigos e algo acontece pra que eu não vá. Sempre. Virou piada. 

Até que semana passada começamos a programar uma fantástica noite de sábado com direito a comida mexicana seguida de Dança Irene - a famigerada festa. Passei a semana ansiosa. Nada iria me impedir dessa vez. Todos os dias eu comentava com alguém: sábado vai ser vida. E tudo seguia sendo realmente vida, porque minha comida estava incrível, eu estava matando a saudade de pessoas que não via há meses e estávamos já tão animados que, vestidos a caráter, começamos a tirar fotos loucamente, cantando Shakira e gritando ARIBA, para o constrangimento - ou entretenimento, vai saber - das outras pessoas que estavam ali. 


Chegamos no lugar e mal havia fila. Quando as pessoas começaram a chegar, como seres humanos civilizados e bem educados que somos, formamos uma fila. Só que uberlandenses, no geral, tem um problema muito grande para compreender plenamente o conceito de fila. Aqui, ela é uma mera formalidade. As pessoas simplesmente chegam, encostam, e passam na sua frente. O movimento é tão corriqueiro, e até sutil, que a gente só vai se dar conta depois, quando percebe que a pessoa que antes estava na sua frente está agora à distância de mais ou menos umas vinte cabeças amontoadas num mesmo metro quadrado, se não menos. Multiplique esse adensado metro quadrado por mais ou menos setenta, some essa horda ao cheiro de cigarro - porque, claro, o fumódromo fica ao lado da fila - e adicione a minha pessoa nessa adorável mistura e o que você tem é um desastre anunciado.

As pessoas ao redor ora comentavam que aquilo era totalmente inesperado no lugar ora discorriam sobre sua dieta vegetariana, e devo dizer que me surpreendi ao saber mais sobre a alimentação balanceada que com tanta propriedade e pedantismo discorria o cara que estava atrás de mim do que com o ineditismo do episódio, já que pra mim aquele tipo de coisa era bem óbvia: eu, saindo de casa extremamente animada e pronta para chegar em casa mal conseguindo andar de tanto dançar, só poderia me deparar com um fenômeno nunca antes visto que me faria ter vontade apenas de voltar pra casa e ir assistir à novela que eu nem ao menos acompanho. Pois é. Eu estava bocejando e, como bem diz Seth Cohen, eu parecia o Nemo e só queria voltar pra casa. Ainda insisti mais um pouco naquela lata de sardinha, fui praticamente enxotada pela dona do lugar e depois de saber que eu teria que pagar o dobro do preço se quisesse entrar, eu, que estava na fila antes de existir uma fila, joguei a toalha e fui pra casa.

Cheguei em casa antes da uma da manhã, os pés doídos não por ter dançado pra caramba, mas sim por ter ficado em pé e sendo pisoteada por quase três horas, deitada no sofá buscando forças pra tirar a maquiagem, apenas pensando que não deveria mais sair de casa. A não ser pra comer e rir. Porque essa parte da noite, ainda bem, foi perfeita. 



quinta-feira, 19 de julho de 2012

Uma brasileira

Pra variar um pouco, tudo começou numa madrugada em que estava no Skype com a Tary e com a Analu. Enquanto conversávamos, Analu fazia a primeira mixtape do seu blog, composta por suas músicas nacionais favoritas. Obviamente, fiquei com inveja e já roubei prontamente a ideia, e no dia seguinte comecei a fazer a minha. Tinha ficado um pitéu. O único problema foi que, nesse interim, meu notebook pifou, teve de ser formatado e eu perdi todas as minhas músicas - dentre elas, a sassaricante mixtape brasileira. É por esse motivo que não faço mixtapes há muito tempo: só de lembrar que perdi a maior parte das minhas músicas queridas, fico tão chateada e com raiva que vou fazer outra coisa. Essa semana, finalmente, senti a mágoa indo embora - coincidentemente, voltei a fazer downloads - e achei que era hora de tirar a mixtape do buraco (ajudou um pouquinho o fato da Tary ter postado sua primeira mixtape). Eu realmente queria fazer uma igual àquela outra, mas dela só me lembrava mesmo das duas primeiras músicas, que permaneceram, mas as seguintes, e o espírito, é totalmente diferente. Tomei cuidado para não me embrenhar pelo lado do samba, uma vez que ele já foi tema de mixtape anteriormente, e sem querer acabei enchendo minha seleção de bandas e músicos que são pouco conhecidos e que gostaria muito de apresentar a vocês. Divirtam-se!

Um adendo: tratem essa mixtape com muito amor e consideração. Sem querer, ela se tornou uma das mais especiais aqui do blog. Diversas músicas dessa seleção são especialmente especiais pra mim, se é que isso é possível - aliás, não estaria mentindo se dissesse que nenhuma delas está aí por acaso, porque combinou bem, porque parecia que era a melhor escolha. Essas músicas são amadas e eu acharia lindo se vocês ouvissem dispostos a amá-las também. =)






quarta-feira, 18 de julho de 2012

You had me at the title

Tudo começou numa madruga boladona em que estávamos eu e a Analu de bobeira no facechat. Ela, que quase não é mandona, sutilmente sugeriu: quero postar mas não tenho ideias, inventa uma coisa aí. Ao mesmo tempo em que eu tenho um enorme problema de ter ideias incríveis sob pressão, Analu tem um enorme problema em aceitar não como resposta, e quem sou eu para cometer essa audácia, não é mesmo? Assim sendo, dei uma olhada nuns links que tinha guardado para ler depois e de lá tirei uma lista com os títulos de livro mais bonitos de todos os tempos. Já tinha visto aquilo pensando num futuro meme e contei isso pra Analu. É claro que ela disse que não ia esperar eu lançar a ideia, mas iria fazer mesmo assim, decretando de antemão que ela seria minha indicada. Minha única indicada. Pediu apenas que eu estipulasse um número e inventou a regra de que quem fizesse poderia indicar apenas uma pessoa. Fechamos em 13 títulos magníficos e uma vez que só posso indicar uma pessoa e minha indicada se auto-indicou, apenas lhes convido para já ler a lista da Analu.

Lolita (Vladimir Nabokov): "Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta." Creio que essa citação, logo no primeiro parágrafo do livro, é mais do que suficiente para esclarecer por que eu adoro esse título. Aliás, antes de lê-lo, quando ainda era criança, morria de curiosidade só por causa do nome. E depois que li, só achei mais genial ainda. Porque Lolita, ao mesmo tempo que é infantil, é sensual, e tem apelido melhor para uma ninfeta aos olhos de um tarado?

Contra Um Mundo Melhor (Luiz Felipe Pondé): Um título polêmico para um livro polêmico escrito por um autor polêmico. Eu adoro coisas subversivas e transgressoras, e esse título me deixou intrigada pra caramba. Como assim ser contra um mundo melhor? É provocativo e faz você ter vontade de ver o que está escondido lá dentro, sem contar que é ótimo para chocar os outros, que invariavelmente lançam um olhar de choque e interrogação para tão astuto título. 

Luna Clara & Apolo Onze (Adriana Falcão): Luna Clara é uma combinação de nomes super doces e extremamente sonoros. Já seria lindo por si só. O Apolo Onze vem para adicionar um fator de estranheza e curiosidade, deixando o leitor com vontade de saber o que raios isso tem a ver com a provável dona do nome docinho. E claro: um título fofo para um livro amor. 

Estrela da Vida Inteira (Manuel Bandeira): Meu livro de poemas favorito é, na verdade, uma reunião de todos os livros do meu poeta favorito, o Manuel Bandeira. Os "sub-livros" dentro dele também tem títulos incríveis, muito líricos e bonitos, como Ritmo Dissoluto, Estrela da Manhã, Estrela da Tarde, Belo Belo, etc. Todos eles fazem referência a uma ideia de luminosidade, do dia como metáfora da vida, etc, e eu acho isso tudo muito apropriado e não é por menos que meu coração é todo do Bandeirinha.

Veronika Decide Morrer (Paulo Coelho): Seguindo a mesma proposta do fator choque de Contra Um Mundo Melhor, Veronika Decide Morrer já joga uma bomba no seu colo desde o título. É difícil demais fugir da curiosidade de saber como e por que a Veronika decidiu se matar. É direto, sem delongas, mas também sugere mistério. Forte abraço pro Mago.

O Amor do Pequeno Príncipe - Cartas a Uma Desconhecida (Antoine de Saint-Exupéry): Escolhi esse livro mais pelo subtítulo do que pelo título em si. Cartas A Uma Desconhecida. É intrigante e doce. Romântico e triste. Sugere algo profundo, por falar do amor do Pequeno Príncipe, e ao mesmo tempo rodeado de mistério, quando traz à tona a imagem de uma desconhecida. Eu adoro mistérios, deu pra reparar?

Ressurreição (Machado de Assis): Ressurreição é uma palavra bonita. Bonita, com uma sonoridade interessante e com um significado mais bonito ainda. Acho que não preciso dizer mais.

Quem é Você, Alasca? (John Green): Sou completamente apaixonada por esse título, principalmente depois que soube que Alasca é o nome de uma menina pela qual o personagem principal do livro se apaixona. Eu acho Alasca um nome super poético e tem tudo a ver com paixonite misteriosa e inalcançável de romances. No começo pode soar estranho, porque remete imediatamente ao estado do Alaska, nos Estados Unidos, mas se você desviar sua atenção da ideia de neve e ursos, encontrará um nome muito bonito. Até eu ficaria intrigada pela Alasca, e olha que nem li o livro ainda.

Amsterdam (Ian McEwan): Eu acho Amsterdam um nome lindo. Seja pra uma cidade, uma pessoa e acho que poderia existir algum estado de espírito designado como Amsterdam, só pela boniteza das letras juntas e pelo som bacana que tem a palavra. Eu sempre quis ler esse livro e não faço a menor ideia de sua sinopse. Se é do Ian McEwan deve ser bom, mas com um nome assim, tão legal, ficaria muito triste se soubesse que é uma história meia-boca.

Casei Com Um Comunista (Philip Roth): Casei Com Um Comunista é um livro que quero ler desde que ele apareceu na casa do meu pai, única e exclusivamente por causa desse nome. Como vários outros exemplos daqui, este é forte, direto e deixa você com a pulga atrás da orelha, querendo saber mais sobre aquilo e louca para desvendar o que tem dentro.

A Descoberta do Mundo (Clarice Lispector): Nunca tinha ouvido falar desse livro da Clarice até que o ganhei. Sendo assim, não posso dizer se hoje sou apaixonada pelo título apenas porque sei o que ele significa e adoro, ou se seria encantada mesmo sem lê-lo. De qualquer forma, eu acho lindo. Lindo, poético e super feminino. Talvez essa ideia de feminilidade dele venha mesmo depois da leitura, afinal, a coletânea de crônicas da Clarice é uma delicada coleção de epifanias, cheias de memórias de infância da menina que ela foi, que pouco a pouco foi abrindo os olhos e compreendendo melhor o mundo ao seu redor. Recomendo fortemente.

Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade): O melhor livro do Drummond não poderia ter um outro título que não fosse esse, que é profundo, sensível, cheio de significado, mas sem ser piegas,  características que, creio eu, resumem toda a obra dele, e que explicam perfeitamente porque sou apaixonada por seus versos.

Tudo Se Ilumina (Jonathan Safran Foer):  Eu gosto de coisas que tenham a ver com luz. Gosto por causa do significado e gosto também porque a maior parte das palavras relacionadas a luz são bonitas por si só. Iluminação, ilumina, iluminado... dá a impressão que uma luz acende a cada "lu", e quando o título já chega dizendo que Tudo Se Ilumina, eu imagino um festival de luzes piscando. O título em inglês também é lindo: Everything Is Illuminated, e tem um episódio da 5ª temporada de Dexter, talvez o melhor da temporada, chamado Everything Is Illumenated e eu sou apaixonada por essa referência.
Entrei na brincadeira das perguntas novamente e criei uma conta lá no Ask.Fm. Numa tarde tediosa fiquei com saudades do Formspring e resolvi brincar com seu primo mais novo. Quer me fazer perguntas? Clica aqui! :)



sábado, 14 de julho de 2012

Em um relacionamento sério

É verdade. Estou total, completa, inabalável, delirante, rodopiante, embriagada, perdida, desesperadamente apaixonada. Tenho estado aérea, sorrindo pro nada, suspirando a cada segundo, sonhando sem querer acordar. Na minha cabeça agora só existe um assunto, uma conversa, uma pessoa. Para todas as pessoas que vejo a única coisa que sei falar é dela, a minha paixão, e dele, o meu amor. O coração bate forte, as mãos suam e sinto como se meu estômago grudasse na minha coluna vertebral a cada sorriso. É lindo e ao mesmo tempo assustador. Forte, tão forte, que penso que não dá pra se sentir assim sem morrer um pouquinho por dentro. E se isso matar mesmo, me avisem a maneira mais rápida e intensa de morrer disso, porque não desejo outro fim para mim. As pessoas me veem, falam comigo, perguntam o que acho e a única coisa que sei fazer é emitir sons estranhos, vomitar um arco-íris de 18 cores e dizer, por fim: ele é lindo. 

Ele é lindo, ele é forte, ele é inteligente. Ele é meio bobo, tem um coração lindo e um dark-side que me intriga e me seduz. Ele é desajeitado e tímido e por causa disso e não apesar disso, soube me conquistar de jeito, me prender, me amarrar em sua teia para nunca mais sair. Ah sim, a teia é uma parte muito importante do nosso relacionamento, porque de uns tempos pra cá ele anda com uma mania de andar pela cidade pulando de prédio em prédio pendurado por uma teia. Ele salva as criancinhas de carros em chamas, salva a humanidade de um agente biológico terrível e só não consegue salvar a mim de amá-lo para sempre e procurá-lo em todos os rostos e todas as pessoas e de achar qualquer um que passe diante de mim um tico mais sem graça. Porque no mundo existem vários mais ou menos como ele, vários magrelos, vários fofinhos, vários inteligentes com cara de bobo, vários nerds com camiseta do Ramones e óculos de aro grosso, mas só ele é tudo isso e ao mesmo tempo é - e acho que essa altura vocês já devem ter deduzido - o Homem-Aranha. No entanto, sei lá se quero ser salva (mentira, quero sim, Davizinho e Helena precisam vir ao mundo).

Pois é. Desde que o rebot de Homem-Aranha dirigido pelo Marc Webb e estralado pelo Andrew Garfield foi anunciado eu sabia que teria de ser forte demais para suportar as fortes emoções. O meu herói preferido sendo interpretado por um dos meus atores-amor. Quis que tudo fosse surpresa, mal corri atrás de fotos e teasers do filme para que, quando finalmente fosse vê-lo, a surpresa e o encantamento fossem completos. Só o trailer já me deixou tão maluca que temi pela minha reação diante do filme. Da primeira vez que eu vi, no fim, eu não conseguia me mover da cadeira. Eu não queria sair daquela sala de cinema e ter que enfrentar o mundo real novamente, onde o Peter Parker Garfield, como se não bastasse não existir, ainda por cima não era meu namorado. Naquela dia, depois do filme, eu não pensava em mais nada. Cheguei em casa e só falei dele pra minha mãe, que nunca tinha visto seu genro ideal mais gordo. Para todos que me perguntavam o que achei do filme, minha resposta era apenas uma: ele é tão lindo! Dá pra dizer alguma outra coisa? 

Eu poderia falar sobre o filme (que sim, independente do frio na barriga e dos arrepios de amor, eu adorei, obrigado por perguntarem); sobre como meu coração se quebra em dois ao pensar que é inegavelmente injusto que o Adam Brody nunca tenha interpretado o Peter Parker uma vez que é o ator perfeito para o papel enquanto, ao mesmo tempo, não consigo imaginar outro além do Andrew no lugar dele; sobre meu alívio ao ver que o Homem Aranha é, de fato, meu herói favorito - Hulk abalou um pouco essa certeza; sobre como acho extremamente válido que diretores mais "sensíveis" dirijam filmes de ação, porque o resultado é um pitéu; e sobre como aquele lagarto é erradíssimo; mas não consigo fazer nada disso porque ontem eu revi o filme e ainda estou em estado de estupor, encantamento e deslumbramento e a única coisa que quero fazer é dizer que no presente momento estou em um relacionamento sério and imaginário com Peter Parker Garfield.












GAROTOS, APRENDAM:


(Carol, esse post é pra você)



terça-feira, 10 de julho de 2012

Sopa de letrinhas

Fui convidada pela Del e pela Loren a fazer um meme que consiste em copiar algumas coisas numa folha de papel, fotografar e mostrar aqui pra vocês. Por que escrever num papel, fotografar e todo esse trabalho pré-histórico, meu Deus? Porque não importa muito o que eu escrever, mas sim a forma como o faço, a minha letra. Porque nós blogueiras não temos mesmo nada de melhor para fazer nessas férias. 

No colegial eu tive um professor de Literatura um tanto quanto excêntrico. Um dia ele chegou na sala de aula, entregou uma folha sulfite para todo mundo e depois de pedir que sentíssemos (sim) a folha, falou para escrevermos a primeira palavra que viesse à mente. Eu, como levo esse tipo de coisa muito a sério, simplesmente escrevi: papel. Ele passou por algumas mesas analisando o que cada um tinha escrito e a forma como o tinha feito, usando isso de material para psicanalisar meus colegas. Sim. Coisas como: sua letra é redonda mas ao mesmo tempo um pouco pontuda, isso significa que você é perfeccionista e ao mesmo tempo agressivo foram ditas e eu estava torcendo muito para que ele pegasse a minha folha, dissesse uma bobagem das grandes, me dando motivos para rir eternamente, mas isso infelizmente não aconteceu. Acho essa coisa de decifrar personalidade pela letra uma idiotice enorme. Nos tempos áureos em que eu lia Capricho já li reportagens falando que a letra dos garotos pode dizer muito sobre ele, e que a caligrafia do bonito quando escreve algo para você ou sobre você pode revelar seus sentimentos. Risos.

Não costumo reparar muito nas letras alheias, mas confesso que acho bacana quando vejo um garoto que tem letra bonita. Sou dessas que gosta de cartões, bilhetinhos e dedicatórias em livros e imagina que tristeza eu guardar um cartão escrito com garrancho? 

Uma curiosidade: a folha que usei para escrever a mensagem foi a primeira que tive coragem de gastar de um caderninho fofíssimo que ganhei da Isadora no Natal do ano passado. Não é terrível? Ele é tudo de mais fofo e maravilhoso, e por ser tão lindo não tenho coragem de usá-lo mas ao mesmo tempo fico com dó por aquela coisa querida estar apenas enfeitando minha escrivaninha. Espero que esse batizado sirva para que eu crie coragem de usá-lo mais vezes. Alguém também tem esse problema?



A qualidade está meio ruim porque além da foto ser de celular, a luz do meu quarto é uó. De qualquer jeito, se clicar dá pra ampliar.



domingo, 8 de julho de 2012

Aquele com o bolo triste


Postei aqui no fim do ano passado que um dos meus objetivos simples futuros seria aprender a fazer bolos e pães. Tenho todo esse ímpeto culinário reprimido, o qual alimento de forma inconsequente pela quantidade de programas de culinária que assisto e pelo amor que devoto pelo caderno de gastronomia da Folha de São Paulo, especialmente pela coluna da sensacional Nina Horta. Digo reprimido porque, para ser sincera, eu cozinho muito pouco. Não conto sanduíches, omeletes, brigadeiros e pipoca, ou seja, aquilo que faço corriqueiramente, como o ato quase poético de cozinhar que eu imagino quando vejo Nigella e Jamie Oliver ou então quando leio a Nina Horta. Eles parecem falar de uma outra dimensão muito mais interessante do que o simples preparo de um hamburguer numa noite de sexta. Cozinho pouco porque me falta orientação. Mamãe cozinha e cozinha muito bem, mas não gosta. Não tem paciência pra me ensinar. Aliás, ela bem que tem vontade de me ensinar a cozinhar feijão mas, francamente, existe coisa mais sem graça do que aprender a preparar feijão? Já minhas avós, cozinheiras de mão-cheia, tem em boa vontade o que lhes falta em didática culinária: ao invés de me ensinarem a fazer, ficam apenas urubuzando e tentando fazer por mim. Também não me serve. E portanto eu não cozinho.

Entretanto, relendo os posts mais lidos aqui do blog, me deparei com aquela lista que fiz em outubro do ano passado com pequenos objetivos para o ano de 2012, pensando em fazer uma espécie de prestação de contas sobre o que fiz e deixei de fazer. Dentre as coisas que eu poderia ter feito, acabei deixando de lado o objetivo de aprender a fazer tortas e pães. Pensando nisso, nessa primeira semana de férias, resolvi que faria um bolo. Porque é meio complicado querer fazer torta quando nem um bolo se consegue preparar, certo? Gosto de ir por partes. Assim sendo, escolhi a receita clássica do bolo de chocolate da minha avó, fui ao mercado comprar os ingredientes e iniciei minha missão.

Como disse na lista de uns meses atrás, tenho certo trauma com bolos. Na primeira vez que fui tentar fazer, meu lindo bolo de chocolate virou uma massaroca nojenta, meio crua e meio queimada, murcha e disforme. Além de não saber que é terminantemente proibido abrir o forno enquanto o bolo está lá dentro, eu ainda tirava o bendito inteiro do calor, examinava, enfiava o garfo, abusava mesmo. O resultado foi uma coisa nojenta que teve de ir direto para o lixo. Foi um trauma. Foi uma humilhação ímpar. Não sei dizer quanto tempo faz que isso aconteceu, mas posso garantir que no mínimo quatro anos. E eis que então resolvo enfrentar o trauma e me aventurar nos bolos novamente. Receita em mãos, ingredientes preparados, comecei a agir.

O processo foi tão tranquilo e eficiente que eu realmente achei que chegaria lá. A massa ficou bonita e cheirosa. Eu consegui me organizar, manter a cozinha arrumada e limpa, e quando coloquei o bolo pra assar consegui o incrível feito de ter cozinhado sem me sujar. Dava até gosto de ver aquela massa lisinha, de um tom tão elegante de marrom, indo para o forno. Coisa linda. Organizei o tempo perfeitamente para que eu começasse a fazer a cobertura exatamente no tempo de, quando ela ficasse pronta, o bolo saísse do forno e eu a adicionasse bem quente, como manda a receita. A cobertura também ficou linda e deliciosa. Então chegou a hora da minha prova de fogo.

Pra quem não assiste Que Marravilha!, o programa de culinária em que o Claude Troigrois ensina as pessoas a cozinhar e depois deixa que elas façam o prato sozinha, a Prova de Fogo é uma etapa da receita em que o participante mostra certa dificuldade. Se ele passar por ela, ganha pontos extras. Se ele errar, perde pontos, ou algo do tipo. Num episódio, uma menina que tem horror de mexer com carne crua teve de desossar um frango inteiro. A Prova de Fogo não é fácil, e a minha envolvia uma situação muito delicada. Se fosse participante e o programa um pouquinho mais sensacionalista, certamente me fariam dar um depoimento emocionado rememorando o episódio do bolo murcho, quem sabe com os olhos marejados. Enquanto eu estivesse sentada diante do forno, com o timer em mãos, acompanhando os minutos finais dele ali, Claude certamente diria, numa narração em off, que aquele era o momento decisivo em que eu me colocaria diante do trauma do passado, e um intervalo comercial viria logo depois da fatídica chamada: Será que Anna Vitória conseguirá dessa vez?

Anna Vitória esperou o timer apitar e tirou do forno um bolo lindo, crescido e cheiroso. Despejei a cobertura gostosa e fui me entreter com alguma outra coisa feliz e saltitante, esperando o bonito esfriar. Eis que quando, alguns minutos, depois retorno à cozinha, uma surpresa: meu lindo e gordo bolo tinha perdido quase metade do seu tamanho. Além de ter encolhido, ele estava fino. Ou seja, novamente, meu bolo murchou. Perdi minha Prova de Fogo. Meu coração partiu-se novamente. O desgosto foi tão enorme que nem vontade de experimentá-lo eu tive. Quando mamãe chegou em casa foi boazinha o suficiente para comê-lo, mesmo sabendo que não seria lá tão bom. Embatumado, foi esse meu veredito. A cobertura ficou sensacional e isso salva, mas mesmo assim não tenho vontade de comê-lo. Olho ele ali, todo pequenino e frágil, e só consigo pensar: cara, que bolo triste.

Eu queria um bolo lindo e alegre, um bolo gordo, alto, doce e molhadinho, com cara de férias. A única coisa que consegui foi um bolo triste, tão triste quanto os bolos tristes que se vendem nas biroscas desafortunadas das esquinas deprimentes, que a gente um dia inventa de comer na esperança de trazer um pouco de alegria para a rotina desditosa só mesmo para concluir, com muito pesar no coração, que pagou provavelmente caro por um bolo triste que nada tem a ver com descontração e muito menos com férias.

Claude Troigrois, meu descontentamento ainda não chegou ao ponto em que tenho coragem de enviar um vídeo pro teu programa implorando para que você me ensine a fazer bolos, mas, se por um caso você vir a ler isto, saiba que faria o maior gosto em ser ensinada por você e juro que serei uma boa menina e procurarei não te decepcionar na minha Prova de Fogo. A esperança é a última que morre.

EXPECTATIONS


REALITY



Sobre a pegadinha da troca de títulos do post passado, para aqueles que ainda não adivinharam, o primeiro Me Fiz Em Mil Pedaços da blogosfera foi de autoria da bela e querida Taryne, do Doces Rodopios. O texto dela tinha uma pegada bem diferente, e apesar de que, para os familiarizados com o blog dela, minha escolha ter sido óbvia porque o post é recente, não consegui escolher outro sendo que estava diante de um título tão lindo, que iniciava um post igualmente fantástico. Para quem não conhece o post ou o blog da Tary, recomendo fortemente. Fiquei muito feliz de ter saído com ela, que além de ser uma blogueira que admiro, é uma amiga que amo demais. <3 



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Me fiz em mil pedaços

(Conhecem esse título de algum lugar? Pois é! É mais um troca-troca na Máfia, só que dessa vez cada uma sorteou um blog mafioso para escolher um título e reciclá-lo no seu. Já mataram a charada?)

Meu nome é Anna Vitória e eu sou uma pessoa estranha que adora chorar. Quer dizer, não que eu goste de ter motivos para chorar, mas, não podendo evitá-los, a melhor coisa que faço para lidar com eles é cair no choro. Quando eu era pequena meus pais brigavam muito comigo por causa disso, diziam que eu usava o choro para fugir dos meus problemas e deixar os outros com pena de mim, e às vezes era assim mesmo, mas mais como consequência do que plano principal. Eu chorava porque até hoje essa é a forma mais fácil que eu encontrei de descarregar tudo que guardo dentro de mim; então, ao invés de fazer birra e responder meus pais, eu ia pro quarto chorar e depois de um tempo estava tudo bem. Ou quase. Eu tinha uns onze anos mais ou menos quando decidi que nunca mais ia chorar e, de fato, devo ter passado uns seis meses sem derramar uma lágrima - acreditem, para uma pessoa chorona isso é uma eternidade - e foi horrível. Passei a me sentir dura e sufocada e imaginem a quantidade de lágrimas derramadas para poder me redimir depois de todo aquele tempo me contendo.

Problemas e traumas de infância à parte, tirando o choro em lugares públicos e aqueles que fazem as pessoas virem te perguntar por que você está chorando, eu adoro chorar. Faz bem, relaxa, é um conta gotas de água salgada muito eficiente em cima da ansiedade e o melhor de tudo é quando as lágrimas são consequência de uma estrondosa gargalhada, dessas de deixar a barriga mais dolorida do que ao fim de uma sequência de exercícios abdominais. Mais redentor ainda é chorar a dor (ou a felicidade) alheia, principalmente diante da TV ou do livro aberto, e é por isso que amo filmes e livros que me fazem chorar.

Há muito tempo eu postei a respeito do motivo principal do meu amor por filmes de suspense e terror: eles me envolvem a ponto de me fazer a acreditar tanto numa história que chego a perder o sono. Eu amo ser envolvida e, paradoxalmente, raramente me deixo levar. No caso de dramas, no entanto, eu choro por qualquer bobagem. Nem precisa ser drama, aliás. Qualquer coisa com apelo minimamente emocional me coloca com os olhos marejados, de pedidos de casamento em novela das seis a filmes da Hilary Duff.

Existe uma diferença, porém, entre chorar e deixar alguma coisa rasgar seu coração. Como já disse, o choro puro e simples abrange hino nacional em dia de jogo do Brasil e programas de maternidade no GNT, assistiu, chorou, acabou. A alma em pedaços envolve coragem. Você chora e você sofre, como se aquele drama fosse seu. Vale à pena? Sempre vale, porque, ao menos pra mim, ser envolvido ao ponto do sofrimento físico por algum fator externo, é uma delícia, mas exige coragem. Eu nunca vi Bambi inteiro, por exemplo. Eu sei que sou incapaz de lidar com a morte da mãe dele, porque ainda criança, quando fiquei sabendo desse detalhe da história, devo ter ficado sem dormir umas três noites. E.T. também nunca vi, não agora que sei que ele vai embora no fim do filme. Tudo que envolve cachorros e cavalos eu também costumo evitar. Marley e Eu vi uma vez só, depois de muito tempo de filme lançado, e meu coração foi rasgado de tantas formas diferentes que, apesar de no fundo ser um filme fofo e divertido, nunca mais. Não aguento aquilo de novo. Assim como Up! Provavelmente é meu filme favorito da Pixar, mas, depois de assistir duas vezes seguidas no cinema e de quase ter que sair carregada em ambas, olho aqueles velhinhos lindos, escuto a música tema e quero morrer. A lembrança é suficiente para eu amar pra sempre.

Tirando casos extremos, deixar o coração rasgar um pouquinho é legal. Proporciona o mesmo alívio que aquela crise de choro diante de um problema impossível traz. Você chora a dor dos outros e se sente mais leve depois, feliz por não ser com você, aliviada por ela ter começo, meio e fim. Sou assim com os dramas, vivo em busca daqueles que me despedacem enquanto assisto mas que, depois do rolar dos créditos, simplesmente passam. Ontem eu e uma amiga da faculdade conversávamos sobre Grey's Anatomy e um colega perguntou o que a gente via nessa série. Nem hesitei em responder: Grey's Anatomy é uma série pra chorar. Basta dar play num episódio que os dramas mais terríveis são postos diante de você, que vai chorar, chorar, choraaaaaaaaar até pensar que secou por dentro e ao fim dele, ouvindo alguma música bonita que certamente tocará, você irá se recompor e seguir com a vida. Não é maravilhoso? Tem dias que estou meio deprimida sem motivos e meu truque infalível para essas ocasiões é colocar algum episódio bem triste de The OC no DVD. Meu favorito é A Garota do Adeus, da 1ª temporada, aquele com a Anna indo embora. 20 minutos chorando e ouvindo If You Leave depois, estou como nova.

Ano passado, com o estresse do vestibular, a melhor terapia que poderia encontrar foi a novela das seis, A Vida da Gente, também conhecida como a novela mais dramática de todos os tempos. Eu chorava em todos os capítulos, algumas vezes durante todo o capítulo, e isso servia como uma válvula de escape incrível para que eu descarregasse minhas preocupações e ansiedades com a história das duas irmãs apaixonadas por um mesmo cara, dividindo uma mesma filha. Desopilava que era uma beleza.

Valer-se da dor alheia (fictícia, por favor, porque aqui ninguém é sádico) é a melhor forma de redenção emocional terapêutica que alguém poderia inventar. E o melhor de tudo é que a gente se faz em mil pedaços e consegue juntá-los novamente sem a ajuda de ninguém. Algum dia faço uma lista dos meus filmes de coração sangrando pra vocês experimentarem.

Sou completa e irrevogavelmente dessas
Atualização - 07/07 00h52: Perceberam algo diferente? Sim, dei uma mudada na aparência do blog. Bege e cor-de-rosa são duas cores que me cansam muito facilmente, por isso resolvi fazer leves alterações na paleta de cores do blog. A imagem de topo não estava me deixando feliz há muito tempo e por isso foi substituída por uma que ficasse mais bonita com a escala de cinza do background - e também é um frame lindo de Breakfast At Tiffany's <3 A estrutura continua a mesma, só trouxe de volta para o sidebar a tão adorada tirinha dos pôneis. Que bobeira a minha pensar que sobreviveria sem ela. Espero que tenham curtido as mudanças. :)



segunda-feira, 2 de julho de 2012

Então eu fiz um vídeo sobre Anna Karenina

Depois de pouco mais de um mês de leitura, terminei Anna Karenina, do Tolstói, essa semana. Desde a metade do livro que vejo pensando na melhor forma de falar sobre ele por aqui, chegando até a rascunhar uma ou outra resenha, mas sempre desistindo no meio do caminho. Gostei tanto do livro e ele me fez pensar e sentir tantas coisas que todo texto que faço a respeito me deixam com a sensação de que não escrevi o suficiente e, por outro lado, quando escrevo aquilo tudo que queria dizer, o relato toma uma proporção bíblica que sei que vocês não teriam essa paciência para ler. Somando isso à minha nova descoberta (tardia, eu sei) dos canais literários no Youtube, achei que a melhor forma de falar para vocês sobre esse livro encantador seria por meio de um vídeo. Já gravei aqui pro blog vídeos mostrando minha estante de livros e DVDs, mas nada disso chega perto do que é a tensão de fazer uma resenha em vídeo. Peço encarecidamente que ignorem meus tiques de nervosismo e timidez, abstraiam a mania horrível que tenho de ficar balançando diante da câmera e finjam que não viram que de repente o vídeo fica escuro do nada.

De resto, espero que gostem.



PS 1.: O áudio ficou baixo porque além de eu ter gravado no celular, tive que ligar o som para abafar um pouco da barulheira que estava vindo da janela, já que escolhi para gravar um vídeo justamente num dia em que estava tendo festa no salão de festas do prédio. Moro no segundo andar e meu quarto fica exatamente no rumo do salão. Ou seja: volume máximo!

PS2.: Esse é o 400º post do blog! Ê!