Mostrando postagens com marcador filosofias inesperadas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofias inesperadas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Como é que eu vou dizer que acabou?

Para ler ouvindo:


Não escrevo nada aqui há cinco meses e há uns quatro parei de sofrer por causa disso, mas já não tenho vontade de escrever aqui há muito mais tempo. Falar sobre o fim é difícil mesmo quando ele já aconteceu. Eu vou do início:

Há exatamente um ano eu anunciei que faria o BEDA, me propondo o desafio de postar todos os dias durante um mês inteiro. Eu estava trabalhando, fazendo TCC, com problemas em casa, tentando virar adulta e já não tinha mais idade pra isso, mas sem pensar muito eu fui lá e fiz - e foi incrível. Me diverti com o blog como há anos não acontecia e isso só evidenciou como blogar havia se tornado algo que eu fazia muito mais por hábito, muito mais por nem me lembrar direito como era a vida sem ter um blog, do que porque sim, porque é divertido, porque eu quero, porque é tão melhor que todo o resto.

O BEDA foi a festa do divórcio, aquela viagem para Paris que um casal resolve fazer pra tentar salvar o casamento de anos sabendo que na volta eles vão do aeroporto direito pro escritório do advogado, aliviados por já terem começado a fazer as malas. 

Veja bem, a viagem foi ótima: eles passearam de mãos dadas, se beijaram na chuva, transaram com vigor adolescente na segurança de seus corpos adultos que sabem exatamente o que querem da vida e do outro. Foram jantares longos, restaurantes caros, sobremesas finas e vinhos deliciosos. Foi uma extravagância merecida. Ele não pensou em trabalho, ela esqueceu o celular, eles se permitiram dormir até mais tarde e conversar a noite inteira. Paris nunca esteve tão linda, eles nunca se amaram tanto, e isso deixou claro que eles já não se amavam mais. 

Aquilo não era a vida real e um casamento não é feito de viagens a Paris, mas de arroz com carne moída naquela quarta-feira, promoção de vinho, cantoria no carro e o charme daquele velho pijama furado. Se é preciso de Paris para ter graça e amor, é porque acabou. Eles estavam se amando sobre os escombros. 

Eu vou sentir falta daqui como quem sente falta daquele namorado que era perfeito, até que não foi mais. Aquele que a gente lembra com carinho e saudade, mas não se arrepende de ter seguido em frente. Voltar pra ele seria voltar para a pessoa que você era antes, e ela já não existe mais. É por isso que acabou. Eu já não existo mais aqui, como não existo mais na pele daquela Anna Vitória adolescente de 13 anos que um dia resolveu que começaria um blog pra valer. Eu não teria chegado aqui sem ela, mas é hora de descobrir todas as outras pessoas que eu ainda posso ser. 

Por que a insistência em tecer analogias entre o blog e um namoro? Porque junto com três ou quatro amizades, o blog é o relacionamento sério mais longo que eu tive e, como qualquer relacionamento, ele me mudou pra sempre e deixou marcas indeléveis na minha vida. Foi aqui que me transformei em gente que escreve, algo que tenho certeza que vou ser pra sempre. Nos últimos meses minha vida mudou bastante e sinto que tudo que aconteceu é uma consequência direta e indireta de um dia ter começado esse blog. Se fui sozinha para uma cidade enorme e nunca me faltou companhia pra almoçar, jantar e cantar no karaokê, foi porque um dia depois da escola eu sentei na frente do computador decidida a escrever sobre alguma coisa, qualquer coisa, porque sim, porque era divertido, porque eu queria e porque aquilo era tão melhor que todo o resto. Quando me lembro, são anos dourados.

Hoje começa mais um BEDA e várias pessoas legais vão participar. Isso me deixou nostálgica, quase que com vontade de entrar nessa de novo, mesmo que no fundo eu tenha certeza absoluta de que esse barco partiu faz tempo. Não quero insistir nessa viagem e me afogar. É como cruzar com uma pessoa que usa a mesma loção pós-barba daquele antigo namorado e de repente sentir tanta saudade a ponto de pensar em ligar bêbada pedindo pra ele voltar. É sempre desconcertante rever o grande amor.

Então resolvi escrever esse post, porque se eu não falar do fim o blog vai continuar aqui existindo como um blog platônico e acho que a gente merece mais que isso. No fim de semana contei para alguns amigos que faria isso e todos ficaram meio tristes (o que me deixou feliz de um jeito bem vaidoso), mas não sei até que ponto é melhor um final nunca dito, eternamente no ar, do que um ponto final claro e honesto. Já não escrevo aqui faz tempo e todos sobrevivemos. Como diz um dos meus poemas favoritos (hoje estou cheia de referências): seu destino foi curto longo e bom, não o choreis. No que depender de mim ele vai ficar no ar pra sempre, até porque eu virei aqui sempre que quiser relembrar algo especial dos últimos OITO ANOS da minha vida.

Como falei, eu sou e sempre vou ser gente que escreve e continuo escrevendo. Se você gosta e se identifica com as coisas que eu faço, ou se eu sou o tipo de pessoa que você lê pra ficar com raiva, você pode me encontrar em diversos lugares:

> Semanalmente, eu mando um e-mail pessoal esquisito para os assinantes da minha newsletter. Para receber também (são anedotas, crônicas, textões, o que estou lendo, ouvindo, assistindo e alguma foto de animal de roupinha), basta assinar a No Recreio

Qual a diferença disso pra um blog pessoal?, você se pergunta. Nenhuma e toda, eu respondo. É como receber o blog direto na sua caixa de entrada, só que de um jeito mais íntimo, complicado e perfeitinho. Existe uma sociedade secreta bacana, querida e crescente nas caixas de entrada (e a Aline Valek se deu ao enorme trabalho de fazer uma listagem dessas newsletters) e é o lugar que me sinto à vontade para escrever no momento. A newsletter é aquela coisa legal que eu faço porque sim, porque eu quero, porque é divertido e porque é tão melhor que todo o resto - e isso basta. O amanhã a Deus pertence.

> Há três meses lancei com algumas amigas o Valkirias, um site onde a gente escreve sobre cultura pop, feminismo e problematiza o impossível. Você pode conhecer o site, curtir nossa página, seguir a gente no Twitter e assinar nossa newsletter. Se tiver alguma ideia dentro do nosso nicho de interesse, pode até escrever junto com a gente.

> Eu continuo escrevendo na Pólen, porque alguém precisa cultivar o lugar de colaboradora mais enrolada e irresponsável de uma publicação absolutamente adorável.

> Também criei uma conta no Medium, porque um dia eu escrevi um textão que não se encaixava em nenhum outro lugar onde eu costumo publicar textões. Mas Anna você odeia o Medium!!! Pois é, mas às vezes ele se faz necessário. Caso essas circunstâncias se repitam, escreverei lá novamente e vida que segue. A VIDA É COMO UMA CAIXA DE BOMBONS, VOCÊ NUNCA SABE O QUE VEM DENTRO!!!!!!!!

> Todos os dias, o dia inteiro, estou no Twitter escrevendo tudo quanto é lixo que se passa na minha cabeça. Ainda é meu lugar favorito na internet porque todo mundo ali sabe que a gente está nos escombros da rede mundial de computadores e precisamos manter essa locomotiva funcionando. 

> Eu também tenho Instagram, Skoob, Goodreads e abandonei o Snapchat, graças a Deus. Tenho também um portfólio online mais ou menos profissional, caso você, futuro empregador, esteja se perguntando. 

> Eu quero escrever um livro em algum momento. Manterei vocês informados.


Já que estamos falando de amor, deixo vocês com essa conclusão: em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Vejo vocês do outro lado e muito obrigada. Mesmo. Um milhão de vezes. Por tudo que esse blog já me fez ser, crescer e fazer, é realmente inagradecível. E como de praxe, me desculpem por ser ridícula.

Se essa é a lápide desse blog, essas são minhas mensagens finais (são várias, porque eu não sei escolher):

Sentimentos são os únicos fatos

Vamos todos morrer mesmo

O universo está se expandindo

Shakespeare e os gregos já disseram tudo antes

Vai Corinthians

Paz


sábado, 5 de março de 2016

O prego (ou: um discurso de formatura)

Então eu formei. 

O discurso a seguir foi escrito por mim para ser lido na cerimônia de colação de grau, que aconteceu no dia do meu aniversário de 22 anos. Tenho um fraco por discursos de formatura e voltei aos meus favoritos (Neil Gaiman, Jonathan Franzen (sim), Marina Keegan e Rory Gilmore) em busca de inspiração, mas quando vi estava, de novo, falando da Amanda Palmer. Eu não ligo para solenidades, mas naquela noite, cercada de amigos queridos, sendo assistida pela minha família amada, vestindo uma linda beca vermelha, me senti extraordinariamente pronta. Algumas vezes achei que a formatura chegou muito rápido, e em outros momentos parecia que não chegaria nunca. Dia 26, no entanto, senti que tudo aconteceu na hora certa. Foi uma noite muito feliz e gostaria de dividir um pedaço dela por aqui, porque esse blog me acompanha desde o início do ensino médio (!) e sabe Deus onde estaria se nunca tivesse começado a escrever. 

O PREGO
(inventei esse título agora)

Só sei tirar foto sozinha fazendo papel de idiota
Com todo o respeito a essa instituição e a solenidade acontecendo aqui, mas a verdade é que um diploma não significa nada. É só um pedaço de papel, e, como aprendemos em uma ou várias aulas, papel aceita tudo. E se um papel bonito e timbrado num canudo aveludado pode aceitar de tudo, o que dizer a respeito do papel jornal, com sua tinta que mancha nossos dedos, e aquele cheiro típico de peixe que aparece depois de vinte e quatro horas? Dá pra piorar: o que dizer da internet, que além de aceitar tudo, aceita qualquer coisa, de qualquer um?

Nossas mães diriam que a gente poderia ter escolhido melhor. 

No entanto, quatro anos depois, aqui estamos. Jornalistas. Não é um diploma, um pedaço de papel - muito bonito, aliás -, que torna isso mais ou menos real. Quem possui o poder de fazer isso somos nós, cada um no seu tempo. Alguns inclusive já chegaram sabendo, o curso só serviu para sedimentar a certeza. Pode ser que outros ainda precisem de mais uns dias, ou até anos, pra descobrir. Mesmo assim, cada um da sua forma, todos tivemos (ou ainda vamos ter) os nossos momentos - aquele momento - em que simplesmente soubemos: caramba, eu sou jornalista!

Pode ter sido no primeiro dia de aula, ou no último, na defesa do TCC ou naquele em você finalmente pegou o jeito do Scribus. Pode ter sido depois do primeiro chá de cadeira, o primeiro bolo, a primeira fonte desaparecida, o primeiro telefone batido na cara - todo mundo sabe que jornalista é aquela pessoa que precisa falar com todo mundo e com quem ninguém quer realmente falar. Pode ter sido num fechamento do Senso, ou melhor, naquele dia que você sentiu saudades de um fechamento do Senso. Era horrível, mas também era muito bom, né? Caso um dia bata uma insegurança, não se esqueça de que você passou em Teorias I. E II. E PEX. I e II. TCC também, vocês conhecem a história. 

Se alguém aqui ainda não se sente jornalista, basta lembrar das reclamações, porque a gente passou quatro anos - ou mais - reclamando. Dos textos, dos trabalhos, dos prazos, da quantidade de caracteres, das pessoas, das fotos, do alinhamento dos textos, das logos, das pautas, e de novo dos prazos, e mais um pouco das pessoas. Jornalista, aliás, é o primeiro a reclamar de qualquer coisa, principalmente de outros jornalistas, do jornalismo, e da própria condição de jornalista. 

Foi o George Orwell que disse que jornalismo é publicar algo que alguém não quer que se publique, aquilo que incomoda. Todo o resto é propaganda. Nossa profissão é incômoda, para os outros mas principalmente para nós. Ao longo desses oito semestres, aprendemos que quase nada é o que parece e que é muito difícil mudar o mundo. Aprendemos que as pessoas mentem, nem sempre colaboram, e que existe um interesse por trás de tudo. São necessárias umas cinquenta fotos antes da perfeita, matérias legais caem porque alguém não respondeu um e-mail a tempo, tripés são pesados, gravadores falham, caracteres sobram, a internet cai e alguns programas fecham sem salvar o que foi feito. Às vezes as pessoas são horríveis, os ângulos retratados não são honestos, e como o papel aceita tudo é muito fácil construir versões diferentes de uma mesma história e nem sempre vai haver espaço pra nossa voz. A profissão é difícil, perigosa, desconhece feriados, todo mundo sempre acha que é só escrever uns textinhos e dizer boa noite, e o salário ó…

Mesmo assim, de novo, aqui estamos. Por quê? 

Eu precisava muito desse momento, fiquei feliz que não foi preciso implorar por ele
Amanda Palmer, uma artista que já foi stripper, estátua viva, cantora e agora também escreve, contou em seu livro a história de um cachorro e seu dono. Era mais ou menos assim: um homem passa e escuta um cachorro ganindo de dor. Vendo a situação ele pergunta pro dono por que o cachorro está chorando, e o dono responde que é porque ele está sentado em um prego. “Mas então por que ele não levanta do prego?”, pergunta o moço. “Porque ainda não dói o suficiente”, diz o dono. 

O jornalismo é incômodo porque a zona de conforto não é notícia. Outra historinha, que ouvimos algumas vezes em sala de aula, diz que a notícia é quando o dono morde o cachorro e não o contrário. O mundo anda cada vez mais complicado, viver é complexo, e o jornalismo nos leva a ver as coisas de modo a doer o suficiente, porque só assim a gente consegue levantar do prego. E é só levantando do prego que podemos começar a pensar em mudar o mundo. 

Que esse incômodo vindo das coisas que não podemos desver ou ignorar nos possa levar sempre adiante, e que ao levantar do prego possamos ganhar as ruas e estar em contato com histórias reais, de pessoas reais, que nos ajudem a construir mensagens com poder de incomodar tanto os outros, de jeitos bons e ruins, que a sociedade como um todo se veja obrigada a sair do prego, seja ele qual for. E então quem sabe que rumo a vida tomará?

Não é um diploma que nos torna jornalistas, assim como não é uma palavra escrita numa folha de jornal que torna uma notícia verdadeira para alguém. Aprendemos que é a credibilidade faz isso, e acredito que tudo que passamos nos dá crédito o suficiente para nos afirmarmos jornalistas e validarmos aquele pedaço de papel timbrado - e não o contrário. Espero que doa o suficiente.

A última!
- Como todas as fotos bonitas e originais que já estiveram nesse blog, as fotos desse post também foram feitas pelo super Felipe Flowers.

sábado, 14 de novembro de 2015

Espaço dedicado a sentir muito

Numa guerra não se matam milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete.
Nós que aqui estamos por vós esperamos (Marcelo Masagão)


Eu estava feliz ontem à noite. Era sexta-feira e eu estava sozinha em casa dando uma festa pra mim mesma, ouvindo o disco novo do One Direction enquanto pintava meu cabelo de cor-de-rosa. Pois é. É um cenário ridículo diante dos fatos, mas era exatamente isso que eu estava fazendo quando o mundo começou a acabar.

Sei que ninguém se importa com o que eu estava fazendo, muito menos com o que tudo isso me fez sentir, porque nada disso é sobre mim. Certo? Uma parte de mim diz que sim, mas outra, que nas últimas semanas tem atendido pelo nome de Amanda Palmer, me alerta para o outro lado. Tragédias humanas, sejam elas do lado de casa ou do outro lado do mundo, mexem com a gente porque graças a Deus a empatia ainda existe. Ela escreve: anular a possibilidade de empatia é a anular a possibilidade de compreensão. 

Nunca pensei que fosse chorar a morte de um rio, mas isso aconteceu. Fui surpreendida ao engasgar contando para minha mãe sobre os atentados de Paris. Poderia dizer que crescer tem me transformado numa pessoa emocionalmente incapaz de lidar com o mundo, mas acho que prefiro essa fragilidade assustadora a estar sempre a uma distância segura das pessoas e dos fatos, aquele lugar sedutor em que muitos de nós vivemos, nos escondemos e para o qual corremos em busca do que pensamos ser segurança emocional. Quem escreveu isso foi a Brené Brown, no prefácio dessa joia de livro que é A Arte de Pedir. Essa distância só torna mais difícil a missão de descobrir quem somos e de entendermos uns aos outros, e o resultado é esse aí que estamos vendo. 

Não sou ingênua ao ponto de acreditar que o amor, sozinho, é a solução para todos os problemas do mundo. Mentira, isso é tudo que eu acredito na minha vida, mas sei que não é tão simples assim. No entanto, isso é tudo que eu tenho a oferecer. Em momentos como esse é muito fácil acreditar que as pessoas são horríveis e a humanidade não deu certo, então vamos lembrar dos taxistas que levaram as pessoas pra casa de graça durante os atentados, de quem abriu as portas para acolher aqueles que estavam na rua, da mobilização para levar água e mantimentos para o pessoal em Mariana (mesmo que isso não seja nossa responsabilidade, não é Vale?), dos biólogos empenhados em salvar as espécies de peixes, dos bombeiros resgatando cães e cavalos, vamos olhar para quem ajuda.

Às vezes as pessoas se mostram inconfiáveis.
Quando isso acontece, a reação correta não é:
- Porra! Eu sabia que não podia confiar em ninguém!
A reação correta é:
- Tem uns que são uns bostas.
E segue-se em frente.
A arte de pedir (Amanda Palmer)

Escrevi esse post porque não conseguiria escrever sobre mais nada, e fiquei lutando comigo mesma pensando se eu poderia falar sobre algo assim se não estou envolvida e não entendo nada sobre nenhum assunto para contribuir efetivamente. Peguei alguns livros em busca de respostas (porque essa sou eu) e decidi que tudo bem falar a respeito. Esse é um espaço dedicado a sentir muito: se você também sente e não sabe o que fazer com isso, puxe uma cadeira e sente comigo e com o Hank Green.

Estou triste e assustada e acho que estamos perdidos, mas não quero desistir de seguir em frente. Sigamos, então.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

As mentiras que a internet conta (ou não)

Todo mundo lembra de algum chavão dos pais que era repetido à exaustão como lição de moral ou ensinamento de vida. Todo mundo tem uma frase pra encaixar naquele clichê do como diria meu pai/mãe/vó/tio Ali da pastelaria... e todo mundo um dia já achou a repetição desse corolário um saco, mas um dia também reconheceu que eles estavam certos. Meu pai e minha mãe sempre me lembravam incessantemente de ter senso crítico. 

Normalmente eu revirava os olhos, porque isso costumava acontecer quando eu estava contando alguma super história que eu tinha ouvido na escola ou visto na televisão e lá vinham meus pais tirar a graça de tudo com essa bosta de senso crítico. Adultos, por que tão chatos? Mas eventualmente aprendi a lição, até demais, porque de fato cresci não só muito crítica como quase cética em relação às coisas, o que nem sempre é bom. Eu gosto de acreditar, a vida é muito mais legal quando a gente se entrega. Se você um dia chegou muito empolgado pra me contar uma coisa e eu não só não me impressionei como imediatamente peguei o celular e comecei a checar os fatos, pode culpar os meus pais. Isso começou quando eu tinha oito anos. 

Meu ponto é que assim que li a manchete sobre a celebridade da internet que editou as legendas de suas fotos jogando no ventilador toda a mentira e edição que havia ali, minha reação imediata e sincera) foi: ué, mas as pessoas acreditavam mesmo naquilo? 


Seguindo o ciclo natural das polêmicas na internet, no primeiro dia estavam todos comovidos com a denúncia dela e dispostos a refletir sobre a suposta falsidade de tudo que acontece aqui na rede. Menos de vinte e quatro horas depois, a menina já era impostora, ingênua e aproveitadora, e o debate a respeito do caso era irrelevante, visto que é muito óbvio pra todo mundo que essas construções das nossas vidas, se não mentirosas, são pelo menos muito bem editadas. Eu consigo ver um pouco dos dois lados, e acho que esse caso tem mais nuances do que as opiniões exaltadas estão dispostas a enxergar. Não tenho nenhuma conclusão formada a respeito, por isso vou deixar aqui alguns aspectos que me fizeram pensar pra gente poder conversar a respeito:

1) Nós não somos o alvo

Eu, pelo menos, não sou. Embora esteja na internet desde muito nova, quando tudo isso aqui era mato, não faço ideia de como seria crescer na web 2.0, como é o caso da Essena. Ela conheceu a internet depois do matagal ter sido transformado num universo de informações e compartilhamentos para todo lado, um mundo em que a validação dos nossos pares vem (ou não) de forma instantânea em forma de likes, um universo com zilhões de referências. Até os 18 anos meu celular não tinha câmera, quiçá inteligência, e minha adolescência quase toda aconteceu num mundo sem Instagram. Alguém tinha que lembrar de entrar no meu Orkut e me deixar um scrap (um scrap!) se quisesse dizer que gostou da minha foto nova de perfil.

Crescendo, eu fui afetada pelo exemplo de ícones, como atrizes, cantoras, modelos e outras mulheres que me inspiravam e me faziam ter vontade de ser como elas. Mas, mesmo assim, eu tinha a consciência clara de que elas estavam distantes de mim, que a atriz que eu via no tapete vermelho do Oscar não era quem ela é no dia a dia, que elas tinham uma vida totalmente diferente nos bastidores - consequências de ser da geração que acompanhou a ascensão e queda de Lindsay Lohan e o 2007 de Britney Spears. Eu sempre soube, também, que eu jamais seria igual a elas. Tipo, eu não ia ser atriz em Hollywood, eu não ia ser cantora da Disney. No way.





Os influenciadores na internet, que são os ícones de hoje pra geração mais nova, vendem essa imagem de proximidade e acessibilidade, esse é o apelo deles. Não é mais a atriz americana, mas uma menina da sua idade, que poderia ser você, poderia estudar na sua escola, que está ali te vendendo maquiagens, livros, ou um estilo de vida.

Eu consigo enxergar a forma como a vida de blogueiras e youtubers é construída, eu vi a forma como eles começaram a ganhar dinheiro com isso, eu sei que aquele vestido, aquele sapato e aquela viagem são publicidade. A diferença é que não é mais uma modelo anônima entre uma página e outra da Capricho, mas uma pessoa de verdade, com um discurso que fala diretamente comigo e com o meu universo. Será que uma pessoa que entrou na internet com 12 anos (como foi o caso dela), quando esse sistema já existia, consegue enxergar de forma tão clara essa distinção? Será que ela sabe que muito provavelmente não vai crescer e ser blogueira de moda e ganhar produtos? Será que ela sabe tudo que tem de difícil por trás das viagens e das aventuras?

Realmente não sei, mas não acho que tudo seja tão óbvio. E essas imagens nos afetam, sim. Eu sei de tudo isso que eu falei e no último fim de semana estava aqui, frustadíssima, porque a Vic Ceridono estava em Nova York gravando mais uma temporada do seu reality enquanto eu fazia meu TCC descabelada e sozinha. Via aquela vida e pensava: Por que não eu? Eu poderia fazer isso! Por que estou aqui estudando se posso gravar tutoriais de maquiagem e ir pra Nova York todo mês?

A carne é fraca e o estímulo é forte.

2) A internet não é necessariamente vazia ou mentirosa

Eu gostei muito do texto da Debbie lá no Pequenos Monstros porque ela fala que nossa vida TODA é editada, e a internet é só um prolongamento disso. Claro que ela oferece muito mais recursos para que possamos criar nossa própria farsa, mas o fato é que a gente edita, sim, a vida que mostramos pro mundo, on e offline. E isso não é um erro, não é absurdo, não é falta de caráter ou de verdade. É como as coisas são. Você entra no elevador e diz pro vizinho que está triste? Você tira uma foto no velório da sua avó e coloca no álbum de fotos? Você despeja todos os seus sentimentos pra qualquer pessoa, a qualquer hora? Você se comporta exatamente da mesma forma com suas amigas, seu chefe, seus pais e seus sogros? Não! Isso não significa que sua vida é uma mentira. A parte não é necessariamente uma negação do todo. Ela é só uma parte (!) dele.

Vocês sabem da minha história: eu fiz amigas na internet, amigas de verdade, pra vida toda. Me tornar parte da vida delas foi de repente ser convidada a entrar nos bastidores da vida daquelas garotas que por muitos anos eu acompanhei virtualmente, em seus blogs e todas as redes sociais. O convívio com elas na famigerada vida real me apresentou a aspectos diferentes que eu não conhecia antes, me mostrou o resto do iceberg escondido pela água. Viajar, dormir e acordar junto com elas me fez ver que elas eram diferentes da imagem que eu fazia antes de sermos amigas, mas diferente não por elas serem falsas, mas sim porque havia mais sobre elas do que se pode saber pelo blog ou pelas redes sociais, da mesma forma como tem muito mais sobre mim do que eu mostro no blog e no Snapchat. ¯\_(ツ)_/¯


Você acha que esse animal é uma mentira?

Me incomoda demais o discurso de que as redes sociais são veículos de mentira, que nada na internet é verdadeiro, tudo é vazio e fútil. Como qualquer coisa nesse mundo, a internet tem seu lado bom e seu lado ruim. Vejo tanta menina jovem fazendo coisas TÃO LEGAIS na internet, exemplos tão positivos de quem usa a rede pra coisas tão incríveis que penso como eu seria uma adolescente mais feliz se tivesse acesso a essas pessoas, esses recursos, essas informações. Por muito tempo eu sofria porque não me via representada em lugar nenhum da mídia tradicional: as revistas pra adolescente não falavam comigo, as revistas de cultura não falavam sobre as coisas que me interessavam, e até mesmo na internet era difícil ver conteúdo voltado pra minha idade.

Se eu tivesse 14 anos hoje, poderia acompanhar youtubers falando sobre os livros que eu estava lendo, teria publicações como a Rookie e a Capitolina falando sobre uma experiência de adolescência com a qual eu me identificaria, aprenderia história, economia, biologia e astronomia com o John e o Hank Green, poderia conhecer mil e uma garotas diferentes que se interessavam pelas mesmas coisas que eu para conversar... As possibilidades são infinitas. Então, não, a internet não é apenas um lugar de consumismo exacerbado, narcisismo exagerado e relacionamentos vazios.

Não existe esse papo de que a vida real acontece fora daqui, e acho que quem ainda acredita que ainda existe uma fronteira entre real e virtual realmente não entendeu nada. Eu penso assim: sua experiência na internet é um reflexo da sua vida fora dela. Se você viu o vídeo, a própria Essena diz que sua vida já era vazia antes de entrar nas redes sociais e que ela achou que ter views, likes e parecer bonita nas fotos faria com que ela fosse importante e vista. Antes da internet as pessoas já queriam se sentir importantes e vistas, ela não inventou a carência. Pense nisso. *BOOOM*

3) 01 teoria

Estou estudando opinião pública pro meu TCC, e num dos livros que li (que se chama, olha que coisa, Opinião Pública) o autor escreve que o mundo é grande demais para que a gente possa apreendê-lo em sua totalidade, por isso criamos ficções a respeito dele. Ficção aqui não é sinônimo de mentira, apenas um sinal de que aquilo é uma representação do real. Então nós agimos diante do mundo com base nessas ficções, sendo que a imprensa, na época que o livro foi escrito, era o principal veículo para elas. Daí que o Walter Lippman, em 1920 (!), escreveu que o grande problema da imprensa era que ou as pessoas desacreditavam totalmente no que ela dizia, ou então acontecia o contrário, todo mundo acreditava cegamente no que era veiculado ali, sem pensar que uma representação é uma imagem do real, e que essa imagem pode muito bem ser construída.


O problema não está no veículo, mas na forma como nos relacionamos com ele. Isso vale para a internet. Para termos um relacionamento mais saudável com a rede mundial de computadores e todos os trilhões de imagens que ela nos atira na cara o tempo inteiro, precisamos tirar um tempinho para conversar sobre ela. Quem produz conteúdo, principalmente quem depende do público e ganha dinheiro com ele, possui a obrigação de ser transparente com relação a publicidade e essas coisas, e deve ter senso de responsabilidade com quem está do outro lado. Além disso, penso que é uma pena que com tanta coisa chata e inútil na escola não exista nada no currículo dos estudantes que os ensina a pensar sobre informação, mídia, poder e o processo por trás dessas coisas que fazem parte da nossa vida cotidiana e possui tanta influência sobre ela. Taí uma matéria que eu gostaria de ministrar.

4) 01 reflexão 

É preciso ter empatia. A gente costuma achar que empatia diz respeito apenas a se colocar no lugar do outro para ser mais gentil com ele, mas também diz respeito a VER (LEIAM AMANDA PALMER) o outro como um ser humano como você. Que edita as próprias fotos 35 vezes, em três aplicativos diferentes, até achar ela boa o suficiente para postar. Que limpa a mesa e esconde o guardanapo sujo antes de fotografar a sobremesa. Que não está feliz o tempo inteiro, que chora no banheiro escondido, que acorda de mau humor, às vezes faz chapinha, incha quando está menstruada, tem medo da morrer e um milhão de questões mal resolvidas. Você não está sozinho. Tá todo mundo mal. Vamos nos lembrar mais disso?

Too long didn't read:
Posso ser otimista, posso não ter entendido nada, mas acredito que com diálogo, transparência e educação a gente consegue sair dessa. E, como meus pais diriam, senso crítico também, pelo amor de Deus.

> Eu realmente não estou interessada em discutir o caso específico da Essena O'Neill. Meu ponto aqui não é sobre ela especificamente, mas sim a cultura em que ela (e nós também) está inserida. Então pra mim não faz diferença o argumento que ela discursa contra a internet, mas está usando ela para promover seu outro projeto. Deixa ela, ué. O ponto levantado não deixa de ser válido (e o desdobramento da história não anula meu ponto);

>> Esse caso realmente me fez pensar e desde o início da semana já mudei de opinião várias vezes. O post foi uma tentativa de organizar o que eu estava pensando e contribuir para a conversa que está rolando a respeito, por isso queria muito saber o que vocês pensam a respeito;

Alguns links para saber mais

domingo, 9 de agosto de 2015

Pai herói

Estava com meu pai num restaurante e pela janela vimos um homem colocar um bebê dentro do porta-malas do carro. Tivemos os mesmos 30 segundos de susto, você tá vendo o que eu tô vendo?, mas logo veio o entendimento: lógico, ele vai só trocar a fralda da criança. Claro. Que loucos que somos. Risos.

"Esse aí é herói, viu, tem o meu respeito", meu pai disse. Eu, com minha faca sempre na bota, direto do meu palanquinho de indignação, respondi direto: uai, herói por quê? Por fazer o papel dele? 


Meio ofendido e meio fazendo graça, papai começou a falar que ele sempre achou que pai tinha que participar, e que ele sempre fez questão de se fazer presente na minha criação. É verdade. Meu pai sempre foi pai herói, desses que viram personagem em matéria de dia dos pais. Quando eu nasci, minha mãe dava aula à noite e quando ela voltou a trabalhar meu pai ficava comigo, sozinho. E eu chorava. Chorava, chorava, chorava. Ele me deixava abrir todas as gavetas da cômoda e tirar tudo que tinha lá dentro, várias vezes por noite. Me levava pra andar de carro. Chorava junto, até, mas aguentava o tranco. Quando meus pais se separaram, continuei vendo meu pai todos os dias, e mesmo agora, quando já não sobra tempo pra nos vermos tanto, ele saiu do trabalho no meio da tarde pra estar na minha banca de TCC, e um dia nem foi trabalhar pra me ajudar com o livro. 

Meu pai não leva meu feminismo muito a sério, e uma vez perguntou, meio brincando e meio sério, se eu estava me tornando dessas que levanta bandeiras, como se isso fosse algo ruim. O que ele talvez não saiba é que ele é responsável por várias dessas bandeiras, por ter me criado de uma forma que eu me sentisse completa, amada e amável, segura de mim, do meu corpo e do meu valor - e com vontade de brigar por um mundo em que todas as mulheres possam se sentir assim também, daí as bandeiras.


Eu reconheço tudo que meu pai faz e sempre fez por mim, agradeço a Deus todos os dias por ele, por isso. Mas, ao mesmo tempo, fico pensando: não é assim que tem que ser? Não devia ser privilégio ou exceção ser filha de alguém presente - física e emocionalmente. Afinal, uma mãe que faz tudo isso nunca faz mais que a obrigação. Mãe é mãe. Quem pariu Mateus que o embale.

Mas pera: se Mateus (?) foi parido, é porque ele foi feito. E filho nenhum se faz sozinho. 

As pessoas reconhecem, amam e agradecem às suas mães por tudo que elas fazem, mas mães maravilhosas são aquilo que é esperado pela sociedade. É o ~mínimo~ que se espera. "Conheça a história da incrível mãe que trabalha fora e não perde uma apresentação de balé da filha", já viu isso ser manchete em algum lugar? Mas da mãe que não tem tempo de buscar os filhos na escola porque está trabalhando todo mundo fala, todo mundo lembra.

Aos pais toda falha e ausência é perdoada. Talvez perdoada seja uma palavra muito forte, mas as pessoas aceitam. Talvez é até o que se espera deles, diria a turma do é-assim-que-as-coisas-são. Afinal, é homem, né? Homem não nasceu pra cuidar da criança. Homem não tem mesmo que ficar correndo atrás de menino. Onde já se viu, homem dando banho nas crianças? Comida na boca? Deus me livre, imagina a confusão se o homem for pentear o cabelo da filha! Colocando comida na mesa já tá tudo certo, o resto a mãe dá conta e ele ajuda de vez em quando, quando precisa. Bom demais. 

Pai ausente vira herói se um dia acorda fazendo o mínimo, mas se a é mãe que decide ir ali comprar cigarros, pode ser que ela volte, pode ser que ela só tenha mesmo ido ali na esquina e se demorado, pode ser que ela volte correndo. Não importa. Ninguém esquece. Não que eu esteja lutando pelo ~privilégio~ de poder abandonar um filho por aí, só estou questionando o duplo padrão. Sempre ele. Vocês entenderam. 

Aliás, questiono muito também nossa cultura de celebrar as pessoas por serem minimamente decentes. Tipo político que adora bater no peito e dizer que não é corrupto. Parabéns? Não sou racista, não sou homofóbico, não chuto cachorro. Que legal, colega, quer uma estrela dourada do lado do seu nome? É o mínimo que a gente tem que esperar de qualquer pessoa. Cuido do filho que fiz. Arrasou campeão?


De novo, não acho que o caminho seja minimizar os feitos e sacrifícios dos nossos pais. Meu pai é, sim, meu herói, mas não queria que ele fosse visto como herói pelos outros, porque isso significa que homens como ele ainda são exceção, quando devia ser regra. Homens como ele, quando vão até o carro trocar a fralda das crianças, passam primeiro por psicopatas e depois por pais. Mais fácil o cara estar sequestrando um bebê do que improvisando um trocador. Isso não é muito, muito triste?

Esse post não tem conclusão, é só um apanhado de questões que me surgem sempre que penso na minha relação com meu pai. Porque eu lembro que nem todos são iguais a ele, e tem algo de muito errado num mundo assim. Não acho que todos os pais ausentes (seja física, emocional ou financeiramente) sejam pessoas necessariamente ruins, muito menos maus pais: vivemos num mundo onde se exige muito pouco deles. É normal. Não devia, mas é.

Se for pra falar de heroísmo, que se fale então dos dois, pais e mães, de sangue ou não, e todas as pessoas que dão o seu melhor pra criar seres humanos bons, numa esperança de que o mundo tenha mais gente bacana. Acho que a situação no presente é melhor do que no passado, e quanto mais falarmos nisso, mais pais conscientes do seu papel de verdade vão vir por aí. 

Pelo menos é o que eu espero, porque eu quero muito ter filho e não vou me contentar com nada menos do que um pai como foi e é o meu pra mim. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

21 coisas que eu aprendi com 21 anos

Ontem foi meu aniversário de 21 anos. Eu não gosto muito de fazer aniversário, os dias antes dele são sempre cheios de ataques de ansiedade e angústias existenciais, e esse ano não foi diferente. Mas agora que já passou - e, honestamente, eu tive um dia bem legal - resolvi fazer essa lista reunindo pequenas sabedorias mais ou menos sérias que acumulei nessa pequena porém enfastiante (e maravilhosa) jornada na Terra, a maioria delas graças às pessoas incríveis que passaram por mim - espero que elas possam se ver um pouco nessa lista, e em mim também.


O post foi inspirado em textos da Stephanie, do Gregório, e nesse vídeo da Isabel. Os gifs são todos de Parks and Recreation, porque a série acabou essa semana e uma coisa que eu definitivamente não aprendi ainda foi a dizer adeus.

1 - A rir de mim mesma sempre que for possível, e rir com os outros o tempo inteiro - e dos outros também, mas só um pouquinho. 

2 - Fake it until you make it: o melhor jeito de enfrentar uma situação desconhecida é agir com uma arrogância segura de quem sabe o que está fazendo. Você pode até fazer errado, mas a maioria das pessoas não vai perceber e, no fundo, ninguém sabe realmente o que está fazendo. Aprendi isso com a Sylvia Plath e levei pra vida;


3 - Ser introvertida não é um defeito, então não tenho motivos para pedir desculpas por ser assim ou achar que devo mudar o jeito que eu sou. Tampouco é uma qualidade, o que significa que isso não me faz melhor do que ninguém. Ser introvertido ou extrovertido é só uma característica, como ser mais alta ou mais baixa - bom em algumas horas, ruim em outras. 

4 - Eu sou uma pessoa privilegiada. Eu tive oportunidades na vida que muitas pessoas não têm, e devo ser grata a elas e aproveitar o máximo que eu posso. Eu tenho dois braços, duas pernas, um coração e um cérebro que funcionam, tenho uma família que me apóia e que desde que eu nasci fez de tudo para que eu pudesse ter o maior número de escolhas possível. Eu tenho direitos que muita gente não tem. Não posso me esquecer dessas coisas porque quem ignora os próprios privilégios esquece que o mundo lá fora não é igual pra todo mundo, não é tão bacana, e que muita gente simplesmente não têm escolha. 

5 - Tudo bem errar. Tudo bem admitir que pisou na bola e pedir desculpas. Tudo bem reconhecer que não dá, não deu, não vai dar - e aí voltar três casas, ou dar meia volta e escolher outro caminho. Tudo bem mudar de ideia e de opinião, tudo bem jogar a toalha e concordar que, realmente, poxa, não é bem assim, você tá certo e eu não. Tudo bem bem admitir que não dá conta. Tudo bem perder. Mesmo no Scrabble e no Imagem Em Ação. Viu? (ainda estou aprendendo)


6 - As coisas acabam e isso não é sempre uma tragédia. Não é porque acabou que não foi bom, não é porque era bom que tinha que durar pra sempre. 

7 - O segredo pra lidar com os outros não é agir da forma como você iria querer que o outro agisse se fosse com você. O segredo para lidar com os outros é ter empatia e saber se colocar no lugar da outra pessoa e entender de verdade por que ela é assim ou assado. Sério, nem sempre aquilo que você escolhe é o melhor pra todo mundo. 

8 - Não existe um jeito único jeito certo de levar a vida porque ela não tem uma única narrativa possível. A gente precisa parar de usar a experiência dos outros para validar a nossa própria vida porque a nossa vida é só nossa e não existe outra no mundo igual a ela. Como todas, minha mãe sempre disse que eu não sou todo mundo, e não é que (óbvio) ela tava certa? O Renato Russo também: temos nosso próprio tempo.

9 - Só acreditar na força do (meu) trabalho pra conseguir o que eu quero. Quer dizer, só contar mesmo com a força do trabalho. Posso acreditar em Deus (eu acredito), em signos, na sorte e na terapia dos cristais, mas preciso fazer minha parte, pelo amor de Deus. A sorte é traiçoeira, mas o azar, esse é leal. 



11 - É melhor ser gentil do que estar certa e isso inclui ser gentil comigo mesma ainda que eu ache que não mereça.

12 - Não existe isso de mulher de verdade, mulher ideal, mulher perfeita. Não estamos numa luta entre nós contra as outras. Estamos todas juntas nessa barca furada e poucas coisas são tão bonitas quanto viver essa coisa linda que é ser mulher do lado de outras mulheres maravilhosas. 

          


13 - Quem quer vai atrás.

14 - Ninguém tem o direito de dizer o que que eu posso ou não fazer com o meu corpo, e eu não devo fazer com ele (ou deixar de fazer) coisas só para agradar alguém. Ninguém tem o direito de dizer que eu não posso usar alguma coisa que eu tenha vontade, muito menos de fazer com que eu me sinta mal por gostar (ou não) de alguma coisa.


15 - Eu não estou perdendo a minha vida se eu escolhi ficar em casa lendo porque é isso que eu gosto e é isso que eu quero. Eu não estou me perdendo na vida se escolhi sair da festa só depois de ser expulsa às sete da manhã.

16 - A coisa mais idiota que existe é acreditar em guilty pleasures ou que é preciso ter vergonha de gostar de algumas coisas. Gostar de pagode só te transforma em única e exclusivamente numa pessoa que gosta de pagode. Gostar de Balzac só te transforma em única e exclusivamente numa pessoa que gosta de Balzac. Da mesma forma, tudo bem admitir que não gostou ou não entendeu aquilo que já está pré-estabelecido. Eu também não faço a menor ideia do que o Bergman está falando.


17 - É muito bom ter com quem contar e é importante saber que existem pessoas ao seu redor que estão de fato dispostas a segurar a barra com você. Não é fraqueza admitir que precisa de ajuda, e um dos melhores sentimentos do mundo é se apoiar em alguém pra levantar.

18 - Não mentir pros meus pais, não tentar esconder as coisas deles, e sempre deixar que eles saibam onde eu estou de verdade. Quando eu estiver longe, ligar sempre que possível. Não perder a oportunidade de passar um tempo com meus avós.


19 - Poucas coisas são tão corajosas quanto agir com o coração. Eu tenho uma essência, todo mundo tem, e quanto mais fiel a gente for a ela, mais tranquilamente vamos deitar a cabeça no travesseiro todas as noites.

20 - As melhores coisas da vida não são coisas. Eu provavelmente não preciso daquele sapato, mas se depois de uma semana ainda estiver pensando nele, é melhor ir lá comprar. Gastar dinheiro com comida e passagens aéreas não é gastar dinheiro, é investimento. Me permitir sair pra comer num lugar bacana de vez em quando, seja pra comemorar alguma coisa ou só porque deu vontade. E não ficar pensando na conta depois. Pagar uma bebida ou um café pros amigos e aparecer na casa dos outros com um bolo, sem grandes motivos. Perguntar se minha mãe quer algo da rua. 


21 - Nunca ter vergonha de me importar demais com as coisas e me permitir empolgar, por mais idiota que seja. Não perder a oportunidade de cantar na rua, dançar pela casa, ou dormir de conchinha. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Sobre registrar, dirigir e esquecer: uma história sobre o show do Arctic Monkeys

Eu já tinha desistido de escrever sobre o show dos Arctic Monkeys porque fiz exatamente aquilo que eu sabia que iria fazer, mas mesmo assim me permiti acreditar que dessa vez seria diferente: deixei passar o calor do momento. E, não sei como funciona para vocês, mas acredito no calor do momento como fator de suma importância quando quero escrever algo numa pretensão besta (que me é, porém, muito cara) de fazer com que quem leia se sinta exatamente como eu me senti -- naquele momento, no seu calorzinho gostoso. 

Só que na sexta-feira passada eu estava em um bar com meus amigos, já na fila para pagar, quando começou a tocar Mardy Bum. Foi como se as quase três semanas que me separavam do show tivessem sumido pelos ares e eu estivesse de novo virando geleia ao ouvir aquele "Well, now then Mardy Bum..." sair da boca do Alex Turner. Naquele dia 13 a música foi tocada na guitarra acústica, só a primeira parte, por um Alex com uma voz tão mais grossa e diferente do que aquela que a gente ouve no Whatever People Say I Am, That's What I'm Not (e isso é ótimo!), que me deixou ir embora pra casa sem o solo que eu tanto queria, e sem a redenção da parte em que ele diz "But I can't be arsed to carry on in this debate that reoccurs, oh when you say I don't care, BUT OF COURSE I DO, YEAH, I CLEARLY DO!". 

Ou seja, foi diferente do que eu esperava, bem menos do que eu queria, mas mesmo assim ouvir aquela música de novo me levou de volta pr'aquele momento, e dessa vez foi perfeito (como tinha sido desde o começo, apesar do jeito torto) e quando a moça do caixa me perguntou se era crédito ou débito a primeira coisa que saiu da minha boca foi ar-gu-men-ta-ti-ve. 

Aí eu pensei: dane-se, vou contar como foi mesmo assim.


Tenho por regra odiar e jurar de morte todas as pessoas que ficam fotografando e filmando os shows que assistem. Acho uma estupidez sem tamanho gastar um dinheirão no ingresso para ver o show através da tela do celular, mas isso seria problema só da pessoa se além disso não atrapalhasse quem está por perto. Não é como se numa pista sobrasse muito espaço pessoal para você levantar seu celular e é frustrante pra caramba perceber que o rostinho lindo do gatinho do rock lá do palco foi bloqueado por um pau de selfie inconveniente de alguém da plateia.

Apesar disso, fiz dois vídeos no show do Arctic. O primeiro deles foi logo na abertura, quando gravei um pouquinho de "Do I Wanna Know?" à pedido de uma amiga. O segundo foi quando as pessoas levantaram seus celulares enquanto o Alex cantava "No. 1 Party Anthem" e estava tão claro que era como se as luzes do lugar tivessem sido acesas. Foi lindo, foi sublime, foi algo impactante o bastante para que Mr. Turner saísse do seu transe musical introspectivo para dizer que queria estar no meio de nós. Eu nem pensei, só liguei a câmera, porque sabia que queria guardar isso para ver depois.

E foi o que eu fiz logo quando acordei no dia seguinte, e me senti imensamente grata por ter tido o insight de filmar aquilo, permitindo que eu vivesse aquele momento de novo e de novo, até cansar.

First Person é o tema desse mês da Rookie, minha coisa favorita da internet. Em seu editorial no dia primeiro, a Tavi contou um pouco sobre como é ser uma pessoa constantemente obcecada em registrar as coisas que vive e como funciona a cabeça de quem tenta ser diretora de arte da própria vida. Esse é um dos pontos que mais me fazem identificar com o trabalho dela, essa ânsia por registrar, lembrar, e viver momentos que, no futuro, sejam como filmes perfeitos em nossas cabeças.

Meus amigos frequentemente se irritam comigo pela frequência com que eu tento dirigir artisticamente nossas saídas ao invés de ver onde a noite vai nos levar - A gente pode usar essas cores, andar por essa rua, ouvir essa música? Essa coesão molda o momento e o transforma na cena de um filme. Eu não sei direito como deixar que essas experiências se desenrolem e ser surpreendida pela forma como elas me afetam; eu quero saber que vou escrever os detalhes estéticos daquele dia mais tarde e ficar satisfeita diante de como tudo se encaixa: a gente usava casacos de pele e cachecóis de lã pela Lafayette enquanto ouvia Blonde on Blonde. 
{Tavi Gevinson porcamente traduzida por mim}

O problema dessa documentação é que uma foto, um vídeo e uma gravação nunca vão se equiparar à experiência do presente. A mediação, qualquer que seja ela, transforma a realidade que ela registra numa ficção, ainda que seja um fac-símile perfeito. Parece, mas não é. E fico aqui pensando no que a gente pode estar perdendo enquanto, ao invés de ~aproveitar o momento~, tenta registrá-lo de alguma forma; ou então no quão inútil pode ser acreditar que você vai conseguir capturar aquele instante. É sobre isso que trata o último texto que o Jon Foreman escreveu em seu blog, que eu li hoje de manhã.

O vídeo de "Do I Wanna Know?" não ficou tão legal assim, porque foi interrompido na hora em que um jato de cerveja atingiu em cheio eu e minhas amigas, molhando meu cabelo, minha roupa e até um pouco do celular. O vídeo tem nossas exclamações de nojo quando percebemos que aquilo não era água, e mal dá pra ouvir o que a banda está tocando porque as pessoas estão cantando junto, bem mais alto que o microfone.

Nem passou pela minha cabeça compartilhar esse vídeo, mas esse registro zoado me parece bem mais legítimo quando penso no que foi, de fato, estar lá naquela noite, mais real do que aquele aparentemente perfeito da outra música. 

Por fim, resolvi não subir nenhum deles. São dois vídeos distintos que contam duas histórias diferentes: uma sobre desastre e outra sobre o infinito em um instante. Resolvi escrever esse texto para me lembrar que aquilo que eu vivi se encontra no meio dos dois, porque um show não existe sem bagunça e sem a inconveniência das pessoas (e eu que vi tudo praticamente no meio de uma rodinha punk que o diga) (tinha muito espaço pra dançar e foi realmente tranquilo) (mas eu não recomendaria), mas a gente não seguiria pagando dinheirões por isso não fosse pelos momentos em que o tempo parece suspenso no ar junto com as pessoas segurando seus celulares sobre a cabeça, enquanto o artista cantarola uma de suas músicas favoritas. 

A Tavi defende a documentação, apesar de tudo, porque ela acredita (e eu também) que a gente transforma a vida num filme para cristalizar momentos reais. Nossos filmes particulares são como um greatest hits da vida, e que mal há em querer uma coleção assim? 

Já o Jon Foreman também defende os registros porque o que os legitima é o fato de que, de um jeito ou de outro, nós fomos lá correr atrás dessas experiências. Eles não serviriam para nada se fossem histórias inventadas da nossa própria vida, seriam uma ficção vazia baseada porcamente em fatos reais. E não sei vocês, mas eu não pretendo parar tão cedo. 

No próximo show só espero que eles toquem Mardy Bum de novo, dessa vez inteira.

Mas se registrar é a arte de esquecer, então talvez a arte da vida seja encontrada na sua presente atenção ao momento. Talvez você e eu somos a pintura, o poema, o gravador. Ondas de luz e som passam por nós, e nossa tela responde com ações próprias: experimentando essa alegria e a passando adiante. Então tire fotos das ondas de cor que passam por você. Escreva sobre isso. Grave o momento da melhor forma que puder. Mas saibe que essas ondas que quebram na sua costa não podem ser capturadas por mãos humanas, mas elas nos acenam para que a gente volte para suas águas profundas e navegue nelas novamente. 
{Jon Foreman, vergonhosamente traduzido por mim}

E como eu só falei groselha até aqui, um top 5 dos meus melhores momentos no show, para virar filminho e passar na minha cabeça antes de eu morrer:

  1. Do I Wanna Know? na abertura, cantada tão alto por todo mundo que eu não conseguia ouvir a voz do Alex. Depois de um banho de cerveja, em volta de um monte de gente errada. Mesmo assim. Meu Deus, this is happening!
  2. Arabella, minha música favorita do AM, com todo o louvor do seu solo maravilhoso e Alex dançandinho de braços abertos igual o clipe;
  3. No. 1 Party Anthem iluminada pela luz dos celulares;
  4. Fluorescent Adolescent encerrando a primeira parte do show. Pulei e gritei tanto que achei que fosse realmente morrer;
  5. Dobradinha de Mardy Bum e RU Mine pra encerrar o show, com o refrão repetido 3x depois que a música acabou, e eu pulando em todas quase caindo, existindo com dificuldade, mas sem um pingo de vontade de ir embora.
Hors concurs: essa coisa absurda de linda e deliciosa e errada que é Alex Turner. Mesmo calado, mesmo sem fazer gracinhas, mesmo mudando minhas músicas favoritas. Esse homem deitou no palco na minha frente e foi maravilhoso por 90 minutos, com licença. 

Se eu vou superar Alex deitado: jamais (Foto)


























*Eu disse que ia contar sobre como foi o show mas acabei viajando na maionese. Escrevi uma resenha mais ou menos séria sobre ele pra outro site, caso estejam interessados: Arctic Monkeys na HSBC Arena no Rio de Janeiro;
* Os textos da Tavi e do Jon merecem ser lidos na íntegra e no original, não deixem de fazer isso: First Person e Recording Is The Art Of Forgetting - Enjoy Yourself. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A gente sempre vai ter Paris

Ingrid Bergman não fica com Humphrey Bogart no final de Casablanca.

Querido leitor, se acalme, isso não é um spoiler. Quer dizer, tecnicamente é sim, mas sério, eu estou falando de um clássico de 1942. Quem viu, parabéns, quem não viu, eu juro que saber do fim não vai mudar nada. Eu mesma só quis ver Casablanca porque em Harry & Sally os personagens perdem um bom tempo discutindo justamente esse final, e o fato concreto do casal não terminar junto importa bem menos do que as motivações para eles ficarem separados.

Um breve contexto: estamos na Segunda Guerra Mundial, e Bogart e Ingrid se conhecem em Paris. Eles se apaixonam perdidamente e combinam de viver esse tórrido romance sem fazer muitas perguntas (e havia boatos de que filmes antigos eram bobinhos, diz Ilsa Lund jogando o cabelo pra trás e dando gostosas risadas), porque esses amores de alma transcendem conhecimentos banais de trajetória pessoal, traumas de infância, passagens na prisão e fatos relevantes dos últimos cinco anos. Quando a França é ocupada pelos alemães, os dois combinam de fugir juntos, mas no dia D a Ingrid simplesmente não aparece, e Bogart se manda sozinho e amarguradíssimo para Casablanca. 

Anos depois eles se encontram, porque o passado sempre volta pra nos atormentar, e depois de ofensas, rancores e muita torta de climão, aquele desentendimento do passado é desfeito, os erros são perdoados e eles resolvem ser felizes pra sempre de novo. Até que, como vocês já sabem, eles não são. Na despedida, Humphrey Bogart, com toda a sua exuberância, todo o seu charme e toda a sua canastrice perfeita que Zé Mayer sonha em emular porém nunca será, ele diz uma das frases mais icônicas do cinema americano: we'll always have Paris. 



Em bom português: o que foi nosso ninguém tasca. O amor deles vai viver pra sempre na lembrança daquele idílio parisiense e esse é o máximo que a vida pode lhes oferecer. Eles viveram aquele romance descolados da pessoa que eles eram e toda a complicação que isso acarreta, mas não se pode fugir da realidade pra sempre. Então eles seguem seus rumos separados, porém com o coração tranquilo sabendo que o amor deles vai viver pra sempre, aquele eterno enquanto dure encapsulado num desses globos de neve, pra sempre guardado na estante da memória. 

Eu tenho um problema muito grande com fins. Odeio despedidas, fico deprê no fim do ano, em festas de formatura, e sou dessas que chora em festinha de fim de semestre. Eu demorei anos pra assistir ao último episódio de Friends, ainda não terminei House e sempre postergo as cinquenta últimas páginas de um livro que eu esteja gostando demais. Eu guinchei de chorar assistindo Toy Story 3, um filme que simplesmente nos força a despedir da nossa infância, e nem preciso dizer o que aconteceu quando eu assisti ao último filme do Harry Potter no meu último ano de ensino médio.

É um alívio pensar que tudo nessa vida passa quando se tem em mente as coisas ruins, mas as boas também passam e isso é desesperador. No entanto, uma amiga querida, depois de terminar um relacionamento de seis anos, me disse uma coisa muito forte: as pessoas ficam tristes porque a gente terminou como se a gente não tivesse dado certo; mas não é porque acabou que deu errado, acabou porque as coisas mudaram e tinha que acabar. 

Coincidentemente, pensando sobre isso, me deparei com esse texto ótimo da Isadora no qual ela defende a tese de que relacionamentos são narrativas, e por isso tem começo, meio e necessariamente um fim. Essas ideias ficaram na minha cabeça por semanas, meses, me fizeram acreditar que eu devia escrever um livro sobre isso. Me atormentaram pacas e me fizeram confrontar todos os fins da minha vida, até que eu revi Casablanca e entendi que nada é pra sempre, porque a gente não é pra sempre. 

Não estou falando isso porque vamos todos morrer mesmo (mesmo tópico, outra longa história), mas porque a gente muda, eis um fato, e o nosso mundo muda junto com a gente, eis uma consequência. O felizes pra sempre tem muito mais a ver com a ideia de continuidade do que com uma eternidade concreta, imóvel e imutável. Se apaixonar todos os dias não pela mesma pessoa, mas pelas diversas pessoas que o outro se torna ao longo da vida. As time goes by. 

A minha primeira melhor amiga de verdade saiu da minha vida de forma tão espontânea quanto entrou. Não teve briga, babado, confusão, muito menos gritaria. É bem verdade que ela mudou de escola, mas a gente continuou a se ver nos fins de semana e nas aulas de inglês, até que um dia eu percebi que não suportava mais ficar com ela porque ela era outra pessoa, e eu também era outra pessoa, e essas duas pessoas não tinham mais motivo para serem melhores amigas, ou até mesmo amigas banais. 

Foi totalmente indolor e nada dramático, e sei que infelizmente sei que não é assim sempre, pra tudo, muito menos pra todo mundo. Mas, outra sabedoria importante vinda daquela cena final de Casablanca, é que logo depois da emblemática frase sobre Paris, vem a cereja do bolo: We didn't have, we, we lost it until you came to Casablanca. We got it back last night. 


Em bom português: só acaba quando termina. A gente precisa confrontar nossos fins, abraçá-los e perdoá-los, para garantir nossa Paris particular, para eternizar lembranças num globo de neve - ou então pra queimar tudo de uma vez e não deixar nem as cinzas pra contar a história. Enquanto ignorarmos solenemente tudo que mudou e tudo que acabou, sempre vai ficar esse ranço, esse Bogart estagnado em Casablanca tomando vodka sozinho de madrugada.

Tenho pensado muito sobre isso nos últimos tempos, e aberto de novo várias portas que eu jurava trancadas, com a chave jogada fora. Assisti o último episódio de Friends, penso cada vez mais naquele livro, e estou tentando fazer as pazes com um monte de fins. É como diz aquela crônica: o amor acaba pra começar de novo em todos os lugares a qualquer minuto. Mas não se enganem: ele tem que acabar.


A gente sempre vai ter Paris.  

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A problemática da internet

Não entendo de política como eu gostaria, nem o suficiente pra me sentir confortável em expor minhas opiniões sobre o assunto o tempo inteiro, porque sei que sempre vai ter alguém que irá fazê-lo com mais desenvoltura do que eu. Eu gosto muito de saber que sempre tenho mais pra aprender sobre isso, e embora alguns dos meus posicionamentos passados hoje já não tenham nada a ver comigo, e até me envergonhem um pouco, fico orgulhosa de mim por ter aprendido o suficiente pra mudar. 

Sou gente de humanas desde o ensino fundamental, e se eu já tinha um pendor para a subversão, como meu pai colocaria, foi a universidade que me ajudou a transformar achismos e simpatias pessoais em argumentos coerentes, embasamento histórico e referências bibliográficas. Não que a gente precise de uma formação acadêmica pra ter qualquer opinião sobre política, mas eu tenho essa inclinação pros livros e costumo resolver minhas questões com artigo científico e consulta aos autos da biblioteca. 

Sim, minha vida universitária contribuiu muito pra minha formação, mas outra fonte responsável por uma educação constante e bem eficiente foi a internet. Não por meio de cursos online ou nada tradicional assim, mas pela troca de ideias com as pessoas, em grupos fechados, convívio nas redes sociais e às vezes até mesmo textão no Facebook, quando sobra paciência. A internet é uma fonte inesgotável de zoeiras e mina nossa produtividade de jeitos infinitos, mas acho muito ingênuo pensar que ela serve só pra perder tempo. 

Vejo gente muito competente na frente de blogs sobre coisas sérias e outras não tanto - mas Deus me livre ser séria o tempo inteiro - compartilhando experiências e coisas que aprendeu por aí, e muita gente disposta a discutir e debater questões caras dentro de espaços como grupos no Facebook. Cinema, feminismo, políticas públicas, futebol e literatura: tudo tem seu espaço, e se hoje sei explicar o que é um tapetão, defendo o Bolsa Família, políticas de cotas, a descriminalização do aborto e sempre bato o pé e encho o saco quando vejo personagens femininas subaproveitadas em filmes, livros e séries, é muito mais por conta do que aprendi na internet nesses anos do que já li em qualquer capítulo de livrão disponibilizado por um professor no xerox da esquina. 

Por essas e outras que eu sempre defendo a internet e gasto a maior saliva com qualquer pessoa que pense que ela é sinônimo de propagação de mentiras e procrastinação. Acho que, se não fosse pela internet, nem na faculdade de Jornalismo eu estaria, e às vezes acreditaria que essa coisa de escrever fosse uma mania passageira. Aqui eu aprendi sobre feminismo, samba e easter-eggs de Breaking Bad, e foi aqui também que eu conheci gente maravilhosa e fiz amigas com quem hoje eu rodo o Brasil, vivendo altas aventuras.

A internet, como qualquer outro espaço no mundo, é um lugar de pessoas. A única diferença é que a gente pode selecionar quem está perto da gente e até esquecer quem não tem nada a ver. No mundo real eu também só ando com quem eu quero, mas ainda tenho que conviver com chefe, parentada, colega de sala, vizinho que fuma na sacada e o escambau. Na internet eu posso dar mute ou unfollow se não quero ouvir o coleguinha fazendo live do jogo do time dele duas vezes por semana, do mesmo jeito que tenho todo o direito de não me sentir obrigada a ver discursos de ódio ou meme engraçadão do TV Revolta no meu feed. Na internet o mundo é filtrado e me mostra aquilo que eu quero, e não sei até que ponto isso pode ser produtivo. 

Com essa liberdade a gente segue um fluxo específico e de repente estamos sentados numa rodinha maravilhosa só com pessoas maravilhosas que dividem conosco os mesmos, ou pelo menos a maioria, de interesses maravilhosos. Acho delícia entrar no Twitter e ver que as pessoas que eu sigo, assim como eu, são igualmente interessadas em debater como o Vicente, da novela, tem cara de quem beija bem, e em troca de ideias sobre o marco civil da internet. No meu espaço da internet todo mundo é a favor da descriminalização do aborto e ninguém compartilhou links das fotos das atrizes que vazaram. Minha bolha da internet lê e defende young adult, brincou horrores na época da Copa, e achou lindo a Lu Genro peitar o Aécio no último debate.

O negócio é que às vezes eu me sinto tão à vontade nesse mundinho que esqueço que ele não passa disso: uma bolha. Uma ilha da fantasia descolada da realidade. E às vezes eu sou forçada a lembrar que o mundo, e em especial o Brasil, é ridiculamente maior que tudo isso. Porque é tão confortável viver nesse mundo supimpa que pouco me confronta e só me acrescenta, é tão mais fácil trocar ideia com quem eu tenho uma meia dúzia de ideias em comum e acreditar que tá tudo bem, que agora vai. É bem menos desgastante viver essa realidade composta por elementos que eu mesma selecionei e organizei, numa curadoria bem cuidadosa que reuniu tudo que eu mais prezo.

No entanto, é preciso lembrar que existe um mundo inteiro lá fora, muito mais complexo do que supõe minha vã filosofia, e a gente não chega muito longe se não abrir a janela pra entendê-lo melhor. O dia de ontem foi um choque bem dolorido de realidade pra mim, que acordei entusiasmada para votar e cheia de esperanças num mundo melhor, e fui dormir magoada ao ver que, opa, não era bem assim. Uma vez, conversando com algumas amigas, comentei que o mal de ser gente de humanas é que a gente se perde no nosso mundo, se cerca de gente de humanas, e acha que o mundo inteiro é um grande centro acadêmico. 

A ironia das ironias é que, na universidade, sempre que vou defender meus projetos, me amparo no Gay Talese e sua lição, eternamente gravada em mim, que pra ser um bom jornalista é preciso gastar a sola do sapato. O meu verso favorito de uma das minhas músicas preferidas diz que we've got information in the information age but do we know what life is outside of our convenient Lexus cages? Fico até com vergonha desses meus lapsos de ingenuidade quando penso que já vi essas lições antes, mas é sempre bom e absolutamente necessário relembrar. 


O mundo é muito maior que isso, o mundo é muito maior que a gente, e o Brasil está aí inteirinho do lado de fora, contraditório, desigual e fascinante, pra ser entendido e conhecido. Sempre tem mais coisa pra gente aprender e não, eu não vou encerrar esse post com a máxima do Sócrates que está mesmo na ponta da língua, mas fica aí a reflexão.

Em outras notícias, fiz um Tumblr! Sim, outro, sim, eu tô lembrada que aquele lá não deu em nada. Mas fiz um Tumblr pra falar sobre música, pequenas, aleatórias e despretensiosas divagações de quem passa um tempo razoável pensando sobre essas coisas, mas não tinha lugar apropriado pra dividir isso com o mundo. Tá lá: Monólogo em Ré Bemol.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Me serve um café que o mundo acabou

Minha amiga Renata disse que eu sou a única pessoa que ela conhece que dá um pause no dia, na vida, até, pra tomar um café. Ela acha engraçado que eu desvie do meu caminho pra entrar nos lugares com o único e exclusivo objetivo de tomar um café. Eu ignoro bolinhos de arroz, cremes de framboesa, e martínis com cereja, e peço pro garçom bonito me trazer um café e uma água - sem gás, por favor. Simples assim.


Achei engraçado ela dizer tal coisa, porque se sou assim é porque me acostumaram assim. Não sei se é por conta da minha nobre ascendência da roça, ou se é verdade esse papo de que em Minas a Terra gira mais devagar, mas cresci rodeada por pessoas que dão um pause no dia, e na vida também, pra tomar um café. Não inventei nada disso, estranho pra mim é saber que não funciona assim pra todo mundo. 

Na mesma semana que a Renata fez o comentário, apenas alguns dias antes eu coincidentemente teorizava com o Pedro justamente sobre isso. Porque depois do almoço, naqueles dez minutos que meu pai demora pra escovar os dentes e ler um pedaço solto do jornal antes de sair correndo e me levar junto, eu e ele fomos até os fundos da casa pra tomar um café e comer um quadradinho de chocolate na frente da piscina, observando os bem-te-vis criando coragem pra dar um rasante na água e tomar um banho de dez segundos. Éramos eu e ele ali, silenciosamente, com as nossas xícaras de porcelana fina da vovó, dando um pause no dia, e na vida também, antes de começar tudo de novo.


Como se lesse a minha mente, ele soltou: "Eu gosto de café porque ele obriga a gente a parar, sentar um pouco, tomar um ar e não pensar em nada". E sim, é exatamente isso e só uma pessoa com quem eu me dou tão bem poderia entender dessa forma. Você até pode tomar um café enquanto faz alguma outra coisa, todo mundo faz isso e eu também, mas não é a mesma coisa, não é o jeito certo. A gente nunca queima a língua ou suja a blusa e os papéis quando simplesmente para pra tomar um café, já pensaram nisso? 

Parar pra tomar um café é um ato de resistência. É você contra a realidade tacanha, a obsessão moderna por produtividade, as artimanhas do capitalismo, a parte do mundo que é um moinho. Ousaria dizer até, sem medo nenhum de ultrapassar os limites do ridículo da metáfora, que o cafezinho no meio do dia é a desobediência civil inserida no cotidiano do ser humano comum, do trabalhador brasileiro. Eles contam minhas horas e me pagam mal, mas foda-se essa merda toda que eu vou ali perder uma meia-hora com uma xícara de café, um quadradinho de chocolate, e um papo sobre a novela de ontem.


Se os caras de Pulp Fiction pararam pra tomar um café gourmet antes de limpar as vísceras de um homem de dentro de um carro, a gente também pode fazer uma pausa.

E por que logo café? Ora bolas, porque além de ser minha bebida favorita no mundo inteiro, ele fornece uma dose especial da melhor droga lícita que existe, a cafeína, aquela que dissolve o cenho franzido e alivia a dor de cabeça acima dos olhos, a que quando bate em formato de expresso sobe com uma energia gostosa que é quase como o espinafre do Popeye, e ainda exala um cheiro que toma conta da casa inteira e que consegue me tirar da cama antes das sete. Além disso, o café tem a medida exata para durar aqueles providenciais cinco ou dez minutos e é o casamento perfeito para um tabletinho de chocolate, que termina de adoçar o momento. 

Tem essa música do Eduardo Dussek, meu novo ícone excêntrico dos anos 80, na qual ele descreve um cenário do fim do mundo. "Abri a janela e pasmei", canta ele em Nostradamus, ao observar do outro lado alguns prédios explodindo e pessoas correndo. Ao perceber que se tratava de obra de Deus, Nostradamus, alguma força do bem ou da maldade, ele simplesmente encara Carlota, a cozinheira, morta no chão e apela: "levanta, me serve um café que o mundo acabou". 


Ouvi essa música e alcei o cara automaticamente à condição de ídolo, porque gosto de acreditar que se um dia eu acordar e der de cara com o fim do mundo, eu vou é sentar numa poltrona, tomar um café e observar o sol explodir na janela da minha casa.

Agent Cooper curtiu muito esse post