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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Amor platônico nº13

Para ler ouvindo:


Encontrei no Tinder uma paixão platônica da (pré?) adolescência. Ele tinha 17 anos, barba, cara de bobo, óculos de aro grosso, tocava baixo e usava tênis de skate. E eu, aos 13, já tinha um tipo. 

No último dia de aula dele resolvi fazer algo a respeito: durante a minha aula de educação física, antes do recreio, fui até a mesa em que ele sentava com os amigos todos os dias durante o intervalo e escrevi com corretivo: FULANO, CASA COMIGO?

Eu e minha melhor amiga ficamos atrás de uma árvore observando a repercussão da minha travessura: ele morreu de vergonha, ficou rindo sem graça (fofo!), e provavelmente foi zoado pelos amigos até o fim do dia. Eu mal conseguia parar em pé de tanto rir. Minha juventude foi maravilhosa.

Contudo, encontrar o Apertável (era assim que nos referíamos a ele) só serviu para comprovar, de novo, minha teoria de que as pessoas que são bonitas demais na adolescência estão fadadas a embarangar na vida adulta, como uma espécie de compensação cármica pela vantagem de conseguir ser atraentes às sete da manhã com uniforme de escola. 

Nem o Apertável escapou do universo, esse justiceiro. 

Dei like mesmo assim. Alguns segundos e: "It's a match!". Oito (!) anos depois finalmente tive minha resposta, agora posso seguir com a minha vida. 



> Seria uma anedota perfeita, pena que não é verdade. O que aconteceu foi que minha vergonha venceu minha curiosidade da primeira vez, e eu fechei o aplicativo antes de dar o like. Depois pensei que poderia render um post, afinal tenho tamanho compromisso com meus leitores #jornalismo #sério passei literalmente duas horas procurando pelo menino. Achei ele faz três minutos e estou aqui esperando pelo meu match, mas como esse blog trabalha com a verdade até o fechamento dessa edição ainda me encontro não tão escondida assim atrás da árvore, me sentindo meio ridícula.  Eu queria que minha vida fosse uma comédia romântica justamente porque ela não é. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A minha é Corvinal - foi mal?

Eu cresci ouvindo que tinha que ser inteligente. Não era algo opressivo (nem sempre), mas estava ali. Meus pais me criaram pra ser inteligente. Não um gênio ou um prodígio, mas simplesmente boa naquilo que eu fizesse - fosse caligrafia, o A B C, tabela de multiplicação, história, português, vestibular e qualquer profissão que eu escolhesse. A escolha por uma faculdade de jornalismo não emocionou muito meus pais que sonhavam com uma médica ou uma diplomata, mas eles não deixaram de me apoiar por isso, só pediram que então eu fosse a melhor jornalista que eu pudesse ser.


No começo era fácil, e até a oitava série consegui tirar de letra isso de ser boa nas coisas. Como a Analu escreveu no blog dela esses dias, eu fui uma criança e tanto, e logo aprendi que "se eu tinha um charme nessa vida, era esse. Eu era inteligente. Eu conseguia fazer as coisas. Eu era aprovada em tudo o que eu me predispunha a fazer." Até que (sempre tem um até que) a coisa começou a desandar. Fui pra uma outra escola no ensino médio, uma escola grande, e lembro até hoje da primeira devolutiva das provas que fizemos. Não lembro detalhes, mas foi mais ou menos assim: se antes minha menor nota era 8, dessa vez a maior tinha sido um 7,5. Tirei o meu primeiro vermelho. Chorei de soluçar na frente de todo mundo e a professora parou a aula pra ir conversar comigo, porque humilhação pouca é bobagem. Eu tinha falhado. Como ia explicar aquilo pros meus pais?

À noite, meu pai me levou pra comer um sanduíche e conversar. Ele disse que aquilo não era o fim do mundo, mas não passou a mão na minha cabeça: disse que era normal estranhar no começo e que agora em diante eu tinha que me esforçar um pouco mais e logo pegaria o ritmo. O que eu senti foi como se o meu melhor, que antes tinha garantido que eu fosse, se não a primeira, pelo menos a segunda ou a terceira da turma, agora custava a me colocar na média. 


É verdade que eventualmente me acostumei ao ritmo da escola e minhas notas melhoraram bastante, mas nunca mais fui a melhor. Me garantia nas humanas, passava sempre raspando em física e matemática, estudava química e biologia feito uma maluca. Quando o boletim chegava no fim do bimestre, sempre acontecia um troço meio chato que era eu ter que explicar por que continuava tirando 6 em algumas matérias sendo que minha única obrigação na vida era estudar. Se era difícil pros meus pais entenderem que tinham coisas que a menininha inteligente deles não dava conta, que tinha um limite ali, se eles lutavam pra aceitar essa quebra de expectativa,  imagine como era pra mim. No começo eu sofria, chorava, adoecia, e ia atrás de plantões e professores particulares, mas depois aprendi a não ligar tanto assim. Fui criando uma rejeição a esse ideal de perfeição, ao estereótipo da garota inteligente melhor em tudo, coloquei a culpa no sistema - eu era realmente muito boa em culpar o sistema.

Escrevi um comentário num post da Sharon sobre cinema dizendo que eu adorava cinema e música quando era mais nova, e sonhava em ser crítica quando crescesse. Só que em determinado momento percebi que eu sabia demais e me divertia menos com as coisas, então comecei a investir meu tempo consumindo aquilo que me divertia e com o que eu me identificava. Não que eu não me divertisse com o cânone, muito menos que as coisas divertidas sejam ruins, mas cês entendem a diferença simbólica de Jurassic Park e um filme do Godard, né?

Era uma vida confortável essa de abraçar as imperfeições e a diversão depois de tantos anos me preocupando em ser e melhor em tudo - e depois sofrendo por nem sempre (quase nunca) chegar lá. Era um alívio. Eu estava muito feliz com essa identidade que construíra pra mim mesma, via isso como um ato de amor próprio e, ao mesmo tempo, rebeldia. De garota chata fã de Radiohead que passava dois dias chorando por conta de uma nota 5, eu agora lia livros adolescentes sem pedir desculpas, e dava risada das minhas notas ruins (gargalhei quando tirei meu primeiro zero? gargalhei) dançando Shakira. A vida era boa.

Até o dia que eu fiz o teste do chapéu seletor no Pottermore e descobri que era uma corvinal.


Querido leitor, se você não se importa com Harry Potter e acha isso demodê por favor dê meia volta e saia já daqui , fique sabendo que uma coisa importante sobre mim é o fato de que eu levo cultura pop a sério e acho que esse tipo de coisa diz muito sobre quem somos. Antes de fazer o teste, eu queria muito ser da Lufa-Lufa. Minha nova postura diante do mundo era totalmente lufana, eu queria fazer parte dessa galera gente boa, parceira, de coração bom e que mora perto da cozinha. 

Corvinais são famosos por sua inteligência, mas dizem as más línguas que são arrogantes. Eles querem ser os melhores em tudo e tiram seu valor disso, representando basicamente tudo que eu lutava com tanta força pra tirar de mim. Normalmente acontece o movimento contrário: as pessoas querem ser corvinais (ou grifinórios), se revoltam quando se descobrem lufanos, e depois abraçam a personalidade despretensiosa e gentil dos texugos. Tudo que eu queria era ser relax e gente fina, mas sou essa pessoa pilhada e megalomaníaca, que quer tudo certinho e pira num livrão. Eu não queria ser essa pessoa, me devolve minha sala comunal perto da cozinha porque tenho certeza que lá as pessoas estão ouvindo Taylor Swift fazendo uma ciranda e aqui nessa torre estão me obrigando a fazer um teste de aptidão, SOCORRO!!11 

Minha revolta durou o tempo necessário para ler a carta de boas vindas, porque de repente eu estava chorando e me sentindo muito abraçada (eu me importo com essas coisas mesmo, e você que é feio?). Com aquela mensagem, descobri que corvinais tem essa coisa de ser espertos, mas o mais importante é que eles são únicos e até meio excêntricos, e celebram a individualidade de forma criativa ou investindo em novas descobertas. Corvinal é a casa de pensar fora da caixa, inventar moda e questionar o status quo. De gente que às vezes pensa demais, mas que não tem nada de errado com isso. Ler aquela carta naquele dia me mostrou que aquilo que fazia com que eu me sentisse chata e diferente poderia, sim, ser o meu charme. 

spirit animal
A obrigação de ser infalível já me machucou muito, e a autocobrança é algo com que eu tenho que lutar todos os dias, o tempo inteiro. Preciso constantemente me lembrar de que tudo bem errar e não ser sempre a melhor. Preciso fazer força pra ser leve e correr atrás de uma folia na cozinha. Mas existe, e sempre existiu, muito de mim nessa personalidade cabeçuda. Se eu não tirasse uma realização muito genuína nos estudos, acho que as expectativas dos meus pais jamais teriam grudado com tanta força. Elas ficaram porque eram minhas também, desde sempre e eu tenho redescoberto elas agora que voltei a estudar.

Não que eu tivesse parado, mas só agora fazendo minha monografia que voltei a ter uma rotina pesada de estudos. Porque eu escolhi um tema tão difícil que nem eu sabia explicá-lo (sério, eu tive que pedir ajuda pra um professor explicar pra mim mesma o que eu queria com meu projeto) (eu ainda não sei explicar direito, por isso não vou fazer isso agora), e vou usar o método mais complexo por aí. Existiam mais o menos uns 6485 jeitos de fazer isso de forma mais fácil, só que eu escolhi a difícil. Não por ser difícil, mas porque senti aquela coceirinha de me desafiar a fazer algo grande, que me assustasse na mesma medida que me fascinasse. 

Li esses dias na newsletter da Isa Sinay (recomendo muito) um troço que me identifiquei muito profundamente: 

"Eu, embora ame muitas coisas na vida e não ame meu trabalho todos os dias, sou o tipo de pessoa que sim, se realiza no que faz profissionalmente. Mas mesmo assim foi algo muito libertador quando eu percebi que essa era eu, mas não todo mundo. Porque se realizar em algo é muito mais sobre se encontrar naquilo, sobre aquilo aplacar uma ambição e uma vontade em você. A minha vontade se satisfaz nas pessoas que eu ensino e na construção de raciocínios longos e complexos sobre coisas que a princípio não interessam a ninguém. Eu me sinto feliz nas horas infinitas que eu tenho passado lendo sobre um assunto tão pouco agradável quanto o Holocausto. Eu até quase me sinto feliz nas horas que tenho passado estudando sobre história do hebraico. No entanto, mesmo no tédio, mesmo no "mddc, não quero saber sobre mudanças sintáticas no período pós-exílio da Babilônia" eu estou satisfeita com as minhas escolhas, algo meu está em casa ali."

Não estou estudando nada tão complexo como o Holocausto, muito menos a história do hebraico, mas são coisas que me fazem vibrar por dentro, é uma felicidade quase idiota, porque ainda estou na fase de me ferrar muito e acho que vai ser assim até no final. Mas está ali, gritando pra mim. Tão alto que às vezes fico com medo de me transformar numa acadêmica delusional que define a si mesma e aos outros de acordo com o lattes ou o quanto essa pessoa sabe de Foucault. Já gastei muito caractere e saliva falando contra o modelo acadêmico das coisas, pregando que é muito mais ser divertido e produzir identificação do que ser formalmente bom. Odeio gente arrogante e pretensiosa, metida a inteligente, e odiaria me transformar em alguém assim, mas ao mesmo tempo tô aqui lendo Hegel e achando o máximo e orgulhosa por estar conseguindo produzir algum raciocínio em cima disso.

Tenho problemas?

Provavelmente esse textão não fez o menor sentido pra vocês, mas hoje li esse texto incrível na Pólen sobre aceitação lufana (quão ótimo é escrever para uma revista que trata com seriedade esse tipo de tema?) e ele me fez pensar sobre minha aceitação corvinal, e sobre como nas últimas semanas tenho feito as pazes com a Anna Vitória CDF que eu fui um dia - ou nunca deixei de ser, só estava ali batendo papo na cozinha com os elfos.

Foi essencial pra minha sanidade jogar pra cima a obrigação de ser boa em tudo, que fazia com que meu entusiasmo pelas coisas fosse oprimido por esse imperativo de ser perfeita. Igualmente necessário tem sido redescobrir aquela chama da empolgação, e escrevo isso hoje pra não me esquecer dela: não me importo se for a mais inteligente, tirar a nota mais alta ou fazer o melhor trabalho, contanto que ao final dele eu tenha feito o melhor no que seja melhor pra mim. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Os meus clássicos de Sessão da Tarde


Talvez seja um pouco sádico falar de Sessão da Tarde justamente na semana de volta às aulas, mas se serve de consolo eu também não estou em casa de pernas pro ar assistindo televisão. Embora não tenha mais tantas tardes livres, sou uma espectadora apaixonada da melhor faixa de filmes dublados de todos os tempos e sou muito fã do conceito muito específico de filme-de-sessão-da-tarde: eles são divertidos, despretensiosos, e sempre deixam aquele quentinho no coração quando acabam - um quentinho que remete a férias, fim de tarde, misto quente, ou aquela gracinha gostosa que o universo às vezes proporciona de você chegar em casa, sentar cansada no sofá e descobrir que ainda dá tempo de pegar o final de Dirty Dancing (e chorar como em todas as outras vezes). 

Vocês sabem que eu tenho uma dificuldade enorme de fazer listas curtas e objetivas, então acho importante frisar que não estou falando dos clássicos universais da Sessão da Tarde, mas os meus clássicos pessoais, que acabam sendo influenciados pela ~minha época~ e é por isso que eu nunca vi Os Goonies. 

     01. Convenção das Bruxas


Quando era criança, eu não tinha medo de monstros, nem de fantasmas, nem de vampiros ou de lobisomens. Eu tinha medo de bruxa. Na verdade, era um medo misturado com fascínio, porque ao mesmo tempo que elas me davam pesadelos, eu me sentia atraída a tudo quanto é livro ou filme que tivesse uma bruxa no meio. Convenção das Bruxas é meu favorito porque ele consegue transitar de forma sutil entre o medo e o entretenimento, nunca sendo aterrorizante além do ponto, pra desencorajar, e nem infantil demais pra não causar um pavorzinho gostoso sempre que a Anjelica Houston tira aquela máscara. Até hoje, vendo filmes de terror, vou atrás daqueles que fazem com que eu me sinta como o menino Luke ao encontrar a primeira bruxa (MELHOR CENA) na rua de sua casa: com a espinha gelada, mas sem conseguir parar de olhar.

     02. Elvira, a Rainha das Trevas


Você percebe que veio ao mundo pra ser gótica na vida quando para pra pensar que aos nove anos de idade fingiu ter dor de barriga na escola só pra não perder Elvira na Sessão da Tarde. Queridos leitores, que filme, que mulher. Elvira é um daqueles filmes certos e errados numa medida que só os anos 80 conseguiram produzir, sendo politicamente incorreto e inapropriado pra crianças (eles jamais deixariam isso ir ao ar no meio da tarde hoje em dia), mas ao mesmo tempo um filme de formação muito importante: Seria Elvira meu primeiro ícone feminista? Teria eu noção de toda a crítica ao falso moralismo da sociedade americana implícita no filme? Nunca consegui achar ele pra alugar e nem pra comprar, mas minha vizinha da época tinha um VHS com o filme gravado (!) e acho que se em 2003 um gênio da lâmpada me concedesse três desejos, um deles seria ter essa fita pra mim.

     03. Matilda


Matilda é um filme que marca a primeira vez que eu realmente me senti conectada a uma história de forma profunda e pessoal. A solidão, o deslocamento, o amor pelos livros, a sensação de finalmente encontrar sua turma, o amor por Miss Honey, o completo horror à Senhora Trunchbull, gritar "Bruce! Bruce! Bruce!" em casa torcendo pelo garoto gordo e seu bolo de chocolate, a vontade de dançar junto com Matilda e os objetos voadores, enfim... muitas emoções compartilhadas. É um filme tão querido e mágico que o livro no qual ele é inspirado, escrito pelo Roald Dahl (que também escreveu o livro no qual Convenção das Bruxas é baseado!), acaba sendo um pouco decepcionante e repetitivo. 

     04. Dirty Dancing


Eu tinha mais ou menos uns 12 anos quando minha mãe me chamou na sala e disse que ia começar na Sessão da Tarde o filme favorito dela quando tinha a minha idade. Dirty Dancing já não passava com tanta frequência assim, e foi minha primeira vez com o filme. Gente. GENTE. Eu definitivamente não estava pronta: um filme cheio de descobertas, amadurecimento, conflitos, rodopios e tensão sexual de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Fiquei extasiada, maravilhada, fascinada, obcecada, e mesmo tendo o DVD em casa, sempre assisto quando está passando, e sempre choro emocionada com a dança final (enquanto danço na frente da televisão). 

     05. Um Dia Especial


Esse filme não é só favorito de Sessão da Tarde, como é facilmente um dos meus preferidos da vida. Às vezes tenho a impressão que sou a única pessoa no mundo que gosta dele, porque nunca vi ninguém falar a respeito, ele não está em nenhuma lista dos melhores filmes dos anos 90, e eu só me pergunto: POR QUÊ? É uma comédia romântica. Com o George Clooney. E a Michelle Pfeiffer. Pra mim eles são tipo Meg Ryan e Tom Hanks versão underground, sabe? São tantas cenas antológicas e incríveis, como aquela em que a Michelle Pfeiffer sobe num carro embaixo da chuva pra procurar a filha do George Clooney, ou quando ela suja a blusa e é obrigada a ir pra uma reunião importante com uma camiseta de dinossauro, ou a que ela se apronta correndo pra impressioná-lo, ou aquela troca dos celulares, ou quando os dois ficam perguntando um pelo outro disfarçadamente pras crianças, ou quando o George Clooney brinca de fantoche com a filha, ou o beijo deles no final, que é um dos melhores beijos de todas as comédias românticas (pena que não existe vídeo!): "Don't bite", "I won't". 

     06. 12 Mile Road


Esse é outro filme que tenho a impressão que sou a única pessoa no mundo que gosta, mas ele passou esse ano no dia do meu aniversário (!) e vi que mesmo depois de anos ele continua incrível. A história tem tudo que eu mais gosto: dramas familiares, adolescentes rebeldes, adolescentes grávidas e mudanças de vida desencadeadas pela vida no campo. Além disso tem o Tom Selleck, e nossa, como eu gosto do Tom Selleck. Tem também a Anna Gunn, de Breaking Bad, sempre incompreendida, sempre maravilhosa. E a Shannon, de Lost, é a protagonista, mas a gente passa o filme todo querendo dar na cara dela (mas também se apega). A cena do Tom Selleck e a ex-mulher desatolando uma vaca com roupas de festa é o tipo de coisa que eu nasci pra assistir. 

     07. De Repente 30


O que sentir ao perceber que um filme que você viu no cinema já é um clássico contemporâneo de Sessão da Tarde? Felicidade. Sério, não dá pra se sentir velha quando existe a possibilidade de um dia você chegar em casa e poder ver De Repente 30 dublado na TV. Existe algo de plenamente reconfortante em ver filmes dublados na televisão. Não importa quantas vezes eu veja esse filme, sempre vou sentir as mesmas coisas: identificação com a Jenna querendo crescer e depois o desespero com o rumo que sua vida tomou; amor, muito amor, amor pleno pelo personagem do Mark Ruffalo e aquela cena dos dois juntos no balanço; dor e compreensão na cena que ela vai pra casa dos pais chorar abraçada com eles ao som de Vienna; euforia e gostosas gargalhadas no momento antológico de thriller. E, claro, amor profundo pelo Mark Ruffalo. Já disse isso? De Repente 30, melhor filme. Te amo Jennifer Garner.

     08. Lua de Cristal

TRUE ROMANCE
Impossível falar de Sessão da Tarde sem falar dos filmes antigos da Xuxa. Eu esperava ansiosamente pela divulgação da programação de férias porque julho só fazia sentido se eu soubesse que em algum dia Lua de Cristal fosse passar na TV. Xuxa (ou Maria da Graça, se preferir) é a nossa Cinderela brasileira, e tem Sérgio Mallandro como príncipe. O SÉRGIO MALLANDRO É O PRÍNCIPE. Brasil, único país possível. Além disso, a música tema se tornou um grande hino de amizade, amor e esperança para as nossas vidas, e se você nunca perdeu a voz depois de cantar essa música no karaokê chorando com suas amigas, coloque isso já na lista de coisas para fazer antes de morrer.

     09. Nunca Fui Beijada


Josie Geller forjou o meu caráter. Depois de ter tido um ensino médio que foi um circo dos horrores, Josie tem a chance de voltar a escola como aluna infiltrada - a diferença que agora ela é uma jornalista formada na Northwestern que está trabalhando numa matéria sobre ~o que pensam os jovens~. Tantas coisas maravilhosas acontecendo, tipo ela usando as referências do que era cool nos anos 80 e pagando micão com os jovens dos anos 90, ou a volta que ela dá por cima ao enfiar seu irmão no jogo e, pela primeira vez, ser a garota popular do colégio, futura rainha do baile, prestes a dar o primeiro beijo (!!!) no rei. Será??? TANTAS COISAS! A trilha sonora desse filme é extremamente maravilhosa, com dois momentos inesquecíveis: a amiga nerd dançando Please Please Please Let Me Get What I Want com o Zé Bonitinho da escola e Don't Worry Baby tocando enquanto ela espera seu primeiro beijo. Momentos.

     10. 10 Coisas que Odeio em Você


ALL THINGS 90'S!!!111 Revi esse filme semana passada, fazendo companhia pro Pedro, que estava assistindo pela primeira vez. Quando terminou e eu vi ele sem conseguir parar de sorrir, me senti honrada e orgulhosa, porque eu cresci com esse filme. Primeiro queria ser a Bianca, pra depois amar a Kat, e então amar a Kat e a Bianca do jeito que elas são. Pelo menos umas 3 agendas minhas tinham o poema 10 Coisas que Odeio em Você copiadas e eu achava genial demais a sacada dela dizer que odiava ele por não conseguir odiá-lo. Nem um pouco. Nem por um segundo. Nem mesmo só por odiar. Ai. E ainda tem a o Heath Ledger cantando. E a Julia Stiles é tão maravilhosa, né? Sem falar que tem Letters to Cleo na trilha e fazendo ponta, e a roupinha de baile da Bianca, que é absolutamente sensacional. É tudo tão divertido, espirituoso e anos 90 que meu coração quase explode. Amo demais.

> Essa é a primeira de algumas postagens coletivas que eu e minhas amigas da Máfia bolamos para ajudar nessa cilada que é o BEDA, então vocês podem ir nos blogs das respectivas mafiosas para ver os filmes favoritos delas: Analu, Sharon, Couth, IralinhaPaloma e Rafinha (e Ana Flávia também, que adotamos no meio do caminho);
>> A ordem da lista é totalmente aleatória - só Convenção das Bruxas é realmente meu grande favorito dentre todos esses;
>>> Deixei de falar de alguns filmes que apareceram na minha lista dos melhores filmes teen dos anos 2000.
>>>> A ausência mais gritante dessa lista, claro, é Curtindo a Vida Adoidado, o maior clássico de Sessão da Tarde de todos os tempos. Ele só não está aqui porque eu vi o filme pela primeira vez em DVD (!) e não na televisão, e ~na minha época~ ele já não era tão clássico assim. Mas ele figura no meu top 5 filmes favoritos da vida e não é à toa que está no meu layout. Save Ferris!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Filmes que eu amava quando era jovem

Acho que desde que criei esse blog (!) venho postergando uma lista dos meus filmes teen favoritos. Já falei em outras oportunidades que esse provavelmente é meu sub-gênero favorito do cinema e um dos principais motivos para esse post nunca ter saído é que a lista seria gigantesca e eu sempre me torturaria lembrando daqueles que ficaram de fora. São sete anos de blog, vocês já aprenderam que objetividade não é comigo. No entanto, depois desse último post da Paloma e motivada por essa minha adolescência tardia, fiquei com um impulso irresistível de elencar não os Meus Filmes Adolescentes Favoritos de Todos os Tempos, mas pelo menos os que eu gostava quando era... pré-adolescente. 

Ou seja, Meus Filmes Adolescentes Favoritos dos Anos 2000, dessa era de ouro aí:

Capa icônica da Vanity Fair com a realeza teen do início dos anos 2000: praticamente todos os PSD's usados nos layouts da época vinham dessa capa e das fotos dentro da edição - inclusive vários meus
A minha adolescência, na verdade, foi a fase que eu mergulhei em filmes europeus obscuros e clássicos em preto-e-branco de 1936. Foi uma boa fase, juro, mas muito melhor foram meus 11, 12 e 13 anos, a fase de todos os sábados ir na locadora pegar os mesmos filmes e passar a tarde rindo com as amigas comendo leite condensado com Toddy, porque a gente tinha preguiça demais pra fazer brigadeiro. A gente sonhava com ensino médio, sapatos de salto, perder o BV e tinha sérias discussões sobre quem era melhor: Lindsay Lohan ou Hilary Duff? (team Lilo, SEMPRE). 

Querido leitor, bem-vindo a 2005.

      12. Garota Veneno 


Esse é um daqueles filmes que eu jamais veria de novo, porque tenho certeza de que ele, na verdade, é horrível. Sei lá, olhem esse gif. O trope de troca de corpos fez muito sucesso no início dos anos 2000, então temos lá a rainha do baile, Rachel McAdams pré-Regina George, que um dia acorda na pele do Rob Schneider, que faz papel de bandido. Barra. É um pastelão que me divertia horrores com seu sofisticado senso de humor, e que era até revolucionário pro seu tempo, já que a melhor amiga da protagonista, interpretada pela Anna Faris fazendo o que ela faz de melhor (papel de burra), se apaixona pela Rachel na pele do bandido e elas (eles?) tem um #momento ao som de You Get Me. Aliás, por onde anda a Michelle Branch? E o Rob Schneider?

      11. Tudo que uma Garota Quer  


Antes de qualquer coisa, vamos acender uma vela pela saúde e pela sanidade mental da Amanda Bynes. Amiga, volte para nós. 

Esse é outro filme que eu tenho um pouco de medo de reassistir e descobrir que ele não é tão bom quanto nas minhas lembranças, ainda que tenha Amanda Bynes e Colin Firth no elenco. No filme, ela descobre que o pai é um lorde, duque, sei lá, e vai atrás dele pra descobrir suas origens, criar laços, descobrir quem é de verdade, etc. Aquela história. Chegando lá, obviamente o pai está noivo de uma mulher nada a ver, que tem uma filha nada a ver, rola um choque cultural, ela causa muito nos eventos da realeza e tem uma cena maravilhosa em que Daphne participa de um desfile de moda da nobreza usando calça jeans e regata branca, e grita THANK YOU LONDON! antes de cair da passarela. Ok, talvez eu veja esse filme de novo hoje mesmo. 

      10. Quatro Amigas e um Jeans Viajante


Todo mundo já ouviu falar da história das quatro amigas que encontraram uma calça jeans que serve perfeitamente nas quatro, ainda que elas tivessem corpos bem diferentes. Elas usam a calça para se manter de certa forma unidas num verão que passam separadas, e falando assim você pensa que é só mais uma história sobre quatro garotas diferentes que são amigas mesmo assim e um jeans realmente sujo. No entanto, além de ser uma história realmente ótima sobre amizade e vários exemplos positivos de sororidade, de repente não mais que de repente, o filme fica muito intenso e mega emocional, e lá está você chorando horrores vendo Sessão da Tarde pela trigésima vez, porque como superar Tibby e Bailey? Obs.: Blake Lively antes do nose job, que momento. Quem diria que Bridget, a garota que jogava futebol, digievoluiria para Serena Van Der Woodsen?

      09. Aquamarine


Sinto que um filme que envolve duas amigas que encontram uma sereia refugiada na piscina de casa não precisa de muitas justificativas que deem conta de como ele é maravilhoso. São amigas, sereias e romances de verão, com Jojo e Emma Roberts tão jovens que deviam colocar papel higiênico dentro do sutiã, a receita perfeita pro sucesso. A sereia que elas encontram é uma maluca obcecada pela ideia de se apaixonar, e elas tem que colocar juízo na cabeça da moça ao mesmo tempo que aproveitam o último verão juntas na cidade antes de uma delas se mudar pra sempre. Não lembro muito do filme, mas esse é outro que sempre me faz chorar no final. 

      08. Lizzie McGuire - Um Sonho Popstar


Eu não tinha Disney Channel em casa nessa época, então não conhecia a série da Lizzie McGuire antes de assistir o filme. Aliás, só fui descobrir que Lizzie McGuire was a thing quando entrei no mundo dos blogs. Antes disso, achava que só era um filme obscuro da Hilary Duff que eu tinha achado na locadora. Não que seja muito mais que isso, a diferença é que em 2006 a blogosfera era composta pelo tipo de gente que encontrava filmes assim na locadora. Na história, a turma da Lizzie McGuire viaja pra Roma (eu fui pra Caldas Novas na minha formatura, bjs) e ela meio que topa fingir que é uma popstar italiana, já que as duas se parecem muito, a original está sumida, e o italiano gatinho da scooter tem shows a fazer. Tipo, normal, né? Essa é a mágica dos filmes adolescentes: zero plausibilidade no mundo real. E agora eu e você vamos ficar até semana que vem cantando HEY NOW! HEY NOW! THIS IS WHAT DREEEEAMS ARE MADE OF!

      08. No Pique de Nova York


Eu amo as gêmeas Olsen. Muito. Amo até hoje, mesmo elas tendo largado o cinema pra serem mendigas góticas fashionistas com casacos de pele de verdade - queria ser contratada pra segurar a cauda do vestido delas, sabe? Se não me engano esse foi o último filme que as duas estrelaram juntas depois de preencher os anos 90 com todos os filmes possíveis com confusões entre gêmeas. Nesse, duas irmãs com personalidades opostas tem que começar a se entender pra sobreviver em Nova York, vivendo incríveis confusões e sendo perseguidas pelo Eugene Levy. Eu choro de rir só de lembrar da Roxy fazendo o discurso na ONU e citando a Avril Lavigne, e outra referência importante é que o Simple Plan começou a fazer sucesso depois de aparecer nesse filme. #respect

Vocês eram a Ashley ou a Mary-Kate? Sempre fui Mary-Kate até os ossos. #talifã

      07. Menina Mimada


Vários filmes dessa lista fazem parte de um nicho que aprecio muito, que é o dos filmes-horríveis-que-são-maravilhosos, o que não é nenhum demérito. No entanto, por incrível que pareça, Menina Mimada é bom de verdade - tanto que é o único dessa lista que eu assisti pela primeira vez com mais de 15 anos. Na história, Emma Roberts é uma patricinha mimada (cê jura) que recebe o castigo de ter que ir estudar em um colégio interno na Inglaterra. Chegando lá, seu plano é aprontar horrores pra ser expulsa o mais rápido possível e voltar pra casa, mas no meio do caminho ela descobre amizades maravilhosas e um gatinho com sotaque que dirige conversível - e apronta horrores com a ajuda deles. Os bonding moments com as migas do internato são os melhores e amo a mensagem que ele passa sobre a importância de se ter migas e estar do lado delas pra todas as ciladas. Além disso: Emma Roberts, amo tanto que nem sei. Quer ser minha miga?

      06. Sexta-Feira Muito Louca


Eu avisei que roteiros sobre troca de corpos estavam em alta nessa época, e esse filme é o melhor exemplar da espécie. Mãe e filha que vivem às turras amanhecem numa fatídica sexta-feira em corpos trocados, e o que a gente ganha com isso é uma Lindsay Lohan em um de seus melhores momentos, uma Jamie-Lee Curtis fantástica, gostosas gargalhadas e um drama familiar que inevitavelmente me faz chorar. Além disso, é um filme da Disney e sua cota de cantoria obrigatória vem por meio da bandinha emo e gótica da personagem da Lindsay, e as duas melhores músicas dela vem desse filme: Take Me Away e Ultimate. Trivia: na época meu blog se chamava Princess Anna, e meu primeiro layout personalizado tinha uma foto da Lindsay Lohan e um midi-player que começava a tocar Take Me Away automaticamente. Me amem. 

      05. O Diário da Princesa


A Anne Hathaway é uma das minhas pessoas favoritas do mundo, e nossa história começou aqui. Com Mia Thermopolis se descobrindo princesa da Genóvia aos 16 anos e tendo que aprender sobre etiqueta, chefes de Estado e peras enquanto sobrevive ao colegial, é sabotada pelas inimigas, administra seus amigos à sua nova vida e ainda por cima se apaixona por Michael Moskovitz (CRUSH ETERNA). Nunca cheguei a terminar a série de livros e confesso que tenho medo de lê-los e descobrir que eles não são tão bacanas como eu me lembro. Prefiro deixar quieto e guardar comigo a lembrança gostosa da época de abraçar esses livros, acreditar que essa é a melhor história do universo. Foi o primeiro DVD que ganhei, exaustivamente assistido, e num "curta" que gravamos pra um trabalho de escola eu reencenei o momento que Mia joga sorvete na Lana. Juro. #momentos

      04. A Nova Cinderela


Eu nunca superei A Nova Cinderela, tampouco pretendo. O filme é uma adaptação moderna de Cinderela, onde ela e o ~príncipe~ são amigos virtuais e se conhecem apenas pelo nickname, num mundo sem redes sociais onde era possível trocar mensagens com uma pessoa da escola sem saber quem ela é. Os dois se encontram num baile à fantasia, lógico, e vivem um super #momento, ele sem saber quem é ela, ela sem poder dizer quem é, vocês conhecem a história. A trilha desse filme toca até hoje aqui em casa e ele passou com folga na prova dos quinze e dos vinte. Os anos vão e ele continua maravilhoso - o Chad Michael Murray (CRUSH ETERNA) também. 

      03. Meninas Malvadas


Eu falo tanto de Meninas Malvadas por aqui, as pessoas falam tanto de Meninas Malvadas em todos os lugares, que sinto que estarei sendo redundante em qualquer coisa que disser sobre ele. Vocês já sabem. Meninas Malvadas provavelmente é o que Curtindo a Vida Adoidado foi pros adolescentes dos anos 80, ao captar aquele espírito de uma geração, principalmente para as meninas. O filme fala sobre conflitos entre garotas, picuinhas e humaniza de forma honesta e bem-humorada nossas amigas & rivais da escola. É um filme necessário e ainda por cima MUITO engraçado, com a melhor dublagem em português da história, o sucesso do Dubsmash é uma prova viva disso. Se os anos 2000 fosse uma garota de 15 anos e resolvesse tatuar alguma coisa escondida dos pais, tatuaria SO FETCH na lombar.

      02. Legalmente Loira


Esse filme é o único da lista que não é necessariamente adolescente, mas está aqui porque Elle Woods foi um dos meus primeiros role models da juventude. Muitas pessoas pensam que Legalmente Loira é um filme fútil sobre uma patricinha que vai pra Harvard atrás do namorado, mas na verdade ele é um filme realmente genial sobre uma mulher que decide mostrar que é mais do que as pessoas pensam dela e que, se ela quiser, ela pode, sim, ir estudar Direito em Harvard e ser sensacional fazendo isso. Eu repetia pra quem quisesse ouvir que quando eu crescesse eu também ia estudar Direito em Harvard e chegar lá com minha caneta de pompom sem me importar com o que os outros dissessem porque, com 11 anos, minha vida era basicamente assim - com a diferença de que não era Harvard, mas o ensino fundamental.

Desde então a Reese Witherspoon é uma das minhas pessoas favoritas de Hollywood, por ser assumidamente feminista, por seus ótimos filmes e por seu trabalho como produtora. Reese fundou a Pacific Standard com o intuito de produzir filmes com personagens femininas que pudessem servir de modelos, heroínas ou que simplesmente tivessem boas histórias. Ela fez isso pensando na filha de 13 anos e foi a empresa dela que viabilizou Garota Exemplar e Wild.

      01. Crossroads


Também conhecido como o filme-da-britney-spears, Crossroads conta a história de um trio de amigas de infância que acabam seguindo rumos diferentes, mas que se unem novamente no dia da formatura do ensino médio pra desenterrar uma caixa de lembranças, tesouro que elas tinham escondido anos antes. No dia seguinte, cada uma com seu motivo, as três embarcam juntas numa road-trip com cara de cilada pra Los Angeles e o resultado não podia ser mais maravilhoso. Elas cantam I Love Rock'n'Roll no karaokê pra arranjar dinheiro pra gasolina, fogem com o carro cantando If It Makes You Happy e tem um dos melhores bonding moments da história do cinema ao compartilhar umas com as outras seus medos e angústias dos últimos anos. E sim, esse também sempre me faz chorar. De soluçar. De verdade, é um dos melhores filmes sobre amizade que eu já assisti.

Outra coisa ótima é que as três cresceram e acharam seu lugar no mundo, Britney encontrou 2007 no meio do caminho mas continua sendo a única Princesa do Pop possível, atual rainha de Las Vegas. Zoe Saldaña virou musa da ficção científica e Taryn Manning renasceu das cinzas pra ser a Pennsatucky, uma das melhores personagens de Orange Is The New Black. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

De repente 15

Ou: Manifesto a favor da adolescência tardia

No dia do meu aniversário de 21 anos, eu fiz um piercing no nariz. 

Eu sei que vocês são descolados e transgressores e furam piercings com uma naturalidade de quem pinta as unhas de azul calcinha, mas eu nunca fui do tipo que paga pra alguém furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro. Essa definição de piercing foi meu pai que deu, e ele repete isso diante de qualquer coisa que acontece comigo desde que fiz o piercing. Qualquer coisa mesmo.

Se o nariz coça, tava na cara né, foi pagar pra alguém furar um buraco no seu nariz e enfiar uma argola dentro, só podia dar nisso. Se estou com dor de cabeça, só posso estar de brincadeira, o que mais eu queria? Fui pagar pra furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro, agora tô com dor de cabeça mesmo, única consequência possível. Se quebro minha costela caindo da escada, era só uma questão de tempo, fui pagar (ainda não sei se o problema maior foi o piercing ou a ideia de que isso é algo que se paga pra fazer) pra furar um buraco (é muito importante a ênfase na palavra buraco e um tom de absoluto horror ao dizê-la: lê-se BURAaAaAcOoOo) no nariz e enfiar uma argola dentro, o próximo passo é perder o equilíbrio motor e da vida. 

Daí vocês já conseguem entender por que eu demorei tanto tempo pra fazer o piercing.

Foram exatamente sete anos, visto que tenho essa vontade desde os 14. Eu queria um piercing no nariz, um piercing monroe, igual ao da Amy Winehouse, e um piercing no lábio, igual o da Marimoon. Tudo que um pai pode desejar na vida é que sua menininha queira ser igual Amy Winehouse ou Marimoon, né? Eu não facilitava a vida de Patriarca Rocha, preciso admitir.

Patriarca em chamas 
Antes de ter coragem de pedir pra furar o nariz, tentei algo mais simples, uma argolinha na cartilagem da orelha, dessas que todo mundo tem. Ele nunca disse que não, mas nunca disse sim, e me enrolou por tanto tempo, com argumentos tão absurdos ("como você vai fazer quando tiver um casamento pra ir? não dá pra ir num casamento com um negócio desses na orelha" "mas pai eu nunca vou em casamento" "mas se um dia tiver que ir, como cê vai fazer???"), que fui vencida pelo cansaço e me contentei com um segundo furo na orelha. 

Foi um desastre. Aliás, o desastre do segundo furo foi a melhor coisa que aconteceu na vida do meu pai, porque depois de enfrentar uma inflamação dessas que não podia nem dormir do lado do furo senão acordava com a orelha dilacerada e o travesseiro cheio de sangue, eu nunca mais cogitei a ideia do piercing. Qualquer piercing. O segundo furo se fechou pra sempre e com ele a minha vontade de pagar alguém pra furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro.

O problema foi que eu podia até ter desistido, mas nunca tinha esquecido a coisa do piercing. Consegui superar o monroe e o do lábio, mas o do nariz me fazia sofrer. Sempre que via alguém com uma argolinha no nariz sentia vontade de chorar, abraçar a pessoa, ser amiga dela, pedir pra ela trocar de corpo comigo, etc. Era uma coisa tão bonita e eu queria tanto. Tanto tanto tanto! Mas assim, TANTO! Mesmo com quase 21 anos, eu queria aquele piercing com a obstinação adolescente de quem se dispõe a passar duas semanas na porta de um estádio pra ver um show de perto.

Aí que quando eu faço aniversário eu costumo ficar pensativa. Pensativa é um jeito bacana de dizer que eu fico dias sem dormir, pensando que estou jogando minha vida no lixo, que vou morrer amanhã e nunca fiz naaaaaada, my life is oooooooveeeeeer, nevermooooooooore. Peixes, com ascendente e sol em peixes, amores. Muitas emoções. Essa pilha errada de achar que estou perdendo partes da minha vida e deixando de viver experiências específicas da idade é uma onda que sempre bate muito forte e muito errada no meu inferno astral, e esse ano não foi diferente. O que mudou foi que pela primeira vez eu resolvi fazer alguma coisa com relação a isso.

Todo mundo de olho fechado e bracinho pra cima gritando CH-CH-CH-CH-CHANGES

Eu simplesmente pensei: por que não? Sabe, às vezes pensar por que não? é tudo que a gente precisa pra fazer a vida andar. Depois de uma pesquisa sobre o melhor lugar para fazer isso, catei um amigo que seria um bom apoio moral - mas que chutaria minha bunda se eu ameaçasse desistir - e, no dia do meu aniversário, matei aula e fui lá pagar oitenta realidades pra um moço com uns cinco furos na cara furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro. E pronto! Não doeu, não inflamou, não teve nariz dilacerado, nem travesseiro cheio de sangue. Minha mãe adorou, minha avó achou a rebeldia incrível e meu avô não viu nada diferente até agora. E meu pai, bem, ele vai superar. 

Dito assim parece pouco e talvez seja, mas essa experiência me enfiou num vórtice de adolescência tardia do qual está sendo difícil sair. Parei de ficar pensando que ain, não tenho mais idade pra essas coisas (ler com a voz da Princesa Caroço) pra perceber que a grande vantagem de voltar pros 15 anos com 21 é que você pode continuar gostando e querendo as mesmas coisas, com a diferença que agora NÃO TEM NINGUÉM PRA TE IMPEDIR. #thuglife


Semana passada, por exemplo, eu fiz uma mecha rosa no cabelo. Acho cabelo colorido uma coisa incrível desde sempre e passo horas no Pinterest vendo gente descolada de cabelo colorido por aí, mas sempre pensava: ain, não tenho mais idade pra isso, ain, não sou blogueira teen de modas, nem vou pro carnaval no Rio, ain ain ainnnn. Até o dia que cruzei com um tonalizante rosa quando menos estava esperando, e aí me fiz a pergunta mágica POR QUE NÃO? e no dia seguinte lá estava eu sem a menor ideia do que estava fazendo, pintando o banheiro, minhas orelhas, minha testa e eventualmente um fiapo de cabelo de cor-de-rosa. Gritei de felicidade quando sequei o cabelo e amei o resultado. De vez em quando é muito fácil ser feliz. 


Já na semana que vem vou ver um show da Fresno. Vocês acreditam nisso? Fiquei paralisada quando vi o evento no Facebook e em dois minutos decidi que ia de qualquer jeito, mesmo se não tivesse companhia. Fiquei até com vergonha de sair buscando, confesso que esperava ouvir um ain miga vamo superar né, mas assim que confirmei presença uma amiga já veio gritando falar comigo que queria muito ir, e no dia seguinte consegui, sem muito esforço, convencer outra amiga. Eu era muito fã da banda, mais fã ainda do Lucas e do Tavares, nos meus tempos de ema e gótica, lá em 2000-e-pedindo-quebre-as-correntes-no-rádio, e nunca tive a chance de ver um show dos caras. Daí eles vem pra minha cidade com um show cuja proposta é justamente celebrar o começo da banda e tocar os primeiros discos. Logo agora que eu tenho um piercing no nariz e uma mecha rosa no cabelo! Ainda bem que algumas oportunidades só vão embora definitivamente depois que a gente morre.

E eu não sei vocês, mas eu não tô pretendendo morrer se for pra correr o risco de ficar a eternidade vagando nesse mundão, só porque perdi a chance de pagar pra alguém furar um buraco no meu nariz e enfiar uma argola dentro. Meus novos 15 anos têm sido maravilhosos e recomendo a todos, inclusive me disponho a servir de apoio moral se for preciso ou chutar a bunda quando ameaçarem de desistir de qualquer coisa tonta e inofensiva que vocês já quiseram muito com 15 anos. 


domingo, 24 de agosto de 2014

Aqueles em que eu fiquei acordada a noite inteira

Ou: Pequeno inventário de noites mal dormidas

Quando éramos crianças, o Pedro e eu tínhamos essa obsessão que era passar a noite em claro. Todas as férias, dia após dia, a gente jurava que aquilo ia dar certo, mas ou dormíamos sem nem perceber o que tinha acontecido, ou nossa avó dava um jeito de acabar com a festa chegando muito brava no quarto e fazendo ameaças: só vai comer no McDonalds quem dormir; se eu ouvir mais um pio ninguém joga vídeo-game amanhã. Vencidos pelo sono ou pela barganha, a gente sempre chegava atrasado no nascer do sol.

EXPECTATIVAS


Aí teve a minha viagem de formatura da oitava série, a melhor viagem com a escola que já fiz na vida. Pela primeira vez na história das excursões nós estávamos sem supervisão: duas turmas de oitava série e um só professor pra monitorar tudo - professor este que levou a mulher, os filhos, e estava muito mais interessado em curtir o feriado com eles do que se certificar que estávamos indo dormir na hora certa. Contanto que ninguém morresse, perdesse um braço, ou desistisse de voltar pra casa, por ele tudo bem. 

Duas turmas de oitava série, sem supervisão, soltas num hotel. Façam as contas.

Nós viramos a noite na piscina falando besteira, e acho que só deu certo porque não foi nada combinado. Minha infância me passou a lição de que essa coisa de ficar anunciando em voz alta que não vai dormir só serve pro sono (ou pra bronca) vir com força, então é melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente. E aconteceu, porque estávamos nadando e dando gostosas risadas quando alguém percebeu que já eram quase seis da manhã e o sol ia nascer. Vimos o dia raiar e fomos tomar café da manhã numa padaria da cidade, pra só então irmos finalmente pros nossos quartos dormir o sono dos justos. 

Tão justo foi o sono que minha amiga e colega de quarto, que lá pelas duas da manhã cansou da brincadeira e foi dormir, acordou passando muito mal, vomitou a alma, e eu não consegui acordar pra ajudar. Ela joga na minha cara até hoje que teve que ir se arrastando toda verde atrás de água e remédio, correndo o risco de vomitar no corredor, porque me sacolejou, me gritou, arrancou minhas cobertas e eu não esbocei reação - e isso não é coisa que se faça. Não é mesmo e eu sinto muitíssimo até hoje, mas foi mais forte do que eu.

REALIDADE #1


Hoje esses eventos me parecem muito triviais, mas esse episódio me deu uma sensação muito boa de que eu era dona de mim mesma. Ir dormir quando eu bem entendesse ou não dormir de jeito nenhum, sair na rua ao léu atrás de um lugar pra tomar café da manhã numa cidade diferente, são coisas pequenas, mas até então esse tipo de liberdade era uma coisa que não fazia parte da minha vida, e eu gostei da novidade. Eu não estava nem com os meus amigos de sempre, e acho que o fato de eu ser a única testemunha da turma nessa noite só deixa as coisas um pouco mais, well, mágicas. 

Eu sei, é brega, mas é assim que eu me sinto. 

Poucos meses depois, foi a vez de eu virar a noite com aquela amiga que na viagem acabou desistindo no meio do caminho. Foi igualmente espontâneo: ela veio dormir aqui em casa e, conversa vai, conversa vem, de repente o sol estava nascendo lá fora. Lá pelas sete nós inventamos de assistir Elizabethtown e dormimos em cinco minutos. Mais tarde foi a minha vez de acordar passando mal, por conta de todas as coisas que fomos comendo durante a noite. Misturar Toddynho com maçã, gelatina e bolo de chocolate, tudo em doses cavalares, não foi uma ideia muito boa, e quem vomitou a alma dessa vez fui eu, e acho que no fundo minha amiga se sentiu vingada.

REALIDADE #2


E aí teve uma vez que eu perdi o sono numa véspera de prova, e lá pelas três da minhã, quando vi que eu realmente não iria dormir, eu simplesmente levantei e fui pra sala dar mais uma estudada. Matemática, sabe como é. Não sei se esse estudo extra rendeu alguma coisa, nem se eu tive cabeça pra fazer a prova direito. Só lembro que era um sábado, estava tendo churrasco em casa, e eu dormi por umas três horas deitada no chão na beirada da piscina. Meu pai jura que tentou me arrastar de lá, mas, novamente, o sono foi mais forte que eu. 

REALIDADE #3


Nessa terça, depois de anos, virei mais uma noite. O oba-oba da adolescência passou e eu percebi que dormir no mínimo oito horas é vital pra mim, principalmente se forem oito horas durante a noite. No entanto, situações desesperadoras pedem medidas desesperadas, e aquele trabalho mega chato e mega trabalhoso deveria ser entregue na quarta, e terça, às nove da noite, pouquíssima coisa estava pronta. Era um trabalho em grupo que realmente precisava ser feito em grupo, e o *único* horário que todo mundo tinha disponível era depois das nove, então lá pelas dez (depois da novela) a gente começou.

A noite foi longa. Varar a madrugada trabalhando é bem diferente de fazê-lo rindo com amigos, e eu alternava ciclos em que a sensação era de que meu cérebro ia desligar a qualquer momento com outros meio eufóricos de ficar andando pelo apartamento e falando sem parar. Tomamos café, cantamos, xingamos o professor e xingamos a nós mesmos por ter deixado a situação chegar àquele ponto, mas eventualmente acabamos. Às dez e meia da manhã, quando eu finalmente pude sossegar e dar uma encostada antes da aula, meu cérebro parecia uma caricatura dele mesmo pelo cansaço e excesso de cafeína, e até agora não sei onde arranjei forças pra ir pra faculdade, consertar erros que passaram batidos no trabalho, comer, e só depois voltar pra casa e dormir de vez.

REALIDADE #4


Apesar do perrengue e do fato de que, se eu pudesse voltar no tempo, eu obviamente faria o trabalho antes pra não ter que passar por aquilo de novo, a sensação de liberdade da primeira noite em claro se manteve ali. 

Ficar doze horas na frente de um computador é infinitamente pior do que passar esse mesmo tempo plantando bananeira numa piscina aquecida, mas as duas coisas acontecem por causa do mesmo princípio, aquele que faz com que, aos nove anos de idade, uma noite inteirinha sem dormir pareça uma coisa tão atraente: a gente faz porque não tem ninguém pra nos impedir, e isso é uma delícia.


(Na real, tomar sorvete antes do almoço (ou fazer do sorvete o próprio almoço) dá na mesma e confunde bem menos nosso organismo, mas definitivamente não rende uma história. Qual é a de vocês?)

sábado, 7 de junho de 2014

Manifesto pelo direito de ler o que eu quiser

 Eu poderia estar vendo a temporada nova de Orange Is The New Black, eu poderia estar dormindo, eu poderia estar descendo até o chão ao som de Countdown ou então terminando de ler Eleanor &amPark. Mas resolvi vir aqui defender o YA. 


Pra quem não sabe, YA é a sigla pra young adult, gênero literário supostamente voltado para jovens adultos  na faixa dos 12 aos 17 anos. Não é de hoje que esse nicho é não apenas subestimado, como também visto com um certo desdém, e essa semana saiu um artigo muito do idiota que dizia, logo no título, que adultos deveriam se sentir envergonhados de ler esse tipo de coisa. Não vou colocar o link aqui, porque agora sou dessas, mas a pérola é da revista Slate e sei que vocês são espertos, vai ser fácil encontrar - mas eu realmente sugiro que você use seu tempo vendo um clipe da Beyoncé.

Ruth Graham, a autora, argumenta basicamente que ela, uma adulta com A maiúsculo, merece mais do que a literatura jovem oferece. Porque, afinal, ela cresceu, foi promovida a gente grande, e isso fez com que a adolescente que ela foi um dia fosse rebaixada a uma esfera de existência necessariamente inferior. Isso fez também com que ela se tornasse boa, completa e complexa demais para se identificar com a experiência de um adolescente. Por isso que ela, do alto do seu pódio de Adulta, leu A Culpa É Das Estrelas com a mão no queixo, pensando que era uma história bem gracinha para jovens de 13 anos, mas que pra ela não oferecia nada mais que motivos para suspirar, revirar os olhos e exclamar "Oh brother!" a cada virada de página.

Ou seja, é uma condescendência muito da cretina, e essa visão é mais comum do que a gente imagina. À medida que crescemos, temos uma tendência a subestimar a experiência das pessoas mais novas, como se ela fosse menos importante ou não tão significativa quanto aquilo que vivemos agora. É o que nossos pais fazem quando defendemos apaixonadamente um ideal e ouvimos de volta que aquilo é coisa da idade, olha só que gracinha. É aquilo que a gente faz com nossos primos mais novos, quando eles reclamam da sétima série e a gente diz espera só até você chegar na faculdade, cê ainda não viu nada.

Acho crescer e amadurecer coisas muito importantes, só temos a ganhar com isso. A passagem do tempo é uma benção nas nossas vidas, se bem aproveitada. Acho que o importante é sempre tentarmos ser pessoas melhores do que fomos ontem. Só que eu acho também que crescer não nos autoriza a cuspir na cara daquilo que fomos, como se crianças e adolescentes vivessem experiências menos importantes ou significativas, a ponto de só merecerem uma revirada de olhos e uma risada de desdém, como se elas só fossem dignas da empatia dos seus próprios pares. Se você é uma pessoa que se acha boa demais para aprender com a experiência de alguém mais novo que você, ainda que seja para acertar as contas com aquela pessoa que você foi um dia, só me resta concordar com Allison Reynolds:

Disclaimer: contrariar essa declaração é um dos meus objetivos de vida
Trazendo a discussão pro lado literário da coisa, deixa eu contar uma história. Eu lia muito quando era mais nova, era basicamente uma das únicas coisas que eu fazia da minha vida, junto com assistir The OC e Dr. 90210. Já ganhei mais de uma vez um prêmio na escola por ter sido a aluna que mais pegou livros da biblioteca em um determinado ano. Já cheguei a ler toda a seção infanto-juvenil da biblioteca da escola. Foi logo quando zerei esse departamento, ali pelos meus 13 anos, que comecei a ler Livros de Gente Grande. Na minha época (a voz da experiência falando) a literatura juvenil não era tão forte como hoje, e eu nem conhecia muita coisa além de Harry Potter e Meg Cabot. Além disso, minha avó tem uma coleção enorme de livros que sempre foi meu sonho de consumo, e assim como a Ruth, olha só que coisa, eu não via a hora de encarar aqueles livros. 

Pulei da coleção Vagalume e do Cachorrinho Samba direto pra Machado de Assis, Eça de Queirós, Clarice Lispector, Ian McEwan e até Dostoiévski. Gostei de algumas coisas, me apaixonei por outras, e é bem provável que eu não tenha entendido nada na maioria delas, mas eu lia. Lia, sobretudo, porque eu gostava de ler e não fazia muita distinção do que aparecia na minha frente. E nesse ritmo eu fui até uns 18, 19 anos, quando comecei a ter mais contato com YAs e percebi que tinha uma deficiência séria no meu histórico de leitura, que era justamente não ter lido literatura jovem o suficiente. Foi todo um novo mundo que eu descobri e foi uma coisa que aconteceu quando eu deixei de ser o público alvo desse tipo de publicação. 


E nessa minha missão de recuperar o tempo perdido no maravilhoso mundo YA, eu li muita coisa boa. Li coisas ruins também, mas eventualmente tropeço em livros ruins desde que aprendi a ler, então suspeito que não seja um privilégio do gênero. Ler coisas como Fangirl e Nada Dramática permitiu que eu entendesse melhor a adolescente que eu fui, que é parte inexorável dessa criatura que sou hoje. Ler A Culpa É Das Estrelas me ensinou muito sobre duas das coisas que mais me assustam nesse mundo: o inevitável fim de qualquer coisa que seja, e o fato de não termos o menor controle sobre o que acontece com a gente, principalmente quando é algo ruim. E agora eu estou lendo Eleanor & Park, e tem sido uma experiência de leitura tão maravilhosa que, mesmo deitada no sofá da minha casa, eu me sinto dentro de um filme do John Hughes em que toca Joy Division sem parar.

Essas impressões podem ter a ver com escapismo, nostalgia ou simplesmente com satisfação pessoal. A nossa colega Ruth observa isso e aponta o dedo na nossa cara, nos acusando do crime hediondo que aparentemente é sentir prazer lendo alguma coisa, um tipo de prazer que não está associado à suposta honra que é consumir Grande Literatura. E eu digo: e daí? Não acho que tais características sejam sinônimos de fraqueza intelectual, e muito menos considero uma falha de caráter gostar de ler alguma coisa porque aquilo faz com que eu me sinta sinta bem. Mas para ela, literatura de verdade não pode ter personagens gostáveis e nem finais felizes, e Deus nos livre de uma literatura que seja ao mesmo tempo entretenimento. 


Shakespeare escrevia para massas de analfabetos e foi incrivelmente popular, e romances nasceram de histórias publicadas nas páginas dos jornais para entreter as pessoas. Jane Austen é consagradíssima e a maioria das seus livros tem um final feliz. E se esse tipo de desfecho é realmente um problema, talvez Ruth precise reler alguns títulos que citou no seu texto, porque eu não sei muito bem em que parte de ACEDE existe um felizes pra sempre. Holden Caulfield e Esther Greenwood, personagens de J.D.Salinger e Sylvia Plath, respectivamente, se enquadram no perfil de jovens adultos, e quando penso numa adaptação moderna de O Morro dos Ventos Uivantes, imagino um romance complicado entre o bad boy e a garota mais popular da escola. 

Estou aqui escrevendo nomes importantes na tentativa de falar a mesma língua da Ruth, de modo que fique explícito o quão reducionista e preconceituosa é sua argumentação. Mas, de verdade, acredito muito que a gente pode e deve ler o que quiser, a diferença é o que tiramos de cada experiência de leitura - seja uma iluminação sobre a condição humana ou então o prazer inenarrável que é shippar um casal como se sua vida dependesse desse enlace. Sem medo, vergonha ou culpa, a não ser que isso faça mal a alguém. A vida é muito curta para desencanarmos de Harry Potter aos 17, e eu nunca teria conhecido o John Green ou a Rainbow Rowell se tivesse me limitado à biblioteca consagrada da minha avó.

Se é que isso importa, queria esclarecer que ler YAs não me colocou numa zona de conforto literária, muito menos me fez uma pessoa acomodada. Continuo lendo Livros de Gente Grande, e ainda tem muita coisa nesse mundo que eu quero ler. E quando alguém vem me dizer que tem medo de alguma obra importante e consagrada, meu conselho é sempre o mesmo: encare-a como aquilo que ela essencialmente é, ou seja, um livro que conta uma história que você pode ou não gostar e se divirta. Memórias Póstumas de Brás Cubas sempre vai ser uma das coisas mais engraçadas que já li, e Anna Karenina é uma novela das seis deliciosa, ninguém pode negar.

A máxima de viver e deixar que leiam, ou ler sem dar satisfações, contém uma ideia muito simples que, se fosse amplamente aceita, nos pouparia um bocado de aborrecimentos. Eu poderia, inclusive, ter deixado por isso mesmo (caberia num tuíte), mas acho a discussão importante e queria muito saber a opinião de vocês sobre o assunto.


Atualização: A Tary me lembrou desse vídeo da maravilhosa Ariel Bisset, que se encaixa perfeitamente no tema. É interessante ver que o vídeo rebate diretamente vários argumentos utilizados pela Ruth Graham e poderia ser uma resposta perfeita pro seu artigo - só que foi postado há mais de um ano, o que significa que ela não foi a primeira a defecar pelo teclado o seu elitismo literário. Além disso, a Tary também postou sobre como é importante termos gostos diferentes dos coleguinhas.

E se você quiser se aprofundar nessa discussão, vou deixar três links bacanas: Não queria ter essa conversa de novo, em que minha incrível amiga Milena discorre sobre literatura jovem; Book Girls e seu mundo que é mais complicado que elas, que são mais complicadas que seus livros; esse artigo que defende, baseando-se em exemplos, que YAs podem sim ter todas as características que qualquer Livro de Gente Grande supostamente tem.