Mostrando postagens com marcador strange magic. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador strange magic. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Como é que eu vou dizer que acabou?

Para ler ouvindo:


Não escrevo nada aqui há cinco meses e há uns quatro parei de sofrer por causa disso, mas já não tenho vontade de escrever aqui há muito mais tempo. Falar sobre o fim é difícil mesmo quando ele já aconteceu. Eu vou do início:

Há exatamente um ano eu anunciei que faria o BEDA, me propondo o desafio de postar todos os dias durante um mês inteiro. Eu estava trabalhando, fazendo TCC, com problemas em casa, tentando virar adulta e já não tinha mais idade pra isso, mas sem pensar muito eu fui lá e fiz - e foi incrível. Me diverti com o blog como há anos não acontecia e isso só evidenciou como blogar havia se tornado algo que eu fazia muito mais por hábito, muito mais por nem me lembrar direito como era a vida sem ter um blog, do que porque sim, porque é divertido, porque eu quero, porque é tão melhor que todo o resto.

O BEDA foi a festa do divórcio, aquela viagem para Paris que um casal resolve fazer pra tentar salvar o casamento de anos sabendo que na volta eles vão do aeroporto direito pro escritório do advogado, aliviados por já terem começado a fazer as malas. 

Veja bem, a viagem foi ótima: eles passearam de mãos dadas, se beijaram na chuva, transaram com vigor adolescente na segurança de seus corpos adultos que sabem exatamente o que querem da vida e do outro. Foram jantares longos, restaurantes caros, sobremesas finas e vinhos deliciosos. Foi uma extravagância merecida. Ele não pensou em trabalho, ela esqueceu o celular, eles se permitiram dormir até mais tarde e conversar a noite inteira. Paris nunca esteve tão linda, eles nunca se amaram tanto, e isso deixou claro que eles já não se amavam mais. 

Aquilo não era a vida real e um casamento não é feito de viagens a Paris, mas de arroz com carne moída naquela quarta-feira, promoção de vinho, cantoria no carro e o charme daquele velho pijama furado. Se é preciso de Paris para ter graça e amor, é porque acabou. Eles estavam se amando sobre os escombros. 

Eu vou sentir falta daqui como quem sente falta daquele namorado que era perfeito, até que não foi mais. Aquele que a gente lembra com carinho e saudade, mas não se arrepende de ter seguido em frente. Voltar pra ele seria voltar para a pessoa que você era antes, e ela já não existe mais. É por isso que acabou. Eu já não existo mais aqui, como não existo mais na pele daquela Anna Vitória adolescente de 13 anos que um dia resolveu que começaria um blog pra valer. Eu não teria chegado aqui sem ela, mas é hora de descobrir todas as outras pessoas que eu ainda posso ser. 

Por que a insistência em tecer analogias entre o blog e um namoro? Porque junto com três ou quatro amizades, o blog é o relacionamento sério mais longo que eu tive e, como qualquer relacionamento, ele me mudou pra sempre e deixou marcas indeléveis na minha vida. Foi aqui que me transformei em gente que escreve, algo que tenho certeza que vou ser pra sempre. Nos últimos meses minha vida mudou bastante e sinto que tudo que aconteceu é uma consequência direta e indireta de um dia ter começado esse blog. Se fui sozinha para uma cidade enorme e nunca me faltou companhia pra almoçar, jantar e cantar no karaokê, foi porque um dia depois da escola eu sentei na frente do computador decidida a escrever sobre alguma coisa, qualquer coisa, porque sim, porque era divertido, porque eu queria e porque aquilo era tão melhor que todo o resto. Quando me lembro, são anos dourados.

Hoje começa mais um BEDA e várias pessoas legais vão participar. Isso me deixou nostálgica, quase que com vontade de entrar nessa de novo, mesmo que no fundo eu tenha certeza absoluta de que esse barco partiu faz tempo. Não quero insistir nessa viagem e me afogar. É como cruzar com uma pessoa que usa a mesma loção pós-barba daquele antigo namorado e de repente sentir tanta saudade a ponto de pensar em ligar bêbada pedindo pra ele voltar. É sempre desconcertante rever o grande amor.

Então resolvi escrever esse post, porque se eu não falar do fim o blog vai continuar aqui existindo como um blog platônico e acho que a gente merece mais que isso. No fim de semana contei para alguns amigos que faria isso e todos ficaram meio tristes (o que me deixou feliz de um jeito bem vaidoso), mas não sei até que ponto é melhor um final nunca dito, eternamente no ar, do que um ponto final claro e honesto. Já não escrevo aqui faz tempo e todos sobrevivemos. Como diz um dos meus poemas favoritos (hoje estou cheia de referências): seu destino foi curto longo e bom, não o choreis. No que depender de mim ele vai ficar no ar pra sempre, até porque eu virei aqui sempre que quiser relembrar algo especial dos últimos OITO ANOS da minha vida.

Como falei, eu sou e sempre vou ser gente que escreve e continuo escrevendo. Se você gosta e se identifica com as coisas que eu faço, ou se eu sou o tipo de pessoa que você lê pra ficar com raiva, você pode me encontrar em diversos lugares:

> Semanalmente, eu mando um e-mail pessoal esquisito para os assinantes da minha newsletter. Para receber também (são anedotas, crônicas, textões, o que estou lendo, ouvindo, assistindo e alguma foto de animal de roupinha), basta assinar a No Recreio

Qual a diferença disso pra um blog pessoal?, você se pergunta. Nenhuma e toda, eu respondo. É como receber o blog direto na sua caixa de entrada, só que de um jeito mais íntimo, complicado e perfeitinho. Existe uma sociedade secreta bacana, querida e crescente nas caixas de entrada (e a Aline Valek se deu ao enorme trabalho de fazer uma listagem dessas newsletters) e é o lugar que me sinto à vontade para escrever no momento. A newsletter é aquela coisa legal que eu faço porque sim, porque eu quero, porque é divertido e porque é tão melhor que todo o resto - e isso basta. O amanhã a Deus pertence.

> Há três meses lancei com algumas amigas o Valkirias, um site onde a gente escreve sobre cultura pop, feminismo e problematiza o impossível. Você pode conhecer o site, curtir nossa página, seguir a gente no Twitter e assinar nossa newsletter. Se tiver alguma ideia dentro do nosso nicho de interesse, pode até escrever junto com a gente.

> Eu continuo escrevendo na Pólen, porque alguém precisa cultivar o lugar de colaboradora mais enrolada e irresponsável de uma publicação absolutamente adorável.

> Também criei uma conta no Medium, porque um dia eu escrevi um textão que não se encaixava em nenhum outro lugar onde eu costumo publicar textões. Mas Anna você odeia o Medium!!! Pois é, mas às vezes ele se faz necessário. Caso essas circunstâncias se repitam, escreverei lá novamente e vida que segue. A VIDA É COMO UMA CAIXA DE BOMBONS, VOCÊ NUNCA SABE O QUE VEM DENTRO!!!!!!!!

> Todos os dias, o dia inteiro, estou no Twitter escrevendo tudo quanto é lixo que se passa na minha cabeça. Ainda é meu lugar favorito na internet porque todo mundo ali sabe que a gente está nos escombros da rede mundial de computadores e precisamos manter essa locomotiva funcionando. 

> Eu também tenho Instagram, Skoob, Goodreads e abandonei o Snapchat, graças a Deus. Tenho também um portfólio online mais ou menos profissional, caso você, futuro empregador, esteja se perguntando. 

> Eu quero escrever um livro em algum momento. Manterei vocês informados.


Já que estamos falando de amor, deixo vocês com essa conclusão: em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Vejo vocês do outro lado e muito obrigada. Mesmo. Um milhão de vezes. Por tudo que esse blog já me fez ser, crescer e fazer, é realmente inagradecível. E como de praxe, me desculpem por ser ridícula.

Se essa é a lápide desse blog, essas são minhas mensagens finais (são várias, porque eu não sei escolher):

Sentimentos são os únicos fatos

Vamos todos morrer mesmo

O universo está se expandindo

Shakespeare e os gregos já disseram tudo antes

Vai Corinthians

Paz


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Long live


Mesmo com as pernas bambas e a cabeça zonza de tanto dançar, reunimos todas as forças possíveis para ter direito ao pacote completo daquela aventura, que incluía, sim senhores, o sol nascendo de frente pro mar.
Dos melhores dias de 2015.

Começou como uma brincadeira esse negócio de adolescência tardia, lá em fevereiro, no dia do meu aniversário de 21 anos, quando eu matei aula e fui furar um buraco no meu nariz. O piercing, claro, era resultado da angústia existencial pré-aniversário, quando bateu a consciência de que eu faria 21 anos de vida, e depois 22, 23, 30, 50, 60 e, antes que me desse conta, eu estaria morta - e o que eu tinha feito? Logo, fiz um piercing no nariz e dormi mais tranquila. 

Depois dele veio a mecha cor-de-rosa no cabelo, que se tornaram mechas (no plural) cor-de-rosas no cabelo, show da Fresno, minissaias, unhas lascadas, respostas atravessadas, impaciência, música pop, rock depressivo, tédio, mau humor, melancolia, e já era dezembro quando disse em voz alta para a senhora minha mãe que gostaria, por favor, de ficar sozinha no meu quarto vendo vídeos do One Direction. O que aconteceu?

Tenho 2005 como referência de pior ano da minha vida. Nele aconteceram várias coisas ruins que tiveram como resultado o fim da vida como eu conhecia até então, naqueles meus onze anos de indústria vital. Eu não tive essa consciência na hora, mas hoje vejo que foi o ano que descobri que não era mais criança. Ou que não podia mais ser criança. Ou que eu não me permitiria mais ser criança. Ou um pouco de tudo isso. O fato é que eu cresci, não era mais criança, e as pessoas ao meu redor diziam o tempo inteiro que eu deveria ser forte. E eu fui. 

Ninguém acredita que eu sou supersticiosa, na verdade eu acho graça da maioria das superstições, mas tenho meu quinhão de superstições nas quais acredito (sol em peixes, lua em virgem). Por causa delas, logo no ano novo eu tive a sensação de que 2015 seria difícil. Não necessariamente ruim, mas difícil. Porque já tinham se passado dez anos desde 2005 e... é, só por isso mesmo. Não faz sentido, eu sei, mas na minha cabeça existe lógica nisso e foi por isso que antes mesmo de 2014 acabar eu pedi força. Força e saúde, está até registrado aqui pra vocês não acharem que eu invento minhas intuições. Que graça. 

Conversando sobre esse ano com a Analu, concluímos duas coisas. A primeira foi que 2015 foi um ano adulto. Eu comecei a trabalhar, por exemplo. Não que já não tivesse trabalhado antes, mas foi minha estreia num ambiente de escritório, corporativo, ao melhor estilo The Office: folhas de ponto, engolir sapo de superiores e fontes, fofocas na copa, nunca mais sair de short e chinelas em dia de semana. Também lidei com a morte de perto, mais perto do que gostaria, e vi que ela é feia e triste. Não existe romantismo nenhum em morrer. Blue Lily, Lily Blue traz uma citação perfeita que diz que até determinado momento Blue Sargent não acreditava na morte, porque achava que ela vinha sempre acompanhada de certa cerimônia, não era uma coisa que simplesmente acontecia. Mas ela acontece, e o momento em que descobrimos isso divide pra sempre a nossa existência: a pessoa que não acreditava e a pessoa que acredita. Em 2015, virei uma pessoa que acredita. 

No meio desse turbilhão, escrevi um livro e uma monografia, dois trabalhos que são tudo de mim, quem eu era e quem eu me tornei em quatro anos de faculdade. Tenho o maior orgulho deles e deixo a modéstia de lado quando conto pra todo mundo como eles foram entusiasticamente elogiados e avaliados, porque foi difícil, custoso, porque eu dei tudo de mim e fico feliz que isso tenha sido reconhecido no final. Em 2015 me formei na faculdade, aluguei apartamentos, casei uma grande amiga (a primeira!), tive encontros com desconhecidos, desbravei Rio e São Paulo sozinha, vivi minhas primeiras entrevistas de emprego, ouvi os primeiros nãos da minha carreira, e pela primeira vez tive a chance de cuidar da minha mãe, que pela primeira vez precisou de verdade que eu cuidasse dela. 

É por isso que escrevi que tinha virado adulta. Ainda moro com meus pais, vivo de um estágio de meio período, não tirei carteira de motorista e Deus me livre dos entregadores de geladeira, mas é como se uma chave interna tivesse se virado aqui dentro. Como em 2005, em 2015 aconteceram coisas que transformaram minha vida em algo totalmente diferente do que eu conhecia até então,  e eu não faço a menor ideia do que vem pela frente. Não tem como passar por tudo isso sendo a mesma pessoa, e esse ano vivi, descobri e senti tantas coisas que é hora de deixar a Anna Vitória adolescente, aquela que nasceu aos onze anos, pra trás - ou melhor, é hora de reconhecer que esses dez anos e tudo que aconteceu nele nos fizeram outra, e é hora de seguir em frente bancando essa nova pessoa.

(Estou fazendo uma força enorme para não falar em crisálidas e borboletas, por favor valorizem isso)

Mas e aquela história de adolescência tardia?, se pergunta o caro leitor atordoado. Pois é, essa foi a segunda coisa que eu e Analu concluímos: 2015 foi um ano muito adulto, mas também foi um ano muito Speak Now. Sim, estou falando de Taylor Swift, mais especificamente seu terceiro álbum, que saiu quando nossa melhor amiga famosa tinha 21 anos (um minuto para absorvermos esse intenso simbolismo). De acordo com as estatísticas foi o disco que mais ouvi em 2015 e foi de propósito que deixei ele de fora da retrospectiva musical do ano. Porque eu não consigo falar sobre o Speak Now sem falar sobre esse ano, e como vocês podem ver essa é uma reflexão que demanda fôlego. Respiremos fundo, então. 

Para mim, o mais importante que pode ser dito a respeito do Speak Now é que ele é o disco da Taylor Swift que vem mais carregado de sentimentos. Eu sei, todo o seu trabalho tem como base os sentimentos, mas esse é mais forte, intenso, imoderado, com pouco espaço para sutilezas ou meias palavras. Quando ela fala de amor, é um amor urgente, que joga tudo pro alto e se beija na calçada, idealiza sem limitespede pelo amor de Deus que seja o único. Quando ela fala de tristeza e coração partido, é uma tristeza resignada, de quem aceita que perdeu, de quem se conforma com o desamparo de um dia ser amada e no outro não mais. Quando ela fala de raiva, ela cita nomes, tripudia, sua vingança brilha como fogos de artifício, chegando ao ponto de ser maldosa. Quando ela fala de realização, ela fala em coroas, glórias, sobre vencer dragões e dominar o mundo

E eu ouvi essas músicas sem parar, me identificando com elas o tempo inteiro.


Foi preciso muita terapia (e aí eu dou créditos a mim mesma e às longas conversas com minhas amigas, a única forma de análise a qual tive contato nesse tempo) para que eu entendesse que lá atrás, em 2005, eu acreditava que crescer e ser forte era parar de sentir. Ou sentir menos. Ou não deixar ninguém ver que eu estava sentindo as coisas, nem eu mesma. Só nos últimos anos que eu percebi a grande besteira que isso era, a começar pelo fato de que hoje vejo que a força vem justamente da vulnerabilidade, de se permitir sentir tudo o que vier. Não é tarefa fácil e ao primeiro sinal de dor nossa reação é querer se fechar numa bolinha e bloquear todas aquelas coisas que estão te transformando numa massaroca disforme de SENTIMENTOS, SENSAÇÕES, CONFLITOS E DÚVIDAS, mas como já disse Jon Foreman, is when you're breaking down, with your insides coming out, that's when you find out what your heart is made of. 

Parece muito bonito, e às vezes é mesmo, mas talvez seja a hora de buscar terapia de verdade, porque eu também tenho limites e testá-los sozinha é exaustivo.

Minha adolescência foi bem normal e eu só fui entender agora aquilo que dizem sobre essa fase da vida em que tudo é descoberta, entramos em conflito com o mundo, sentimos demais, não sabemos direito quem somos, e nossa opinião sobre as coisas e as pessoas mudam. Acho que eu me achava especial demais para passar por um rito tão mundano (ou só era bobinha mesmo e precisei de uns cinco anos a mais para descobrir isso tudo), mas o fato é que tudo isso aconteceu agora. 2015 foi uma montanha-russa emocional e seria injustiça dizer que foi de todo ruim. A metáfora perfeita vem de Harry Potter: em alguns dias, era como se um dementador tivesse me atacado - me sentia drenada de toda a minha energia e era como se eu nunca mais pudesse ser feliz -, em outros me sentia tão absoluta e plenamente feliz que sabia que se em algum momento tivesse que conjurar um patrono, era àquelas memórias e àqueles dias que eu iria recorrer. Que coisa. Que ano.

Como escreveu a Tais em sua linda retrospectiva, o grande feito de 2015 foi me quebrar toda sozinha - para deixar eu me refazer inteira. 

Depois de tudo isso, como escreveu dessa vez a Anne T. Donahue, fica a sensação de que todos nós merecemos 2016 e o que quer que seja que ele tenha para oferecer. Empreguinhos? Romances? Passagens aéreas compradas em dez vezes no cartão? Não gosto de fazer desejos específicos (superstições, superstições), e estando nessa situação de realmente não fazer a menor ideia do que vai ser da minha vida, eu gostaria que 2016 me apresentasse um caminho, já que passei um ano inteiro reconstruindo minhas pernas. 

À nós, um ano de noites mais tranquilas. Tim tim!


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Sabe o que eu quero, Mário Alberto?

Eu quero férias.

E eu quero ir pra praia.

Mas não qualquer praia, eu quero ir para a Bahia

Beyoncé na Bahia
Eu quero passar minhas férias na praia, na Bahia, e não preciso nem de todos os santos. Se tiver um só que me dê paz, ou que simplesmente impeça que outras pessoas tirem a minha paz, já vai ser o suficiente. 

Quero ir para a Bahia com uma mala pequena e leve, de preferência uma que eu não precise despachar, uma mala com dois biquínis, uma havaiana, um short jeans e uns vestidinhos se eu resolver sair a noite pra tomar sorvete. E protetor solar 60, meu chapéu de madame e um livro de 700 páginas no mínimo, porque eu sou pedante e vou pra praia para ler. 

O que eu quero, a única coisa que eu quero, é estender minha canga de bolinhas na areia embaixo de uma sombra, mas uma sombra estratégica que proteja meu rosto e deixe minhas pernas de fora, torrando no sol, pra quando eu voltar todo mundo acreditar que eu sumi porque estava na Bahia. Quero ficar ali lendo meu livro enorme, ouvindo o barulho do mar, e só interagindo com seres humanos quando for hora de pedir mais uma caipirinha, uma porção de bolinho de bacalhau ou um acarajé de turista

Quero o mar quente da Bahia e suas marolas gigantescas das quatro da tarde, quero boiar de barriga pra cima olhando o céu, quero virar cambalhotas na água e ficar deitada onde as ondas quebram por tanto tempo que as pessoas vão pensar que eu morri. Quero dormir aquele sono de praia que faz as pálpebras pesarem 30 quilos cada uma, quilos esses que se dissolverão à medida que o sono vier e eu começar a sonhar com golfinhos de tutu dançando Minha Pequena Eva na areia. 

Eu vou dormir pra sempre, mas quando eu acordar ainda vão ser seis da tarde, porque a hora na Bahia não passa nunca.

Se me perguntassem hoje se eu queria uma viagem para Nova York ou para a Bahia, eu iria para a Bahia. Chicago ou Bahia? Bahia. Paris, Berlim, Vienna esperando por mim? Bahia. 

Beyoncé e Blue Ivy na Bahia
Na verdade eu não preciso de nada disso, só de férias, porque eu estou ficando louca. Mas o que eu quero mesmo é ir para a Bahia. E vocês?

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Diário de viagem: quando chove no Rio de Janeiro

Para ler ouvindo:


Diz-se por aí que casa é onde nosso coração está, e foi pra sentir o meu batendo perto de mim que no último feriado voltei ao Rio de Janeiro. Minha relação com essa cidade é tipo a música da Vagabanda: eu posso tentar te esquecer / mas você sempre será / a onda / que me arrasta / que me leva / pro seu mar, com a pequena diferença que eu nem tento esquecer o Rio. Mas aí acaba o dinheiro e as milhas aéreas, mas eis que surge no meu caminho um oportuno congresso acadêmico, com ônibus gratuito oferecido pela universidade. Com uma perspectiva de doze a quinze horas de viagem, de bom grado fui pois só se é jovem uma vez (e há de se tirar proveito disso em algum momento). 

A parte ruim é que choveu e fez """frio""" todos os dias. A boa é que descobri todo um outro nível de amor pela cidade, pois nem isso me tirou a alegria de estar ali - e é absolutamente adorável ver os cariocas de jaqueta de couro e botas quando faz 23 graus lá fora. 

Cheguei já levando truque de taxista, porque não existe jeito melhor de pegar a atmosfera do local. Era um senhorzinho fofo, ouvindo rádio gospel, pensei: não é essa criatura de Deus que vai ludibriar esses jovens amassados e cheios de malas, não é mesmo? E foi assim que fui parar no morro da Babilônia. Ha. Ingênua. Como alguém pensa que um prédio localizado em frente a uma estação de metrô pode ficar no alto de uma ladeira é algo que meu entendimento ainda não compreende. Depois de momentos de tensão e hostilidade, brigamos pelo preço, afloramos os ânimos, e as malas foram praticamente jogadas na calçada. 

Ah, o Rio!

cariocas não gostam de dias nublados
Depois de nos instalarmos no nosso novo lar (me sinto tão adulta alugando apartamentos em cidades estranhas)(mas ainda acho muito estranho que deixem a gente assim, sem supervisão), almoçamos na orla de Copacabana e de lá fui direto encontrar minhas pessoas. Passei o dia na Livraria Cultura da Cinelândia na companhia de Gabriela Couth, Giuliana Rebeca, e a princesa Milena, a maior carioca do mundo refugiada em São Paulo, que por uma feliz coincidência estava na cidade. Pessoas normais (meus amigos da faculdade) acham estranho a ideia de se passar a tarde inteira numa livraria, mas, sério, não tem como escapar daquele lugar. 

O xodó do Brasil é a Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, que, sim, é impressionante, linda e enorme. Mas a do Rio fica num prédio que era o antigo cine Vitória (não faço ideia do que isso significa, mas aparentemente é uma informação importante), no centro do Rio de Janeiro. Você sai do metrô, dá de cara com o Teatro Municipal, e vai andando pelas ruazinhas até chegar naquele prédio incrível em art decó, com piso antigo, a estrutura toda preservada, e livros, livros, milhões de livros. Faltam os famosos pufes com Conjunto Nacional, mas não existe nada mais convidativo que as almofadas e o carpete da seção infantil, um lugar pra se deitar e rolar a tarde inteira enquanto folheia livros caros demais pra levar pra casa. 

Dessa vez preferimos ficar no café comendo doces e incomodando as pessoas, o que é uma opção igualmente válida. Imagem forte a seguir.


No início da noite, encontramos doutora Paloma no metrô e voltamos para Copacabana, para encontrar doutora Deyse Filgueiras, outra feliz coincidência da viagem. Quais as chances de eu e minha amiga maranhense que eu não via desde maio do ano passado marcamos viagem pro mesmo lugar, no mesmo feriado? Acontecem coisas no Rio de Janeiro. A ideia era irmos ao Pavão Azul, uma atração imperdível da cidade de acordo com o conceituado blog Pudding, mas estava bem cheio e a garoa não era muito convidativa à proposta de ficar na calçada. Fomos, então, ao Cervantes comer sanduíches sem abacaxi e brindar o aniversário da Beyoncé (!) com a caipirinha mais forte do mundo (recomendo a todos). 

Como se não fosse suficiente, fomos para a praia beber mais caipirinhas. Parecia uma boa ideia no momento, como me pareceu extremamente apropriado na volta pra casa aceitar ir com os amigos para a Lapa, mesmo estando eu já alcoolizada (ou talvez justamente por isso), molhada de chuvas diversas, de short e chinelo mesmo com todos saindo de sobretudo e meia-calça. Momentos. Me aprontei em dois minutos e logo estava diante dos arcos da Lapa, desconfiada que já tinha tomado decisões mais sábias na vida.


Queria ter algo incrível a dizer sobre uma das noites mais famosas do Brasil, mas a verdade é que não aproveitei nada porque é difícil aproveitar quando se está numa turma de quinze pessoas, à meia noite, numa sexta de feriadão no fervo carioca, depois de andar o dia todo e ter passado a noite num ônibus. Eu só queria sentar. De longe parecia tudo muito legal e todos muito bonitos, e um dia eu volto lá pra contar essa história, mas passado o efeito das pingas aceitei a derrota, entrei num táxi e fui pra casa dormir - um grande clássico da minha vida.

Sábado foi dia de aproveitar a cidade com os amigos. Estava oficialmente friozinho, de modo que trajando uma calça jeans (SHAME) fomos conhecer Ipanema. Eu já tinha conhecido a praia em outra oportunidade, mas nunca passeado na orla, com calma, pelo calçadão. Encontramos um quiosque simpático onde comemos uma quantidade absurda de camarões enormes, e um peixe frito que, segundo o garçom, é o favorito do príncipe Harry. A informação carece de fontes concretas, mas algo em mim gosta de saber que eu e ele agora temos esse vínculo em forma de ômega 3 e óleo de fritura. 

De lá fomos tomar sorvete na Vero, outra recomendação certeira da Couth, e eu pude matar as saudades do maravilhoso sorvete de caramelo com flor de sal (sim, você leu certo). Além dos tradicionais, a sorveteria tem vários sabores bem diferenciados (e maravilhosos), e dessa vez experimentei também o de limão siciliano com lavanda. Invejosos dirão que tem gosto de Bom Ar, eu achei sucesso. 

A ideia era aplaudir o dia nublado no Arpoador e depois andar pela praia até o Leblon, mas fomos surpreendidos pela chuva e eu nunca fui tão humilhada na minha vida como no momento em que passei na porta do Fasano embrulhada na minha canga de bolinhas pra tentar salvar meu cabelo da chuva. Momentos, queridos, momentos.



encontre a mineira da foto (dica: é a pessoa que pisa na areia descalça mesmo estando ela molhada)


Domingo fui com Paloma, Couth, MB e Mimi na Bienal do Livro. Em comparação com a de São Paulo, achei a do Rio mais agradável, pelo simples motivo que não estava tão cheia e era possível circular pelo lugar, missão um pouco complicada lá em São Paulo. Apesar de ter passado o dia por lá acho que andamos pouco, porque não visitei a maioria das editoras até porque estava pobre pobre pobre de marré marré marré e os preços estavam absurdos e não vi a Jout Jout, mas mesmo assim me diverti explorando as baciadas de promoção com Paloma, comprei meu primeiro Alice Munro, e ainda consegui ir na sessão de autógrafos da Capitolina (um corredor polonês de meninas maravilhosas, com os livros passando de mão em mão, e ficando lindos, rabiscados, e cheios de amor no caminho). No fim das contas, acho que valeu a distância percorrida (MEU DEUS COMO É LONGE).

Por fim, na segunda, não podia ir embora sem visitar a Urca, provavelmente o lugar que faz meu coração bater mais forte em todo o Rio de Janeiro. Mesmo quando eu só conhecia a cidade por fotos, as da Urca eram minhas favoritas, e sempre que estou lá sinto algo diferente, tanto pelas lembranças acumuladas, como pelo fato de ser tudo lindo de um jeito especial.


na igreja Nossa Senhora do Brasil, aka capelinha do Roberto Carlos

as fotos na Urca são do migo talentoso Felipe Flores
Dessa vez ainda consegui dois feitos nobres: o primeiro foi vencer o Bar Urca em horário de almoço no feriado, me pendurando no balcão e negociando minhas empadas aos berros com os atendentes, mais carioca do que nunca. O segundo foi que FINALMENTE consegui encontrar as Bragas, Sarah, Debs e Ester. Seria meio ridículo ir ao Rio de Janeiro pela quinta vez e não conseguir sair com elas. Foi rapidinho, mas valeu totalmente a espera.

Quanto ao congresso, risos, dizem que foi bom. Da minha parte, só posso dizer que o Rio de Janeiro continua lindo.


Saldo da viagem:
Cariocas conquistados: 0 (uma baixa horrível nas minhas estatísticas)
Dias em que fiquei bêbada: 2
Dias em que o cabelo colaborou: -4 (não apenas não colaborou como fez questão de ficar completamente cagado todos os dias, a umidade relativa do ar é um conceito distante)
Dias em que tomei chuva: 3
Livros comprados: 2 (autocontrole, teu nome é Anna Vitória)
Reais gastos inconsequentemente: R$3689060555,58
Etapas concluídas no curso sequencial de carioquização: 3 - disputar uma empada no Bar Urca, andar por Copacabana sozinha sem me perder, levar trucão do taxista (mas perceber antes de ser muito tarde)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Velhas e loucas


Já acompanhei alguns casamentos de gente mais ou menos da minha idade, mas nunca de uma amiga. Amiga dessas que a gente divide colchão, travesseiro, empresta pijamas e pinta as unhas do pé numa sintonia compartilhada ao som do cd da Miley Cyrus. Amiga com quem a gente conversa sobre fanfics mentais, sobre o futuro e imagina como vai ser quando a gente tiver filhos, com quem a gente sonha junto com uma lage e uma piscina de mil litrões, pois somos suburbanas até na imaginação - até, claro, que o sonho muda e de repente temos cinquenta anos e estamos indo (de excursão) para a Croácia. Uma amiga, simples assim.

Essa pessoa tem um marido
Ano passado, graças ao Facebook, minha mãe recuperou o contato com os amigos da época da faculdade. Eles marcaram um churrasco e minha mãe pediu pra eu passar lá um pouquinho para conhecer as pessoas, e logo quando cheguei uma amiga da minha mãe me abraçou muito apertado e começou a chorar. Com lágrimas nos olhos, ela segurou meu rosto nas mãos, sorriu pra mim e disse: "Anna Vitória, eu não acredito que é você".

Na hora eu fiquei completamente sem reação, porque não sei muito bem qual o protocolo a ser seguido quando uma pessoa que você nunca viu na vida passa por uma catarse emocional por conta da sua presença, mas aos poucos fui pensando a respeito e entendendo qual foi a dela. Ela era eu daqui a alguns anos. Ou talvez nem tantos.

Eu nasci quando minha mãe ainda estava na faculdade, e fui na sua festa de formatura como um bebê de colo, vestindo um lindo vestido xadrez e um chapéu branco de baile. Minha mãe conta que eu passei a festa inteira de mão em mão, colo em colo, todo mundo queria ver de perto aquele fenômeno que era o bebê da colega de sala. Ainda que há vinte anos fosse bem mais comum engravidar aos 24, ela foi uma das primeiras da turma a ter filhos. 

Pensando sobre o casamento da minha amiga, consegui olhar esse encontro não com os olhos de filha-quase-adulta-meu-deus-quem-são-esses-loucos, mas sim com os olhos de quem estava diante da filha-quase-adulta-meu-deus-do-céu-olha-o-tamanho-dessa-menina da amiga de faculdade. Amiga dessas de matar aula pra ir tomar cerveja, fazer trilha no feriado, ir filar um almoço bom depois da aula. Amiga que chama sua mãe de tia e sua avó de vó, que compartilhava o pânico das primeiras experiências em sala de aula como professora, que ia no banheiro do bar conversar sobre homens, amiga pra falar de casamento e filhos como se fossem partes de um futuro muito, muito distante. Uma amiga, simples assim. 

É muito fácil entender o que ela sentiu porque recentemente sonhei (literalmente) que outra amiga estava dando a luz e acordei emocionada. Porque casar e ter filhos são sonhos que a gente sonha junto das nossas amigas também, e eles são compartilhados da mesma forma que se divide os grampos de cabelo, a água termal (folia da água termal!) e as garrafas de água na balada. Apesar de serem coisas tão adultas, que parecem reservadas a um futuro muito, muito distante em nossas mentes de eternas adolescentes (vide fanfics mentais), uma hora eles se tornam realidade - e aí as lágrimas do mundo não são mesmo suficientes pra dar conta da imensidão de tudo.

WHAT
(eu peguei o buquê!)
Uma coisa engraçada: se não fosse o casamento no meio, poderia ter sido só mais um dos nossos feriados. Teve folia no aeroporto, Taylor Swift no carro, pizza da Domino's e a gente sendo inconveniente em lugares públicos, pro completo horror de quem tem o azar de estar por perto. Teve praia e aquele momento em que o mundo parou quando não dava pra saber de quem era aquele braço, em qual ombro estava apoiada e quantas pernas tinham enroscadas nas minhas. Só a gente, o  mar quente do Nordeste, o sol que queimou as nossas costas e o dia mais lindo de todos. Uma senhora olhou de longe e chegou perto pra dizer que parecíamos uma escultura, um belo buquê de bundas ao sol. Os colchões na sala, os óculos perdidos, os colares, a fila pra tomar banho, as maquiagens no banheiro. E no meio de tudo, um casamento. O casamento! 

De repente passei na porta do banheiro e lá estava minha amiga, com sua roupa do civil (o vestido da discórdia!), com as tranças que eu já vi ela fazer tantas vezes, passando uma última camada de rímel antes de ir se casar. Foi a primeira vez que desmanchei: estava acontecendo. Depois veio o salão, o momento em que invadimos a suíte da noiva e conversamos dos nossos cabelos, das nossas maquiagens e da nossa fome como se fosse uma festa qualquer. "Amiga, você vai casar!" provavelmente foi a frase que eu mais repeti nos dias que passei com ela, a noiva (noiva!), em Fortaleza. Precisava me lembrar da imensidão daquilo frequentemente porque, ironicamente, aquilo estava parecendo natural demais. 

Ué, mas não é exatamente assim que deveria ser?


Minha amiga se casou. Lógico. Conhecendo ela e sabendo com quem, estranho seria se não se casasse. Se o mundo girou devagar e rápido ao mesmo  naquele dia, se fiquei tão feliz que a cada momento pensei que não seria possível caber mais felicidade em mim, se foi tudo tão incrível que mesmo vendo as fotos às vezes penso que foi mentira, é porque o amor é mesmo a coisa mais linda e louca que existe. Lembrar que ele é real e acontece na vida das pessoas, e que as melhores pessoas da sua vida encontram outras melhores pessoas por aí, pra unir os trapinhos, tudo numa vida só, me deixa novamente pensando em milagres. A cada mil lágrimas sai um milagre, e eu estive diante de um dos mais bonitos. Vivendo o meu (ou melhor, os meus), e vendo o da minha amiga acontecer. Os buquês, os votos, a risada na hora em que ela recitou o discurso que dias antes escrevemos e reescrevemos juntas, Dindi, os Beatles, a tia, o tio, vovó, MB, Taylor Swift, Beyoncé e a gente.

Na hora do brinde da noiva, com aquela bebida azul não identificada que me queimou inteira por dentro, gritamos: "A gente casou!". Porque casar, ter filhos e viver, tudo isso são sonhos que se sonha junto, e não podia ser mais feliz e grata por minha amiga ter dividido um pouco da sua realidade comigo, com a gente. Minha amiga largou tudo pra se casar num sábado, e como num dos nossos melhores sonhos, eu estava lá pra ver. Não é muito louco quando os sonhos se tornam realidade? Espero nunca me acostumar com isso, e peço desculpas antecipadas às nossas futuras crianças, que vão ter que aguentar muitas tias velhas e loucas chorando a cada vez que olharem pra cara linda de cada uma delas. Eu, pelo menos, já garanto a minha parte.

Brinde da noiva: "A gente casou!"
Brinde do noivo: "Eita porra!"



terça-feira, 4 de agosto de 2015

A problemática das primeiras vezes





A Iralinha ontem fez um post fofo e ricamente ilustrado nos incentivando a fazer as coisas pela primeira vez, porque elas sempre nos ensinam alguma coisa. Apesar de ver verdade e poesia aí, sempre acho difícil fazer algo pela primeira vez, não importa se é beijar de língua ou comer um sanduíche de carne com abacaxi. Sou uma pessoa que calcula riscos e possibilidades, gosto de saber o que me espera do outro lado pra poder estar preparada.

Mas quando é a primeira vez, não tem como saber.

Ontem, por exemplo, foi meu primeiro dia de estágio num lugar novo, um ambiente de escritório que até então eu não tinha vivenciado. Pedi pra ficar no turno da tarde nessa primeira semana justamente pra, teoricamente, ter a manhã pra me preparar melhor e não lidar com a vida no susto, com atraso e remela nos olhos. Agora a gente ri um pouco por dentro porque, sério, o que eu esperava com isso?

Eu esperava acordar cedo, finalmente começar minha rotina no Blogilates (pobres segundas-feiras carregadas de expectativas, metas, e mudanças de vida esperando pra acontecer e então falhar), programar posts até sexta-feira, ligar no meu curso de francês e fazer minha matrícula, fazer meu almoço e sair pro trabalho cheirosa, bem vestida, e confiante. No entanto, pouca coisa mudou: fiquei até as duas da manhã assistindo novela pelo computador, só consegui levantar da cama uma hora e quinze minutos depois do primeiro toque do despertador, e ao invés de fazer ginástica fiquei dançando Anitta pela casa com pouco compromisso aeróbico envolvido.

Não liguei no francês porque ainda não estava pronta pra lidar com isso, não escrevi posts porque não estava feliz com os temas (GENTE ME SUGIRAM POSTS PLMDD), e comecei a fazer o almoço atrasada o suficiente pra ter que comer um omelete de vento, já que não tinha tempo de ir ao mercado nem pra comprar queijo (!). Saí esbaforida, mais ou menos bem vestida, me perguntando se meu cabelo ainda cheirava a ovo e cebolinha. Cheguei na firma™ dois minutos atrasada, e quando perguntei pra moça da recepção o que eu deveria fazer, tive que ouvir de volta essa acalentadora declaração:

- Boa pergunta, hoje também é meu primeiro dia  - ¯\_(ツ)_/¯

Estava todo mundo em horário de almoço, então tive que ficar esperando. Eventualmente os responsáveis chegaram e eu fui apresentada a uma sala de imprensa praticamente deserta (período de férias + grave: pense numa várzea), e minha chefe, uma fofa em potencial, me explicou mais ou menos o que eu tinha que fazer e me indicou um computador. "Ok, mas o que eu faço agora?":

- Por enquanto não tem nada, mas se tiver eu te passo - ¯\_(ツ)_/¯


No seu primeiro dia de trabalho você não sabe direito até que ponto pode fazer nada no computador e quando é aceitável tirar o catatau que está lendo de dentro da bolsa, mas à medida que eu via as outras pessoas no Facebook sem muito pudor - "Ô Sousa, cê viu essa foto aqui? kkkkkkkkk os caras não perdoam uma" - me senti no direito de abrir 10 abas diferentes e acompanhar os BEDAs do dia. Quando minha chefe saiu mais cedo pra ir ao médico, entendi que o dia seria isso mesmo e me dediquei a ler blogs com cara de quem fazia algo muito importante, usando minhas energias só para enfatizar a quem perguntasse que meu nome é ANNA VITÓRIA.  

A primeira vez que você diz seu nome pra alguém é a única oportunidade que você tem de garantir que a pessoa vai dizer ele direito das próximas vezes. Qualquer entonação menos firme pode te colocar no buraco negro que é ser chamada de Vitória pra sempre, como acontecia no  meu antigo trabalho. Nada contra Vitórias, só não é o meu nome.

Outra problema das primeiras vezes é que você precisa descobrir algumas coisas que, se você for como eu, vai ter um pouco de vergonha de perguntar. São informações cuja ignorância te fazem parecer meio idiota, ainda que seja seu primeiro dia. Tipo, onde é o banheiro? Onde tem água? Preciso trazer meus bloquinhos? Pelo amor de Deus, onde, quando, como eu consigo um café??? Estava prestes a chorar embaixo da mesa de sono e abstinência quando um dos jornalistas me olhou e disse: Moça, cê não vai comer nada? Vai passar o dia sem um cafezinho? Nossa, nem tinha percebido a hora, hehehe, olha só que coisa. Vou lá tomar meu café, já estava mesmo ficando com fome hehehehe.

Primeira vez: você sempre vai parecer meio idiota, ainda que esteja tentando muito não parecer.


Na hora de ir embora, de novo a insegurança. Então eu simplesmente levanto e vou? Tenho que avisar alguém? Vou ser idiota e ficar até às 18h, quando o resto do pessoal for, mesmo que meu expediente acabe às 17h? Só eu vou sair antes? Será que essas pessoas sabem que não fiz nada o dia inteiro e estão me julgando? Vou ter que mandar um tchau coletivo e alto, mesmo odiando falar alto? Por que mesmo que eu não vim de manhã com os outros estagiários? São tantas questões que acho que foi muito mais fácil perder o BV.

Eventualmente fui embora - dei um sorrisinho pra menina do meu lado, então, deixa eu correr porque tenho um compromisso às sete (eu, Paul Rudd, duas formigas e um balde de pipoca) - sorri e acenei pras pessoas nas outras mesas, e só respirei depois que estava a uns dez passos de distância da portaria. No meio do caminho encontrei uma amiga, justamente a que ia ao cinema comigo, e desisti de ir pra casa pra ir direto junto com ela.

O filme do Homem Formiga é muito mais legal do que eu jamais poderia esperar, e entre sorvetes e Elvis Presley, cheguei em casa quase dez horas depois de ter saído, sorrindo muito, pensando em formigas gigantes e achando a vida até que bem boa. O que me deixa nervosa nas primeiras vezes é que a gente nunca sabe como vai ser, e às vezes é mesmo muito melhor do que a gente espera. Daí fica a vontade que todo dia seja um novo começo, mas pelo menos na próxima já vou saber onde fica o café. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Na praia


Desço no aeroporto de qualquer cidade turística no litoral e já procuro um agente uniformizado pra me entregar o certificado de inadequação, que costuma chegar antes das malas. Meu cabelo infla progressivamente com a umidade inesperada - e nesses dias de agostosetembro, já até meio esquecida - enquanto encaro, aflita, a esteira de bagagens. Minhas malas nunca foram extraviadas, mas eu sempre saio do avião tendo certeza absoluta que dessa vez o azar não me escapa.

Felizmente, mais uma vez, não foi dessa vez, e, com minhas tralhas já no carrinho, ando pelo aeroporto sentindo as roupas me grudarem no corpo e os pés inflarem dentro dos sapatos. Fica evidente naquele momento que eu não pertenço àquele lugar, ou pior, que eu não mereço aquela cidade. Eu e meus jeans com stretch (necessários para meus contorcionismos desesperados em busca de conforto numa poltrona de avião), eu ali de camiseta preta do Darth Vader, tênis e meia pra coroar, eu com minha franja ridícula deformada pela umidade relativa do ar a 94% - que eu ouso odiar bem baixinho, mostrando mais uma vez que eu não tenho o direito de estar ali. 

You can't sit with us, sussurra a brisa do mar. 

Um banho gelado e uma noite de sono compõe o intervalo de tempo que eu preciso pra me adaptar, e são suficientes para que no dia seguinte eu já me sinta ridícula por ter levado uma mala tão grande quando, de verdade verdeira, tudo que eu preciso pra ser feliz nos próximos dias são um par de havaianas, biquínis, protetor solar e um short jeans. Ficam esquecidos no armário aquele vestido mais arrumadinho, daquela cota do vai que né, a sapatilha vermelha, a camisa de manga comprida (qual o meu problema?) e um necessaire inteiro de maquiagem, tudo automaticamente obsoleto quando penso na minha canga de bolinhas comprada em Ipanema, que me protege da areia, serve de bolsa improvisada e faz as vezes de inspiradíssimo acessório contemporâneo quando enrolada no pescoço. 

As pessoas que me conhecem dizem que eu não tenho cara de quem gosta de praia, e eu sempre respondo que isso é porque elas não me conhecem na praia. Ainda sou eu, claro, porque eu que insisto num filtro solar 60 e quase nunca fico no sol, e ainda sou eu que procuro desesperada por uma ducha de água doce sempre que saio do mar. Mas, na praia, eu sou a pessoa que fica deitada onde as ondas quebram, por horas e horas até, se me esquecerem ali. Na praia eu que ensino as pessoas a flutuarem olhando o céu, e digo coisas como você tem que relaxar o corpo e confiar na água ou presta atenção no ritmo das ondas e esquece o resto. Eu receito goles acidentais de água salgada pra curar gripe e constipação, e juro de pés juntos que já fui curada de dor de garganta depois de levar um caldo desses de perder o rumo de casa.

Na praia eu sou uma pessoa que quase acredita em astrologia, porque meu signo é peixes e no mar eu me sinto em casa. 

O mar de Maragogi tem a maré baixa na maior parte do dia. A gente anda até o meio dele, até quase chegar na África, e a água não passa dos joelhos, com ondas que quebram antes mesmo de serem ondas o suficiente pra quebrar. À medida que a tarde avança, o mar avança com ela, e naquele primeiro check-point a caminho da África a água já chega no umbigo, e antes de quebrar as ondas já ultrapassam a minha cabeça. Nesses últimos dias, às cinco e meia da tarde, todos os dias, eu corria pro mar e assistia o dia ir embora deitada na água de barriga pra cima, só olhos, nariz e dedões do pé pra fora daquela água quente como água de chuveiro do mar de Maragogi. Ao meu redor tinha um casal, com o mocinho ensinando a mocinha a soltar água pelo nariz na hora de mergulhar, enquanto um homem de meia idade nadava dando braçadas na água, pra lá e pra cá. 

As ondas levantavam e abaixavam minha cabeça num ritmo regular, e meus ouvidos se enchiam e esvaziavam de água de acordo com esse compasso. Por causa disso eu oscilava entre estar ora ciente dos barulhos do mundo, e ora surda por submersão. Era como se estivessem me sintonizando pra dentro e pra fora da realidade, e nesses momentos eu tinha um delírio que ia mudar de vida, viver de luz e de arte, enterrar meu iPhone na areia, nunca mais usar calça jeans e estar sempre com flores no cabelo, franjinha nunca mais. Eu ia parar de comer carne e lasanha congelada, tomar menos café e aprender a gostar de água de coco, poderia começar a correr no parque e comprar uma bicicleta. 

De barriga pra cima no mar, olhando o céu meio lilás, e a lua que apareceu antes do sol ir embora de vez, não havia pessoa no mundo que eu invejasse, porque nenhuma delas era eu, e ser eu naquele momento estava bom demais. Saía da água feliz e contente comigo mesma, ainda que meus objetivos e resoluções nunca durassem tempo suficiente pra eu esquecer de tirar uma foto da paisagem pra postar depois no Instagram. 

Por mais que a cada noite eu deitasse minha cabeça no travesseiro pensando que tinha um dia a menos no paraíso, com certeza absoluta que não suportaria viver um minuto só na minha cidade feia, seca, suja e sem mar, foi com uma satisfação quase obscena que eu vesti meus jeans com stretch no dia de ir embora. Meus tênis pareciam simplesmente certos nos meus pés, meus poros, que até então tinham se escondido, pediram uma camada de base no rosto, e eu pensei que a vida é muito melhor porque o delineador existe. Tomei café da manhã já nos meus trajes civis, mas no restaurante do hotel as pessoas estavam seminuas e cheirando a protetor solar, certamente me olhando com dó - enquanto eu só conseguia pensar que era muito bom não estar com areia grudando no corpo. 


Gosto de passar férias na praia porque é um jeito que arranjei de, sem querer, tirar umas férias de mim. Is not as much a matter of travelling as of getting away, escreve a George Sand, e eu acho que todo mundo precisa de uma folga de si mesmo de tempos em tempos. Which of us has not some pain to dull, or some yoke to cast off? Existir é cansativo, por isso gosto tanto de, nesses dias a beira-mar, acreditar que posso mesmo ser uma dessas pessoas que não comem nada congelado, não usam jeans e muito menos se importam com celular e e-mails não lidos. Eu sei que não vou ser assim, ao menos não agora, ao menos não por muito, muito tempo, mas é uma ilusão quentinha como aquele mar - que graças a Deus enche o saco na mesma velocidade que minha pele sucumbe por excesso de sal, e nem as duchas são suficientes pra expulsar minhas alergias - uma metáfora barata em forma de dermatite de contato. 

Confiro os cadeados da mala pela última vez antes do despacho, penso no que eu preciso fazer caso elas sejam extraviadas, e me sinto muito satisfeita comigo mesma por dessa vez ter lembrado de pegar uns grampos caso minha franja saia do controle. Voltar pra mim é tão bom quanto chegar em casa, e eu senti quase tanta falta dessa paz interior como senti da minha própria cama. Bom mesmo seria se eu tivesse um mar na minha porta e pudesse descarregar os efeitos colaterais de mim mesma pelo menos a cada quinze dias, mas estar com o cabelo no lugar já é um consolo que me sustentará até as próximas férias.

domingo, 24 de agosto de 2014

Aqueles em que eu fiquei acordada a noite inteira

Ou: Pequeno inventário de noites mal dormidas

Quando éramos crianças, o Pedro e eu tínhamos essa obsessão que era passar a noite em claro. Todas as férias, dia após dia, a gente jurava que aquilo ia dar certo, mas ou dormíamos sem nem perceber o que tinha acontecido, ou nossa avó dava um jeito de acabar com a festa chegando muito brava no quarto e fazendo ameaças: só vai comer no McDonalds quem dormir; se eu ouvir mais um pio ninguém joga vídeo-game amanhã. Vencidos pelo sono ou pela barganha, a gente sempre chegava atrasado no nascer do sol.

EXPECTATIVAS


Aí teve a minha viagem de formatura da oitava série, a melhor viagem com a escola que já fiz na vida. Pela primeira vez na história das excursões nós estávamos sem supervisão: duas turmas de oitava série e um só professor pra monitorar tudo - professor este que levou a mulher, os filhos, e estava muito mais interessado em curtir o feriado com eles do que se certificar que estávamos indo dormir na hora certa. Contanto que ninguém morresse, perdesse um braço, ou desistisse de voltar pra casa, por ele tudo bem. 

Duas turmas de oitava série, sem supervisão, soltas num hotel. Façam as contas.

Nós viramos a noite na piscina falando besteira, e acho que só deu certo porque não foi nada combinado. Minha infância me passou a lição de que essa coisa de ficar anunciando em voz alta que não vai dormir só serve pro sono (ou pra bronca) vir com força, então é melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente. E aconteceu, porque estávamos nadando e dando gostosas risadas quando alguém percebeu que já eram quase seis da manhã e o sol ia nascer. Vimos o dia raiar e fomos tomar café da manhã numa padaria da cidade, pra só então irmos finalmente pros nossos quartos dormir o sono dos justos. 

Tão justo foi o sono que minha amiga e colega de quarto, que lá pelas duas da manhã cansou da brincadeira e foi dormir, acordou passando muito mal, vomitou a alma, e eu não consegui acordar pra ajudar. Ela joga na minha cara até hoje que teve que ir se arrastando toda verde atrás de água e remédio, correndo o risco de vomitar no corredor, porque me sacolejou, me gritou, arrancou minhas cobertas e eu não esbocei reação - e isso não é coisa que se faça. Não é mesmo e eu sinto muitíssimo até hoje, mas foi mais forte do que eu.

REALIDADE #1


Hoje esses eventos me parecem muito triviais, mas esse episódio me deu uma sensação muito boa de que eu era dona de mim mesma. Ir dormir quando eu bem entendesse ou não dormir de jeito nenhum, sair na rua ao léu atrás de um lugar pra tomar café da manhã numa cidade diferente, são coisas pequenas, mas até então esse tipo de liberdade era uma coisa que não fazia parte da minha vida, e eu gostei da novidade. Eu não estava nem com os meus amigos de sempre, e acho que o fato de eu ser a única testemunha da turma nessa noite só deixa as coisas um pouco mais, well, mágicas. 

Eu sei, é brega, mas é assim que eu me sinto. 

Poucos meses depois, foi a vez de eu virar a noite com aquela amiga que na viagem acabou desistindo no meio do caminho. Foi igualmente espontâneo: ela veio dormir aqui em casa e, conversa vai, conversa vem, de repente o sol estava nascendo lá fora. Lá pelas sete nós inventamos de assistir Elizabethtown e dormimos em cinco minutos. Mais tarde foi a minha vez de acordar passando mal, por conta de todas as coisas que fomos comendo durante a noite. Misturar Toddynho com maçã, gelatina e bolo de chocolate, tudo em doses cavalares, não foi uma ideia muito boa, e quem vomitou a alma dessa vez fui eu, e acho que no fundo minha amiga se sentiu vingada.

REALIDADE #2


E aí teve uma vez que eu perdi o sono numa véspera de prova, e lá pelas três da minhã, quando vi que eu realmente não iria dormir, eu simplesmente levantei e fui pra sala dar mais uma estudada. Matemática, sabe como é. Não sei se esse estudo extra rendeu alguma coisa, nem se eu tive cabeça pra fazer a prova direito. Só lembro que era um sábado, estava tendo churrasco em casa, e eu dormi por umas três horas deitada no chão na beirada da piscina. Meu pai jura que tentou me arrastar de lá, mas, novamente, o sono foi mais forte que eu. 

REALIDADE #3


Nessa terça, depois de anos, virei mais uma noite. O oba-oba da adolescência passou e eu percebi que dormir no mínimo oito horas é vital pra mim, principalmente se forem oito horas durante a noite. No entanto, situações desesperadoras pedem medidas desesperadas, e aquele trabalho mega chato e mega trabalhoso deveria ser entregue na quarta, e terça, às nove da noite, pouquíssima coisa estava pronta. Era um trabalho em grupo que realmente precisava ser feito em grupo, e o *único* horário que todo mundo tinha disponível era depois das nove, então lá pelas dez (depois da novela) a gente começou.

A noite foi longa. Varar a madrugada trabalhando é bem diferente de fazê-lo rindo com amigos, e eu alternava ciclos em que a sensação era de que meu cérebro ia desligar a qualquer momento com outros meio eufóricos de ficar andando pelo apartamento e falando sem parar. Tomamos café, cantamos, xingamos o professor e xingamos a nós mesmos por ter deixado a situação chegar àquele ponto, mas eventualmente acabamos. Às dez e meia da manhã, quando eu finalmente pude sossegar e dar uma encostada antes da aula, meu cérebro parecia uma caricatura dele mesmo pelo cansaço e excesso de cafeína, e até agora não sei onde arranjei forças pra ir pra faculdade, consertar erros que passaram batidos no trabalho, comer, e só depois voltar pra casa e dormir de vez.

REALIDADE #4


Apesar do perrengue e do fato de que, se eu pudesse voltar no tempo, eu obviamente faria o trabalho antes pra não ter que passar por aquilo de novo, a sensação de liberdade da primeira noite em claro se manteve ali. 

Ficar doze horas na frente de um computador é infinitamente pior do que passar esse mesmo tempo plantando bananeira numa piscina aquecida, mas as duas coisas acontecem por causa do mesmo princípio, aquele que faz com que, aos nove anos de idade, uma noite inteirinha sem dormir pareça uma coisa tão atraente: a gente faz porque não tem ninguém pra nos impedir, e isso é uma delícia.


(Na real, tomar sorvete antes do almoço (ou fazer do sorvete o próprio almoço) dá na mesma e confunde bem menos nosso organismo, mas definitivamente não rende uma história. Qual é a de vocês?)

domingo, 16 de março de 2014

Colour my life with the chaos of trouble

Cause anything's better than posh isolation

Ou: Era pra ser um resumo de fevereiro

E aí, sumida, como tá a vida? Ah, corrida.

Tudo bem com você? E as novidades? Ah, aquela correria de sempre, né?

Há mais ou menos uns três anos que eu digo pra todo mundo que minha vida está corrida. Aquela festa, aqueles filmes, aquele projeto meio abandonado, aquela série que eu nunca terminei, as pessoas com quem eu falo cada vez menos, o pilates que eu nunca mais voltei e minha festa de aniversário que nunca sai, tudo culpa do corre corre de todos dias. E é verdade, a vida está corrida mesmo. A vida é corrida. Começou no meu ano de vestibular, deu uma trégua na época da greve pra nunca mais ir embora. 

Sempre tem uma coisa atrasada que eu preciso fazer, o texto que era pra ontem, aqueles presentes em cima da minha mesa que eu nunca arrumo tempo de levar no correio, os livros russos que demandam a cabeça fresca, os livros bestas que só funcionam com as pernas pra cima, almoço sempre correndo, termino de me vestir no elevador, e independentemente da forma como eu organizo meu dia (ou talvez porque eu não me organize de jeito nenhum), sempre olho no relógio e vejo que já é uma da manhã e eu não fiz tudo o que tinha pra fazer. 

Apesar disso, estranhamente, eu aprendi a remar nessas águas turbulentas, a viver nessa bagunça. Até porque embora o ócio me conforte como ninguém, sou eu que sempre corro atrás de sarna pra me coçar. Me comprometo a desacelerar, mas quando dou por mim já me envolvi em mil e quinhentas coisas. Tenho uma professora que diz que isso é síndrome de polvo, coisa de gente que jura ter oito braços pra dar conta de tudo. E é isso mesmo, mas quando o relógio bate a primeira hora da madrugada a gente se vê com míseros dois braços e um deles quase falhando - pra não falar das pálpebras que teimam em fechar apesar dos prazos. 

A última semana foi uma bagunça. Trabalhei quase todos os dias pela manhã e as tardes ficaram para resolver todas as pendências da faculdade antes que o semestre acabasse. Saía antes das sete e voltava depois das nove até desfigurada de cansaço, meio enrolando a língua na hora de falar, sem conseguir fazer muito mais do que tomar um banho e ir direto pra cama. Mas ali no meio do caminho, enfiada na agência diagramando meu jornal pela última vez, dando um retoque naquela ilustração, ou repetindo mais uma vez aquela frase pra vinheta de rádio, eu não queria estar em outro lugar. Até arriscava em pensar que queria estar em casa, que queria dormir até mais tarde só por um dia, e que não aguentava mais entrar numa sala de aula, mas fui eu que escolhi tudo aquilo e poderia me livrar daquelas coisas com facilidade se eu realmente quisesse. 

Confrontando o que eu quero com o que eu quero mesmo dentro de mim, o resultado é sempre confuso: existe uma conta que não bate quando você percebe que o melhor pra você nem sempre é o mais simples a fazer. Como ficar em casa dormindo, por exemplo – por mais que você deseje com todas as forças do seu ser mais algumas horas de sono.

Nina Lemos uma vez escreveu numa reportagem da TPM que trabalhar muito é cafona, uma desculpa que a gente busca pra si quando quer evitar a vida. Eu fico meio ressabiada com esse tipo de opinião, porque ela esquece que não é todo mundo que pode escolher trabalhar menos e viver mais. Na verdade, quase ninguém pode. Eu queria mesmo dormir todos os dias antes da meia-noite e deitar a cabeça no travesseiro sem pensar em capa de jornal e pauta pra uma coluna, mas escolhi abraçar o máximo de oportunidades que eu tivesse enquanto ainda houvesse fôlego pra correr atrás de tudo. E descobri que quando a gente realmente quer, aqueles seis braços extras brotam nas formas mais inusitadas e dão aquela ajuda se a coisa aperta. Eu posso até sofrer um pouquinho, mas dou conta de tudo e ainda gosto disso. 

Enquanto vou fazendo o que não quero, vejo que é besteira isso de não querer. Vejo que o que me faz bem é exatamente esse rompimento com o lugar comum, com o sossego. Como quem decide ir pelo caminho contrário do óbvio de uma vida simples, acordo todo dia mais cedo só para aproveitar melhor o dia cheio de coisas que não quero fazer. Mas, será que não quero mesmo? A felicidade que vem de ver cada desafio vencido parece não fazer parte desse conjunto safado de reclamações vazias que a preguiça joga no meu colo.


Reparei hoje que não escrevi um resumo de fevereiro, talvez porque ele tenha sido rápido demais e isso não está na conta do mês que tem dois dias a menos. Fui eu que passei como um furacão por ele e não parei para ver que ele já tinha ido embora. Não há muito o que se resumir além de um monte de coisas que eu não queria fazer, mas que eu não trocaria porque sei que são elas que me levam pr'aquilo que eu quero. E agora que passou, afinal estou de férias, só fico com aquele sorriso besta de alívio que só um trabalho que vale à pena coloca no nosso rosto, que faz esquecer tudo de ruim, de corrido e de estressante que a gente viveu. Fevereiro ferveu, mas teve bão também. 

Assisti só os filmes do Oscar, ainda não terminei Breaking Bad e levei um livro com a barriga o mês inteiro só pra desistir no final, além de já ter esquecido o que ouvi. Por isso, separei três músicas para fechar esse texto que eu estou há literalmente três horas tentando concluir. 

A primeira eu ouço quando estou a beira de um colapso de nervos, ou seja, sempre: when the first cup of coffee tastes like washing up.

A segunda é uma das novas do Drive By-Truckers e diz que a vida acontece quando ninguém está olhando e (uau!!!!) ninguém está olhando agora!

E a última, cuja referência aparece logo no título, todo mundo ama repetir e é verdade que ela é super sonora e poética. Mas eu nunca tinha parado pra pensar em como ela tem a ver comigo, que sem querer querendo acabei vendo que o caos dos problemas colorem nossa vida muito mais que qualquer isolamento ou tarde inteira olhando pro teto. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Strange magic #1: janeirinho da zica

Testando mais um formato de post que vai funcionar dessa vez porque é o melhor que eu consigo pensar no momento, mas que provavelmente será abandonado porque depois de seis anos vocês já conhecem meus esquemas pouco ortodoxos. Se veio pra ficar ou está fadado à sina de one hit wonder junto com Semisonic eu não sei, mas adoro ler resumos mensais em blogs amigos e tenho essa atração voyeurística por diarinhos alheios que não é privilégio meu, mas da raça humana como um todo - e é por isso que eu acho que vocês vão gostar também, sem me achar (muito) idiota. A inspiração direta vem dos resumões da Dani, da sessão Instagram da Cacá e do Imagens da Semana da Fê.


Primeira foto de 2014, chamando a riqueza, o luxo, o requinte e a sofisticação para o ano novo. Sabe, eu realmente gosto de champagne, logo eu, que não gosto de quase nada alcoólico. Na festa de ano novo, mais um jantar dos Rocha como outro qualquer só que com roupas melhores (e champagne), desfilei casualmente com minha tacinha em mãos me sentindo numa festa de Mr. Jay Gatsby. Com a falta de talento para a boemia que me é intrínseca, o máximo de glamour que consegui sustentar durou até a hora em que me entreguei ao borbulhante sono dos justos, antes mesmo de as crianças entregarem os pontos.



Janeiro abriu e fechou com festas de aniversário de amigos amados. Na primeira semana foi a festa surpresa da Anaisa, que ela graciosamente estragou quando entrou na sala escura já dizendo que sabia que nós estávamos amontoados segurando a risada ali em algum canto. Uma pistola que soltava estrelinhas douradas fez a alegria da noite e eu passei mais tempo do que gostaria de admitir rolando no chão catando estrelinha, só pra depois jogá-las pra cima (depois de desistir de colar um monte em mim mesma). Pelo menos as fotos ficaram divertidas. Na última semana Rodolfinho, aquele do beijo das sombras, completou 24 verões muito, muito quentes, e saímos para celebrar em plena segunda como se a vida estivesse ganha. Claramente não estava, talvez por isso o bar enorme que nós fomos tinha só a nossa mesa cheia e uns outros dois gatos pingados. O que foi ótimo, porque enchemos a bandinha de pedidos de música e num dado momento rolou um Leandro e Leonardo de mãos dadas. O garçom ficou bem feliz - depois que a gente foi embora.



Tá rolando solta por aí uma teoria de que janeiro veio com um prolongamento de mau gosto de 2013, um arrotinho deselegante da bagunça que foi ano passado. Isso faz todo sentido do mundo pra mim, que tive uma semaninha de folga apenas e logo no dia 06 cheguei na faculdade defendendo projeto editorial de jornal. No quarto semestre assumimos o controle do jornal-laboratório do curso, o glorioso Senso Incomum, com a missão de reformulá-lo para o ano que virá. Cada grupo bola uma proposta, inventando um jornal do zero - editorial e graficamente - e depois os professores votam no melhor. Meu grupo levou a melhor e nosso projeto venceu, o que foi incrível, mas também deu muita dor de cabeça. Tivemos um delírio minimalista e nosso jornal tem bem menos espaço pra texto - a vingança veio logo, quando minha reportagem de mais de 8000 toques teve que ser reduzida a 3000. Ossos do ofício.

Aliás, essa reportagem consumiu minhas forças, energias e pensamentos esse mês. Resolvi escrever sobre o teatro na cidade, que é uma coisa que me interessa bastante. Foi ótimo, porque é uma delícia trabalhar com o que a gente gosta, mas também horrível, porque eu queria fazer a coisa da forma mais completa e redonda possível e, apesar de ter ficado feliz com o resultado final, me segurei pra não ir chorar no banheiro depois que vi meu texto ser cortado quase que inteiro. Vida que segue.

Esse mês comprei ~materiais escolares~ depois de dois longos anos. No fim do ano passado consegui perder o caderno que usava na faculdade & meu estojo. Como isso aconteceu eu jamais entenderei. Fui levando com a barriga até o recesso, sobrevivendo de canetas e bloquinhos desses que a gente ganha em congresso (os melhores), mas resolvi tomar vergonha e me portar como a garota responsável de quase vinte anos que sou. Meus avós sempre me dão uma graninha de Natal e disse que era pra eu gastar sem pudores com algo que eu quisesse muito ou estivesse precisando, o que me levou a um rolezinho consumista desenfreado que terminou com agenda nova, que vocês já conhecem, esse caderninho belo com estampa de pied-de-poule (depois fui descobrir que é um caderninho de modas, que vem com vários moldes prontos pra croquis) e canetinhas da Stabilo que sempre foram sonho de consumo de uma infância atrasada. Na mesma tacada, achei esse box com as três primeiras temporadas de Modern Family em promoção e não hesitei. Foi uma tarde do tipo que apenas Tom e Donna aprovariam.


Li quatro livrinhos em janeiro - e o quinto devo acabar hoje - o que é bastante para minha média. Iniciei o ano com o penúltimo volume de Vampire Academy, o Spirit Bound, e resolvi dar um sossega na obsessão. Nem posso escrever muito sobre porque senão periga largar tudo pra saber o destino final de Rosinha. Li o divertido Como Ter Uma Vida Normal Sendo Louca, da Jana Rosa com a Camila Fremder, cumprindo a cota de leitura nacional do mês. Depois veio a graphic novel (minha primeira!) Laços, da Turma da Mônica, que é a coisa mais fofa e querida que li em muito tempo. Reli junto com algumas amigas da Máfia o sensacional A Menina Que Roubava Livros. Eis que sete anos depois me reencontro com Liesel, Hans, Max, Rudy e Dona Morte e agora não vejo a hora de ver o filme - mesmo sabendo que devo me decepcionar. Quase no fim do mês recebi uma compra do Book Depository que fiz em dezembro, com dois livros da Rainbow Rowell. Estou quase terminando Fangirl, naquela vibe de ficar postergando eternamente o fim porque muito amor e identificação pra poucas páginas. Escrevei sobre, definitivamente.

Falei a respeito da maioria dos filmes que assisti nesses últimos dias - menos do que gostaria, mas não tenho cabeça para mais nada, Breaking Bad me consome muito. O melhor de todos, no entanto, ficou propositalmente de fora do post, porque aquelas poucas linhas mal traçadas jamais serão suficientes para o tanto que eu achei que O Lobo de Wall Street matou a pau. Já é meu favorito pro Oscar e pra qualquer outra coisa, mesmo que eu tenha visto só dois da lista. Tio Marty, Leozinho e o nojento e fascinante Jordan Belfort já me ganharam. Escrevi sobre a trilha bacanuda (jazz, blues e Lemonheads!) lá no Move That Jukebox

Outro texto de fora bem bacana e polêmico foi a lista que organizei junto com as queridas da 21 sobre alguns casais alternativos da ficção. Estou pensando em fazer uma seleção mais pessoal e postar aqui no blog qualquer dia desses.

I don't know why we listen to poets when nobody gives a fuck 

E por último, a trilha sonora do mês: Wilco continua imbatível, mas dei férias para o Summerteeth e voltei às minhas raízes com a banda me deliciando com tudo de lindo e incrivelmente triste que só o Yankee Hotel Foxtrot é capaz de oferecer. A música que não saiu do repeat foi "Ashes of american flags". Como nem só de lamentos de Jeff Tweedy se faz um mês, resolvi explorar o cd novo da deusa Beyoncé e só descobri coisas maravilhosas (com exceção do easter egg de péssimo gosto que foi dissecado por esses dias na internet e me fez ficar bem chateada com Queen B). Esse álbum fica mais incrível a cada nova ouvida e todo dia tenho uma música favorita nova. Eu poderia dizer que "Drunk in love" é imbatível, mas devido aos acontecimentos recentes, "Partition", meu coração é seu.


E com isso me retiro. Até o próximo mês - ou nunca mais.