sábado, 28 de março de 2015

Lagartos, abóboras e um pouco de mágica

Para ler ouvindo:


Ontem eu chorei vendo Cinderela.

Eu estava pronta pra odiar o filme, fui assistir já pensando em escrever algo inflamado sobre como a Disney e os outros estúdios precisam parar de insistir em releituras de clássicos e começar a investir em bons roteiros originais. Eu estava pronta pra usar o termo crise generalizada de criatividade em Hollywood. Mas aí eu chorei vendo Cinderela, sendo que ela nunca foi minha princesa favorita, nem a segunda favorita, e nem entraria no meu top 5. Plot twist!

Quando eu era criança, sonhava em ver meus contos de fada favoritos em live action (ou "filme com gente de verdade", como eu dizia então). Assistia na TV Cultura, todo sábado, o Teatro dos Contos de Fada com a Shelley Duvall (tem vários completos no Youtube e são super legais) e sentia até um frio na barriga (até porque eles tinham uma coisa meio creepy rolando), embora eles não entregassem a versão que eu tinha na minha cabeça.

Eu queria mágica no mundo real.


Quando finalmente surgiu essa nova onda de adaptação dos contos de fada clássicos, surgiu também um movimento que visava aprofundar as tramas, os personagens e tornar a história mais real e humana pro nosso mundo de carne e osso. Não deixa de ser uma boa ideia, que até deu certo algumas vezes (beijos, Para Sempre Cinderela!), mas o resultado da maioria acaba sendo meio decepcionante. Está na essência dos contos de fada esse desprendimento da realidade - o que faz com que muitas histórias sejam problemáticas, a gente sabe como elas são, mas isso é uma prerrogativa do gênero. No fundo, acho que é isso que faz deles histórias tão irresistíveis. 

(Aliás, quero ver quem teria culhões de adaptar um conto de fadas original, com direito a necrofilia, mutilação, e heroínas que viram espuma no final. Esses filmes eu veria) As adaptações recentes não apostam nem no sonho e nem na tragédia, ficam ali no meio e se transformam em aberrações tipo Malévola - que não, não vou superar tão cedo.


E é aí que Cinderela entra e muda o jogo: o filme é sonho purinho! Da bondade e do altruísmo sem limites da mocinha, sempre sorridente apesar de tudo (quis bater nela um pouquinho? quis sim, mas passou) à obstinação cruel e sem limites da madrasta. O filme é maniqueísta e descolado da realidade, sim, mas tudo bem. De vez em quando pode ser só um conto de fadas sim que ninguém briga. É mágico, sabe? Eu chorei vendo a transformação do vestido porque tinha um monte de breelhos, umas borboletas fora de lugar e coisas que não pertenciam ao nosso mundo, mas tudo bem. Era um sonho.


Aí tem aquela cena em que ela dança com o príncipe e os dois giram pelo salão, e tem aqueles olhares que de novo mostram a mágica acontecendo ao redor deles. Deveria ser assim sempre. Não é assim de vez em quando? Não sei, não consigo pensar direito quando tem dança envolvida. 

A mensagem do filme fala sobre coragem e gentileza. Cinderela repete o ensinamento da sua mãe e busca ser sempre corajosa e gentil, e é isso que a Fada Madrinha diz no final: pra tudo acabar bem, precisamos de coragem, gentileza e um pouco de magia. Eu acho que a gente vive num mundo difícil demais pra não se permitir acreditar em magia de vez em quando. Não estou falando aqui de fadas madrinhas, varinhas de condão, lagartos e abóboras, mas dos pequenos milagres que nos mantém vivos, que nos levam a lugares onde supostamente não deveríamos estar e onde nem chegaríamos sozinhos, aquelas coisas inexplicáveis que nos unem a pessoas inimagináveis em qualquer outra circunstância. Alguma coisa que nos faça dançar. 

São tempos difíceis para os sonhadores e eu tenho topado qualquer coisa que me faça acreditar em milagres. De que serve a vida se não pudermos brilhar os olhos diante de um vestido azul rodopiando?



Cinderela é o filme que eu queria ver desde criança, que mostra a magia acontecendo com gente de verdade e nos revela o mundo não como ele é, mas como poderia ser. Pelo menos um pouquinho.

(Saudade de príncipes apaixonados com sangue Stark)