quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Banhos introspectivos

Quando chego em casa muito cansada de um dia cheio de andanças - sejam elas pelas ruas daqui ou então as intelectuais - gosto de me presentear com um escalda pés. Sim, querido leitor, aquela bacia que sua avó enche de água quente para desinchar os pés depois de um dia cheio. Eu, com minha alma idosa, já cheguei a gastar algumas dilmas com o sachet próprio pra isso da Granado e foi lindo, mas o efeito que eu desejava só seria mesmo adquirido com um lacaio para me fazer uma massagem, que sairia um pouquinho mais caro que os sais cor-de-rosas. Outro ritual perfeito para esses dias de exaustão é o banho introspectivo, fantástico não só para momentos de cansaço extremo, mas também para dias meio melancólicos em que tudo que você deseja na vida é ouvir umas músicas tristes e sentir um pouquinho de pena de si mesmo. 

Banhos introspectivos são muito simples, você só precisa de uma boa trilha sonora e água quente caindo sobre suas costas. Eu recomendaria um combo de Norah Jones, Cat Power, Damien Rice e os primeiros cds do Coldplay, luzes apagadas, velas de lavanda e algum produto de banho chique, seja um shampoo milagroso, uma máscara cheia de promessas, esfoliante corporal ou um óleo absurdamente cheiroso - que é pra você, mesmo na fossa, sair de lá se sentindo uma pessoa de respeito. Banhos introspectivos não combinam com grandes shows particulares embaixo d'água. Reserve aquele tempo simplesmente para contemplar seus pensamentos ou ignorá-los por completo, ouvindo a água cair e murmurando baixinho, de forma desafinada, de preferência, algum trecho da música. 

Tanto o escalda pés como o banho introspectivo são realmente ótimos, recomendo fortemente, mas sempre que saio deles não deixo de soltar um suspiro profundo e pensar que seria uma pessoa mais completa se tivesse uma banheira em casa. Escalda pés relaxam e é uma delícia cochilar com os pés numa bacia de água quente com Friends na tv, mas fazer um escalda-corpo-inteiro seria ir para o céu e voltar carregada por bolhas de sabão. Banhos introspectivos são deliciosos e até possuem o adicional inalcançável da banheira de ter a água caindo sobre sua cabeça, mas a sensação de estar completamente imersa numa água cheirosa, rodeada por velinhas coloridas, ouvindo músicas tristes e podendo até mesmo ler um livro consegue ser melhor. 

Parece exagero, mas não passo uma semana sem pensar em como minha vida seria melhor se eu tivesse uma banheira em casa. Aqueles que tem destroem meus sonhos dizendo que banheira é um item obsoleto que, uma vez dentro de casa, ninguém tem paciência para usar. Meus avós tem uma banheira que só serve para dar banho nos netos pequenos. Eu, quando fui uma neta pequena, já brinquei muito lá dentro. A única coisa que me impede de continuar usufruindo dela é o medo estúpido que tenho do banheiro da minha avó. Sim, é um banheiro de filme de terror e não tenho paz no coração suficiente para simplesmente fechar os olhos e relaxar depois de ter visto tantos filmes onde desgraças incomensuráveis acontecem a mocinhas inocentes que só queriam meia hora de paz e sais aromáticos. 

Pode ser que vocês, meus avós e os futuros proprietários de banheira de fato desprezem o bem maravilhoso que tem em casa, mas me recuso a crer que eu, a pessoa que se dá ao trabalho de forrar o tapete da sala com uma toalha, esquentar água, gastar dinheiro com ~sachet-para-escalda-pés, aquela que por milhares de vezes tampou o ralo do box e ficou feliz demais quando a água cobriu seu peito do pé, tenha coragem de cometer o crime de ter uma banheira em casa e não usar. Eu não preciso de uma jacuzzi, de hidromassagem ou de uma banheira do tamanho de uma cama de casal. Aliás, eu não tenho o menor amor por banheiras modernas e tecnológicas. Gosto muito mais daquelas meio antigas, pequenas, com cara de apartamento antigo de Nova York, etc e tal. Eu só quero uma banheira com água quentinha, uma coleção de sais aromáticos, um estoque vitalício de velas, um cd da Jenny Lewis e a ideia na cabeça de que mesmo nos piores dias da minha vida eu sempre poderei chegar em casa e entrar de roupa e tudo num sonho quentinho com cheiro de lavanda, ir pro céu e voltar flutuando em bolhas de sabão. 





segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Anti-ode aos telefones

Eu odeio telefone. Se fosse elencar em uma lista as coisas que mais odeio em todo mundo, telefone estaria no top 5 fácil. Uma vez li numa entrevista uma pessoa (que não lembro quem) dizer que odiava telefone porque ele é um meio de comunicação extremamente invasivo e intrometido. Não poderia concordar mais. O telefone se impõe diante de você ao tocar, te força a atendê-lo independentemente de você estar fazendo algo mais importante, estar dormindo ou simplesmente não estar a fim de falar com alguém no momento. Telefone é uma coisa inconveniente. Também não sou a maior fã do mundo de celulares, mas estes pelo menos te dão a chance de ignorar uma chamada quando quiser ou precisar e o mais importante de tudo: celulares são silenciosos. Quer dizer, são silenciosos se você quer que eles assim sejam. Celulares não são autoritários. Sim, eles te deixam com aquela sensação de clausura típica de quem pode ser localizado a qualquer hora em qualquer lugar, mas é tão mais cômodo estar sendo vigiada por uma coisa que não faz barulho nenhum!

Eu odeio barulhos altos. Se for pra ser alto, que seja música e música que eu gosto. Aqui em casa sempre fomos muito silenciosos, meus pais não levantam a voz para mim nem na hora de dar bronca. Por ter sido criada assim, sinto um horror sobre-humano de ter que conviver com barulhos muito altos. Telefones, no geral, fazem um barulho muito alto. Não existe nada mais desagradável do que ser acordada por um telefone tocando e, acreditem, isso acontece muito aqui em casa. Por motivos de essa é minha vida, esse é meu clube, o número do meu telefone fixo é parecidíssimo com o de uma empresa de transporte rodoviário. É claro que eu recebo várias ligações por engano de pessoas querendo falar na tal empresa. É claro que aqueles que erram o número são sempre os mais educados, que ligam num sábado, às 7h, não falam alô, nem bom dia e já gritam (claro): QUE HORAS QUE SAI ÔNIBUS PRA ITUMBIARA? 

Ainda vai chegar o dia que eu vou vender uma passagem de ônibus pra um animal desses, anotar o número do cartão de crédito e fazer umas compras na Amazon. Me aguardem.

Eu odeio atender telefone. Pra começar, nunca é pra mim. Os (poucos) amigos que me ligam sempre tentam primeiro o celular e os que insistem em ligar em casa (oi Matheus) tem até uma hora habitual para isso. Pela hora do dia eu consigo dizer se a ligação é ou não para mim. Acreditem, quase nunca é e quase sempre sou eu que atendo o telefone de casa. Faço isso porque minha mãe simplesmente não o faz. Ela odeia tanto quanto eu e não se faz de rogada ao ignorá-lo completo. Eu sou neurótica demais para isso e não consigo simplesmente relaxar enquanto aquele barulho infernal ressoa pela casa toda. Uma coisa é eu atender o telefone da minha casa. Uma coisa bem desagradável, mas ossos do ofício. Outra totalmente diferente é eu atender o telefone da casa dos outros e é claro que todo mundo me acha com cara de secretária particular. Estando na casa da minha avó, basta ouvir o primeiro toque para logo alguém me pedir pra atender. Gente, alguém me explica por que eu preciso me dar ao aterrorizante trabalho de atender a um telefonema que obviamente não é para mim, sendo que dali a alguns segundos  - e uma penosa conversa com um semi-conhecido - depois vou ter que passar a batata quente (e estrondosa) para outro? Quero ser queimada viva quando o telefone toca e meu pai me CUTUCA - coisas que odeio mais que telefone: cutucões - e diz: atende lá que é pra você. Fico tão irritada que às vezes tenho vontade de chorar.

Eu odeio ligar para os outros. Ou melhor, odeio ter que ligar para os outros. Ligar sem compromisso, para jogar conversa fora é uma coisa que eu faço quando estou muito bem humorada ou muito entediada, mas o fato de ter que ligar me tira do sério. Isso não faria diferença se eu não fosse tida como a telefonista particular da família, já que raramente tenho que ligar para alguém. Talvez por essa falta de necessidade as pessoas achem de bom tom me pedir pra ligar no lugar delas. Anna, liga ali pra fulana pra mim e pede isso e aquilo. Filha, pega o telefone e liga pra Siclana que eu quero falar com ela. Anna Vitória, pega lá o catálogo de telefone e conversa com o pessoal da tv à cabo pra eles virem aqui trocar o controle remoto. Vai, procura lá o número e pede você a pizza. 

Um dia ainda vou perder as estribeiras, tacar o telefone no chão e pisar até fazê-lo em mil pedaços. 

Recentemente assisti Descontruindo Harry, do Woody Allen, que possui uma cena sensacional em que ele visita o inferno. À medida que o personagem do Woody vai passando pelos diversos andares do submundo, é informado por uma gravação de elevador o que encontrará em cada um deles. Mídia, críticos de literatura, etc. Poderia passar dias elencando uma série de coisas que encontraria em meu inferno particular, mas não tenho a menor dúvida de que no meu não se ouviria nem choro e muito menos ranger de dentes. O que é tudo isso diante do som de um telefone tocando?


NÃO



sábado, 25 de agosto de 2012

A noite veste prata


Sinceramente, eu não sei quem foi que começou. Estava andando um pouco mais atrás do resto do grupo, olhando maravilhada ao meu redor sentindo algumas coisas acontecendo no meu coração e pensando no quanto eu amo aquela cidade cinza e linda, até que ouço vozinhas delicadas cantarolando algo conhecido e resolvo andar um pouquinho mais rápido para me inteirar do movimento. Andando abraçadas a alguns passos de distância de mim, as meninas cantavam Tempo Perdido, que por meio de um acordo tácito acabou se tornando um de nossos hinos, talvez o mais sério e profundo deles. 

Me uni àquela cantoria e enquanto cortávamos a Avenida Paulista tão imersas em nós mesmas e na intensidade de tudo aquilo que tínhamos vivido, que poderia mais ou menos ser traduzido em alguns versos da música, observei a reação das pessoas. Estou com uma mania de dividir as pessoas por grupos, e naquela noite tive a chance de fazer isso mais uma vez. Algumas nos ignoravam, certamente ocupadas demais para perceber o que acontecia ao seu redor. Pessoas meio tristes e meio chatas, muito provavelmente. Outros nos olhavam como se fôssemos idiotas. Essas sim, com certeza muito chatas. Outros olhavam curiosos, tentando entender aquele flashmob pequeno, discreto, com garotas de braços dados cantando, algumas meio chorando. Pessoas normais. Outras cantaram junto à medida que passávamos por elas. Oi você que cantou junto com a gente, parabéns por ser legal e saber apreciar as coisas bonitas que a vida coloca diante de você. Poderíamos ser amigos. Não é porque eu estava no meio do movimento nem nada, até porque eu acharia incrível ver alguém andando na rua cantando Legião. 

Longa é a avenida e breve a música, de modo que Tempo Perdido logo virou Quase Sem Querer, que pulou pra Eduardo e Mônica até fechar com Pais e Filhos, quando foi mais legal ver as pessoas se unirem ao coro de quem prega que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, um amanhã que nem existe mesmo. Estávamos todas meio embargadas e a coisa ficando intensa demais, e o fato de ninguém se lembrar direito como era o começo de Giz deu uma quebrada no clima e logo começamos a rir e substituir aquilo por Kelly Key, só que mais baixinho e discreto porque deixaria de ser de bom tom.

Vou guardar para sempre esse momento, nós, tão jovens, vivendo nosso próprio tempo. Como diz a Renata, foi uma cena para passar diante dos meus olhos nos meus últimos cinco minutos de vida. Ainda que tivéssemos medo do escuro não seria necessário deixar as luzes acesas, porque aquela noite vestiu prata. 




terça-feira, 21 de agosto de 2012

Eu vejo o mesmo que vocês

A vida é a arte do encontro. Quem disse isso foi o Vinícius, o meu Poetinha. Pensei nessa frase quando, no último domingo, estava na loja de maquiagem mais legal de todos os tempos - Quem Disse Berenice?, no shopping Paulista em São Paulo - e contei pra vendedora que eu era de Minas, e Analu e Mayra contaram que eram da Curitiba, e Deyse disse que era do Maranhão, Tary contou de seus jacarés campo-grandenses e nós tentamos contar para ela da Máfia. Ah, a Máfia! A moça da loja era muito simpática e adorou a nossa história, tirou foto e tudo e eu fiquei ali pensando como nossa história era mesmo legal e sobre como a vida é de fato a arte do encontro. Não tem como dizer outra coisa quando penso que vivi um dos finais de semana mais legais de toda a minha existência ao lado de garotas dos mais diversos cantos do Brasil que entraram na minha vida graças a um grupo do Facebook. 

Alegrias egoístas são aquelas que a gente vive sentindo um gosto doce de saber que aquela felicidade é só nossa. Quem disse isso foi a Analu. A Máfia é a minha alegria egoísta. Eu já tentei falar sobre ela para os meus pais e meus amigos, e eles assentem, comentam, sentem até ciúmes, mas eu tenho certeza absoluta que nenhum deles entende, de fato, o que é a Máfia e sobre como ela é incrível. É complicado para os meus pais entender como foi perfeitamente natural encontrar essas meninas que eu nunca tinha visto na vida. Eles me perguntaram várias vezes se não foi estranho ou constrangedor e aí eu penso na Analu, na Tary, na , na e na Marie correndo até mim no shopping, e a gente se abraçando, gritando e pulando no meio de toda aquela gente e vejo que eles não sabem absolutamente nada. Por um lado eu queria conseguir dividir isso até mesmo para agradecer, tanto aos meus pais, por terem me deixado participar dessa viagem, por terem confiado em mim e me soltado na maior cidade do Brasil com ~estranhas~, como a esse blog, sem o qual elas jamais teriam aparecido na minha vida. Eu devo essa história a esse espaço, mas sei que eu nunca vou conseguir dizer e fazer que vocês sintam um pouco de como foi. Já do outro lado, eu sinto esse gosto doce de guaraná Jesus de saber que ninguém além de quem estava comigo - e de quem ficou em casa vendo as fotos, tristes por não estarem lá, mas felizes por estarmos - vai saber como é e como foi. 

Tudo pode ser, basta acreditar. Quem disse isso foi a Xuxa, ora vejam só! Eu cantei isso junto com a Tary, em cima do palco de um karaokê, com todas as outras meninas cantando junto em uníssono - o resto do pessoal meio cantando e meio se perguntando quem eram aquelas meninas malucas tão absolutamente felizes e animadas - e parei para reparar nessa letra, que entrou para nosso repertório primeiro como brincadeira e só no final fazendo todo sentido do mundo. Há quase um ano, quando a Máfia foi criada, quando dividimos aquela primeira madrugada rindo e falando besteira, abrindo nossos corações e dizendo em caps lock que seria lindo se estivéssemos juntas de verdade, eu não imaginaria que em menos de um ano viria aqui contar a história sobre quando finalmente estivemos juntas. Nem quando fiz aquele post dizendo que um dos meus desejos era conhecer a Máfia eu realmente levei aquilo a sério. Quer dizer, meu lado sério não levou aquilo a sério, mas no fundo do coração eu sabia que a vida não era tão injusta a ponto de não podermos estar juntas nem que fosse por um dia - e nós tivemos dois. 

Alguns infinitos são maiores que outros infinitos. Quem disse isso foi a Hazel Grace. Foram só dois dias, dois dias intensos o suficiente para que eu voltasse pra casa com a sensação de que fiquei anos-luz fora num universo paralelo, e rápidos o bastante para que doesse aqui dentro a sensação quase física de que fui arrancada desse universo rápido demais. Num momento estávamos pulando no shopping e no outro estávamos chorando na alameda Santos nos despedindo. Já o Holden Caulfield disse que museus são interessantes porque eles sempre são os mesmos, a única coisa que muda é você. Foi exatamente isso que senti quando entrei no meu quarto ontem. Às cinco e meia da manhã da última sexta eu o havia deixado, e ontem ele estava exatamente da mesma forma, a cama arrumada às pressas, os cabides vazios em cima da cadeira, o All Star roxo que não coube na mala encostado num canto. Era o mesmo, mas pareceu outro, porque eu havia mudado. Não só pela carteira mais vazia depois de tantos livros, batons, perfumes e comida, mas mudado por dentro, depois de viver uma experiência fantástica ao lado de meninas ainda mais extraordinárias e ter certeza que sou afortunada o suficiente por ter a oportunidade de ver a minha estrela cruzar com outras estrelas, com aquelas estrelas. Se eu tivesse sido responsável e saído da Máfia para estudar para o vestibular ou se a Renata tivesse dito que era má ideia criá-la, esse fim de semana jamais teria existido. A metáfora das estrelas é de Peter Van Houten, mas a gente pode substituir essa intersecção estelar por Deus. Quem diz isso sou eu. Para mim, a gente ter se cruzado é coisa de Deus, porque eu não acredito em acaso. 

Ao vivo é diferente. Quem disse isso foi meu pai, fazendo seu papel de pai ao dizer que eu fosse cautelosa com relação às minhas expectativas sobre as meninas. Segundo ele, e não acho que esteja errado ao pensar isso, a gente pode até trocar confidências com uma pessoa via facechat, mas estar com ela frente a frente é outra coisa. É mesmo, pai. Só que não é um diferente pior ou decepcionante, é um diferente melhor. Ao vivo eu vi que a Analu é pequena mas me engole com seu abraço. Ao vivo a Renata chorou se despedindo de mim. Ao vivo a Tary me abraçou porque eu disse creiça em voz alta. Ao vivo a Larissa, a Lilica e a Marie são pessoas tão fantásticas que chega a ser pecado que vocês não tenham a chance de conhecê-las. Ao vivo a Alê fala tão rápido que é difícil entender. Ao vivo a Mayra tem um cabelo tão macio que é difícil acreditar que ele não é roxo naturalmente. Ao vivo a Isadora tem uma voz muito bonita. Ao vivo a Ruvs parece um pokémon indie, de tão fofa e estilosa que é. Ao vivo a Milena é uma princesa que fish várias coisas e mora na lua mesmo. Ao vivo a Deyse se banha e toma o suco de uva do McDonalds igual eu.

E o resto é história. O resto somos nós dançando kuduro por toda São Paulo. O resto somos nós fazendo todas as coisas que, se eu estivesse de fora, recriminaria horrores e xingaria mentalmente aquele monte de menina retardada. O resto somos nós fazendo corrente na Bienal para não nos perdermos e comendo doce de leite ninho largadas num canto atrapalhando o fluxo de pessoas. O resto somos nós mobilizando o karaokê todo para cantar nossas músicas, para gritar o nome da Larissa e sair de lá sem voz. O resto somos nós contando para pessoas aleatórias na cidade quem somos nós, porque fazemos tanta farra e porque usamos um bottom na roupa. O resto somos nós cantando Legião Urbana na avenida Paulista. O resto somos nós nos divertindo na livraria Cultura. O resto somos nós polemizando no Starbucks. O resto são todos os pedaços de todas elas grudados em mim, e aqueles que eu perdi que ficaram com elas. É o cheiro do perfume que quebrou que sempre vai me lembrar todo esse resto. É o meu brinco perdido num abraço que nunca mais vai voltar. É a tulipa vermelha e os marca-página aqui na minha mesa me lembrando de que foi de verdade, são as pulseiras no meu braço, o guaraná Jesus na geladeira, os chaveiros novos, as cartas e o bombom que já comi.









O resto é nosso e de mais ninguém



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sobre músicas ruins (e ainda bem que elas existem)

Enquanto escrevo esse post, ouço Quando Você Passa, de Sandy & Jr. Sim, querido e espantado leitor, a famigerada música do turuturuturu aqui dentro que faz turuturu quando você passa. Achei essa pérola em um dos vários cds que tenho da dupla, herança da minha infância que teve como um de seus pontos altos um grande show que eles fizeram em Uberlândia, que mobilizou minha família toda no parque num domingo de sol e praticamente inutilizou os ombros do meu pai, que me carregou neles durante toda a apresentação. Foi lindo, mas uma pena que eles ainda não tinham lançado o tal do turuturuturu, porque eu realmente gosto dessa música. Acho que nunca admiti isso em voz alta - ou voz escrita publicamente - e o objetivo desse post é justamente refletir por que a gente só comenta com as pessoas as coisas legais que ouvimos.

Não vou entrar no mérito da questão que gira em torno do que é legal ou não e o que raios faz algo ser legal ou por que She &  Him é melhor que Sandy & Jr. Para resolver isso, deixo com vocês o excelente artigo - infelizmente disponível só em inglês - de Jon Foreman a respeito do que é bom e ruim, o que é arte e o que é lixo. Um primor. Usando um argumento bem simplório, é possível dizer primeiro que músicas ruins são boas porque sem elas não seríamos capazes de perceber como as músicas boas assim o são de fato. Num mundo que vive só de Beatles fica difícil perceber porque aquilo que começou como uma boyband deu tão certo, encantando e emocionando marmanjo, crianças e mocinhas até hoje se não tivéssemos, por exemplo, os Jonas Brothers para fazer um contraponto. Assim como a gente só percebe o nível de realeza da Cat Power quando somos postos diante de uma música da Lana Del Rey tocando no rádio.

Ainda assim, não é disso que quero falar. Gostaria que existisse algum estudo que explicasse a mística que existe por trás das músicas ruins e o que faz com que elas sejam irresistíveis. De acordo com algumas matérias que li recentemente a respeito do fenômeno das músicas-onomatopéia (eu quero tchu, eu quero tcha; lêlêlê; tchetchereretchetche, oioioi...), somos atraídos por esse tipo de coisa porque elas apelam para a nossa sensibilidade musical mais primária. Vocês podem reparar que crianças pequenas adoram essas músicas e o que nos faz ficar com elas na cabeça o dia todo é exatamente esse ranço de infantilidade, um reflexo automático. Crescemos, vivemos, estudamos e consumimos cultura para que possamos sair desse primeiro degrau e evoluirmos para podermos responder a estímulos um pouco mais complexos. Falei bonito, né? Basta reparar que só pessoas mentalmente evoluídas conseguem apreciar, por exemplo, um cd experimental e conceitual. Ainda não cheguei lá, só queria me matar depois do show do Kraftwerk. 

O ponto é que por piores, mais pobres e idiotas que sejam a maioria das músicas ruins, a gente não consegue resistir a elas. Nem que seja pra ouvir no cantinho, quando ninguém está por perto, com scrobble desligado e tudo mais. A gente só conhece de verdade uma pessoa depois que ela confessa gostar e ouvir escondido alguma coisa socialmente reprovável. Se ela diz que não faz isso, ou é chata e xiita demais ou está mentindo. Vai dizer que você não sabe ao menos umas cinco músicas de Sandy & Jr, de cor, meio que por osmose? Quando começo a conversar sobre guilty pleasures musicais com meus amigos, perdemos horas e horas cantando tudo que vem a cabeça, assim como passei quase uma madrugada toda compartilhando tudo quanto é lixo irresistível que minha vinha a cabeça junto com Analu e Tary - ouso dizer que descobrimos a amizade verdadeira quando estramos no âmbito de compartilhar nossos funks favoritos. Fui dormir com Porta Aberta na cabeça e acordei cantando baixinho Tem Que Valer

Funny fact: essa última música bombou quando eu tinha uns 10 anos de idade. Eu achava ela linda e sonhava que um dia me apaixonaria por um surfista que ficaria me olhando enquanto surfava a onda perfeita - e em seguida, claro, eu rolava na areia e ficava louca, muito louca. 

Não louca o suficiente, no entanto, a ponto de negar que o mundo seria um lugar melhor de se viver caso ligássemos o rádio e tivéssemos Radiohead seguido de Chico Buarque na seleção de músicas mais pedidas, mas não sou igualmente insana para achar que É O Tchan e o Thiaguinho deveriam simplesmente pegar fogo. O que dançaríamos nas festas depois da meia-noite e o que cantaríamos nos karaokês da vida? Vocês que são cultos que me perdoem, mas na minha opinião pista de dança nenhuma sobrevive só de música eletrônica sueca e morro de preguiça de quem desperdiça uma noite no karaokê para cantar Norah Jones. Amo demais, mas ora bolas, quer coisa mais bonita do que enrolar a língua cantando Olhar 43?

Resumo da ópera: não levem a vida tão a sério e desconfiem de quem não sabe dançar Macarena. Ah: se sabe a coreografia de Asereje, boa pessoa certamente é.

Fonte: a genial página Unidos Contra o Indie
"Outside the fences of convention lies an untamed wilderness awaiting the reckless souls who have the nerve to cut their own path. Are you daring enough to defy the dictatorship of the critics? Are you strong enough to wander outside the lines? To dance to your own drum? To thrill to the ecstasy of unrepentant, unabashed euphoria?

Outside the fences, the explorers ignore the experts."
Jon Foreman
Esse post foi uma contribuição para a primeira postagem coletiva do Volta Mundo Blogueiro!, com o tema "Gosto, mas não assumo". E aí, quais são os guilty pleasures musicais de vocês?



domingo, 12 de agosto de 2012

Por que a gente é assim?

Este post é pra Milena, cujo amor anormal por esse livro me contagiou completamente, e pro Adônis, que foi até os rincões da internet procurar esse livro e generosamente (cof) compartilhou-o comigo. 

Recentemente descobri um novo critério que pode ser usado para distinguir as pessoas. Num mundo de leitores, existem aqueles que leem e aqueles que, para além disso, desenvolvem uma relação anormal com os livros. Nem preciso dizer em qual grupo me encaixo. Pessoas normais, quando querem muito ler um livro, simplesmente sentam a bunda na cadeira e, ora vejam só, leem. Pessoas como eu, quando colocam na cabeça que querem ler um livro e finalmente colocam as mãos nele, hesitam. Hesitam ao mesmo tempo que abrem furtivamente uma página para ver o que está escrito ali - e depois dessa página outras trinta se vão num piscar de olhos - mas logo o fecham subitamente, olham ao redor para ver se alguém presenciou essa ousadia, e concluem que precisam desacelerar o passo, para que aquelas palavras durem mais. Apenas pessoas que tem uma relação anormal com os livros conhecem a dor e a delícia de se ver desesperado com o fim mesmo diante de uma história extraordinária.

Hazel Grace, personagem principal e narradora de The Fault In Our Stars, novo livro do John Green, também tem uma relação anormal com os livros. Segundo a própria, seu terceiro melhor amigo era um escritor que não a conhecia e se lhe fosse dada a chance de pedir por qualquer coisa, ela gostaria de saber o que acontece com os personagens após o fim súbito de An Imperial Affliction, seu livro favorito de toda a vida. Ela não consegue aceitar que aqueles personagens não tem uma vida própria que segue após a frase pela metade que encerra o livro, não consegue conceber que na cabeça do autor não existe um depois, um futuro, uma verdade e que aqueles personagens, que para ela são pessoas e até mesmo amigas, não passam de peças de uma ficção que simplesmente acabou logo quando o autor achou que era de bom tom encerrar a história. Pessoas normais simplesmente seguiriam em frente, mas Hazel se atormentava com essas perguntas.

Não satisfeita em me deliciar com cada frase de TFIOS como se fossem uma espécie de quitute fino e delicado, desenvolvi pelos personagens um amor tão enorme que me dá vontade de chorar. Eu peguei emprestado o amor da Milena para que quando o tivesse em mãos já estivesse pré-disposta a amá-lo, mas não poderia imaginar que me apaixonaria por ele dessa forma. Eu percebi que isso não era normal quando um dia, contando sobre o livro pra minha mãe, os olhos cheios d'água, ouvi ela dizer que não conseguia ter essa relação com as coisas que lia. Ela conseguia se envolver, gostar, se horrorizar, mas amar assim, de querer chorar, nunca. Meu livro, uma versão porca, impressa e encadernada na copiadora do bairro, obra de quem não aguenta esperar o livro chegar pelo Correio, está inteiro grifado. Não tenho coragem de fazer isso com livros de verdade, mas com esse tive a chance de colorir todas as passagens que deram um nó no meu estômago ao mesmo tempo que fizeram borboletas coloridas perambularem por ele.

E por falar em borboletas, The Fault In Our Stars traz uma declaração de amor que fez meu coração bater forte de um jeito que eu pensava que não seria capaz de ver acontecer de novo diante de uma página aberta. Quando eu sou mexida por um livro de uma forma tão forte que chega a ser físico, penso que jamais vou experimentar aquilo de novo, até que sou surpreendida novamente e só me resta ler e reler a fatídica passagem, grifar, memorizar, rir, chorar e entender que depois daquilo é melhor mesmo fechar o livro, apagar a luz e sentir todas aquelas coisas maravilhosas e acachapantes numa tentativa de fazer eterna a sensação. O livro também me trouxe um novo amor platônico da literatura, que faz meu coração bater tão forte que agora preciso quase fechar os olhos para não ver uma certa pessoa, porque é claro que associei a imagem dela ao irresistível Augustus Waters, e penso que corro o sério risco de acabar me apaixonando por tabela e isso, além de ser uma loucura, seria absurdamente inapropriado. Por que eu sou assim?

Estou me sentindo assim e ainda não consegui terminá-lo. Não tenho coragem. Não quero que acabe. Enquanto leio, penso automaticamente na forma como iria contá-lo para vocês e ontem a noite concluí que eu não precisava terminá-lo para dizer alguma coisa. Não consigo falar dele de um jeito sóbrio e distante de quem se limita a dizer, como todos os jornais, e revistas e leitores normais já disseram, que John Green usa um mote triste - uma adolescente com câncer descobrindo o amor - para contar uma história doce e sem lugares comuns e exageradamente sentimentais e condescendentes com a gravidade daquilo que trata. Muitas pessoas já fizeram e ainda farão isso muito melhor que eu, e confio que vocês serão boas pessoas curiosas e correrão atrás dessas impressões sérias. Da minha parte, resta mesmo só um apelo, para que, pelo amor de Deus, leiam esse livro e não tenham vergonha de ser anormais. Eu queria pegar todas aquelas frases, passar no requeijão e comer junto com um pão quentinho. A Analu mordeu, literalmente, o livro logo após a leitura e a Milena disse que se o livro fosse uma pessoa, ela já estaria com a aliança no dedo. Se esses sentimentos são anormais, então dá licença, porque eu recuso meu atestado de lucidez. 



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ode à Anne Hathaway


Nas horas vagas, costumo brincar com meus amigos de uma coisa bem idiota que aqui iremos chamar de Ou Isto Ou Aquilo. Resumindo, a brincadeira consiste fazer um festival de questões para a outra pessoa escolher só uma opção. Rony ou Hermione? Rosa ou azul? Pulp Fiction ou Bastardos Inglórios? Eu sei, é idiota, mas eu e meus amigos levamos isso um pouco a sério. Tão a sério que eu lembro até hoje que um dia a Carol me perguntou se eu preferia a Natalie Portman ou a Anne Hathaway e eu respondi a Natalie. Em minha defesa, só posso dizer que foi na época do lançamento de Cisne Negro, filme o qual só no cinema eu assisti duas vezes. Foi a época do Oscar dela e, coincidentemente, foi a época em que vi Léon pela primeira vez. Eu só conseguia pensar na Natalie Portman, no quanto ela era maravilhosa, no fato de que ela nasceu pra segurar um Oscar e que eu queria ou ser ela ou só amiga dela. Quando respondi isso, Carol arregalou os olhos pra mim. Eu tinha dito a coisa errada e percebi na hora, mas era tarde demais para voltar atrás.

Fãs da Natalie Portman, não me levem a mal. Eu continuo gostando dela e a achando digna de tudo que eu disse no parágrafo acima. Ela fez Léon, ela fez Closer, ela nasceu em Israel. Contudo, a Anne Hathaway é a Anne Hathaway. Estava refletindo sobre isso semana passada, logo após vê-la como Mulher Gato no novo Batman. Meu melhor amigo, quase devoto de Anne Hathaway, assistiu o filme antes de mim. Ele me ligou logo quando saiu do cinema, totalmente histérico, e ele só dizia que ela estava tão maravilhosa que chegava a doer, que ele se sentia dolorido. Depois que eu vi o filme, passamos vários minutos tecendo comentários sobre o quão sensacional era aquela mulher naquele papel. E aí eu lembrei daquele dia em que eu escolhi a Natalie Portman em detrimento da Anne. Me senti mal como se fosse sério, sabe? Como se, de alguma forma, ela tivesse como saber dessa minha breve pulada de cerca e se ressentisse comigo até hoje por causa disso. Talvez eu tenha esse sentimento porque a Carol adora me lembrar que um dia eu escolhi a Natalie. "Você diz que gosta da Anne mas é team Natalie Portman, né?". É como se uma amiga muito querida duvidasse do meu amor por ela.

Aliás, durante essa reflexão descobri que é impossível colocar a Natalie e a Anne lado a lado pra eu escolher, porque enquanto meu amor pela primeira vem, antes de tudo, pelos trabalhos incríveis que ela fez, meu amor pela Anne vem pela pessoa que ela é. Ajuda, e muito, que ela tenha dado vida para Mia Thermopolis, que protagonize O Diabo Veste Prada e que tenha feito um musical erradíssimo da Disney em seu início de carreira, mas eu gostaria dela apesar disso tudo, porque ela é uma pessoa fantástica. Quando eu lia Anna Kariênina, imaginava Anne como Anna. No que diz respeito a personalidade, uma não tem nada a ver com a outra mas, segundo o livro, Anna era uma mulher tão bonita que parecia irradiar um brilho, uma espécia de aura que hipnotizava todos ao seu redor. Quando penso numa pessoa bonita e brilhante, penso na Anne.

E por falar em pessoas, me lembro de ter perguntado para a Taryne via Ask.Fm quais eram suas cinco pessoas favoritas. Ao fazer a pergunta, comecei a matutar sobre as minhas pessoas favoritas - pessoas randômicas, minha gente, claro que minha família e meus amigos serão sempre os primeiros nessa lista - e cheguei à conclusão de que a Anne Hathaway é uma delas. Eu gosto da Anne Hathaway porque ela tem uma das características que eu mais admiro nas pessoas: ela não se leva a sério demais. E olha que na posição dela é facílimo se levar a sério de um jeito perigoso. Pode até ser que eu esteja errada - se eu estiver, não me contem - mas a impressão que tenho é de que Anne tem um senso de humor monstro e está sempre brincando, acima de tudo. Ela é engraçada sem fazer força, mas ao mesmo tempo conseguiu me fazer chorar num filme ruinzinho como Amor e Outras Drogas, isso sem contar em todas as vezes que choro copiosamente assistindo O Diário da Princesa. Ela é bem humorada e simpática nas entrevistas, tem jogo de cintura para se esquivar de questões que podem prejudicá-la e sempre imprime essa doçura serelepe em seus papéis - já ouviram falar de uma Mulher-Gato tão atrevida e encantadora ao mesmo tempo?

Ainda não entenderam por que diabos eu queria desesperadamente ser amiga dessa mulher?




Eu já estava pensando em fazer esse post há um tempo, mas só hoje senti a real necessidade dele. Estava eu passeando pelas ruínas do meu Orkut quando resolvi dar uma olhada nas minhas comunidades. Vi a abinha com as comunidades gerenciadas por mim e cliquei lá, uma vez que ela acusava um item e eu não me lembrava de ter comunidade nenhuma. Foi então que eu encontrei, sorrindo para mim: "Eu Amo A Anne Hathaway". Estava lá, criada por mim no dia 23 de setembro de 2005 com espantosos 293 membros. Sabem o que isso significa? Em 2005 eu tinha 11 anos, idade com a qual provavelmente criei meu perfil no Orkut. É possível dizer sem exagero que cheguei chegando na rede social do momento criando uma comunidade para a Anne Hathaway. Aos que um dia duvidaram do meu amor, desconheço prova mais concreta e séria do que essa:


Natalie, querida, te amo, mas é difícil demais competir com isso.



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

E um lance é um lance

(Para as minhas filósofas da madrugs, Tary e Analu)


Nada como emendar as férias com a greve das federais para me encontrar num tal estado de nada para pensar e nada para fazer que meus neurônios, agora já descansados, alongados e quase flácidos pela falta de exercício, comecem a clamar por um período de sinapses frenéticas e noites sem dormir. O famigerado cromossomo da pobreza. Na falta de artigos para escrever, notícias para destrinchar e teorias sérias para elaborar, decidi aproveitar o vácuo no meu cérebro e o tédio intelectual para problematizar questões pertinentes presentes no cancioneiro nacional contemporâneo. Comecei a brincar disso através do Ask.Fm (quer me perguntar alguma coisa? Vai lá!) e devido ao (cof cof) sucesso de minhas abobrinhas imaginei que seria interessante criar uma seção no blog, que se chamará Gerador de Lero-Lero.

Para dar início a esse nova empreitada, dissertarei sobre um silogismo de extrema relevância filosófica e sentimental, que me foi proposto inicialmente pela - sempre ela - Analu:

"Traição é traição, romance é romance, amor é amor e um lance é um lance."

É mister dizer de pronto que o objetivo principal do autor do silogismo acima é colocar em esferas distintas os comportamentos e sentimentos que muitas vezes coexistem nos relacionamentos amorosos. Essa distinção visa elucidar ao leitor e/ou ouvinte que eles não podem existir em harmonia, uma vez que são, por natureza, mutuamente excludentes. 

Partindo desse princípio, não seria exagero concluir que o autor da citação acredita que o fracasso nos relacionamentos amorosos contemporâneos se deve ao fato de que homem e mulher (homem e homem, mulher e mulher, vale tudo) não sabem mais fazer essa diferenciação. Essa mistura de estações inevitavelmente acaba em contenda e corações partidos, única e exclusivamente porque a cultura pós-moderna do imediatismo tem impedido que os indivíduos vivam de forma plena as diferentes fases do relacionamento amoroso. Assim, como na imagem evocada pela expressão popular, a carroça acaba passando na frente dos bois, sendo a carroça o turbilhão de emoções e convenções de todo e qualquer relacionamento e os bois o homem e a mulher (homem e homem, mulher e mulher, vale tudo).

Após esse esclarecimento inicial, podemos avançar pela compreensão de que, assim sendo, traição e romance não fazem parte da mesma esfera, assim como distingue-se do amor. Inferimos portanto que onde há traição não há romance, muito menos amor. Essas duas suposições iniciais já fazem parte do consciente coletivo social há um bom tempo, desde quando o amor romântico predominou dentre as outras formas de relacionamento e deixou de ser de bom tom que os indivíduos sassaricassem em outras camas que não a de seus/suas bem-amado/as. Apesar de não ser uma prática socialmente aceita, não se pode afirmar que a coexistência da traição com o romance e o amor inexiste; pelo contrário, o que vai contra a corrente de pensamento mais libertária e inovadora cada vez mais adotada pelos indivíduos, principalmente aqueles que fazem parte da chamada geração-Y, que defende formas de relacionamento mais diáfanas e menos liberticidas, diferentes da rigidez monogâmica. Segundo o célebre autor desconhecido, não existe amor onde há traição.

Uma ousadia de seu pensamento que vale ser notada é que, tendo em vista os relacionamentos modernos caracterizados no parágrafo acima, os quais designaremos aqui como lances, embora não se possa afirmar que há neles amor, ou então que não seja possível classificá-los como vertentes do romance, seus ares de brevidade e descompromisso os redimem do jugo moral da traição. Assim, uma vez que a forma de relação observada entre um homem e uma mulher (homem e homem, mulher e mulher, vale tudo) puder ser chamada e reconhecida como lance, é possível que ambos os indivíduos sassariquem por aí a seu bel-prazer. Este é, por sua vez, o traço mais atrevido e moderno do pensamento o qual analisamos aqui e também uma crítica moral àqueles envolvidos em lances por livre e espontânea vontade que teimam em pedir fidelidade aos seus companheiros ou chorar nos cantos pelas estripulias amorosas do outro. Troca de pares em lances não configura traição.

Tendo como objetivo trazer o pensamento analisado neste artigo para o cotidiano da juventude pós-moderna, esta que vos escreve dissertará acerca do relacionamento de Tom Hansen e Summer Finn para explicitar os conceitos propostos no silogismo. Tom é apaixonado por Summer, que com ele quer apenas um lance. Apesar do belíssimo filme de Marc Webber não dar a entender em momento algum que Summer mantinha algum outro par que não Tom, ela é enfática ao afirmar que não acredita no amor e que não quer ser sua namorada. No entanto, a bela de olhos azuis se contradiz em seu discurso ao viver com Tom momentos que não podem configurar uma situação diferente de um romance, vide as brincadeiras em lojas de móveis, troca de confidências íntimas e profundas e sua súbita aparição na casa de Tom no meio da madrugada chuvosa, apenas para lhe pedir desculpas por seu comportamento. O desencontro e desconforto de ambos é um perfeito exemplo de má compreensão dos ensinamentos propostos nos versos aqui analisados, pois Summer e Tom acabam por unir em uma situação comportamentos e sentimentos díspares e mutuamente excludentes. Assim sendo, a raiva de Tom é totalmente compreensível, mas não se pode dizer que ele é uma vítima total, pois quis compor um lance com Summer mesmo que já a amasse. Relembrando: amor é amor e um lance é um lance.

Romance é romance
Amor é amor

E um lance é um lance =(
Conclusão:


 O único fio solto do pensamento estudado que necessita de uma problematização diferenciada e especial que não cabe a mim tecer é o da impossibilidade de coexistência do amor e do romance. Me faltam argumentos sólidos para sustentar o posicionamento do autor, uma vez que ele é contraditório com relação ao resto de sua proposta e ao que é observado empiricamente. Deixarei a cargo dos leitores uma possível construção desse conceito, pois discordo veementemente do posicionamento e não é porque me faltam obrigações reais que gastarei tutano a destrinchar esse tipo ideia.

Gostaram? Aguardo réplicas e complementações, além de sugestões para discussões futuras nos comentários. =)



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O caso dos irmãos Endres

Uma das frases favoritas dos caga-regras da internet é a famigerada "No Twitter/Facebook, em dia de jogo, todo mundo vira técnico", ou alguma variante igualmente pedante. Em época de Olimpíadas então, a frase pulula por aí quase tanto quanto os especialistas instantâneos em esgrima e arremesso de peso. Como boa arroz-de-festa que sou, eu adoro essa época. Confesso que já fui de participar bem mais, mas ainda assim me empolgo e adoro ligar em algum canal de esportes despretensiosamente, como quem chega e diz "o que estamos vendo?" e cinco minutos depois estar dando palpite e entendendo horrores, ainda que nunca tenha visto um jogo de tênis na vida, ou que ache lindo aquele salto que ganhou nota baixa ou que tenha passado os últimos quatro anos sem nem notar que tenho cinco canais de esporte em casa.

Só que eu sempre gostei de vôlei, sabe? Independentemente de Olimpíadas ou Grand Prix, sempre paro em frente a TV nos domingos de jogo. Lembro do quão desolada fiquei quando os bonitos da seleção brasileira vieram jogar em Uberlândia e eu fiquei sem ingresso. E olha, eu até entendo um pouco da coisa. Fiz aulas de vôlei por dois anos - uma última tentativa desesperada dos meus pais de me fazer gostar de algum tipo de esporte - e seria injusto dizer que eu era um fracasso total. Eu não sabia, nunca soube e provavelmente jamais aprenderei a sacar, mas confio nos meus reflexos, mais do que até numa possível desenvoltura pra esportes. Então eu sempre gostei de ver jogos de vôlei, que mesmo quando ficam monótonos, o que é raro, nos oferecem um espetáculo aos olhos ao nos oferecer uma seleção cheia de meninos altos e mui simpáticos. Nunca sei se olho pra bola ou pra quem bate nela. 

Eu posso até jogar vôlei mais ou menos, entender um tiquinho aqui e acolá e acordar mais cedo no domingo para prestigiar os canarinhos, mas não deixo de ser um pouco lerda na hora de compreender totalmente o que se passa em quadra. Os meus jogadores favoritos são o Giba  - dã! -, o Andrezinho - André Heller, para os não íntimos - e o Murislavo - só para minha cabeça de magre mesmo. Explico: por muito, muito tempo, eu pensava que o Murilo e o Gustavo eram a mesma pessoa. 

Para quem não está familiarizado com as graças, os irmãos Endres são os ruivinhos que defendem bravamente a nossa seleção de vôlei. O Gustavo é mais velho e mais alto e o Murilo é um pouco menor, mais narigudo e com mais olheiras. Sei que meus adjetivos não são os melhores do mundo, mas veja se você não concorda comigo que é perfeitamente possível mandar um call me maybe pros dois:


Aí que eu não sou a pessoa mais atenta e esperta do mundo - sou dessas que grita gol quando vê a bola balançar a rede por trás - e ficava encabulada quando via os dois juntos em quadra. É tanta coisa pra prestar atenção que minha cabeça automaticamente assumia que era mais provável que minha distração fizesse com que eu acreditasse que estava vendo ruivos em dobro numa mesma quadra do que a existência factual deles. Minha falta de memória também não ajudava muito, já que quando o narrador da partida falava do Murilo, eu pensava: mas gente, não era Gustavo o nome dele?, e quando falava do Gustavo, eu logo me perguntava: uai, não era Murilo? Novamente, atribuía a confusão à minha falta de memória. Larga de ser maluca, Anna Vitória, de onde você tirou que tem Murilo nessa seleção? 

Não lembro direito quando se deu o momento de iluminação ao perceber que sempre houve dois Endres em quadra, mas sei que ele fez com que eu me sentisse bem estúpida. Não estúpida o suficiente, pois esse ano quase caí nessa armadilha de novo. Não acompanho os bastidores do esporte, logo, não sabia que Gustavo já tinha se aposentado, voltado, mas que agora está machucado. Sei lá quanto tempo de jogo já tinha se passado quando, depois de um breve susto, me perguntei: cadê o Endres que tava aqui? Eu poderia jurar que havia dois deles!

Havia mesmo, foi o que descobri numa breve visita ao Oráculo. Fui logo na busca por imagens, para firmar bem a carinha dos dois na minha cabeça - como se precisasse de reforço - e escrevo este texto na esperança de que, uma vez que minha humilhação agora é pública, eu passe a prestar mais atenção nas coisas e não caia nessa novamente. Gustavo é Gustavo e Murilo é Murilo. Murislavo - ou Gustilo, fica a gosto do freguês - is no more.

Meu futuro no jornalismo esportivo é muito promissor.