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quinta-feira, 27 de março de 2014

Breu

Ou: manifesto contra as borboletas no estômago

Quando eu era criança, costumava dizer que minha barriga escurecia. Eu falava isso sempre que meu pai descia a ladeira cheia de morrinhos que era nosso caminho de todo dia. Eu amava e odiava aquilo, e enquanto o carro subia e descia bem rápido eu punha a mão na barriga e dizia que ela estava escurecendo. Eventualmente descobri que o jeito oficial, se é que isso existe, de se definir essa sensação que não era só minha, era dizer que deu um frio na barriga. Analisando o que eu sentia com o carro na descida ou dentro daquele elevador maluco do prédio da minha bisavó que sempre dava uns trancos antes de parar, era coerente chamar aquilo de frio, já que o negrume de antes sempre vinha acompanhado de uma lufada de ar gelado que insistia em se concentrar na boca do meu estômago.

Os anos se passaram, eu li uns livros, vi uns filmes, e descobri que essa exata sensação poderia ter outro nome, ou melhor, ser outra coisa. Nada de escuro, nada de frio, o que eu sentia vez ou outra eram borboletas que freneticamente batiam suas asas dentro de mim. É uma imagem até bonitinha, mas é benevolente demais para com a realidade do que ela significa. Borboletas no estômago supostamente são acompanhadas de paixão, ansiedade, excitação, e tudo isso pode ser muito bom sim, mas não é nada delicado. Na verdade, é exatamente o contrário: se existe um troço se sacudindo dentro da barriga que eu sinto que está dançando a dança da garrafa, é porque a coisa está tão intensa na cabeça que o próprio corpo começa a emitir os seus sinais.

Não deixa de ser interessante, não deixa de ser gostoso, porque eis um sinal que estamos vivos e que dentro desse corpo bate forte até demais um coração. As borboletas, ou o frio, ou o escuro, ou tudo ao mesmo tempo agora, nos escancaram que ainda somos sensíveis e vulneráveis apesar de nossos esforços (às vezes involuntários, pois é) para que essa massa cinzenta e pesada que carregamos na cabeça dê conta de tudo, como uma governanta amargurada e muito competente.

No entanto, vocês sabem o que isso significa, né? Se aquilo que a cabeça pensa e o coração sente já é tão forte que começa a pulsar na barriga, é porque as coisas estão saindo do nosso controle. E isso pode ser assustador. Tão assustador que aquelas borboletas simpáticas de filme da Disney de repente resolvem raspar um lado da cabeça, tingir as asas de um tom fluorescente e fazer um twerk dentro de mim. De língua pra fora, obviamente. Enquanto esse espetáculo da natureza e das emoções se opera, só me resta passar o dia enxugando as mãos suadas e me conformar de que não vou conseguir comer direito tão cedo.

É isso que você ganha quando nasce com uma lua em virgem, e eu tenho certeza que aquelas princesas tinham um mapa astral melhor que o meu.



Chuck Bass não me deixa mentir. Foi ele que chegou todo atordoado para a Blair, dizendo que se sentia doente, sem conseguir comer ou dormir, como se tivesse algo flutuando dentro de seu estômago. Borboletas?, ela pergunta, e sua reação é menos iluminação romântica do que confusão e até um pouco de nervoso. Talvez aquele defina gostar que ele solta depois que ela pergunta se ele gosta dela não seja lá tão romântico como eu sempre pensei.

A verdade é que fomos enganados. Ao menos eu fui. A poesia disso - the joy of life, a condição humana, etc, etc -, materializada pela imagem de borboletas simpáticas e coloridas, vai embora sorrateiramente pela janela à medida que os alertas vermelhos anunciando a perda de controle começam a soar - mas, ao invés de luzes piscantes e sirenes, tudo que a gente tem é o escuro. E um saquinho de pão pra poder respirar bem fundo.

Montanhas-russas, toboáguas, elevadores malucos, véspera de prova, culpa, amor platônico e aquela mensagem que não chega nunca - a imagem que traduz tudo isso não tem nada a ver com uma tempestade de neve em pleno verão no meu estômago, muito menos com borboletas fazendo cosplay de Miley Cyrus dentro dele, mas sim com um buraco negro, o produto da morte de uma estrela que atrai tudo ao seu redor para uma dimensão infinita e ao mesmo tempo compacta de nada, onde o tempo para e o espaço não existe mais.


É o que a gente sente quando dá o impulso naquele escorregador enorme e percebe que em poucos segundos vem a inclinação de 90º e não temos mais pra onde correr. É o que eu sinto quando percebo que não tenho mais apetite desde que você chegou sublinhando três vezes embaixo daquele enorme e se que existe entre a gente, escancarando a realidade de que não tem nada que eu possa fazer pra atravessar do outro lado e ver qual é. É uma espiral descendente cheia de ideias erradas e paranoias que não levam a lugar nenhum. É, basicamente, um inferno. Escuro pra burro, mas isso eu sempre soube. Pelo menos eu estava certa.

Defina gostar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O fim de Gossip Girl: 6 coisas que amo

And so it is, como diria o Damien Rice, ou então this is the end, beautiful friend, se você prefere The Doors. Enquanto escrevo este post, vai ao ar nos Estados Unidos ao derradeiro episódio de Gossip Girl. Não estou acompanhando por motivos de força maior - estava estudando - e resolvi escrever o post para apaziguar um pouquinho a ansiedade. Não lido muito bem com finais - nunca consegui ver o último episódio de Friends inteiro - e talvez eu devesse ter deixado a parte da raiva para hoje, para doer menos, mas seria de uma covardia imensa da minha parte. A dor precisa ser sentida, né? A seguir, as seis coisas que mais amo no seriado e que mais deixarão saudades (quatro coisas que odeio):

Dorota


Que atire o primeiro macaron que nunca sonhou em ter uma Dorota a tiracolo, que além de trazer café da manhã na cama todos os dias, fazer suas unhas e arrumar suas malas, ainda funciona como fiel escudeira, parceira de armações e um ombro amigo quando as coisas apertam. A Dorota é uma linda e espero que seu fim seja tão digno quanto o da sua pessoa. Sabe Gossip Girl quanto tempo Blair Waldorf teria sobrevivido sem sua maior parceira! Apesar de ser coadjuvante ao extremo, os episódios não teriam a mesma graça sem Dorota contrabandeando celulares em Constance, ajudando Blair a alimentar os patos ou então fazendo aquele discurso lindo em seu casamento que me colocou para chorar como um bebê. Dorota, Vanya e Anastasia estarão sempre no meu coração. 

Os sonhos da Blair


Blair Waldorf é completamente apaixonada por filmes clássicos e tem na figura de Audrey Hepburn sua maior inspiração. Por isso, Gossip Girl é recheada de referências a esses filmes, que tomam forma, principalmente, nos sonhos da Blair. Normalmente eles começam com ela no  lugar da Audrey, mas, rapidamente, a situação se transforma em pesadelo, na maioria das vezes por conta de alguma interferência de Serena. Quase morri de rir quando Blair sonhou que era a versão pobre e caipira de Eliza Doolittle enquanto S. era a personagem transformada, que recitava trava línguas com desenvoltura. No 100º episódio da série, foi a vez de Serena sonhar: ela era Marilyn Monroe em Os Homens Preferem As Loiras e tinha todo o elenco masculino a seus pés, até que Blair aparece vestida de Holly Golightly e rouba a cena por completo. Outras referências clássicas que aparecem na série: A Malvada - com Blair revoltada por ter sonhado estar no papel de Bette Davies - e Tarde Demais Para Esquecer.

Os figurinos


Se tem um ponto no qual a série foi impecável do primeiro ao último episódio, este certamente foi o figurino. Desde o início, Gossip Girl se destacou pelas referências ao mundo da moda, tendo, aliás, feito moda, como as meias-calça coloridas das garotas de Constance, as tiaras icônicas de Blair e basicamente tudo que Serena usa, uma antecipação de todas as tendências que estarão nas vitrines das fast-fashions mais antenadas nas próximas temporadas. O trabalho que a equipe faz para construir os personagens através das roupas é muito bacana, tendo cada personagem seu estilo extremamente característico, o que não fica restrito à ala feminina: quer guarda-roupa mais ousado, elegante e cheio de personalidade que o de Chuck Bass, com seus ternos extremamente bem cortados, meias coloridas e até robes de seda?

Scheming


Todos os conflitos de Gossip Girl são gerados e resolvidos por meio de alguma armação. Desde a primeira temporada, em que o maior problema era quem daria a melhor festa da escola, até a última, com problemas tão sérios quanto tráfico de petróleo internacional, o Upper East Side não sabe sair de situação alguma sem um plano bem elaborado que envolva manipulação, gravadores escondidos e humilhações públicas revanchistas. E se as armações são o modus operandi padrão, Blair Waldorf é a rainha soberana de todos eles. Ela não mede esforços e ideias fora da casinha para conseguir o que quer, e por mais que tente deixar para trás seu passado de chefe da rígida hierarquia do colegial, o impulso de puxar o tapete de alguém de um jeito infame não sai dela. Meus momentos favoritos? Quando Blair arma para que as garotas da escola descubram que Jenny não é rica como se fazia passar, quando corta as asinhas de Georgina dizendo que é a única crazy bitch do pedaço ou então quando, cinicamente, joga dentro de uma taça um pen-drive contendo informações que poderiam ferrar sua melhor amiga. Melhor  que isso só mesmo quando todo o elenco se junta para salvar Serena de alguma enrascada, o que não é coisa rara. Não há nada de tão ruim que algum deles não tenha feito pior, e como a própria Gossip Girl afirma, quem tem esse tipo de amigos não precisa de exército algum. 

B. & S.


Blair e Serena vivem às turras desde o primeiro episódio, mas, ao mesmo tempo, elas formam um dos melhores casais de todos os tempos. Se aquiete querido leitor que já se pôs a pensar bobagens, não é nesse sentido que falo: a dinâmica das duas personagens é tão boa que por mais vezes que uma tenha puxado o tapete da outra, é impossível não acreditar na amizade delas. Sempre choro muito quando, ainda no início da série, Blair lê para Serena a carta que lhe escreveu logo quando a outra foi embora sem dizer nada: as duas foram criadas por famílias malucas e instáveis nas quais não podiam se apoiar, tendo restado para elas o colo uma da outra, com quem sempre podem contar. A admiração que elas tem por suas amigas é tanta que muitas vezes gera uma insegurança gigantesca e o medo de que a outra brilhe mais, o que leva ou a tramas absurdas que quase fazem a gente perder a fé nessas duas, ou então coisas bem engraçadas, como aquela vez em que Blair empurrou Serena dentro da fonte. De um jeito ou de outro, e independentemente de qual seja o final, B. e S. serão sempre as rainhas malucas do Upper East Side e reinarão pra sempre no nosso imaginário, imponentemente sentadas nos degraus mais altos da escadaria do Met. Ok, a Serena um pouquinho mais embaixo. 

Blair e Chuck





O melhor casal, os melhores personagens. Blair e Chuck muitas vezes carregaram o seriado nas costas, sendo a única motivação para muitas pessoas continuarem acompanhando a série. Todo mundo quase caiu da cadeira naquela primeira cena dos dois na limusine, achando o par mais improvável do mundo, enquanto víamos nascer, na verdade, aquele que muito provavelmente é meu casal favorito no universo das séries. Sim, isso significa estar acima de Seth e Summer. Digo isso porque vivi o amor visceralmente, tendo questionado quando nem eles sabiam o que estava acontecendo, e sofrido demais quando ambos relutavam em admiti-lo, assim como vibrei tanto ao primeiro eu te amo dito em voz alta (five words, eight letters) que parecia que Chuck Bass dizia aquilo para mim e não para sua rainha. Blair e Chuck são fantásticos porque se amam demais (I love you, Chuck Bass, I love you so much it consumes me), aceitando o que há de melhor e também o que existe de mais podre em cada um deles (We have the same holes in our hearts). Chuck é talvez o personagem mais bem escrito da série, tendo começado como um cara super errado e insensível, enfrentado seus monstros e renascido na figura do grande herói justiceiro que, vale dizer, nunca fica chato. Blair, por sua vez, é o tripé que o mantém firme, assim como ele é pra ela, e é por isso que juntos eles são uma fortaleza, uma explosão de amor, doçura, graça, e um pouco de pimenta. Porque ela é a rainha e ele, queridos leitores, ele é Chuck Bass. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O fim de Gossip Girl: 4 coisas que odeio

Semana que vem vai ao ar o último episódio de Gossip Girl. Ever. A série estreou em setembro de 2007, e eu estava lá acompanhando o primeiro de todos. Quando Gossip Girl foi ao ar pela primeira vez esse blog nem existia. É muito tempo de sangue, suor e lágrimas ao lado da galerinha da pesada do Upper East Side. Durante esse tempo, nem tudo foram flores. Aliás, acho que só não abandonei o seriado nas várias vezes que tive oportunidade porque tenho um apego absurdo pelos personagens. Tão absurdo que embora tenha dito várias vezes que não via a hora da série acabar por não suportar mais o que os roteiristas estavam fazendo com meus pobres meninos ricos favoritos, já sinto um vazio enorme por conta do fim. 

Roubei descaradamente o formato de post usado pela Rafinha na sua despedida da saga Crepúsculo para tentar dividir com vocês um pouco do que foram esses quatro anos. No post de hoje, as quatro coisas que mais odiei ao longo da série e, semana que vem, quando for ao ar o derradeiro episódio, juntarei os caquinhos do meu coração para dizer as coisas que mais amo naquele universo maluco. (segunda parte)

Plot twists que não fazem sentido


Entende-se por plot twist uma mudança inesperada na direção de uma história. Tipo quando a mocinha descobre que é irmã da sua maior inimiga e filha bastarda do amor da sua vida. Gossip Girl tem isso aos montes, alguns muito bons e outros extremamente ridículos. Infelizmente os absurdos acabam se sobrepondo em número, talvez num gesto desesperado por audiência que acaba tendo como resultado a descrença do telespectador. Porque de tanto a gente se surpreender, chega num ponto que nada mais surpreende, se é que isso faz algum sentido. Uma mudança repentina no curso da história só é bem sucedida se é coerente com a espinha dorsal da trama. No caso de Gossip Girl, o roteiro tem mais furos que um queijo emmental.

Tramas paralelas super chatas


O núcleo principal de Gossip Girl é composto pelo grupo de Serena, Blair, Chuck, Dan e Nate e acho que eles conseguem arrumar confusões o suficiente para umas cinco temporadas. A série acompanha também a história de suas famílias, muitas vezes entrelaçadas com os problemas dos personagens principais, mas nem sempre. Acho que uma das melhores sacadas dos roteiristas, por exemplo, foi excluir por completo o clã Van Der Bilt da trama, porque eles eram demais de chatos. Quem se importava com eles, além do Nate? Aliás, depois da segunda temporada, quem se importa com o Nate? Infelizmente a família de Serena não teve a mesma sorte, e o que aconteceu foi um casal super querido, que teria um desfecho perfeito em forma de casamento ministrado pela Kim Gordon, acabou se perdendo em mil mentiras e picuínhas. Lily e Rufus, que saudade de vocês!

Vanessa Abrams



Preciso fazer uma ressalva e dizer que, embora eu odeie a Vanessa, acho ela uma peça importante no seriado. Tanto que, depois que ela saiu, Gossip Girl padeceu de uma séria falta de vilões de verdade, e isso, para quem assiste, se traduziu em vários vilõezinhos picaretas que nos encheram de tédio. Mas isso não diminui a raiva que eu sinto dessa mulher. Minha querida amiga Carol uma vez definiu-a com perfeição: como respeitar uma personagem que entra na série pela janela, já atrapalhando um amasso entre um dos casais que a gente adora? Porque essa é a principal função da Vanessa: atrapalhar. Quando tudo vai bem, ela vai lá e estraga tudo. Georgina Sparks também adora chutar o balde, o que diferencia as duas é o argumento. Georgina é movida pelo anarquismo e seu amor à manipulação e causaria, enquanto Vanessa o faz, supostamente, por razões humanas. Porque ela odeia tudo que o Upper East Side representa e mimimi olha o que eles fizeram com você, Dan, enquanto, na real, a gente sabe que é tudo recalque. E eu nunca vou superar o fato dela, além de já ter ficado com o Chuck na série, ter namorado o Ed Westwick na vida real por um tempo. Mágoa eterna.

Os romances da Serena

Mas amiga, você diz isso de todos!
Serena Van Der Woodsen, como bem destaca Dan, é a rainha do daddy issue. Por ter sido abandonada pelo seu pai quando ainda era criança, S. se agarra a relacionamentos, muitas vezes errados, para suprir a carência da infância. Isso faz com que seja impossível levar seus namoros a sério, porque ela sempre arranja alguém, diz que é o amor da sua vida e que nunca foi tão feliz e plena como naquele momento, até, claro, no episódio seguinte, ela encontrar outra pessoa, ou reencontrar um amor antigo, e jogar tudo pro ar. Ela já rodou tanto pelo elenco que não tem como levar seus romances a sério. Não é pelo fato de ela pegar todo mundo, mas sim porque, sempre que faz isso, ela age como se fosse o último. Sempre torci para ela e pelo Dan e morria de amores pelos dois nas temporadas iniciais, mas o encanto já acabou. O mesmo com o Nate. Na primeira temporada havia um clima muito intenso entre eles, até que a paixão foi completamente banalizada e quando eles finalmente ficam juntos, a sensação que fica é de que ele é só mais um.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Transformando uma piada interna em algo de proporções estratosféricas

Não sei como é a relação que vocês tem com seus amigos mais próximos, vai saber se vocês são muito maduros e contidos e vão achar tudo isso uma maluquice, mas minha relação com meu grupo de amigos é, na maior parte das vezes, uma zoação eterna. A gente vive de tirar sarro um da cara do outro e de se atormentar e provocar a todo tempo, e foi nesse contexto que surgiu a Gossip Girl.

A Carol é uma daqueles pessoas que toda turma tem que ter: de língua afiada e maldade inata, ela é aquele elemento do grupo que sempre bota lenha na fogueira e o tipo de pessoa que teria a ideia de começar a enviar mensagens no celular de todo mundo com 'spotteds' difamadores envolvendo todo o pessoal em situações absurdas e mortalmente engraçadas. Assim, a Rinna que tinha uma queda por um cara da academia que nunca ia na aula, virou rapariga apaixonada por um caminhoneiro e eu, que nunca suportei meu professor de Literatura, virei seu affair secreto.

Antes de continuar a história, um parágrafo sobre o professor de Literatura que aqui chamaremos de Professor: ele nos deu aula no primeiro e no segundo colegial; no primeiro ano, eu não o suportava, mas gostava das aulas, e no segundo eu não suportava nem um nem outro. Minha antipatia por ele era tão forte que durante as aulas eu ficava visivelmente irritada, bufando, virando os olhos, e minhas amigas ficavam me observando ter arroubos de antipatia como uma atração à parte. O Professor era daqueles que, do nada, começam a falar sobre sua vida pessoal, experiências amorosas, e juro que não era interessante. E ele também entrava numas, vez ou outra, de ficar profundo e incorporar o palestrante motivacional e nos enchia com filosofias de RH enquanto deveria estar dando aula. Era tipo a morte. De modo que, óbvio, não demorou muito pra Carol começar a falar que essa birra toda nada mais era que paixão recolhida, dor de cotovelo, e que eu, secretamente, era apaixonada por esse Professor.

Um belo dia, o Professor resolve passar um trabalho em que deveríamos apresentar, de forma ~criativa~, um conto do Machado de Assis. Meu grupo resolveu fazer uma adaptação teatral de Dona Paula, e eu era a personagem que dá nome ao conto. No dia da apresentação, fomos caracterizados, e eu usava um vestido longo verde e um lenço florido da mesma cor amarrado como um xale. No fim da peça, o Professor me fez o favor de elogiar o vestido e pronto, a Gossip Girl logo soltou a bomba de que nós dois tínhamos um affair secreto.

Naqueles dias, a Gossip Girl estava com a corda toda, e em praticamente todos os horários o celular de todo mundo tocava com novas pérolas da inventiva mente de Carolina, indo desde festas da camiseta molhada em Ibiza organizadas pela nossa amiga mais CDF até a revelação de que o Matheus havia falido e tinha sido pego roubando uma loja do shopping, que nem a Marissa em The OC. As mensagens chegavam, as pessoas riam, mas no horário seguinte tudo era esquecido. Mas nós estamos falando de mim. Quando a Gossip Girl soltou que eu tinha sido vista com o Professor no dia dos namorados na fila do Hot Dog do Paulão - como o nome revela, um local um tanto peculiar -, a coisa se tornou um viral. Todo mundo achou sensacional, todo mundo riu horrores, todo mundo tinha uma situação nova pra colocar a pobre Anna Vitória de vítima. Eu tentei reagir, tentei mandar mensagens com coisas cabeludas envolvendo o nome de dona Carolina, mas não foi o suficiente. Novamente, estamos falando de mim, e poucas coisas parecem ser tão divertidas quanto rir da minha cara.

E aí que a história dura até hoje. Virou piada interna. Na última mensagem da Gossip Girl, ela disse que nós dois havíamos sido flagrados tendo aulas de tango para apimentar a relação, já que andávamos distantes porque eu tenho estudado muito, ele não me dá aula mais, e agora estamos em prédios distintos na escola. Me divirto com toda essa história também, e fico pasma com a capacidade dos meus amigos de pensar e criar bobagens a qualquer hora do dia, sobre qualquer situação. O problema é que essa história do Professor já é tão rotina que muitas vezes falamos disso perto de outras pessoas que não do nosso grupo e elas ficam confusas. As pessoas me olham curiosas, perguntando se eu tenho uma quedinha por ele. Claro que ninguém acredita no ~affair~, mas me sinto mal o suficiente sabendo que as pessoas podem achar que eu gosto-gosto do referido.

Aí que nesse fim de semana eu saí pra comer pizza com uns amigos e nesse grupo estava irmã de uma amiga minha, que estuda na mesma escola que a gente, mas num prédio diferente, sem nunca ter tido contato meus amigos linguarudos e muito menos com a perigosa da Carol. Falávamos sobre os professores de Literatura, e eu dizia que preferia, disparado, o professor que me dá aula esse ano. A irmã da minha amiga, que é minha amiga também,  me olhou meio confusa e perguntou: "Ué, mas você não gostava do Professor?".

Em outras palavras, passaram-se três anos e eu continuo na boca do povo. Mais um pouco eu viro lenda urbana do colégio. Gostaria de agradecer a todos os envolvidos.

(Como se soubessem que eu estava escrevendo a respeito, hoje, Matheus e Carolina atacaram mais uma vez. Cheguei em casa, abri o Twitter e dei de cara com esse simpático diálogo. Essa edição porquinha foi feita no Paint só pra evitar possíveis dores de cabeça. É pra ler de baixo pra cima, ok?)