Você sabe que encontrou seu lugar no mundo quando sua paixão de cinco minutos é correspondida. Eu e o cara do metrô do Rio de Janeiro nos amamos por dez.
Foi assim: estávamos eu e minhas amigas, onze garotas alopradas que, desde que andaram de ônibus juntas pela primeira vez, há três anos, perceberam que não dá para fazer isso sem perturbar a ordem do lugar. A gente é insuportável mesmo e eu nos odiaria se estivesse vendo de longe. Quem, afinal, pensam que são essas garotas barulhentas que precisam estar sempre coladas umas nas outras, cantando o tempo inteiro, sendo espaçosas, sentando no chão do trem, rindo até cair, e conversando com quem está duas ou três fileiras atrás? Somos nós, sim senhor, amigas que se encontraram do nada, e que se veem, com muita sorte, duas vezes ao ano, e que precisam, sim, causar todo o estardalhaço que causamos por onde passamos. Aceita que dói menos.
Quando você encontra suas pessoas no mundo, de repente não se importa mais com o que os outros pensam.
E aí que nós estávamos vindo da mureta da Urca, depois de um fim de tarde de overdose de Rio de Janeiro e tudo que ele oferece, depois de ocasionais cervejas, jogos, pôr-do-sol e muitos, muitos gritos e nós estávamos indo para a livraria. Se o Rio é nossa cidade, a livraria Cultura é nosso quartel general. Mas no meio do caminho tinha um garoto, tinha um garoto no meio do caminho, e ele estava sentado sozinho num banco enorme e vazio do metrô e a gente sentou do lado dele, e a gente que sobrou sentou de frente pra ele, e nem toda a folia do mundo me tirou aqueles três segundos em que cai a ficha que você está cara a cara com um cara bonito do metrô.
Ele era como todos os caras bonitos de metrô e paixões de cinco minutos perdidas em cidades maravilhosas parecem ser: moreno barbudo, cara de bobo, All Star branco no pé e aquela doçura carioca que, vocês me desculpem, os paulistas nunca terão. Três segundos e minha vida se revelava novamente um maldito de um clichê, com a única diferença de que, pela primeira vez na vida, depois de 21 anos de muitos amores platônicos de cinco minutos ou cinco anos, eu aparentemente estava sendo correspondida. I was enchanted to meet you, too.
Com ou sem os caras bonitos, a gente agiu naturalmente e seguiu fazendo a-gentices como sempre. Muda de banco, troca de lugar, dá risada, finge que briga, faz charminho, tem crise histérica de riso, inicia conversas paralelas em grupos menores, fala de livros, da festa de ontem, vamos comer bolo e tomar champanhe na volta, tô com fome, ai minha panturrilha, vou tomar banho primeiro, etc. E ele ali no meio daquele pudim de estrogênio, às vezes disfarçando, meio cruzando os braços e olhando pro teto, e de repente descaradamente prestando atenção, com uma expressão divertida no rosto.
Até que, com um pouco de atraso, todas nós tivemos nossos três segundos coletivos de consciência de que estávamos cara a cara com um cara bonito do metrô.
Pensei que fosse a única a ter reparado nele, mas minhas amigas não me decepcionam e logo estávamos todas naquela telepatia de garotas que, com olhares e risadas, sabem exatamente o que a outra está pensando. Todas nós estávamos pensando que ele era lindo e que estávamos sendo retardadas diante de um cara lindo, porque gritamos o tempo inteiro pra de repente calar a boca, cochichar e rir. Através do reflexo na janela, Giuliana Rebeca me observa ali, 100% sem saber lidar, e diz: eu já te saquei, viu?
Porque eu estava olhando pra ele, e ele estava olhando pra mim, e eu comecei a fingir que não estava olhando pra ele, mas ele olhava tanto pra mim que não tinha como não olhar de volta, e quando eu finalmente pensava em outra coisa eu sentia ele olhando de novo pra mim, então eu olhava pra ele, e aí eu queria começar a rir, e ele segurava a risada do lado de lá, então ele olhava pra cima, e eu olhava de novo, só pra testar (meu Deus! que cara fofo!), e a gente ficou se olhando por três segundos quase insustentáveis e uma música da Taylor Swift tocava no meu coração. Please don't be in love with someone else?
Então acabou, como todas as paixões de cinco minutos estão fadadas a acabar, e eu gosto de acreditar que teria dado meu telefone pra ele se morasse ali, e eu quase dei meu telefone pra ele mesmo não morando ali, mas decidi que já tenho motivos suficientes pra morrer de saudades do Rio e não preciso de mais um. O que fiz foi olhar pra ele, olhar de verdade, deixar ele ter certeza de que eu estive olhando o tempo todo enquanto imaginava que poderíamos ser nós dois na praia algum dia e que poderia ser ele me rodopiando na gafieira, cantando Cartola ao romper da manhã, e ele me olhava assim meio de lado, já saindo, indo embora, louca por ele.
Só de escrever esse texto fiquei com um frio na barriga e tenho certeza que o Happn perdeu um maravilhoso publieditorial. Se eu morasse no Rio, tenho certeza que já estaria casada - mas, por enquanto, é isso que se oferece.
Então acabou, como todas as paixões de cinco minutos estão fadadas a acabar, e eu gosto de acreditar que teria dado meu telefone pra ele se morasse ali, e eu quase dei meu telefone pra ele mesmo não morando ali, mas decidi que já tenho motivos suficientes pra morrer de saudades do Rio e não preciso de mais um. O que fiz foi olhar pra ele, olhar de verdade, deixar ele ter certeza de que eu estive olhando o tempo todo enquanto imaginava que poderíamos ser nós dois na praia algum dia e que poderia ser ele me rodopiando na gafieira, cantando Cartola ao romper da manhã, e ele me olhava assim meio de lado, já saindo, indo embora, louca por ele.
Só de escrever esse texto fiquei com um frio na barriga e tenho certeza que o Happn perdeu um maravilhoso publieditorial. Se eu morasse no Rio, tenho certeza que já estaria casada - mas, por enquanto, é isso que se oferece.


