Anos atrás recebi por e-mail o hilário "Como Dar Comprimido Para Um Gato", que ainda leio e caio na risada, ainda mais por lembrar das histórias dos meus tios e primo, que tem duas gatinhas, sobre como o texto é baseado em fatos reais, e das peripécias que eles já realizaram para medicar suas adoráveis bichanas que atendem por Linda e Doce. Por conta disso, cresci imaginando que dar um comprimido a um animal de estimação é uma tarefa que requer bastante empenho e coragem. Nunca me aventurei a dar remédio algum ao Happy, via de longe a peleja que era a de mamãe tendo que enfiar aquele pug de doze quilos, que pulava, arfava e tentava fugir de todas as maneiras, dentro do tanque e a peripécia que era enfiar-lhe um comprimido goela abaixo.
Essa semana Chico adoeceu pela primeira vez desde que está conosco. Sr. Buarque versão poodle está com erlichiose, que felizmente foi diagnosticada cedo, e agora passa muito bem obrigada. Chegamos ontem do veterinário carregadas de remédios e recomendações, coisas que combinam bastante com duas donas neuróticas e corujas como mamãe e eu. Fiquei um tanto quanto apreensiva ao saber que, por terem uma hora certa, era eu que deveria dar a maioria dos remédios, logo eu que não sou nada jeitosa. Já me via caída no chão resfolegando, com comprimidos babados e moles espalhados pelo cabelo, enquanto Chico provavelmente ria da minha cara de otária confortavelmente escondido embaixo da cama. O veterinário me demonstrou como deveria fazer, e claro, pareceu fácil demais quando ele fez, do mesmo jeito que quando vemos nossa manicure fazendo nossas unhas, ou então o Jamie Oliver montando um prato, achamos que aquilo é a coisa mais simples do mundo.
Dada a hora do antibiótico, lá fui eu para minha missão. Sentei o Chico no sofá, olhei pra cara dele, ele me olhou, e na hora que encostei em sua boca para tentar abrí-la, ele já estava longe. Tentei algumas outras vezes, mas sem sucesso, não consegui nem ao menos jogar o comprimido lá, ainda que fosse para ele cuspir depois. Aí me lembrei o que o veterinário me falou primeiro: ter bastante calma, confiança, e não ter dó de abrir a boca do bichinho e enfiar o dedo, e o comprimido, lá dentro. Dei um descanso ao meu poodle enfermo, assisti um pedaço de episódio de The Oc e fui tentar de novo. Dessa vez me sentei no sofá, coloquei o Chico em pé de frente para mim, segurei ele entre os meus joelhos, com uma mão segurei a mandíbula, e com a outra fui com tudo na goela do bichinho. E consegui!
Quando mamãe chegou em casa não parei um segundo de me gabar para ela que, coitada, é canhota e desastrada e se descabela inteira ao tentar dar os benditos comprimidos. Ela ficou impressionada com a rapidez com que eu consegui fazer Chico tomar os remédios, e agora sou a enfermeirinha oficial dele aqui em casa. Virou quase modalidade olímpica essa coisa dos comprimidos, a cada hora quero conseguir mais rápido, quero sair menos babada, e fazer com que ele se aborreça menos; apesar de toda minha eficiência, minha recompensa é aguentar Chico emburrado comigo, que logo depois do remédio corre para algum lugar e por lá fica escondido por quase uma hora, sem me olhar na cara. Rancoroso, isso que esse cachorro é.
Repassando, para os donos de cães que veem a hora dos remédios como um suplício: segure ele com as pernas, agilidade nas mãos, coragem, força na peruca, e dedo na goela com fé, mas sem machucar.
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