Ou: se não desse errado, não seria a gente
Algumas ideias nascem erradas, com a cara torta e verruga no nariz. Outras, mais astutas, se disfarçam muito bem de epifanias geniais e demoram um pouco mais para tirar as máscaras, tal qual Anjelica Houston em Convenção das Bruxas. As bicicletas que o Itaú instalou na orla das praias da zona sul carioca seguiram direitinho essa segunda cartilha, e se mostraram tão falhas como a ideia de ir de Copacabana até Ipanema pela ciclovia pareceu brilhante depois de um almoço em frente ao mar.
Antes, uma observação: cariocas são bonitos, bacanas e dourados, igualzinho a Adriana Calcanhoto nos ensinou. Há exceções, não duvido, mas é difícil não ficar com essa ideia entronizada depois de ver um número assustador de pessoas caminhando, correndo e sendo saudáveis na rua, às seis e meia da manhã de um feriado.
Então, depois de passar três dias vendo aquela gente bronzeada mostrando seu valor mexendo o esqueleto sempre que parecia apropriado, achei absolutamente natural quando uma das meninas sugeriu que ao invés de ônibus, usássemos as bicicletas para chegar na praia de Ipanema. Era uma etapa óbvia no processo de carioquização express, mais significativa até que todas aquelas (muitas) vezes que eu forcei a barra com meu sotaque forçado. Sdds frexicão.
No entanto, as bruxas começaram a revelar suas verdadeiras faces quando ficou sabido que algumas mafiosas não andavam de bicicleta. Porque a gente é bicha movida pela filosofia de que ou vamos todas ou ninguém vai, e foi esse pequeno obstáculo que me mostrou que aquilo ali não estava certo. Fomos checar o que era necessário para alugar uma bicicleta e só tivemos mais problemas.
Teste básico: se o cerumano responsável por bolar um sistema para o empréstimo de bicicletas numa cidade que recebe turistas o ano inteiro (e que vai sediar uma Copa & uma Olimpíada) você fosse, que tipo de esquema você proporia?
a) ( ) Dá um sorrisão e tá tudo beleza;
b) ( ) Coloca um tio pra cobrar dois reais a hora e fechou balada;
c) ( ) Terminalzinho bacana e funcional onde as pessoas se cadastram e conseguem liberar a bike pra andar numa boa até o próximo ponto e demorô é noix;
d) ( ) Exija um cadastro prévio ou obrigue o colega a ter um smartphone pra baixar um aplicativo, numa zona sem wi-fi, que vai liberar a bicicleta. Pra manter as aparências, pague um funcionário pra ajudar, mas garanta que ele só vai mandar todo mundo resolver qualquer coisa pelo telefone, inclusive se o seu problema for regular a altura do banco.
Foi numa esperteza ímpar que a galera do Itaú deu um sorrisão e escolheu a alternativa D, coisa que me deixou tão nervosa que a vontade de andar de bicicleta na praia sumiu em dois tempos. Não prestei muita atenção no mal estar que estava rolando devido ao fato de nem todo mundo saber andar de bike porque eu jurava que não sairíamos dali sob duas rodas de jeito maneira. Quando eu lembrava da Clara, da novela, felizona andando com a tal laranjinha (vocês me respeitem) pela cidade, ficava mais nervosa ainda. O negócio é que enquanto eu amaldiçoava o responsável por aquilo mentalmente, nosso grupo se dividiu e eu perdi a chance de evitar a fadiga com aquelas bicicletas.
Depois de uns 40 minutos entre aplicativos que não carregavam, zonas que se recusavam a aparecer e bicicletas que não constavam no sistema, liberamos nossas magrelas. Talvez seja a hora de confessar que meu desconforto com aquela situação tinha uma raiz mais profunda, que não era o sistema imbecil e nem o fato de algumas amigas terem ido chateadas no ônibus, mas sim um receio que eu tinha de não saber mais como andar de bicicleta. Eu sei daquela máxima que todo mundo repete, que esse é o tipo de coisa que a gente aprende uma vez e nunca esquece, mas meu histórico de azar e absurdos é tão extenso que pra eu tombar pro lado na primeira pedalada não custava nada.
E lá fomos nós, eu, a última da fila, vendo minhas amigas com uma enorme desenvoltura atravessarem a rua montadas nas bicicletas, eu, ali sentindo os olhos do Rio de Janeiro com seus cariocas bronzeados e bacanas sobre mim, eu, já com uma vergonha antecipada de um mico que parecia inevitável, pedalei. Pedalei para provar que os deuses, nossas avós e os tios do churrasco nunca estiveram tão certos: a gente não desaprende a andar de bicicleta.
Isso, no entanto, não significa que foi tudo muito fácil. Eu nunca tinha andando numa bicicleta com marchas na vida e demorei até entender como aquilo funcionava. Aliás, mais complicado mesmo foi sentir segurança para fazer qualquer coisa que não pedalar, eu ali muito concentrada em não atropelar ninguém ou me esborrachar no calçadão, enquanto minhas belas amigas brincavam com a campainha, conversavam, tiravam fotos e se sentiam infinitas. Me senti a pessoa mais inepta do mundo ao ver Giuliana Rebeca de braços abertos para o Crixto Redentor ao pedalar, enquanto eu andei por quase 10 minutos com o óculos de sol no meio da testa, feito uma idiota, porque não conseguia tirar uma mão do guidão para dar uma mãozinha pra minha dignidade, tão necessária no ambiente com a maior densidade demográfica de caras bonitos e atléticos que eu estive em muito tempo.
Preciso ser justa e dizer que nem tudo foram espinhos: ali no meio do caminho eu já estava mais relaxada e consegui curtir a aventura e o ambiente. Afinal, depois de tanto estresse, pra algum propósito aquilo tinha que servir. Serviu pra eu morrer de inveja dos cariocas que tem aquilo todo dia, serviu pra eu relembrar a sensação maravilhosa que é andar de bicicleta, serviu pra eu odiar um pouquinho a minha cidade que não é nada acessível pra esse meio de transporte, e serviu, no fim das contas, para termos essa história pra contar. Porque a gente se mete em roubadas pensando que aquilo no fim vira um texto.
Mas o mais importante mesmo foi chegar ao final da jornada e ter a gente.

