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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Como é que eu vou dizer que acabou?

Para ler ouvindo:


Não escrevo nada aqui há cinco meses e há uns quatro parei de sofrer por causa disso, mas já não tenho vontade de escrever aqui há muito mais tempo. Falar sobre o fim é difícil mesmo quando ele já aconteceu. Eu vou do início:

Há exatamente um ano eu anunciei que faria o BEDA, me propondo o desafio de postar todos os dias durante um mês inteiro. Eu estava trabalhando, fazendo TCC, com problemas em casa, tentando virar adulta e já não tinha mais idade pra isso, mas sem pensar muito eu fui lá e fiz - e foi incrível. Me diverti com o blog como há anos não acontecia e isso só evidenciou como blogar havia se tornado algo que eu fazia muito mais por hábito, muito mais por nem me lembrar direito como era a vida sem ter um blog, do que porque sim, porque é divertido, porque eu quero, porque é tão melhor que todo o resto.

O BEDA foi a festa do divórcio, aquela viagem para Paris que um casal resolve fazer pra tentar salvar o casamento de anos sabendo que na volta eles vão do aeroporto direito pro escritório do advogado, aliviados por já terem começado a fazer as malas. 

Veja bem, a viagem foi ótima: eles passearam de mãos dadas, se beijaram na chuva, transaram com vigor adolescente na segurança de seus corpos adultos que sabem exatamente o que querem da vida e do outro. Foram jantares longos, restaurantes caros, sobremesas finas e vinhos deliciosos. Foi uma extravagância merecida. Ele não pensou em trabalho, ela esqueceu o celular, eles se permitiram dormir até mais tarde e conversar a noite inteira. Paris nunca esteve tão linda, eles nunca se amaram tanto, e isso deixou claro que eles já não se amavam mais. 

Aquilo não era a vida real e um casamento não é feito de viagens a Paris, mas de arroz com carne moída naquela quarta-feira, promoção de vinho, cantoria no carro e o charme daquele velho pijama furado. Se é preciso de Paris para ter graça e amor, é porque acabou. Eles estavam se amando sobre os escombros. 

Eu vou sentir falta daqui como quem sente falta daquele namorado que era perfeito, até que não foi mais. Aquele que a gente lembra com carinho e saudade, mas não se arrepende de ter seguido em frente. Voltar pra ele seria voltar para a pessoa que você era antes, e ela já não existe mais. É por isso que acabou. Eu já não existo mais aqui, como não existo mais na pele daquela Anna Vitória adolescente de 13 anos que um dia resolveu que começaria um blog pra valer. Eu não teria chegado aqui sem ela, mas é hora de descobrir todas as outras pessoas que eu ainda posso ser. 

Por que a insistência em tecer analogias entre o blog e um namoro? Porque junto com três ou quatro amizades, o blog é o relacionamento sério mais longo que eu tive e, como qualquer relacionamento, ele me mudou pra sempre e deixou marcas indeléveis na minha vida. Foi aqui que me transformei em gente que escreve, algo que tenho certeza que vou ser pra sempre. Nos últimos meses minha vida mudou bastante e sinto que tudo que aconteceu é uma consequência direta e indireta de um dia ter começado esse blog. Se fui sozinha para uma cidade enorme e nunca me faltou companhia pra almoçar, jantar e cantar no karaokê, foi porque um dia depois da escola eu sentei na frente do computador decidida a escrever sobre alguma coisa, qualquer coisa, porque sim, porque era divertido, porque eu queria e porque aquilo era tão melhor que todo o resto. Quando me lembro, são anos dourados.

Hoje começa mais um BEDA e várias pessoas legais vão participar. Isso me deixou nostálgica, quase que com vontade de entrar nessa de novo, mesmo que no fundo eu tenha certeza absoluta de que esse barco partiu faz tempo. Não quero insistir nessa viagem e me afogar. É como cruzar com uma pessoa que usa a mesma loção pós-barba daquele antigo namorado e de repente sentir tanta saudade a ponto de pensar em ligar bêbada pedindo pra ele voltar. É sempre desconcertante rever o grande amor.

Então resolvi escrever esse post, porque se eu não falar do fim o blog vai continuar aqui existindo como um blog platônico e acho que a gente merece mais que isso. No fim de semana contei para alguns amigos que faria isso e todos ficaram meio tristes (o que me deixou feliz de um jeito bem vaidoso), mas não sei até que ponto é melhor um final nunca dito, eternamente no ar, do que um ponto final claro e honesto. Já não escrevo aqui faz tempo e todos sobrevivemos. Como diz um dos meus poemas favoritos (hoje estou cheia de referências): seu destino foi curto longo e bom, não o choreis. No que depender de mim ele vai ficar no ar pra sempre, até porque eu virei aqui sempre que quiser relembrar algo especial dos últimos OITO ANOS da minha vida.

Como falei, eu sou e sempre vou ser gente que escreve e continuo escrevendo. Se você gosta e se identifica com as coisas que eu faço, ou se eu sou o tipo de pessoa que você lê pra ficar com raiva, você pode me encontrar em diversos lugares:

> Semanalmente, eu mando um e-mail pessoal esquisito para os assinantes da minha newsletter. Para receber também (são anedotas, crônicas, textões, o que estou lendo, ouvindo, assistindo e alguma foto de animal de roupinha), basta assinar a No Recreio

Qual a diferença disso pra um blog pessoal?, você se pergunta. Nenhuma e toda, eu respondo. É como receber o blog direto na sua caixa de entrada, só que de um jeito mais íntimo, complicado e perfeitinho. Existe uma sociedade secreta bacana, querida e crescente nas caixas de entrada (e a Aline Valek se deu ao enorme trabalho de fazer uma listagem dessas newsletters) e é o lugar que me sinto à vontade para escrever no momento. A newsletter é aquela coisa legal que eu faço porque sim, porque eu quero, porque é divertido e porque é tão melhor que todo o resto - e isso basta. O amanhã a Deus pertence.

> Há três meses lancei com algumas amigas o Valkirias, um site onde a gente escreve sobre cultura pop, feminismo e problematiza o impossível. Você pode conhecer o site, curtir nossa página, seguir a gente no Twitter e assinar nossa newsletter. Se tiver alguma ideia dentro do nosso nicho de interesse, pode até escrever junto com a gente.

> Eu continuo escrevendo na Pólen, porque alguém precisa cultivar o lugar de colaboradora mais enrolada e irresponsável de uma publicação absolutamente adorável.

> Também criei uma conta no Medium, porque um dia eu escrevi um textão que não se encaixava em nenhum outro lugar onde eu costumo publicar textões. Mas Anna você odeia o Medium!!! Pois é, mas às vezes ele se faz necessário. Caso essas circunstâncias se repitam, escreverei lá novamente e vida que segue. A VIDA É COMO UMA CAIXA DE BOMBONS, VOCÊ NUNCA SABE O QUE VEM DENTRO!!!!!!!!

> Todos os dias, o dia inteiro, estou no Twitter escrevendo tudo quanto é lixo que se passa na minha cabeça. Ainda é meu lugar favorito na internet porque todo mundo ali sabe que a gente está nos escombros da rede mundial de computadores e precisamos manter essa locomotiva funcionando. 

> Eu também tenho Instagram, Skoob, Goodreads e abandonei o Snapchat, graças a Deus. Tenho também um portfólio online mais ou menos profissional, caso você, futuro empregador, esteja se perguntando. 

> Eu quero escrever um livro em algum momento. Manterei vocês informados.


Já que estamos falando de amor, deixo vocês com essa conclusão: em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Vejo vocês do outro lado e muito obrigada. Mesmo. Um milhão de vezes. Por tudo que esse blog já me fez ser, crescer e fazer, é realmente inagradecível. E como de praxe, me desculpem por ser ridícula.

Se essa é a lápide desse blog, essas são minhas mensagens finais (são várias, porque eu não sei escolher):

Sentimentos são os únicos fatos

Vamos todos morrer mesmo

O universo está se expandindo

Shakespeare e os gregos já disseram tudo antes

Vai Corinthians

Paz


sexta-feira, 25 de março de 2016

Diálogo?

Às vezes eu lembro de umas coisas aleatórias. Hoje lembrei que o nome do primeiro disco do NX Zero é Diálogo?, assim, com uma interrogação no final. Acho incrível como um sinal de pontuação faz toda a diferença. Eu provavelmente não lembraria se fosse simplesmente Diálogo. Diálogo? deixa as coisas mais dramáticas, como uma conversa que você pega no meio, um casal falando alto num restaurante em que todo mundo fala baixo: 

- Diálogo? Diálogo, Lidiane? - ele diz, logo antes de jogar o guardanapo de tecido no prato e se levantar de repente, fazendo a mesa toda balançar. As pessoas que antes já falavam muito baixo agora pararam completamente de falar para observar a cena. Marcos chegou rápido até a esquina enquanto Lídia cortava mais um pedaço do cordeiro, os olhos fixos no prato, tentando entender o que tinha dito de tão errado. Diálogo, ué. Ele sair assim só mostrava como ela estava correta. 

Eu poderia continuar pelo resto da noite. 

***

O negócio é que eu lembrei que o nome do primeiro disco do NX Zero é Diálogo?, o que me fez lembrar que ouvi NX Zero pela primeira vez num programa da MTV chamado Chapa Coco, com o Felipe Solari e um outro cara que eu sei o nome. A banda estava no estúdio porque era a estreia do primeiro clipe deles. O Di usava camiseta branca com um colar de sementes vermelhas e eu achei ele o maior gatinho, por isso fui assistir o clipe de novo logo que o programa acabou. Essa seria uma lembrança relevante se eu tivesse sido uma grande fã de NX Zero na minha adolescência - a gente sempre tem histórias sobre como foi ouvir bandas importantes pela primeira vez - mas não. Foi só uma coisa que eu lembrei.

Eu estava pensando sobre diálogos (Diálogo?) porque li uma resenha de Batman vs. Superman que dizia já no título: dava pra resolver conversando, e eu sabia que concordava com aquele texto mesmo antes de assistir ao filme. Saindo do cinema repeti a mesma coisa, dava pra resolver conversando, e hoje, quando me perguntaram como tinha sido o filme ontem, disse que um diálogo pouparia Batman e Superman de uma tremenda dor nas costas e Gotham (ou foi Metropolis?) de uma destruição quase completa. 

É uma premissa bem estúpida colocar os dois heróis mais importantes (de acordo com algumas pessoas) para lutar entre si se eles estão fundamentalmente do mesmo lado. Sei lá, os dois não querem o bem e a paz mundial? Na minha módica opinião a gente troca uma ideia antes de resolver as diferenças no braço, principalmente quando esse braço significa quebrar uma cidade inteira. Então eles estão lá quebrando a porra toda e no fim é tudo por causa de um mal entendido. Que poderia ter sido evitado se os bonitões CONVERSASSEM. 

- Diálogo? - pergunta Bruce Wayne sem disfarçar o escárnio enquanto sai do restaurante às pressas com uma lança de kriptonita das mãos - Eu não tenho tempo pra diálogos. - disse, agora com uma voz mecânica e grave que não era mais a sua, mas a de Batman.

***

Eu queria que as pessoas conversassem. Veja bem, conversar é diferente de falar, argumentar, discutir. Conversar, sabe? Diálogo. Uma pessoa fala. A outra escuta. Pondera. Depois responde. É uma troca.

Desde que estourou todo esse rebosteio pelo país tem me incomodado muito a gritaria generalizada, com as pessoas berrando na cara umas das outras aquilo que acreditam e deixam de acreditar, incapazes de ouvir o que o outro lado diz. Acredito que a polarização é uma configuração estúpida para qualquer sociedade, a começar pelo fato de ela não ser real, já que a vida não existe no preto ou no branco, mas num caminho possível entre os dois. Enquanto a gente só ouve quem diz a mesma coisa que a gente e repete só aquilo que a gente já concorda, deixando de ouvir quem está do outro lado, demonizando qualquer posicionamento que fuja à nossa cartilha perfeita de como as coisas devem ser e o que estiver diferente merece morrer, sério, a gente não vai pra lugar algum. 

Imagine aquele monstro do filme, oportunamente batizado de Apocalypse, e é mais ou menos assim que vamos continuar vivendo. 

Entrando no Facebook

- Diálogo? - pergunta Apocalypse, de acordo com o tradutor residente - AJKDHKNNKJHKJFHEIBSKSNKKBGWKGBSODJSINRGKBKBCDHDJJSJSKSDNNSHUAAAAAA [destroys everything in kryptonian monster language]

***

Esse mês eu li Modern Romance, livro sobre relacionamentos na era digital escrito pelo Aziz Ansari (!). Logo no início ele fala sobre a situação ridícula que a modernidade (ou a pós-modernidade, caso você prefira assim) nos coloca que é a de ficar calculando quanto tempo devemos esperar pra responder a mensagem daquela pessoa que a gente gosta. Porque, sabe como é, não dá pra responder muito rápido senão vai parecer que a gente está ali com o celular na mão esperando aquele oi, ainda que a gente esteja. Ninguém quer se mostrar muito disponível e nem ser aquela pessoa que gosta demais. Então a gente espera dez minutos. Vinte. Sete a mais do que a outro esperou pra responder, porque não sou eu que vou sair perdendo caso alguém esteja acompanhando o placar.

Enquanto isso tem dois bobocas de olho no celular e no relógio, perdendo o maior tempo e tendo crises de ansiedade, enquanto tudo seria resolvido com um diálogo. 

- Oi, gostei de você.

- Eu também.

- VAMO SE BEIJAR?

- Bora

A Taylor Swift (lógico) já escreveu mais ou menos sobre essa sensação em The Story Of Us: Now I'm standing alone in a crowded room and we're not speaking / And I'm dying to know is it killing you like it's killing me? 

A parte mais idiota disso tudo é que 1) o maldito do jogo funciona e 2) mesmo sabendo que é estúpido a gente joga junto. Recentemente me vi no meio de uma dessas histórias de mensagens e silêncios calculados, morrendo um pouco a cada vez que pegava meu celular e não via ali nenhuma notificação, pensando que tudo isso seria evitado se eu tivesse um pouquinho mais de coragem de dialogar. Eu tenho esse monte de filosofias, mas infelizmente ainda não sou adepta de todas elas. Por causa desse monte de bobeiras uma história nunca começou, e nem estou dizendo que seria uma boa história, mas seria melhor que esse disco furado na faixa introdutória. 

Algumas histórias não aconteceriam se houvesse diálogo, vide Batman vs. Superman, mas outras tantas se perdem quando a gente escolhe não dizer nada. Já era para eu ter superado esse caso, eu já tinha superado esse caso, mas às vezes eu lembro de umas coisas aleatórias, como lembrei do Diálogo?, disco do NX Zero, que me lembrou de Batman vs. Superman, e da Conjuntura Política Atual, mas também me lembrou de Fresno, e de como aquele moço gostava de Fresno na adolescência, o suficiente para se lembrar, assim como eu, de como tinha ouvido a banda pela primeira vez, e a gente estava no mesmo show, e tudo isso me fez pensar nos nossos diálogos que nunca aconteceram, jamais vão acontecer, e tudo isso me trouxe até aqui. 

- Diálogo? - ela disse, descrente, como se falasse para si mesma ou para ninguém. 


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Long live


Mesmo com as pernas bambas e a cabeça zonza de tanto dançar, reunimos todas as forças possíveis para ter direito ao pacote completo daquela aventura, que incluía, sim senhores, o sol nascendo de frente pro mar.
Dos melhores dias de 2015.

Começou como uma brincadeira esse negócio de adolescência tardia, lá em fevereiro, no dia do meu aniversário de 21 anos, quando eu matei aula e fui furar um buraco no meu nariz. O piercing, claro, era resultado da angústia existencial pré-aniversário, quando bateu a consciência de que eu faria 21 anos de vida, e depois 22, 23, 30, 50, 60 e, antes que me desse conta, eu estaria morta - e o que eu tinha feito? Logo, fiz um piercing no nariz e dormi mais tranquila. 

Depois dele veio a mecha cor-de-rosa no cabelo, que se tornaram mechas (no plural) cor-de-rosas no cabelo, show da Fresno, minissaias, unhas lascadas, respostas atravessadas, impaciência, música pop, rock depressivo, tédio, mau humor, melancolia, e já era dezembro quando disse em voz alta para a senhora minha mãe que gostaria, por favor, de ficar sozinha no meu quarto vendo vídeos do One Direction. O que aconteceu?

Tenho 2005 como referência de pior ano da minha vida. Nele aconteceram várias coisas ruins que tiveram como resultado o fim da vida como eu conhecia até então, naqueles meus onze anos de indústria vital. Eu não tive essa consciência na hora, mas hoje vejo que foi o ano que descobri que não era mais criança. Ou que não podia mais ser criança. Ou que eu não me permitiria mais ser criança. Ou um pouco de tudo isso. O fato é que eu cresci, não era mais criança, e as pessoas ao meu redor diziam o tempo inteiro que eu deveria ser forte. E eu fui. 

Ninguém acredita que eu sou supersticiosa, na verdade eu acho graça da maioria das superstições, mas tenho meu quinhão de superstições nas quais acredito (sol em peixes, lua em virgem). Por causa delas, logo no ano novo eu tive a sensação de que 2015 seria difícil. Não necessariamente ruim, mas difícil. Porque já tinham se passado dez anos desde 2005 e... é, só por isso mesmo. Não faz sentido, eu sei, mas na minha cabeça existe lógica nisso e foi por isso que antes mesmo de 2014 acabar eu pedi força. Força e saúde, está até registrado aqui pra vocês não acharem que eu invento minhas intuições. Que graça. 

Conversando sobre esse ano com a Analu, concluímos duas coisas. A primeira foi que 2015 foi um ano adulto. Eu comecei a trabalhar, por exemplo. Não que já não tivesse trabalhado antes, mas foi minha estreia num ambiente de escritório, corporativo, ao melhor estilo The Office: folhas de ponto, engolir sapo de superiores e fontes, fofocas na copa, nunca mais sair de short e chinelas em dia de semana. Também lidei com a morte de perto, mais perto do que gostaria, e vi que ela é feia e triste. Não existe romantismo nenhum em morrer. Blue Lily, Lily Blue traz uma citação perfeita que diz que até determinado momento Blue Sargent não acreditava na morte, porque achava que ela vinha sempre acompanhada de certa cerimônia, não era uma coisa que simplesmente acontecia. Mas ela acontece, e o momento em que descobrimos isso divide pra sempre a nossa existência: a pessoa que não acreditava e a pessoa que acredita. Em 2015, virei uma pessoa que acredita. 

No meio desse turbilhão, escrevi um livro e uma monografia, dois trabalhos que são tudo de mim, quem eu era e quem eu me tornei em quatro anos de faculdade. Tenho o maior orgulho deles e deixo a modéstia de lado quando conto pra todo mundo como eles foram entusiasticamente elogiados e avaliados, porque foi difícil, custoso, porque eu dei tudo de mim e fico feliz que isso tenha sido reconhecido no final. Em 2015 me formei na faculdade, aluguei apartamentos, casei uma grande amiga (a primeira!), tive encontros com desconhecidos, desbravei Rio e São Paulo sozinha, vivi minhas primeiras entrevistas de emprego, ouvi os primeiros nãos da minha carreira, e pela primeira vez tive a chance de cuidar da minha mãe, que pela primeira vez precisou de verdade que eu cuidasse dela. 

É por isso que escrevi que tinha virado adulta. Ainda moro com meus pais, vivo de um estágio de meio período, não tirei carteira de motorista e Deus me livre dos entregadores de geladeira, mas é como se uma chave interna tivesse se virado aqui dentro. Como em 2005, em 2015 aconteceram coisas que transformaram minha vida em algo totalmente diferente do que eu conhecia até então,  e eu não faço a menor ideia do que vem pela frente. Não tem como passar por tudo isso sendo a mesma pessoa, e esse ano vivi, descobri e senti tantas coisas que é hora de deixar a Anna Vitória adolescente, aquela que nasceu aos onze anos, pra trás - ou melhor, é hora de reconhecer que esses dez anos e tudo que aconteceu nele nos fizeram outra, e é hora de seguir em frente bancando essa nova pessoa.

(Estou fazendo uma força enorme para não falar em crisálidas e borboletas, por favor valorizem isso)

Mas e aquela história de adolescência tardia?, se pergunta o caro leitor atordoado. Pois é, essa foi a segunda coisa que eu e Analu concluímos: 2015 foi um ano muito adulto, mas também foi um ano muito Speak Now. Sim, estou falando de Taylor Swift, mais especificamente seu terceiro álbum, que saiu quando nossa melhor amiga famosa tinha 21 anos (um minuto para absorvermos esse intenso simbolismo). De acordo com as estatísticas foi o disco que mais ouvi em 2015 e foi de propósito que deixei ele de fora da retrospectiva musical do ano. Porque eu não consigo falar sobre o Speak Now sem falar sobre esse ano, e como vocês podem ver essa é uma reflexão que demanda fôlego. Respiremos fundo, então. 

Para mim, o mais importante que pode ser dito a respeito do Speak Now é que ele é o disco da Taylor Swift que vem mais carregado de sentimentos. Eu sei, todo o seu trabalho tem como base os sentimentos, mas esse é mais forte, intenso, imoderado, com pouco espaço para sutilezas ou meias palavras. Quando ela fala de amor, é um amor urgente, que joga tudo pro alto e se beija na calçada, idealiza sem limitespede pelo amor de Deus que seja o único. Quando ela fala de tristeza e coração partido, é uma tristeza resignada, de quem aceita que perdeu, de quem se conforma com o desamparo de um dia ser amada e no outro não mais. Quando ela fala de raiva, ela cita nomes, tripudia, sua vingança brilha como fogos de artifício, chegando ao ponto de ser maldosa. Quando ela fala de realização, ela fala em coroas, glórias, sobre vencer dragões e dominar o mundo

E eu ouvi essas músicas sem parar, me identificando com elas o tempo inteiro.


Foi preciso muita terapia (e aí eu dou créditos a mim mesma e às longas conversas com minhas amigas, a única forma de análise a qual tive contato nesse tempo) para que eu entendesse que lá atrás, em 2005, eu acreditava que crescer e ser forte era parar de sentir. Ou sentir menos. Ou não deixar ninguém ver que eu estava sentindo as coisas, nem eu mesma. Só nos últimos anos que eu percebi a grande besteira que isso era, a começar pelo fato de que hoje vejo que a força vem justamente da vulnerabilidade, de se permitir sentir tudo o que vier. Não é tarefa fácil e ao primeiro sinal de dor nossa reação é querer se fechar numa bolinha e bloquear todas aquelas coisas que estão te transformando numa massaroca disforme de SENTIMENTOS, SENSAÇÕES, CONFLITOS E DÚVIDAS, mas como já disse Jon Foreman, is when you're breaking down, with your insides coming out, that's when you find out what your heart is made of. 

Parece muito bonito, e às vezes é mesmo, mas talvez seja a hora de buscar terapia de verdade, porque eu também tenho limites e testá-los sozinha é exaustivo.

Minha adolescência foi bem normal e eu só fui entender agora aquilo que dizem sobre essa fase da vida em que tudo é descoberta, entramos em conflito com o mundo, sentimos demais, não sabemos direito quem somos, e nossa opinião sobre as coisas e as pessoas mudam. Acho que eu me achava especial demais para passar por um rito tão mundano (ou só era bobinha mesmo e precisei de uns cinco anos a mais para descobrir isso tudo), mas o fato é que tudo isso aconteceu agora. 2015 foi uma montanha-russa emocional e seria injustiça dizer que foi de todo ruim. A metáfora perfeita vem de Harry Potter: em alguns dias, era como se um dementador tivesse me atacado - me sentia drenada de toda a minha energia e era como se eu nunca mais pudesse ser feliz -, em outros me sentia tão absoluta e plenamente feliz que sabia que se em algum momento tivesse que conjurar um patrono, era àquelas memórias e àqueles dias que eu iria recorrer. Que coisa. Que ano.

Como escreveu a Tais em sua linda retrospectiva, o grande feito de 2015 foi me quebrar toda sozinha - para deixar eu me refazer inteira. 

Depois de tudo isso, como escreveu dessa vez a Anne T. Donahue, fica a sensação de que todos nós merecemos 2016 e o que quer que seja que ele tenha para oferecer. Empreguinhos? Romances? Passagens aéreas compradas em dez vezes no cartão? Não gosto de fazer desejos específicos (superstições, superstições), e estando nessa situação de realmente não fazer a menor ideia do que vai ser da minha vida, eu gostaria que 2016 me apresentasse um caminho, já que passei um ano inteiro reconstruindo minhas pernas. 

À nós, um ano de noites mais tranquilas. Tim tim!


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Still sane

Sophie Moates Design
A Tavi Gevinson sempre escreve sobre esse lugar em Chinatown onde você pode tirar uma foto da sua aura. É algo que ela faz de tempos em tempos, e o aspecto da aura sempre muda: azul arroxeado quando ela está introspectiva, vermelho vibrante logo após um show da Taylor Swift. Se eu tirasse uma foto da minha aura por dia, em todos esses dias em que estive sumida, distante, mais pra lá do que pra cá, teria uma tabela Pantone inteira de cores, emoções e estados de espírito para guardar. Foram tempos estranhos. 

Eu sumi, né? Sei que já escrevi aqui antes que odeio quando dizem que eu sumi, porque, a não ser que eu tenha me enfiado em uma caverna (ou num quarto de hotel), o que ainda não aconteceu, eu não fui a lugar nenhum, os outros é que não se deram ao trabalho de me procurar. Mas acontece que dessa vez eu sumi de verdade. Não para uma caverna ou para o quarto de hotel que eu tanto queria, mas de mim, ou pelo menos de quem eu era antes de 2015, ou antes de abril, ou antes de outubro. Ou talvez eu tenha sumido pra todo o resto porque estava afogada em mim mesma. Dia desses eu cheguei a desenhar um barquinho na mesa, pra ver se ele me ajudava a recuperar o fôlego. 

As pessoas pensam que eu tô brincando quando digo que estou voltando a ser uma pessoa de verdade, mas é isso mesmo que tá acontecendo. Não foi só pela faculdade ou o TCC que eu finalmente terminei, entreguei, defendi e fui aprovada muito bem obrigada (caso você esteja se perguntando), mas por tudo, todas as coisas, boas e ruins, maravilhosas e péssimas, porque a vida pesou no chicote e 2015 foi um ano de extremos. Escrevi aqui também que comigo nunca é uma coisa de cada vez, mas sim ao mesmo tempo, e é verdade - porque tudo se acalmou ao mesmo tempo, e agora eu posso respirar. It's hard to dance with the devil on your back.

Nesse suspiro já coube uma semana de sono quase ininterrupto, que eu abandonava em intervalos regulares quando era extremamente necessário que eu estivesse acordada: para comer e trabalhar, por exemplo, e esses outros pequenos detalhes da vida. Coube um novo corte de cabelo e quase seis horas de áudios trocados com minha melhor amiga, conversando, cantando e chorando, porque ficamos meses sem nos falar de verdade. Coube um livro, o sumiço milagroso da enxaqueca, minhas unhas voltando a crescer, e o fim da lista de todas as provas e trabalhos que me separavam do fim definitivo da faculdade. Mais alguns papéis (sempre tem alguns papéis) e serei jornalista, e durante todo esse ano quando conversava com as pessoas sobre minha inevitável formatura eu sempre dizia: não sei como isso aconteceu. Inclusive cheguei a escrever isso agora, mas apaguei. Mais alguns papéis e serei jornalista, não sei como isso aconteceu. 

Mentira, sei sim. 

Porque segunda, no dia da minha defesa, eu soube. Mal dormi à noite, não comi nada o dia inteiro, gaguejei e esqueci tudo quando fui ensaiar a apresentação junto com a minha orientadora, mas quando chegou a hora, passou. Não sei se foram as orações, a energia boa de quem não podia estar ali mas estava, ou minha própria cara e coragem, mas cheguei lá na frente serena e confiante, ao melhor estilo bring on all the pretenders I'm not afraid. Porque eu não estava com medo mesmo, falei por meia hora sem perceber e não vi ninguém, só meus slides ricamente ilustrados com gifs animados e fotos da Beyoncé (sim). A banca foi linda e especial, um momento em que eu me senti plenamente feliz e realizada, que terminou de botar sentido nesses últimos quatro anos. Eu sei exatamente como isso aconteceu porque estive ali o tempo inteiro e vivi tudo que foi possível. Agora acabou.

Suspiro.

Esse post não é uma retrospectiva, nem uma despedida. Ontem me perguntaram o que alguém encontraria no meu blog e eu disse que encontraria o registro mais completo da minha vida nos últimos oito anos. Eu não mantenho diários, sempre esqueço de revelar as fotos, não debutei e nem vesti beca, mas há oito anos, completos nesse início de dezembro, escrevo aqui sobre todas as coisas importantes ou não que acontecem comigo, e mesmo o que fica de fora fica registrado, porque é impossível esquecer daquilo que é sórdido, difícil, triste, importante, grande, lindo, incrível demais pra ser escrito. Esse post sou eu colando as fotos das minhas auras nas paredes: azuis (crown and anchor me or let me sail away), vermelhas (mean reds, burning red), cinzas (so devoid of color I don't know what it means), douradas (falling but not alone), lilases (and suddently I was a lilac sky and you decided that purple just wasn't for you) - pequenas descrições até o dia que eu for a Nova York conhecer Chinatown só para ter guardada uma polaroid com a minha aura naquele momento específico.

Click. Nesse aqui eu acho que virei adulta. Não que eu saiba o que isso significa, muito menos o que eu estou fazendo, ou qual é a cor para algo assim, mas é um alívio enorme sair da negação. Só isso é assunto pra outro post. Porque eu voltei e o blog fez oito anos. Parabéns para nós e obrigada por aguentarem até aqui. O resto é história.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Monstros em banho-maria

Eu disse que não ia assistir Masterchef Junior. Tenho uma relação complicada com crianças, principalmente as crianças prodígio. A relação é mais ou menos assim: eu odeio todas. Essas crianças fofinhas e expressivas que fazem novela da Globo e dão entrevistas engraçadinhas no Faustão, sabe? Elas me lembram de questões muito mal resolvidas da minha própria infância, cheia de colegas de sala expressivos, barulhentos e nem tão fofinhos assim.

Mas é claro que no segundo episódio eu já estava apegadíssima. São crianças que acertam o ponto do creme inglês de primeira, crianças que gostam de coentro, ameixa e mel em pratos salgados. É claro que são prodígios, mas de outro tipo. É preciso ser um tipo bem peculiar de criança para se dedicar a aprender a fazer reduções em vez de brincar de polícia e ladrão na rua. Nada contra, eu lia livros de receita pra passar o tempo.

E a questão é justamente essa: Masterchef Junior me hipnotiza pela identificação. Sou a insegurança do Lorenzo diante das intromissões do pai, sou as coisas inapropriadas e bizarras que a Sofia diz em voz alta, querendo mandar em todo mundo. Sou o Matheus esquecendo os ovos e sou a Ivana inteira, ansiosa, insegura, overachiever, chorando por não conseguir achar a ponta do plástico filme.

Quando me dei conta disso comecei a pensar se isso significava que em todos esses anos não consegui crescer nadinha, mas aí me lembrei do Neil Gaiman. Em O Oceano No Fim do Caminho ele escreve que a grande verdade é que não existe um só adulto no mundo e eu acho que é verdade. A gente cresce e aprende a disfarçar e esconder tudo isso. O resultado são os monstros que acompanhamos avidamente no Masterchef dos adultos.

Nesse mesmo livro o Neil Gaiman escreveu que os monstros são assustados, por isso são monstros.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A minha é Corvinal - foi mal?

Eu cresci ouvindo que tinha que ser inteligente. Não era algo opressivo (nem sempre), mas estava ali. Meus pais me criaram pra ser inteligente. Não um gênio ou um prodígio, mas simplesmente boa naquilo que eu fizesse - fosse caligrafia, o A B C, tabela de multiplicação, história, português, vestibular e qualquer profissão que eu escolhesse. A escolha por uma faculdade de jornalismo não emocionou muito meus pais que sonhavam com uma médica ou uma diplomata, mas eles não deixaram de me apoiar por isso, só pediram que então eu fosse a melhor jornalista que eu pudesse ser.


No começo era fácil, e até a oitava série consegui tirar de letra isso de ser boa nas coisas. Como a Analu escreveu no blog dela esses dias, eu fui uma criança e tanto, e logo aprendi que "se eu tinha um charme nessa vida, era esse. Eu era inteligente. Eu conseguia fazer as coisas. Eu era aprovada em tudo o que eu me predispunha a fazer." Até que (sempre tem um até que) a coisa começou a desandar. Fui pra uma outra escola no ensino médio, uma escola grande, e lembro até hoje da primeira devolutiva das provas que fizemos. Não lembro detalhes, mas foi mais ou menos assim: se antes minha menor nota era 8, dessa vez a maior tinha sido um 7,5. Tirei o meu primeiro vermelho. Chorei de soluçar na frente de todo mundo e a professora parou a aula pra ir conversar comigo, porque humilhação pouca é bobagem. Eu tinha falhado. Como ia explicar aquilo pros meus pais?

À noite, meu pai me levou pra comer um sanduíche e conversar. Ele disse que aquilo não era o fim do mundo, mas não passou a mão na minha cabeça: disse que era normal estranhar no começo e que agora em diante eu tinha que me esforçar um pouco mais e logo pegaria o ritmo. O que eu senti foi como se o meu melhor, que antes tinha garantido que eu fosse, se não a primeira, pelo menos a segunda ou a terceira da turma, agora custava a me colocar na média. 


É verdade que eventualmente me acostumei ao ritmo da escola e minhas notas melhoraram bastante, mas nunca mais fui a melhor. Me garantia nas humanas, passava sempre raspando em física e matemática, estudava química e biologia feito uma maluca. Quando o boletim chegava no fim do bimestre, sempre acontecia um troço meio chato que era eu ter que explicar por que continuava tirando 6 em algumas matérias sendo que minha única obrigação na vida era estudar. Se era difícil pros meus pais entenderem que tinham coisas que a menininha inteligente deles não dava conta, que tinha um limite ali, se eles lutavam pra aceitar essa quebra de expectativa,  imagine como era pra mim. No começo eu sofria, chorava, adoecia, e ia atrás de plantões e professores particulares, mas depois aprendi a não ligar tanto assim. Fui criando uma rejeição a esse ideal de perfeição, ao estereótipo da garota inteligente melhor em tudo, coloquei a culpa no sistema - eu era realmente muito boa em culpar o sistema.

Escrevi um comentário num post da Sharon sobre cinema dizendo que eu adorava cinema e música quando era mais nova, e sonhava em ser crítica quando crescesse. Só que em determinado momento percebi que eu sabia demais e me divertia menos com as coisas, então comecei a investir meu tempo consumindo aquilo que me divertia e com o que eu me identificava. Não que eu não me divertisse com o cânone, muito menos que as coisas divertidas sejam ruins, mas cês entendem a diferença simbólica de Jurassic Park e um filme do Godard, né?

Era uma vida confortável essa de abraçar as imperfeições e a diversão depois de tantos anos me preocupando em ser e melhor em tudo - e depois sofrendo por nem sempre (quase nunca) chegar lá. Era um alívio. Eu estava muito feliz com essa identidade que construíra pra mim mesma, via isso como um ato de amor próprio e, ao mesmo tempo, rebeldia. De garota chata fã de Radiohead que passava dois dias chorando por conta de uma nota 5, eu agora lia livros adolescentes sem pedir desculpas, e dava risada das minhas notas ruins (gargalhei quando tirei meu primeiro zero? gargalhei) dançando Shakira. A vida era boa.

Até o dia que eu fiz o teste do chapéu seletor no Pottermore e descobri que era uma corvinal.


Querido leitor, se você não se importa com Harry Potter e acha isso demodê por favor dê meia volta e saia já daqui , fique sabendo que uma coisa importante sobre mim é o fato de que eu levo cultura pop a sério e acho que esse tipo de coisa diz muito sobre quem somos. Antes de fazer o teste, eu queria muito ser da Lufa-Lufa. Minha nova postura diante do mundo era totalmente lufana, eu queria fazer parte dessa galera gente boa, parceira, de coração bom e que mora perto da cozinha. 

Corvinais são famosos por sua inteligência, mas dizem as más línguas que são arrogantes. Eles querem ser os melhores em tudo e tiram seu valor disso, representando basicamente tudo que eu lutava com tanta força pra tirar de mim. Normalmente acontece o movimento contrário: as pessoas querem ser corvinais (ou grifinórios), se revoltam quando se descobrem lufanos, e depois abraçam a personalidade despretensiosa e gentil dos texugos. Tudo que eu queria era ser relax e gente fina, mas sou essa pessoa pilhada e megalomaníaca, que quer tudo certinho e pira num livrão. Eu não queria ser essa pessoa, me devolve minha sala comunal perto da cozinha porque tenho certeza que lá as pessoas estão ouvindo Taylor Swift fazendo uma ciranda e aqui nessa torre estão me obrigando a fazer um teste de aptidão, SOCORRO!!11 

Minha revolta durou o tempo necessário para ler a carta de boas vindas, porque de repente eu estava chorando e me sentindo muito abraçada (eu me importo com essas coisas mesmo, e você que é feio?). Com aquela mensagem, descobri que corvinais tem essa coisa de ser espertos, mas o mais importante é que eles são únicos e até meio excêntricos, e celebram a individualidade de forma criativa ou investindo em novas descobertas. Corvinal é a casa de pensar fora da caixa, inventar moda e questionar o status quo. De gente que às vezes pensa demais, mas que não tem nada de errado com isso. Ler aquela carta naquele dia me mostrou que aquilo que fazia com que eu me sentisse chata e diferente poderia, sim, ser o meu charme. 

spirit animal
A obrigação de ser infalível já me machucou muito, e a autocobrança é algo com que eu tenho que lutar todos os dias, o tempo inteiro. Preciso constantemente me lembrar de que tudo bem errar e não ser sempre a melhor. Preciso fazer força pra ser leve e correr atrás de uma folia na cozinha. Mas existe, e sempre existiu, muito de mim nessa personalidade cabeçuda. Se eu não tirasse uma realização muito genuína nos estudos, acho que as expectativas dos meus pais jamais teriam grudado com tanta força. Elas ficaram porque eram minhas também, desde sempre e eu tenho redescoberto elas agora que voltei a estudar.

Não que eu tivesse parado, mas só agora fazendo minha monografia que voltei a ter uma rotina pesada de estudos. Porque eu escolhi um tema tão difícil que nem eu sabia explicá-lo (sério, eu tive que pedir ajuda pra um professor explicar pra mim mesma o que eu queria com meu projeto) (eu ainda não sei explicar direito, por isso não vou fazer isso agora), e vou usar o método mais complexo por aí. Existiam mais o menos uns 6485 jeitos de fazer isso de forma mais fácil, só que eu escolhi a difícil. Não por ser difícil, mas porque senti aquela coceirinha de me desafiar a fazer algo grande, que me assustasse na mesma medida que me fascinasse. 

Li esses dias na newsletter da Isa Sinay (recomendo muito) um troço que me identifiquei muito profundamente: 

"Eu, embora ame muitas coisas na vida e não ame meu trabalho todos os dias, sou o tipo de pessoa que sim, se realiza no que faz profissionalmente. Mas mesmo assim foi algo muito libertador quando eu percebi que essa era eu, mas não todo mundo. Porque se realizar em algo é muito mais sobre se encontrar naquilo, sobre aquilo aplacar uma ambição e uma vontade em você. A minha vontade se satisfaz nas pessoas que eu ensino e na construção de raciocínios longos e complexos sobre coisas que a princípio não interessam a ninguém. Eu me sinto feliz nas horas infinitas que eu tenho passado lendo sobre um assunto tão pouco agradável quanto o Holocausto. Eu até quase me sinto feliz nas horas que tenho passado estudando sobre história do hebraico. No entanto, mesmo no tédio, mesmo no "mddc, não quero saber sobre mudanças sintáticas no período pós-exílio da Babilônia" eu estou satisfeita com as minhas escolhas, algo meu está em casa ali."

Não estou estudando nada tão complexo como o Holocausto, muito menos a história do hebraico, mas são coisas que me fazem vibrar por dentro, é uma felicidade quase idiota, porque ainda estou na fase de me ferrar muito e acho que vai ser assim até no final. Mas está ali, gritando pra mim. Tão alto que às vezes fico com medo de me transformar numa acadêmica delusional que define a si mesma e aos outros de acordo com o lattes ou o quanto essa pessoa sabe de Foucault. Já gastei muito caractere e saliva falando contra o modelo acadêmico das coisas, pregando que é muito mais ser divertido e produzir identificação do que ser formalmente bom. Odeio gente arrogante e pretensiosa, metida a inteligente, e odiaria me transformar em alguém assim, mas ao mesmo tempo tô aqui lendo Hegel e achando o máximo e orgulhosa por estar conseguindo produzir algum raciocínio em cima disso.

Tenho problemas?

Provavelmente esse textão não fez o menor sentido pra vocês, mas hoje li esse texto incrível na Pólen sobre aceitação lufana (quão ótimo é escrever para uma revista que trata com seriedade esse tipo de tema?) e ele me fez pensar sobre minha aceitação corvinal, e sobre como nas últimas semanas tenho feito as pazes com a Anna Vitória CDF que eu fui um dia - ou nunca deixei de ser, só estava ali batendo papo na cozinha com os elfos.

Foi essencial pra minha sanidade jogar pra cima a obrigação de ser boa em tudo, que fazia com que meu entusiasmo pelas coisas fosse oprimido por esse imperativo de ser perfeita. Igualmente necessário tem sido redescobrir aquela chama da empolgação, e escrevo isso hoje pra não me esquecer dela: não me importo se for a mais inteligente, tirar a nota mais alta ou fazer o melhor trabalho, contanto que ao final dele eu tenha feito o melhor no que seja melhor pra mim. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Querida Anna...

...sou eu. De novo. No passado falei com você direto do futuro, e agora, no futuro, estou falando com você direto do passado. Desculpa a confusão. Você ainda tem paciência pra essas coisas?


Escrever pra Anna de 10 anos foi fácil. Difícil, mas fácil - sabe assim? Foi difícil porque eu precisei reviver várias coisas, vários monstros, mas fácil porque eu estava olhando pra eles de um outro lugar. Um lugar melhor. Então tudo bem. Passou, sobrevivi. Sobrevivemos. Mas, agora, não faço a menor ideia do que vou encontrar na Anna de 31 anos e tenho medo disso. Tenho medo de você ler essa carta e querer voltar pra trás, e não seguir em frente. Tenho medo de quem eu sou hoje sentir vergonha de você. Ou pena. 

Tenho medo de muitas coisas.

Não sei se você lembra, mas, no início desse ano, eu tentei manter um diário. Você provavelmente não se lembra exatamente dessa tentativa, que foi apenas uma dentre tantas, mas ela durou mais ou menos duas semanas. Em minha defesa, nunca fomos tão longe (ou fomos? é estranho pensar que você sabe de algumas coisas que eu ignoro). Mas nesse meio tempo nosso avô ficou doente. Nossos avós ficaram doentes. E aí eu não tive coragem de escrever mais nada, porque fiquei paralisada de pavor de imaginar que eu poderia ter que voltar pr'aquele diário um dia com notícias piores do que as que já tinha. Não conseguia falar sobre meu susto e meus medos porque tinha muito medo de que eles se tornassem realidade, e então um dia, no futuro, eu fosse obrigada a reler aquelas coisas, o antes, e lembrar como foi quebrar a cara no meio do caminho. 

Depois de alguns dias fui lá escrevi: coragem, querido coração. Ponto.

Os monstros eram apenas árvores e agora está tudo bem, mas quando penso em escrever pra você sinto o mesmo medo. É por isso que nunca tive coragem de usar um daqueles serviços de agendar um e-mail pro futuro, porque tenho muito medo do que o futuro vai encontrar e do que as minhas palavras do passado podem provocar em mim daqui 10 anos. (I love you but I'm lost)


Porque eu tô feliz. Eu tô feliz de verdade. A vida não é perfeita, as coisas sempre podem melhorar, e em alguns dias eu só queria fugir. Queria, mas não queria - sabe assim? Quando paro pra pensar em todas as escolhas e caminhos que tomei pra chegar até aqui - e todos os desvios que poderiam ter mudado a minha vida - vejo que não queria que tivesse sido de outro jeito. 

E eu tenho sonhos. Muitos. "Sonho tão grande que tenho vergonha de falar", li isso numa entrevista da Bruna Marquezine, lembra dela? Eu sei, eu sei, a Salete insuportável. Mas não é verdade? Puxa aí na memória: meus - nossos - sonhos são enormes. Eles me deixam com vergonha, e com medo também. Lógico. Quantas vezes eu já disse medo nessa carta? Parece até um pouco contraditório, afinal na carta que escrevi pra Anna Vitória do passado disse várias vezes que era pra ela não ser tão medrosa. Mas cá estou eu, empilhando medos no seu colo. A diferença é que a Anna do passado tinha medos infundados, absurdos, aleatórios, e os meus - os nossos - existem por um motivo. 

À essa altura, já aprendi que as coisas dão errado. Já vi que não é sempre que no final fica tudo bem e que nem sempre depende da só da gente. Meus 21 anos me ensinaram que, sim, às vezes a gente faz tudo certo e mesmo assim dá tudo errado. Acho que crescer é isso: você descobre que tem motivos de verdade pra sentir medo - e é por isso que os do passado parecem tão menores e mais fáceis de deixar pra lá. Afinal, o que é uma festa, um garoto, ou uma nota baixa perto da morte? Da desilusão? 


Recentemente, finalmente dei a atenção devida à trilogia Before. Antes do Amanhecer. Antes do Pôr-do-Sol. Antes da Meia-Noite. 3 filmes em 20 anos. Eu adoro a forma como Linklater trata a passagem do tempo, e crescer e envelhecer com Jesse e Celine foi uma experiência dessas que me fazem pensar que é pra isso que o cinema - e a arte, de modo geral - foi inventado. São filmes lindos, delicados, honestos, realistas e muito difíceis, principalmente no final. Porque Jesse e Celine crescem. E envelhecem. E as pessoas que eles se tornam às vezes olham pro passado de um jeito cínico, e encaram o futuro de um jeito amargo. Quanto mais o tempo avança, mais horríveis eles ficam, com eles mesmos e um com o outro. 

"When you grow up your heart dies", diz a Allison Reynolds. Acho que de todos os meus medos, esse é o maior. Todo livro, filme, ou série que vejo que aborda a vida adulta em comparação com a juventude mostra isso. As pessoas crescem e endurecem. É um mecanismo de defesa muito válido, não estou julgando ninguém. Imagina só viver quarenta, cinquenta, sessenta anos à flor da pele? Haja coração, haja pele pra queimar, espetar, rasgar, e haja espaço pra costurar tudo no lugar depois. Eu entendo.

Entendo, mas não entendo - sabe assim? Entendo, mas não aceito. 

Passamos muito tempo da nossa vida com medo de viver, e agora que sei como essa brincadeira funciona, não consigo aceitar menos que isso. A gente não pode ficar parada, lembra? Falando assim parece que não boto muita fé em você, e não botar fé em você significaria não botar fé em mim, e taí outra coisa que não aceito. Mas, de novo, não posso evitar o meu medo, e a melhor coisa que eu faço quando sinto medo é tentar reparar os danos antes que eles aconteçam.

Um dos meus sonhos grandes é que você leia essa carta e dê uma risada gostosa. Quero que você me ache muito bobinha. Quero que você deboche de mim e sorria por dentro, orgulhosa, por ter saído muito melhor que a encomenda. Quero que você seja um clichê engraçado da mulher de trinta: de robe florido, cheia de frescuras perdoadas pelos 30 anos, que você vai adorar contar pros outros só porque tem trinta anos e tudo é permitido. Sinto elas cada vez mais próximas: agora sempre olho a quantidade de sódio dos alimentos, tenho evitado frituras e como cada vez mais salada - e cada vez de mais bom grado. Ontem mesmo comprei um ketchup rústico, e tenho lido muito sobre grãos, principalmente esses de nome esquisito que são bons pra tudo.

Não esquece: nosso objetivo de vida é envelhecer como a Julie Delpy
Quero que você se lembre da pessoa que sou hoje, e de como me sinto feliz e realizada. Lembra que com 21 a maioria dos seus amigos eram seus melhores amigos, porque eles são demais mesmo. Lembra da sua família e dessas pessoas que a cada dia se tornam menos autoridades que você deve temer e obedecer, e mais companheiros em quem você confia e escolhe ouvir. Lembra de como você se sentia plena e dona do seu corpo e sobre todos os momentos infinitos que vivemos. Lembra de como era fácil ser idiota do melhor jeito, e cantar alto, ser inconveniente, lembra daquela vez que você pediu licença pra um cara muito lindo e foi dar o braço pra sua melhor amiga e ser ridícula fazendo uma performance junto com ela, sem medo do que ele e os outros fossem pensar, sem se importar se ele iria embora ou não. Lembra que ele não foi.


Lembra de todos os meus sonhos, e cuida deles com carinho. Espero que você tenha boas histórias pra me contar um dia. (I hold myself alive, I love you but I'm lost)

Ouvindo uma música da Sandy, temo pelo momento que você vai perceber que toda a vida que eu achava (acho?) que tenho pra viver não é tão grande assim. Me assusto quando penso que você pode parar pra pensar sobre esses 31 anos e sentir que não tem mais tanta vida pela frente, mas que ainda te falta tanto. Se acontecer (acontece, né? minha adolescência tardia que o diga), espero que não te falte fôlego e pressa pra correr atrás de tudo. Assista Antes da Meia-Noite de novo, e se lembre das partes boas dele. Pense naquele final, mas sempre volte ao Antes do Pôr-do-Sol e continue perdendo os voos.

Coragem, querido coração de 31 anos.
Não deixe de bater com força.

I'm better than I know
There is room to grow


> Texto inspirado na carta que a Sofia escreveu para a Sofia de quase 34 anos

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Prazer, Sandy






Não sei direito como começar esse texto. Não é que eu não saiba o que escrever, mas são tantas coisas que não sei muito bem por onde começar. Na verdade, foi mais ou menos assim que essa história começou (de novo): estava ouvindo música de um jeito displicente, fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo, quando o modo aventura do Rdio começou a tocar uma música da Sandy.

Soube logo de cara que era ela porque não é um tipo de voz que não se identifica logo de cara, mas todo o resto me pareceu estranho. "Eu mudei o meu cabelo. Me tatuei, troquei de carro e de amor. Tenho alguns bons amigos e ainda me sinto tão só". O lirismo da voz de princesa da Disney estava ali, inconfundível, mas ainda assim. Quem é essa pessoa? Voltei a música, ouvi de novo e de novo, até que de repente não estava mais fazendo um milhão de coisas, apenas uma: ouvindo o cd da Sandy.


Parece bizarro isso, mas a sensação que tive durante a meia horinha que dura Sim foi que estava recebendo a Sandy no meu quarto, e que ela estava sentada na minha cama com as pernas cruzadas, descalça, encostada na parede, me contando onde esteve nos últimos anos. E eu ouvia, fascinada, aquela mulher de 30 e poucos anos me contar que se acha jovem pra ser velha e velha pra ser jovem, e que toda a vida que ela achava que tinha pra viver aos 20 e poucos de repente se tornou curta e rápida pra tudo que ela queria viver.

Foi como reencontrar uma melhor amiga de infância com quem não se fala há muitos anos e querer ser amiga dela de novo. A Sandy foi meu primeiro ídolo, a primeira pessoa que eu quis ser que não fosse minha mãe ou minha avó. Eu imitava as roupas e o corte de cabelo, tinha os produtos licenciados e minha fase riponga mística começou, obviamente, por causa do seu papel em Estrela Guia. Foi com o Diário da Cristal que comecei a ler sobre signos, numa época em que eu colecionava pedras bonitas, queimava incensos em casa (pro horror dos meus pais) e usava anel nos dedos dos pés. A Sandy era como aquela prima mais velha, perfeita aos olhos deslumbrados da garota que queria ser exatamente daquele jeito. Igual. Perfeita. Talvez até demais.


A Sandy era perfeita demais, muito Sandy. Certinha, simétrica, meiga e correta, sempre com aquela cara de quem tem um Bom Ar acoplado na bunda (perdão pela imagem mental). E o problema é que - surpresa! - eu sempre fui assim meio Sandy na vida, ou pelo menos foi nessa caixa que sempre tentaram me colocar. Sem nem perceber (ou querer) eu tinha mesmo ficado igual a ela, pelo menos aos olhos dos outros. Não sei se é pela voz de criança, a introversão, sei lá: sempre fui a meiga, a garota certa e quieta, que nunca faz nada de errado, não se exalta e nem sai da linha. Ou pelo menos era (é?) assim que as pessoas me viam (veem?).

Nunca me identifiquei com nada disso, sempre me incomodei com a expectativa equivocada que isso gera a meu respeito, porque ao mesmo tempo, de um jeito muito louco, sentia (sinto?) uma necessidade irracional de fazer jus a essas expectativas. É por isso que sempre gostei de fazer tudo certinho, por isso que morro de medo de errar, é por isso que a vida às vezes me apavora. A vida não é certinha e racional, acontecem coisas e nem sempre temos controle sobre elas. Nem sempre temos controle sobre a gente e isso não precisa ser uma tragédia. Pelo menos é o que eu venho tentando dizer pra mim mesma nos últimos anos, num exercício custoso e diário de dizer mais sim do que não, de saltar e ir, ainda que com medo.

Porque uma hora a gente supera, né? A gente se supera. Ainda bem. Não que seja fácil, mas eventualmente a gente chega lá. A Sandy, pelo menos, chegou. Chorei horrores ouvindo "Sim", completamente desavisada do efeito que a música teria sobre mim. "Eu disse sim pro mundo, eu disse sim pros sonhos e pra tudo que eu não previa", era a fase de revisões finais do livro, o fim de um processo que me virou do avesso, meses inteiros dormindo e acordando abraçada com um monstro que sussurrava todos os dias pra mim que aquilo era loucura, que eu não era o suficiente. "Eu disse sim pra tudo que eu podia, e eu podia mais do que eu sabia" ao ouvir isso, desmontar era a única opção. Porque era isso, sabe? Eu tinha acabado de escrever um livro, que eu jamais imaginei que eu pudesse escrever. E se não fosse o livro, poderia ser outra coisa. Todos os sins que me doem tanto o tempo inteiro, mas que na maioria das vezes, ao final do processo, me cobrem com uma certeza de que é possível ser muito mais do que imagino.


As pessoas sempre tentaram desesperadamente enfiar a Sandy nessa caixinha de Sandy, mas ela continuou sendo a Sandy - só a Sandy - esse tempo inteiro. Quando disse pra revista que aos 16 anos ainda não tinha beijado, ou quando confessou, anos depois, que fazia terapia (numa época em que fazer terapia não era tão banal assim), que não se achava bonita. Hoje eu consigo ver que essa imagem de aparente inocência nunca foi sinônimo de fragilidade, muito pelo contrário. Sandy parou de cantar com o irmão, lançou dois discos, virou apresentadora de TV, cortou o cabelo, ficou loira, fez propaganda de cerveja, foi pro carnaval, deu entrevista pra Playboy, casou, virou mãe - meio que conseguiu tudo, mas aí você ouve "sim pro inexplicável, eu disse sim, eu caso", e a idealização cai por terra. Sandy tem dúvidas, é torta, escuta Bon Jovi e se sente sozinha. Ufa, eu também.

Ouvir o disco foi como ouvir ela me contar tudo isso com uma honestidade inesperada, quebrando aquela barreira impenetrável de antes, quando eu realmente não sabia quem ela era. Conhecia os cortes de cabelo, os figurinos de palco, seus uuh-uuuhs e ooohs, mas não a enxergava direito por trás das músicas traduzidas, assinadas por produtores. Eu conhecia a Sandy perfeita, e não tem nada mais desumanizador do que um ideal de perfeição - e isso vale pra nós duas.

Agora ela estava ali, e eu também, e era como se a gente estivesse se reencontrando e se conhecendo pela primeira vez, ao menos tempo. Prazer, Sandy. Quem diria, né? Sandy, que mulher. O mundo dá muitas voltas, mas estou aqui, uns quinze anos depois, querendo, de novo, ser um pouco como ela.

Amiga, me ensina?

> Depois de ouvir o disco pela primeira vez fui logo mandando a Analu ouvi-lo também, porque quando se tem uma metade é assim, você simplesmente sabe quando a pessoa precisa tanto daquilo quanto você. E aí que quando estávamos planejando nossos calendários do BEDA, ela disse que dia 11 postaria sobre a Sandy, sem saber que há alguns dias eu tinha planejado a mesma coisa pro mesmo dia. Acabei de ler o post dela, que é praticamente idêntico ao meu, e nunca falamos sobre o que iríamos escrever. Parece até piada. Que bom que não é.
>> Esse texto sobre a Sandy se casa muito bem com um que eu escrevi ano passado, sobre a Jenny Lewis, minha cantora favorita. De jeitos diferentes, elas cantam sobre as mesmas coisas e vale muito a pena conhecer;
>>> Semana que vem vou gravar um vídeo de perguntas, então me ajudem aí perguntando qualquer coisa. Sobre mim, minha vida, meu cachorro, a vida, o universo e tudo mais. Mas perguntem. Por favor. Pode ser nos comentários, peloTwitter, por e-mail, enfim, você escolhe. Mas vamo ajudar a blogueira aí, ok? Beijos de luz.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Então eu escrevi um livro

Vocês acreditam nisso? Eu também não. Ainda não. 

A Analu, que também já escreveu um livro (e eu já escrevi sobre o livro que ela escreveu), me disse que eu ainda vou passar um tempo pensando que é mentira e que tudo foi um sonho, mas sempre quando eu acordar ele vai estar ali, na minha cabeceira, totalmente de verdade, totalmente meu. O livro que eu escrevi. 

Eu escrevi um livro. Eu escrevi um livro. Eu escrevi um livro. Preciso ficar repetindo isso pra me acostumar com a ideia, porque chegar até aqui foi tão difícil que eu ainda acho que vou acordar em algum momento e estar presa naquele primeiro final de semana em que passei todas as horas possíveis na frente do computador até chegar no domingo à noite com meia página escrita, odiando todas as palavras que estavam nela, e achando que eu nunca conseguiria. 

Desde que tentei participar do NaNoWriMo ano passado e falhei miseravelmente, me tornei uma consumidora compulsiva de manuais de escrita e livros de autoajuda para escritores. Se estava na loja Kindle por menos de 20 pila, pode ter certeza que eu comprei, li, e grifei inteiro. Um dos primeiros foi o Write Everyday, da Cathy Yardley, e nele ela dedica um capítulo para cada um dos problemas mais comuns que podem estar atrapalhando alguém a escrever. Um deles é o medo. 

É verdade que eu me identifiquei com todos os obstáculos apresentados: falta de tempo e energia, ausência de um processo criativo eficiente, falta de planejamento; mas o maior problema, de longe, era o medo. É claro que eu sabia disso desde a primeira noite que passei encarando o documento em branco sem conseguir escrever uma linha, mas foi importante ver o medo ali, catalogado. Ah, então não sou só eu. Ah, então o medo é realmente uma thing. Ah, então as pessoas sentem medo e isso não é coisa da minha cabeça. Praticamente tudo que eu já li sobre a escrita fala sobre esse medo. Medo, pavor, pânico de criar. Medo de falhar. Medo de não ser suficiente. Medo de dar tudo errado. Medo do desconhecido. Medo de que todos descubram que eu sou uma farsa. Medo, medo, medo, todos eles empilhados sobre minha cabeça, me impedindo de fazer qualquer coisa. 

Conversando sobre isso com um amigo mais experiente, na esperança de que ele me fizesse companhia no incrível exercício que é sentir pena de mim mesma, tive que ouvir de volta algumas verdades. Ele me disse primeiro que eu só conseguiria escrever quando começasse a escrever - antes disso nem ele nem ninguém poderia me ajudar. Ele disse que medo todo mundo tem, mas as pessoas estão aí escrevendo independente disso. E ele disse também que, embora o medo seja normal, eu estava falando sobre escrever, que é aquilo que eu faço e sempre fiz; medo eu deveria sentir se estivessem me obrigando a resolver um problema de física quântica. 


Ele disse por último que o único jeito de superar o medo de escrever, de novo, é escrevendo. 

Então, com muita dificuldade e depois de muito choro, eu resolvi sentar e escrever. Achando difícil, tremendo de medo, mas escrevendo. Não é física quântica, Anna Vitória, você pode fazer isso foi a frase que eu mais repeti pra mim mesma nos últimos meses. Tem uma outra frase muito ótima do Thomas Mann em que ele diz que "um escritor é alguém para quem escrever é mais difícil do que para as outras pessoas.” Essa definição é a mais apropriada que já encontrei para tentar definir essa minha vida de gente que junta uma letra depois da outra, seja por profissão ou só vontade de sofrer mesmo. Porque já faze uns anos que escrever pra mim é isso, sofrimento - embora já tenha sido muito fácil.

Mantenho esse blog há sete anos e meio (!), e é assustadora a forma como minha relação com o texto mudou ao longo do tempo. Antes eu contava casos bestas sobre a minha vida, falava de algum filme que eu tinha assistido, pirava na batatinha com relação aos temas que me interessavam, seguindo bem a cartilha do blog raiz que estava na moda há dez anos. No entanto, algo aconteceu ali no meio do caminho que de repente eu comecei a escrever os casos bestas da minha vida, a escrever o que eu tinha achado daquele filme que eu vi, escrever alguma piração sobre determinado tema do meu interesse. Foi como se de repente eu tomasse consciência daquele ofício e isso mudou pra sempre minha relação com o texto. De repente, não era mais tão fácil.

E acreditem, eu amo escrever. Faço isso por prazer, por gosto, por dinheiro e porque é a única coisa que eu sei fazer. Gosto tanto de escrever que acho muito estranho gente que não escreve, mas, ao mesmo tempo, acho que escrever é uma das atividades mais moralmente degradantes que alguém poderia escolher, e tenho inveja de quem não precisa fazer isso. 

(Meu Deus tem gente que não escreve, deve ser incrível ser uma dessas pessoas)

Acho que esse todo esse desgaste e medo tem a ver com o fato de que criar é mesmo muito assustador. Você já parou pra pensar no que a árvore, o filho e o livro daquele velho clichê têm em comum? São três processos de criação. O primeiro é indireto, a gente só precisa dar um empurrão pra natureza; o segundo é direto, físico, visceral, em que a gente junta duas pessoas pra criar uma terceira que não existia antes; já o terceiro também é direto e visceral, mas vem da alma, e a gente arranca um pedaço nosso, mistura com o resto do mundo, e faz nascer algo que também não estava ali antes. Não sei vocês, mas essa ideia me arrepia os cabelos.

Além de tudo, meu livro é um trabalho de jornalismo. Com firulas de literatura, uma personagem que inventamos pra narrar os casos, mas uma história real, de pessoas reais, o que só adiciona mais responsabilidade à missão. Usar a vida dos outros para criar qualquer coisa que seja me causou um terror quase paralisante. E se eles odiarem? E se as pessoas acharem que eu inventei tudo isso? E se na verdade eu não entendi nada direito e estiver mentindo sem querer? E se a vida real não for  suficiente? E se eu não for suficiente? 

Foram semanas maravilhosas.

Mas eventualmente saiu, e agora eu posso assegurar a vocês que aquilo que as pessoas falam é verdade: uma hora sai mesmo. Às vezes rápido, ou, se você for eu, só depois de muitas noites seguidas na frente do computador até as quatro da manhã escrevendo uns três parágrafos todo dia. Mas sai. Você escreve. E chega um dia que você até vai gostar do que escreveu, e outros em que você vai escrever um monte e se sentir tão inebriada pelo trabalho que está fazendo que vai odiar qualquer outra coisa que não seja trabalhar naquilo. Até que você termina e reescreve tudo. De novo e de novo. Pensei que fosse lenda isso que dizem de que, ao escrever um livro, você escreve pelo menos uns três livros, mas é verdade. Foram mais ou menos umas quatro versões até chegar no resultado final.

Não fiz isso tudo sozinha. Como um trabalho da faculdade, meu livro, o nosso livro, foi escrito à oito mãos. Ficou no meu colo a responsabilidade de uniformizar os textos e cuidar da coerência do elemento ficcional da história, já que a personagem foi criada por mim, mas sozinha, sem todas aquelas fotinhas que comentavam e grifavam trechos e faziam aparecer frases escritas por fantasmas no Docs durante a madrugada, eu não teria saído daquele primeiro fim de semana que me rendeu meia página de vergonha e duas horas de choro compulsivo. Escrever é uma atividade sempre muito solitária, mas é muito melhor quando não se está sozinha. Escrevemos um livro. Escrevemos um livro. Escrevemos um livro.

Agora que acabou fica um vazio existencial enorme. Já sinto falta das nossas fontes, que eu aprendi a amar mesmo sem conhecer, e se eu tivesse dinheiro a primeira coisa que faria seria organizar uma festa que reunisse todos os nossos viajantes num baile sobre rodas, com janelas abertas, música alta e paisagens bonitas. Eu ainda tenho uma banca pra me preocupar, e depois a missão de encontrar um jeito de fazer esse livro chegar até as pessoas (sugestões? estou falando muito sério), e uns dois ataques cardíacos que vim adiando e preciso sofrer em algum momento. Mas agora acabou e não tem mais revisão, nem parágrafos reescritos, e nem discussões filosóficas sobre a materialidade da personagem e se ela pode dar uns tapinhas nas costas de alguém. Existe o vazio daquele meu pedaço que foi junto com as palavras, mas não é uma ausência e sim a saudade da adrenalina que foi arrancá-lo fora. Talvez eu precise fazer isso de novo. Mas antes, claro, os ataques cardíacos. E a banca. E uma semana de férias. Aí podemos conversar.

Por enquanto, meu conforto é olhar para a cabeceira e ver ele ali. O livro que eu escrevi.

(Meu Deus, tem gente que não escreve, deve ser horrível ser uma dessas pessoas.)





































* O Itinerância ainda não está disponível e eu nem sei quando isso vai acontecer, mas temos uma página no Facebook com um monte de coisa legal. Pode curtir, mandar nudes e até mesmo contar sua história. É sério. 
** Acho que estou de volta. Espero que ainda tenha alguém aí do outro lado. 

domingo, 31 de maio de 2015

As 10 coisas mais legais do meu mundo

Eu queria chamar esse post de AS MELHORES COISAS DO MUNDO porque todo o tempo que passei pensando sobre ele, era esse o nome que vinha na minha cabeça. Então eu pensei que teria uma desculpa perfeitamente aceitável para falar do filme As Melhores Coisas do Mundo, do qual eu sinceramente não lembro quase nada, mas quando assisti eu gostei bastante, achei o protagonista gatinho (depois meio que conheci ele e descobri que o moço tem um metro e meio #fail), e ainda por cima tem o Fiuk. Putz, se o post se chamasse AS MELHORES COISAS DO MUNDO eu teria uma desculpa pra colocar um gif do Fiuk aqui no blog. 

Aí eu lembrei que eu que mando aqui.

LINDA TÃO LINDAAAAA PRA MIM
Passado esse pequeno interlúdio - qual é minha dificuldade de ir direto ao assunto? - o post, na verdade, se chama AS COISAS MAIS LEGAIS DO MUNDO porque consiste num meme (sigo minha militância pelo resgate do meme em oposição às tags) criado pela Karol Pinheiro, que a Isabela me indicou recentemente. A proposta é bem básica: listar suas coisas favoritas dentro dos tópicos estabelecidos. Vamos lá? Vamos sim.

1) Decoração: shit everywhere




Eu não sou uma pessoa muito de decoração, mas uma coisa que sempre me chama atenção e que gosto muito é quando os lugares parecem ser habitados, quando eles são vivos. A maioria dessas casas que aparecem em revistas de decoração e no Pinterest são muito bonitas e tal, mas parece que não tem ninguém morando ali. Pior: não dá vontade de morar ali. Não quero uma casa onde eu tenha medo de sentar no sofá e de amassar as almofadas, sabe? Pelo contrário, gosto desses lugares que imediatamente deixam a gente com vontade de tirar o sapato e se atirar no tapete.

Eu queria ser uma pessoa minimalista. Eu tento, de verdade, ser mais minimalista. Mas com decoração isso é impossível, porque a personalidade de qualquer cômodo pra mim está nas tralhas objetos que ficam ali e mostram a cara da pessoa. Peguei como referência meus dois quartos preferidos da ficção: a explosão cor-de-rosa da Andie, em Pretty In Pink, e o relicário gigante das Lisbon, de As Virgens Suicidas. São dois ambientes muito carregados, mas eu simplesmente adoro esse caos. Sempre que tento deixar meu quarto mais clean, sinto que está faltando alguma coisa, sinto que está me faltando ali dentro. 

Quando fui ~redecorar~ meu quarto, usei como guia esse post da Rookie, sobre como deixar seu quarto com cara de filme, e também a decoração do quarto da própria Tavi

2) Livro: Raven Boys (Maggie Stiefvater)


Ilustrações: Maggie Stiefvater
The Raven Cycle é a série de livros que fisgou meu coração nos últimos meses. É um YA sobrenatural, mas antes que vocês virem os olhos, saibam que eu sou a pessoa que mais revira os olhos quando lê as palavras sobrenatural ou fantasia, e mesmo assim estou obcecada. Tudo nessa história é maravilhosamente estranho e cheio de mistérios, a mitologia da trama é muito legal, e tem fantasmas (AMO FANTASMAS) e adolescentes em busca de um rei adormecido, ao mesmo tempo que fala sobre maldições trágicas, descreve tudo quanto é tipo de família, tem videntes incríveis, os diálogos mais bem escritos que você vai ler na vida, um papo muito ótimo sobre privilégios e muito romance e sentimentos (MUITOS SENTIMENTOS). 

Sinto que sou meio apaixonada por todos os personagens, queria beijar todos eles, e ser amiga deles, e ser daquela turma, e dar um pescotapa no Adam e andar na Pig junto com o Gansey em estradas escuras. Estou lendo muita coisa séria & importante por conta do TCC, mas já marquei um compromisso comigo mesma que nesse feriado lerei o terceiro livro da saga, Blue Lily, Lily Blue e não. me. aguento. de. ansiedade. É muito bom. Leiam Raven Boys e esse texto da Fernanda sobre Raven Boys, porque eu sou péssima com sinopses. 

3) Viagem: Rio de Janeiro e Chicago

Pôr-do-sol na Urca - maio/15
Lá vem ela falar do Rio de Janeiro de novo, vocês devem estar pensando. Pois é, aqui estou eu pra falar do Rio de novo. Não sei se vocês já experimentaram o que é sentir sua alma transbordar por causa de um lugar, mas é isso que sinto em relação ao Rio. Quando estou lá minha alma transborda, e eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo. Fui pra lá pela primeira vez em maio do ano passado, e desde de então já estive na Cidade Maravilhosa quatro vezes (!). As pessoas já me perguntam quando estarei no Rio de novo, porque é fato que sempre vou dar um jeito de voltar pra lá, até o dia que eu resolver ficar pra sempre. 

Resolvi falar também sobre o meu atual sonho de viagem, que é Chicago, nos Estados Unidos. Não sei explicar como minha história com Chicago começou, sei que de repente eu precisava ir pra lá. O Wilco contribuiu bastante, é verdade, mas eu já gostava de Wilco antes de gostar de Chicago - de todo jeito, vejam esse vídeo aí embaixo. Com o Rio foi a mesma coisa: nunca liguei pra cidade, até que ela se tornou uma necessidade na minha vida. Algo me diz que Chicago vai fazer minha alma cantar também, e que vou me encontrar por lá. A pergunta é: quando, meu Deus?


4) Música: "Mouthwash", da Kate Nash



Acompanho a Kate Nash desde seu primeiro disco, mas nunca tinha parado pra realmente ouvir Kate Nash até o ano passado, quando fui ouvir com atenção seu terceiro CD, "Girl Talk". E aí tudo mudou, porque desde então a Kate Nash tem sido uma das minhas companhias mais importantes nessa jornada louca dos vinte anos em que a vida nunca foi tão ruim, mas nunca foi tão boa também. Seus três discos conversam comigo de um jeito muito profundo e acho que constroem um arco de juventude e experiência feminina muito bacanas. Um dia escrevo mais sobre isso.

Apesar da evolução incrível do primeiro pro terceiro trabalho, "Mouthwash" continua sendo a minha favorita. Sabe aquele música que a gente tem vontade de usar inteira no Quem Sou Eu do Orkut? Então. Além disso, me sinto abraçada pelo refrão em que ela canta que espera que tudo vai ficar bem. Crescer é mais ou menos isso, né? Cantar numa sexta à noite torcendo pra que as coisas se ajeitem.


5) Sapatos: Adidas Superstar



Tenho certeza que se eu tivesse um filho hoje, ele ia nascer com três listrinhas pretas em cada bochecha, tamanha é minha obsessão pelo Adidas Superstar. Sou muito adepta dos tênis, inclusive para festas e afins, e sempre fui apaixonada por esse modelo. Agora que ele foi relançado virou questão de necessidade básica a presença dele no meu armário. É sério. Eu não passo um dia da minha vida sem pensar que a roupa que estou usando poderia ficar muito melhor se eu estivesse usando um Adidas preto e branco. Como minha vida é uma piada cósmica, não consigo achar esse modelo pra comprar de jeito nenhum. É sempre aquela coisa de: tem, mas acabou. Ou não tem do meu tamanho, ou não tem da cor que eu quero. Mas olha, tem branco, tem vermelho, tem rosa... Eu sei, mas eu quero o preto e branco, ok? 

Se você for representante da Adidas e estiver lendo esse blog, me manda esse tênis que eu juro que passo um mês fazendo look do dia usando ele todos os dias. #barganhas #interesses #jabás

6) Maquiagem: Açaí, MAC


Além de listras pretas na bochecha, meu filho, se nascer hoje, já vai vir com a boca pintada de roxo. Não costumo ficar acompanhando ansiosamente lançamentos de maquiagem e nem tenho fetiche com marcas específicas, mas quando a Julia Petit lançou sua linha pra MAC eu fui dessas que assistiu todos os vídeos e leu todas as resenhas e pensou em penhorar todos os órgãos pra comprar todos os produtos. Apesar da coleção ser bem legal, foi só o batom Açaí que não saiu da minha cabeça até hoje. Ele tem esse tom de roxo lindo e único, que eu penso que ficaria bonito em qualquer look, pra qualquer ocasião. 

Como alegria de pobre às vezes dura tão pouco que nem existe, quando finalmente resolvi que valia, sim, a pena gastar 80 dilmas reeleitas num único batom, é óbvio que ele esgotou completamente em todas as lojas. Vida de it pobrinha: não recomendo a ninguém. MAC, a proposta da Adidas vale pra você também, viu?

7) Ídolo: Beyoncé e Taylor Swift 



Acho ídolo uma palavra muito forte, posso trocar por inspiração? Posso sim. Então, sei que vocês vão me achar brega e superficial por colocar duas cantoras pop como minhas maiores inspirações do momento, mas é verdade e vocês não sabem de nada. Ultimamente ninguém tem me tocado de um jeito mais sincero e profundo (sim senhores) do que Beyoncé e Taylor Swift, cada uma à sua maneira. Elas são as pessoas que eu quero ser quando crescer - não necessariamente pelo trabalho que elas fazem, mas pela força e pela graça que elas concentram em si, a confiança que elas emanam, e a forma como sempre me sinto mais empoderada depois de assistir a um show da Beyoncé ou passar parte da minha madrugada refletindo sobre as letras da Taylor Swift. 

Nesse artigo da New Yorker sobre críticas de rock, a autora escreve que o rock não fala tanto às mulheres como fala aos homens a respeito de rebelião social e libertação, e eu sinto que pra nós esse papel quem faz é a música pop, com suas divas infalíveis. Isso é algo que eu ainda preciso refletir mais pra discorrer de um jeito mais apropriado, mas a verdade é que quando sinto que estou perdendo a coragem ou o mundo parece um lugar intimidador demais, escuto Flawless, leio o texto do encarte de 1989 e de repente sinto que eu também posso. 

8) Doce: bolo!



Minha ilustre amiga Gabriela Couth disse uma frase esses dias que eu sinceramente espero que seja eternizada na minha lápide pois descreve exatamente meus sentimentos (sobre doces, bolos, e a vida no geral): "Não tenho aspiração a ser rica e poderosa, quero ganhar suficiente pra dormir sem culpa e poder comer bolo quando acordar". 

9) Foto


Quando olho pra essa foto, sempre penso naquela quote de Boyhood sobre a diferença entre aproveitar o momento e deixar que o momento nos aproveite. Essa foto é espontânea e capta com perfeição um instante em que estamos todas sendo aproveitadas por um momento maravilhoso. A gente no nosso apartamento carioca fazendo nossa agentice preferida: ficar amontoadas, rindo e falando besteiras. Momentos. 

10) Blog: Minha Vida Como Ela É 


O blog da Analu surgiu quase um ano depois do meu, e eu comecei a acompanhá-la por volta de 2009, mas hoje não consigo imaginar o meu blog sem o dela. Explico: em sete anos de blog a gente conhece muita coisa, muita moda, muita gente, muitos blogs maravilhosos, mas a única constante da minha vida blogueira é o blog da Analu. Assim como eu, apesar dos pesares, ela nunca abandonou o barco e eu realmente fico pensando se eu teria abandonado se não fosse ela sempre ali do lado. Quando ela posta e eu não, sinto que deveria estar postando - e quando eu posto e ela não, fico ansiosa pra que ela poste também. A gente é muito diferente e muito igual, e seus textos ora me forçam a pensar de um jeito diferente, o que é sempre importante, e ora funcionam como a voz da minha cabeça, colocando em palavras aquilo que eu também pensei, mas não escrevi. 

Nessa brincadeira, além de uma companhia pra toda piração possível e ideias incríveis que não dão em nada, ganhei uma irmã de coração e perdi, pra ela, um pedaço de mim. Amiga, tamo juntas. 

Me deixem, estou sentimental. Passo a bola, obviamente, pra Analu, pra Sharon, pra Lilica, pra Iralinha e pra Passarinha - outros pedaços de amor que a internet me deu. Que coisa linda é ter blogs e ter migas.
>>> Aderi à bobagenzinha mais recente que tem feito a cabeça do pessoal da internet, agora eu também tenho Snapchat! Para me ver falando bobagens, tomando café e enchendo saco de Chiquinho, me segue lá: annachicoria