segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As manhãs não existem

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias (...)
Meus Oito Anos - Casimiro de Abreu

Minha hora preferida do dia é a manhã e, ironicamente, é a hora do dia que eu menos presencio. Manhãs me remetem a leite com Nescau as oito da manhã no sofá da sala assistindo As Trigêmeas. Era meu rito sagrado matinal, que perdurou durante todos os anos em que eu estudei no turno da tarde, que foram muitos. Por volta das 10h saía para minhas aulas de inglês/ballet/sapateado/natação, sempre a pé, acompanhada pela moça que trabalhava em casa. Mesmo com o sol um tanto mais alto e forte, não era como se ele fosse esturricante, e o céu me parecia sempre de um azul absurdo, as folhas mais verdes, e apesar do cenário ensolarado havia um ventinho gelado. Talvez o bairro lindo que eu morei durante a minha infância tenha contribuído para toda essa memória afetiva em relação às manhãs, já que eu ia me deixando conduzir pela mão e parando para prestar atenção em qualquer detalhe que fosse do caminho, tão absorta naquilo que mesmo fazendo o caminho semanalmente durante anos, nunca decorei os itinerários.

Com a mudança para o turno da manhã foi-se embora o leite com Nescau e eu nunca mais assisti As Trigêmeas. O café da manhã passou a ser substituído por um pão na chapa comido às pressas, que ao longos dos anos foi involuindo para a coisa que estivesse mais ao alcance da mão, na cozinha, cuja praticidade era proporcional ao quão atrasada eu estava para a escola - cada dia um pouco mais. Passei a gastar minhas manhãs numa sala de aula hermeticamente fechada, com um ar condicionado sempre tão frio que não importa quantas camadas de roupa eu use, ainda estarei com a ponta do nariz e dos dedos sempre gelados. Se não estou presa em sala de aula, estou atada por Morfeu nos edredons, seja por trocar o dia pela noite, nas férias, ou por uma necessidade extrema de recuperar um sono perdido durante toda a semana, aos sábados e domingos.

As manhãs não existem, agora não mais, apesar de se repetirem todos os dias quando o sol se despede do Japão e vem dizer um alô pra gente. Os mesmos azuis, de um mesmo céu limpo banhado pelo mesmo sol e acariciado pela mesma brisa gelada. O que não existe mais é aquele eu sem preocupações, que se aboletava no sofá de meia e pijamas e saía nas ruas com seu colant azul e meia calça cor-de-rosa, que fingia dores no estômago para faltar às aulas de natação e não passava mal quando tomava leite achocolatado. As manhãs não existem, essas não mais, e é bom que permaneçam assim, sendo perfeitas enquanto guardadas com carinho nesses repentes nostálgicos que me fazem suspirar e pensar como o poeta, oh que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais!, olhando para a janela, às 7h (hora da manhã fria e sem graça), como num filme da Sofia Coppola.

As manhãs não existem, como não são possíveis de existir vinte e quatro horas de aurora. Ando por aí procurando uma nova hora do dia pra achar o céu sempre lindo.