sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Manifesto contra quem pensa que assédio é motivo pra dar risada

Para ler ouvindo:


You're trying to tell me sexism doesn't exist, but if it doesn't exist, what the fuck is this?
Kate Nash, mas poderia ser eu e qualquer mulher sobre as coisas que temos que aguentar.

Então que ontem eu me peguei vendo Amor & Sexo. Nas chamadas mais cedo vi que eles iam falar sobre questões femininas e logo imaginei que a chance de feder era grande, por isso mesmo queria passar longe da televisão. Mas me distraí, a TV estava ligada mesmo, sabe como é. De repente, não mais que de repente, eu estava cuspindo moscas varejeiras de ódio e não conseguia nem dormir só pensando a respeito do desserviço que foi aquele programa.

A primeira pauta foi sobre cantadas na rua, coisa que eu prefiro chamar de assédio sexual mesmo. All fun and games, apresentadora e convidados rindo bastante de tudo, falando que dependendo da fala  pode ser ofensivo, mas que faz parte, é paquera, é esse remelexo gostoso do acasalamento, é um impulso irrefreável masculino. Não cantar uma mulher bonita na rua é como ver seu time jogando e não torcer. 


Enquanto o pessoal estava relativizando uma questão séria e dando mais motivo para sermos chamados de loucas, frígidas e histéricas na hora de reclamar a respeito dessa agressão, eu lembrava de um dia em que eu estava andando na rua e um carro começou a andar devagar bem perto de mim. Já era de noitinha, não tinha muito movimento, e o dono do carro abaixou o vidro, assobiou e começou a falar psiu. Eu fui apertando o passo, olhando ao redor e pensando em como eu poderia fugir, ou me defender, caso aquele homem resolvesse encostar  e vir atrás de mim. Não olhei pro carro em momento algum, só fiz minha melhor cara de dragão das trevas e andei mais rápido. Então ele falou ei, gatinha e pela voz eu reconheci que era meu pai. Brincando comigo. 

Fiquei tão transtornada na hora que mal falei com ele, só dei um tchau rápido, recusei a carona e segui em frente. Tremendo ainda. Porque eu estava assustada, eu estava pensando em coisas horríveis, eu só conseguia imaginar o pior. Esse pior não era um assalto, um sequestro relâmpago, eu não estava com medo de perder minha bolsa ou meu celular. Eu ando na rua todos os dias com medo de ser estuprada, com medo que alguém passe a mão em mim, com medo que um cara se ache tanto no direito de invadir o meu espaço que acredite poder também levar isso pra um outro nível. 


Vai ver ele acha que meu vestido está lhe dizendo alguma coisa, vai ver ele acha que meu não, na verdade, é um sim, como c e r t a s m ú s i c a s nas paradas de sucesso do mundo todo levam ele a acreditar. 

Pros homens tudo é noooooossa, né? A gente que é nervosinha e não sabe brincar. Eles só querem descontrair, paquerar, melhorar nossa autoestima. Risos. Risos eternos. O que eles não veem é que essas pequenas, insignificantes, indolores agressões cotidianas acabam legitimando outras maiores, mais sérias. Eles não enxergam o quão grave é isso porque nunca se sentiram vulneráveis desse jeito. O que pra eles é uma gracinha é motivo de pavor pra alguém que, como eu, quando tinha 13 anos foi cercada por uns sujeitos bêbados no meio da rua, durante o carnaval, e ouviu que só sairia dali depois de beijar todos eles. Não preciso dizer que nunca mais passou pela minha cabeça curtir um carnaval de rua, e que até hoje fico meio cabreira de circular sozinha por festas grandes, né? 

Ninguém nunca puxou esses caras pelo braço no meio de uma balada, uma, duas, três vezes e um não não foi o suficiente. Por que, não? Você é tão linda. Porque eu não quero. Você é lésbica? Eu não quero. Você tem namorado? Eu não quero, dá licença. Vai se foder então. Enfim, um sábado a noite como outro qualquer. E sabe o que é pior? Nem é novidade mais. Faz parte. A gente sai de casa sabendo que sempre vai ter um idiota pra te puxar pelo braço, pra vir passando a mão no cabelo. Vira rotina. Às vezes vem caras legais falar comigo, acontece também, mas estou tão acostumada a ficar na defensiva que tenho dificuldade de levar a sério. Isso é muito triste, quando a gente para pra pensar.

Eu participo de três grupos sobre feminismo no Facebook, e não passo um dia sem ouvir um desabafo de alguma mulher sobre assédio, sobre agressão, sobre abusos sofridos na rua, dentro de casa, na faculdade. Nunca vi nenhuma delas comemorar porque nossa, um cara na rua me chamou de gostosa e isso fez meu dia. 

Assinado: NINGUÉM
Normalmente é assim: estava voltando pra casa a noite, no meu bairro que nunca me deu motivos para me sentir insegura, quando da sacada um homem começou a falar comigo. Boa noite, moça. Boa noite, moça. Oi, linda. Ele ficou falando até eu virar a esquina, e enquanto isso eu só pensava que ele estava no primeiro andar e tinha tempo o suficiente pra descer correndo as escadas, me alcançar, e fazer o que quiser comigo. A chance era mínima, claro, mas é tanta coisa que a gente ouve por aí, tanta coisa que a gente passa, que, sim, qualquer coisinha dessas é motivo pra ter medo, e não é pouco. 

Esse caso é meu, o episódio da semana. Pode ter certeza que semana que vem vai ter um novo, e na outra também. Eu poderia fazer uma newsletter sobre isso, que tal? Como Um Cara Fez Com Que Eu Me Sentisse Suja, Agredida, Assustada e Invadida - Semana #34. Eu tenho medo, todos os dias. Podem até usar o meme da Regina Duarte pra ilustrar, se quiserem. 

Tem mulher que gosta? Aposto que sim, já me falaram, mas tem gente que gosta de apanhar na cara e nem por isso eu saio por aí enfiando minha mão nas fuças de quem eu acho que está merecendo umas bifas. Na dúvida, fica calado, fica no seu canto e respeita as minas. Se estiver interessado mesmo, aja que nem gente, não seja um idiota, vai que. Até porque nunca ouvi uma história que começou co Então, a gente se conheceu porque ele gritou que minha bunda era maravilhosa e então eu soube que era amor.


Quanto a certos programas, se não for pra ajudar, por favor, não atrapalhe. 2014, caras. Melhorem. O expediente no escritório feminista já é cansativo demais sem vocês empurrando o movimento pra trás. Não passarão.

Update: a  ♥ Clara Averbuck ♥ escreveu sobre o programa de ontem também e, como sempre, matou a pau. Prestigiem.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Onde você estava?

No dia 26 de outubro de 2014 eu vi meu país reeleger a Dilma Rousseff na eleição mais acirrada que o Brasil já teve. Coincidência ou não, foi também a eleição em que eu mais estive envolvida - menos por uma paixão específica por um dos lados, mais por uma convicção nunca antes tão firme em certos ideais que eu não suportava ver ameaçados. Eu não fazia a menor ideia de que resultado teríamos às oito da noite, e lá pelas quarto da tarde parei de fingir que estava tudo bem, que eu não estava nem aí, para assumir que minha falta de concentração e o desconforto no estômago eram, sim, por conta do pleito.

Para fugir um pouco do climão pesado - se essas eleições vão ficar marcadas pela disputa apertadíssima do segundo turno, infelizmente vamos lembrar dela  também como aquela em que as pessoas deixaram ver o seu lado mais cruel, preconceituoso e odioso - combinei com o Matheus que faríamos uma pequena indulgência a nós mesmos: jantar num restaurante maravilhoso e um tanto quanto além das nossas posses. Nós comeríamos hambúrgueres suculentos (tipos de Anna Vitória: vai jantar num lugar especial e come hambúrguer), dividiríamos waffles com a calda de chocolate mais maravilhosa que já se teve notícia, e tomaríamos água do balde de gelo porque that's how we roll. A gente ia falar bobagem, rir mais alto do que seria de bom tom, discutir amenidades - e quando saíssemos de lá o destino do país estaria decidido.

O que aconteceu foi que não desgrudamos do celular a noite toda. O que aconteceu foi que nesse dia 26 de outubro eu perdi o apetite, eu deixei meus hamburguinhos esfriarem porque estava ocupada demais atualizando o Twitter em busca de notícias. A gente sabia que a cena era ridícula, a gente jurou mais de dez vezes que o celular ia ficar no centro da mesa e só seria olhado quando houvesse certeza do resultado. A gente estava com vergonha da nossa situação lastimável, mas a 10 minutos da grande resposta falar bobagem não era uma opção, muito menos rir, muito menos falar amenidades, imagine só comer!

Eu cogitei até abrir mão da sobremesa. É grave, doutor?

Fatos históricos relevantes estão destinados a se transformar em caso de mesa de bar, desses que  se tornam uma conversa reincidente, um caso que ninguém se importa de contar de novo e de novo, a cada efeméride significativa. Onde você estava? Isso porque são raras e marcantes as chances que temos de ser testemunhas vivas da história, e recordar essas circunstâncias é como fincar uma bandeira particular naquele Grande Acontecimento. É como tirar uma selfie com a História.


A minha foi tirada com as mãos trêmulas segurando um celular, porque não foi suficiente que me contassem, eu não acreditava nas manchetes que liam pra mim. Eu precisava ver com meus olhos, com as minhas mãos, e me certificar de que eu estava ali. Com uma garrafa de champanhe intimidadora na minha frente, que não tínhamos dinheiro para pagar, mas bem que eu queria. Porque eu estava lá, eu fiz parte daquilo, eu sofri pra caramba, ainda que na minha gritante insignificância diante da grande ordem das coisas.

Eu não faço a menor ideia do que vai acontecer daqui pra frente, eu não acho que vai ser tão bom como meu otimismo inevitável tenta me fazer acreditar, eu me questiono se valeu o sacrifício, mas para todos os fins narcísicos e egoístas da minha narrativa pessoal, fica aqui a minha história. O resto é o nosso futuro.

Onde você estava? 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Estive em 1989 e conto o que ouvi por lá

Like any great love
It keeps you guessing
Like any real love
It’s ever changing
Like any true love
It drives you crazy
But you know you wouldn’t change anything, anything, anything

Interrompemos nossa programação para discorrer sobre um evento que abalou o nosso fim de semana, que desordenou o país e balançou as estruturas do mundo. Estou falando, claro, da reeleição da soberana das Américas MANDAMO BEM PETRALHADA do vazamento do aguardado disco novo da Taylor Swift, o 1989.




































Eu detestava a Taylor Swift antes de conhecer a Taylor Swift. Mas, sem saber, eu ouvia Love Story no rádio todos os dias indo pra escola e amava demais aquela música. Quando descobri quem cantava, minha cara caiu no chão. A partir de então fui me tornando cada vez mais simpática à menina Taylor, e quando o Red saiu o amor e a felicidade foram mais do que plenos. Enfim nos encontramos. 

Anunciada sua mudança de ~linha editorial~, abandonando de vez o country e abraçando o pop, é claro que eu temi. Eu odeio mudanças, principalmente em time que está ganhando. No entanto, no meio desse frenesi pré-lançamento do 1989, andei numa febre Taylor Swift que me levou a ler muita coisa sobre ela e assistir alguns dos seus shows (for the love of sweet baby Jesus, assistam o especial Story Tellers dela e chorem abraçados com o computador). E o que eu concluí nessa jornada foi que Taylor Swift está crescendo, mudando, aprendendo. Essa mudança de sonoridade (e de atitude também, quando prestamos atenção nas letras) é um reflexo disso, e como eu acho que ela mudou pra melhor, fico feliz por ela. Por mais que eu ame a fase Fearless, por mais que Red esteja tatuado na minha alma, 1989 nos oferece uma Taylor Swift mais madura, mais segura, mais dona da sua música e, finalmente, mais posicionada

Artistas sempre mudam, a música tem que evoluir junto com eles. Muitas bandas que eu conheço e gosto tiveram pontos de mudança importantes em suas trajetórias. Alguns eu curti, outros não, e o importante é lembrar que o antes sempre vai estar ali pra gente lembrar com saudades e ser feliz. "Everybody here was someone else before"

Como foi do meu entendimento que esse lançamento tinha um impacto muito importante nas nossas vidas, resolvi fazer um faixa a faixa do disco pra discorrer sobre cada momento desse novo trabalho da nossa melhor amiga famosa preferida. Me acompanhem:


Welcome to New York: Começa com esse sintetizador que é a cara dos anos 80 e eu já estou com os braços pra cima gritando MINHA MÚSICAAAAAA. É minha vertente pop favorita: batida marcada, refrão chiclete, música que faz dançar logo nos primeiros segundos. A letra fala muito sobre mudanças e adoro especialmente a parte em que ela diz que é hora de deixar a bagagem no chão, colocar o coração partido na gaveta, que todo mundo ali já foi alguém diferente. 
Blank Space: Pronto, na segunda lista temos Taylor falando de amor, do jeito que a gente gosta. Que letra maravilhosa, que ser humano é essa garota. É uma música sobre o começo e o fim de relacionamentos, uma referência direta ao fato de todo mundo pegar no pé da moça por seu elenco de ex-namorados e ela estar se importando tanto com isso que não vê a hora de escrever mais um nome na lista. "You look like my next mistake. Love's a game, wanna play?". Inspiração de vida.
Style: Nesses dois dias ouvindo o disco, se tornou minha favorita. A primeira que eu decorei o refrão logo de cara, aquela que me fez sair cantando e pulando pela casa. E sabe, preciso confessar que quando ela coloca referência de modas na letra e fala sobre como ela e o mocinho se vestindo, só consigo pensar em jeans com jeans. Não tenho paciência pra investigar, mas essa música é pro Harry, né? James Dean daydream look, cabelo grande, sem falar no título nada direto. Risos.  
JHDAJHDKAJHDKJAHHJFGSJFHGAF
Out Of The Woods: Foi uma das poucas músicas que eu ouvi logo quando ela liberou, e de início não tinha curtido. A presença do Jack Antonoff, que compôs a música junto com ela me pareceu muito marcante, e não sei se vocês sabem, mas eu não suporto .fun. No entanto, ouvindo a música no contexto do CD, consegui curtir mais, acho que ornou legal. Outra sobre o Harry, aliás. 
All You Had To Do Was Stay: Caras, quando eu digo que todos os caminhos levam à Kelly Key ninguém acredita. Isso é tipo a "Baba" da Taylor Swift. Refrão chiclete, desses pra gente ouvir andando na rua se sentindo maravilhosa, pra limpar a casa se sentindo soberana, pra lavar o cabelo se sentindo a poderosa dos gritinhos finos.  
Shake It Off:  Adoro muito que Taylor está rindo muito de si mesma nessa novo disco, e se fazendo menos de vítima do que o costume. Shake It Off me ganhou logo na primeira ouvida pelos primeiros versos e acho um avanço desde Mean, outra música pros haters que eu, pessoalmente, acho que tem uma letra bem infantil. No entanto, meu ideal do melô de perseguida ainda é Piece Of Me, de Neidoca. Melhor que dar os ombrinhos por críticos é jogar na cara deles que eles sobrevivem às suas custas. Sobre o clipe polêmico, essa mesa redonda tem várias problematizações importantíssimas que vale super a leitura. 
I Wish You Would: Essa música me lembra muito uma outra música que eu não consigo lembrar qual é (?) e até eu resolver esse mistério não vou conseguir prestar atenção o suficiente pra formar uma opinião sobre ela.  
Bad Blood: Me lembrou outra música, e dessa vez eu sei qual: Boom Clap, da Charlie XCX. Outra coisa que essa música lembra é a treta da Taylor Swift com a Katy Perry, e por conta disso minha má vontade com ela aumenta um pouquinho. Nem tem a ver com escolher um lado, e sim com o fato de essas picuinhas de bastidores me irritar bastante. A gente não precisa de reforçar esse estereótipo nocivo de que mulheres estão sempre sabotando umas às outras e estão sempre competindo. Não ajuda ninguém, pior ainda se for por causa de homem. Taylor, você é melhor que isso.  
Wildest Dreams:  Estou louca ou dessa vez Taylor Swift bebeu da mesma fonte que a Lana Del Rey? Não sei, os arranjos me lembraram muito as músicas dela, e esse tom meio onírico, meio sexy, sei lá. Eu gostei do refrão, vale?
How You Get The Girl: Gente, se estivéssemos em 2005 a Taylor Swift super estrelaria um romancinho da Disney no cinema, de preferência algum em que a protagonista sonhasse em ser cantora, e essa seria a principal música da trilha. Quando escuto essa música só consigo pensar em Hilary Duff, A Nova Cinderela e todos os seus filmes maravilhosos. Não que isso seja um defeito - quer dizer, depende da sua opinião sobre esse paradigma. Mas não é como se não tivéssemos ouvido isso antes.
This Love: Primeira música lentinha de 1989 e, sei lá, não me cativou muito. As baladas da Taylor Swift não costumam me ganhar de primeira, então sempre há esperança. Mas, por enquanto, é meio irrelevante pra mim.

Não vou comentar o resto do disco porque, como aparentemente é regra no trabalho da Taylor Swift, suas últimas músicas costumam ser bem pouco interessantes. Talvez seja bloqueio meu, mas nunca consigo prestar atenção às últimas faixas, de modo que não vou emitir opinião alguma sobre o resto do CD.

Meu veredito final? Três chicorinhas e meia. 1989 trouxe uma mudança, e o importante é que a mudança funcionou. Você pode não curtir música pop, pode sentir falta da vibe de antes, pode não suportar a batida dos anos 80, mas o negócio é que a moça resolveu arriscar e sustentou a manobra, segurou firme a ambição e se deu bem com ela. Acho que ela ainda pode se encontrar mais nesse nicho, fazer com que as músicas soem mais dela e menos de suas influências, mas ei, já é um começo. 

Aliás, já tem tempo desde que Taylor Swift era aquela mocinha que cantava country em Nashville, e se prestarmos atenção na evolução de discografia, estava tudo meio que aí. Em 1989, Taylor Swift tá pisando firme, tá rindo de si mesma, continua escrevendo bem pra caramba e continua sendo nossa melhor amiga famosa preferida.


Bem-vinda a Nova York, Taylor, ela estava esperando por você.

sábado, 25 de outubro de 2014

Nada na cabeça

Para ler ouvindo:

Essa música me descreve em todos os níveis e instâncias possíveis, prestigiem, por favor

Vocês acreditam em intuição? Eu achava que era coisa de novela até o dia que minha mãe insistiu para que eu não fosse em uma viagem na escola, porque ela teve uma ~intuição~ que algo ruim ia acontecer. Eu fui teimosa, viajei mesmo assim e voltei pra casa com 42 picadas de abelha. Desde então tenho prestado mais atenção nesses pequenos insights que surgem como relâmpagos na minha cabeça: rápidos, mas escandalosos o suficiente para serem notados. E olha, é impressionante a frequência com que eu acerto - pro bem e pro mal. 

Ontem eu estava parada na calçada do meu prédio, meio tomando chuva, esperando um táxi. O terceiro táxi da noite. O primeiro que eu chamei jurou que tocou o interfone de casa e ninguém atendeu, por isso ele foi embora. Eu só queria saber qual interfone ele tocou, porque não foi aquele que estava do meu lado naquela hora e meia que passei esperando. O segundo simplesmente não apareceu, decerto que achou de bom tom me deixar na mão numa noite de sexta. O terceiro resolveu passar reto também, e quando liguei na companhia de novo, pela terceira vez, a atendente simplesmente me disse: "olha, não sei o que está acontecendo, mas todas as suas corridas estão sendo canceladas, se a senhora quiser pode ligar em outro lugar". 

Quando três táxis misteriosamente não aparecem na porta da sua casa, todos eles vindos daquela companhia que nunca te deixou na mão, o que você pensa? Eu, que naquela altura já estava com uma veia pulsando na testa de tanta irritação e a cabeça doendo, pensei que eu deveria desistir. Já estava duas horas atrasada pra encontrar meus amigos, ia praticamente chegar no bar e ir embora, e infectaria todo mundo com meu mau-humor. Como pessoa sábia que às vezes eu sou, coloquei minha viola no saco e subi de volta pra casa.

Já estava começando a tirar o sapato quando minha mãe lembrou que tinha um cartão de taxista na bolsa, disse que não custava eu tentar. Prometi que só toparia se o cara estivesse perto, que eu não esperaria mais de 10 minutos, e que na verdade eu já estava querendo mesmo ver televisão. Só que eu liguei, o cara me prometeu ser rápido, e eu tinha feito um gatinho de delineador certinho demais pra simplesmente ir lavar o rosto pra dormir. 

Da portaria do prédio eu vi o carro do seu Zé Manoel se aproximar lentamente do meu prédio. Primeiro eu pensei que ele estivesse procurando o número, mas quando entrei no táxi vi que era essa a velocidade média dele mesmo. Uns 30 quilômetros por hora. O que é mais meia hora pra quem já está duas fora do horário, né? Vamo que vamo. Seu Zé Manoel errou o retorno e parou no meio da avenida pra refletir sobre os próximos passos. Os carros buzinando atrás, ele fazendo conjecturas sobre o mapa da cidade, e eu querendo abrir a porta no meio da rua e voltar correndo pra minha casa. Seu Zé Manoel subiu uma ladeira de segunda quando deveria ter engatado a primeira, e se até eu que sou eu percebi isso, vocês imaginem só a situação do carro. Seu Zé Manoel queria porque queria achar um lugar pra estacionar pra só então me deixar descer, mesmo que a rua estivesse lotada, mesmo que eu estivesse morrendo de pressa. Seu Zé Manoel não enxergava as notas direito pra calcular o troco, e eu na minha falta de paciência, pedi licença, troquei eu mesma o dinheiro e saí correndo. 

"Que morte horrível", disse eu antes de sentar na mesa e antes de qualquer oi. Só que nada é tão ruim que não possa piorar, e morte horrível mesmo foi a hora que eu tateei meus bolsos, revirei minha bolsa e o chão, e não encontrei meu celular. Meu celular novo, gente. Duas semanas com ele, pra nossa história terminar no banco de trás do seu Zé Manoel, e sabe Deus se ele ainda estaria lá. Nessa hora, só conseguia lembrar da hora que resolvi voltar pra casa, de quando eu sentei no sofá e comecei a tirar meu sapato, de quando os relâmpagos se transformaram em fogos de artifício e explodiram no céu com a mensagem: NÃO SAIA DE CASA. 


E sabe qual é a parte mais desesperadora disso tudo? Não é nem a primeira vez que eu faço isso. Pra quem já conseguiu esquecer a bolsa inteira dentro do táxi, eu acho um milagre que tenha sido a primeira vez que meu celular fora esquecido (eu tava com um cachorro machucado e desesperado no colo, cut me some slack). Costumo perder minhas coisas com exagerada frequência. Não apenas coisas, como também horários, obrigações, e-mails a responder e o que é mesmo que eu vim fazer na sala? É um péssimo hábito que eu tenho e me esforço muito pra tentar me livrar, mas às vezes post-its, anotações no braço, despertador no celular e lembrete no espelho não funcionam. Sou como aquela música do Gianoukas que dá título a esse post: tenho a cabeça no lugar, porque em algum lugar ela deve estar.

Então, pela quarta vez naquele noite, eu tive que ligar pra companhia de táxi. Aquela mesma que eu tinha feito barraco algumas horas antes, porque é lógico que o taxista da minha mãe não podia atender e chamou um colega, o seu Zé Manoel, que só podia ter saído daquele mesmo buraco. Era a mesma atendente, que quando ouviu meu nome do outro lado da linha deve ter suspirado e pensado "mas que booosta de noite que não acaba nuncaaaaaaaaaa queria estar morta". 

Peguei o número do seu Zé Manoel, cujo celular obviamente estava desligado. Sinal que o plantão dele tinha chegado ao fim, e a única coisa que eu podia fazer era torcer pra ninguém ter entrado no táxi depois de mim e esperar a manhã seguinte. Andei pela casa feito barata tonta a noite inteira, sem conseguir dormir ou me distrair com outras coisas, oscilando entre planos B desesperados caso o pior acontecesse (ADEUS RIO DE JANEIRO), auto-piedade e ataques a la Crazy Eyes nos quais eu só queria socar minha cabeça.

Mas, como diz o Cartola, finda a tempestade o sol nascerá, e às sete horas de uma manhã chuvosa de sábado, lá estava eu ligando pro seu Zé Manoel. Ele que, só pra eu me sentir um pouquinho pior por ter reclamado tanto dele no dia anterior, foi um fooooofo e disse que estava mesmo indo deixar o celular na central, mas suspeitava que era meu porque aquela capinha do Mickey era minha cara. Pedi desculpas pelo incômodo, agradeci efusivamente, rimos bastante da minha cara de idiota, nos abraçamos, talvez eu tenha chorado um pouco, e o mais importante é que meu celular voltou são e salvo pra casa. 

A lição que fica disso, queridos leitores, é que quando algo disser pra vocês não saírem de casa, não saiam. Mas se saírem, por favor, verifiquem se nada ficou no banco de trás do táxi. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Era uma vez um garoto chamado Bárbaro

Poderia ser uma história qualquer, contada por uma amiga querida, como tantas outras que já ouvi antes. Até que de repente, sem aviso, sem sinal, Analu solta: "Então o meu amigo Bárbaro...".

Nessa hora, como boa pessoa madura que sou, eu interrompi a conversa e ri em caixa alta por umas sete linhas inteiras, e repeti esse processo durante todo o resto de caso sempre que o Bárbaro era mencionado. Vale dizer que o Bárbaro era um personagem bem importante nessa história.  

Não era uma risada de deboche, eu juro, era simplesmente uma risada de quem se encanta com a vida, com o mundo, e com as circunstâncias que permitem a existência de um ser humano chamado Bárbaro. Deus está nas pequenas coisas, e uma delas certamente é no coração do pai e da mãe que um dia decidiram dar ao filho um nome com tantas possibilidades. Bárbaro, gente. Bárbaro! 


Eu gosto de nomes, é uma coisa que eu sempre reparo nos outros e é uma coisa pra qual que sempre atribuo significados, mesmo sabendo que na maior parte das vezes eles só fazem sentido na minha cabeça. E Bárbaro, além de ser um nome interessante porque totalmente inesperado - a gente conhece Julianos, Márcios, Cláudios, Sandros, mas poucos, raros e únicos Bárbaros - é também um nome trocadilho com mais de uma possibilidade. O trocadilho é aquela molecagem ingênua que a sisudez dos nossos tempos não permite mais, mas que se faz necessária justamente pra que a gente nunca se esqueça que essa vida é uma grande piada, nesses tempos em que a nova moda é se levar muito a sério.

Bárbaro era tão levado a sério que fiquei sabendo que seu próprio pai vira e mexe soltava por aí: Barbáro, você é bárbaro! Eu imaginava um pai risonho e bonachão dizendo essa pérola num churrasco de família, com um pano de prato nos ombros, logo após pedir uma cerveja - que era servida por seu filho, o Bárbaro. Com um afago carinhoso, feito com a mão pesada que só os pais mais bonachões tem, viria a piada: Bárbaro, você é bárbaro! e todos dariam gostosas risadas, mesmo que isso fosse repetido todo santo domingo.

O Bárbaro se tornou uma presença tão constante nas nossas conversas que Analu logo começou a tratá-lo como "seu amigo Bárbaro". Eu dava minhas gargalhadas, maravilhada, enquanto ela contava mais uma anedota que ajudava na construção desse personagem interessante. Dei aquela conferida básica no Facebook, porque essa é a tônica dos nossos tempos, e não demorou para que o Bárbaro se tornasse uma entidade na minha cabeça.

#momentos 

Bárbaro, esse cara legal que gosta de cultura japonesa, tem um pai engraçado e aprendeu com o tempo que, mais fácil do que lutar contra essa sina que lhe foi dada no dia de batismo, era unir-se aos bons e abraçar o gracejo, fazer dele a sua força. Bárbaro fez bons amigos por causa do seu nome e eles eram incansáveis na arte dos trocadilhos. Bárbaro pegou muita mulher por se chamar Bárbaro e não estar nem aí, porque a essa altura os homens devem saber que existem poucas coisas mais sexies numa pessoa do que ela saber e fazer rir. Bárbaro era aquele cara gente boa, querido por toda a turma, aquele que ganharia a primeira festa surpresa e seria destinatário dos presentes mais caros das vaquinhas de aniversário. 

Eu gostei tanto da ideia que eu fiz do Bárbaro na minha cabeça que minha proposta inicial era começar o projeto 1001 pessoas contando a história desse cara que eu nunca conheci. No entanto, com o frigir dos ovos, inspiração acabou cedendo lugar a outras mais urgentes e ficou deixada de lado, até que foi descartada de vez com uma infeliz atualização no meu arquivo mental de referências bárbaras: Analu me contou de um recente contato dos dois no qual Bárbaro perdera uma excelente oportunidade de ficar calado. Para muitos pode até ter sido uma ofensa banal, mas pisou forte em um dos meus calos e naquele dia eu nem ri ao ouvir seu nome. 

O que eu só percebi recentemente é que, pior do que a piada infeliz do Bárbaro, foi eu ter me achado no direito de me decepcionar com ele por causa disso. Sem querer, transformei o Bárbaro nesse personagem que eu construí a partir das minhas próprias ideias, concepções e expectativas, tudo isso em cima de um único dado nada relevante e umas histórias perdidas do tempo da escola. 

O que me assustou nessa epifania foi pensar que fazemos isso o tempo inteiro uns com os outros, ao dispensar a chance de conhecer alguém de verdade, com seu senso de humor que pode ser espirituoso mas bem equivocado de vez em quando, porque é muito mais confortável transformar as pessoas em ideias e atribuir a elas a responsabilidade de andar de acordo com nossas expectativas. 

Não somos nossos nomes, nem nossos pais bonachões, muito menos um simples espirro escandaloso, um queixo grande ou um hábito incômodo de roubar a batata frita do prato alheio. Não somos nossas músicas preferidas e nem aquelas que detestamos, somos mais que nossos filmes, nossos óculos e nossas patéticas intenções de voto. Tão traiçoeiro quanto acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa, como nos alerta o John Green em uma de suas iluminações mais importantes, é ir pelo caminho contrário e transformá-las em algo menor que isso. 

Ou seja: não somos bárbaros e nem barbaridades, mas algo ali no meio. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A gente sempre vai ter Paris

Ingrid Bergman não fica com Humphrey Bogart no final de Casablanca.

Querido leitor, se acalme, isso não é um spoiler. Quer dizer, tecnicamente é sim, mas sério, eu estou falando de um clássico de 1942. Quem viu, parabéns, quem não viu, eu juro que saber do fim não vai mudar nada. Eu mesma só quis ver Casablanca porque em Harry & Sally os personagens perdem um bom tempo discutindo justamente esse final, e o fato concreto do casal não terminar junto importa bem menos do que as motivações para eles ficarem separados.

Um breve contexto: estamos na Segunda Guerra Mundial, e Bogart e Ingrid se conhecem em Paris. Eles se apaixonam perdidamente e combinam de viver esse tórrido romance sem fazer muitas perguntas (e havia boatos de que filmes antigos eram bobinhos, diz Ilsa Lund jogando o cabelo pra trás e dando gostosas risadas), porque esses amores de alma transcendem conhecimentos banais de trajetória pessoal, traumas de infância, passagens na prisão e fatos relevantes dos últimos cinco anos. Quando a França é ocupada pelos alemães, os dois combinam de fugir juntos, mas no dia D a Ingrid simplesmente não aparece, e Bogart se manda sozinho e amarguradíssimo para Casablanca. 

Anos depois eles se encontram, porque o passado sempre volta pra nos atormentar, e depois de ofensas, rancores e muita torta de climão, aquele desentendimento do passado é desfeito, os erros são perdoados e eles resolvem ser felizes pra sempre de novo. Até que, como vocês já sabem, eles não são. Na despedida, Humphrey Bogart, com toda a sua exuberância, todo o seu charme e toda a sua canastrice perfeita que Zé Mayer sonha em emular porém nunca será, ele diz uma das frases mais icônicas do cinema americano: we'll always have Paris. 



Em bom português: o que foi nosso ninguém tasca. O amor deles vai viver pra sempre na lembrança daquele idílio parisiense e esse é o máximo que a vida pode lhes oferecer. Eles viveram aquele romance descolados da pessoa que eles eram e toda a complicação que isso acarreta, mas não se pode fugir da realidade pra sempre. Então eles seguem seus rumos separados, porém com o coração tranquilo sabendo que o amor deles vai viver pra sempre, aquele eterno enquanto dure encapsulado num desses globos de neve, pra sempre guardado na estante da memória. 

Eu tenho um problema muito grande com fins. Odeio despedidas, fico deprê no fim do ano, em festas de formatura, e sou dessas que chora em festinha de fim de semestre. Eu demorei anos pra assistir ao último episódio de Friends, ainda não terminei House e sempre postergo as cinquenta últimas páginas de um livro que eu esteja gostando demais. Eu guinchei de chorar assistindo Toy Story 3, um filme que simplesmente nos força a despedir da nossa infância, e nem preciso dizer o que aconteceu quando eu assisti ao último filme do Harry Potter no meu último ano de ensino médio.

É um alívio pensar que tudo nessa vida passa quando se tem em mente as coisas ruins, mas as boas também passam e isso é desesperador. No entanto, uma amiga querida, depois de terminar um relacionamento de seis anos, me disse uma coisa muito forte: as pessoas ficam tristes porque a gente terminou como se a gente não tivesse dado certo; mas não é porque acabou que deu errado, acabou porque as coisas mudaram e tinha que acabar. 

Coincidentemente, pensando sobre isso, me deparei com esse texto ótimo da Isadora no qual ela defende a tese de que relacionamentos são narrativas, e por isso tem começo, meio e necessariamente um fim. Essas ideias ficaram na minha cabeça por semanas, meses, me fizeram acreditar que eu devia escrever um livro sobre isso. Me atormentaram pacas e me fizeram confrontar todos os fins da minha vida, até que eu revi Casablanca e entendi que nada é pra sempre, porque a gente não é pra sempre. 

Não estou falando isso porque vamos todos morrer mesmo (mesmo tópico, outra longa história), mas porque a gente muda, eis um fato, e o nosso mundo muda junto com a gente, eis uma consequência. O felizes pra sempre tem muito mais a ver com a ideia de continuidade do que com uma eternidade concreta, imóvel e imutável. Se apaixonar todos os dias não pela mesma pessoa, mas pelas diversas pessoas que o outro se torna ao longo da vida. As time goes by. 

A minha primeira melhor amiga de verdade saiu da minha vida de forma tão espontânea quanto entrou. Não teve briga, babado, confusão, muito menos gritaria. É bem verdade que ela mudou de escola, mas a gente continuou a se ver nos fins de semana e nas aulas de inglês, até que um dia eu percebi que não suportava mais ficar com ela porque ela era outra pessoa, e eu também era outra pessoa, e essas duas pessoas não tinham mais motivo para serem melhores amigas, ou até mesmo amigas banais. 

Foi totalmente indolor e nada dramático, e sei que infelizmente sei que não é assim sempre, pra tudo, muito menos pra todo mundo. Mas, outra sabedoria importante vinda daquela cena final de Casablanca, é que logo depois da emblemática frase sobre Paris, vem a cereja do bolo: We didn't have, we, we lost it until you came to Casablanca. We got it back last night. 


Em bom português: só acaba quando termina. A gente precisa confrontar nossos fins, abraçá-los e perdoá-los, para garantir nossa Paris particular, para eternizar lembranças num globo de neve - ou então pra queimar tudo de uma vez e não deixar nem as cinzas pra contar a história. Enquanto ignorarmos solenemente tudo que mudou e tudo que acabou, sempre vai ficar esse ranço, esse Bogart estagnado em Casablanca tomando vodka sozinho de madrugada.

Tenho pensado muito sobre isso nos últimos tempos, e aberto de novo várias portas que eu jurava trancadas, com a chave jogada fora. Assisti o último episódio de Friends, penso cada vez mais naquele livro, e estou tentando fazer as pazes com um monte de fins. É como diz aquela crônica: o amor acaba pra começar de novo em todos os lugares a qualquer minuto. Mas não se enganem: ele tem que acabar.


A gente sempre vai ter Paris.  

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Como sobreviver a dias difíceis

Para ler ouvindo:


Eu sei que eu pareço nunca ter paciência com as coisas, que meus amigos dizem que minha característica mais marcante é revirar os olhos pra tudo que os outros dizem, que eu ando de cara fechada assustando inocentes por aí, que eu comemoro as chances que eu tenho de estar nos lugares sem ter que lidar com gente e digo sempre não, não não. Mas, querido leitor, não me leve a mal: no fundo eu só quero mesmo manter a minha fama de má. 

A verdade verdadeira é que eu sou uma flor. Gótica suave, no máximo, mas com um bom coração. Eu bati palmas pro sol no Arpoador e cantei bossa-nova pelas ruas do Rio de Janeiro, eu converso com animais e faço voz de bebê, eu me emociono assistindo Cosmos porque acho a natureza perfeita demais e, sobretudo, eu me sinto pessoalmente atingida por manifestações de ódio que eu vejo por aí. 

E, nos últimos dias, o que tem sobrado por aí é ódio gratuito, por todos os lados. 

Tenho sentido uma necessidade bizarra de enfrentar o mundo, tanto online como offline, com aquela roupa que os personagens de Hurt Locker usam para desarmar bombas. Desde que a disputa pelo segundo turno das eleições as pessoas andam desesperadas para defender seus candidatos, desesperadas ao ponto da inconsequência e inconsciência, e fico pensando se isso é mesmo sobre política, sobre um projeto de país, ou se, na verdade, é sobre estar certo acima de todas as coisas, ou ainda sobre procurar subterfúgios para destilar raiva, ódio e ressentimentos que sempre estiveram ali e só precisavam de uma desculpa mais ~nobre~ para serem extravasados. 

O calor e a chegada do horário de verão também não ajudam muito. Sempre fui contra ficar falando o tempo inteiro sobre o tempo, mas com essa bolha de calor da última semana é meio difícil ter outro assunto. Quando o professor decide que não existe a menor condição de ficar dentro da sala de aula por causa da temperatura, é meio difícil ignorar. Quando suas coxas grudam, é meio difícil abstrair. E eu continuo firme no meu posicionamento de que, quanto mais falamos sobre, pior fica, mas não tem sido fácil. Então a gente reclama do calor, e o calor fica pior ainda.

Quanto ao horário de verão, é impossível ser feliz sem dormir bem, e eu ainda lembro da época em que estudava de manhã e demorava umas duas semanas até me acostumar e voltar pros eixos. Eram duas semanas miseráveis, de desespero puro e mau humor recorde. Então, sim, eu entendo quem sofre, eu entendo quem se queixa, mas acho que é preciso todo mundo entender também que, assim como com relação ao calor, não tem nada que a gente pode fazer. 

São tempos difíceis, querido leitor, para todos nós e não só pros sonhadores. Citei três circunstâncias gerais, mas tem a falta d'água, tem o ebola, tem a barra pesadíssima que está sendo esse ano pra todo mundo, e tem as circunstâncias infelizes do cotidiano de todos nós. A espinha na cara, a chefe inoperante, o prazo apertado, o cabelo caindo, a cabeça se perdendo por aí, o trânsito e ai meu Deus as lojas já estão com decoração natalina. Não está fácil. 

Por isso, resolvi inaugurar essa semana de crônicas (sim! outra! eu não desisto!) com uma receita particular para sobreviver a essa morte horrível que às vezes é viver. Ninguém me ensinou e eu não li em lugar nenhum, foi meu instinto agindo num momento de desespero. No caso, era uma aula de direção que, pra variar, eu saí tremendo, me recuperando de uma caimbra, e fazendo muita força pra não chorar. Quando vi, eu estava na porta da Cacau Show. Quando eu vi, eu tinha enfiado uma trufa inteira na boca. Quando eu vi, meu dia estava melhor.

Parece estranho, parece desesperado, parece até pouco higiênico e talvez até seja mesmo tudo isso, mas uma trufa inteira na boca é uma solução para os seus problemas. Primeiro porque o excesso de chocolate na boca tira sua atenção do resto dos problemas. A prioridade é engolir sem babar e manter o resto da dignidade. Você não pode falar, não pode ousar reclamar, e precisa se concentrar em se livrar daquilo. Então, à medida que você mastiga, à medida que sua mandíbula trabalha, o chocolate começa a agir no seu organismo e todas as suas propriedades químicas maravilhosas batem com força potencializada. Quando você termina, o mundo, querido leitor, é um lugar mais doce pra se viver. 

Pelo menos enquanto o gosto do chocolate durar - mas até ele acabar, existe tempo o suficiente pra que você get your shit together e consiga seguir em frente.

Então hoje, nessa madrugada, guarde no coração o conselho que essa blogueira que vos escreve compartilha:

Antes de xingar, gritar, brigar e destilar o ódio gratuito;
Antes de reclamar do calor;
Antes de descontar nos outros a frustração pelo horário de verão;
Antes de odiar o mundo por um dia ou pessoa ruim;
Antes de deixar um idiota estragar seu dia;

Não apenas coma chocolate, como recomenda o poeta, mas coma uma trufa inteira de uma vez, porque se não há mais metafísica no mundo senão chocolates, o poder de uma trufa é tamanho que não deixa espaço para a metafísica alguma. E às vezes isso é tudo que a gente precisa. 

Isso e um elefante feliz brincando na lama:


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Aquele com o cara que vivia num mundo pequeno demais

                     Esse post é parte do meu projeto 1001 Pessoas, inspirado nesse blog aqui.


Mês passado eu conheci o cara mais bonito da minha vida. Conheci é modo de dizer, porque foi mais uma dinâmica de ver de perto do que qualquer outra coisa. Mas ainda assim. Mês passado, eu vi o cara mais bonito da minha vida.

Eu sei o que vocês devem estar pensando. Posso digitar Michael C. Hall, George Clooney, Rodrigo Santoro, Brandon Flowers ou Xabi Alonso na busca de imagens do Google a qualquer momento e contemplar pelo tempo que eu quiser os homens mais bonitos do mundo. Eu sei disso, ok. Mas ainda assim. Frente a frente, cara a cara, beijo a beijo, é outra coisa.

Não sei como dizer isso sem parecer superficial, mas a beleza exerce um poder muito grande sobre mim. E eu nem acho que isso possa ser algo que classifique alguém como superficial, é uma questão de sensibilidade. A beleza, no geral, mexe comigo. Não precisa nem ser essa beleza clássica da proporção áurea, muito menos uma beleza vinculada a padrões de beleza. Basta, simplesmente, ter um algo a mais que me faça sentir algo a mais.

Uma das quotes mais populares de Eleanor & Park é uma que eu, particularmente, detestei na hora que li. Eleanor was right. She never looked nice. She looked like art and art wasn’t supposed to look nice. It was supposed to make you feel something. Sei lá, achei brega? Achei over? Falei: Rainbow, amiga, menas? Achei. Falei. Mas agora, enquanto escrevo este post e tento expressar o efeito que a beleza causa em mim, só consigo dizer que é o tipo de característica que deve fazer você sentir alguma coisa. Tipo quando eu me arrepio sempre que escuto Here Comes The Sun. Tipo quando meus olhos se encheram de lágrimas na primeira vez que eu vi meu quadro favorito do Monet na minha frente. Tipo quando eu não consegui tirar os olhos do cara mais bonito da minha vida, tão logo ele entrou na minha vida, por uma porta de hospital.

Obrigada, Morrissey, por dar voz às minhas devoções mais ridículas

Pois é, cenário mais anticlimático não há, mas até essas circunstâncias infelizes contribuíram pro impacto do momento. Porque eu estava tendo um dia horrível, numa semana horrível (já escrevi isso tantas vezes que na próxima vamos deixar subentendido que 2014 está sendo um ano bem mala na minha vida) e, pra piorar, estava com pressa. Só que minha avó machucou o pé, precisava tomar uma antitetânica, e precisava que alguém a levasse até o hospital, porque não conseguia dirigir. Como ninguém mais podia, sobrou pra mim. Eu, que nem carteira tirei (longa, longa história); eu, que odeio dirigir; eu, que nunca consegui pegar o jeito com o carro da minha avó. Eu, que quase morri fazendo uma baliza no meio da rua movimentada; eu, que tremia tanto na sala de espera que, se alguém estivesse prestando atenção, pensaria que a doente era eu.

Só que quando o Cara Mais Bonito da Minha Vida entrou pela porta do hospital, eu entendi o motivo de todas as desventuras daquele dia, quiçá daquela semana. O universo estava me recompensando por todo o perrengue, e a partir daquele momento a ordem cósmica da minha vida foi restaurada.

Gente, ele era lindo. O que mais eu posso dizer?

Posso dizer que ele era alto, tinha o cabelo claro, a barba (meu deus aquela barba) ruiva e os olhos da cor da camiseta verde-água que ele usava. Ele era um cruzamento muitíssimo interessante entre o Xabi Alonso, o Domhnall Gleeson, com as maçãs do rosto do Spencer Tweedy. Ele parecia um fauno, uma criatura mágica, sei lá. Ele não parecia desse mundo. Ele era lindo. E eu não conseguia parar de olhar pra ele.


Só consegui desviar o olhar para dividir com todas as pessoas do meu Whatsapp que eu estava diante de um cara tão tão TÃO gato que nem parecia de verdade. Numa dessas, não resisti ao impulso e fiz uma coisa horrível da qual eu muito me envergonho: tirei, disfarçadamente, uma foto dele. Eu sei, foi uma atitude péssima, se fosse comigo eu ficaria puta, e me arrependi quase que instantaneamente. Mas tirei o raio da foto. E mandei pra uma amiga minha.

(Crianças, por favor, não façam isso em casa.)

Sabe por que vocês não devem fazer essas coisas? Porque tudo que o universo dá tem um preço, e tudo que você tira dele uma hora é cobrado. Minha conta chegou instantaneamente: minha amiga não apenas conhecia o cara da foto, como tinha uma crush de eras por ele. Ela inclusive já tinha falado dele pra mim, várias vezes, mas sem oferecer informações visuais. Eu só sabia que ela gostava dele, que ela tentava puxar papo com ele no bandejão, que ela tinha vontade de chorar só de olhar pra ele. Porque lógico, né? E ele nessa história toda não passa de um cara, com uma namorada (porque eles sempre tem namorada), que, como outros tantos por aí, não faz e nem vai fazer ideia que eu existo.

It was a beautiful dream.

O Cara Mais Bonito da Minha Vida não vai render nem um amor platônico, mas que fique registrado aqui, para a posteridade. E que o universo interprete tudo isso como um desafio pra mandar outro mais bonito ainda, dessa vez com um futuro. Imagina que doidera.

Enquanto isso, eu e minha amiga nos recolhemos à nossa insignificância e seguimos em frente. Porque os homens vem, às vezes nem ficam, e sempre vão - mas as amigas são pra sempre.

HOES BEFORE BROS
UTERUSES BEFORE DUDERUSES
OVARIES BEFORE BROVARIES

KNOPE, Leslie

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Garota enxaqueca

Tem uma cabeça na minha dor
E de olhos abertos eu vejo pontos pretos, às vezes brancos
Sinais de uma luta inglória em que dor e cabeça se digladiam
Pelo domínio de mim

Tem uma cabeça na minha dor
E de olhos fechados eu vejo pontos pretos, dessa vez drágeas
(Às vezes sorrindo)
Dipirona sódica cafeína anidra numa embalagem amarela
Eu tomaria uma caixa, mas só comprei a cartela

Tem uma cabeça na minha dor
E agora a moda é dizer que a culpa é do calor
Se é dor, é calor
A água secou, mas também, com esse calor
Coração azedou, não está fácil nem pro amor
E no elevador só se fala nele: ai, o calor!

(Enquanto isso, na minha cabeça: dordordor)

Tem uma cabeça na minha dor
E às 17h17 eu jogo tudo pra cima e deito no chão da sala, embaixo do ventilador
(O que importa é o que te faz fechar os olhos antes da uma da manhã)
Procuro desencaixar da dor a cabeça, separá-las desse abraço
E deitá-las, lado a lado
No tapete, ao pé de mim

Elas podem até dar as mãos, se ficarem caladinhas
Se prometerem ficar quietinhas, cada qual em seu lugar
Com uma dor de cabeça eu sei lidar
O que não dá é brincar de existir enquanto elas se atracam e bagunçam tudo por aqui:
Impulso vital e nervos sensíveis, preocupação banal e vasos contraídos
- Diga ao povo que sucumbi!

Tem uma cabeça na minha dor
E eu, que só queria, nem que seja por quarenta e sete minutos, parar de existir
(Planar, em estado de graça, acima de mim)
Enfrento a dor e palavras que dançam ao meu redor, assim assim
Sílabas poéticas, pra quem nunca tinha prestado atenção naquela aula métrica,
Saem soltas da ponta da lapiseira como se fluíssem de outrem e não de mim

(Dipirona sódica e cafeína anidra, são vocês?)

Tinha uma cabeça na minha dor
E tão logo me livrei desse problema
Vi, diante de mim, meu primeiro poema.

domingo, 12 de outubro de 2014

Músicas para cantar no karaokê





Era uma vez Duets, um filme bem ruim. Naquele modelo narrativo de Love, Actually, Duets mostra várias histórias que se conectam de alguma forma, e o que une esses personagens é o amor pelo karaokê. Sim, existe um filme sobre pessoas que se encontram, se redimem, se iluminam e tem suas vidas mudadas pelo karaokê, e eu o assistia obsessivamente quando era mais nova, posto que ele passava todo fim de semana na TV. Foi nesse filme que eu ouvi Try a Little Tenderness pela primeira vez e me apaixonei, bem antes de Duckie eternizá-la pra mim. Foi nesse filme que eu vi a Gwyneth Paltrow cantar Bette Davis Eyes de um jeito horrível, porém maravilhoso, que só os filmes horríveis, porém maravilhosos, conseguem fazer. 

Fui tentar reassistir recentemente e larguei no meio, porque algumas coisas não podem ser destruídas pelo cinismo da maturidade. Assim como Duets, o karaokê é uma atividade que demanda esse espírito moleque, essa aura sem noção, esse coração liberto e esse desprendimento ingênuo pra ser completamente apreciado. Não existe isso de não gostar de cantar no karaokê porque você acha que não sabe cantar, porque a ordem do karaokê é você cantar, dançar e performar justamente por não saber fazer isso. Por isso que aquele pessoal que faz showzinho e rouba o microfone pra cantar Djavan, Jorge Vercilo ou Evanescence dificilmente encontram adeptos na plateia, porque ninguém merece aguentar por três ou quatro minutos uma pessoa que se leva a sério. Já defendi, inclusive, a tese de que o karaokê é um modelo da democracia que dá certo, pois coloca todos em seu devido lugar e celebra o espírito da zoeira.

With a little help from my friends 




























A idade pode ter me deixado imune a Duets, mas espero que nunca cresça o suficiente pra deixar de gostar de karaokê. Agora, uma lista das minhas músicas preferidas para esse momento sublime e descomplicado de libertação pessoal:

#1 Dancing Queen (ABBA)
Sabe aquele momento que a gente para tudo que está fazendo, levanta os braços e grita MINHA MÚSICAAAAAAAA? Dentre todas as minhas músicas do mundo, Dancing Queen certamente é a maior delas. Foi uma das primeiras músicas que eu cantei num karaokê, com tenros 7 anos de idade, e foi Dancing Queen que eu cantei numa máquina de karaokê velha no Hot Zone e fiz o parque inteiro olhar pra mim. Aquele dia foi foda.


#2 Evidências (Chitãozinho & Xororó)
Depois de Dancing Queen, Evidências é definitivamente minha música do karaokê. Minha e do Brasil inteiro, estou ciente disso, mas não tenho ciúmes porque a humanidade precisa disso, sabe? O mundo seria um lugar melhor se todo mundo, ao menos uma vez na vida, pudesse abraçar o coleguinha e urrar, do fundo da alma, SÓ QUERO OUVIR VOCÊ DIZER QUE SIM. Essa versão deles com a Fresno é absolutamente sensacional (e subestimada), mostrando que dá sim pra uma música perfeita ficar melhor.


#3 Quando Você Passa (Sandy & Júnior)
Qualquer música da SandyJúnior é um hit de karaokê em potencial. Essa música (aquela do famigerado TURUTURU, para os menos familiarizados) é minha favorita primeiro porque evoca sentimentos de um amor juvenil que nunca vivi ou evitava viver, mas principalmente porque a gente só percebe como ela é enorme e absurda de se cantar na hora do vamos ver. Chega num ponto que você não suporta mais falar de turuturuturuturu e começa a enrolar a língua, não completar as frases e dar aquela embromada clássica. Se não for decadente, não é karaokê.


#4 Lua de Cristal (Xuxa)
Só um karaokê consegue passar a dimensão verdadeira do apelo emocional dessa música. É tanta mensagem de positividade e magia que é praticamente impossível não chorar. Recomendo reunir as amigas, espremer todas num palco, bem abraçadinhas, pra chorar juntas ao bradar NÓS SOMOS INVENCÍVEIS PODE CRER, TODOS SOMOS UM E JUNTOS NÃO EXISTE MAL NENHUM. A gente encerra a cantoria acreditando na vida, na amizade, no amor e no que quer que seja uma lua de cristal. #momentos


#5 A Fórmula do Amor (Kid Abelha)
A vida está me devendo um momento decente com essa música, porque da última vez que tentei era a última apresentação da noite, eu cantava num ritmo, Analu cantava em outro, e o fundo musical do leãozinho dava um tom completamente diferente. Nossa voz não saía mais, a gente mal parava em pé e a pouca adesão do público nos fez colocar a viola no saco e tentar outro dia. Mas foi uma escolha de repertório maravilhosa e mais a nossa cara impossível - e dependendo da circunstância, dá pra fazer charminho pra algum bonitinho do lugar, afinal, além de ter bom papo e saber dançar, ele vai saber que você não faz feio no microfone. Ou não, vai saber. 


#6 Total Eclipse Of The Heart (Bonnie Tyler)
Nunca cantei essa música no karaokê, mas eu e o Matheus temos a manha de cantá-la no carro que olha, abalamos o trânsito e a cidade ao nosso redor. Também é o tipo de clássico que se enquadra nos nichos chuveiro, fossa e música de bêbado em fim de festa, ou seja, tudo que uma boa música de karaokê tem que ser. É música pra fazer a Claudinha Leitte e terminar o número 100% deitada. #momentos 


#7 Olhar 43 (RPM)
Essa é a música que separa as meninas das mulheres e os meninos dos homens. Prova de fogo na hora de saber quem pertence àquele lugar e quem a qualquer momento pode arregar ou, pior ainda, resolver que Lanterna dos Afogados é uma boa ideia de repertório. A música é grande, rápida, e a letra tem muitas palavras. Além de tudo, o ritmo é super traiçoeiro. Entretanto, no fim, todo esforço é recompensado e ainda temos a chance de sensualizar com nosso olhar 43 ao descer do palco assim meio de lado, já saindo, indo embora, deixando o público louco por você. 


#8 Marrom Bombom (Os Morenos)
Karaokê sem pagode não é karaokê. E são tantas opções que eu poderia fazer uma lista com os 10, 20, e até 50 melhores pagodes pra se cantar no karaokê. Raça Negra, Molejo, e Só Pra Contrariar são grupos que entram na categoria SandyJúnior de: qualquer música é música de karaokê. No entanto, escolhi esse clássico subestimado d'Os Morenos pelo teor de constrangimento da letra, bem como sua falta de nexo. Porque cantar TIRA A CALÇA JEANS BOTA O FIO DENTAL (MORENA VOCÊ É TÃO SENSUAL) é só pros fortes.


#9 Mulher de Fases (Raimundos)
O refrão todo mundo canta junto, mas na segunda parte da música, os singelos versos PÕE FERMENTO PÕE AS BOMBA QUALQUER COISA QUE AUMENTE E A DEIXE BEM MAIOR QUE SOOOOL POUCA GENTE SABE QUE NA NOITE O FRIO É QUENTE E ARDE E EU A-CEN-DI-IIII se transforma em algo como põe fermento nanansjdkfeleof maior que o soool pouca gente sabe quenananaparara acendiiiiii. 


#10 Tempo Perdido (Legião Urbana)
Normalmente sou contra qualquer música série e realmente emocional num karaokê, mas Tempo Perdido é uma exceção porque eu já vivi momentos mágicos com ela nessa ocasião e se o Wagner Moura e a MTV tem direito de fazer isso (e ainda cobrar ingresso das pessoas e depois vender DVDs disso), por que não nós? 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A problemática da internet

Não entendo de política como eu gostaria, nem o suficiente pra me sentir confortável em expor minhas opiniões sobre o assunto o tempo inteiro, porque sei que sempre vai ter alguém que irá fazê-lo com mais desenvoltura do que eu. Eu gosto muito de saber que sempre tenho mais pra aprender sobre isso, e embora alguns dos meus posicionamentos passados hoje já não tenham nada a ver comigo, e até me envergonhem um pouco, fico orgulhosa de mim por ter aprendido o suficiente pra mudar. 

Sou gente de humanas desde o ensino fundamental, e se eu já tinha um pendor para a subversão, como meu pai colocaria, foi a universidade que me ajudou a transformar achismos e simpatias pessoais em argumentos coerentes, embasamento histórico e referências bibliográficas. Não que a gente precise de uma formação acadêmica pra ter qualquer opinião sobre política, mas eu tenho essa inclinação pros livros e costumo resolver minhas questões com artigo científico e consulta aos autos da biblioteca. 

Sim, minha vida universitária contribuiu muito pra minha formação, mas outra fonte responsável por uma educação constante e bem eficiente foi a internet. Não por meio de cursos online ou nada tradicional assim, mas pela troca de ideias com as pessoas, em grupos fechados, convívio nas redes sociais e às vezes até mesmo textão no Facebook, quando sobra paciência. A internet é uma fonte inesgotável de zoeiras e mina nossa produtividade de jeitos infinitos, mas acho muito ingênuo pensar que ela serve só pra perder tempo. 

Vejo gente muito competente na frente de blogs sobre coisas sérias e outras não tanto - mas Deus me livre ser séria o tempo inteiro - compartilhando experiências e coisas que aprendeu por aí, e muita gente disposta a discutir e debater questões caras dentro de espaços como grupos no Facebook. Cinema, feminismo, políticas públicas, futebol e literatura: tudo tem seu espaço, e se hoje sei explicar o que é um tapetão, defendo o Bolsa Família, políticas de cotas, a descriminalização do aborto e sempre bato o pé e encho o saco quando vejo personagens femininas subaproveitadas em filmes, livros e séries, é muito mais por conta do que aprendi na internet nesses anos do que já li em qualquer capítulo de livrão disponibilizado por um professor no xerox da esquina. 

Por essas e outras que eu sempre defendo a internet e gasto a maior saliva com qualquer pessoa que pense que ela é sinônimo de propagação de mentiras e procrastinação. Acho que, se não fosse pela internet, nem na faculdade de Jornalismo eu estaria, e às vezes acreditaria que essa coisa de escrever fosse uma mania passageira. Aqui eu aprendi sobre feminismo, samba e easter-eggs de Breaking Bad, e foi aqui também que eu conheci gente maravilhosa e fiz amigas com quem hoje eu rodo o Brasil, vivendo altas aventuras.

A internet, como qualquer outro espaço no mundo, é um lugar de pessoas. A única diferença é que a gente pode selecionar quem está perto da gente e até esquecer quem não tem nada a ver. No mundo real eu também só ando com quem eu quero, mas ainda tenho que conviver com chefe, parentada, colega de sala, vizinho que fuma na sacada e o escambau. Na internet eu posso dar mute ou unfollow se não quero ouvir o coleguinha fazendo live do jogo do time dele duas vezes por semana, do mesmo jeito que tenho todo o direito de não me sentir obrigada a ver discursos de ódio ou meme engraçadão do TV Revolta no meu feed. Na internet o mundo é filtrado e me mostra aquilo que eu quero, e não sei até que ponto isso pode ser produtivo. 

Com essa liberdade a gente segue um fluxo específico e de repente estamos sentados numa rodinha maravilhosa só com pessoas maravilhosas que dividem conosco os mesmos, ou pelo menos a maioria, de interesses maravilhosos. Acho delícia entrar no Twitter e ver que as pessoas que eu sigo, assim como eu, são igualmente interessadas em debater como o Vicente, da novela, tem cara de quem beija bem, e em troca de ideias sobre o marco civil da internet. No meu espaço da internet todo mundo é a favor da descriminalização do aborto e ninguém compartilhou links das fotos das atrizes que vazaram. Minha bolha da internet lê e defende young adult, brincou horrores na época da Copa, e achou lindo a Lu Genro peitar o Aécio no último debate.

O negócio é que às vezes eu me sinto tão à vontade nesse mundinho que esqueço que ele não passa disso: uma bolha. Uma ilha da fantasia descolada da realidade. E às vezes eu sou forçada a lembrar que o mundo, e em especial o Brasil, é ridiculamente maior que tudo isso. Porque é tão confortável viver nesse mundo supimpa que pouco me confronta e só me acrescenta, é tão mais fácil trocar ideia com quem eu tenho uma meia dúzia de ideias em comum e acreditar que tá tudo bem, que agora vai. É bem menos desgastante viver essa realidade composta por elementos que eu mesma selecionei e organizei, numa curadoria bem cuidadosa que reuniu tudo que eu mais prezo.

No entanto, é preciso lembrar que existe um mundo inteiro lá fora, muito mais complexo do que supõe minha vã filosofia, e a gente não chega muito longe se não abrir a janela pra entendê-lo melhor. O dia de ontem foi um choque bem dolorido de realidade pra mim, que acordei entusiasmada para votar e cheia de esperanças num mundo melhor, e fui dormir magoada ao ver que, opa, não era bem assim. Uma vez, conversando com algumas amigas, comentei que o mal de ser gente de humanas é que a gente se perde no nosso mundo, se cerca de gente de humanas, e acha que o mundo inteiro é um grande centro acadêmico. 

A ironia das ironias é que, na universidade, sempre que vou defender meus projetos, me amparo no Gay Talese e sua lição, eternamente gravada em mim, que pra ser um bom jornalista é preciso gastar a sola do sapato. O meu verso favorito de uma das minhas músicas preferidas diz que we've got information in the information age but do we know what life is outside of our convenient Lexus cages? Fico até com vergonha desses meus lapsos de ingenuidade quando penso que já vi essas lições antes, mas é sempre bom e absolutamente necessário relembrar. 


O mundo é muito maior que isso, o mundo é muito maior que a gente, e o Brasil está aí inteirinho do lado de fora, contraditório, desigual e fascinante, pra ser entendido e conhecido. Sempre tem mais coisa pra gente aprender e não, eu não vou encerrar esse post com a máxima do Sócrates que está mesmo na ponta da língua, mas fica aí a reflexão.

Em outras notícias, fiz um Tumblr! Sim, outro, sim, eu tô lembrada que aquele lá não deu em nada. Mas fiz um Tumblr pra falar sobre música, pequenas, aleatórias e despretensiosas divagações de quem passa um tempo razoável pensando sobre essas coisas, mas não tinha lugar apropriado pra dividir isso com o mundo. Tá lá: Monólogo em Ré Bemol.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Na praia


Desço no aeroporto de qualquer cidade turística no litoral e já procuro um agente uniformizado pra me entregar o certificado de inadequação, que costuma chegar antes das malas. Meu cabelo infla progressivamente com a umidade inesperada - e nesses dias de agostosetembro, já até meio esquecida - enquanto encaro, aflita, a esteira de bagagens. Minhas malas nunca foram extraviadas, mas eu sempre saio do avião tendo certeza absoluta que dessa vez o azar não me escapa.

Felizmente, mais uma vez, não foi dessa vez, e, com minhas tralhas já no carrinho, ando pelo aeroporto sentindo as roupas me grudarem no corpo e os pés inflarem dentro dos sapatos. Fica evidente naquele momento que eu não pertenço àquele lugar, ou pior, que eu não mereço aquela cidade. Eu e meus jeans com stretch (necessários para meus contorcionismos desesperados em busca de conforto numa poltrona de avião), eu ali de camiseta preta do Darth Vader, tênis e meia pra coroar, eu com minha franja ridícula deformada pela umidade relativa do ar a 94% - que eu ouso odiar bem baixinho, mostrando mais uma vez que eu não tenho o direito de estar ali. 

You can't sit with us, sussurra a brisa do mar. 

Um banho gelado e uma noite de sono compõe o intervalo de tempo que eu preciso pra me adaptar, e são suficientes para que no dia seguinte eu já me sinta ridícula por ter levado uma mala tão grande quando, de verdade verdeira, tudo que eu preciso pra ser feliz nos próximos dias são um par de havaianas, biquínis, protetor solar e um short jeans. Ficam esquecidos no armário aquele vestido mais arrumadinho, daquela cota do vai que né, a sapatilha vermelha, a camisa de manga comprida (qual o meu problema?) e um necessaire inteiro de maquiagem, tudo automaticamente obsoleto quando penso na minha canga de bolinhas comprada em Ipanema, que me protege da areia, serve de bolsa improvisada e faz as vezes de inspiradíssimo acessório contemporâneo quando enrolada no pescoço. 

As pessoas que me conhecem dizem que eu não tenho cara de quem gosta de praia, e eu sempre respondo que isso é porque elas não me conhecem na praia. Ainda sou eu, claro, porque eu que insisto num filtro solar 60 e quase nunca fico no sol, e ainda sou eu que procuro desesperada por uma ducha de água doce sempre que saio do mar. Mas, na praia, eu sou a pessoa que fica deitada onde as ondas quebram, por horas e horas até, se me esquecerem ali. Na praia eu que ensino as pessoas a flutuarem olhando o céu, e digo coisas como você tem que relaxar o corpo e confiar na água ou presta atenção no ritmo das ondas e esquece o resto. Eu receito goles acidentais de água salgada pra curar gripe e constipação, e juro de pés juntos que já fui curada de dor de garganta depois de levar um caldo desses de perder o rumo de casa.

Na praia eu sou uma pessoa que quase acredita em astrologia, porque meu signo é peixes e no mar eu me sinto em casa. 

O mar de Maragogi tem a maré baixa na maior parte do dia. A gente anda até o meio dele, até quase chegar na África, e a água não passa dos joelhos, com ondas que quebram antes mesmo de serem ondas o suficiente pra quebrar. À medida que a tarde avança, o mar avança com ela, e naquele primeiro check-point a caminho da África a água já chega no umbigo, e antes de quebrar as ondas já ultrapassam a minha cabeça. Nesses últimos dias, às cinco e meia da tarde, todos os dias, eu corria pro mar e assistia o dia ir embora deitada na água de barriga pra cima, só olhos, nariz e dedões do pé pra fora daquela água quente como água de chuveiro do mar de Maragogi. Ao meu redor tinha um casal, com o mocinho ensinando a mocinha a soltar água pelo nariz na hora de mergulhar, enquanto um homem de meia idade nadava dando braçadas na água, pra lá e pra cá. 

As ondas levantavam e abaixavam minha cabeça num ritmo regular, e meus ouvidos se enchiam e esvaziavam de água de acordo com esse compasso. Por causa disso eu oscilava entre estar ora ciente dos barulhos do mundo, e ora surda por submersão. Era como se estivessem me sintonizando pra dentro e pra fora da realidade, e nesses momentos eu tinha um delírio que ia mudar de vida, viver de luz e de arte, enterrar meu iPhone na areia, nunca mais usar calça jeans e estar sempre com flores no cabelo, franjinha nunca mais. Eu ia parar de comer carne e lasanha congelada, tomar menos café e aprender a gostar de água de coco, poderia começar a correr no parque e comprar uma bicicleta. 

De barriga pra cima no mar, olhando o céu meio lilás, e a lua que apareceu antes do sol ir embora de vez, não havia pessoa no mundo que eu invejasse, porque nenhuma delas era eu, e ser eu naquele momento estava bom demais. Saía da água feliz e contente comigo mesma, ainda que meus objetivos e resoluções nunca durassem tempo suficiente pra eu esquecer de tirar uma foto da paisagem pra postar depois no Instagram. 

Por mais que a cada noite eu deitasse minha cabeça no travesseiro pensando que tinha um dia a menos no paraíso, com certeza absoluta que não suportaria viver um minuto só na minha cidade feia, seca, suja e sem mar, foi com uma satisfação quase obscena que eu vesti meus jeans com stretch no dia de ir embora. Meus tênis pareciam simplesmente certos nos meus pés, meus poros, que até então tinham se escondido, pediram uma camada de base no rosto, e eu pensei que a vida é muito melhor porque o delineador existe. Tomei café da manhã já nos meus trajes civis, mas no restaurante do hotel as pessoas estavam seminuas e cheirando a protetor solar, certamente me olhando com dó - enquanto eu só conseguia pensar que era muito bom não estar com areia grudando no corpo. 


Gosto de passar férias na praia porque é um jeito que arranjei de, sem querer, tirar umas férias de mim. Is not as much a matter of travelling as of getting away, escreve a George Sand, e eu acho que todo mundo precisa de uma folga de si mesmo de tempos em tempos. Which of us has not some pain to dull, or some yoke to cast off? Existir é cansativo, por isso gosto tanto de, nesses dias a beira-mar, acreditar que posso mesmo ser uma dessas pessoas que não comem nada congelado, não usam jeans e muito menos se importam com celular e e-mails não lidos. Eu sei que não vou ser assim, ao menos não agora, ao menos não por muito, muito tempo, mas é uma ilusão quentinha como aquele mar - que graças a Deus enche o saco na mesma velocidade que minha pele sucumbe por excesso de sal, e nem as duchas são suficientes pra expulsar minhas alergias - uma metáfora barata em forma de dermatite de contato. 

Confiro os cadeados da mala pela última vez antes do despacho, penso no que eu preciso fazer caso elas sejam extraviadas, e me sinto muito satisfeita comigo mesma por dessa vez ter lembrado de pegar uns grampos caso minha franja saia do controle. Voltar pra mim é tão bom quanto chegar em casa, e eu senti quase tanta falta dessa paz interior como senti da minha própria cama. Bom mesmo seria se eu tivesse um mar na minha porta e pudesse descarregar os efeitos colaterais de mim mesma pelo menos a cada quinze dias, mas estar com o cabelo no lugar já é um consolo que me sustentará até as próximas férias.