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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Como é que eu vou dizer que acabou?

Para ler ouvindo:


Não escrevo nada aqui há cinco meses e há uns quatro parei de sofrer por causa disso, mas já não tenho vontade de escrever aqui há muito mais tempo. Falar sobre o fim é difícil mesmo quando ele já aconteceu. Eu vou do início:

Há exatamente um ano eu anunciei que faria o BEDA, me propondo o desafio de postar todos os dias durante um mês inteiro. Eu estava trabalhando, fazendo TCC, com problemas em casa, tentando virar adulta e já não tinha mais idade pra isso, mas sem pensar muito eu fui lá e fiz - e foi incrível. Me diverti com o blog como há anos não acontecia e isso só evidenciou como blogar havia se tornado algo que eu fazia muito mais por hábito, muito mais por nem me lembrar direito como era a vida sem ter um blog, do que porque sim, porque é divertido, porque eu quero, porque é tão melhor que todo o resto.

O BEDA foi a festa do divórcio, aquela viagem para Paris que um casal resolve fazer pra tentar salvar o casamento de anos sabendo que na volta eles vão do aeroporto direito pro escritório do advogado, aliviados por já terem começado a fazer as malas. 

Veja bem, a viagem foi ótima: eles passearam de mãos dadas, se beijaram na chuva, transaram com vigor adolescente na segurança de seus corpos adultos que sabem exatamente o que querem da vida e do outro. Foram jantares longos, restaurantes caros, sobremesas finas e vinhos deliciosos. Foi uma extravagância merecida. Ele não pensou em trabalho, ela esqueceu o celular, eles se permitiram dormir até mais tarde e conversar a noite inteira. Paris nunca esteve tão linda, eles nunca se amaram tanto, e isso deixou claro que eles já não se amavam mais. 

Aquilo não era a vida real e um casamento não é feito de viagens a Paris, mas de arroz com carne moída naquela quarta-feira, promoção de vinho, cantoria no carro e o charme daquele velho pijama furado. Se é preciso de Paris para ter graça e amor, é porque acabou. Eles estavam se amando sobre os escombros. 

Eu vou sentir falta daqui como quem sente falta daquele namorado que era perfeito, até que não foi mais. Aquele que a gente lembra com carinho e saudade, mas não se arrepende de ter seguido em frente. Voltar pra ele seria voltar para a pessoa que você era antes, e ela já não existe mais. É por isso que acabou. Eu já não existo mais aqui, como não existo mais na pele daquela Anna Vitória adolescente de 13 anos que um dia resolveu que começaria um blog pra valer. Eu não teria chegado aqui sem ela, mas é hora de descobrir todas as outras pessoas que eu ainda posso ser. 

Por que a insistência em tecer analogias entre o blog e um namoro? Porque junto com três ou quatro amizades, o blog é o relacionamento sério mais longo que eu tive e, como qualquer relacionamento, ele me mudou pra sempre e deixou marcas indeléveis na minha vida. Foi aqui que me transformei em gente que escreve, algo que tenho certeza que vou ser pra sempre. Nos últimos meses minha vida mudou bastante e sinto que tudo que aconteceu é uma consequência direta e indireta de um dia ter começado esse blog. Se fui sozinha para uma cidade enorme e nunca me faltou companhia pra almoçar, jantar e cantar no karaokê, foi porque um dia depois da escola eu sentei na frente do computador decidida a escrever sobre alguma coisa, qualquer coisa, porque sim, porque era divertido, porque eu queria e porque aquilo era tão melhor que todo o resto. Quando me lembro, são anos dourados.

Hoje começa mais um BEDA e várias pessoas legais vão participar. Isso me deixou nostálgica, quase que com vontade de entrar nessa de novo, mesmo que no fundo eu tenha certeza absoluta de que esse barco partiu faz tempo. Não quero insistir nessa viagem e me afogar. É como cruzar com uma pessoa que usa a mesma loção pós-barba daquele antigo namorado e de repente sentir tanta saudade a ponto de pensar em ligar bêbada pedindo pra ele voltar. É sempre desconcertante rever o grande amor.

Então resolvi escrever esse post, porque se eu não falar do fim o blog vai continuar aqui existindo como um blog platônico e acho que a gente merece mais que isso. No fim de semana contei para alguns amigos que faria isso e todos ficaram meio tristes (o que me deixou feliz de um jeito bem vaidoso), mas não sei até que ponto é melhor um final nunca dito, eternamente no ar, do que um ponto final claro e honesto. Já não escrevo aqui faz tempo e todos sobrevivemos. Como diz um dos meus poemas favoritos (hoje estou cheia de referências): seu destino foi curto longo e bom, não o choreis. No que depender de mim ele vai ficar no ar pra sempre, até porque eu virei aqui sempre que quiser relembrar algo especial dos últimos OITO ANOS da minha vida.

Como falei, eu sou e sempre vou ser gente que escreve e continuo escrevendo. Se você gosta e se identifica com as coisas que eu faço, ou se eu sou o tipo de pessoa que você lê pra ficar com raiva, você pode me encontrar em diversos lugares:

> Semanalmente, eu mando um e-mail pessoal esquisito para os assinantes da minha newsletter. Para receber também (são anedotas, crônicas, textões, o que estou lendo, ouvindo, assistindo e alguma foto de animal de roupinha), basta assinar a No Recreio

Qual a diferença disso pra um blog pessoal?, você se pergunta. Nenhuma e toda, eu respondo. É como receber o blog direto na sua caixa de entrada, só que de um jeito mais íntimo, complicado e perfeitinho. Existe uma sociedade secreta bacana, querida e crescente nas caixas de entrada (e a Aline Valek se deu ao enorme trabalho de fazer uma listagem dessas newsletters) e é o lugar que me sinto à vontade para escrever no momento. A newsletter é aquela coisa legal que eu faço porque sim, porque eu quero, porque é divertido e porque é tão melhor que todo o resto - e isso basta. O amanhã a Deus pertence.

> Há três meses lancei com algumas amigas o Valkirias, um site onde a gente escreve sobre cultura pop, feminismo e problematiza o impossível. Você pode conhecer o site, curtir nossa página, seguir a gente no Twitter e assinar nossa newsletter. Se tiver alguma ideia dentro do nosso nicho de interesse, pode até escrever junto com a gente.

> Eu continuo escrevendo na Pólen, porque alguém precisa cultivar o lugar de colaboradora mais enrolada e irresponsável de uma publicação absolutamente adorável.

> Também criei uma conta no Medium, porque um dia eu escrevi um textão que não se encaixava em nenhum outro lugar onde eu costumo publicar textões. Mas Anna você odeia o Medium!!! Pois é, mas às vezes ele se faz necessário. Caso essas circunstâncias se repitam, escreverei lá novamente e vida que segue. A VIDA É COMO UMA CAIXA DE BOMBONS, VOCÊ NUNCA SABE O QUE VEM DENTRO!!!!!!!!

> Todos os dias, o dia inteiro, estou no Twitter escrevendo tudo quanto é lixo que se passa na minha cabeça. Ainda é meu lugar favorito na internet porque todo mundo ali sabe que a gente está nos escombros da rede mundial de computadores e precisamos manter essa locomotiva funcionando. 

> Eu também tenho Instagram, Skoob, Goodreads e abandonei o Snapchat, graças a Deus. Tenho também um portfólio online mais ou menos profissional, caso você, futuro empregador, esteja se perguntando. 

> Eu quero escrever um livro em algum momento. Manterei vocês informados.


Já que estamos falando de amor, deixo vocês com essa conclusão: em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Vejo vocês do outro lado e muito obrigada. Mesmo. Um milhão de vezes. Por tudo que esse blog já me fez ser, crescer e fazer, é realmente inagradecível. E como de praxe, me desculpem por ser ridícula.

Se essa é a lápide desse blog, essas são minhas mensagens finais (são várias, porque eu não sei escolher):

Sentimentos são os únicos fatos

Vamos todos morrer mesmo

O universo está se expandindo

Shakespeare e os gregos já disseram tudo antes

Vai Corinthians

Paz


terça-feira, 13 de maio de 2014

Cidades maravilhosas

Eu aprendi a gostar de Uberlândia quando comecei a andar em Uberlândia. Filha única, cria de apartamento com todas as credenciais de ex-criança boba e esquisita que meus pais puderam me dar, passei a ganhar a cidade com minhas próprias pernas e sem supervisão depois dos 15. Uma coisa é andar na rua com alguém segurando sua mão e te dizendo pra onde ir, outra bem diferente - principalmente para pessoas distraídas e perdidas como eu - é fazer isso por sua conta. E foi só assim que eu conheci a cidade onde eu nasci e morei a vida inteira, e foi dessa forma que comecei a gostar dela.

Era como se passar periodicamente por aquelas praças, conhecer os seus contornos e hábitos - aqueles cinco minutos de diferença entre ter que esperar uns três turnos do semáforo pra conseguir atravessar a rua ou passar direto - as falhas no calçamento, as placas, as pessoas, a forma como o sol bate em determinados prédios depois das cinco; tudo isso fez com que eu lenta e gradativamente amasse a minha cidade natal. Passei mais de quinze anos alheia a tudo isso, me restringindo a, mecanicamente, entrar e sair de um carro, ou então a ser conduzida por aí pelas mãos de alguém meio apressado. Sozinha, mesmo que com hora pra chegar nos lugares, o tempo é meu e o espaço também, para que eu o explore como bem entenda, um dia entrando numa rua, e no seguinte vendo onde aquela outra iria dar. 

Ai de mim que, ainda por cima, sou romântica e adoro me sentir flâneur, porque isso faz com que eu decore as casas bonitas pra observar pela janela do ônibus, atravesse as praças pelo meio (e tem uma com um busto gigante do Juscelino Kubitschek que eu sempre paro pra ver, nem que seja por um minutinho, porque quando eu era pequena minha avó me levava para dar oi pro Juscelino e eu achava isso o máximo), dê trela pra todo cachorro que cruza o meu caminho e seja colega dos donos de banca de revista que eu visito pelo menos uma vez por mês. Estou sempre atrasada, quase sou atropelada ao menos uma vez na semana, sou aquela pessoa insuportável que às vezes atrapalha o fluxo da calçada, mas amo minha cidade à moda de Chico Buarque: amo tanto e de tanto amar, acho que ela é bonita. 

Já São Paulo eu conheci desde bem nova gastando com força a sola do sapato. Acho que ainda sei andar melhor em São Paulo do que na minha própria terra. Tenho família por lá e me candidatava para acompanhar quem quer que fosse em todas as visitas, além das férias obrigatórias em janeiro. É quando boa parte dos paulistas foge da cidade cinza e cheia de pedras que eu encontrava o momento perfeito para me jogar nela de cabeça.  Meu primo e fiel escudeiro é quem sempre me levou pra lá e pra cá, e ele nunca teve muitos pudores com caminhadas em longa distância. Sempre desconfio quando ele diz que é perto, dá pra ir andando. Eu sei que não é, pra quem vem de uma cidade com menos de um milhão de habitantes o perto paulista nunca vai ser o nosso perto, que significa ali na esquina. Mas mesmo sendo tudo tão longe, tudo tão enorme e assustadoramente longe ao ponto de eu querer subir de quatro aquela ladeira e já ter esfolado um sapato novo de tanto andar, valia o esforço. 

São Paulo é horrível e incrível ao mesmo tempo, é uma cidade que te assusta e te acolhe, te abraça com força e te espanta com crueldade. As pessoas sempre louvam São Paulo como uma cidade que não é pra principiantes, e sim para sobreviventes, mas pra mim sempre foi muito fácil gostar de lá. Existe algo na sua postura difícil que sempre me atraiu, porque eu nasci escolhendo as coisas mais difíceis pela graça do difícil, mesmo que seja complicado demais pro meu próprio bem. Porque mesmo com o metrô lotado, meu coração sempre acelera quando subo a escada rolante e me vejo no meio da Paulista. Mesmo tendo que segurar a bolsa mais firme junto ao meu corpo, eu amo todas as pessoas diferentes que existem ali. 

Ninguém precisou me ensinar o modus operandi do tough love de São Paulo, porque desde sempre nós falamos a mesma língua. São Paulo é como amar uma pessoa difícil que te implora todo dia pra ir embora, é como todo boy lixo que tem lá seu charme, é como uma cena clichê de filme em que uma pessoa ataca a outra, que a segura firme até que os socos se transformem em abraço e a raiva vire choro redentor. É como a tatuagem cantada por Chico: pesa feito cruz nas nossas costas, nos retalha em postas, mas no fundo a gente gosta e nem é só quando a noite vem. 

Então eu conheci o Rio de Janeiro, e vocês já devem ter ouvido por aí que ele é lindo. Passei anos esnobando a cidade, achando que meu coração gelado e cinza de quem adotou São Paulo mesmo nunca tendo morado lá me faria imune a todos os encantos que ela guardava. O sol carioca demorou 18 anos para me derreter, e de cenário inofensivo das novelas, o Rio se tornou uma obsessão pessoal. Eu precisava colocar meus pés naquela cidade. Não precisei nem efetivamente pisar no Rio para estar apaixonada: bastou um pouso no Santos Dummont pela Baía de Guanabara na hora do por do sol pra eu pensar seriamente que se eu morresse, minhas cinzas deveriam ficar ali. 

Na manhã seguinte peguei um freixcão que atravessou toda a zona sul e o centro, e fiquei como criança vidrada na janela, amando tanto e achando tudo tão bonito que chegava a doer. Brinquei com as minhas amigas que me sentia na Disney na Globo, porque estava andando nos cenários que por vinte anos só existiam na tela da televisão, e me parecia surreal que tudo aquilo existisse mesmo e fosse ainda mais bonito do que tudo que o Maneco já mostrou. Eu só pensava que jamais seria capaz de ser feliz em qualquer outro lugar. São Paulo parecia Cubatão, e Uberlândia uma Cumari piorada. Deixei um pedaço de mim em cada uma das janelas antigas dos prédios velhos de Copacabana, com seus velhinhos nas calçadas e as padarias pitorescas. Ainda é possível encontrar lascas de Anna Vitória na orla das praias e na pedra do Arpoador. 

Eu já sabia que amaria o Rio, mas não pensei que fosse tanto, nem tão fácil. Quem cresce entre Uberlândia e São Paulo passa a acreditar que é regra essa maluquice que o amor vem associado às pauladas, mas existe o Rio de Janeiro pra mostrar que pra ser charmoso não precisa ser caolho e que pra ser interessante não precisa pedir pelo amor de Deus pra gente ir embora. O amor pode ser fácil e simples, como um menino de sorriso bonito. 

Uma amiga uberlandense refugiada no Rio me escreveu que lá é o único lugar onde é possível lavar e deixar a alma ao mesmo tempo, e foi isso que ele fez comigo. Em Futuros Amantes, Chico canta a história de um amor que de tão enorme ficou guardado para ser amado num futuro distante, que transformaria o Rio numa cidade submersa a ser explorada por escafandristas. Sempre entendi que a letra falava de um amor romântico, e na verdade é isso mesmo, mas é impossível pisar no Rio de Janeiro, e depois deixá-lo, sem ficar com uma sensação de que um pouco de si ficou por ali também. 

Talvez seja esse o segredo da cidade: ela é tão linda que todo mundo que sai deixa um pouco de amor no fundo de uma gaveta, atrás de uma pedra, flutuando por milênios no ar a fim de ser amado de novo e de novo por todo e qualquer visitante, uma espécie de futuro amante. Afinal, amores serão sempre amáveis e é isso que me consola: saber que um dia irei voltar e ele vai me esperar inteiro - e lindo. 

Uberlândia sempre vai ser minha casa e é tipo amor de mãe, São Paulo sempre vai acelerar meu coração como uma paixão proibida, mas desconfio seriamente que o Rio seja o novo amor da minha vida.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A problemática de Olhos nos Olhos

Ou: Todo mundo sabe que você chorou noite passada



Já me disseram para ser feliz e passar bem, e se eu consegui não morrer de ciúmes pode ter certeza que eu quase enlouqueci. E mesmo depois de passada a loucura, os ciúmes, quando eu já estava refeita, pode crer, o dia em que eu coloquei um trecho de Olhos nos Olhos no Twitter ainda não estava tudo bem. Quando a gente quer que a pessoa que nos deu um pé na bunda agonize de tristeza e arrependimento diante do nosso frescor da juventude recuperado, é porque a dor de cotovelo ainda está batendo com força. 

Claro, criar coragem pra lavar o cabelo, passar um batom e sair de casa é um começo, voltar a cantarolar andando na rua e a sorrir para estranhos é um caminho (ou um sinal de que você ficou pinel de vez), mas você só se vê livre de verdade e pronta pra outra quando simplesmente não se importa. Não desvia da calçada quando aparece uma flor e nem faz questão de gargalhar alto pra ver se o fulaninho suporta te ver tão feliz. Superar é simplesmente dar de ombros, olhar na cara da pessoa e desejar bom dia desejando mesmo que ela tenha um bom dia - ou no mínimo um dia que não seja inteiramente desagradável marcado pela explosão de uma bomba nuclear.

Então, quando eu escuto essas músicas de superação e vitória no melhor estilo chupa otário, o que eu enxergo é um grande truque que não me engana. Basta já ter passado por isso pra saber que é verdade. Queridos leitores, ninguém tira Chico Buarque da cartola sem motivo e letra sincera pra mim é Apesar de Você e Trocando Em Miúdos: ou assume que vai morrer de rir da cara de tacho do infeliz quando ele se der mal ou abre o jogo e coloca na mesa seu peito tão diiilaaaceraaado. 

Contudo, como a gente adora se enganar e a dor de cotovelo depois de um pé na bunda é um sentimento universal e bastante democrático, ninguém perde a chance de fazer uma música sobre o ocorrido. Pensando nisso, organizei uma seleção de músicas com letras de pessoas que querem esfregar na cara do mundo que nunca estiveram tão bem, mas aqui entre nós a gente sabe que a coisa vai mal. Começamos com Pink gritando que não precisa de ninguém porque é uma rockstar e depois o Fratellis vem jogar na cara que está na cara de que você passou a noite chorando. Ida Maria implora por última dança e Clarice Falcão jura que se algum dia tentar beijar o cara é pra ele ter certeza que ela está drogada. Esteban, no CD mais dor de cotovelo do mundo inteiro, esfrega na cara de sua musa Sophia que encontrou alguém bem melhor que ela. Zooey Deschanel com sua franjinha e seus enormes olhos azuis, quem diria, está amarguradíssima e manda o fulano recolher seu amor e sentar sozinho, pois ela não se afoga mais por ele. 

E aí vem os Beatles. Porque eu sempre sonhei em ter uma música com nome no título. E minha banda favorita, que também é indiscutivelmente a melhor banda do mundo, tem uma música chamada Anna. Que é uma música de fim de namoro no estilo então vai lá com o fulaninho. O John Lennon pode até amar a Anna, mas esfrega na cara dela que ela não soube dar valor e por isso é melhor devolver o anel e ir lá. Com o fulaninho. 

Eu vou, seu John Lennon, mas é só porque eu sempre preferi o Paul McCartney, tá? 

Nesse meio tempo, o John McCrea, do Cake, jura que ela vai voltar, porque ele se recusa a viver numa vida em que ela goste mais de outro do que dele. Jeff Tweedy, do Wilco, engole o orgulho e confessa que andou até limpando a casa pra ver se a saudade dava uma folga, mas a verdade é que ele odeia sua casa vazia. O coitado até ligou pra mãe da moça, num gesto final de desespero. Jeff Tweedy assume que fica dobrando camisas pra distrair o coração e a gente quer fingir que é durona. Ha. Ingênuas. Depois dessa, enchi o saco daqueles que tentam sair por cima e abracei a lama: entra Chico Buarque com o hino das desesperadas que dá título a essa problemática e depois vem o ABBA liquidar nossa dignidade. The Winner Takes It All é aquela música que você ouve quando entrega os pontos e assume que perdeu e perdeu feio. Abandona a dignidade porque o vencedor fica com tudo. Gwen Stefani até tenta enganar a gente que tá super bem revendo o ex depois de anos e que eles são super modernos e amigos, mas é só ver esse clipe que fica claro e evidente que ela nunca superou aquele verão no mediterrâneo. 

No Distance Left To Run, do Blur, registra claramente que não temos mais pra onde correr, então ele vai ficar ali bem de buenas tentando se matar pra ver se entra de novo na vida da fulana. Em seguida, Alex Turner confessa que vai estar velhinho em sua cadeira de balanço e ainda vai fingir pra si mesmo que Alexa foi só mais uma, enquanto ela trata o amor como um joguinho pouco sério. Blake Sennett, do Rilo Kiley, mata a pau e diz que vai passar a vida procurando por alguém como a desalmada que o abandonou e aí vem Taylor Swift, a rainha dos términos de namoro, quebrada como uma promessa refletindo sobre mais um fim e um cachecol que nunca foi devolvido.

E como eu sou boazinha, resolvi encerrar a seleção com a doce e cheia de esperanças Star Anew, do Beady Eye, porque se o Paulo Mendes Campos diz que o amor acaba para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto, quem sou eu pra discordar?


01. So what (Pink)
02. Everybody knows you cried last night (The Fratellis)
03. Last Dance (Ida Maria)
04. Eu esqueci você (Clarice Falcão)
05. Adiós, Sophia! (Esteban)
06.  Take it back (She&Him)
07. Anna  (The Beatles)
08. She'll come back to me (Cake)
09. Hate it here (Wilco)
10. Olhos nos olhos (Chico Buarque)
11. The winner takes it all (ABBA)
12. Cool (Gwen Stefani)
13. No distance left to run (Blur)
14. Love is a laserquest (Arctic Monkeys)
15. Rest of my life (Rilo Kiley)
16. All to well (Taylor Swift)
17. Start anew (Beady Eye)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Comigo vai tudo azul

É comum à maioria dos blogs que eu frequento passar mais de uma semana sem que ele seja atualizado, mas sempre acho estranho quando me ausento desse tanto por aqui. Não que eu imagine alguém realmente sentindo falta ou seja uma blogueira importante que precisa atualizar o blog 3 vezes ao dia, mas é que eu realmente acho ruim e não gosto de dar brechas a essas estranhas mudanças de paradigma que tem rondado a blogosfera. É impressão minha ou parece que todo mundo está meio de bode de postar? 

Eu poderia fazer um post inteiro sobre isso, ou aproveitar pra contar que pintei o cabelo, ou ainda dividir com vocês a história de como, nos últimos dias, eu consegui editar uns 30 jornais sem nunca ter, de fato, editado um jornal antes. Poderia escrever sobre como eu fui capaz de não cumprir quase nenhuma das metas que coloquei para minhas férias ou sobre a paradoxal empolgação que estou sentindo nesse início de período - mesmo que tenha chegado a hora de fazer fotojornalismo. Seria possível ainda fazer um post inteirinho listando os prós e contras da minha ida ao show do Caetano Veloso e pedir a opinião de vocês antes de comprar meu ingresso. Eu quero mesmo ir nesse show ou seria melhor postar sobre o show dele que eu queria ver?

São mesmo muitas coisas a serem escritas, mas passei o dia inteiro querendo mesmo falar sobre uma só noite, aquela que eu virei amiga do Chico Buarque e da Gal Costa. Era pra ser um show da Gal na calourada da minha universidade, ingresso na faixa e todas essas maravilhas inacreditáveis que aparecem na sua frente quando você passa no vestibular. Eu cheguei com mil horas de antecedência, claro, e sentei na frente do palco. Na verdade, quem estava no palco era eu, sentada com as pernas balançando, olhando a Gal de baixo - não me perguntem como. As cortinas se abriram e ela apareceu no canto esquerdo do palco, com aquele cabeleira cacheada toda bonita, e ao seu lado foram logo revelados outros dois convidados: um senhor aleatório com um pandeiro e Chico Buarque himself.

Fiquei estupefata, claro, e pode ser que tenham rolado lágrimas. Sei que antes de dizer boa noite, menino Francisco Buarque de Holanda foi logo puxando a primeira música: Garota de Ipanema. É claro que só mesmo num sonho, num sonho meu, que Chico cantaria essa música com a Gal, embalados por um pandeiro. Foi sonho mesmo, e se vocês ainda não se ligaram disso basta eu dizer que depois eles emendaram Roda Viva e começaram a sambar. Ou é melhor eu pular pra parte que o Chico, o Chico Buarque, perguntou pra platéia - e claro que a platéia era eu - que música ela queria ouvir? Desci até onde eles estavam, e meio chorando, meio tremendo, peguei o microfone das mãos dele e disse que só tinha ido ver a Gal pra ouvir Baby. 

Ele disse que não se lembrava direito da letra e tirou um papelzinho do bolso para que eu a escrevesse. Rabisquei ali aquelas palavras que eu sei desde menina, a margarina, a Carolina e a gasolina e entreguei para ele, toda lépida e faceira, adicionando que depois daquela eu precisava ouvir não aquela canção do Roberto, mas do Chico. Ele foi deliberar com a Gal, que passou para ele as orientações quanto ao tom da música e meu despertador tocou antes do primeiro você precisa.


E então eu ouvi Baby o dia inteiro e coloquei na cabeça que eu tinha que ir ao show do Caetano, porque vai que a Gal aparece de bicona, ou então Chico Buarque himself e o velhinho do pandeiro?

(Mas Gal, sua linda, eu iria te ver mesmo sem o Chico e o pandeiro, e ainda que você deixasse Baby fora do setlist - se sonhei essa bagunça toda foi porque passei os últimos dias chafurdando no recalque porque não te vi de graça na Virada Cultural.)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Chiquérrimo

Ler a biografia do Chico Buarque me trouxe dois sentimentos distintos: amor e descrença.

Quem escreveu o livro foi Regina Zappa, jornalista que já publicou outras coisas a respeito dele e mulher que, suponho, deve babar colorido por causa daqueles olhos também. Digo isso porque o livro todo é quase como uma ode à pessoa de Chico Buarque. Fala sim da história, dos perrengues, das dores e discos, mas sempre fazendo questão de ressaltar como ele é incrível, foda e querido. Com toda essa parcialidade fica difícil não se apaixonar mais ainda. A cada página que lia só conseguia pensar: que homem é esse, meu Deus? Parcial, sim, mas se até Nelson Rodrigues, o homem que declarou que toda unanimidade é burra, chamou-o de "única unanimidade nacional", que posso eu fazer senão derreter-me? 

O livro divide a cronologia de sua vida e carreira em blocos, cujo início traz uma contextualização histórica do período e depois relata o que lhe ocorreu e o que fez de mais interessante. Além disso, vem com pequenos perfis das pessoas que passaram por sua vida e descreve a forma como elas o viam. Maria Bethânia, a própria, por exemplo, declara que "Ele se esconde no charme que tem. O fato de ele se sentir Chico é problema dele, porque na verdade ele é uma presença diferenciada no palco. Dançava, brincava, fazia números. Desinibido, lindo. Não posso falar dele sem falar no cavalheiro que é. Tem uma alma elegante. Sou uma vergonha falando de Chico, babo de paixão por ele.". O jornalista Tarso de Castro numa reportagem sobre ele disse que Tom Jobim havia dito que não aguentava mais vê-lo falar bem de Chico e desafiou-o a encontrar um defeito no próprio. Sua resposta? O fato de Chico ser casado. Tom, por sua vez, pedia ajuda pra Chico na hora de "amarrar" suas composições e diz no livro que ele é "um excelente músico, excelente letrista, excelente cantor, excelente pessoa". Vinícius, o Poetinha, também compôs muito a quatro mãos com Chico - acho que minha página preferida do livro é a que contem alguns postais que os dois trocaram e o processo criativo de Valsinha - e ainda o chamava de Chiquérrimo (amei muito e já adotei na hora de gritar por Chico, o poodle).

Com o respaldo de tanta gente ótima, só me resta o amor. Amor de doer lá no fundo e deixar os olhos brilhando. Assim como Bethânia, babo de paixão. 

Além de apaixonada, também fiquei descrente de tão impressionada. Primeiro que antes de estourar no Brasil fazendo todo mundo parar pra ver a banda passar Chico já era sensacional. Mais novo que eu esse homem já tinha morado na Itália, já tinha lido mil livros, já desenhava cidades fantásticas, já conhecia um mundo de música e pingava eruditismo. Daí que assim, no susto e pela graça, ele compõe A Banda, que dispensa comentários. Seu amadurecimento só trouxe coisa boa e ele podia ser considerado um Midas - não só da música, mas teatro e cinema também - porque onde ele punha o dedo saía coisa incrível. Daí olho pra mim mesma e fico intimidada, sabe? Meio com vergonha. Sinto aquele livrão lindo e olhos (azuis? verdes?) do homem me encarando na capa como se perguntasse: Anna Vitória, minha filha, 18 anos no mundo e o que você fez?

Não sou dessas saudosistas de um passado que não vivi (ou evitava viver), mas fico meio com pena da minha geração. Não que não tenhamos hoje pessoas talentosas e incríveis, mas não se encontra gente do naipe dele hoje no país. E na época dele, não era só ele. Acredito que Chico só é quem é hoje porque cresceu num meio muito frutífero, com músicos, escritores e intelectuais fazendo saraus intermináveis na sua casa, em que os gênios eram acessíveis, em que a fama e o reconhecimento eram uma consequência de um trabalho muito bem feito, e não o contrário. Ele viveu uma era de verdadeiros artistas. Não pretendo entrar na discussão, mas a época dele foi diferente, o espírito era outro - LPs, festivais, folhetins, o Brasil inteiro cantando seu samba e não deixando-o reservado a uma pretensa elite - e fico pensando que ele viveu algo muito, muito bom - apesar das coisas ruins.

Recomendo sua biografia para todos, fãs ou não. É um livro babão sim, mas quem não quiser babar junto certamente ficará de olhos cheios com tanto material legal disponível: fotos, rascunhos de músicas, curiosidades, pitadas de história do Brasil e o melhor de tudo: um apanhado imenso de reportagens da época. Para mim, em todos os sentidos, foi uma delícia de livro. Analu e Renata não poderiam escolher mais certo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tipo um amor




Não é como se eu fosse uma faladora de gírias compulsiva, mas confesso que tenho lá minhas manias. Uma delas é dizer "tipo". Tipo assim, tipo isso, tipo muito. Mas não ao ponto de ser algo grotesco estilo a Taylor, de The Rachel Zoe Project, que não diz tipo, mas "like", que dá praticamente na mesma. Quem já assistiu sabe que ela intercala todas as palavras que diz com um 'like', e isso é tipo um saco. Como eu ia dizendo, tenho essa mania de falar "tipo", e apesar de não ser algo exagerado, deixa meu pai muito irritado, tipo, muito mesmo. Ele sempre vem com aquela conversa de que é um absurdo que eu, uma futura jornalista, fale algo tipo "tipo assim". Onde já se viu? A única coisa engraçada é que, de tanto me implicar, ele anda com mania de falar "tipo assim", e toda vez que o diz, se repreende no meio da frase e diz: "Calma, esquece. 'Tipo assim' nada, porque a gente nunca deve dizer 'tipo assim'. Isso é coisa de quem não sabe conversar. Horrível, principalmente pra uma futura jornalista."

Eu até concordo com ele, porque acho tipo, feio pra caramba quem fala um milhão de gírias e soa sempre como uma pré-adolescente americana dos reality shows da MTV. Sou uma apreciadora do colóquio refinado, e gosto de conversar com gente que fala direito, que tipo, não esculacha. Não é porque não estamos discursando na Academia Brasileira de Letras que precisamos chutar o balde. Isso é tipo péssimo.


Não sei para que
Outra história de amor a essa hora
Porém você
Diz que está tipo a fim
De se jogar de cara num romance assim
Tipo para a vida inteira


Mas aí veio o cd novo do Chico Buarque, e a namorada nova do Chico Buarque, e as músicas (tipo, é muito duro admitir isso) maravilhosas que ele fez pra ela. Dentre elas, temos Tipo Um Baião. Desde que ouvi o cd pela primeira vez, diversas músicas tem disputado a posição de minha favorita, e se revezado nela com frequência. Essa semana, as eleitas são Se Eu Soubesse (com quem ele divide os vocais com aquela da qual não falamos) e Tipo Um Baião. A última foi eleita porque ela é tipo um amor. Além disso, temos Chico Buarque fazendo poesia linda falando tipo. Provavelmente deve fazer parte dos dialetos xóvens de sua pupila, e se até internauta Chico está virando por causa dela, por que não começar a falar tipo também?

terça-feira, 12 de julho de 2011

Minha palavra preferida

Quando eu era ativa no Fotolog as pessoas costumavam responder uns questionários pessoais, como uma espécie de meme, pra dar aquela movimentada na rede, unir a classe e adicionar curiosidades inúteis às milhões de fotos em frente ao espelho do banheiro fazendo biquinho. Lembro que um deles perguntava qual era minha palavra preferida. Poxa, complexo. Eu não fazia a menor ideia de qual era minha palavra preferida. Ia nos posts das pessoas e todos respondiam com a maior naturalidade do mundo suas preferências vocabulares e eu lá, empacada. Vi de amor e magia à naftalina e cumbuca, e nada de descobrir a minha. Como boa (insira aqui um signo ou ascendente que justifique minha mania de pensar demais sobre coisas sem importância) que sou, não respondi ao questionário, e tal pergunta continuou me assombrando.

Até que eu assisti O Escafandro e a Borboleta. Apesar de ter achado o filme sensacional, não foi o seu conteúdo que me trouxe alguma epifania sobre minha palavra preferida, foi o título mesmo. Sem saber do que se tratava, aluguei o filme por causa do título, porque achei essa coisa de escafandro um barato. Eu não fazia a menor ideia do que era um. Assisti ao filme (é muito bom, vocês deveriam ver também) e descobri que nada mais é do que aquelas máscaras de mergulhador feitas de ferro que parecem saídas de um filme do Steven Spielberg dos anos 80. Tirada a dúvida da cabeça, a palavra escafandro continuou a me atormentar não por causa da imagem que evocada ou então do filme, mas sim pela sonoridade. Experimente dizer escafandro em voz alta. Interessante, né?

Aí veio o Chico Buarque e trouxe todo um novo significado. 

Confesso que sempre achei sotaque carioca um saco, irritante, não suporto aquela dicção malandra. Nada pessoal, mermo. Mas existem duas pessoas no mundo que falam com sotaque carioca e tem o meu perdão: Chico Buarque e Amarante. Se a pronúncia arrastada do "s" costumava fazer brotar em mim aquela antipatiazinha na boca do estômago, com os dois ela provoca só amor. Sinto ondinhas de ternura sempre que ouço o Amarante cantarolando sobre seus docessshhh deletériosshhh e deixando pra traisshh saissshh e mineiraisssh e o Chico, ah, o Chico, o que é esse homem exxxxplicando pra Carolina que não vai dar, dizendo que ela guarda um amor que não exisshte nosssh seusshhhh olhosshh trissshtesssssshhh? Com os dois, todo abuso regional será perdoado.

Futuros Amantes é uma das minhas músicas favoritas do Chico. A letra fala de um amor tão enorme que segue existindo mesmo quando o Rio de Janeiro vira uma cidade submersa, e os sábios de então tentam, em vão, entender o sentimento daquelas cartas e poemas que encontram no caminho, mas o amor que um dia ele deixou pode ser amado por futuros amantes, já que amores serão sempre amáveis e não é necessário se afobar. E o que tem a ver o cu com as calças?, vocês me perguntam - com o perdão da expressão deveras infame. No Rio de Janeiro submerso da canção, escafandristas aparecem para explorar as coisas, o quarto e a alma da interlocutora, e aparecem naquela malemolência irresistível do carioquês do Chico, traduzindo, essshcafandrissshtassshhhh e eu não consigo pensar outra coisa. Escuto a música só esperando os nobres mergulhadores entrarem na história e depois passo o maior tempão ouvindo na minha cabeça, infinitamente, essshcafandrissshtassshhhhessshcafandrissshtassshhhhessshcafandrissshtassshhhh, tipo esquizofrenia. 

E foi assim que eu descobri que essa é minha palavra preferida. Escafandrista. Rolou toda uma realização pessoal, tamanha que anteontem, quando fui criar meu Tumblr, não pensei duas vezes em qual seria o endereço. Escafandrista, claro. Gosto da palavra muito mais pela sonoridade do que qualquer outra coisa, mas se me perguntassem eu diria que o título faz parte de uma metáfora muito esperta que queria dizer que a internet era um oceano de imagens bonitas e engraçadas e eu, a escafandrista pronta para desvender tudo aquilo e postar numa rede social. Era o plano perfeito, mas o endereço já existia - triste pensar que alguém teve essa ideia brilhante antes de mim - e o Tumblr virou mesmo Pôneilândia, porque né, nessas horas só os pôneis.

Fim.



(Chico contando de onde veio a ideia da música, só amor no coração)
 (Vocês perceberam que todo esse post foi um pretexto pra dizer que fiz um Tumblr, só porque estava com vergonha de admitir que agora tenho um apesar de ter dito tantas vezes que Tumblr era coisa de blogueiro que tinha preguiça de ler e escrever. Enfim, me sigam por lá.)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Só não pode beijar no mar

Chico Buarque está namorando. Ao menos é o que a internet inteira está dizendo. Nenhuma das partes confirmou ainda, mas eles tem sido vistos juntos desde 2009. A fulana é uma tal de Thaís Gulim, cantora aleatória que na quarta-feira ganhou uma matéria na Ilustrada, holofote que veio graças ao suposto romance com o par de olhos verdes/azuis que só eu sei o quanto eu gosto. Trinta e poucos anos mais nova que ele, tem idade pra já ser neta do senhor Francisco Buarque de Holanda. A matéria do jornal dizia que ela está em seu segundo disco, escreveu duas músicas, ganhou uma de Tom Zé, Adriana Calcanhoto e, sim senhores, Chico Buarque. Deu-lhe a letra e a melodia, saiu de casa pra vê-la cantar...

E daí que eu sou possessiva com quem eu nem conheço e que mal sonha com minha existência? Tenho ciúmes, oras, porque Chico é de Marieta e só dela, e nada vai tirar isso da minha cabeça. A tal da Thaís, nunca ouvi disco, música alguma e nem vou ouvir, porque morro de medo de gostar e a regra aqui é odiar arbitrariamente.


Ai de você, Francisco Buarque de Holanda, se dedicar-lhe qualquer música no seu novo cd, ai de você. No momento, sigo aturando esse affair com quem bem poderia ser sua neta, afinal, quem sou eu pra julgar a pobre (porque né), só não me deixe passar por qualquer banca de jornal e ver foto sua em capa de revista de fofoca beijando a fulana no mar. Meu coração não vai suportar tamanho desgosto novamente. Desgosto e um pouquinho de despeito, ouso confessar. Está avisado.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Maria-palheta

Ou: Top 5 músicos mais lindos e adoráveis de todos os tempos

5 - Rodrigo Amarante: Amarante é guitarrista e baixista do Los Hermanos, além de assumir o vocal e a letra de algumas músicas - as melhores. Há quem diga que ele não é tão bonito, mas definitivamente é muito charmoso, apesar de, vez ou outra, adotar uma barba meio pedobear. Amarante tem uma voz rouca linda e marcante, escreve letras muito boas, toca muito e ainda arranja tempo para fazer gracinhas no palco. Ele humilha. Quando fui vê-los, em 2009, ele cantava sorrindo e sempre fazia umas dancinhas adoráveis enquanto tocava; dancinhas que, aliás, já viraram símbolo da fofura dele nos palcos.

4 - Fabrizio Moretti: Bateirista dos Strokes, Fabrizio Moretti também toca com Amarante (amo a amizade dos dois) no Little Joy e até assume os vocais de vez em quando. Apesar de ter nascido no Brasil, foi radicado nos Estados Unidos ainda criança. Na época do Strokes, Fabrizio tinha o cabelo cacheadinho, que tem lá seu mérito, mas particularmente prefiro o visual atual, cabelo mais curto e essa barba trabalhada no amor. Namorou com Drew Barrymore por um tempão (querida, qual o segredo?) e atualmente está com sua companheira de Little Joy, Binki Shapiro, protagonizando fo-tos ro-mân-ti-cas que fazem com que nós, meras mortais, coloquemos a mão no queixo e nos perguntemos por que não vivemos alguma história parecida. Binki, invejamos você e seu cabelo lindo.

3 - Hélio Flanders: Analisando friamente, Fabrizio é bem mais gato que Hélio Flanders, mas de acordo com o rigoroso critério de obsessão pessoal, sou mais o Flanders. Tenho uma quedona por ele desde que conheci o Vanguart, e ela vem crescendo expressivamente a cada vez que reassisto ao DVD ou ele inventa de tocar Beatles na Twitcam. Ele está aqui pra preencher a cota de magrelos-franzinos-adoráveis-engraçadinhos, que é exatamente tudo que ele é. Apesar do cabelo lindo, da voz interessante e o jeitinho fofo, o que mais gosto nele é o humor. Sempre gosto de assistir/ler suas entrevistas. E não tem como excluí-lo da lista depois de ver os olhares doces e intensos que direciona a sua ex, ao cantar com ela. Como não amar? E ainda gosta de gatos, toca gaita e piano e tem cara de menino.

2 - Brandon Flowers: Todas chora. Todas chora e arranca os cabelos. Todas perde a dignidade e sobe nas parede. Tipo de reação do mulherio geral quando se trata dele, líder e vocalista do Killers. Brandon é absurdamente bonito, charmoso até falar chega, estiloso, gostoso e tem uma presença de palco incrível, me fazendo ir às lágrimas quando bate no peito cantando "I Can't Stay". Fiquei hipnotizada por ele ao assistir o dvd da banda, e não foram poucas as vezes que ficava voltando o show pra ver de novo um sorriso, uma carinha, uma dancinha. Como diz a Vic, creme puro do amor. Além de ser líder do Killers, que é uma banda incrível, Brandon ainda tem seu projeto solo, também muito bacana, e seus clipes são sempre interessantes. Apesar da barba e do bigodinho muito sexys, no fundo ele tem uma carinha de coitado que faz com que a gente queira botar no colo e levar pra casa. Por falar nisso, sr. Flowers é bom moço, casado com a namorada da adolescência e pai de dois filhinhos.

1 - Jon Foreman: Jonathan Mark Foreman me machuca, corta meu coração. Por que tão bonito, por que tão legal, por que tão charmoso, por que tão simpático, por que tão talentoso, por que tão longe de mim? Há quem diga que o nariz meu grande, os dentes tortinhos e a barba de presidiário estragam o combo cabelo loiro + olhos azuis mas ouso dizer que esses detalhes imperfeitos que fazem dele tão sonho-dourado-muso-do-verão. Jon é vocalista do Switchfoot e Fiction Family, tem um projeto solo, é politicamente engajado e lidera ações sociais legais, tem um jardim em casa em que planta melancias e morangos, surfa, filosofa e ainda escreve uns artigos excelentes pro seu blog no Huffington Post. Já tive a maravilhosa oportunidade de conhecê-lo, ver de perto seus olhos azuis, bater um papo e ainda ver que ele tem as mãos mais bonitas do mundo (Isa me ensinou a dar importância pra essas coisas), sendo assim, meu primeiro lugar fica com ele, que é mais do que um rostinho (muito) bonito. Emily Foreman, fica aqui minha eterna admiração por você, dona da música romântica mais lindinha de todas.

Hors-Concours - Chico Buarque: Nelson Rodrigues já disse que perto de Chico Buarque todo homem é um corno em potencial e não podia estar mais correto. Chico tem 66 anos e causa frissom, e a gente não quer saber de Jabuti, lei Rouanet e até ignora o estrelismo, porque não tem como pensar naqueles olhos, verdes ou azuis, sem tremer na base. Chico, seu lindo, não te troco por três de 22.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

V-au-sinha

Ele era ranzinza, rabugento e preguiçoso. Em compensação, tinha uns olhos doces de fazer derreter o coração de qualquer um que se aventurasse a prestar uma atenção mais demorada naquela imensidão cor de âmbar adornadas com manchas feitas pelo tempo e a infância sofrida. Não era mau, sem sombra de dúvidas, quem bem o conhecia sabia que era dono de um coração puro e sincero, apenas não era muito chegado a estranhos. Passava a maior parte dos dias na sacada do apartamento, observando o movimento externo. Para ser um James Stewart em A Janela Indiscreta só lhe faltava mesmo a pequena luneta e a perna quebrada, apesar de que suas pernas eram tão brancas que poderiam até fazer as vezes de gesso.

Gostava particularmente de se colocar em seu observatório no final do dia. O sol já não estava mais tão quente, e seus raios na atmosfera proporcionavam àquela hora específica um espetáculo primoroso de cores e nunces variadas por todo céu, brincando também com as nuvens. Tudo parecia mais bonito naquela hora do dia, o brilho do sol nas folhas, a sombra delas no paralelepípedo das ruas, as senhorinhas varrendo a porta de casa, o cheiro de noite, o cantar dos pássaros mesclado com um silêncio quase celestial: no fundo, bem no fundo, ele era um sentimental. A única coisa que interrompia e azedava sua contemplação do entardecer era uma certa presença que tinha o hábito de passear por ali diariamente, a essa mesma e fatídica hora.

Nunca gostara dela. O semblante altivo, o nariz empinado, o porte de inabalável... bastavam essas características para que uma antipatia ímpar lhe brotasse, ao ponto de fazê-lo abandonar seu posto e ir para dentro da casa, se instalar no quarto escuro, murmurando e maldizendo-a. Ela lhe lembrava seu irmão falecido, com quem ele nunca se dera bem. Tinham os mesmos olhos curiosos, astutos e falsamente complecentes. Era dona de um traseiro peculiar, magro mas detentor de uma ginga inabalável. Odiava o rebolado daquela magrela. Odiava as roupas que usava. E, principalmente, odiava a maneira como ela passava reto por seu prédio e fingia não ouvir os imprópérios que ele lhe proferia, quando a cólera era muita e não havia ninguém próximo para repreendê-lo.

Ela nunca entendera o por que de tanta raiva. Ele chegava a fazer pena ali o dia todo, dependurado naquela maldita sacada, resmungando pro mundo. Primeiro pensou que fosse louco e só, mas depois viu que era pessoal. O problema era ela. Chegou a lhe responder vez ou outra, mas quando descobriu o jogo dele percebeu que melhor do que insultá-lo era deixá-lo brigar sozinho. Quanto mais alheia e tranquila ela cruzava a rua maiores eram as ofensas dele, feito bobo preso no segundo andar. Se ao menos fosse macho para descer e ir resolver - o quê? - seus desentendimentos com ela, mas nem a isso se prestava. O pessoal da rua, outros fuxiqueiros que costumavam sair a essa hora diziam que ele nunca punha os pés nos paralelepípedos enquanto por ali houvesse gente. E se havia, espantava todos com seus brados e jeito bêbado-maníaco-depressivo.

Numa terça-feira sem graça, em que o tempo estava cinza, num chove e não molha tedioso, ele resolveu sair para uma caminhada mais cedo, pensando que a ameaça de chuva iria espantar os outros transeuntes das ruas. Andava de forma calma, caminhando sobre o meio fio, até que um cheiro peculiar fê-lo virar seu rosto. Era ela. Quis fingir que não a vira, mas algo mais forte prendeu seu corpo na direção dela, que caminhava decidida ao encontro dele. Ele também passou a andar na direção dela, os olhos grudados um no outro, em chamas. Nos poucos segundos que o trajeto durou ele pensava em mil coisas, se deveria xingá-la, passar reto, esbofetear-lhe a face, cuspir... e quando os dois finalmente se cruzaram, ficou estático. Ela também. Giraram, trocando de lado, mas sem desgrudar os olhos um do outro, até que ela sorriu. Não sabia bem porque havia feito isso, mas a figura dele frente a frente parecia tão menos ameaçadora, quase frágil e amigável que quis simplesmente sorrir, baixar a guarda.

Ele esperava tudo dela. Que gritasse, tirando satisfação; que corresse, de medo; e até mesmo que mordesse, como vingança por todos os últimos meses em que ele a havia ofendido sem motivo aparente. Aliás, o motivo primeiro das implicâncias agora lhe parecia distante e infantil. Era só porque ela tinha os mesmos olhos que o irmão, que o importunara muito, é verdade, mas que agora nem ali estava mais. Poderia até dizer que sentia falta dele, vez ou outra. A verdade é que no fundo gostava do irmão e se arrependia dos dias turbulentos que viveram juntos, e agora que ele se fora o que sentia era uma enorme culpa e um vazio sem precedentes. E os olhos dela lhe lembravam disso a todo momento e sentia tanta raiva de si mesmo que chegou a pensar que sentia raiva dela. Coitada. Nunca reparara como era engraçadinha, era a primeira vez que a via de perto.

O que aconteceu depois foi tão rápido que até hoje os dois não conseguiram entender. Lá estavam eles, um em frente ao outro, sentindo uma mistura de medo, confusão e súbita simpatia mútua. No segundo seguinte estavam agarrados. Foi ele que lhe envolveu o pescoço com os braços um tanto curtos mas firmes, e ela retribuía com intensos carinhos e beijos e lambidas e até leves mordidas que poderiam constranger o resto da rua que os assistia, mas era uma reconciliação tão urgente e doce que não havia espaço para repressão puritana. E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou. E foram tantos beijos loucos, tantos ganidoss roucos como não se ouvia mais.

Separaram-se tão rápido como haviam se unido. Nos dias que se seguiam ele continuou a observá-la passar, mas dessa vez em silêncio. Ela também não dizia nada ao passar por sua rua, apenas virava o rosto em sua direção, olhando-o fixamente. Ele se levantava e ia andando ao longo da sacada até que não mais pudesse vê-la, e depois voltava ao seu posto. Decidiu que não iria encontrá-la mais, a cumplicidade no olhar era o máximo e o melhor que poderia se esperar de uma relação entre um poodle e uma pug. Sentia por vezes uma vontade imensa de repetir o feito do primeiro encontro, e chorava baixinho ao vê-la passar, de saudades do toque de sua pele cor de abricot na sua muito branca. Um dia ouviu alguém chamá-la e descobriu depois de meses seu nome, Meg, que ele achou lindo e muito parecido com ela. Até que combinava um pouco com o seu, que era Chico. Sonhava em ver os dois escritos com caligrafia rebuscada e dourada numa espécie bizarra de convite de casamento.

Entretanto, se contentava em olhá-la, e ela o olhava de volta. E o mundo compreendia, e o resto das noites caíram em paz.
(Baseado em fatos reais)

terça-feira, 22 de junho de 2010

A ofegante epidemia

Peço licença ao meu querido Chico para tomar posse de sua letra e associar os adjetivos "alegria fugaz" e "ofegante epidemia", em sua música relacionados ao Carnaval, a essa euforia de Copa do Mundo que têm atingido à todos nós, de uma forma ou de outra (porque quem gosta faz festa, e quem não gosta faz questão de dizer isso a todo momento). Longe de mim querer emiuçar-me aqui numa análise e interpretação do que o meu querido homem de olhos verdes quis dizer por trás de tão genial composição, quero somente fazê-la de gancho ao que quero tratar.

Do pouco que entendo, percebo que a letra de "Vai Passar" fala sobre o Carnaval, a festa, a loucura, a beleza do samba, mascarando a realidade em que o país vivia, fazendo todos esquecerem de sua realidade, afundada em dívidas. Procede? Até hoje. A velha história do pão e circo que ouvíamos falar lá na Idade Média, mas que se fez verdade na efervescência dos conflitos em nosso país, e também agora.

Temos Carnaval, mas temos também, de quatro em quatro anos, a Copa do Mundo. Se acho que muitos se entregam a um falso patriotismo, a um ufanismo cego, a um súbito orgulho de sua nação durante um mês, para que nos próximos anos seja esquecido e até negado com veemência? Acho. Se acho que naquele mês todo mundo vira técnico, profissional, entendedor de bola, amante do futebol, sendo que passa o resto dos dias sem assistir a um jogo sequer? Acho demais. Se acho que todo mundo se une para torcer, vibrar e enlouquecer durante os jogos, mas se mostra inerte diante dos problemas sociais que não param de fazer goleada em nossas caras, nos chamando de idiotas a todo momento? Ô, e como. Entretanto, não é disso que venho falar. Já temos pessoas o suficiente por aí para esclarecer tópico por tópico, torcer contra, e levantar a bandeira da insignificância de tal evento. Com licença, farei diferente.

Não acompanho nenhum tipo de campeonato de futebol, mas enlouqueço em época de Copa do Mundo. Acreditem ou não, sou fã do esporte. Meu único problema é não ter time. Nunca tive. Devo isso talvez ao fato de que nem meu pai, nem meus avós são tão grandes torcedores de clubes nacionais, e essa coisa de time a gente acaba herdando. Nunca consegui torcer para time algum, torcer com o coração. Existem, claro, aquele que tem minha simpatia, como aqueles que nutro antipatia profunda, mas um só, coração tomado, não. E eis que no fim do túnel, tem a Seleção. Dela é a minha verdadeira torcida. Dela, posso dizer que torço até de forma cega, até porque quem torce de verdade, o faz com paixão, cegamente: acreditando até no último minuto que uma reviravolta pode acontecer, crendo na vitória, na conquista, até que me provem o contrário. Eu nunca escolhi que fosse assim, é involuntário.

Até ontem, o dorso de minha mão ameaçava roxear, já que a partir do início do segundo tempo da partida que jogamos domingo, comecei a mordê-lo de forma inconsciente. Meu pai, percebendo que quanto mais os marfinenses batiam em nossos jogadores, com mais força eu cravava os dentes nas mãos, pediu que eu parasse, mas não dava. Se eu fosse abrir a boca, de lá sairiam tantos palavrões que eu, que nunca fui dada a eles, certamente me sentiria incomodada por uma semana. No fundo, a mãe do juíz não tem nada a ver com essa história.

Portanto, ao menos nesse mês, me junto aos pés que fazem os paralelepídos das avenidas arrepiarem a cada vitória, embora as comemore em casa e odeie aglomerados. Me deixem torcer em paz, abraçar meu pai a cada gol do Fabuloso, chamar o Kaká de lindinho, ainda que ele não esteja jogando lindeza alguma, sentir na pele a dor e a revolta pela falta no Elano, e observar me chegarem a boca os mais vis xingamentos, tanto aos jogadores do time adversário que maltrataram nossos heroizinhos em campo, tanto ao juíz. Ele roubou pros dois lados, eu sei, mas eu já disse que quem torce não deixa espaço para sensatez. Ah que vida boa, olerê, ah que vida boa ôlará, deixem-me cantar em paz ao sair mais cedo da escola por causa de uma partida de futebol, e querer marcar churrasco, fazer pipoca e secar a seleção argentina.

Alienação existe, mas não é só em épocas de Copa, essas coisas não tiram férias, é o tempo inteiro. Alô você, que repete o quanto for preciso esses discursos prontos que você provavelmente ouviu de alguém e achou bonito, vamos todo mundo nos lembrar deles quando a Copa acabar? Porque se o patriotismo vem de quatro em quatro anos, a constatação de que isso só nos faz esquecer os problemas, também. Se você pensa isso todo o tempo, e assim se manifesta, parabéns, estou com você. Se você de fato não gosta da época, sinto muito por você, porque realmente deve ser um saco suportar todo mundo torcendo, vuvuzelas na cabeça e toda essa coisa. Aproveite a tranquilidade das ruas, vá andar de bicicleta, ler um livro, ouvir teu cd favorito no volume máximo. Agora se você adota esse discurso só nessas épocas já que agora virou hype falar mal do que todo mundo gosta, só lamento. Poupe-nos desses chavões e se estiver muito difícil suportar, abrace também o Chico, pense baixinho, "vai passar".

sábado, 15 de maio de 2010

Quando a vida dói

"Meu caro amigo, eu até quis telefonar/mas a tarifa não tem graça/Eu ando aflito pra fazer você ficar/a par de tudo que se passa/Aqui na Terra 'tão jogando futebol/tem muito samba, muito choro e rock'n'roll/Uns dias chove, noutros dias bate sol/Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui tá preta/Muita careta pra engolir a transação/E a gente tá engolindo cada sapo no caminho/E a gente vai se amando que, também, sem um carinho/Ninguém segura esse rojão"

Fosse eu Chico Buarque escrevendo pra qualquer amigo distante sobre os últimos dias e não poderiam ser mais verdadeiras essas palavras acima. Como não sou, pego as dele emprestadas e conto pra vocês como andam as coisas do lado de cá. Queridos leitores, meu mar não está para peixe, muito menos pôneys (aquapôneys). Por aqui tem nadado só lontras, e as águas antes cristalinas nunca foram tão lamacentas. Eu precisava usar essa analogia, me desculpem. Uma zica sem precedentes caiu sobre mim e minha turma de amigos, e cada dia é uma nova coisa que acontece, e a gente se equilibra um no outro pra que ninguém caia e haja sempre ombro compreensivo para um eventual damage control.

E tem sido exatamente como o senhor Buarque tem descrito, tem dias que chove e é gente chorando para tudo quando é lado, mas tem os dias de sol que a gente cai gritando na piscina, joga água pra cima e se diverte com hidromassagem como se fosse coisa nunca experimentada antes. Literalmente. A gente passa dias pulando ao som de "Honey, Honey" ao mesmo tempo que escuta "The Winner Takes It All" e "Trocando Em Miúdos" sentindo uma verdade absurda em cada verso cantado. Essa semana em particular tá um frio danado e tem tempo que minha cabeça não dói tanto, mas a gente segura no abacaxi e pensa, e ri, e arranja tempo pra falar de todos os assuntos possíveis no meio de uma semana de entrega de trabalhos, porque se não fosse assim ninguém segura esse rojão. Ou os rojões.

Eu não teria segurado rojão algum e já estaria aqui, só no pó, certamente escrevendo coisas desanimadas, tristes e desconexas, pra ninguém entender nada. Mas tenho sido uma entusiasta da felicidade, porque a risada que se ri quando antes se queria chorar até secar é muito mais verdadeira e melhor. Tenho sim vontade de morder o pé da mesa vez ou outra, mas só ameaço enfiar a mão inteira dentro da boca durante a aula de Literatura e provocar algumas risadas, proferir o arrependimento perpétuo alheio e bora engolir mais sapo com muito samba e rock'n'roll.

A todos os meus amigos, obrigada aí por cada um de vocês que tem segurado essa barra comigo. Em especial, Matheus, Naná e Sori, porque sofrer junto é sofrer menos. Amo muito vocês.

(depois de um tempo esquecidos na gaveta, desenterrei meus óculos de Willy Wonka!)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Lendo sobre o leite derramado

Acho sacanagem isso que o Chico faz com a gente, de colocar um trecho dos seus livros na capa do próprio. Sacanagem porque não tem como não querer ler depois daquele - na falta de uma palavra melhor - teaser. Lendo a capa, tenho vontade até de ler Estorvo, o livro dele que todo mundo odeia. Depois de muito namorá-lo na livraria (muito mesmo) e me segurar pra não lê-lo ali mesmo, comprei "Leite Derramado". Não foi pra mim, foi presente de aniversário para minha avó. Nada mais justo, já que é por causa dela que eu gosto tanto desse cara. Dona Cristina, pessoa linda que é, perguntou se eu não queria fazer as honras da casa e ler o livro primeiro, ela estava no meio de um e não queria colocá-lo de lado.

Foi o segundo Chico que li, o primeiro foi "Budapeste". São bem diferentes, a começar pelo estilo de escrita, entretanto acho ambos muito dinâmicos. A maior parte de "Leite Derramado" eu li em uma tarde, sobraram umas 10 páginas que foram postergadas por conta das provas na escola e, confesso, porque eu tenho esse apego aos livros e não quero que eles acabem nunca.

O primeiro capítulo, iniciado com o trecho da capa que, de tanto ler na livraria eu quase decorei, é sensacional. Sensacional porque é uma amostra do que vai vir adiante. Começa falando de uma cena bonita, de um sonho, e de repente bagunça, confusão, tudo que era já não é. Chico constrói um sonho lindo e logo o desconstrói e deixa a gente cheio de dúvidas na cabeça, e morrendo de vontade de saber qual golpe virá adiante. E nunca vi alguém bagunçar tão lindo feito ele, viu.

Um senhor centenário, num leito de hospital precário, conta-nos a história de sua vida. E de sua família, seus antepassados, e seus descendentes. Sua história de amor com Matilde e seus aborrecimentos com o fato de que, no mundo que ele vive hoje, pouco importa se ele veio de uma família nobre, de nome e outrora de dinheiro. A decadência de uma família, que vai dos píncaros da glória até a decadência progressiva. Tudo isso pela visão de Eulálio d'Assumpção, um homem que ora mostra-se doce, muito doce, ora possessivo, preconceituoso, insolente, machista, presunçoso, desiludido, tudo ao mesmo tempo agora.

Ele conta sua história para várias pessoas, para quem estiver lá pra ouvir. Ora a enfermeira, ora a filha, sua esposa Matilde que um dia saiu de casa e nunca voltou, novamente as enfermeiras displicentes. Ele pode começar uma frase falando de seu tataravô e pular, no espaço de uma vírgula, para a história de seu neto, ou bisneto, ou alguém que ele não se lembra quem é. É um homem doente, que provavelmente sofre do mal de Alzheimer e também da idade, e que já se contou tantas mentiras para encobrir aquilo que ele não conseguia encarar que chega num ponto que nem ele mesmo sabe dizer o que é verdade, o que foi invenção.

Falando assim, pode parecer que "Leite Derramado" é um livro desconexo e totalmente confuso. Confuso ele é sim, as vezes, mas que logo se esclarece. Repetitivo vez ou outra, algumas histórias são contadas mais de três vezes, e a cada vez muda um detalhe, mas não tomem isso como falha, mas sim mais um dos elementos que fazem dele um livro tão bem escrito e bem pensado.

E juro que não tô dizendo isso por puxa-saquismo exagerado ao Chico Buarque, juro que não.

Pra finalizar, deixarei aqui um trecho de "O Velho e o Moço", música linda de Los Hermanos, que tem um trecho que me lembra bem a proposta do livro:

Deixo tudo assim
não me importo em ver
a idade em mim
ouço o que convém
eu gosto é do gasto

Sei do incômodo
e ela tem razão
quando vem dizer
que eu preciso sim
de todo o cuidado

E se eu fosse o primeiro
a voltar pra mudar
o que eu fiz
quem então agora eu seria