Eis que chega aquele dia do ano pelo qual todos nós estávamos aguardando: o domingo do Oscar. Depois de semanas usando todo o tempo livre para ver os filmes (e mesmo assim sem conseguir ver tudo, pra variar) e monopolizando os papos com os amigos sobre impressões, apostas e revoltas, esse é aquele domingo maravilhoso em que a gente acorda feliz e saltitante como Monica Geller no dia do seu casamento e passa o dia inteiro na expectativa de sentar no sofá às oito da noite e só levantar as duas da manhã.
Esse ano a temporada de premiações coincidiu terrivelmente com meu fim de semestre, o que acabou contribuindo para que eu tropeçasse nas voltas finais da maratona cinematográfica e chegasse no dia de hoje sem ter visto trêsdois, dos nove indicados a Melhor Filme. Sonho com um dia em que verei não só esses, mas também as animações, os documentários e os estrangeiros, mas acho que isso só acontecerá quando eu morar numa cidade cujos cinemas tem o mínimo de decência, já que nem o grande favorito na categoria principal chegou aqui.
Sem mais mimimi, tecerei considerações sobre os seissete filmes que consegui ver, em ordem crescente de preferência (tentarei assistir Philomena mais tarde, caso consiga editarei o post). Preciso adicionar que achei o nível desse ano bem alto: dos nove indicados, só um (Capitão Phillips) não me interessou em nada e dos seis que eu vi só desgostei de um. Os outros cinco eu gostei demais e levarei dois como candidatos a favoritos ever em potencial
7) Trapaça (David O. Russell, 2013):
Esse filme é minha nemesis desse ano, por ser o grande superestimado da temporada, que ainda por cima é uma versão preguiçosa e pouco interessante do meu grande favorito. Minha antipatia pelo David O. Russell não é novidade pra ninguém, mas preciso repetir que eu tenho muita raiva desse cara e queria entender qual esquema obscuro ele tem com a Academia e outros institutos para conseguir vender essas porcarias banais (e chaaaaatas) como o mais novo grande filme americano do ano. Me explica como um filme chato pra dedéu, nada original, e com tão poucos argumentos sobre os tempos atuais pode ser um favorito a roteiro. Sério. Não consegui me envolver com a história do casal de golpistas trabalhando em parceria com o FBI e só aguentei até o fim porque já tinha pago o ingresso o elenco é realmente muito carismático (Amy Adams, quero ser você e acho que você merece o Oscar que infelizmente não vai ganhar) e pela ambientação setentista maravilhosa. Deus seja louvado por todo o lamê e Electric Light Orchestra na trilha sonora.
O que merece levar: Amy Adams como Melhor Atriz e Melhor Figurino.
O que vai levar: Corre o sério risco de levar Roteiro (gente hahahaha) e a ameaça Jennifer Lawrence papando o prêmio de Atriz Coadjuvante está sempre sobre nós.
6) Philomena (Stephen Frears, 2013):
Pensei bastante sobre a posição que esse filme ocupava na minha escala de estima e ainda sinto que não lhe fiz muita justiça, mas deixa eu tentar me explicar: "Philomena" é um filme que conta a história de uma mãe irlandesa em busca de seu filho, adotado contra sua vontade numa época em que as freiras do convento onde ela morava a manipularam para acreditar que era o mais justo já que o filho era fruto do pecado. 50 anos depois, com a ajuda de um jornalista meio perdido na carreira e na vida, ela sai em busca de seu Anthony. É um filme lindo, que me emocionou bastante, e eu fico muito feliz que tenha sido realizado por uma equipe britânica. Gosto demais do cinema britânico por ser contido o bastante e passar longe de exageros e xaropadas fáceis. Apesar desses postos e da atuação incrível da Judi Dench, acho que outros filmes foram mais incisivos e originais. "Philomena" não é ruim, mas é um daqueles filmes que passam todo domingo do Telecine Touch e a gente não se cansa nunca, mas não passa muito disso. Ah, a matéria de interesse humano que Martin Sixsmith iria escrever sobre a busca de Philomena Lee acabou virando um livro que eu estou com bastante vontade de ler.
O que merece levar: Judi Dench como Melhor Atriz, definitivamente.
O que vai levar: Não sei falar sobre as categorias técnicas, mas acho que nas principais ele sai de mãos abanando.
5) Dallas Buyers Cub (Jean-Marc Vallée, 2013):
Gostei bem mais do que imaginei que gostaria. A premissa inicial parece meio árida e pouco interessante, com a história do vaqueiro que contrai o HIV no final dos anos 80 e depois de quase morrer por causa do AZT, droga experimental de eficácia duvidosa que representava riscos para a maioria da população doente, começa a traficar medicamentos e vitaminas do México e repassá-las aos portadores do vírus membros de seu clube de compras. Mas o negócio é que a dupla Matthew McConaughey e Jared Leto está simplesmente tão ótima em seus papéis, que dá pra gente se apegar de verdade à história por causa deles, que vão além do que a superfície promete dando aos personagens um verniz de ternura que me fez chorar.
O que merece levar: Minha torcida não é para eles, mas sei que se rolar, e é isso que todo mundo aposta, vai ser bem merecido: Matthew McConaughey e Jared Leto em Melhor Ator e Ator Coadjuvante.
O que vai levar: Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante.
4) 12 Anos de Escravidão (Steve McQueen, 2013):
Na minha monomania relacionada ao Oscar, li por aí que um filme importante não é necessariamente o melhor dos filmes. É assim que me sinto com relação a 12 Anos: reconheço a importância, entendo o frenesi, mas não consigo dizer que é o melhor dos filmes. Como disse a Taryne (aliás, beijo pra minha companheira incansável de debates cinematográficos), é um filme cheio de culpa e os americanos (e a Academia) adoram isso. Nos primeiros quinze minutos eu já estava me sentindo tão mal que pensei que não fosse conseguir terminar de ver - e o personagem do Fassbender nem tinha aparecido. A fotografia é absolutamente maravilhosa (um contraste que eu ainda não consegui decidir se é interessante ou de péssimo gosto para um filme cheio de horrores), mas a história carece um pouco de originalidade. Achei um tanto quanto clichê e maniqueísta e os personagens são pouco surpreendentes. E eu sempre vou gostar mais de fins amargos do que aqueles redentores para o espectador se sentir bem, apesar de tudo.
O que merece levar: Jonah Hill era meu favorito para Ator Coadjuvante e num mundo ideal ele levaria, mas Michael Fassbender me deixou hipnotizada com seu escravocrata cruel e delirante. Como Atriz Coadjuvante, a deusa Lupita também é minha favorita.
O que vai levar: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Codjuvante para a Lupitinha, se essa Academia tiver o mínimo de critério na vida.
3) Gravidade (Alfonso Cuarón, 2013):
Eu gosto demais dessa ideia de fazer um filme no espaço que não é sobre o espaço. Quem entrou no cinema esperando explosões no céu e ameaças intergaláticas saiu desenganado - e provavelmente desmerecendo esse filmaço. O que temos é Sandra Bullock flutuando na órbita da Terra e tentando sobreviver. Não sei se aqueles que não assistiram no cinema tem noção da dimensão sensorial dessa história, que é outro dos seus grandes diferenciais: é um filme sobre sobrevivência que apela para nossos instintos mais primitivos. Como foi bom respirar diante de uma janela aberta depois dessa sessão! Além de tudo, o trabalho técnico para se recriar o ambiente mais hostil e fascinante do mundo é de se tirar o chapéu, assim como Sandra Bullock - que agora sim merecia um Oscar - sozinha em tela, atuando com movimentos limitados e passando quase 12 horas por dia dentro de uma caixa pendurada por um cabo de aço.
O que merece levar: Melhor Direção, com Alfonso Cuarón e Melhor Atriz, com Sandrinha Bullock. Minha torcida não é deles, mas acho que merecem.
O que vai levar: Cuarón deve ganhar o prêmio de direção, e o filme deve levar também com fotografia e outras categorias técnicas.
2) Her (Spike Jonze, 2013):
A fofoca dos bastidores é que esse filme é uma resposta de Spike Jonze à sua ex-mulher Sofia Coppola, que teria feito "Encontros e Desencontros" para contar a história do relacionamento dos dois. Se você viu os dois filmes é bem fácil fazer os paralelos - e aqui tem um link bem ótimo que faz isso pra você. Se fosse só uma história de pé na bunda e dor de cotovelo já seria ótimo, mas "Her" vai tão além! É uma história sobre nós, todos nós, e nosso medo do amor, do fracasso, e da entrega - que com as novas possibilidades facilitadas pela intermediação da tecnologia tem feito com que seja possível se relacionar sem criar laços. É um filme sobre medo e solidão, que me fez pensar que estamos muito ferrados. Embora a história gire em torno de um homem que começa a superar o divórcio se acaba se apaixonando por seu sistema operacional - que no futuro que se passa o filme atinge um nível de inteligência artificial capaz de se expandir e expressar emoções - o que dá todas as munições possíveis para pensarmos numa relação triste e unilateral, é impossível não acreditar na história de Theodore e Samantha. E eu muito sinceramente não sei o que pensar sobre isso.
O que merece levar: Roteiro Original, e acredito que definitivamente Joaquin Phoenix e Scarlett Johanson mereciam pelo menos indicações por suas atuações - Phoenix por fazer a melhor interpretação alone, together ever e meu Deus como esse homem é sexy, e Scarlett, por não aparecer em momento nenhum, mas que faz sua presença ser sentida como uma entidade na tela.
O que vai levar: Apesar de "Trapaça" já ter levado alguns prêmios na categoria, gosto de acreditar no critério da Academia e aposto no filme pro prêmio de Roteiro Original.
1) O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013):
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| Barrigudinho maravilhoso |
Foi um dos primeiros filmes que eu assisti esse ano e já acho que seja o melhor que eu vi em 2014 e talvez o melhor que eu vá ver em muito tempo. Scorsese não brinca em serviço e chega na voadora, com o pé na porta, e conta uma história de ganância, de gente apaixonada por dinheiro pelo dinheiro, de pessoas que reagem histericamente e cultuam como um deus pagão um cara escroto e absolutamente fascinante que lhes promete que o dinheiro é o maior barato que se pode pedir da vida - e isso vem de um cara de deveria ser estudado pela ciência pela quantidade de drogas que já colocou no seu corpo. É um filme no volume máximo: muita droga, muito sexo, muitos milhões de dólares e muito engraçado. Nem sei o que dizer sobre Leonardo DiCaprio e Jonah Hill nesse filme, porque a sequência dos dois mortalmente chapados e brigando pelo telefone é uma das coisas mais absurdas, incômodas, sensacionais e hilárias que eu já assisti. As pessoas se incomodam com o fato de o filme não ter redenção alguma e que seus personagens não encontram o fim que merecem, mas como fazer isso quando o cara que inspirou o protagonista (o filme foi baseado em sua autobiografia) continua ganhando rios de dinheiro em cima de sua experiência sórdida de vida? Tio Marty e o roteirista Terence Winter também não julgam seus personagens, permitindo que eles sejam construídos de uma forma carismática que só Leozinho e Hill conseguem entregar, porque quem coloca os caras maus como caras feios, bobos e chatos está indo pelo caminho mais fácil - caminho esse que acho que a turma de "12 Anos" escolheu - e perdendo a chance de aproximar esses monstros de nós - coisa que o David O. Russell nem sabe o que é.
Wolfie, tô contigo. Scorsese, é noix. Leozinho, me beija.
O que merece levar: Tudo.
O que vai levar: O páreo é duro mas dá pra acreditar no Oscar de DiCaprio.










