Para ler ouvindo:
No começo de 2014 tudo que eu queria era me apaixonar.
Veja bem, não estou falando de arrumar um namorado, apresentar pra vó, fazer planos, colocar aliança no dedo nem nada - eu juro que eu acreditei de verdade nessa ambição. Eu queria me apaixonar e pronto. Perder o juízo e noites de sono, ficar idiota e monotemática, ver passarinho verde voando por aí. Eu queria tanto que até fiz uma mixtape meio que mandando uma indireta pro universo. A primeira música era Tender, do Blur, que repete infinitamente no refrão:
I'm waiting for that feeling
Waiting for that feeling
Waiting for that feeling
To come
O que acontece é que eu sou pisciana. Com ascendente em peixes e lua em virgem. E eu sempre debochei de quem se justifica a partir da astrologia, mas as estrelas me deram um bom, senão ótimo, diagnóstico para a minha patologia, que é sonhar demais, sonhar alto, sonhar longe - mas ter absoluto pavor desse sonho não ser perfeito. Porque se não for perfeito não serve. Porque se não for pra sempre não vale a pena. Porque se não for pra apresentar pra vó, fazer planos e colocar aliança no dedo, eu não vou me apaixonar.
Pois é. Eu disse que era um bom diagnóstico, ou pelo menos uma desculpa perfeita e confortável pra eu me apoiar até cair na real. A lua me traiu e a culpa é sempre das estrelas - até que nós, pequenos Brutus errantes, perdidos por aí, mudemos de perspectiva e enxerguemos que talvez, apenas talvez, ela seja um pouco nossa também. Até que isso acontecesse, eu me desapaixonei tanto que quase virei misândrica (e nem foi no sentido virtual) e eu preciso dizer que esse pára-raio de doido que tenho aqui dentro é muito culpado por todas as vezes que eu fugi, mas da minha parte confesso que fiz, quase obriguei, os outros a fugirem também, no melhor estilo eu queria tanto que você não fugisse de mim, mas se fosse eu, eu fugia.
O que aconteceu foi que 2014, como eu já disse, foi um ano de desilusões. De errar e ver as coisas dando errado. De encher a lata de filosofias de fracasso e achar graça e poesia num 7x1. Foi um ano onde nada foi perfeito ou como eu sonhava, mas ficou tudo bem. Às vezes foi até melhor do que eu jamais poderia imaginar, então bom também. 2014 me mostrou um jeito especial de dar errado e que dá pra ser feliz assim. Que não precisa ser impecável pra ser incrível. Que não precisa ser pra sempre e ter uma promessa pra ser infinito.
Se for explicar de acordo com as músicas da Taylor Swift, eu saí de "Mine" e entrei em "Blank Space" - sem a parte de tentar matar o cara no final. Acho, inclusive, que por isso senti uma conexão emocional (sim, me deixem) com o "1989", porque ele representa um movimento bem parecido por parte dela, que no encarte do disco escreve que estava fazendo um monte de coisas que nunca imaginou que faria, e a principal delas é ser feliz num mundo em que ela não está apaixonada.
Aí eu conheci um carioca. Que era mineiro também, e eu acho que se não fosse por isso eu nem teria deixado ele sentar do meu lado. Mas, mais importante do que ser mineiro de alma carioca (como eu juro que sou também), ele era gentil, o cara mais gentil que falou comigo em muito, muito tempo. Como eu estava mais de saco cheio e na defensiva do que nunca, era tudo que eu precisava no momento. Mais do que ser tirada pra dançar, mais do que uma promessa. Bastou um sorriso, um moço gentil, de bom papo e um lenço de pano no bolso. E eu ainda ganhei um beijo na ponta nariz.
Esse carioca, que era mineiro também, me disse que eu era a menina mais bonita daquela festa, e eu poderia ter sido cínica, como eu sou na maioria das vezes, e respondido (ou pelo menos pensado) que ele só estava dizendo aquilo porque queria me beijar, mas alguma coisa aconteceu ali que me deixou com vontade de acreditar no que ele dizia, e eu acreditei. Naquela noite, eu era a menina mais bonita da festa e ele o cara mais legal, e a gente deu muita risada juntos, falou sobre o Rio com a mesma paixão, e ele me beijou devagar e com carinho, até que acabou e cada um seguiu seu rumo. Eu acabei fugindo dele sem querer e nem tive como agradecer por, naquela noite, ter me mostrado que era diferente, que o mundo estava cheio de pessoas diferentes por aí, e que nem tudo estava perdido.
Eu queria ter agradecido, sobretudo, por ele ter me ajudado a acreditar - não num sonho perfeito, mas em todas as coisas bonitas que estão no meio do caminho, entre o delírio cor-de-rosa e o que quer que seja que a gente teme tanto antes de se entregar.
Eu queria ter agradecido, sobretudo, por ele ter me ajudado a acreditar - não num sonho perfeito, mas em todas as coisas bonitas que estão no meio do caminho, entre o delírio cor-de-rosa e o que quer que seja que a gente teme tanto antes de se entregar.
Querido Mineiro-Que-Agora-É-Carioca, cujo nome eu nem sei direito, onde quer que você esteja, obrigada por ter sido gentil, por ter me ouvido enquanto eu falava, por ter tirado aquele lenço do bolso e por ser diferente dos outros. E me desculpe por aquele tchau desajeitado - eu juro que faço melhor que isso. Eu adorei te conhecer.
No início de 2014, tudo que eu queria era me apaixonar. No início de 2015, eu descobri que se eu quiser, talvez, apenas talvez, agora eu possa.

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