sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A pira da beleza: uma longa história

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva do Rotaroots, grupo criado para reunir blogueiros de raiz que sentem falta da blogosfera moleque e pé no chão. Para participar, junte-se a nós no grupo do Facebook mais cheio de nostalgia que já se teve notícia e coloque seu link no rotation. O tema desse mês é: stop the beauty madness. 
Ou: Manifesto pelo fim da loucura com a beleza

No terceiro período da faculdade, fiz uma disciplina optativa sobre imprensa feminina. Me matriculei porque me interesso pelo tema desde sempre, como leitora de anos que fui, como filhote de jornalista que sou, e como alguém que sempre teve vontade de trabalhar com isso. Mas, no fundo, esperava mesmo era uma aula divertida, que servisse como desculpa pra eu comprar um monte de revistas e ficar gongando os textos da Nova. Sou muito profissional.

Só que o que aconteceu foi que essa matéria acabou se tornando um curso que, literalmente, mudou minha vida. A maioria das coisas que eu até então achava saber sobre questões de gênero, moda, beleza e imprensa especializada caiu por terra, e eu nunca vou deixar de ser grata à professora maravilhosa que abriu meus olhos pra tantas coisas novas, nem pros autores sensacionais que li e estudei naqueles quatro meses. 

Era uma cadeira sobre imprensa, mas a maior parte do curso ficou reservada pra estudarmos a história da beleza e a história das mulheres. Foi, de longe, a matéria que mais me ensinou, um aprendizado realmente intenso (na medida em que a gente possa classificar essas coisas como intensas), e é por isso que toda vez que alguém vem falar sobre beleza, corpo e padrões de beleza, meu impulso inicial é despejar de uma vez tudo que eu aprendi naquele semestre. Não pra ser pedantona, mas porque entender como esses conceitos se constroem historicamente nos dá uma diferente perspectiva sobre o assunto, e mostra que a culpa, ao contrário do que o senso comum realmente comum pensa, não é uma questão de nooooossa ditadura da beleza imposta pela mídia que distorce as moças com photoshop nooossaaaaa. 

Esse é apenas um dos sintomas de uma doença muito mais complexa, e se for pra resumir a questão, eu diria que: migas, o buraco é bem mais embaixo. Por isso, bear with me: 


A beleza, principalmente a das mulheres, começou a ser valorizada na época da Renascença. No entanto, até mais ou menos o fim do século XIX, buscar a beleza não era uma coisa tão bem vista assim. Beleza era sinal de caráter, reflexo da alma da pessoa, ou uma questão de sorte na vida. Se você fosse feia de acordo com os padrões da época, paciência. Comprasse um chapéu pra disfarçar a cara na rua, descolasse umas rendas, torcesse pra nascer mais bonita na próxima vida.  Não que as mulheres sofressem menos por terem que aceitar a """"sina""" da """""feiúra"""" - feiúra essa que, tal qual a beleza, também mudou muito de acordo com o tempo - era só uma questão de não ter escapatória.

Essa coisa de buscar a beleza é uma afetação moderna, irmã da revolução industrial, da ascensão da burguesia e do triunfo da razão sobre o pensamento teocêntrico da Idade Média. Se Deus sai do centro das atenções, o homem passa a ser o senhor do mundo e a depender unicamente dele mesmo pra se fazer na vida. A beleza é um reflexo disso também, assim como a modificação do próprio corpo. Porque até então, se você fosse gordo era porque tinha vencido na vida e podia ficar em casa engordando, privilégio de poucos. Depois dessas mudanças, passou a ser massa mostrar que você podia se dominar de tal forma a domesticar até você mesmo. E às mulheres, sempre sujeitas às expectativas dos homens (e tendo que recompensar o mundo pela ousadia de existir, servindo de eye candy geral duzômi), restou a opção de fazer o possível e impossível para estar mais bonita, mais magra - olá maquiagem, olá academia, olá cirurgia plástica, e olá frustração eterna por não sermos perfeitas, máquinas infalíveis e belas sem defeitos.

É assim que nasce um padrão de beleza. A mídia não inventa nada. Ela difunde, satura, e oprime também - mas só dá voz e faz circular um ideal que é parte inexorável da nossa história, da construção da sociedade tal qual a gente conhece. E por isso que é tão foda desconstruir, combater, desmitificar tudo isso. Dizer que tudo bem ser assim, do jeitinho que você é, e que as moças da revista não mudam isso, parece muito fraco diante de uma coisa que vem sendo arquitetada há séculos e que tá tão ligada com a forma como nosso mundo se constrói, que é tão cruel com quem ousa pensar, agir e ser diferente.

- Tá, mas o que isso tem a ver com tirar uma foto sem maquiagem?

Como eu disse, a maquiagem é um dos meios utilizados pra gente se aperfeiçoar. Não é uma invenção moderna, mas a forma como ela é utilizada, sim. A sociedade diz que a  gente que precisa, deve se maquiar para ficar mais bonita, melhor do que aquilo que a gente já é. Mas, mais bonita, e melhor, de acordo com quem? Isso mesmo, com esse padrão aí vigente - que já foi outro, e que vai mudar quando nosso mundo não for mais o mesmo. A beleza é um conceito muito relativo, e a gente pode aceitar aquilo que nosso inconsciente coletivo acredita ser bonito, ou buscar aquilo que é bonito pra gente, do nosso jeito. Que nos liberta e que nos faz feliz.

Tirar uma foto sem maquiagem, sem filtro, e mostrar pra todo mundo, não é motivo de piada, é mais do que ganhar uma aposta com as amigas e esperar uma coxinha de brinde, vai além de querer ser melhor do que as outras por baixo do corretivo. Se você pensa assim, volte três casas, comece de novo. 



Tirar uma foto sem maquiagem, sem filtro, e mostrar pra todo mundo é, primeiro, dar um voto de confiança pra nós mesmas, nos aceitando como somos - mulheres normais, que acordam com uma espinha no queixo porque abusam do chocolate, que têm olheiras porque ficam vendo seriado até mais tarde na TV, que são humanas e não bonecas sem marca de expressão e bochecha rosada 24/7. É também se amar o suficiente pra mostrar pra todo mundo qual é a real. Por fim, é se empoderar e perceber que não precisamos de BB cream, base, corretivo, blush, pó compacto, rímel, cílio postiço, delineador e batom vermelho pra gostar da pessoa que encontramos todo dia no espelho depois de lavar o rosto.

Campanhas como a #stopthebeautymadness e a #TerçaSemMake estão nos convidando a pensar sobre isso, experimentar essa libertação (eu, que nunca tive grandes questões com minha auto-estima, confesso que tirei umas 7584 fotos até achar aquela que me deixasse mais à vontade para compartilhar) e celebrar junto com nossas amigas, irmãs, e mulheres ao redor que: a gente é linda pra cacete.

via Autoajuda do Dia
Sobre isso, uma história (essa é pequena, e eu juro que é a última): Como disse, nunca tive muito problema de auto-estima. No entanto, entre os 13 e 14 anos vivi minha fase mais crítica, aquela do lápis preto pra ir na escola e da vergonha absurda do corpo. E aí que minha viagem de formatura foi pra um resort, onde a principal (e talvez única) diversão era ficar na piscina. Seria a primeira vez desde que aquela coisa chamada adolescência tomou conta do meu corpo que eu iria aparecer de biquíni na frente dos meus colegas, e isso estava me deixando super insegura. Eu achava meu quadril enorme, minha bunda flácida, meus braços gordos e meus peitos pequenos. Só não entrei na piscina de camiseta e shorts porque isso me deixaria com mais vergonha ainda, e escreveria na minha testa o quão mortificada eu estava com aquela situação.

Fui uma das últimas a entrar na piscina, tirei a roupa correndo e logo pulei pra ninguém me notar. O que eu percebi observando as pessoas ao meu redor foi que, assim como eu, ninguém ali era perfeito. Reparava no corpo da menina que eu achava mais bonita e via que ela também tinha estrias e a bunda meio mole, que minha amiga magrinha também estava com vergonha das celulites e da pele branca, que a outra colega tinha ainda menos peito que eu. E eu não achava nenhuma delas menos bonita ou incrível por causa disso, elas continuavam maravilhosas. Só eram meninas normais de 14 anos, coisa que as modelos que eu via na Capricho não eram. Depois que eu percebi isso, nunca mais tive vergonha do meu corpo.

Não quero dizer, de forma alguma, que a gente deve olhar foto das coleguinhas sem maquiagem e se sentir melhor porque fulaninha não é tão bonita assim ou porque você """deu de dez""" na cara lavada dela. É ver que todas, inclusive você, somos maravilhosas. Com ou sem maquiagem.

Aliás, tá permitido gostar de make sim, eu inclusive amo muito, desde sempre, e o batom vermelho é meu melhor companheiro. O importante é virar a chavinha e entender que BB cream, base, corretivo, blush, pó compacto, rímel, cílio postiço, delineador e batom vermelho não têm que nos aprisionar e nos moldar de acordo com aquilo que os outros esperam ou acreditam ser bonito ou melhor, mas sim ser um algo a mais  pra gente se divertir, realçar aquilo que já temos de lindo, ou experimentar a delícia que é se sentir uma pessoa diferente só por causa de uma sombra preta ou de um batom laranja - ou então pra ignorar lindamente e ser bem feliz de cara limpa.


Parem com a loucura da beleza. O que as pessoas dizem que é bonito é só uma invenção de um conceito de beleza, assim e assado porque o mundo hoje gira assim e assado. A beleza de verdade, aquela que ninguém distorce, desconstrói ou rouba, é aquela que está dentro de você, de mim e de todas nós - e é ela que devemos celebrar.