segunda-feira, 6 de abril de 2015

De repente 15

Ou: Manifesto a favor da adolescência tardia

No dia do meu aniversário de 21 anos, eu fiz um piercing no nariz. 

Eu sei que vocês são descolados e transgressores e furam piercings com uma naturalidade de quem pinta as unhas de azul calcinha, mas eu nunca fui do tipo que paga pra alguém furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro. Essa definição de piercing foi meu pai que deu, e ele repete isso diante de qualquer coisa que acontece comigo desde que fiz o piercing. Qualquer coisa mesmo.

Se o nariz coça, tava na cara né, foi pagar pra alguém furar um buraco no seu nariz e enfiar uma argola dentro, só podia dar nisso. Se estou com dor de cabeça, só posso estar de brincadeira, o que mais eu queria? Fui pagar pra furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro, agora tô com dor de cabeça mesmo, única consequência possível. Se quebro minha costela caindo da escada, era só uma questão de tempo, fui pagar (ainda não sei se o problema maior foi o piercing ou a ideia de que isso é algo que se paga pra fazer) pra furar um buraco (é muito importante a ênfase na palavra buraco e um tom de absoluto horror ao dizê-la: lê-se BURAaAaAcOoOo) no nariz e enfiar uma argola dentro, o próximo passo é perder o equilíbrio motor e da vida. 

Daí vocês já conseguem entender por que eu demorei tanto tempo pra fazer o piercing.

Foram exatamente sete anos, visto que tenho essa vontade desde os 14. Eu queria um piercing no nariz, um piercing monroe, igual ao da Amy Winehouse, e um piercing no lábio, igual o da Marimoon. Tudo que um pai pode desejar na vida é que sua menininha queira ser igual Amy Winehouse ou Marimoon, né? Eu não facilitava a vida de Patriarca Rocha, preciso admitir.

Patriarca em chamas 
Antes de ter coragem de pedir pra furar o nariz, tentei algo mais simples, uma argolinha na cartilagem da orelha, dessas que todo mundo tem. Ele nunca disse que não, mas nunca disse sim, e me enrolou por tanto tempo, com argumentos tão absurdos ("como você vai fazer quando tiver um casamento pra ir? não dá pra ir num casamento com um negócio desses na orelha" "mas pai eu nunca vou em casamento" "mas se um dia tiver que ir, como cê vai fazer???"), que fui vencida pelo cansaço e me contentei com um segundo furo na orelha. 

Foi um desastre. Aliás, o desastre do segundo furo foi a melhor coisa que aconteceu na vida do meu pai, porque depois de enfrentar uma inflamação dessas que não podia nem dormir do lado do furo senão acordava com a orelha dilacerada e o travesseiro cheio de sangue, eu nunca mais cogitei a ideia do piercing. Qualquer piercing. O segundo furo se fechou pra sempre e com ele a minha vontade de pagar alguém pra furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro.

O problema foi que eu podia até ter desistido, mas nunca tinha esquecido a coisa do piercing. Consegui superar o monroe e o do lábio, mas o do nariz me fazia sofrer. Sempre que via alguém com uma argolinha no nariz sentia vontade de chorar, abraçar a pessoa, ser amiga dela, pedir pra ela trocar de corpo comigo, etc. Era uma coisa tão bonita e eu queria tanto. Tanto tanto tanto! Mas assim, TANTO! Mesmo com quase 21 anos, eu queria aquele piercing com a obstinação adolescente de quem se dispõe a passar duas semanas na porta de um estádio pra ver um show de perto.

Aí que quando eu faço aniversário eu costumo ficar pensativa. Pensativa é um jeito bacana de dizer que eu fico dias sem dormir, pensando que estou jogando minha vida no lixo, que vou morrer amanhã e nunca fiz naaaaaada, my life is oooooooveeeeeer, nevermooooooooore. Peixes, com ascendente e sol em peixes, amores. Muitas emoções. Essa pilha errada de achar que estou perdendo partes da minha vida e deixando de viver experiências específicas da idade é uma onda que sempre bate muito forte e muito errada no meu inferno astral, e esse ano não foi diferente. O que mudou foi que pela primeira vez eu resolvi fazer alguma coisa com relação a isso.

Todo mundo de olho fechado e bracinho pra cima gritando CH-CH-CH-CH-CHANGES

Eu simplesmente pensei: por que não? Sabe, às vezes pensar por que não? é tudo que a gente precisa pra fazer a vida andar. Depois de uma pesquisa sobre o melhor lugar para fazer isso, catei um amigo que seria um bom apoio moral - mas que chutaria minha bunda se eu ameaçasse desistir - e, no dia do meu aniversário, matei aula e fui lá pagar oitenta realidades pra um moço com uns cinco furos na cara furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro. E pronto! Não doeu, não inflamou, não teve nariz dilacerado, nem travesseiro cheio de sangue. Minha mãe adorou, minha avó achou a rebeldia incrível e meu avô não viu nada diferente até agora. E meu pai, bem, ele vai superar. 

Dito assim parece pouco e talvez seja, mas essa experiência me enfiou num vórtice de adolescência tardia do qual está sendo difícil sair. Parei de ficar pensando que ain, não tenho mais idade pra essas coisas (ler com a voz da Princesa Caroço) pra perceber que a grande vantagem de voltar pros 15 anos com 21 é que você pode continuar gostando e querendo as mesmas coisas, com a diferença que agora NÃO TEM NINGUÉM PRA TE IMPEDIR. #thuglife


Semana passada, por exemplo, eu fiz uma mecha rosa no cabelo. Acho cabelo colorido uma coisa incrível desde sempre e passo horas no Pinterest vendo gente descolada de cabelo colorido por aí, mas sempre pensava: ain, não tenho mais idade pra isso, ain, não sou blogueira teen de modas, nem vou pro carnaval no Rio, ain ain ainnnn. Até o dia que cruzei com um tonalizante rosa quando menos estava esperando, e aí me fiz a pergunta mágica POR QUE NÃO? e no dia seguinte lá estava eu sem a menor ideia do que estava fazendo, pintando o banheiro, minhas orelhas, minha testa e eventualmente um fiapo de cabelo de cor-de-rosa. Gritei de felicidade quando sequei o cabelo e amei o resultado. De vez em quando é muito fácil ser feliz. 


Já na semana que vem vou ver um show da Fresno. Vocês acreditam nisso? Fiquei paralisada quando vi o evento no Facebook e em dois minutos decidi que ia de qualquer jeito, mesmo se não tivesse companhia. Fiquei até com vergonha de sair buscando, confesso que esperava ouvir um ain miga vamo superar né, mas assim que confirmei presença uma amiga já veio gritando falar comigo que queria muito ir, e no dia seguinte consegui, sem muito esforço, convencer outra amiga. Eu era muito fã da banda, mais fã ainda do Lucas e do Tavares, nos meus tempos de ema e gótica, lá em 2000-e-pedindo-quebre-as-correntes-no-rádio, e nunca tive a chance de ver um show dos caras. Daí eles vem pra minha cidade com um show cuja proposta é justamente celebrar o começo da banda e tocar os primeiros discos. Logo agora que eu tenho um piercing no nariz e uma mecha rosa no cabelo! Ainda bem que algumas oportunidades só vão embora definitivamente depois que a gente morre.

E eu não sei vocês, mas eu não tô pretendendo morrer se for pra correr o risco de ficar a eternidade vagando nesse mundão, só porque perdi a chance de pagar pra alguém furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro. Meus novos 15 anos têm sido maravilhosos e recomendo a todos, inclusive me disponho a servir de apoio moral se for preciso ou chutar a bunda quando ameaçarem de desistir de qualquer coisa tonta e inofensiva que vocês já quiseram muito com 15 anos.