quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Aquele com o prato de salada no cinema

Essa história seria bem mais engraçada caso vocês conhecessem a personagem principal: Anaisa, minha melhor amiga para todo sempre, salve salve. Faria mais sentido se vocês soubessem por meio de anos de convívio que Anaisa parece uma personagem de sit-com, uma fusão entre Joey, Phoebe e Monica, de Friends, porque aí, ao fim desse texto, vocês só pensariam: mas é mesmo a cara da Anaisa. Como nem tudo é do jeito que a gente idealiza, vocês fiquem aí imaginando uma pessoinha minúscula com enormes olhos verdes, que reúne em si uma falta de noção bem Tribbiani, com as excentricidades da Phoebe, aliados à neurose da Monica, açúcar, tempero e tudo que há de bom e tente imaginar a Anaisa.

Estava na fila do cinema junto com a Isabela, esperando a Anaisa para assistirmos Meia-Noite Em Paris (sim, esse episódio é antigo). Ela, claro, chegou meia hora depois do combinado, descabelada e aflita, e pediu que esperássemos mais 10 minutos porque na correria ela não tinha comido nada e precisava jantar alguma coisa. Esperamos. Mesmo em se tratando da Naná, imaginei que ela voltaria com uma pipoca, uma batata ou, no máximo, um sanduíche. Não. Anaisa voltou com um prato de salada. E não era uma cumbuquinha prática como as do McDonalds, mas sim um senhor prato de salada, cujo diâmetro era maior (bem maior) que o de um prato tradicional.

Depois de perguntar por que raios ela tinha comprado uma salada ao invés de escolher alguma coisa mais prática, rir da cara dela e encher muito o saco, ainda tivemos que ajudá-la a enfiar aquilo dentro da bolsa, porque, claro, não se pode entrar no cinema com um prato de salada. Felizmente conseguimos escondê-lo e as luzes já estavam parcialmente apagadas quando ela o tirou lá de dentro e colocou-se a postos para comer. "Hm, que gostosinho", ela disse, ao retirar a tampa de plástico. Eu ri, a Isabela riu, porque nós sabíamos que não seria tudo tão simples assim.

Estávamos lá abraçados com o Owen Wilson, a Marion Cotillard e o casal Fitzgerald quando ouvimos um murmúrio de nojo. "Eca, essa salada tá muito ruim". Perguntei qual era o problema, e Anaisa disse que provavelmente tinha colocado um molho ruim. "Mas Anaisa, minha cara, você não escolheu uma coisa que gosta?", perguntei. "Ah, eu costumo pedir esse prato, mas aí decidi inovar no molho e agora descobri que não gostei. Experimenta um pouco pra você ver como tá ruim!" Claro que eu não experimentei. Já não sou a maior saladeira do mundo, ia lá trocar minha pipoca por uma garfada de alface que a senhora dona Anaisa ainda havia dito que estava ruim? O cheiro já não era dos mais convidativos, e eu tinha certeza que havia alguma castanha ou passa ali no meio. Dispenso.

E entre uma risada com o Salvador Dalí ali e um suspiro pelo Hemingway acolá, Anaisa murmurava: "Não acredito que paguei vinte reais nesse troço... vinte reais, meu rico dinheiro... poderia estar comendo um macarrão muito mais gostosinho que isso... e agora vou ter que jogar isso fora, que desperdício de comida e dinheiro..." e assim foi até o fim do filme. Lá pela metade ela desistiu completamente de salvar a salada e estava comendo os restos das minhas pipocas junto com os amendoins da Isa.

O filme acabou e saímos do cinema, eu, Anaisa, Isabela, e aquele enorme prato de salada. Anaisa pediu para esperarmos, pois ela precisava fazer uma coisa. Não entendi direito o que ela tinha que fazer, afinal já passava da meia-noite e as únicas pessoas naquele shopping eram os faxineiros e quem estava saindo do cinema. Ela explicou então que como não havia mais talheres descartáveis no restaurante, a atendente do Salad Creations havia lhe emprestado um garfo e uma faca do lugar, fazendo-a prometer que devolveria ao fim da sessão. O problema era como iríamos fazer aquilo, já que o restaurante estava fechado.

No fim das contas a pequena e intrépida Anaisa muito discretamente jogou os talheres por baixo do toldo do lugar, enquanto eu e Isabela morríamos de rir olhando de longe, para que ninguém pensasse que éramos uma quadrilha de mocinhas elegantes que, no tempo livre, resolvem assaltar restaurantes da praça de alimentação do shopping de madrugada.

As meninas vieram dormir aqui em casa depois e o prato com os restos da salada foi parar na minha geladeira. No dia seguinte, quando estava indo embora, Anaisa saiu correndo e disse muito esperta que ia deixar a sala pra minha mãe, já que ela não ia comer mesmo. Sem tempo de questionar, deixei. Mais tarde, quando minha mãe chegou, foi logo me gritando e quando vi ela estava na cozinha com um garfo na mão provando a salada, perguntando de onde aquilo tinha surgido e o que tinha naquele troço que estava deixando tudo tão ruim. É mesmo a cara da Anaisa.