Ontem minha prima Mariana completou 11 anos de idade, e bem quando eu estava escrevendo uma mensagem pra mandar pra ela, percebi que sem ver tinha escrito que não acreditava que eu já tinha pego ela no colo. Me assustei com essa frase não só porque é absurdo que a prima que eu até hoje vejo como um bebê tenha vividos anos que não cabem mais nos dedos da mão, mas sim porque eu sempre odiei ouvir que os outros já me pegaram no colo. Nada contra colos, nada contra os outros, mas não gosto de adultos nostálgicos, principalmente esses que, diante de evidências da passagem do tempo, adoram lamentar os anos idos como se fosse uma coisa muito ruim crescer.
Acho que é por isso que nunca gostei muito de fazer aniversário, pois isso significa que vou ter que ouvir de um monte de gente que parece que foi ontem que eu cabia em seus colos e que droga eu não ser mais um neném. Como se eu fosse uma pessoa muito pior hoje do que quando babava em suas roupas e como se eu tivesse culpa de alguma coisa. Se pudesse escolher eu também ficaria pra sempre na época em que podia fingir dor de barriga para não ir pra escola e assistir Convenção das Bruxas na Sessão da Tarde, por mais que ache que infância é a fase mais superestimada de todas - mas isso é caso pra outro post. O negócio é que odeio a nostalgia deprimente dos adultos ao meu redor e pior ainda quando ela vem de algum amigo dos meus pais que eu não vejo há quinze anos que vem me perguntar se eu lembro daquela vez que vomitei depois de comer um monte de danoninhos. É claro que não lembra, você era tão pequena. Acredita que já te peguei no colo?
Só que a Mariana fez 11 anos ontem e a única coisa que eu conseguia pensar era naquela tarde que eu cheguei atrasada na escola porque fiquei na maternidade esperando para segurar ela colo. Li em uma dessas listas de coisas que todo mundo deveria fazer antes de morrer que era preciso ver alguém nascer e se desenvolver para ter uma vida completa. Por mais que meu susto tenha muito daquele pasmo existencial que tão bem descreveu o Antonio Prata ao dizer que vira e mexe descobre que uma coisa que ele pensava ter acontecido há dois anos já conta cinco, o que me atormentou mesmo foi pensar que aquela menina que na minha cabeça tinha parado nos seis anos já é um ser humano tão cheio de ideias, vontades, sonhos e segredos como qualquer outro, como eu fui quando tinha a idade dela e como sou hoje.
A gente tende a olhar para a nossa infância como se fosse uma vida paralela à nossa, com lembranças que são um misto de registro pessoal e tudo que apreendemos das fotografias, histórias que nossos pais não cansam de repetir e também aquelas que inventamos sem querer. Mas, veja bem, com onze anos eu já era muito eu, se é que vocês me entendem. Euzinha, amiga de muitos dos meus melhores amigos, fãs de bandas que gosto até hoje, vivendo muitas das histórias que hoje conto pros outros e são as mais engraçadas e malucas que eu tenho. Aos onze anos, eu já tinha um blog, queria escrever um livro e fiz uma revista com as minhas amigas na aula de redação da escola. Aos onze anos eu era apaixonada pelo filho da minha professora de Português seis anos mais velho que eu, e a gente conversava sobre The O.C. (!) e eu comecei a ouvir Pearl Jam pra ele me achar muito legal. Aos onze anos eu já tinha uma coleção de blusas de bolinha e só não pintava minhas unhas de preto porque minha mãe não deixava.
Ou seja, pouca coisa mudou de lá pra cá. Hoje eu pinto as unhas de preto, gosto de verdade de Pearl Jam e quando encontrei o filho da professora de português no shopping há um tempo atrás me senti vesga por ter pensado por muitos meses que ele era o cara mais bonito da escola.
Assim como o Antonio Prata (de novo, sempre ele) que não se recupera do susto de olhar sua filha bebê dormindo no berço e perceber que ela existe ("Olivia, você não existia e agora existe: olha só o que você fez, sua doida!"), não me recupero do baque de pensar que, meu Deus, a Mariana também existe. Não só existe como já leu todos os Harry Potter, os Diário da Princesa (essa série eu chegarei nos vinte sem ter concluído) e muito mais livros que eu na idade dela. Ela existe e assiste coisas que eu nunca ouvi falar e quando ouço nome fico me perguntando se é filme, série ou boneca nova da Mattel - mas mesmo assim eu fiz com que ela adorasse A Noviça Rebelde, Grease e o próximo passo é apresentar-lhe Audrey Hepburn. Ela adora One Direction, já desencanou da Lady Gaga e eu espero que daqui uns nove anos ela ainda lembre de todas as letras e possa cantá-las bem alto quando estiver sozinha em casa. E que o One Direction leve logo aos Beatles, mas tudo bem ter um post do Harry no quarto, porque ele é mesmo lindo. Mas Violetta nunca vai ser tão bom quanto The O.C.
Pensando nisso, concluí que tenho coisas muito mais importantes para dizer do que voltar o holofote pra mim e atrapalhar o aniversário dela com minhas lembranças nostálgicas. Muito melhor que isso é dizer que:
1) Prepare-se
2) Acredite
3) Eu prometo que vai ser
4) Mariana, minha flor, eu te peguei no colo, mas os melhores dias da sua vida virão agora. Aproveite, seja muito feliz e conte comigo para assistir Grease quantas vezes quiser.
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