segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coisa que só tem em estreia

Meus pais me olharam como se eu fosse um extraterrestre quando, ano passado, eu saí de casa as 11h da manhã pra assistir Harry Potter e o Enigma do Príncipe, numa sessão que começava as 15h. Não entendiam o motivo de eu ter almoçado sentada no chão do shopping, e passado umas duas horas na fila, e outras duas dentro da sala esperando o filme. Sexta retrasada eu cheguei da escola, almocei correndo e fui pro shopping ver Alice na estreia. "Mas Anna, esse filme não vai estar passando amanhã, ou semana que vem? Tem que ir hoje?" Tem, pai, tem que ser hoje sim, apesar de o filme ser o mesmo amanhã, e no fim de semana que vem, existem coisas que só acontecem numa estreia.

Contei um pouco das pérolas do dia da estreia d'O Enigma do Príncipe, mas não sei se adicionei que meu primo de São Paulo disse que esse virá para cá para assistir As Relíquias da Morte só porque pra ele, ver o Matheus, meu amigo, pulando enlouquecidamente quando o logo da Warner começou a aparecer na tela, foi uma riquíssima experiência antropológica. E tem os caras que sempre se vestem com o uniforme de Hogwarts, e os que vão pra frente do telão, antes do filme começar, pra pedir que não haja algazarra quando começar, já que depois de dois anos sem magia no cinema (sic) a gente tinha que aproveitar bastante.

No dia de Alice aconteceu uma coisa mais inusitada. O pessoal do cinema liberou a sala meia hora antes do filme começar, o que foi muito bom já que eu estava com metade da minha sala, fora os agregados que foram chegando depois que estávamos na sala e que precisavam ser acomodados. No fim, enchemos duas fileiras de pessoas. Quando inalmente consegui sentar e sossegar, sem ter que me preocupar com vigiar lugar, levar ingresso, comprar pipoca, comecei a ouvir um rebuliço na fileira de trás.

Aliás, eu nem deveria ter me espantado com essa agitação, já que a sala estava uma bagunça completa. A sessão era, em sua maioria, composta por neo-emos de cabelo e calças coloridas que ficavam tirando fotos, um pessoal do fã clube oficial de Twilight em Uberlândia (sim, isso existe), umas crianças em bando acompanhadas por uma mãe Madre-Tereza (uma santa, afinal, que tipo de pessoa topa levar uma cambada de crianças numa estreia de filme super esperado?), e a gente, que não posso salvar do grupo dos descompensados e barulhentos.

O que me chamou atenção na fileira de trás, primeiro foi um menino pedindo para que uma garota pegasse a cartola dela e fosse tirar foto. A Menina da Cartola já tinha me chamado atenção antes, já que ela andava pra lá e pra cá na ante-sala do cinema com uma cartola feita por ela mesma, numa tentiva frustrada de imitar a do Chapeleiro. Era uma das coisas mais mal feitas que eu já tinha visto, acho que eu não teria feito pior. Era de cartolina, com uns rabiscos e papéis colados com uma cola vagabunda, já que eles já estavam despregando. Quando ela chegou junto ao pessoal, rolou todo um falatório a respeito de como a cartola dela era legal e que eles estavam morrendo de inveja. Eles se amontoaram e logo eu ouvi "ei, alguém da fileira de baixo, bate a foto aí pra gente".

Eu nem me mexi. Que me desculpem as boas almas solidárias e animadas, mas eu tenho lá meus ais de rabujice, e não ia mesmo me movimentar, logo quando eu havia acabado de sentar, depois de disputar o meu lugar e vigiar o dos outros (em dia de estreia movimentada só não vale matar e roubar, o resto, dedo no olho, mordida e puxão de cabelo, vale tudo por um lugar ao sol). Sem contar o fato de que eu tenho aquela fobia de altura e lugares íngremes e um certo trauma de cinema - uma vez que eu já caí da escada mais de duas vezes. Não estava afim de ficar em pé e ter que me inclinar para trás para tirar aquela foto. Não, obrigada.

O garoto chamou umas três vezes, até que eu senti alguém cutucar o meu ombro. "Hey girl, tira uma foto pra gente?", disse um garoto que, quando virei-me para trás, balançou a cabecinha de um jeito que nem Regina George faria melhor. Como negar um pedido de um garoto que apreciava uma cartola feita de cartolina, usava a camiseta do fã clube oficial Twilight e ainda mexia a cabecinha e me chamou dizendo "hey girl"? Levantei sorrindo (não) esperei que eles fizessem pose e XIS. A foto ficou uma porcaria. Eles estavam em umas 15 pessoas, ou seja, só dava pra enquadrar todo mundo se eu estivesse a pelo menos dois metros de distância, coisa impossível entre duas fileiras de cinema. Só se eu fosse muito ninja e desse aquela inclinada para trás, uma coisa meio matrix. Olha minha cara de quem faz isso.

Eles olharam a foto, deram aquele sorrisinho amarelo, e pediram pra outra menina fazê-lo. A outra menina é da minha sala, minha amiga Valéria. Nem cinco minutos depois da foto, ela e Caio, outro amigo meu, estavam num papo animadíssimo com todo o fã clube Twilight, numa cumplicidade que eu já sentia que não podia estar correta, uma vez que a integridade desses dois a gente sempre questiona. As luzes foram se apagando e eles cochichavam. Lá vinha bomba. "Quando eu disser três...", foram as últimas palavras de Caio. As luzes se apagaram por completo. "Um... dois... três..." "SEEEEEEEEEEXOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

E meu pai ainda pergunta por que eu gosto tanto de estreias.