No dia 26 de outubro de 2014 eu vi meu país reeleger a Dilma Rousseff na eleição mais acirrada que o Brasil já teve. Coincidência ou não, foi também a eleição em que eu mais estive envolvida - menos por uma paixão específica por um dos lados, mais por uma convicção nunca antes tão firme em certos ideais que eu não suportava ver ameaçados. Eu não fazia a menor ideia de que resultado teríamos às oito da noite, e lá pelas quarto da tarde parei de fingir que estava tudo bem, que eu não estava nem aí, para assumir que minha falta de concentração e o desconforto no estômago eram, sim, por conta do pleito.
Para fugir um pouco do climão pesado - se essas eleições vão ficar marcadas pela disputa apertadíssima do segundo turno, infelizmente vamos lembrar dela também como aquela em que as pessoas deixaram ver o seu lado mais cruel, preconceituoso e odioso - combinei com o Matheus que faríamos uma pequena indulgência a nós mesmos: jantar num restaurante maravilhoso e um tanto quanto além das nossas posses. Nós comeríamos hambúrgueres suculentos (tipos de Anna Vitória: vai jantar num lugar especial e come hambúrguer), dividiríamos waffles com a calda de chocolate mais maravilhosa que já se teve notícia, e tomaríamos água do balde de gelo porque that's how we roll. A gente ia falar bobagem, rir mais alto do que seria de bom tom, discutir amenidades - e quando saíssemos de lá o destino do país estaria decidido.
O que aconteceu foi que não desgrudamos do celular a noite toda. O que aconteceu foi que nesse dia 26 de outubro eu perdi o apetite, eu deixei meus hamburguinhos esfriarem porque estava ocupada demais atualizando o Twitter em busca de notícias. A gente sabia que a cena era ridícula, a gente jurou mais de dez vezes que o celular ia ficar no centro da mesa e só seria olhado quando houvesse certeza do resultado. A gente estava com vergonha da nossa situação lastimável, mas a 10 minutos da grande resposta falar bobagem não era uma opção, muito menos rir, muito menos falar amenidades, imagine só comer!
Eu cogitei até abrir mão da sobremesa. É grave, doutor?
Fatos históricos relevantes estão destinados a se transformar em caso de mesa de bar, desses que se tornam uma conversa reincidente, um caso que ninguém se importa de contar de novo e de novo, a cada efeméride significativa. Onde você estava? Isso porque são raras e marcantes as chances que temos de ser testemunhas vivas da história, e recordar essas circunstâncias é como fincar uma bandeira particular naquele Grande Acontecimento. É como tirar uma selfie com a História.
A minha foi tirada com as mãos trêmulas segurando um celular, porque não foi suficiente que me contassem, eu não acreditava nas manchetes que liam pra mim. Eu precisava ver com meus olhos, com as minhas mãos, e me certificar de que eu estava ali. Com uma garrafa de champanhe intimidadora na minha frente, que não tínhamos dinheiro para pagar, mas bem que eu queria. Porque eu estava lá, eu fiz parte daquilo, eu sofri pra caramba, ainda que na minha gritante insignificância diante da grande ordem das coisas.
Eu não faço a menor ideia do que vai acontecer daqui pra frente, eu não acho que vai ser tão bom como meu otimismo inevitável tenta me fazer acreditar, eu me questiono se valeu o sacrifício, mas para todos os fins narcísicos e egoístas da minha narrativa pessoal, fica aqui a minha história. O resto é o nosso futuro.
Onde você estava?
