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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Como é que eu vou dizer que acabou?

Para ler ouvindo:


Não escrevo nada aqui há cinco meses e há uns quatro parei de sofrer por causa disso, mas já não tenho vontade de escrever aqui há muito mais tempo. Falar sobre o fim é difícil mesmo quando ele já aconteceu. Eu vou do início:

Há exatamente um ano eu anunciei que faria o BEDA, me propondo o desafio de postar todos os dias durante um mês inteiro. Eu estava trabalhando, fazendo TCC, com problemas em casa, tentando virar adulta e já não tinha mais idade pra isso, mas sem pensar muito eu fui lá e fiz - e foi incrível. Me diverti com o blog como há anos não acontecia e isso só evidenciou como blogar havia se tornado algo que eu fazia muito mais por hábito, muito mais por nem me lembrar direito como era a vida sem ter um blog, do que porque sim, porque é divertido, porque eu quero, porque é tão melhor que todo o resto.

O BEDA foi a festa do divórcio, aquela viagem para Paris que um casal resolve fazer pra tentar salvar o casamento de anos sabendo que na volta eles vão do aeroporto direito pro escritório do advogado, aliviados por já terem começado a fazer as malas. 

Veja bem, a viagem foi ótima: eles passearam de mãos dadas, se beijaram na chuva, transaram com vigor adolescente na segurança de seus corpos adultos que sabem exatamente o que querem da vida e do outro. Foram jantares longos, restaurantes caros, sobremesas finas e vinhos deliciosos. Foi uma extravagância merecida. Ele não pensou em trabalho, ela esqueceu o celular, eles se permitiram dormir até mais tarde e conversar a noite inteira. Paris nunca esteve tão linda, eles nunca se amaram tanto, e isso deixou claro que eles já não se amavam mais. 

Aquilo não era a vida real e um casamento não é feito de viagens a Paris, mas de arroz com carne moída naquela quarta-feira, promoção de vinho, cantoria no carro e o charme daquele velho pijama furado. Se é preciso de Paris para ter graça e amor, é porque acabou. Eles estavam se amando sobre os escombros. 

Eu vou sentir falta daqui como quem sente falta daquele namorado que era perfeito, até que não foi mais. Aquele que a gente lembra com carinho e saudade, mas não se arrepende de ter seguido em frente. Voltar pra ele seria voltar para a pessoa que você era antes, e ela já não existe mais. É por isso que acabou. Eu já não existo mais aqui, como não existo mais na pele daquela Anna Vitória adolescente de 13 anos que um dia resolveu que começaria um blog pra valer. Eu não teria chegado aqui sem ela, mas é hora de descobrir todas as outras pessoas que eu ainda posso ser. 

Por que a insistência em tecer analogias entre o blog e um namoro? Porque junto com três ou quatro amizades, o blog é o relacionamento sério mais longo que eu tive e, como qualquer relacionamento, ele me mudou pra sempre e deixou marcas indeléveis na minha vida. Foi aqui que me transformei em gente que escreve, algo que tenho certeza que vou ser pra sempre. Nos últimos meses minha vida mudou bastante e sinto que tudo que aconteceu é uma consequência direta e indireta de um dia ter começado esse blog. Se fui sozinha para uma cidade enorme e nunca me faltou companhia pra almoçar, jantar e cantar no karaokê, foi porque um dia depois da escola eu sentei na frente do computador decidida a escrever sobre alguma coisa, qualquer coisa, porque sim, porque era divertido, porque eu queria e porque aquilo era tão melhor que todo o resto. Quando me lembro, são anos dourados.

Hoje começa mais um BEDA e várias pessoas legais vão participar. Isso me deixou nostálgica, quase que com vontade de entrar nessa de novo, mesmo que no fundo eu tenha certeza absoluta de que esse barco partiu faz tempo. Não quero insistir nessa viagem e me afogar. É como cruzar com uma pessoa que usa a mesma loção pós-barba daquele antigo namorado e de repente sentir tanta saudade a ponto de pensar em ligar bêbada pedindo pra ele voltar. É sempre desconcertante rever o grande amor.

Então resolvi escrever esse post, porque se eu não falar do fim o blog vai continuar aqui existindo como um blog platônico e acho que a gente merece mais que isso. No fim de semana contei para alguns amigos que faria isso e todos ficaram meio tristes (o que me deixou feliz de um jeito bem vaidoso), mas não sei até que ponto é melhor um final nunca dito, eternamente no ar, do que um ponto final claro e honesto. Já não escrevo aqui faz tempo e todos sobrevivemos. Como diz um dos meus poemas favoritos (hoje estou cheia de referências): seu destino foi curto longo e bom, não o choreis. No que depender de mim ele vai ficar no ar pra sempre, até porque eu virei aqui sempre que quiser relembrar algo especial dos últimos OITO ANOS da minha vida.

Como falei, eu sou e sempre vou ser gente que escreve e continuo escrevendo. Se você gosta e se identifica com as coisas que eu faço, ou se eu sou o tipo de pessoa que você lê pra ficar com raiva, você pode me encontrar em diversos lugares:

> Semanalmente, eu mando um e-mail pessoal esquisito para os assinantes da minha newsletter. Para receber também (são anedotas, crônicas, textões, o que estou lendo, ouvindo, assistindo e alguma foto de animal de roupinha), basta assinar a No Recreio

Qual a diferença disso pra um blog pessoal?, você se pergunta. Nenhuma e toda, eu respondo. É como receber o blog direto na sua caixa de entrada, só que de um jeito mais íntimo, complicado e perfeitinho. Existe uma sociedade secreta bacana, querida e crescente nas caixas de entrada (e a Aline Valek se deu ao enorme trabalho de fazer uma listagem dessas newsletters) e é o lugar que me sinto à vontade para escrever no momento. A newsletter é aquela coisa legal que eu faço porque sim, porque eu quero, porque é divertido e porque é tão melhor que todo o resto - e isso basta. O amanhã a Deus pertence.

> Há três meses lancei com algumas amigas o Valkirias, um site onde a gente escreve sobre cultura pop, feminismo e problematiza o impossível. Você pode conhecer o site, curtir nossa página, seguir a gente no Twitter e assinar nossa newsletter. Se tiver alguma ideia dentro do nosso nicho de interesse, pode até escrever junto com a gente.

> Eu continuo escrevendo na Pólen, porque alguém precisa cultivar o lugar de colaboradora mais enrolada e irresponsável de uma publicação absolutamente adorável.

> Também criei uma conta no Medium, porque um dia eu escrevi um textão que não se encaixava em nenhum outro lugar onde eu costumo publicar textões. Mas Anna você odeia o Medium!!! Pois é, mas às vezes ele se faz necessário. Caso essas circunstâncias se repitam, escreverei lá novamente e vida que segue. A VIDA É COMO UMA CAIXA DE BOMBONS, VOCÊ NUNCA SABE O QUE VEM DENTRO!!!!!!!!

> Todos os dias, o dia inteiro, estou no Twitter escrevendo tudo quanto é lixo que se passa na minha cabeça. Ainda é meu lugar favorito na internet porque todo mundo ali sabe que a gente está nos escombros da rede mundial de computadores e precisamos manter essa locomotiva funcionando. 

> Eu também tenho Instagram, Skoob, Goodreads e abandonei o Snapchat, graças a Deus. Tenho também um portfólio online mais ou menos profissional, caso você, futuro empregador, esteja se perguntando. 

> Eu quero escrever um livro em algum momento. Manterei vocês informados.


Já que estamos falando de amor, deixo vocês com essa conclusão: em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Vejo vocês do outro lado e muito obrigada. Mesmo. Um milhão de vezes. Por tudo que esse blog já me fez ser, crescer e fazer, é realmente inagradecível. E como de praxe, me desculpem por ser ridícula.

Se essa é a lápide desse blog, essas são minhas mensagens finais (são várias, porque eu não sei escolher):

Sentimentos são os únicos fatos

Vamos todos morrer mesmo

O universo está se expandindo

Shakespeare e os gregos já disseram tudo antes

Vai Corinthians

Paz


segunda-feira, 28 de março de 2016

Máquina de lavar

Para ler ouvindo:



A televisão foi a primeira coisa a ser trocada. Nesses doze anos já foram duas. Depois foi o móvel da sala: o antigo agora fica no corredor, dando lugar ao aparador de madeira rústica que minha mãe tanto queria. O sofá ganhou outro forro e as cadeiras também; já é tempo, aliás, de trocar tudo de novo. O microondas foi ideia minha, um dia acordei sismada que o nosso estava emitindo radiação. Não tem como confiar num microondas de mais de dez anos. Já a geladeira foi ideia da minha mãe. A nossa antiga, grande, vazava sem explicação e fazia uns barulhos muito estranhos no meio da noite. Era o nosso bicho papão doméstico, que sempre assustava minhas amigas que vinham dormir em casa. Ela foi substituída por outra, bem menor, que inexplicavelmente abria do lado contrário.

Não tinha nada de errado com ela além disso, mas um dia acordei com uma geladeira enorme me esperando na portaria. Minha mãe sismou que aquela era muito pequena e resolveu trocar. Sobrou pra mim administrar tudo isso, ela esqueceu de me ensinar o que fazer quando entregam uma geladeira na sua casa e obviamente esqueceu também de estar em casa para recebê-la. Não bastasse a geladeira, minha mãe comprou um novo fogão. Eu não pensei que esse dia fosse chegar tão cedo. Nosso fogão era velho, caquético, e só acendia com fósforo, mas segundo ela não se fazem mais fogões desse jeito e comprar outro era assinar um contrato dizendo que ela nunca mais ia passar cinco anos sem trocar o fogão. Depois que ganhamos aquele forno elétrico até parei de me incomodar com o antigo e fiquei até meio triste de vê-lo ir embora, mas não muito. Foi uma mágoa que durou até eu ver que o fogão novo tinha aquela boca gigante no meio, excelente para se fazer um arroz em dez minutos. 

Daí tocam o interfone e avisam: tem um fogão e uma geladeira pra você. Eu não sabia o que fazer. Pedi ajuda pro porteiro, a quem eu peço tantas ajudas ridículas que deve achar que sou meio boba, e ele perguntava as coisas e eu só dizia "não sei". O que vocês vão fazer com as coisas antigas? Não sei. Elevador ou escada? Não sei. Não é mais fácil deixar isso na garagem? Não sei. Onde fica o registro do gás? Não sei moço, nem sabia que gás tinha registro. Olá, meu nome é Anna Vitória e eu sou idiota. No fim das contas o fogão novo foi instalado (o porteiro sabia onde era o registro do gás), o antigo foi para a garagem, a geladeira nova ficou no lugar e a antiga foi pro meio da sala. Depois que eles foram embora comecei a chorar, e até hoje, diante dos desafios da vida, eu e Analu sempre ponderamos que pelo menos não é um entregador de geladeiras surpresa no meio do dia.

No fim do último mês trocamos a máquina de lavar, o último resquício do casamento dos meus pais que ainda existia aqui em casa além de mim. 

Gente, a máquina de lavar. Eu poderia escrever um livro sobre nossa antiga máquina de lavar. Pra começar, desde que me entendo por gente a máquina está meio estragada. Cada dia era uma coisa diferente, mas ela nunca esteve completamente funcional. Minha mãe era a única que mexia nela porque era a única que conseguia fazer com que ela funcionasse. Ela tem essa alavanca que em teoria era só puxar para iniciar a lavagem, mas nada é tão simples quanto parece. Não é força, é jeito - dizem - mas era um jeito tão, mas tão específico que parecia bruxaria. Ou pegadinha. Já consegui fazê-la funcionar algumas vezes, no entanto nunca sabia como e muito menos conseguia repetir o feito. Simplesmente acontecia. Minha mãe era a única que colocava a mão lá como se nada fosse e botava a máquina pra funcionar. Além disso a máquina pulava e fazia barulhos horríveis. E quando eu digo pulava, quero dizer que um dia ela apareceu no meio da cozinha, alagando a casa inteira. Quando digo barulhos horríveis, quero dizer ruim o suficiente para assustar Francisco, o poodle, que não se abala com nada e não apenas latia pra máquina como morria de medo dela. Minha avó passou alguns anos acendendo velas pra que ela nunca explodisse com a gente dentro de casa. 

Minha mãe, no entanto, insistia em repetir o discurso do fogão: não se fazem mais máquinas de lavar como antigamente e comprar uma nova é aceitar que a cada cinco anos (com sorte!) terei que sempre comprar uma nova. Na cabeça dela isso economizava mais dinheiro do que gastar uns 200 reais de dois em dois meses com o mecânico, presença cativa aqui em casa. Seu Raimundo frequenta tanto nossa área de serviço que me viu crescer, de tempos em tempos batendo ponto por aqui, repondo peças, perguntando da escola, a faculdade, não acredito que você formou, o que a máquina aprontou dessa vez? 

Eis que no início do ano minha mãe resolveu: quero uma máquina de lavar nova. Assim, do nada. De repente ela não suportava mais olhar a máquina antiga, tudo era ruim, meu Deus esse barulho, não aguento mais, sua avó está certa, a máquina vai explodir. Coube a mim a missão de escolher uma nova, então eu pesquisei, li mil resenhas, e em três dias sabia mais sobre máquinas de lavar do que soube durante minha vida inteira (o que era bem pouco, pra ser sincera). Poderia citar os prós e contras de uma front load contra uma top load, e até sabia o que diabos era uma front load e uma top load. Pensando em tamanho, energia e preço, escolhemos o modelo, fizemos o pedido e esperamos esse novo paradigma acontecer.

De acordo com o site era pra máquina ser entregue no dia catorze de março, mas ainda era fevereiro quando cheguei em casa e o porteiro disse: tem uma coisa aí pra você. Quando chego na porta de casa, lá está ela, uma máquina de lavar surpresa no meio da tarde. Sem entregador! O que você vai fazer com ela?, perguntou o porteiro. Excelente pergunta, seu José, inclusive queria saber se o senhor tem uma sugestão. 

Seu José me ajudou a colocar a máquina dentro de casa e ela ficou ali no meio da sala até minha mãe resolver o que faríamos com a antiga. Até que foi rápido: Marta, nossa diarista, reivindicou a posse da máquina que ela temeu por todos esses anos que trabalhou aqui, e num dia em que eu não estava em casa (glória) ela foi retirada e a nova foi colocada no lugar com pouca cerimônia. Seu destino foi longo e bom... Não a choreis, diria o poeta.

Já a máquina de lavar nova, que bonita ela é. Coube ao Seu Raimundo as honras de instalá-la, o que ele fez meio borocochô, talvez pensando que não poderia mais contar com o dinheiro quase fixo que ganhava aqui em casa às custas da antiga. Ele me chamou dentro de casa pra me ensinar a mexer, pediu que eu prestasse atenção, só faltou dizer que só ia explicar uma vez. Demonstrou todas as funções daquele painel digital bonito, disse o que a gente podia e não podia fazer, ensinou truques, avisou mil vezes pra não deixá-la na tomada sem necessidade, nunca esquecer o botão de play e pause. Agora tenho uma máquina com play e pause, logo eu, vinte e dois anos lidando com uma máquina que tinha uma única alavanca que eu não sabia puxar. Assentia com a cabeça, entendendo horrores, quando na verdade esquecia tudo tão logo ele ia falando. Depois que ele foi embora fui ler o manual e submeti minha mãe à mesma seção de do's e don'ts, tendo certeza absoluta que ela também não prestava atenção em nada e ia fazer tudo do seu jeito.

Então agora temos uma máquina de lavar de verdade e estou experimentando seus benefícios pela primeira vez, maravilhada, como uma dona de casa de classe média dos anos 50. Por conta de todo o jogo de cintura que a antiga envolvia, a problemática da alavanca, os pulos e barulhos e tudo mais, eu raramente lavava roupa. Eu lavo, você estende, era o que minha mãe sempre dizia, e estender roupas é meu calvário particular. Lavar, no entanto, é uma alegria, me acalma. Gosto de separar as cores e os tipos, usar os ciclos certos, exagerar sem querer no amaciante, ficar ali de cara com a tampa transparente vendo tudo girar, as roupas ficando limpas quase que como mágica, o cheiro gostoso que fica quando elas saem dali. Somos um pontinho azul no meio do nada, poeira das estrelas e vamos todos morrer mesmo, muito provavelmente matando uns aos outros, mas mesmo assim fomos longe o suficiente pra inventar uma máquina que lava roupas. Isso é que é evolução.

Falando assim é como se eu lavasse roupas todos os dias, o que é uma mentira. A verdade é que eu sou metódica, o que me deixa completamente incapacitada de dividir a máquina com a minha mãe. Só uso quando ela viaja, porque tem que ser do meu jeito e eu não suporto vê-la ali apertando os botões sem nenhuma destreza, fazendo tudo como acha que deve, e a gente sempre acaba brigando. Ela, com uma autoridade segura de quem faz isso há anos e sabe melhor, e eu que cheguei agora, achando que sei tudo porque domino o brilhante painel digital. Diante da máquina de lavar reproduzimos a mesma dinâmica desses últimos anos, cada uma a seu tempo deixando pra trás aquilo que não era bom e construindo uma história de novas peças, novos cheiros e programações mais avançadas - assustadas diante de tudo que é novo, porém não menos encantadas com a possibilidade de novos ciclos.

Rápido. Dia-a-dia. Delicado. Cama & Banho. Água quente e fria. Play e pause. Que maravilha é a máquina de lavar.

sábado, 5 de março de 2016

O prego (ou: um discurso de formatura)

Então eu formei. 

O discurso a seguir foi escrito por mim para ser lido na cerimônia de colação de grau, que aconteceu no dia do meu aniversário de 22 anos. Tenho um fraco por discursos de formatura e voltei aos meus favoritos (Neil Gaiman, Jonathan Franzen (sim), Marina Keegan e Rory Gilmore) em busca de inspiração, mas quando vi estava, de novo, falando da Amanda Palmer. Eu não ligo para solenidades, mas naquela noite, cercada de amigos queridos, sendo assistida pela minha família amada, vestindo uma linda beca vermelha, me senti extraordinariamente pronta. Algumas vezes achei que a formatura chegou muito rápido, e em outros momentos parecia que não chegaria nunca. Dia 26, no entanto, senti que tudo aconteceu na hora certa. Foi uma noite muito feliz e gostaria de dividir um pedaço dela por aqui, porque esse blog me acompanha desde o início do ensino médio (!) e sabe Deus onde estaria se nunca tivesse começado a escrever. 

O PREGO
(inventei esse título agora)

Só sei tirar foto sozinha fazendo papel de idiota
Com todo o respeito a essa instituição e a solenidade acontecendo aqui, mas a verdade é que um diploma não significa nada. É só um pedaço de papel, e, como aprendemos em uma ou várias aulas, papel aceita tudo. E se um papel bonito e timbrado num canudo aveludado pode aceitar de tudo, o que dizer a respeito do papel jornal, com sua tinta que mancha nossos dedos, e aquele cheiro típico de peixe que aparece depois de vinte e quatro horas? Dá pra piorar: o que dizer da internet, que além de aceitar tudo, aceita qualquer coisa, de qualquer um?

Nossas mães diriam que a gente poderia ter escolhido melhor. 

No entanto, quatro anos depois, aqui estamos. Jornalistas. Não é um diploma, um pedaço de papel - muito bonito, aliás -, que torna isso mais ou menos real. Quem possui o poder de fazer isso somos nós, cada um no seu tempo. Alguns inclusive já chegaram sabendo, o curso só serviu para sedimentar a certeza. Pode ser que outros ainda precisem de mais uns dias, ou até anos, pra descobrir. Mesmo assim, cada um da sua forma, todos tivemos (ou ainda vamos ter) os nossos momentos - aquele momento - em que simplesmente soubemos: caramba, eu sou jornalista!

Pode ter sido no primeiro dia de aula, ou no último, na defesa do TCC ou naquele em você finalmente pegou o jeito do Scribus. Pode ter sido depois do primeiro chá de cadeira, o primeiro bolo, a primeira fonte desaparecida, o primeiro telefone batido na cara - todo mundo sabe que jornalista é aquela pessoa que precisa falar com todo mundo e com quem ninguém quer realmente falar. Pode ter sido num fechamento do Senso, ou melhor, naquele dia que você sentiu saudades de um fechamento do Senso. Era horrível, mas também era muito bom, né? Caso um dia bata uma insegurança, não se esqueça de que você passou em Teorias I. E II. E PEX. I e II. TCC também, vocês conhecem a história. 

Se alguém aqui ainda não se sente jornalista, basta lembrar das reclamações, porque a gente passou quatro anos - ou mais - reclamando. Dos textos, dos trabalhos, dos prazos, da quantidade de caracteres, das pessoas, das fotos, do alinhamento dos textos, das logos, das pautas, e de novo dos prazos, e mais um pouco das pessoas. Jornalista, aliás, é o primeiro a reclamar de qualquer coisa, principalmente de outros jornalistas, do jornalismo, e da própria condição de jornalista. 

Foi o George Orwell que disse que jornalismo é publicar algo que alguém não quer que se publique, aquilo que incomoda. Todo o resto é propaganda. Nossa profissão é incômoda, para os outros mas principalmente para nós. Ao longo desses oito semestres, aprendemos que quase nada é o que parece e que é muito difícil mudar o mundo. Aprendemos que as pessoas mentem, nem sempre colaboram, e que existe um interesse por trás de tudo. São necessárias umas cinquenta fotos antes da perfeita, matérias legais caem porque alguém não respondeu um e-mail a tempo, tripés são pesados, gravadores falham, caracteres sobram, a internet cai e alguns programas fecham sem salvar o que foi feito. Às vezes as pessoas são horríveis, os ângulos retratados não são honestos, e como o papel aceita tudo é muito fácil construir versões diferentes de uma mesma história e nem sempre vai haver espaço pra nossa voz. A profissão é difícil, perigosa, desconhece feriados, todo mundo sempre acha que é só escrever uns textinhos e dizer boa noite, e o salário ó…

Mesmo assim, de novo, aqui estamos. Por quê? 

Eu precisava muito desse momento, fiquei feliz que não foi preciso implorar por ele
Amanda Palmer, uma artista que já foi stripper, estátua viva, cantora e agora também escreve, contou em seu livro a história de um cachorro e seu dono. Era mais ou menos assim: um homem passa e escuta um cachorro ganindo de dor. Vendo a situação ele pergunta pro dono por que o cachorro está chorando, e o dono responde que é porque ele está sentado em um prego. “Mas então por que ele não levanta do prego?”, pergunta o moço. “Porque ainda não dói o suficiente”, diz o dono. 

O jornalismo é incômodo porque a zona de conforto não é notícia. Outra historinha, que ouvimos algumas vezes em sala de aula, diz que a notícia é quando o dono morde o cachorro e não o contrário. O mundo anda cada vez mais complicado, viver é complexo, e o jornalismo nos leva a ver as coisas de modo a doer o suficiente, porque só assim a gente consegue levantar do prego. E é só levantando do prego que podemos começar a pensar em mudar o mundo. 

Que esse incômodo vindo das coisas que não podemos desver ou ignorar nos possa levar sempre adiante, e que ao levantar do prego possamos ganhar as ruas e estar em contato com histórias reais, de pessoas reais, que nos ajudem a construir mensagens com poder de incomodar tanto os outros, de jeitos bons e ruins, que a sociedade como um todo se veja obrigada a sair do prego, seja ele qual for. E então quem sabe que rumo a vida tomará?

Não é um diploma que nos torna jornalistas, assim como não é uma palavra escrita numa folha de jornal que torna uma notícia verdadeira para alguém. Aprendemos que é a credibilidade faz isso, e acredito que tudo que passamos nos dá crédito o suficiente para nos afirmarmos jornalistas e validarmos aquele pedaço de papel timbrado - e não o contrário. Espero que doa o suficiente.

A última!
- Como todas as fotos bonitas e originais que já estiveram nesse blog, as fotos desse post também foram feitas pelo super Felipe Flowers.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Página 20 de 366

Então esse é o ano novo, diria Ben Gibbard em nossos ouvidos, e eu não me sinto nada diferente, completaríamos cantando, já sabendo de cor a letra da música que se repete em nossas cabeças a cada ano que começa, desde 2003. Eu ainda não sei como me sinto nesse novo ano e esse nem é o primeiro post de 2016 para eu começar o texto assim, cheia de mesuras e apresentações, mas me pareceu estranho não inaugurar o ano oficialmente por aqui - ou talvez eu só esteja com vontade de escrever sobre a minha vida. 2016 já parece durar décadas, muita coisa aconteceu, e não há dia passado em branco na nova temporada da glamorosa (HA) vida desta que vos escreve. 

primeira imagem de 2016: Pedro e eu + Capitolina e Francisco, os cães
No dia 31 eu estava conversando com as minhas tias e decidi algumas coisas. Em 2015 aprendemos que sempre dá pra piorar, mas como não é o ano - é a vida! é a gente! - o grande aprendizado que fica é que 2015 fez o que pôde. Assim, combinamos que 2016 vai ser o que ele puder ser e a gente dá um jeito no resto. 

Com minha outra tia, combinei uma só coisa: não ser histérica. Eu sei que não parece, mas vocês não imaginam o estrago nos nervos que eu consigo fazer fechada num banheiro com o chuveiro ligado. Ela tem essa cara, mas é nervoooooosa, disse um dia minha avó, num contexto completamente não-relacionado. 

Aceitar o que tiver que ser, não surtar. Me parecia uma lista de resoluções ótima, adulta, realista, quase poética. Minimalista. Eu estava bem feliz com ela e comigo mesma até que, no terceiro dia, depois de chegar em casa da chácara onde passei o revéillon, depois de desfazer as malas, banhar e tratar de Francisco, o poodle, eu caí de cama com dengue. Acho que nunca tive algo que me debilitou tanto. Passei os primeiros quatro dias sem sair do quarto, me sentindo tão mal que tinha medo de não conseguir tomar banho sozinha. É uma sensação que não desejo pra ninguém essa de, de repente, perder todas as forças que nos permitem fazer coisas básicas que nunca pensamos no esforço que exigem até não conseguirmos fazer mais. Dengue: sugiro que evitem.

O propósito de não ser histérica foi o primeiro a ir embora, porque durante esses dias de doença a única coisa que fiz foi chorar. Ano passado meu primo fez duas cirurgias no pulmão em menos de dois meses, e só se falava sobre como ele era ótimo paciente, mantendo o bom humor, contando piadas por ser o caso 0,0001% das estatísticas, sorrindo nas fotos da UTI e fazendo palhaçadas. Já eu, com todo esse meu preparo, fui picada por um mosquito e passei cinco dias chorando sem parar e os outros três chorando só de vez em quando. E aí, no primeiro dia que eu acordo sem pensar que estava ou estive doente, o David Bowie morre e toda minha motivação para levantar, lavar o cabelo, escrever, passear com o cachorro e retomar minha vida perdeu completamente a força.

segunda imagem de 2016
O David Bowie era um dos meus ídolos em quem eu pensava frequentemente, sempre grata por ele estar vivo e aparentemente bem. Isso acontecia com uma força particular desde que ele lançou o The Next Day, seu álbum de 2013, que anunciava logo na primeira faixa que ele estava ali, não exatamente morrendo - ao contrário do que muito se cogitou. O Blackstar vazou um pouco antes de 2015 acabar, e foi pra mim aquele lembrete caloroso e reconfortante de que, de novo, ele estava ali, não exatamente morrendo. Ha. Ingênua. Sendo quem é, o Bowie foi lá e lançou um disco para dizer exatamente o contrário: ele estava ali, morrendo, e queria deixar essa mensagem pra gente. Se você ouve Lazarus e não sente arrepiar os cabelos da cabeça até o dedão do pé quando ele canta you know, I'll be free, just like that blue bird, ain't that just like me?  você está MORTO POR DENTRO, SUMA DA MINHA FRENTE.

Vocês me desculpem, mas esse ainda é um tópico que me deixa sensível. Agora me divido entre achar toda essa eulogia que ele preparou para si uma coisa profundamente deprimente ao mesmo tempo que é extremamente genial e iluminada. No resto do tempo queria boletins médicos diários do Paul McCartney, do Chico Buarque, e do Robert Smith, me assegurando de que eles estão bem e não vão morrer nunca.


Mas aqui entre nós, analisando tudo isso pela ótica do meu egocentrismo profundo, talvez tudo isso seja um teste de 2016: aceitar o que ele tiver que ser, não ser histérica - com um lembrete adicional que eu coloquei depois, que é o de lembrar que o importante é ter saúde. É como se algo lá fora (ou lá em cima) quisesse me alertar que ouviu o que eu disse e está de olho. Que bom que ainda tenho um ano inteiro para chegar lá.


Em outras notícias, no dia 13 de janeiro embarquei embaixo de muita chuva para Curitiba, que me recebeu com muito sol (!), para aproveitar as famigeradas férias. Sempre me surpreendo quando consigo, de fato, executar alguns planos que nasceram como desejos da boca pra fora. É uma sensação extraordinária. Porque foi mais ou menos em outubro que eu e Analu dissemos que, de alguma forma, passaríamos janeiro juntas. E não é que deu certo? Foram dias de preguiça, novela, livros e excelentes risadas. Esse negócio de amizade à distância é engraçado porque a gente está acostumada a fazer coisas GRANDES juntas (casar! formar! praia! passeios! curtição! azaração!), mas até esse ano nunca tínhamos ido ao cinema juntas ou saído para tomar um cafezinho banal, sem aquela sensação de que seria um Café importante e épico a ser registrado nos autos da existência.

Não que casamentos, formaturas, banhos de mar e azarações não sejam importantes e essenciais, mas o banal também é muito bom. Como escreveu a Isa Sinaya vida não é feita de viagens a Viena, ela é feita de festinhas de aniversário. E cafés, panquequinhas, cinemas, episódios repetidos de Friends, um jogo bobo de charadas às cinco da manhã. Amigas: sugiro que conservem. E pra não dizer que não fizemos nada (viajei com ordens expressas para que eu saísse, me divertisse beijasse na boca - da senhora minha mãe, que teme pelo meu futuro), deu pra sair pra dançar e eu conheci o James, uma balada que moldou minhas expectativas de adolescência modernete quando há dez anos (!!!) eu cantava King dos Blasé me sentindo muito descolada (oê oê oê eu sou mais indie que você).

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Voltei pra casa no domingo à noite, depois de um intenso chá de aeroporto, prolongado pela chuva em Uberlândia, que continuava firme e forte. Menos de doze horas depois eu já estava de volta ao trabalho, como se meu mês de férias tivesse passado como um suspiro. Quase no fim do expediente descubro que voltei de férias um dia antes da data marcada, ou seja, tinha acordado cedo, saído embaixo de chuva, exausta, com a garganta doendo, sintomas de gripe e o pescoço duro, à toa. Só me resta rir, sintam-se à vontade para fazer o mesmo.

E no vigésimo dia de 2016, é assim que as coisas estão. Vamos aceitar o que tiver que vir, com menos histeria, mas com um chá quente e um Tylenol Sinus, por favor - porque o importante é ter saúde, etc. Esse é o novo ano, e eu prometo fazer o melhor que puder.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Long live


Mesmo com as pernas bambas e a cabeça zonza de tanto dançar, reunimos todas as forças possíveis para ter direito ao pacote completo daquela aventura, que incluía, sim senhores, o sol nascendo de frente pro mar.
Dos melhores dias de 2015.

Começou como uma brincadeira esse negócio de adolescência tardia, lá em fevereiro, no dia do meu aniversário de 21 anos, quando eu matei aula e fui furar um buraco no meu nariz. O piercing, claro, era resultado da angústia existencial pré-aniversário, quando bateu a consciência de que eu faria 21 anos de vida, e depois 22, 23, 30, 50, 60 e, antes que me desse conta, eu estaria morta - e o que eu tinha feito? Logo, fiz um piercing no nariz e dormi mais tranquila. 

Depois dele veio a mecha cor-de-rosa no cabelo, que se tornaram mechas (no plural) cor-de-rosas no cabelo, show da Fresno, minissaias, unhas lascadas, respostas atravessadas, impaciência, música pop, rock depressivo, tédio, mau humor, melancolia, e já era dezembro quando disse em voz alta para a senhora minha mãe que gostaria, por favor, de ficar sozinha no meu quarto vendo vídeos do One Direction. O que aconteceu?

Tenho 2005 como referência de pior ano da minha vida. Nele aconteceram várias coisas ruins que tiveram como resultado o fim da vida como eu conhecia até então, naqueles meus onze anos de indústria vital. Eu não tive essa consciência na hora, mas hoje vejo que foi o ano que descobri que não era mais criança. Ou que não podia mais ser criança. Ou que eu não me permitiria mais ser criança. Ou um pouco de tudo isso. O fato é que eu cresci, não era mais criança, e as pessoas ao meu redor diziam o tempo inteiro que eu deveria ser forte. E eu fui. 

Ninguém acredita que eu sou supersticiosa, na verdade eu acho graça da maioria das superstições, mas tenho meu quinhão de superstições nas quais acredito (sol em peixes, lua em virgem). Por causa delas, logo no ano novo eu tive a sensação de que 2015 seria difícil. Não necessariamente ruim, mas difícil. Porque já tinham se passado dez anos desde 2005 e... é, só por isso mesmo. Não faz sentido, eu sei, mas na minha cabeça existe lógica nisso e foi por isso que antes mesmo de 2014 acabar eu pedi força. Força e saúde, está até registrado aqui pra vocês não acharem que eu invento minhas intuições. Que graça. 

Conversando sobre esse ano com a Analu, concluímos duas coisas. A primeira foi que 2015 foi um ano adulto. Eu comecei a trabalhar, por exemplo. Não que já não tivesse trabalhado antes, mas foi minha estreia num ambiente de escritório, corporativo, ao melhor estilo The Office: folhas de ponto, engolir sapo de superiores e fontes, fofocas na copa, nunca mais sair de short e chinelas em dia de semana. Também lidei com a morte de perto, mais perto do que gostaria, e vi que ela é feia e triste. Não existe romantismo nenhum em morrer. Blue Lily, Lily Blue traz uma citação perfeita que diz que até determinado momento Blue Sargent não acreditava na morte, porque achava que ela vinha sempre acompanhada de certa cerimônia, não era uma coisa que simplesmente acontecia. Mas ela acontece, e o momento em que descobrimos isso divide pra sempre a nossa existência: a pessoa que não acreditava e a pessoa que acredita. Em 2015, virei uma pessoa que acredita. 

No meio desse turbilhão, escrevi um livro e uma monografia, dois trabalhos que são tudo de mim, quem eu era e quem eu me tornei em quatro anos de faculdade. Tenho o maior orgulho deles e deixo a modéstia de lado quando conto pra todo mundo como eles foram entusiasticamente elogiados e avaliados, porque foi difícil, custoso, porque eu dei tudo de mim e fico feliz que isso tenha sido reconhecido no final. Em 2015 me formei na faculdade, aluguei apartamentos, casei uma grande amiga (a primeira!), tive encontros com desconhecidos, desbravei Rio e São Paulo sozinha, vivi minhas primeiras entrevistas de emprego, ouvi os primeiros nãos da minha carreira, e pela primeira vez tive a chance de cuidar da minha mãe, que pela primeira vez precisou de verdade que eu cuidasse dela. 

É por isso que escrevi que tinha virado adulta. Ainda moro com meus pais, vivo de um estágio de meio período, não tirei carteira de motorista e Deus me livre dos entregadores de geladeira, mas é como se uma chave interna tivesse se virado aqui dentro. Como em 2005, em 2015 aconteceram coisas que transformaram minha vida em algo totalmente diferente do que eu conhecia até então,  e eu não faço a menor ideia do que vem pela frente. Não tem como passar por tudo isso sendo a mesma pessoa, e esse ano vivi, descobri e senti tantas coisas que é hora de deixar a Anna Vitória adolescente, aquela que nasceu aos onze anos, pra trás - ou melhor, é hora de reconhecer que esses dez anos e tudo que aconteceu nele nos fizeram outra, e é hora de seguir em frente bancando essa nova pessoa.

(Estou fazendo uma força enorme para não falar em crisálidas e borboletas, por favor valorizem isso)

Mas e aquela história de adolescência tardia?, se pergunta o caro leitor atordoado. Pois é, essa foi a segunda coisa que eu e Analu concluímos: 2015 foi um ano muito adulto, mas também foi um ano muito Speak Now. Sim, estou falando de Taylor Swift, mais especificamente seu terceiro álbum, que saiu quando nossa melhor amiga famosa tinha 21 anos (um minuto para absorvermos esse intenso simbolismo). De acordo com as estatísticas foi o disco que mais ouvi em 2015 e foi de propósito que deixei ele de fora da retrospectiva musical do ano. Porque eu não consigo falar sobre o Speak Now sem falar sobre esse ano, e como vocês podem ver essa é uma reflexão que demanda fôlego. Respiremos fundo, então. 

Para mim, o mais importante que pode ser dito a respeito do Speak Now é que ele é o disco da Taylor Swift que vem mais carregado de sentimentos. Eu sei, todo o seu trabalho tem como base os sentimentos, mas esse é mais forte, intenso, imoderado, com pouco espaço para sutilezas ou meias palavras. Quando ela fala de amor, é um amor urgente, que joga tudo pro alto e se beija na calçada, idealiza sem limitespede pelo amor de Deus que seja o único. Quando ela fala de tristeza e coração partido, é uma tristeza resignada, de quem aceita que perdeu, de quem se conforma com o desamparo de um dia ser amada e no outro não mais. Quando ela fala de raiva, ela cita nomes, tripudia, sua vingança brilha como fogos de artifício, chegando ao ponto de ser maldosa. Quando ela fala de realização, ela fala em coroas, glórias, sobre vencer dragões e dominar o mundo

E eu ouvi essas músicas sem parar, me identificando com elas o tempo inteiro.


Foi preciso muita terapia (e aí eu dou créditos a mim mesma e às longas conversas com minhas amigas, a única forma de análise a qual tive contato nesse tempo) para que eu entendesse que lá atrás, em 2005, eu acreditava que crescer e ser forte era parar de sentir. Ou sentir menos. Ou não deixar ninguém ver que eu estava sentindo as coisas, nem eu mesma. Só nos últimos anos que eu percebi a grande besteira que isso era, a começar pelo fato de que hoje vejo que a força vem justamente da vulnerabilidade, de se permitir sentir tudo o que vier. Não é tarefa fácil e ao primeiro sinal de dor nossa reação é querer se fechar numa bolinha e bloquear todas aquelas coisas que estão te transformando numa massaroca disforme de SENTIMENTOS, SENSAÇÕES, CONFLITOS E DÚVIDAS, mas como já disse Jon Foreman, is when you're breaking down, with your insides coming out, that's when you find out what your heart is made of. 

Parece muito bonito, e às vezes é mesmo, mas talvez seja a hora de buscar terapia de verdade, porque eu também tenho limites e testá-los sozinha é exaustivo.

Minha adolescência foi bem normal e eu só fui entender agora aquilo que dizem sobre essa fase da vida em que tudo é descoberta, entramos em conflito com o mundo, sentimos demais, não sabemos direito quem somos, e nossa opinião sobre as coisas e as pessoas mudam. Acho que eu me achava especial demais para passar por um rito tão mundano (ou só era bobinha mesmo e precisei de uns cinco anos a mais para descobrir isso tudo), mas o fato é que tudo isso aconteceu agora. 2015 foi uma montanha-russa emocional e seria injustiça dizer que foi de todo ruim. A metáfora perfeita vem de Harry Potter: em alguns dias, era como se um dementador tivesse me atacado - me sentia drenada de toda a minha energia e era como se eu nunca mais pudesse ser feliz -, em outros me sentia tão absoluta e plenamente feliz que sabia que se em algum momento tivesse que conjurar um patrono, era àquelas memórias e àqueles dias que eu iria recorrer. Que coisa. Que ano.

Como escreveu a Tais em sua linda retrospectiva, o grande feito de 2015 foi me quebrar toda sozinha - para deixar eu me refazer inteira. 

Depois de tudo isso, como escreveu dessa vez a Anne T. Donahue, fica a sensação de que todos nós merecemos 2016 e o que quer que seja que ele tenha para oferecer. Empreguinhos? Romances? Passagens aéreas compradas em dez vezes no cartão? Não gosto de fazer desejos específicos (superstições, superstições), e estando nessa situação de realmente não fazer a menor ideia do que vai ser da minha vida, eu gostaria que 2016 me apresentasse um caminho, já que passei um ano inteiro reconstruindo minhas pernas. 

À nós, um ano de noites mais tranquilas. Tim tim!


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Still sane

Sophie Moates Design
A Tavi Gevinson sempre escreve sobre esse lugar em Chinatown onde você pode tirar uma foto da sua aura. É algo que ela faz de tempos em tempos, e o aspecto da aura sempre muda: azul arroxeado quando ela está introspectiva, vermelho vibrante logo após um show da Taylor Swift. Se eu tirasse uma foto da minha aura por dia, em todos esses dias em que estive sumida, distante, mais pra lá do que pra cá, teria uma tabela Pantone inteira de cores, emoções e estados de espírito para guardar. Foram tempos estranhos. 

Eu sumi, né? Sei que já escrevi aqui antes que odeio quando dizem que eu sumi, porque, a não ser que eu tenha me enfiado em uma caverna (ou num quarto de hotel), o que ainda não aconteceu, eu não fui a lugar nenhum, os outros é que não se deram ao trabalho de me procurar. Mas acontece que dessa vez eu sumi de verdade. Não para uma caverna ou para o quarto de hotel que eu tanto queria, mas de mim, ou pelo menos de quem eu era antes de 2015, ou antes de abril, ou antes de outubro. Ou talvez eu tenha sumido pra todo o resto porque estava afogada em mim mesma. Dia desses eu cheguei a desenhar um barquinho na mesa, pra ver se ele me ajudava a recuperar o fôlego. 

As pessoas pensam que eu tô brincando quando digo que estou voltando a ser uma pessoa de verdade, mas é isso mesmo que tá acontecendo. Não foi só pela faculdade ou o TCC que eu finalmente terminei, entreguei, defendi e fui aprovada muito bem obrigada (caso você esteja se perguntando), mas por tudo, todas as coisas, boas e ruins, maravilhosas e péssimas, porque a vida pesou no chicote e 2015 foi um ano de extremos. Escrevi aqui também que comigo nunca é uma coisa de cada vez, mas sim ao mesmo tempo, e é verdade - porque tudo se acalmou ao mesmo tempo, e agora eu posso respirar. It's hard to dance with the devil on your back.

Nesse suspiro já coube uma semana de sono quase ininterrupto, que eu abandonava em intervalos regulares quando era extremamente necessário que eu estivesse acordada: para comer e trabalhar, por exemplo, e esses outros pequenos detalhes da vida. Coube um novo corte de cabelo e quase seis horas de áudios trocados com minha melhor amiga, conversando, cantando e chorando, porque ficamos meses sem nos falar de verdade. Coube um livro, o sumiço milagroso da enxaqueca, minhas unhas voltando a crescer, e o fim da lista de todas as provas e trabalhos que me separavam do fim definitivo da faculdade. Mais alguns papéis (sempre tem alguns papéis) e serei jornalista, e durante todo esse ano quando conversava com as pessoas sobre minha inevitável formatura eu sempre dizia: não sei como isso aconteceu. Inclusive cheguei a escrever isso agora, mas apaguei. Mais alguns papéis e serei jornalista, não sei como isso aconteceu. 

Mentira, sei sim. 

Porque segunda, no dia da minha defesa, eu soube. Mal dormi à noite, não comi nada o dia inteiro, gaguejei e esqueci tudo quando fui ensaiar a apresentação junto com a minha orientadora, mas quando chegou a hora, passou. Não sei se foram as orações, a energia boa de quem não podia estar ali mas estava, ou minha própria cara e coragem, mas cheguei lá na frente serena e confiante, ao melhor estilo bring on all the pretenders I'm not afraid. Porque eu não estava com medo mesmo, falei por meia hora sem perceber e não vi ninguém, só meus slides ricamente ilustrados com gifs animados e fotos da Beyoncé (sim). A banca foi linda e especial, um momento em que eu me senti plenamente feliz e realizada, que terminou de botar sentido nesses últimos quatro anos. Eu sei exatamente como isso aconteceu porque estive ali o tempo inteiro e vivi tudo que foi possível. Agora acabou.

Suspiro.

Esse post não é uma retrospectiva, nem uma despedida. Ontem me perguntaram o que alguém encontraria no meu blog e eu disse que encontraria o registro mais completo da minha vida nos últimos oito anos. Eu não mantenho diários, sempre esqueço de revelar as fotos, não debutei e nem vesti beca, mas há oito anos, completos nesse início de dezembro, escrevo aqui sobre todas as coisas importantes ou não que acontecem comigo, e mesmo o que fica de fora fica registrado, porque é impossível esquecer daquilo que é sórdido, difícil, triste, importante, grande, lindo, incrível demais pra ser escrito. Esse post sou eu colando as fotos das minhas auras nas paredes: azuis (crown and anchor me or let me sail away), vermelhas (mean reds, burning red), cinzas (so devoid of color I don't know what it means), douradas (falling but not alone), lilases (and suddently I was a lilac sky and you decided that purple just wasn't for you) - pequenas descrições até o dia que eu for a Nova York conhecer Chinatown só para ter guardada uma polaroid com a minha aura naquele momento específico.

Click. Nesse aqui eu acho que virei adulta. Não que eu saiba o que isso significa, muito menos o que eu estou fazendo, ou qual é a cor para algo assim, mas é um alívio enorme sair da negação. Só isso é assunto pra outro post. Porque eu voltei e o blog fez oito anos. Parabéns para nós e obrigada por aguentarem até aqui. O resto é história.

sábado, 21 de novembro de 2015

Mega-Sena acumulada

Uma coisa bem representativa do meu estado de espírito dos últimos tempos é que conversando com meus amigos sobre o que faríamos caso ganhássemos na loteria (que ninguém jogou) a primeira resposta que me veio na cabeça foi: largaria o estágio para passar uma semana fechada num quarto de hotel terminando meu TCC.

Eu poderia dizer um milhão de coisas absurdas, malucas e fora da realidade, eu poderia me unir ao clichê e dizer que jogaria tudo para o alto e viajaria o mundo, mas a única coisa que consegui pensar é que queria muito uma semana de folga no trabalho e sete dias sem ver ninguém, só escrevendo e pedindo serviço de quarto.

Eu poderia COMPRAR um TCC pronto com garantia de aprovação, mas realmente estou gostando disso, só queria mesmo que me deixassem em paz (e me servissem croissants de café da manhã).




Falta uma semana.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Segunda-feira

Meu principal clamor aos céus nos últimos tempos é conseguir passar uma aula de francês inteira sem ouvir o nome da presidente Dilma. O problema não é a revolta dos meus colegas, que eu acho até bem justificável, mas conjugar verbos já torna a experiência da aula desagradável o suficiente. São quase nove da noite, meus queridos, vamos trocar receitas de creme brulée, por favor?

Ontem minha professora começou a murmurar sobre o novo cálculo do tempo de contribuição para a aposentadoria. Os comentaristas de portal já se alvoroçaram, aquele era o momento de brilhar. 

- Noooooossa, mas assim vai demorar demais pra eu aposentar. Quantos anos será? Tudo culpa daquela mulher, etc, etc, etc, fora PT, presidanta, é por isso que o Brasil não vai pra frente, etc.

- Você acha mesmo que o sistema previdenciário vai durar até lá?


Estranhamente, ninguém quis comentar. 

Segunda-feira, sabe. Nove da noite. Fiquei rindo por dentro, me sentindo vingada, mas seria mais engraçado se não fosse verdade.

(Eita pesou o clima de novo) 

sábado, 10 de outubro de 2015

Cadê Anna Vitória

Lembro de um post da Taryne, lá de 2012, em que ela dizia que blogueiro desaparecido por causa de TCC era o maior clichê da blogosfera. Concordo e vou além: acho que o grande clichê da blogosfera é blogueiro desaparecido justificando ausências e prometendo voltar. Pois bem, me encontro nessa posição ingrata novamente. 

Eu imaginei que depois de escrever um livro e um projeto de monografia ao mesmo tempo, seria fácil lidar apenas com um TCC. O que me enlouquecia semestre passado era ter que lidar com dois trabalhos muito importantes e a sensação de que eu sempre estava atrasada com alguma coisa. Fazer uma coisa só e ter certeza que aquela é a minha maior prioridade do momento me parecia algo absolutamente razoável. Mas como a gente é besta, né? 

Os últimos anos me ensinaram que na vida, ou pelo menos na minha vida, as coisas nunca acontecem uma de cada vez. Elas acontecem ao mesmo tempo, se atropelam, não pedem licença, não esperam, e eu que lide com isso. É isso que eu venho tentando fazer. Então tem o TCC. E tem o estágio. E tem o francês. E tem as matérias na faculdade. E tem os textos pra escrever. E tem o curso à distância que eu tô fazendo. E tem minha mãe operada. E tem as viagens. E tem os aniversários. E tem os amigos. E tem o cachorro. E tem o futuro. E tem todo o sono do mundo quando sobra um tempo livre.


Às vezes me permito choramingar por três minutos e penso que seria um sonho estar fazendo esse TCC, que é sobre algo que eu tanto amo e me interesso, que já me fez crescer demais, se eu pudesse me dedicar só a ele. Ou penso que eu seria bem mais feliz no trabalho se tivesse só que trabalhar. Ou que eu queria tirar um ano aprender francês, estudar escrita criativa e ler YAs maravilhosos. Que eu queria poder me dividir em quatro pra dar toda a atenção que minha família e meus amigos e meu cachorro merecem. Que eu queria uns meses pra decidir meu futuro. Que eu queria viajar sem ter que levar trabalho pra fazer nos intervalos e me dar ao luxo de não pensar nisso. Às vezes eu desejo ter muitas vidas pra poder viver tudo que eu quero da minha vida, só que uma coisa de cada vez.


Mas né?

Ensaiei esse post algumas vezes, mas odiava a ideia de ter que colocar o blog em estado de exceção pela segunda vez no mesmo ano. No entanto, se a vida é uma só e as coisas não param de acontecer, o melhor que posso fazer é me esforçar para estar inteira em tudo que me proponho a fazer, e acho que assumir uma ausência é um jeito mais honesto de estar inteira aqui, bem melhor do que todos os dias jurar que vou chegar em casa e postar no blog pra depois morrer de frustração porque, pelo amor de Deus, eu só quero dormir (ou ver o que as pessoas estão fazendo no Snapchat). Recebi um comentário muito fofinho essa semana perguntando por onde eu andava e achei que seria justo retribuir o carinho.

E aí é aquela coisa: eu volto, vocês sabem que eu volto. Depois do meu último sumiço eu voltei com um BEDA inteiro de conversas acumuladas, não se esqueçam disso. Pode ser semana que vem, com um post que eu simplesmente precisava escrever, ou em dezembro, depois que eu entregar meu trabalho. Enquanto isso, caso você se pergunte por onde anda Anna Vitória, saiba que estou trancada no meu quarto rodeada de livros e papéis escrevendo meu TCC. Ou trabalhando. Ou estudando francês desesperada. Ou pensando obsessivamente nas aulas incríveis do curso de escrita. Ou cuidando da minha mãe. Ou garantindo que Francisco, o poodle, se sinta amado e importante mesmo com esse turbilhão aqui em casa. Ou comendo hambúrguer com os amigos, porque eu também sou filha de Deus. Ou dormindo, que é o que eu mais tenho feito quando não estou fazendo coisas importantes. Ou tendo crises existenciais pensando simultaneamente no futuro e no presente, incapaz de lidar com nenhum deles, que é a segunda coisa que eu mais tenho feito quando estou evitando fazer as coisas importantes.

Com certeza alguns dragões
Mas também posso estar no Twitter ou no Snapchat (annachicoria), mais fácil saber o que estou fazendo por lá. 

À bientôt, queridos! 
(tenho prova de francês quarta-feira socorro)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Diário de viagem: quando chove no Rio de Janeiro

Para ler ouvindo:


Diz-se por aí que casa é onde nosso coração está, e foi pra sentir o meu batendo perto de mim que no último feriado voltei ao Rio de Janeiro. Minha relação com essa cidade é tipo a música da Vagabanda: eu posso tentar te esquecer / mas você sempre será / a onda / que me arrasta / que me leva / pro seu mar, com a pequena diferença que eu nem tento esquecer o Rio. Mas aí acaba o dinheiro e as milhas aéreas, mas eis que surge no meu caminho um oportuno congresso acadêmico, com ônibus gratuito oferecido pela universidade. Com uma perspectiva de doze a quinze horas de viagem, de bom grado fui pois só se é jovem uma vez (e há de se tirar proveito disso em algum momento). 

A parte ruim é que choveu e fez """frio""" todos os dias. A boa é que descobri todo um outro nível de amor pela cidade, pois nem isso me tirou a alegria de estar ali - e é absolutamente adorável ver os cariocas de jaqueta de couro e botas quando faz 23 graus lá fora. 

Cheguei já levando truque de taxista, porque não existe jeito melhor de pegar a atmosfera do local. Era um senhorzinho fofo, ouvindo rádio gospel, pensei: não é essa criatura de Deus que vai ludibriar esses jovens amassados e cheios de malas, não é mesmo? E foi assim que fui parar no morro da Babilônia. Ha. Ingênua. Como alguém pensa que um prédio localizado em frente a uma estação de metrô pode ficar no alto de uma ladeira é algo que meu entendimento ainda não compreende. Depois de momentos de tensão e hostilidade, brigamos pelo preço, afloramos os ânimos, e as malas foram praticamente jogadas na calçada. 

Ah, o Rio!

cariocas não gostam de dias nublados
Depois de nos instalarmos no nosso novo lar (me sinto tão adulta alugando apartamentos em cidades estranhas)(mas ainda acho muito estranho que deixem a gente assim, sem supervisão), almoçamos na orla de Copacabana e de lá fui direto encontrar minhas pessoas. Passei o dia na Livraria Cultura da Cinelândia na companhia de Gabriela Couth, Giuliana Rebeca, e a princesa Milena, a maior carioca do mundo refugiada em São Paulo, que por uma feliz coincidência estava na cidade. Pessoas normais (meus amigos da faculdade) acham estranho a ideia de se passar a tarde inteira numa livraria, mas, sério, não tem como escapar daquele lugar. 

O xodó do Brasil é a Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, que, sim, é impressionante, linda e enorme. Mas a do Rio fica num prédio que era o antigo cine Vitória (não faço ideia do que isso significa, mas aparentemente é uma informação importante), no centro do Rio de Janeiro. Você sai do metrô, dá de cara com o Teatro Municipal, e vai andando pelas ruazinhas até chegar naquele prédio incrível em art decó, com piso antigo, a estrutura toda preservada, e livros, livros, milhões de livros. Faltam os famosos pufes com Conjunto Nacional, mas não existe nada mais convidativo que as almofadas e o carpete da seção infantil, um lugar pra se deitar e rolar a tarde inteira enquanto folheia livros caros demais pra levar pra casa. 

Dessa vez preferimos ficar no café comendo doces e incomodando as pessoas, o que é uma opção igualmente válida. Imagem forte a seguir.


No início da noite, encontramos doutora Paloma no metrô e voltamos para Copacabana, para encontrar doutora Deyse Filgueiras, outra feliz coincidência da viagem. Quais as chances de eu e minha amiga maranhense que eu não via desde maio do ano passado marcamos viagem pro mesmo lugar, no mesmo feriado? Acontecem coisas no Rio de Janeiro. A ideia era irmos ao Pavão Azul, uma atração imperdível da cidade de acordo com o conceituado blog Pudding, mas estava bem cheio e a garoa não era muito convidativa à proposta de ficar na calçada. Fomos, então, ao Cervantes comer sanduíches sem abacaxi e brindar o aniversário da Beyoncé (!) com a caipirinha mais forte do mundo (recomendo a todos). 

Como se não fosse suficiente, fomos para a praia beber mais caipirinhas. Parecia uma boa ideia no momento, como me pareceu extremamente apropriado na volta pra casa aceitar ir com os amigos para a Lapa, mesmo estando eu já alcoolizada (ou talvez justamente por isso), molhada de chuvas diversas, de short e chinelo mesmo com todos saindo de sobretudo e meia-calça. Momentos. Me aprontei em dois minutos e logo estava diante dos arcos da Lapa, desconfiada que já tinha tomado decisões mais sábias na vida.


Queria ter algo incrível a dizer sobre uma das noites mais famosas do Brasil, mas a verdade é que não aproveitei nada porque é difícil aproveitar quando se está numa turma de quinze pessoas, à meia noite, numa sexta de feriadão no fervo carioca, depois de andar o dia todo e ter passado a noite num ônibus. Eu só queria sentar. De longe parecia tudo muito legal e todos muito bonitos, e um dia eu volto lá pra contar essa história, mas passado o efeito das pingas aceitei a derrota, entrei num táxi e fui pra casa dormir - um grande clássico da minha vida.

Sábado foi dia de aproveitar a cidade com os amigos. Estava oficialmente friozinho, de modo que trajando uma calça jeans (SHAME) fomos conhecer Ipanema. Eu já tinha conhecido a praia em outra oportunidade, mas nunca passeado na orla, com calma, pelo calçadão. Encontramos um quiosque simpático onde comemos uma quantidade absurda de camarões enormes, e um peixe frito que, segundo o garçom, é o favorito do príncipe Harry. A informação carece de fontes concretas, mas algo em mim gosta de saber que eu e ele agora temos esse vínculo em forma de ômega 3 e óleo de fritura. 

De lá fomos tomar sorvete na Vero, outra recomendação certeira da Couth, e eu pude matar as saudades do maravilhoso sorvete de caramelo com flor de sal (sim, você leu certo). Além dos tradicionais, a sorveteria tem vários sabores bem diferenciados (e maravilhosos), e dessa vez experimentei também o de limão siciliano com lavanda. Invejosos dirão que tem gosto de Bom Ar, eu achei sucesso. 

A ideia era aplaudir o dia nublado no Arpoador e depois andar pela praia até o Leblon, mas fomos surpreendidos pela chuva e eu nunca fui tão humilhada na minha vida como no momento em que passei na porta do Fasano embrulhada na minha canga de bolinhas pra tentar salvar meu cabelo da chuva. Momentos, queridos, momentos.



encontre a mineira da foto (dica: é a pessoa que pisa na areia descalça mesmo estando ela molhada)


Domingo fui com Paloma, Couth, MB e Mimi na Bienal do Livro. Em comparação com a de São Paulo, achei a do Rio mais agradável, pelo simples motivo que não estava tão cheia e era possível circular pelo lugar, missão um pouco complicada lá em São Paulo. Apesar de ter passado o dia por lá acho que andamos pouco, porque não visitei a maioria das editoras até porque estava pobre pobre pobre de marré marré marré e os preços estavam absurdos e não vi a Jout Jout, mas mesmo assim me diverti explorando as baciadas de promoção com Paloma, comprei meu primeiro Alice Munro, e ainda consegui ir na sessão de autógrafos da Capitolina (um corredor polonês de meninas maravilhosas, com os livros passando de mão em mão, e ficando lindos, rabiscados, e cheios de amor no caminho). No fim das contas, acho que valeu a distância percorrida (MEU DEUS COMO É LONGE).

Por fim, na segunda, não podia ir embora sem visitar a Urca, provavelmente o lugar que faz meu coração bater mais forte em todo o Rio de Janeiro. Mesmo quando eu só conhecia a cidade por fotos, as da Urca eram minhas favoritas, e sempre que estou lá sinto algo diferente, tanto pelas lembranças acumuladas, como pelo fato de ser tudo lindo de um jeito especial.


na igreja Nossa Senhora do Brasil, aka capelinha do Roberto Carlos

as fotos na Urca são do migo talentoso Felipe Flores
Dessa vez ainda consegui dois feitos nobres: o primeiro foi vencer o Bar Urca em horário de almoço no feriado, me pendurando no balcão e negociando minhas empadas aos berros com os atendentes, mais carioca do que nunca. O segundo foi que FINALMENTE consegui encontrar as Bragas, Sarah, Debs e Ester. Seria meio ridículo ir ao Rio de Janeiro pela quinta vez e não conseguir sair com elas. Foi rapidinho, mas valeu totalmente a espera.

Quanto ao congresso, risos, dizem que foi bom. Da minha parte, só posso dizer que o Rio de Janeiro continua lindo.


Saldo da viagem:
Cariocas conquistados: 0 (uma baixa horrível nas minhas estatísticas)
Dias em que fiquei bêbada: 2
Dias em que o cabelo colaborou: -4 (não apenas não colaborou como fez questão de ficar completamente cagado todos os dias, a umidade relativa do ar é um conceito distante)
Dias em que tomei chuva: 3
Livros comprados: 2 (autocontrole, teu nome é Anna Vitória)
Reais gastos inconsequentemente: R$3689060555,58
Etapas concluídas no curso sequencial de carioquização: 3 - disputar uma empada no Bar Urca, andar por Copacabana sozinha sem me perder, levar trucão do taxista (mas perceber antes de ser muito tarde)

sábado, 29 de agosto de 2015

Minha semana #4: catarses, planos e uma chuva que nunca veio


O que a última semana teve de marasmo, essa teve de agito. Sexta passada meu avô nos deu um susto e foi parar no hospital, e lá ficou até terça. Apesar dele só ter passado esse tempo internado para observação, sempre fica aquele desconforto, um coração que nunca está completamente em paz, fora todas as correrias de revezamento no hospital e o telefone aqui de casa que não parou de tocar por um minuto. Felizmente, terça-feira cheguei do trabalho e dei de cara com aquela cena ali em cima, meu velhinho agindo naturalmente, jogando baralho sozinho como sempre. Vovô e vovó ficaram aqui até hoje de manhã e foi muito bom tê-los em casa por esses dias.

Segunda eu finalmente tive aula e foi um pesadelo. Foi a primeira de TCC II e bastou um dia de volta a essa realidade que minha cabeça começou a doer. Semestre passado eu tinha dor de cabeça praticamente todos os dias, e o incômodo foi embora tão logo entrei de férias. Passo uma tarde em aula e hello darkness my old friend. Estava bem desesperada com o cronograma apertado e com o detalhe de que eu muito sinceramente não estava muito segura com o conteúdo do TCC. Fiz o projeto semestre passado ao mesmo tempo em que estava escrevendo o livro, então fui levando as coisas meio com a barriga, só cumprindo os prazos, mas sem tempo de pensar nele como um todo, com atenção. 

Só na quarta consegui sentar com a minha orientadora para resolver isso, e foi uma reunião muito boa. Conseguimos delinear a estrutura da monografia e montar um plano, e agora, mesmo com um milhão de prazos pra cumprir e uma cacetada de leitura, estou tranquila porque (acho que) sei o que estou fazendo. 

Pinterest #fail do século: minha mãe ficou tão puta quando viu isso que disse que ia me dar um quadro de cortiça, mas até o fechamento dessa edição isso ainda não tinha acontecido
Na quarta também assisti a uma palestra com um dos fundadores do Catarse, que veio falar na minha universidade. A história de criação do site é muito bacana (ele só tem 24 anos!!!), e conhecer alguns ~cases de sucesso~ me deixou cheia de gás pra começar o planejamento pra lançarmos uma campanha pro Itinerância (curte nossa página? nunca te pedi nada!). Já pensei e repensei e acho que o financiamento coletivo é a melhor solução para fazermos nosso librinho ganhar o mundo, e quero fazer isso o quanto antes pra não correr o risco de deixar sempre pra depois, depois, depois e acabar com mais um projeto eternamente engavetado. Vocês vão ajudar, né? Já separa o troquinho do lanche aí! 

Depois de dias de sol tinindo, tempo seco e calor daqueles, na quinta finalmente o tempo mudou. Tive que ir resolver umas coisas no centro da cidade no fim do dia e poderia jurar que seria levada pela ventania. Chegando em casa cantei a maior vitória por ter vencido a chuva que cairia a qualquer momento, só que esse momento nunca chegou. Às vezes acho que a chuva se recusa a cair se eu não estiver embaixo. Pelo menos deu para tirar um casaquinho do armário, e foram dois dias tão fresquinhos que saí com Matheus para comermos crepe à noite e não aguentamos ficar nas mesas ao ar livre. Uma pena que hoje a cidade tenha voltado pro seu estado normal: 35 graus na sombra. 


Gulodices da semana: um milhão de crepes de atum e depois chocolate branco pra arrebatar // açaí com leite ninho pra equilibrar o desgraçamento mental do TCC
O que mais? A semana foi tão corrida que só consegui fazer blogilates ontem e hoje (e por isso estou morrendo). No domingo comecei um livro incrível, The Girl's Guide to Hunting and Fishing, e ele me passa muito a impressão de ser um Apanhador no Campo de Centeio, só que com uma protagonista feminina. Depois de mais de um mês pelejando com Toda Luz que Não Podemos Ver, um livro bom mas com ritmo péssimo, foi ótimo experimentar aquela urgência de ler que faz você passar a aula inteira lendo sem perceber, sair da sala grudada no Kindle e só perceber que está literalmente lendo enquanto anda, feito uma maluca, quando alguém te para no meio do caminho e diz pra você tomar cuidado pra não tropeçar. 

Ontem assisti o primeiro capítulo de Narcos e gostei bastante, vou aproveitar que segunda-feira é feriado por aqui e tentar assistir tudo. O que vocês acharam do sotaque do Wagner Moura?


A semana no blog
  • No sábado, fiz o terceiro resumo da semana;
  • No domingo, fiz um guia de bolso para góticos suaves, indicado livros, filmes e discos para quem quiser entrar no clima da sombra e das trevas;
  • Na segunda não teve post #crise
  • Na terça, respondi ao meme 5 Coisas que Não Dou a Mínima;
  • Na quarta, listei algumas coisas que aprendi escrevendo todos os dias no blog;
  • Na quinta, contei sobre os melhores shows que já fui na vida e listei os que eu preciso ver antes de morrer;
  • Na sexta, escrevi sobre aceitação, sobre a minha Rory Gilmore interior e fiz as pazes com a minha casa de Hogwarts, a Corvinal;
  • Essa semana saíram dois textos meus pela internet: na Pólen, escrevi sobre como crescer com a internet contribuiu para a pessoa que sou hoje, e lá no Move That Jukebox falei sobre Alabama Monroe e música country. 
A semana na Máfia
  • Na segunda, a Analu escreveu sobre como o "quase" não existe, sendo apenas um afago mentiroso que invetamos para nos sentirmos melhor com nossos fracassos;
  • Ontem a Sharon escreveu um texto super sincero e difícil sobre essa coisa difícil que é viver os 20 e poucos anos (algum dia vamos esgotar esse tema? são questões)
  • Na quarta, a Couth escreveu sobre sua avó e a relação das duas (vocês PRECISAM ver as fotos no fim do post);
  • Também na quarta, a Iralinha escreveu sobre a dificuldade de ser professora e ter que lidar com os pais dos seus alunos (os gifs, meu Deus, os gifs);
  • E na quarta (quarta-feira bombou hein amigas) a Paloma escreveu sobre On The Jellicoe Road, um livro que eu não li ainda, mas já amo mesmo assim;
A semana na internet
  • Por que eu nunca quero ter filhos, Vaneça sempre fazendo o BEDA valer a pena;
  • 23 notícias que só poderiam ter acontecido no Paraná, se vocês soubessem o tanto de risada que eu dou das notícias do Paraná talvez começariam a me olhar de um jeito estranho;
  • De caixas de lápis e vivências escolares; texto da Marília Barros na Pólen sobre as pequenas coisas que produzem identificação quando estamos lendo algo que é próximo de nós;
  • Mudança de casa, texto da Marina Vieira também na Pólen, sobre sua aceitação lufana, que inspirou meu post de ontem;
  • Última página: meu obrigada a Antonio Prata, Lorena, também na Pólen (se vocês acham que eu só li a Pólen essa semana estão certinhos), falando sobre nosso cronista favorito da vida;
  • Os estranhos que nos levaram a Lisboa, saga do Felipe, da Debbie, dos dois cães e das várias malas para chegar em Portugal;
  • O Move That Jukebox está com uma série nova, a Música do Dia, em que eles indicam? uma música? todos os dias? acho ótima a proposta que nos convida a realmente tirar um tempinho do dia pra ouvir de verdade alguma música, não só escutar enquanto faz outras coisas. A série abriu com California Stars, e claro que eu passei o dia inteiro ouvindo sem parar;
  • Saiu o disco novo da Carly Rae Jepsen e ele é ótimo! Adorei a Listening Party (amo amo amo esses vídeos) que o Consequence of Sound fez pra falar sobre ele, recomendo;

A lista da semana está realmente magrinha, frequentei muito pouco a internet nessa semana. Aliás, a última semana do BEDA foi um completo show de horrores, tive pouco tempo, mas o principal motivo é que eu não aguento mais. Hehe. Falhei na segunda, e quarta-feira rabisquei QUALQUER COISA só pra não avacalhar mais ainda a semana. Queria dizer que estou triste e vou sentir saudades, mas estou muito feliz que tá acabando. O único texto que gostei de escrever essa semana foi o de ontem, e o ciclo de não conseguir escrever - odiar o que estou escrevendo - forçar a barra - postar algo qualquer  - me frustra demais e me desanima de todo o resto. Fui uma péssima blogueira nesses dias, não dei atenção pra quase ninguém e não mereço a atenção de vocês, então tchau.

Brincadeira, só estou cansada. Desculpa? Vou melhorar? Ainda temos mais dois dias pela frente, dá tempo de eu me redimir. Vamos que vamos.