Dando sequência a uma tradição iniciada ano passado, chegou a hora de falar aqui sobre o que andei lendo ao longo de 2011. Confesso que no início do ano eu estava pensando que minhas únicas leituras seriam as obrigatórias para o vestibular, mas entre elas consegui arranjar tempo para ler coisas bem legais que me permitiram fugir um pouquinho da rotina e do estresse que foram esses 12 meses. Coisas tão legais, aliás, que esse ano creio ter lido uns 3 ou 4 livros que facilmente se encaixariam num ranking de melhores e mais importantes livros da minha vida.
Livros lidos em 2011
High Fidelity (Nick Hornby); A Descoberta do Mundo (Clarice Lispector); Vidas Secas (Graciliano Ramos); One Day (David Nicholls); Menina a Caminho (Raduan Nassar); Como Treinar Seu Dragão (Cressilda Crowell); Memórias Sentimentais de João Miramar (Oswald de Andrade); Anjo Negro (Nelson Rodrigues); Paraísos Artificiais (Paulo Henriques Britto); As Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides); Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Márquez); Meio Intelectual, Meio de Esquerda (Antonio Prata); O Que Se Passa Na Cabeça dos Cachorros (Malcolm Gladwell); Contra Um Mundo Melhor (Luiz Felipe Pondé); Paula (Isabel Allende); Franny & Zooey (J.D.Salinger); Memórias de Um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida); Capitães da Areia (Jorge Amado); A Cidade e as Serras (Eça de Queirós); Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
O casal mais apaixonante
Dexter Mayhew e Emma Morley, de One Day - Por 20 anos, acompanhamos os encontros e desencontros de Dex e Em, protagonistas de uma história de amor que tinha tudo pra ser e não foi, numa metáfora interessante sobre a vida em si, que muitas vezes nos traz situações que tem tudo pra dar certo e acaba não dando, e a gente olha pra trás e fica pensando no que deu errado. Nada deu errado, a vida aconteceu. Isso não significa que os dois não se amaram durante esses 20 anos, mesmo não estando juntos, e não faz com que eles deixem de ser lindos de morrer, mesmo com seus zilhões de defeitos. Depois de ter terminado o livro, reli várias vezes o capítulo Rules Of Engagement, onde os dois viajam juntos para a Grécia, como amigos, e estabelecem regras de convivência para que as coisas não fujam do controle - claro que são todas quebradas depois. É o capítulo mais engraçado, mais fofo e mais encantador de todo livro, e é praticamente impossível não amar aqueles dois depois dele.
Virei a noite lendo
Capitães da Areia - Devorei este livro em parte porque ele era da biblioteca e eu tinha um prazo para devolvê-lo, mas principalmente porque eu não conseguia largá-lo. Não virei noite porque não posso me dar a esses luxos, mas extrapolei a hora de dormir e virei aulas e aulas que eu realmente deveria estar prestando atenção para acompanhar as aventuras e desventuras desse grupo de crianças abandonadas que domina as ruas de Salvador realizando furtos em casas chiques e experimentando uma liberdade plena que poucos conhecem. É um livro delicioso e lindo, que conta uma história triste de uma forma doce, com personagens maltratados pela vida, mas que não perderam a ingenuidade típica das crianças e que por isso se tornam tão apaixonantes que fiquei dividida entre a vontade de trazer todos pra casa para guardá-los em potinhos ou então de fugir de casa e ir vadiar com eles pela Bahia.
Chorei de soluçar
Vidas Secas - Confesso que tinha uma preguiça dos escritores nordestinos e dos livros sobre o sertão. Não é preconceito, juro. É que nunca tinha me interessado realmente sobre o que eles contavam. Peguei Vidas Secas por causa do vestibular da Fuvest e ganhei em troca uma das melhores e mais tocantes leituras da minha vida. Graciliano Ramos, com seu jeito sucinto de escrever, conta a história de uma família de retirantes com suas mazelas, e como diz o título, suas vidas secas. Só que eu acho que apesar do que todas as análises falam, o que temos são personagens humanos e doces. O narrador e eles próprios se veem como bichos, engolidos pelo ambiente que vivem, mas eu senti algo mais ali. Vai ver eu senti errado, mas ainda que errando, gostei muito do que li. Como a maioria das pessoas, tive um apego todo especial à cadela Baleia, a personagem mais interessante de toda a história, e no capítulo que descreve a sua morte eu chorei tanto que tive que fazer uma pausa na leitura. Sabe quando você chora tanto que abaixa o livro e vira a cara no travesseiro e se dissolve em lágrimas por causa de umas linhas muito bem escritas? Então, descobri o que é isso lendo Vidas Secas.
Decepção do ano
Memórias de Um Sargento de Milícias - Sei que muita gente torce o nariz para literatura nacional e principalmente para livros que são cobrados no vestibular (te amo mesmo assim, tá Renata?), e eu consigo entender isso porque também odeio ler qualquer coisa se sou obrigada. Mas costumo me interessar por esses livros e tinha uma enorme curiosidade com este, porque conheço bastante gente que gosta dele de verdade. A decepção começou quando assisti uma aula a respeito, antes de lê-lo, e achei a história profundamente sem graça. Tão sem graça que quando tive a impressão que a coisa ia engrenar, ela havia chegado ao fim. Resolvi ler mesmo assim e a sensação se manteve: não me interessei pela história, não me apeguei a nenhum personagem e não fiquei intrigada em momento algum. E olha que eu amo livros realistas as crônicas de costume do século XIX, Machadão não me deixa mentir. Acho que o defeito do livro é esse, Manuel Antônio de Almeida tenta, mas não é Machado de Assis. Das memórias que já li, considero estas mais digeríveis do que as de João Miramar, mas que não chega nem no dedinho do pé do finado Brás Cubas.
Livro irrelevante do ano
Paraísos Artificiais - Não é um livro ruim, não mesmo. Aliás, é gostoso de ler, tanto que comecei e quando vi já tinha chegado ao fim, num mesmo dia. O problema é que não me lembro de basicamente nada dele, e se me apontassem um revólver agora, eu conseguiria lembrar um conto ou dois. E nada mais.
Grifei
A Descoberta do Mundo - Há uns anos atrás, dizer que gostava de Clarice Lispector era uma espécie de pré-requisito para ser bem visto como literato de respeito, mas de repente dizer que gosta dela virou motivo de chacota. Bem, eu nunca quis tatuar uma frase dela, mas também nunca desgostei. Não me identifico muito com suas ideias e não faço o estilo intensa, vai ver é por isso que não fui tão tocada assim pelas coisas que havia lido anteriormente. Só que A Descoberta do Mundo é diferente. É uma coletânea de crônicas que ela escreveu no jornal por anos, que revelam uma Clarice mais leve e interessante - ao menos para mim. A sensação que tive é que estava sentada na mesa tomando um café e a ouvindo contar histórias. Existem os textos mais densos, claro, mas a maioria é sobre episódios cotidianos. A diferença é que ali no meio de um texto sobre o encontro que ela teve com o Chico Buarque, por exemplo, eu encontrava uma sacada, uma ~epifania~ escondida que me faz entender porque Clarice é Clarice. Aí vou lá e grifo.
O pior livro de 2011
Menina A Caminho - Um livro que odiei desde a primeira linha que li até a última, e esconjurei, e detestei, e não entendi nada, e que só de lembrar já fico com raiva. Li por causa do vestibular (UFU, ferrando minha vida desde 2008) e no início pensava que fosse ser bom, por causa do autor ser quem é, mas não. Eu passei o livro todo sem entender o propósito da história, e quando li a análise e entendi o que aquilo tudo significava, achei pior ainda. Passem longe.
Soco no estômago
Contra Um Mundo Melhor - Luiz Felipe Pondé escreve verdades que a gente sabe e não quer ouvir. Ou que não sabe e depois que descobre talvez preferia ter ficado na ignorância. E eu adoro ele. Esse livro faz com que a gente se sinta meio mal e terrivelmente hipócrita, e nos faz acreditar que a humanidade não deu certo mesmo, e como diz uma amiga minha, suicídio coletivo é a solução. O soco no estômago, no entando, é algo bom. Como o próprio autor diz no livro, é melhor sofrer sendo gente do que ser feliz sendo uma pedra burra. Por anos essa questão rondou minha vida (juro), e esse livro me marcou e mudou muito, e acho que finalmente consegui entender o que é esse "ser gente" que ele e as pessoas tanto falam. Entendi e gostei do conceito. O livro também é bom porque apesar desse título e de tudo que eu falei até agora, tem uma das mensagens mais bonitas que já li na vida. Vale muito.
O mais chato
Memórias Sentimentais de João Miramar - Tupi or not tupi só se torna uma questão quando a gente entende o que o Oswald de Andrade quer dizer, e desculpa se não sou cult ou antropofágica o suficiente, mas não acho isso tarefa fácil. Não sei se chato é o adjetivo adequado ao livro, talvez um belo WTF fosse mais apropriado, mas também é chato pra caramba passar cerca de 10 páginas sem ter entendido uma linha do que o cara escreveu. Se sentir burra é chato pra caramba. Li o livro antes de conhecer as vanguardas europeias e com um conhecimento muito raso de modernismo, logo a experiência foi um tanto assustadora. Confesso que depois que meu professor o leu em sala com a gente, explicando cada capítulo e contextualizando tudo, a coisa ficou mais fácil e eu até poderia dizer que foi divertido. É um livro pra se estudar, não pra se ler antes de dormir.
Abandonei
Iracema - Não gosto de abandonar livros, acho feio e fico com a impressão de que alguém vai levar pro lado pessoal, mas José de Alencar que me desculpe, não deu. Escrita muito rebuscada, muito lírica, muitas metáforas e um parágrafo inteiro inventando analogias com a natureza pra dizer que a virgem dos lábios de mel e cabelos pretos como a asa da graúna sentiu saudades do amado português é demais pro meu gosto. Não conseguia ler um capítulo sem cair no sono e resolvi parar de perder meu tempo. Foi mal, Fortaleza amada.
Morri de rir
High Fidelity - Gosto de humor negro, personagens auto-depreciativos e piadas ácidas e é por isso que me dou tão bem com o humor inglês e com os textos do Nick Hornby. High Fidelity não é um livro de comédia (muito pelo contrário), mas a narrativa em primeira pessoa ajuda bastante a dar abertura a insights geniais que nada mais são que um apontamento despretencioso ou um adjetivo absurdamente bem colocado e pronto, risada na certa. Guardei na memória algumas tiradas muito ótimas e ainda hoje começo a rir sozinha se me vem alguma na cabeça assim de repente.
Aventura, fantasia ou infanto-juvenil
Como Treinar Seu Dragão - Fiquei muito feliz ao perceber que o futuro literário dos meus filhos não está tão perdido como eu imaginava. Existe coisa muito boa escrita para crianças atualmente, e que não são simplesmente histórias de aventuras sobre vikings engraçadíssimos e apaixonantes, mas algo consistente e com uma profundidade bem sutil que agrada aos pais que estão lendo as histórias, as crianças que irão relê-las quando mais velhas, e as primas que roubam os livros dos primos bebês para passar o tempo e acabam totalmente envolvidas com a história de um garoto corajoso e seu dragão banguela.
Bate bola de personagens
Personagem masculino mais apaixonante: Pedro Bala, de Capitães da Areia. Clichê, eu sei, mas ganhou meu coração.
Personagem feminina que eu queria ser: Úrsula Buendía, de Cem Anos de Solidão e a própria Isabel Allende, autora de Paula, que é basicamente sua autobiografia.
Personagem mais chato: Jacinto, de A Cidade e as Serras - Passa dois terços do livro entendiado e aborrecido com a sociedade parisiense e sua modernidade (sendo que antes não se cansava de louvá-la) e o resto dele exaltando as maravilhas da serra. Zzzzzz
Personagem mais perturbador: As irmãs Lisbon, de As Virgens Suicidas e Sem Pernas, de Capitães da Areia.
Personagem que mais me identifiquei: Emma Morley, de One Day.
O melhor livro de 2011
Se eu for pensar em termos de qualidade, esse ano li coisas que mereciam mais esse troféu do que meu escolhido. Como não sou intelectual, entendida, crítica especializada ou algo assim, deixo aos especialistas a tarefa de escolher o Nobel e o Jabuti do ano que vem e me contento em premiar o livro que li esse ano que mais deixou sua marca na minha vida, e que eu dificulmente vou esquecer. One Day, claro. Porque muitas pessoas vieram me contar que não o acharam essa Coca Cola toda, mas eu não consigo pensar em outro que tenha me envolvido tanto, com o qual eu tenha me empolgado e divertido, e sofrido também, e que, óbvio, tenha me trazido tanta coisa boa. Acho que foi uma questão de timing. Li o livro num período que tinha tudo a ver com a essência da história, quando eu precisava ler aquilo e quando aquelas linhas e o que elas significavam faziam um eco tão enorme aqui dentro que até a melancolia que ele me enfiou, por alguns dias, valeu e só fez aumentar o carinho.