No último domingo, assim que cheguei na casa dos meus avós para almoçar, meu avô foi logo me perguntando se eu já tinha lido a coluna do Antonio Prata daquele dia. Ainda não, mas eu já esperava por algo polêmico porque não era nem uma da tarde e ele já tinha sido eleito o Texto do Dia no Twitter. O Antonio Prata escreve pouco sobre política, ao menos diretamente, mas quando o faz é com louvor. Em sua coluna na Folha no último domingo, ele escreveu "Guinada à direita", em que ele abraçava ironicamente o discurso da direita conservadora do país para ter a chance de expor muitos de seus absurdos por meio do deboche.
É uma descrição caricata a que ele faz? Certamente. No entanto, ela não deixa de representar a realidade porque, bem, eu já ouvi aquilo muitas vezes, como vocês vão perceber até o fim desse post.
Li o texto, dei umas risadas, mas, pela reação das pessoas, vi que meu avô queria que eu lesse o texto não por ele ter gostado e, sabendo que sou fã do Pratinha, queria compartilhar aquilo comigo. Ele estava, na verdade, me provocando. Ele queria ver minha reação diante de um texto no qual um cara que eu admiro há muitos anos assume posicionamentos tão diferentes dos meus.
O problema maior nem foi esse. Para explicar que era tudo um grande deboche, escolhi um trecho - a meu ver bem esdrúxulo - da crônica para mostrar que não era possível que aquilo fosse sério. O que eu não esperava era que os argumentos fossem ser tão bem aceitos na cozinha da vovó. Se é um deboche, cadê a mentira? E aí, junto ao pernil de domingo, antes mesmo da sobremesa, a maravilhosa torta de climão estava servida. Porque, ao falar que aquele texto era tão absurdo que só poderia ser uma ironia, eu estava chamando de estapafúrdias as opiniões que minha família assinou embaixo. De um modo indireto, eu disse que eles só podiam estar zoando com a minha cara.
Não quero, de forma alguma, entrar no mérito de quem tem razão - até porque se isso fosse facilmente definido esse post nem existiria. Só queria apontar que, mais irônica que a guinada à direita do Antonio Prata só mesmo o abismo ideológico que existe entre eu e muitas pessoas da minha família. A ironia nesse caso foi que muito do que eu sou e acredito vem da forma como fui criada, daquilo que me ensinaram quando eu era criança, da visão de mundo que eles me ajudaram a montar. Muita coisa veio por minha conta, de aulas, leituras, outras pessoas e experiências que cruzaram o meu caminho, mas nada disso teria relevância se meus pais e avós não tivessem não apenas plantado em mim essa semente, mas me convencido de que era importante regar essas ideias, cultivá-las.
Hoje esse trabalho rende frutos, explode em flores, costurou em mim tudo de mais sólido que eu penso e acredito sobre a vida, o universo e tudo mais. Eles foram responsáveis por tudo isso, mas a única coisa que posso fazer é me concentrar no pernil e desejar que o chão me engula quando os assuntos espinhosos estão na roda. Debater, nesse caso, é uma luta inglória, e eu amo e prezo demais todo mundo para desperdiçar nossos almoços num bate-boca sem fim sobre políticas públicas e o que mais viesse. Citando a Gabriela, que pelo visto vive algo bem parecido: "Meu pai é um cara conservador. Meu pai é a cara da direita tucana. E sem perceber, meu pai me ensinou que a esquerda era a melhor saída".
Todo sistema tem em si a sua própria ruína. Não acho que eu vá vencer essa luta e nem quero explodir todo mundo que tem uma opinião diferente da minha, mas foi por terem me criado assim que eu nunca mais vou poder estar cem por cento do lado deles. Apesar de tudo, no fim das contas, olha só que ironia: se não fossem eles, não seria eu.
Crazy little thing called vida.