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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Como é que eu vou dizer que acabou?

Para ler ouvindo:


Não escrevo nada aqui há cinco meses e há uns quatro parei de sofrer por causa disso, mas já não tenho vontade de escrever aqui há muito mais tempo. Falar sobre o fim é difícil mesmo quando ele já aconteceu. Eu vou do início:

Há exatamente um ano eu anunciei que faria o BEDA, me propondo o desafio de postar todos os dias durante um mês inteiro. Eu estava trabalhando, fazendo TCC, com problemas em casa, tentando virar adulta e já não tinha mais idade pra isso, mas sem pensar muito eu fui lá e fiz - e foi incrível. Me diverti com o blog como há anos não acontecia e isso só evidenciou como blogar havia se tornado algo que eu fazia muito mais por hábito, muito mais por nem me lembrar direito como era a vida sem ter um blog, do que porque sim, porque é divertido, porque eu quero, porque é tão melhor que todo o resto.

O BEDA foi a festa do divórcio, aquela viagem para Paris que um casal resolve fazer pra tentar salvar o casamento de anos sabendo que na volta eles vão do aeroporto direito pro escritório do advogado, aliviados por já terem começado a fazer as malas. 

Veja bem, a viagem foi ótima: eles passearam de mãos dadas, se beijaram na chuva, transaram com vigor adolescente na segurança de seus corpos adultos que sabem exatamente o que querem da vida e do outro. Foram jantares longos, restaurantes caros, sobremesas finas e vinhos deliciosos. Foi uma extravagância merecida. Ele não pensou em trabalho, ela esqueceu o celular, eles se permitiram dormir até mais tarde e conversar a noite inteira. Paris nunca esteve tão linda, eles nunca se amaram tanto, e isso deixou claro que eles já não se amavam mais. 

Aquilo não era a vida real e um casamento não é feito de viagens a Paris, mas de arroz com carne moída naquela quarta-feira, promoção de vinho, cantoria no carro e o charme daquele velho pijama furado. Se é preciso de Paris para ter graça e amor, é porque acabou. Eles estavam se amando sobre os escombros. 

Eu vou sentir falta daqui como quem sente falta daquele namorado que era perfeito, até que não foi mais. Aquele que a gente lembra com carinho e saudade, mas não se arrepende de ter seguido em frente. Voltar pra ele seria voltar para a pessoa que você era antes, e ela já não existe mais. É por isso que acabou. Eu já não existo mais aqui, como não existo mais na pele daquela Anna Vitória adolescente de 13 anos que um dia resolveu que começaria um blog pra valer. Eu não teria chegado aqui sem ela, mas é hora de descobrir todas as outras pessoas que eu ainda posso ser. 

Por que a insistência em tecer analogias entre o blog e um namoro? Porque junto com três ou quatro amizades, o blog é o relacionamento sério mais longo que eu tive e, como qualquer relacionamento, ele me mudou pra sempre e deixou marcas indeléveis na minha vida. Foi aqui que me transformei em gente que escreve, algo que tenho certeza que vou ser pra sempre. Nos últimos meses minha vida mudou bastante e sinto que tudo que aconteceu é uma consequência direta e indireta de um dia ter começado esse blog. Se fui sozinha para uma cidade enorme e nunca me faltou companhia pra almoçar, jantar e cantar no karaokê, foi porque um dia depois da escola eu sentei na frente do computador decidida a escrever sobre alguma coisa, qualquer coisa, porque sim, porque era divertido, porque eu queria e porque aquilo era tão melhor que todo o resto. Quando me lembro, são anos dourados.

Hoje começa mais um BEDA e várias pessoas legais vão participar. Isso me deixou nostálgica, quase que com vontade de entrar nessa de novo, mesmo que no fundo eu tenha certeza absoluta de que esse barco partiu faz tempo. Não quero insistir nessa viagem e me afogar. É como cruzar com uma pessoa que usa a mesma loção pós-barba daquele antigo namorado e de repente sentir tanta saudade a ponto de pensar em ligar bêbada pedindo pra ele voltar. É sempre desconcertante rever o grande amor.

Então resolvi escrever esse post, porque se eu não falar do fim o blog vai continuar aqui existindo como um blog platônico e acho que a gente merece mais que isso. No fim de semana contei para alguns amigos que faria isso e todos ficaram meio tristes (o que me deixou feliz de um jeito bem vaidoso), mas não sei até que ponto é melhor um final nunca dito, eternamente no ar, do que um ponto final claro e honesto. Já não escrevo aqui faz tempo e todos sobrevivemos. Como diz um dos meus poemas favoritos (hoje estou cheia de referências): seu destino foi curto longo e bom, não o choreis. No que depender de mim ele vai ficar no ar pra sempre, até porque eu virei aqui sempre que quiser relembrar algo especial dos últimos OITO ANOS da minha vida.

Como falei, eu sou e sempre vou ser gente que escreve e continuo escrevendo. Se você gosta e se identifica com as coisas que eu faço, ou se eu sou o tipo de pessoa que você lê pra ficar com raiva, você pode me encontrar em diversos lugares:

> Semanalmente, eu mando um e-mail pessoal esquisito para os assinantes da minha newsletter. Para receber também (são anedotas, crônicas, textões, o que estou lendo, ouvindo, assistindo e alguma foto de animal de roupinha), basta assinar a No Recreio

Qual a diferença disso pra um blog pessoal?, você se pergunta. Nenhuma e toda, eu respondo. É como receber o blog direto na sua caixa de entrada, só que de um jeito mais íntimo, complicado e perfeitinho. Existe uma sociedade secreta bacana, querida e crescente nas caixas de entrada (e a Aline Valek se deu ao enorme trabalho de fazer uma listagem dessas newsletters) e é o lugar que me sinto à vontade para escrever no momento. A newsletter é aquela coisa legal que eu faço porque sim, porque eu quero, porque é divertido e porque é tão melhor que todo o resto - e isso basta. O amanhã a Deus pertence.

> Há três meses lancei com algumas amigas o Valkirias, um site onde a gente escreve sobre cultura pop, feminismo e problematiza o impossível. Você pode conhecer o site, curtir nossa página, seguir a gente no Twitter e assinar nossa newsletter. Se tiver alguma ideia dentro do nosso nicho de interesse, pode até escrever junto com a gente.

> Eu continuo escrevendo na Pólen, porque alguém precisa cultivar o lugar de colaboradora mais enrolada e irresponsável de uma publicação absolutamente adorável.

> Também criei uma conta no Medium, porque um dia eu escrevi um textão que não se encaixava em nenhum outro lugar onde eu costumo publicar textões. Mas Anna você odeia o Medium!!! Pois é, mas às vezes ele se faz necessário. Caso essas circunstâncias se repitam, escreverei lá novamente e vida que segue. A VIDA É COMO UMA CAIXA DE BOMBONS, VOCÊ NUNCA SABE O QUE VEM DENTRO!!!!!!!!

> Todos os dias, o dia inteiro, estou no Twitter escrevendo tudo quanto é lixo que se passa na minha cabeça. Ainda é meu lugar favorito na internet porque todo mundo ali sabe que a gente está nos escombros da rede mundial de computadores e precisamos manter essa locomotiva funcionando. 

> Eu também tenho Instagram, Skoob, Goodreads e abandonei o Snapchat, graças a Deus. Tenho também um portfólio online mais ou menos profissional, caso você, futuro empregador, esteja se perguntando. 

> Eu quero escrever um livro em algum momento. Manterei vocês informados.


Já que estamos falando de amor, deixo vocês com essa conclusão: em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. Vejo vocês do outro lado e muito obrigada. Mesmo. Um milhão de vezes. Por tudo que esse blog já me fez ser, crescer e fazer, é realmente inagradecível. E como de praxe, me desculpem por ser ridícula.

Se essa é a lápide desse blog, essas são minhas mensagens finais (são várias, porque eu não sei escolher):

Sentimentos são os únicos fatos

Vamos todos morrer mesmo

O universo está se expandindo

Shakespeare e os gregos já disseram tudo antes

Vai Corinthians

Paz


sexta-feira, 25 de março de 2016

Diálogo?

Às vezes eu lembro de umas coisas aleatórias. Hoje lembrei que o nome do primeiro disco do NX Zero é Diálogo?, assim, com uma interrogação no final. Acho incrível como um sinal de pontuação faz toda a diferença. Eu provavelmente não lembraria se fosse simplesmente Diálogo. Diálogo? deixa as coisas mais dramáticas, como uma conversa que você pega no meio, um casal falando alto num restaurante em que todo mundo fala baixo: 

- Diálogo? Diálogo, Lidiane? - ele diz, logo antes de jogar o guardanapo de tecido no prato e se levantar de repente, fazendo a mesa toda balançar. As pessoas que antes já falavam muito baixo agora pararam completamente de falar para observar a cena. Marcos chegou rápido até a esquina enquanto Lídia cortava mais um pedaço do cordeiro, os olhos fixos no prato, tentando entender o que tinha dito de tão errado. Diálogo, ué. Ele sair assim só mostrava como ela estava correta. 

Eu poderia continuar pelo resto da noite. 

***

O negócio é que eu lembrei que o nome do primeiro disco do NX Zero é Diálogo?, o que me fez lembrar que ouvi NX Zero pela primeira vez num programa da MTV chamado Chapa Coco, com o Felipe Solari e um outro cara que eu sei o nome. A banda estava no estúdio porque era a estreia do primeiro clipe deles. O Di usava camiseta branca com um colar de sementes vermelhas e eu achei ele o maior gatinho, por isso fui assistir o clipe de novo logo que o programa acabou. Essa seria uma lembrança relevante se eu tivesse sido uma grande fã de NX Zero na minha adolescência - a gente sempre tem histórias sobre como foi ouvir bandas importantes pela primeira vez - mas não. Foi só uma coisa que eu lembrei.

Eu estava pensando sobre diálogos (Diálogo?) porque li uma resenha de Batman vs. Superman que dizia já no título: dava pra resolver conversando, e eu sabia que concordava com aquele texto mesmo antes de assistir ao filme. Saindo do cinema repeti a mesma coisa, dava pra resolver conversando, e hoje, quando me perguntaram como tinha sido o filme ontem, disse que um diálogo pouparia Batman e Superman de uma tremenda dor nas costas e Gotham (ou foi Metropolis?) de uma destruição quase completa. 

É uma premissa bem estúpida colocar os dois heróis mais importantes (de acordo com algumas pessoas) para lutar entre si se eles estão fundamentalmente do mesmo lado. Sei lá, os dois não querem o bem e a paz mundial? Na minha módica opinião a gente troca uma ideia antes de resolver as diferenças no braço, principalmente quando esse braço significa quebrar uma cidade inteira. Então eles estão lá quebrando a porra toda e no fim é tudo por causa de um mal entendido. Que poderia ter sido evitado se os bonitões CONVERSASSEM. 

- Diálogo? - pergunta Bruce Wayne sem disfarçar o escárnio enquanto sai do restaurante às pressas com uma lança de kriptonita das mãos - Eu não tenho tempo pra diálogos. - disse, agora com uma voz mecânica e grave que não era mais a sua, mas a de Batman.

***

Eu queria que as pessoas conversassem. Veja bem, conversar é diferente de falar, argumentar, discutir. Conversar, sabe? Diálogo. Uma pessoa fala. A outra escuta. Pondera. Depois responde. É uma troca.

Desde que estourou todo esse rebosteio pelo país tem me incomodado muito a gritaria generalizada, com as pessoas berrando na cara umas das outras aquilo que acreditam e deixam de acreditar, incapazes de ouvir o que o outro lado diz. Acredito que a polarização é uma configuração estúpida para qualquer sociedade, a começar pelo fato de ela não ser real, já que a vida não existe no preto ou no branco, mas num caminho possível entre os dois. Enquanto a gente só ouve quem diz a mesma coisa que a gente e repete só aquilo que a gente já concorda, deixando de ouvir quem está do outro lado, demonizando qualquer posicionamento que fuja à nossa cartilha perfeita de como as coisas devem ser e o que estiver diferente merece morrer, sério, a gente não vai pra lugar algum. 

Imagine aquele monstro do filme, oportunamente batizado de Apocalypse, e é mais ou menos assim que vamos continuar vivendo. 

Entrando no Facebook

- Diálogo? - pergunta Apocalypse, de acordo com o tradutor residente - AJKDHKNNKJHKJFHEIBSKSNKKBGWKGBSODJSINRGKBKBCDHDJJSJSKSDNNSHUAAAAAA [destroys everything in kryptonian monster language]

***

Esse mês eu li Modern Romance, livro sobre relacionamentos na era digital escrito pelo Aziz Ansari (!). Logo no início ele fala sobre a situação ridícula que a modernidade (ou a pós-modernidade, caso você prefira assim) nos coloca que é a de ficar calculando quanto tempo devemos esperar pra responder a mensagem daquela pessoa que a gente gosta. Porque, sabe como é, não dá pra responder muito rápido senão vai parecer que a gente está ali com o celular na mão esperando aquele oi, ainda que a gente esteja. Ninguém quer se mostrar muito disponível e nem ser aquela pessoa que gosta demais. Então a gente espera dez minutos. Vinte. Sete a mais do que a outro esperou pra responder, porque não sou eu que vou sair perdendo caso alguém esteja acompanhando o placar.

Enquanto isso tem dois bobocas de olho no celular e no relógio, perdendo o maior tempo e tendo crises de ansiedade, enquanto tudo seria resolvido com um diálogo. 

- Oi, gostei de você.

- Eu também.

- VAMO SE BEIJAR?

- Bora

A Taylor Swift (lógico) já escreveu mais ou menos sobre essa sensação em The Story Of Us: Now I'm standing alone in a crowded room and we're not speaking / And I'm dying to know is it killing you like it's killing me? 

A parte mais idiota disso tudo é que 1) o maldito do jogo funciona e 2) mesmo sabendo que é estúpido a gente joga junto. Recentemente me vi no meio de uma dessas histórias de mensagens e silêncios calculados, morrendo um pouco a cada vez que pegava meu celular e não via ali nenhuma notificação, pensando que tudo isso seria evitado se eu tivesse um pouquinho mais de coragem de dialogar. Eu tenho esse monte de filosofias, mas infelizmente ainda não sou adepta de todas elas. Por causa desse monte de bobeiras uma história nunca começou, e nem estou dizendo que seria uma boa história, mas seria melhor que esse disco furado na faixa introdutória. 

Algumas histórias não aconteceriam se houvesse diálogo, vide Batman vs. Superman, mas outras tantas se perdem quando a gente escolhe não dizer nada. Já era para eu ter superado esse caso, eu já tinha superado esse caso, mas às vezes eu lembro de umas coisas aleatórias, como lembrei do Diálogo?, disco do NX Zero, que me lembrou de Batman vs. Superman, e da Conjuntura Política Atual, mas também me lembrou de Fresno, e de como aquele moço gostava de Fresno na adolescência, o suficiente para se lembrar, assim como eu, de como tinha ouvido a banda pela primeira vez, e a gente estava no mesmo show, e tudo isso me fez pensar nos nossos diálogos que nunca aconteceram, jamais vão acontecer, e tudo isso me trouxe até aqui. 

- Diálogo? - ela disse, descrente, como se falasse para si mesma ou para ninguém. 


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Guia conversacional para garantir a sobrevivência nas festas de fim de ano

Antes de prosseguirmos com a entrega de prêmios do prestigiado So Contagious Awards, queria bater um papo com vocês. Devido aos acontecimentos políticos do ano, tenho percebido as pessoas mais desesperadas do que de costume com a perspectiva das festas de família e confraternizações diversas que marcam o fim de ano. Porque família é aquela história: não importa de que lado você esteja, sempre tem um tio, uma tia, o avô, a mãe ou o irmão que vai discordar de você. O mesmo vale para colegas de trabalho, amigos dos seus pais ou qualquer um que se encaixe naquele grupo de pessoas com quem você é obrigado a interagir de vez em quando e manter as aparências. 

Sempre vai ter alguém pra discordar de você de forma bem desagradável, seja baseando suas opiniões em dados recebidos via correntes do Whatsapp ou simplesmente defendendo com muita convicção uma coisa que vai diretamente contra algo que você defende com igual convicção. Além dos debates indesejáveis, essa época também é cheia daquilo que considero minha nêmesis pessoal: as perguntinhas. E os namoradinho? E os empreguinho? E as criancinha? E os futurinho? São aquelas perguntas que se faz para puxar assunto, mas que são carregadas de cobrança velada. Eu gosto de acreditar que muita gente é só sem assunto mesmo e não faz ideia de como uma pergunta do tipo pode deixar desconfortável alguém que ainda não tem a vida toda no lugar (tipo, TODO MUNDO), mas isso não muda o fato de que são questionamentos que, sim, deixam muito desconfortável uma pessoa que ainda não tem a vida toda no lugar, porque de acordo com os padrões da Sociedade a gente nunca vai ser suficiente e sempre vai existir algo para estar fora do lugar.


O nome disso é vida em sociedade. Seja bem-vindo. Às vezes é uma bosta. 

Pensando nisso, vim compartilhar com vocês algumas habilidades que fui adquirindo ao longo de anos de convivência em uma família que, de um lado, diverge de basicamente todos os meus posicionamentos políticos, e, de outro, não convive comigo o suficiente para ter algo mais interessante para perguntar do que sobre meus namoradinhos, meus empreguinhos, e meu futurinho - que nunca parecem bons o bastante. Apesar disso, são boas pessoas, ótimas até, gente que eu respeito e gosto o suficiente para não querer discutir, brigar, apontar dedo e cortar laços. Sendo assim, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio para c o n v i v e r (ao fundo, Imagine, do John Lennon, começa a tocar) ou simplesmente manter a sanidade mental.


Esse guia não é para pessoas que querem mudar o mundo. Esse guia é para pessoas que querem dois minutos de paz e tranquilidade na vida, porque é Natal e isso tem que servir para alguma coisa. Nós vamos mudar o mundo eventualmente, mas depois do carnaval, por favor, que 2015 não perdoou ninguém.

1) Vale a pena discutir?

Na maioria das vezes, não. Antes de estralar os dedos, suspirar, e mandar aquele mas eu acho muito engraçado que... coloque a mão na consciência e pense se esse argumento exaltado vai te levar para algum lugar. Vá além: pense se essa conversa vai levar vocês pra algum lugar bom, porque a maioria dos debates acalorados na mesa de almoço só leva para uma discussão sem fim em que ninguém quer realmente discutir, mas sim provar a todo custo que se está certo. É manjado, é brega, mas às vezes é real: você prefere ser feliz ou ter razão? Amigo, se você prefere ter razão vai fundo, mas eu só quero comer minha farofinha e assistir o especial do Roberto Carlos em paz. Por isso, sou uma fiel usuária da técnica do hahaha verdade, verdade. 

Segue explicação:

2) Sorria e acene 

Outra técnica que uso bastante é a do sorrir e acenar. Mais do que implicar que você precisa necessariamente sorrir e acenar (dependendo da situação pode ser meio estranho), ela sugere que você apenas não esboce reação alguma enquanto ouve barbaridades mil. Foi assim que eu agi, por exemplo, quando no ano em que passei no vestibular a mulher do meu tio me levou pra tomar sorvete e passou o tempo inteiro me convencendo de que Direito era o caminho que eu deveria escolher quando percebesse que o curso de Jornalismo era uma piada. Sorri, assenti educadamente sem dizer nada. Se seu interlocutor for muito equivocado e realmente te tirar do sério, experimente revirar os olhos discretamente ou deixar claro no seu semblante como você está desconfortável com aquela conversa, mas por um bem maior prefere manter as aparências (vide passo número 1).

Caso ajude, em momentos assim costumo cantar mentalmente My Favorite Things enquanto penso no doge dançarino ou no Harry Styles de terno florido.

hahahahahah não

3) Tenha uma resposta automática padrão

Quando questionada sobre os namoradinho, os empreguinho, e os futurinho, principalmente sobre os dois últimos, tenha uma resposta padrão para dar para todas as pessoas, mesmo que ela não seja necessariamente verdadeira. Veja bem, estou passando por esse período dramático na vida que é o fim da faculdade e a completa incerteza sobre o futuro. Não é como se eu não soubesse o que eu quero fazer, meu problema é que eu quero fazer muitas coisas, o que me transforma num grande clichê da minha geração. Eu não quero explicar isso para as pessoas, até porque a maioria delas não está realmente interessada e eu não sou obrigada. A única coisa boa de ter que responder perguntas de quem não está interessado e não se importa é que eles se contentam com o mínimo, então basta dizer alguma coisa pouco específica como estou pensando em fazer mestrado, que é o que eu tenho adotado. Com os ex-BBBs e as subcelebridades aprendemos os já icônicos estou avaliando propostas e estou com uns projetos, mas corre-se o risco da pessoa ser curiosa e você se enrolar no próprio truque. O segredo é ser genérico e breve, e se mesmo com suas reticências ao abordar o assunto a pessoa insistir em opinar sobre sua vida, volte o passo número 2. Sorria, acene e espere passar.

É bom lembrar que algumas pessoas estão realmente interessadas na sua resposta para essa pergunta, seja porque elas gostam de você ou porque querem ajudar. Tenha sabedoria de distingui-las das outras e não tenha medo de ser sincero se se sentir à vontade. Pode responder que vai acordar dia 4 de janeiro e chorar. Pode dizer que não faz ideia. Pode dizer em voz alta que vai escrever um livro, prestar concurso, ou tentar uma pós em Harvard. Se a pessoa gosta de você, ela pode te arrumar um contato, um bom conselho ou genuinamente te desejar boa sorte, do fundo do coração. Esse suporte é importante, saiba aproveitá-lo. Mas, na minha experiência, as pessoas que realmente importam ou se importam sabem que o assunto é delicado e encontram jeitos melhores de abordá-lo do que entre uma garfada ou outra de peru.


Na dúvida, assista esse vídeo essencial da minha guru pessoal Gabby Noone.

4) Mude de assunto

Diante de qualquer assunto sobre o qual você não deseja conversar ou ouvir, lance mão desse combinado que preparei especialmente para meus queridos leitores: hahahah verdade, verdade + sorriso + aceno + NOVO ASSUNTO. Não sabe sobre o que conversar?


  1. A festa de fim de ano dos políticos. Discorrer sobre todos os momentos preciosos dessa confraternização é algo que desconhece fronteiras partidárias, porque o absurdo de tudo precede qualquer convicção e você ainda vai estar trazendo o tema de política para a mesa, provando que é muito mais do que um rostinho jovem e alienado que sempre desvia de conversas espinhosas;
  2. O Corinthians. Por experiência própria eu garanto: as pessoas SEMPRE têm algo a dizer sobre o Corinthians, independentemente do time ou até mesmo se elas se importam ou não com futebol. Soltar aquele Rapaz, mas e o Corinthians, hein? salva qualquer conversa. Eu tenho um colega de trabalho que é super meu parça sendo que todo nosso relacionamento é baseado em mas e o Corinthians, hein? e seus desdobramentos. 
  3. Novela. De novo, as pessoas SEMPRE têm algo a dizer sobre novela. Só desaconselho se sua família for do tipo bastião da alta cultura e começar a entrar numa conversa chata sobre a precarização da TV. Evite;
  4. A comida. Nossa, mas esse salpicão está um espetáculo, tia, a maionese foi feita em casa? Pronto, mudou de assunto e ainda puxou saco da anfitriã, mostrando como você é uma pessoa educada;
  5. Qualquer coisa profundamente desinteressante: uma vez estava visitando uns parentes distantes e eventualmente o assunto chegou em mim. Eu realmente não gosto de ser o centro das atenções, odeio falar sobre minha vida pessoal com pessoas que não conheço direito e estava numa fase ruim onde realmente não tinha nada de bom pra dizer sobre mim mesma. Então falei que tinha descoberto um editor de textos excelente e estava adorando usar. As pessoas provavelmente pensaram: coitadinha, que menina patética, por favor cale a boca. Elas sorriram e acenaram e não me perguntaram mais nada pelo resto do dia. Recomendo.
5) Saia à francesa

Em ocasiões sociais, acho muito importante ter para onde fugir. Pessoa ansiosa e introvertida como sou, já chego nos ambientes caçando lugares ou pessoas que podem ser meu refúgio pessoal quando as coisas ficarem insustentáveis. A cozinha costuma ser a melhor opção: além de poder beliscar, a cozinha é conhecida universalmente como o lugar que as pessoas sempre procuram quando precisam de um tempo ou onde se escondem para falar mal umas das outras. Além disso, sempre precisam de ajuda na cozinha. Se não estiver confortável na festa, entre na cozinha se oferecendo para lavar alguma coisa, cortar cebolas ou qualquer coisa do tipo. Eu costumo passar o Natal limpando o fogão e recomendo muito. Outra opção é a mesa das crianças. Sempre tem uma mesa das crianças e sempre falta espaço na mesa dos adultos e alguém precisa ir pro sacrifício. Seja essa pessoa e passe o resto da noite conversando com sua prima pré-adolescente sobre One Direction, com seu primo sobre o último filme da Marvel ou cuidando de algum bebê. Só não recomendo, claro, se você detesta crianças mais do que detesta os adultos. 

Por fim, para encerrar qualquer conversa desagradável, saiba sair pela tangente. Concorde, sorria, acene e peça licença pra ir no banheiro, finja que seu celular tocou ou lance mão do clássico, porém eterno: parece que tem alguém me chamando ali na cozinha, já volto. 

quem nunca né
De resto, respire fundo e espere passar. Lembre-se sempre de que você não é obrigado a nada, é só uma noite na sua vida e que aqueles que gostam de você e se importam de verdade provavelmente são os mesmos que respeitam suas opiniões e decisões, ainda que não concordem com elas, e não são aqueles que vão te deixar com vontade de levantar a voz ou chorar no banheiro. Abstraia, respire fundo e pensa que agora só ano que vem.

Boas festas!

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Vamos falar de qualquer coisa sem escrever textão

Escrevendo eu falo pra caralho, né?

Sempre adorei essa frase. Basta rolar a barra do blog pra ver como é verdade, até porque você vai rolar bastaaaaante, e olha que são só três posts na página inicial. Acho que existem dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que se preocupam com a quantidade mínima de caracteres e aquelas que perdem o sono pensando na máxima. Na época das redações da escola eu precisava diminuir umas duas vezes o tamanho da minha letra já minúscula para não ultrapassar as sofridas trinta linhas, e eu ainda insisto em perguntar se aqueles ínfimos 2000 caracteres designados pra matéria são com ou sem espaço. Ainda lembro da primeira reportagem que entreguei pro jornal: 8000 toques pra um espaço de 3000. Não sei como isso aconteceu.

Porque é assim que eu funciono quando escrevo: eu preciso divagar, eu preciso preparar o terreno com uma introdução de três ou quatro parágrafos que talvez não tenham relação alguma com o tema central, eu preciso contar como eu cheguei até ali, eu preciso descrever minuciosamente o forro da mesa, e o sapato que eu usava, e é preciso citar Cartola, Taylor Swift, Meninas Malvadas, e sempre tem aquele livro que eu li que tem tudo a ver como o tema, ou aquela conversa, aquele filme, e Deus nos proteja do que pode acontecer quando eu acordo socióloga. E aí aquela história: era pra ser só um casinho do ônibus, só um comentário aleatório sobre o céu, a música que tocou na hora certa, um encontro desajeitado, mas quando dou por mim: textão. 

Chegou a viciada em problematizar
E nada contra textão, sabe, inclusive manda mais que tá pouco, mas o negócio é que essa brincadeira às vezes cansa. São três, quatro horas escrevendo um texto que muito provavelmente já passou uns dias rodando na minha cabeça, sendo construído aos pouquinhos naqueles minutos antes do sono. É muita energia reunida, que nem sempre me sobra. Às vezes eu realmente só quero contar um casinho, dividir uma bobagem, deixar no ar uma anedota divertida (ou não). Até tento, mas não me parece certo, não me parece completo, muito menos suficiente. Queria ser como Plan, Renata e Cacá que em pouquíssimas linhas conseguem um argumento completo, fazem rir, e possuem a capacidade de fazer aquelas palavras, poucas mas certas, parecerem o bastante, como se não houvesse outro jeito imaginável de se dizer aquilo. 

Compartilhei isso com minha amiga Analu, que padece do mesmo mal (se não ela, quem?), pouco antes de termos conversado longamente sobre nossos desequilíbrios emocionais no que tange a relacionamentos. Ela soltou: no fundo isso é uma grande metáfora da nossa vida, né? Porque o transtorno reside justamente no fato de não termos tanto medo do compromisso como temos do casual. Não há diversão para nós (ai de nós!), que somos românticas, em se divertir com os errados. Tudo tem que ter um contexto, uma introdução de três parágrafos, trinta e três adjetivos para dar conta da cor daqueles olhos. Vocês que aumentam a letra e suam para escrever 15 linhas não sabem a dificuldade que eu tenho de sentar e contar um casinho. Ou ter um. 

Pensando nisso, na minha falta de tempo, na nossa saudade de escrever, e na urgência de reavivar nossos blog, depois de algumas semanas de crônicas e da loucura do BEDA, nos lançaremos agora num desafio que criativamente chamamos de SEMANA DE ANEDOTAS. A ideia é, por uma semana, todos os dias, chegar aqui e contar uma anedota. Uma coisa bestinha, um comentário, uma frase de efeito. Tudo em poucas linhas e parágrafos magros. Não sei como isso vai acontecer, visto que este, que deveria ser apenas um post introdutório, conta com as palavras "metáfora" e "vida" usadas numa mesma frase. Bless my little heart.

Aliás, esses dias entrei no Tinder, mas vou poupar vocês da analogia.

Até breve, meus fãs
Aproveitem o tempo para descansar as vistas
Yours truly,
Textão :*

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

As mentiras que a internet conta (ou não)

Todo mundo lembra de algum chavão dos pais que era repetido à exaustão como lição de moral ou ensinamento de vida. Todo mundo tem uma frase pra encaixar naquele clichê do como diria meu pai/mãe/vó/tio Ali da pastelaria... e todo mundo um dia já achou a repetição desse corolário um saco, mas um dia também reconheceu que eles estavam certos. Meu pai e minha mãe sempre me lembravam incessantemente de ter senso crítico. 

Normalmente eu revirava os olhos, porque isso costumava acontecer quando eu estava contando alguma super história que eu tinha ouvido na escola ou visto na televisão e lá vinham meus pais tirar a graça de tudo com essa bosta de senso crítico. Adultos, por que tão chatos? Mas eventualmente aprendi a lição, até demais, porque de fato cresci não só muito crítica como quase cética em relação às coisas, o que nem sempre é bom. Eu gosto de acreditar, a vida é muito mais legal quando a gente se entrega. Se você um dia chegou muito empolgado pra me contar uma coisa e eu não só não me impressionei como imediatamente peguei o celular e comecei a checar os fatos, pode culpar os meus pais. Isso começou quando eu tinha oito anos. 

Meu ponto é que assim que li a manchete sobre a celebridade da internet que editou as legendas de suas fotos jogando no ventilador toda a mentira e edição que havia ali, minha reação imediata e sincera) foi: ué, mas as pessoas acreditavam mesmo naquilo? 


Seguindo o ciclo natural das polêmicas na internet, no primeiro dia estavam todos comovidos com a denúncia dela e dispostos a refletir sobre a suposta falsidade de tudo que acontece aqui na rede. Menos de vinte e quatro horas depois, a menina já era impostora, ingênua e aproveitadora, e o debate a respeito do caso era irrelevante, visto que é muito óbvio pra todo mundo que essas construções das nossas vidas, se não mentirosas, são pelo menos muito bem editadas. Eu consigo ver um pouco dos dois lados, e acho que esse caso tem mais nuances do que as opiniões exaltadas estão dispostas a enxergar. Não tenho nenhuma conclusão formada a respeito, por isso vou deixar aqui alguns aspectos que me fizeram pensar pra gente poder conversar a respeito:

1) Nós não somos o alvo

Eu, pelo menos, não sou. Embora esteja na internet desde muito nova, quando tudo isso aqui era mato, não faço ideia de como seria crescer na web 2.0, como é o caso da Essena. Ela conheceu a internet depois do matagal ter sido transformado num universo de informações e compartilhamentos para todo lado, um mundo em que a validação dos nossos pares vem (ou não) de forma instantânea em forma de likes, um universo com zilhões de referências. Até os 18 anos meu celular não tinha câmera, quiçá inteligência, e minha adolescência quase toda aconteceu num mundo sem Instagram. Alguém tinha que lembrar de entrar no meu Orkut e me deixar um scrap (um scrap!) se quisesse dizer que gostou da minha foto nova de perfil.

Crescendo, eu fui afetada pelo exemplo de ícones, como atrizes, cantoras, modelos e outras mulheres que me inspiravam e me faziam ter vontade de ser como elas. Mas, mesmo assim, eu tinha a consciência clara de que elas estavam distantes de mim, que a atriz que eu via no tapete vermelho do Oscar não era quem ela é no dia a dia, que elas tinham uma vida totalmente diferente nos bastidores - consequências de ser da geração que acompanhou a ascensão e queda de Lindsay Lohan e o 2007 de Britney Spears. Eu sempre soube, também, que eu jamais seria igual a elas. Tipo, eu não ia ser atriz em Hollywood, eu não ia ser cantora da Disney. No way.





Os influenciadores na internet, que são os ícones de hoje pra geração mais nova, vendem essa imagem de proximidade e acessibilidade, esse é o apelo deles. Não é mais a atriz americana, mas uma menina da sua idade, que poderia ser você, poderia estudar na sua escola, que está ali te vendendo maquiagens, livros, ou um estilo de vida.

Eu consigo enxergar a forma como a vida de blogueiras e youtubers é construída, eu vi a forma como eles começaram a ganhar dinheiro com isso, eu sei que aquele vestido, aquele sapato e aquela viagem são publicidade. A diferença é que não é mais uma modelo anônima entre uma página e outra da Capricho, mas uma pessoa de verdade, com um discurso que fala diretamente comigo e com o meu universo. Será que uma pessoa que entrou na internet com 12 anos (como foi o caso dela), quando esse sistema já existia, consegue enxergar de forma tão clara essa distinção? Será que ela sabe que muito provavelmente não vai crescer e ser blogueira de moda e ganhar produtos? Será que ela sabe tudo que tem de difícil por trás das viagens e das aventuras?

Realmente não sei, mas não acho que tudo seja tão óbvio. E essas imagens nos afetam, sim. Eu sei de tudo isso que eu falei e no último fim de semana estava aqui, frustadíssima, porque a Vic Ceridono estava em Nova York gravando mais uma temporada do seu reality enquanto eu fazia meu TCC descabelada e sozinha. Via aquela vida e pensava: Por que não eu? Eu poderia fazer isso! Por que estou aqui estudando se posso gravar tutoriais de maquiagem e ir pra Nova York todo mês?

A carne é fraca e o estímulo é forte.

2) A internet não é necessariamente vazia ou mentirosa

Eu gostei muito do texto da Debbie lá no Pequenos Monstros porque ela fala que nossa vida TODA é editada, e a internet é só um prolongamento disso. Claro que ela oferece muito mais recursos para que possamos criar nossa própria farsa, mas o fato é que a gente edita, sim, a vida que mostramos pro mundo, on e offline. E isso não é um erro, não é absurdo, não é falta de caráter ou de verdade. É como as coisas são. Você entra no elevador e diz pro vizinho que está triste? Você tira uma foto no velório da sua avó e coloca no álbum de fotos? Você despeja todos os seus sentimentos pra qualquer pessoa, a qualquer hora? Você se comporta exatamente da mesma forma com suas amigas, seu chefe, seus pais e seus sogros? Não! Isso não significa que sua vida é uma mentira. A parte não é necessariamente uma negação do todo. Ela é só uma parte (!) dele.

Vocês sabem da minha história: eu fiz amigas na internet, amigas de verdade, pra vida toda. Me tornar parte da vida delas foi de repente ser convidada a entrar nos bastidores da vida daquelas garotas que por muitos anos eu acompanhei virtualmente, em seus blogs e todas as redes sociais. O convívio com elas na famigerada vida real me apresentou a aspectos diferentes que eu não conhecia antes, me mostrou o resto do iceberg escondido pela água. Viajar, dormir e acordar junto com elas me fez ver que elas eram diferentes da imagem que eu fazia antes de sermos amigas, mas diferente não por elas serem falsas, mas sim porque havia mais sobre elas do que se pode saber pelo blog ou pelas redes sociais, da mesma forma como tem muito mais sobre mim do que eu mostro no blog e no Snapchat. ¯\_(ツ)_/¯


Você acha que esse animal é uma mentira?

Me incomoda demais o discurso de que as redes sociais são veículos de mentira, que nada na internet é verdadeiro, tudo é vazio e fútil. Como qualquer coisa nesse mundo, a internet tem seu lado bom e seu lado ruim. Vejo tanta menina jovem fazendo coisas TÃO LEGAIS na internet, exemplos tão positivos de quem usa a rede pra coisas tão incríveis que penso como eu seria uma adolescente mais feliz se tivesse acesso a essas pessoas, esses recursos, essas informações. Por muito tempo eu sofria porque não me via representada em lugar nenhum da mídia tradicional: as revistas pra adolescente não falavam comigo, as revistas de cultura não falavam sobre as coisas que me interessavam, e até mesmo na internet era difícil ver conteúdo voltado pra minha idade.

Se eu tivesse 14 anos hoje, poderia acompanhar youtubers falando sobre os livros que eu estava lendo, teria publicações como a Rookie e a Capitolina falando sobre uma experiência de adolescência com a qual eu me identificaria, aprenderia história, economia, biologia e astronomia com o John e o Hank Green, poderia conhecer mil e uma garotas diferentes que se interessavam pelas mesmas coisas que eu para conversar... As possibilidades são infinitas. Então, não, a internet não é apenas um lugar de consumismo exacerbado, narcisismo exagerado e relacionamentos vazios.

Não existe esse papo de que a vida real acontece fora daqui, e acho que quem ainda acredita que ainda existe uma fronteira entre real e virtual realmente não entendeu nada. Eu penso assim: sua experiência na internet é um reflexo da sua vida fora dela. Se você viu o vídeo, a própria Essena diz que sua vida já era vazia antes de entrar nas redes sociais e que ela achou que ter views, likes e parecer bonita nas fotos faria com que ela fosse importante e vista. Antes da internet as pessoas já queriam se sentir importantes e vistas, ela não inventou a carência. Pense nisso. *BOOOM*

3) 01 teoria

Estou estudando opinião pública pro meu TCC, e num dos livros que li (que se chama, olha que coisa, Opinião Pública) o autor escreve que o mundo é grande demais para que a gente possa apreendê-lo em sua totalidade, por isso criamos ficções a respeito dele. Ficção aqui não é sinônimo de mentira, apenas um sinal de que aquilo é uma representação do real. Então nós agimos diante do mundo com base nessas ficções, sendo que a imprensa, na época que o livro foi escrito, era o principal veículo para elas. Daí que o Walter Lippman, em 1920 (!), escreveu que o grande problema da imprensa era que ou as pessoas desacreditavam totalmente no que ela dizia, ou então acontecia o contrário, todo mundo acreditava cegamente no que era veiculado ali, sem pensar que uma representação é uma imagem do real, e que essa imagem pode muito bem ser construída.


O problema não está no veículo, mas na forma como nos relacionamos com ele. Isso vale para a internet. Para termos um relacionamento mais saudável com a rede mundial de computadores e todos os trilhões de imagens que ela nos atira na cara o tempo inteiro, precisamos tirar um tempinho para conversar sobre ela. Quem produz conteúdo, principalmente quem depende do público e ganha dinheiro com ele, possui a obrigação de ser transparente com relação a publicidade e essas coisas, e deve ter senso de responsabilidade com quem está do outro lado. Além disso, penso que é uma pena que com tanta coisa chata e inútil na escola não exista nada no currículo dos estudantes que os ensina a pensar sobre informação, mídia, poder e o processo por trás dessas coisas que fazem parte da nossa vida cotidiana e possui tanta influência sobre ela. Taí uma matéria que eu gostaria de ministrar.

4) 01 reflexão 

É preciso ter empatia. A gente costuma achar que empatia diz respeito apenas a se colocar no lugar do outro para ser mais gentil com ele, mas também diz respeito a VER (LEIAM AMANDA PALMER) o outro como um ser humano como você. Que edita as próprias fotos 35 vezes, em três aplicativos diferentes, até achar ela boa o suficiente para postar. Que limpa a mesa e esconde o guardanapo sujo antes de fotografar a sobremesa. Que não está feliz o tempo inteiro, que chora no banheiro escondido, que acorda de mau humor, às vezes faz chapinha, incha quando está menstruada, tem medo da morrer e um milhão de questões mal resolvidas. Você não está sozinho. Tá todo mundo mal. Vamos nos lembrar mais disso?

Too long didn't read:
Posso ser otimista, posso não ter entendido nada, mas acredito que com diálogo, transparência e educação a gente consegue sair dessa. E, como meus pais diriam, senso crítico também, pelo amor de Deus.

> Eu realmente não estou interessada em discutir o caso específico da Essena O'Neill. Meu ponto aqui não é sobre ela especificamente, mas sim a cultura em que ela (e nós também) está inserida. Então pra mim não faz diferença o argumento que ela discursa contra a internet, mas está usando ela para promover seu outro projeto. Deixa ela, ué. O ponto levantado não deixa de ser válido (e o desdobramento da história não anula meu ponto);

>> Esse caso realmente me fez pensar e desde o início da semana já mudei de opinião várias vezes. O post foi uma tentativa de organizar o que eu estava pensando e contribuir para a conversa que está rolando a respeito, por isso queria muito saber o que vocês pensam a respeito;

Alguns links para saber mais

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Estive em 1989 com o Ryan Adams e conto o que ouvimos juntos

Então o Ryan Adams regravou todo o 1989. Da Taylor Swift. O Ryan Adams. 

Não satisfeito, ele foi além: quando divulgou seu novo projeto, Ryan Adams disse que seu 1989 seria gravado "ao estilo de The Smiths", mas também inspirado no Nebraska, do Bruce Springsteen.  Parecia uma ideia péssima - logo, fiquei obcecada imediatamente.


Aos não iniciados, um pequeno contexto: quem é Ryan Adams, de onde ele vem, do que ele se alimenta? Bom, como ele próprio se define, Ryan Adams é aquele cara esquisito que resolveu regravar "Wonderwall" pra colocar no próprio disco. Foi assim que a gente se conheceu. O cover dele pra música do Oasis toca num episódio da primeira temporada de The O.C., um dos meus preferidos, aquele do dia dos namorados que termina com Seth e Summer dançando no quarto. Eu sei praticamente todas as falas desse episódio, principalmente dessa cena. Acompanhem comigo:

- You're so cheesy, Cohen!
- C'mon, I'm sweeping you off your feet

- Well, the sad part is you kind of are
(ALL THE FEELS)

Estou divagando. Voltemos ao Ryan Adams: coincidentemente ou não, o episódio se chama The Heartbreak, que é (quase) o nome de um dos discos do Ryan Adams. Aliás, o nome dos seus discos diz muito sobre a pessoa do Ryan Adams: Heartbreaker. Love Is Hell. Ele também é ótimo pra dar nome às suas músicas, vide "To Be Young (Is to be Sad, Is to be High" (good vibes) ou "Damn, Sam (I Love a Woman That Rains)". Eu amo uma mulher que chove, meu Deus!!! A gente precisa respeitar esse cara. O som dele é meio folk, country alternativo, sei lá, gêneros não são caixas fechadas, definir-se é limitar-se, etc. O importante é que ele tem esse pé no country, e o que esses cowboys sabem fazer é sofrer.

If all this love is real, how will we know?
If we're only scared of losing it, how will it last?
{If I'm a Stranger - Ryan Adams}

O Ryan Adams também está na trilha sonora mais importante de todos os tempos, que, coincidência ou não, é a minha favorita: falo, obviamente, de Elizabethtown. Ryan Adams contribui com o filme com a música "Come Pick Me Up", que toca quando a Claire e o Drew passam a noite inteira falando no telefone. 

MOMENTOS
Bom, como se não bastasse estar intimamente ligado ao meu seriado e ao meu filme preferido, o Ryan Adams produziu o disco mais recente da Jenny Lewis, minha cantora favorita, do qual eu já falei bastante por aqui. Sim, os riffs de "She's Not Me" são dele. Apreciem comigo:


Depois dessas evidências deu pra perceber que eu tenho um carinho nada gratuito pelo Ryan Adams. Eu gosto dele de verdade, acho gente boa, adoro o sofrimento brejeiro e sei apreciar um cara que sofre sem medo de ser infeliz e deixar que todo mundo saiba disso. Ele, inclusive, foi casado com a Mandy Moore, e a inspiração para gravar o 1989 veio do divórcio (parei por um momento para pesquisar sobre os dois e agora estou sofrendo com o fim de um relacionamento que até algumas semanas atrás eu nem sabia que existia). Sozinho pela primeira vez em seis anos para as festas de Natal e Ano Novo, ele enxergou uma luz nas músicas da Taylor Swift. Sua justificativa para regravar o manifesto pop da nossa melhor amiga famosa foi que, embora ele tenha achado o álbum perfeito (palavras dele, não minhas), ele sentiu que tinha algo a contribuir. Em músicas tão iluminadas e cheias de vigor, esperança, poder e juventude, ele encontrou umas notas tristes que quis explorar.

Então, com sua jaquetinha jeans, seus braços cheios de pulseiras e seu cabelo bagunçado de garoto de 15 anos, Ryan Adams, sem saber que era impossível, foi lá e fez - ou pelo menos tentou de verdade. Sei lá, eu queria um globinho de neve com o Ryan Adams dentro pra ficar balançando enquanto ele sofre e toca guitarra.

"Love is hell" ADAMS, Ryan.
Depois de uma longa espera (mentira, ele gravou isso num tempo ridículo), a pergunta que fica é: PRESTOU? Antes de responder, queria fazer algumas considerações. A primeira é que eu amo covers e isso me faz gostar automaticamente do projeto. Gosto porque acho muito interessante como uma mesma música pode soar totalmente diferente dependendo da perspectiva de quem canta. Ver o Ryan Adams interpretando Taylor Swift é duplamente interessante porque os dois vem do mesmo lugar - o country -, mas se encontram num momento totalmente diferente agora. O 1989 é o primeiro disco declaradamente pop de Taytay, e ouvi-lo através do Ryan Adams é uma forma de sabermos como ele soaria se ela ainda ostentasse a cabeleira cacheada e não tivesse trocado os vestidos rodados e o jeans rasgado por hot pants e blusas com barriga de fora.

Por outro lado, eu realmente odeio essa tendência em que artistas """sérios""" regravam músicas pop, às vezes ironicamente, com uma condescendência ridícula de quem acha que pode validar o coleguinha, acreditando que é superior só porque não é pop. Aliás, superem o pop - acho muito mais genuíno do que esses acústicos de voz rouca que não dizem absolutamente nada, só transformam as músicas dos outros (que, como em todos os outros gêneros, possui exemplares autênticos e outros enlatados) numa mesma coisa e ainda por cima tratam o trabalho alheio, por mais questionável que seja, com desrespeito. Superem.


Não acho que a ideia do Ryan Adams fosse fazer sua versão séria com selo de qualidade musical do 1989, muito menos que sua intenção fosse mostrar que olha, apesar de ser um disco pop feito por uma garota, as músicas são até que boas e vou provar isso pra vocês. Não. Achei muito genuíno tudo que ele disse sobre a Taylor e suas músicas, e acredito de verdade que seu 1989 vem de uma posição de admiração, respeito, e, principalmente, identificação - os pontos fortes do trabalho que a Taylor Swift consegue fazer. Palavras dele, não minhas: "De compositor para compositor, eu acho que ela é extraordinária. Ela trabalha duro e é realmente uma boa pessoa, e eu a admiro pra caramba. Muito disso veio do fato de eu amar não apenas seus discos, mas sua voz na música - e querer me perder nisso. E eu amo essas músicas e pensei que elas poderiam me levar a uma jornada.".

O problema é que as pessoas, meu Deus, AS PESSOAS. O disco mal saiu e já bateu errado, porque a maioria das coisas que li a respeito do disco - e olha que eu tenho um empenho pra fazer clipping de coisas relacionadas a Taylor Swift que eu não tenho nem com meu TCC - estão tratando o trabalho do Ryan Adams como a versão da Taylor Swift que elas finalmente podem admitir que gostam. Ele, o cara do country, o cara sério da guitarra e das músicas tristes, foi o salvador da pátria que corrigiu tudo que estava de errado, colocou seu selo de qualidade, e agora as donzelas podem sair da sua torre de marfim e ouvir o resultado - só pra dizer que olha, ouvindo desse jeito até que presta, sim. 


A Folha de São Paulo, no texto mais babaca e esnobe que li em muito tempo, disse que Ryan Adams "converteu Taylor Swift em gênio" ao despir suas músicas da embalagem pop pasteurizada e descartável, pra revelar que por trás de tudo ela sabe, sim, escrever. Amigo, só não sabia disso quem é limitado o bastante pra descartar um álbum só porque é pop feito por uma garota. O Mary Sue fez um paralelo bacana que eu concordo demais: não coincidência que a música pop seja considerada inferior ou superficial justamente por ser um terreno dominado majoritariamente por mulheres. É como a "literatura feminina", ou chick-lit, vista como entretenimento vazio, uma coisa bobinha para passar o tempo, porque uma mulher não pode escrever algo genuíno, de qualidade, se está escrevendo sobre seus sentimentos com bom humor - isso só se torna genuíno e digno de nota quando chega um cara com sua guitarra e com sua voz rouca e repete as suas palavras.

'Cuz darling I'm a nightmare dressed like a daydream
Porque o 1989 (eu fiz um faixa a faixa em outubro, lembra?) é isso: de novo, Taylor Swift está escrevendo sobre sua vida, suas experiências e abrindo o coração. A diferença desse disco pros outros é que dessa vez ela fala de um lugar mais empoderado, em que o amor não é mais eterno, o coração partido foi guardado numa gaveta, e ela se descobriu feliz num mundo em que não está apaixonada. Ela pisca o olho na cara de quem ouve, rebola diante dos críticos e faz piadas com a imagem que a mídia constrói dela. Ela é dona do mundo - e da própria vida - e sabe disso, celebra isso. E é por isso que o 1989 é pop em sua essência: alto, vibrante, virtuoso e divertido.

E é por isso que o Ryan Adams - embora tenha tentado, tentando com afinco, e tentando bonito - não vai chegar lá, e ele também sabe disso, celebra isso. Seu objetivo não é melhorar ou corrigir o álbum, mas sim oferecer seu ponto de vista e mostrar de que modo aquelas músicas conversaram com ele, e aí sim é mágico ver como uma mudança de perspectiva altera absolutamente tudo. Pessoalmente, não gostei de "Blank Space", muito menos de "Out of the Woods", mas achei incrível como na voz dele as músicas contam uma história completamente diferente. Taylor faz graça da sua lista de ex-namorados, Ryan Adams lamenta todos os corações que já quebrou, e todas as vezes que o seu foi quebrado. Taylor se joga numa relação incerta, mas se empolga com isso e vê uma saída no meio das árvores, enquanto Ryan aceita que não há nenhuma saída e talvez as árvores sejam mesmo os seus monstros.


Os pontos altos pra mim estão em "Style" (onde ele substitui "James Dean daydream look in your eyes" por "Daydream Nation look in your eyes", em referência ao disco do Sonic Youth), "All You Had To Do Was Stay" e "Wildest Dreams". Eu adoro como as músicas ainda mantém aquele feeling dos anos 80, essencial ao espírito do disco, mas de um lugar completamente diferente. Consigo ouvir elas tocando num filme John Hughes com muita facilidade. Realmente repudiei "Shake It Off" e acho que fui a única, mas realmente não consigo ouvir a versão sem imaginar o Ryan Adams como um tio estranho e tarado tentando falar a língua dos jovens para dar em cima das amigas da sobrinha.

Como o Stereogum colocou muito bem (a resenha deles está impecável, não deixem de ler), o que estamos ouvindo é um exercício pessoal de escrita, onde um compositor desconstrói e reconstrói o trabalho de outro para tentar entender e aprender com seu processo. Mas, ao mesmo tempo, we’re hearing a sad, lonely middle-aged man attempting to reckon, for maybe the first time, that he’s become a sad, lonely middle-aged man, and using the songs of Taylor Swift as a vehicle to do it. There’s something beautiful about that.



Eu já disse isso algumas vezes, mas o que eu mais gosto no trabalho da Taylor Swift é que ela consegue falar de coisas infinitamente pessoais e transformá-la em sentimentos universais que, quando atingem o ouvinte, se transformam em algo infinitamente pessoal - e nosso. Eu e Ryan Adams já descobrimos isso, e queria que mais pessoas pudessem ver isso também.

Alguns links para saber (e ouvir) mais:

  • Avaliação prematura que o Stereogum fez sobre o disco, e a melhor coisa que li até agora sobre ele. Queria dormir de conchinha com esse texto porque além dele chamar de psicopatas as pessoas do culto a caras-tristes-com-suas-guitarras-fazendo-cover-irônico-de-música-pop, ele ainda é um exemplo incrível de como uma resenha pode ser ao mesmo tempo lúcida, coerente e entusiasmada;
  • O A.V. Club também escreveu um texto bem bacana a respeito;
  • A New Yorker também;
  • Já indiquei o do Mary Sue também, mas vou indicar de novo porque é muito bom;
  • Entrevista bem legal e completa com o Ryan Adams sobre o projeto, com muitas coisas bacanas sobre processo criativo e composição;
  • 5 covers de músicas da Taylor Swift feita por artistas improváveis (gosto muito da do Vaccines pra "We're Never Ever Getting Back Together", que acaba sendo muito parecida com a que a Taylor está fazendo na tour 1989, e a do Screaming Females pra "Shake It Off" é diferente de tudo que eu poderia imaginar e acho que dá surpreendentemente certo);
> Perdão pela overdose de links em inglês, mas a imprensa nacional não está nem um tico interessada no assunto como nossos amigos gringos estão - e quando se interessam, é pra falar merda.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O que o BEDA me ensinou sobre a blogosfera atual

Ou: vamos usar o Blog Day para falar sobre blogs

Há um tempinho me deparei com o desabafo de uma garota lá no Rotaroots. Ela dizia que amava blogar, mas às vezes se sentia meio boba escrevendo sobre a própria vida e coisas que a interessavam diante de tantos outros blogs por aí com coisas mais relevantes para a sociedade. Eu entendi o que ela quis dizer com "relevante para a sociedade", mas mesmo assim respondi: e quem disse que sua vida não é relevante?

Claro, falar sobre a crise hídrica e problematizar o machismo na nossa sociedade é, sim, mais objetivamente relevante do que, por exemplo, uma discussão sobre o significado da minha casa de Hogwarts. Mas isso não significa que histórias assim não são importantes. Nunca assisti Doctor Who, mas encontrei uma citação do seriado no Tumblr e nunca esqueci: "We're all stories, in the end. Just make it a good one". Todos somos feitos de histórias, e gosto de pensar no ato de blogar (odeio esse verbo) ou simplesmente escrever sobre nossa vida e nossas opiniões como algo mais filosófico e até (por que não?) político. Estamos construindo com nossas próprias mãos a narrativa das nossas próprias vidas. Não é lindo isso? 

Comecei o meu blog porque vi ali uma chance de dizer coisas que as pessoas ao meu redor não estavam interessadas em ouvir, ou então que eu mesma não queria dizer em voz alta. Só que queria registrar aquilo de alguma forma, então fiz um blog. Quase oito anos se passaram, e a situação não é muito diferente. A blogosfera (odeio essa palavra), claro, mudou bastante. Aquela brincadeira de adolescentes virou negócio graúdo, e as marcas enxergaram ali um mercado e uma fonte de visibilidade bem típica da nossa época: não era mais um artista de TV naquela propaganda generalista convencendo você a usar o batom, mas a moça da casa ao lado, que podia ser sua melhor amiga, testando o batom no seu dia-a-dia de gente comum e recomendando o batom pra você. 

Não entendo muito de negócios e nem de marketing digital, mas minha visão de quem estava sentada de camarote observando tudo acontecer (parece que foi há 200 anos, mas eu ainda lembro do primeiro look do dia da Camila Coutinho super desajeitada e morrendo de vergonha, nada profissional) é que as pessoas que hoje ganham dinheiro de verdade com blogs eram pessoas que estavam no lugar certo, na hora certa, e tiveram uma visão absurda de pegar essa oportunidade e transformá-la numa mina de ouro. Com esses blogueiros no alvo dos grandes patrocinadores, indo até onde nenhum diário virtual tinha chegado, é claro que um monte de gente quis entrar pro filão - até porque a gente realmente não sabia o que estava acontecendo, e nem a dimensão que isso iria tomar. Os blogs começaram a se monetizar cada vez mais e de repente, de passatempo de gente à toa o blog virou profissão. Até porque, fala sério, quem não quer ganhar dinheiro fazendo o que gosta?

Não tinha como a blogosfera continuar sendo a mesma coisa, ao menos não num sentido mais amplo. Até porque os blogs não eram mais a única plataforma pra você compartilhar sua vida virtualmente, e numa internet cada vez mais dinâmica, instantânea e imagética (me sinto escrevendo um artigo pra faculdade), trabalhar com textão e manter uma página é bem mais trabalhoso do que contar aquela anedota engraçada no Facebook, mostrar a viagem pelas fotos do Instagram, e registrar sua rotina nos vídeos de 10 segundos do Snapchat. É natural que o número de blogs estritamente pessoais tenha diminuído. 

Mas, ao contrário do que muitas pessoas lamentam por aí, não acredito que a blogosfera tenha acabado, e acho que essa foi a grande revelação do BEDA pra mim: os blogs pessoais estão é muito vivos! Apesar dessa iniciativa já rolar há alguns anos, era sempre um movimento pontual, e esse ano a adesão foi bem grande, pelo menos entre os blogs que costumo acompanhar. Não foi todo mundo que chegou ao fim, mas uma quantidade enorme de gente se propôs a pelo menos tentar e acho que isso já é um avanço enorme. Pode até não dar certo, mas só de você dar a cara a tapa e dizer que vai tentar escrever todos os dias durante um mês, você já está fazendo muito mais que muitas pessoas, e até que você mesmo, que vive dizendo que quer escrever mais, mas nunca faz nada para, de fato, escrever mais (e eu me incluo nesse bolo). 


E aí, contrariando as expectativas dos outros e de nós mesmos, MUITA gente chegou ao final. Eu juro que não esperava isso - nem de mim e nem das outras pessoas. Não é que eu não acredite em mim ou em vocês, mas é que escrever todo dia é DIFÍCIL PRA CARAMBA, e é realmente verdade que o tempo é curto e temos um milhão de coisas concorrendo pela nossa atenção e criatividade. Mas, entre trancos e barrancos, chegamos aqui hoje, podemos contar essa história, e havia boatos de que ninguém mais blogava (argh, não tem um jeito menos ridículo de dizer isso?) por amor. 

Além disso, percebi que ao meu redor as pessoas não estavam apenas escrevendo, mas interagindo umas com as outras. Acho que o BEDA, na verdade, foi um grande movimento de maria-vai-com-as-outras, porque ninguém ia fazer, até que pouco a pouco fomos nos rendendo ao ver os outros entrarem na brincadeira. Não é demais isso? Olha só esse bando de tonto arrumando dor de cabeça gratuitamente, deixa eu entrar nessa rodinha também pra ver qual é a deles. Acho que não tem nada mais internet old school que isso. Aliás, tem sim: no início do BEDA pensei que fosse ficar falando com as paredes e que ninguém teria paciência de me ler todos os dias só minhas amigas, porque elas eram obrigadas a isso por força de contrato, mas o que aconteceu na prática foi que a média de comentários por post em agosto foi maior que a de todos os posts do resto do ano! 

E não foram apenas comentários, mas sim o que a gente tem o costume (e eu amo que a piada interna esteja se popularizando) de chamar de mimos. Mimar é comentar com carinho e atenção, não só como protocolo, mas porque você realmente tem algo a dizer sobre aquilo que o outro escreveu. Muita gente costuma pedir desculpas depois de um comentário muito grande, principalmente se  viaja na maionese ou conta uma história aleatória da própria vida, mas são justamente esses os comentários que eu mais amo, é essa troca que faz tudo valer a pena. Fui tão bem mimada por vocês nesses dias que chego até a ficar com vergonha, porque não sou a mimadora mais assídua - mas juro que faço o que eu posso. Às vezes me frustrava mais com o fato de não poder acompanhar os blogs do que com a dificuldade de escrever, porque eu sei que é essa comunidadezinha que faz a gente seguir em frente, se fosse para escrever e só ninguém estaria expondo a própria vida, certo?

Daí que alienada nesse meu cercadinho da internet li esse post da Duds e, embora concorde com muito do que ela escreveu, não assino embaixo de tudo. Não acho que a blogosfera seja uma bagunça, nem que "a blogosfera atual escreve por obrigação, procurando receita pra ganhar dinheiro". Acho que o que mudou de 2005 pra cá é que a blogosfera é muito maior, com muitas pessoas fazendo muitas coisas diferentes. Coisas tão diferentes, aliás, que até me questiono se podemos chamar tudo de blog, porque pra mim o Depois dos Quinze e o meu blog são tão radicalmente diferentes que nem parecem o mesmo veículo. Claro, a Bruna Vieira começou compartilhando sobre a própria vida e fez a vida em cima disso, mas, como eu disse lá em cima, tudo aconteceu num momento muito específico e que não vai se repetir. E eu tenho certeza que hoje ela não bloga com a mesma despretensão de antes: ela tem um mercado, tem um público pra atingir, e quem a acompanha por aí vê que ela se preocupa muito com esses leitores. O que vocês querem ver? O que vocês querem assistir? 

Ela não tá errada em fazer nada disso, mas percebem que é uma postura diferente? Por isso acho meio improdutivo tentar catequizar as pessoas das maravilhas da blogosfera old school. Acho (posso estar errada, inclusive adoro debater o assunto) que quem só quer acesso, alcance, fama, dinheiro e presentes com o blog, ou se frustra porque tem blog mas nunca recebeu jabá em casa, é porque, pra início de conversa, a pessoa não quer ter um blog. Ela quer ter acesso, alcance, fama, dinheiro e ganhar presentes. O blog foi só um jeito que ela encontrou de chegar até isso. É um mercado, e muitas pessoas ficam nessa ânsia de correr atrás dos blogs porque parece mais fácil. Pode até ter sido um dia, mas hoje já é tão engenhoso, quanto, sei lá, comprar uma franquia, montar uma banca de limonada ou um negócio qualquer. Então, se ela quer mesmo virar blogueira profissional, aí tem que colocar o foco nisso - e procurar entender um pouquinho mais daquele meio antes de se enfiar num fórum como o Rotaroots buscando dicas pra engordar o Analytics, né?

Mas aquelas pessoas que querem mesmo ter um blog e apenas um blog, não precisam de muito além da coragem pra começar. Como a Analu colocou num texto, essa blogosfera nossa, esse quintalzinho de internet da resistência, funciona como uma varanda fresquinha, com uma mesa enorme, em que amigos se reúnem pra bater papo e tomar sorvete no fim do domingo. Coisas engraçadas, coisas sérias, coisas tristes e felizes, um papo bestinha e especial como é a nossa vida. Não tem isso de se preocupar com a Relevância, eu juro que a gente está interessado em saber o que foi que você comeu no almoço e por que foi que você não gostou do tempero. Tenho um mês inteiro de postagens que prova isso, junto com a experiência de passar um mês lendo sobre batatas, chinelos e avós - e muito feliz por isso. 

No fundo somos todos histórias, basta puxar a cadeira e contar uma boa. 


> A proposta do blog day, a qual já sou adepta há alguns anos (vide posts de 2014, 2013, 2011 e 2010) é indicar alguns blogs bacanas que você descobriu ao longo do último ano. Não tenho tantas novidades assim para compartilhar, mas não posso encerrar essa aventura de postar todos os dias durante um mês sem falar sobre as pessoas que me acompanharam nessa aventura. 

Queria dedicar esse post a todo mundo que me faz acreditar que a blogosfera é real e importante, e todas as pessoas que não deixam a peteca cair, que fazem com que há oito anos isso seja MUITO legal. Falo das minhas amigas do peito, irmãs, camaradas, que começaram essa história toda e me arrastaram até aqui: Analu, Paloma, Sharon, Iralinha, Couth e Rafinha, e não posso esquecer de quem participou da #resistênciaBEDA e não me deixou aqui falando com as paredes (mesmo que eu seja horrível e nem sempre retribua o carinho como elas merecem): Ana, Ana Flávia, Alê, Amanda, Rodarte, Sofia, Mia, BincasBeatriz

Queria também dedicar esse Oscar mandar um salve pra todas as pessoas que, participando do BEDA ou não, acompanhando meu blog ou não, fazem a minha blogosfera bem mais divertida: além de todos os blogs que já indiquei em todos os blog days por aí, queria falar da Vanessa, do Felipe, da Ba, da Carol, da Debs, da Sarah, da Dani, da Lorena, da Amandinha, da Larie, da Manie, da Isadora, da outra Isadora, de mais uma Isadora, da Raquel, da outra Raquel, da Ana Paula, da Lilica, da Bárbara, da Isabela, da Anica, da , da Cacá, da Renata, da Júlia, da Nambara, da Natália, da Lidy, do André, da Patrícia, da Jana, da Lya, da Ivi (sim estou lendo meu blogroll) e de todas as pessoas que eu esqueci, mas que fazem meu dia mais feliz e completo porque, apesar dos pesares, insistem em escrever ou têm coragem de me ler.

Eu queria ser blogueira rica só pra poder dar uma festa de arromba hoje e celebrar nossa vida besta, nossos casos irrelevantes, e o fato de que, finalmente, O BEDA ACABOU E A GENTE SOBREVIVEU!



>> Agora que o BEDA acabou vou aproveitar para escrever um romance, correr uma maratona, reassistir Gossip Girl, iniciar meu projeto de mestrado, ter um filho e não pera. O ritmo de atualização vai diminuir (dã), pode demorar um mês ou uma semana, mas acho que antes de vocês sentirem saudades já estarei de volta.