E já vou avisando que não gostei.
Não Sou Uma Dessas é um livro que reúne ensaios a respeito de vários temas, de sexo e morte, passando por dieta e acampamentos de verão, com o objetivo de reunir tudo que a Lena "aprendeu" nesses seus vinte e oito anos de vida. Aprendeu assim entre aspas porque, bem, é assim que está escrito na capa. No fundo, o livro é uma autobiografia não-definitiva da moça, com uma certa extensão dos temas abordados em Girls e muitas anedotas mais ou menos interessantes sobre diferentes momentos da sua vida.


Eu poderia começar dizendo que, a não ser que você seja a Malala ou a Anne Frank, meio puxado lançar uma autobiografia aos 28 anos, por motivos óbvios. Mas aí, logo no começo, num dos trechos mais fortes do livro, a Lena fala que pra ela não existe nada mais corajoso do que você, principalmente se você for mulher, bancar a ideia de que a sua história merece ser contada, que sua experiência serve para alguma coisa além de alimentar sua própria vaidade. Veja bem, o importante aqui não é que os outros acreditem que sua história vale a pena, mas que primeiramente você acredite nela, e a gente sabe que a diferença entre um e outro são enormes.
Isso quebra minhas pernas porque eu sempre acreditei nisso, em histórias, em pessoas, e que todo mundo tem uma pra contar. Eu não teria escolhido ser jornalista se eu não acreditasse nisso, eu não estaria escrevendo um livro como TCC se eu não soubesse que essas histórias estão aí. Mas, sobretudo, depois de sete anos escrevendo num blog onde eu falo basicamente sobre mim, o mínimo que eu, que não sou a Malala nem a Anne Frank, posso fazer, é ficar caladinha e pensar que o que separa um blog pessoal de um livro como esse, grosso modo, são rios de dinheiro, belas tatuagens, e uma boa dose de sorte (e talento também, vai) na vida.
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| miga você me respeite |
Eu sou uma dessas também. Todas somos, no fundo. Nossas histórias, trajetórias, e inadequações importam sim e merecem ser contadas. O que eu mais gostei na primeira temporada de Girls, a única que tive estômago para assistir, foi que eu vi ali garotas de verdade. Horríveis, egocêntricas, inadequadas e perdidas, mas que alívio ver garotas assim quando a gente pensa que a representação de personalidade que a maioria das personagens femininas ganha é o fato de ser desastrada ou excêntrica de um jeito limpinho e que não ofende ninguém.
No entanto, o fato da história ser importante não significa que ela seja necessariamente boa e, meu Deus, o livro da Lena Dunham é ruim demais.
Tá, ruim demais talvez seja exagero meu, uma primeira impressão inflamada de quem passava as páginas em desespero porque o livro não acabava nunca e eu não aguentava mais. Não Sou Uma Dessas tem seus momentos. A parte sobre sexo e relacionamentos, por exemplo, é impecável. O senso de humor autodepreciativo da Lena, ao invés de amenizar o baque de todos os relatos sobre seus amores errados e o sexo mais errado e desconfortável ainda, só os torna mais insuportáveis, no sentido de que você se sente tão mal por ela, tão desesperada ao imaginar alguém naquela situação, que quase dói. A parte sobre o abuso sexual que ela sofreu é minha favorita porque é um retrato doloroso que mostra, sobretudo, como esse assunto ainda é negligenciado, até mesmo nos meios mais "esclarecidos".
And if I could take what I've learned and make one menial job easier for you, or prevent you from having the kind of sex where you feel you must keep your sneakers on in case you want to run away during the act, then every misstep of mine was worthwhile.
E aí que eu, que nunca tive problemas com relacionamentos abusivos e nem grandes questões com meu corpo, que acho que são os temas que atraem a maioria das pessoas para esse livro, me vi contemplada justamente quando ela abre a porteira e deixa a boiada da ansiedade correr solta. Lena Dunham refletindo sobre a morte é um caso patológico de ansiedade e eu, enquanto uma pessoa que duas semanas atrás ficou acordada até as cinco da manhã andando em círculos na sala de casa porque não conseguia fazer aquele eu interior calar a boca e não pirar, só conseguia pensar: Meu Deus essa mulher é completamente maluca, e eu sei exatamente sobre o que ela está falando.
¯\_(ツ)_/¯
"I should stop apologizing for being overly analytical about this, even though I am sorry (not to you, but in a deeper way, sorry for my brain chemistry and who I am, I do what I can that isn't heroin to modify it but I was born as anxious and obsessive as any incredibly gorgeous child ever could be)."
I do everything I can that isn't heroin é meu novo jeito favorito de explicar pras pessoas que mandam eu parar de chorar ou hiper-analisar as coisas que olha, não é de propósito, não faço isso porque é divertido, sei que é um problema e estou tentando mudar, então segura sua onda aí. Talvez eu faça uma camiseta com essa frase.
E aí vocês me perguntam: se a história é importante, se o livro tem bons momentos e você está inclusive pensando em fazer uma camiseta com uma frase dele, por que é que você disse lá em cima que não gostou do livro?
Bom, basicamente porque tirando os destaques que fiz aqui, ele não é interessante. Pelo menos não pra mim. A impressão que eu tive foi que a maioria dos ensaios do livro são coisas que a Lena Dunham escreveu sobre ela e para ela, e calhou dela estar numa posição em que editoras acham um bom negócio publicar um livro com meia dúzia de ensaios interessantes e dezenas de outros que não tem a menor relevância - e quando eu falo em relevância eu estou falando aqui que ela passa um capítulo inteiro descrevendo uma dor na ppk.
Teria eu sido entretida por páginas e páginas sobre dor na ppk e descoberta de endometriose se fossem elas escritas de um jeito mais interessante, divertido e menos Dunham-nesco? Com certeza. O problema é que a gente nunca consegue tirar a voz dela da cabeça, e acompanhar seu fluxo de pensamento é exaustivo. Sabe aquelas coisas que a gente pensa que só fazem sentido na nossa cabeça? Então, a Lena escreveu tudo que se passa na sua cabeça, o que faz e o que não faz sentido pro mundo, com suas observações irritantes e um insuportável senso de que ela é a pessoa mais interessante no mundo. Miga, não é.
Não Sou Uma Dessas é um livro de memórias e histórias de uma mulher de 28 anos que te diz logo de cara que vai usar aquelas páginas para contar o que "aprendeu" na esperança de te acolher e de te prevenir de ciladas parecidas com aquelas que ela viveu. Ele não é sempre engraçado, ele enche o saco, ele não é nem remotamente interessante em vários momentos, mas continuo admirando a Lena Dunham - primeiro pela honestidade, e depois por nunca pedir desculpas. Para mim, a única coisa mais corajosa do que uma mulher acreditar que sua história merece ser contada, é ela ter coragem de contá-la, apesar de tudo.
A gente pode gostar ou não do resultado, mas isso é problema nosso.

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