terça-feira, 8 de novembro de 2011

Virgens suicidas, só que ao contrário


Ontem No dia que escrevi esse post,  havia assistido Heathers pela segunda vez em uma semana e não consigo parar de me perguntar como vivi 17 anos da minha vida sem ter visto esse filme. Para explicá-lo, basta pedir para que vocês peguem Meninas Malvadas, Gossip Girl, Clueless e John Hughes, joguem num caldeirão juntamente com Clube da Luta, Quentin Tarantino, Alice no País das Maravilhas, Winona Ryder como protagonista e misturem bem. Parece piada, mas eram os frutíferos e saudosos anos 80, quando algo assim era concebível e realizado.

Veronica - Winona Ryder musa - é uma garota que faz parte do grupo das populares da escola - as Heathers - , mas meio contra sua vontade. Apesar de reconhecer que aquilo é realmente estúpido e que as coisas que suas amigas fazem com os outros (em parceria com os jogadores de baseball musculosos e descerebrados) é um bocado cruel, ela não consegue fugir daquilo. Todas as vezes que tenta se desvencilhar de sua panela, é puxada de volta pela líder, Heather Chandler, que, com seu incrível poder de persuasão, lembra Veronica da triste realidade que a espera fora daquele grupo. Sem as Heathers ela iria do topo ao completo ostracismo.

Tudo muda, no entanto, quando ela se envolve com JD, o garoto novato e misterioso que após fisgar Veronica e ouví-la murmurar sobre o profundo ódio que nutre por Heather Chandler e seu bizarro poder de influência, convence a garota a pregar uma peça na "amiga", plano que no final sai um pouco do controle quando eles acabam por matá-la (sim!!!!) e fazem todos acreditarem que foi um suicídio motivado pela descrença dela diante do enorme vazio que era ser a garota mais popular da escola.

O macabro plano de JD, no entanto, era mais abrangente que simplesmente dar cabo à vida de Heather: o que ele queria mesmo era protestar contra aquela sociedade capitalista hipócrita, perfeitamente representada no microcosmo das escolas e em seu sistema de hierarquia que subjugava e hostilizava os jovens americanos, fazendo-os pessoas malvadas, egoístas e profundamente traumatizadas enquanto eles deveriam era estar lendo o Manifesto Comunista ou algo do tipo - essa inserção de Karl Marx na história fica por minha conta. De que forma ele planejava fazer isso? Matando seus ícones ou simplesmente explodindo o colégio. Um embrião de Tyler Durden, basicamente.

O filme é claramente a fonte de onde os roteiristas de Meninas Malvadas beberam, uma vez que a personagem da Lindsay Lohan, que inicialmente deseja sabotar a rainha má Regina George, mas que depois se vê seduzida e presa àquele mundo que a reconhecia, temia e idolatrava. Mais claramente ainda enxergamos Gossip Girl, principalmente no que diz respeito à estética: as meias calças coloridas e as tiaras enormes na cabeça das rainhas do Upper East Side vieram diretamente do universo das Heathers, com exceção das tiaras, uma vez que, no filme, o maior símbolo de poder é uma fita vermelha. A Veronica, no caso, seria a Jenny, garota que faz de tudo para entrar naquele meio e depois faz de tudo para acabar com ele. A referência ao Tarantino fica por conta do humor negro e do extremismo da história: não gosta da menina popular? Mata. Se ele fosse dirigir um filme adolescente, esse é exatamente o tipo de coisa que aconteceria.

Enquanto As Virgens Suicidas, em toda sua melancolia e profundidade coloca o suicídio como forma de reação e escape ao aprisionamento que é ser uma garota numa sociedade repressora, Heathers opta pelos assassinatos disfarçados de suicídios para denunciar a brutalidade do meio escolar e das pressões sociais que vem com a adolescência. Os tons pastéis e pálidos da Coppolinha, com suas personagens quase etéreas, são contrapostos pelas vibrantes cores dos anos 80 e a explosividade do filme de Michael Lehmanm. Um não é melhor nem pior que o outro. São diferentes e se complementam, e qualquer um que seja atraído pelos muitos elementos supracitados ou deseja ver um filme realmente divertido, deveria assistir Heathers urgentemente.