Quem primeiro me contou essa história foi minha professora de ballet, que leu a crônica pra gente ao final de uma aula. Me identifiquei de imediato com a Clarice criança, menina pobre do Recife que amava livros e não podia tê-los. Sofreu com uma tortura lenta, arquitetada pela mente ardilosa da menina ruiva e gorda, filha de um dono de livraria, que lhe prometera emprestar Reinações de Narizinho mas, dia após dia, inventava desculpas à menina que, ingenuamente, batia na porta de sua casa, na crença cega que um dia poderia conseguir o livro. Quando a mãe da ruiva descobre a crueldade da filha, imediatamente entrega o livro à Clarice e diz para que ficasse com ele o quanto quisesse. Ela, mal acreditando no que havia acontecido e querendo aproveitar com mais intensidade a experiência de ter o livro - que antes parecera tão irreal - inventava barreiras entre ela mesma e ele, fingia que o havia perdido só para encontrá-lo, "(...) fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga..."
Meses atrás, ano passado ainda, li uma coluna do Álvaro Pereira Júnior falando a respeito de um livro que ele lera e que o empolgara e surpreendera muito. Adorei o que ele escreveu sobre a história e quis aquele livro desesperadamente. Recortei a coluna do jornal, para lembrar-me de procurar pelo livro na internet, mas acabei perdendo o papel. Cabeça de vento que sou, não me lembrava nem do nome nem do autor da obra, e perdi algum tempo tentando encontrar aquela coluna publicada em algum site ou blog, mas nada. Até que no final do ano, o mesmo colunista fez sua lista de melhores do ano e adivinham qual livro foi o eleito? Aquele, que eu tanto queria ler. "One Day", de David Nicholls. Dessa vez não recortei a coluna, mas guardei todo o caderno do Folhateen e deixei aberto na minha mesa, para não esquecer. Achei pra comprar na Livraria Cultura, mas como era época de festas de fim de ano, deixei pra pedir depois do Natal, evitando aquela dor de cabeça com o caos que os Correios viram nessa época. Acabei esquecendo. De novo.
Quando estava em São Paulo, em janeiro, passei na Cultura e procurei o livro, mas eles não o tinham em estoque na loja do Bourbon, onde eu estava, só no Conjunto Nacional. Sem tempo de dar um pulinho lá, voltei pra Uberlândia sem o livro. Chegando aqui, encomendei-o, imprimi o boleto e pedi pra minha mãe pagar quando fosse ao banco. Mamãe, claro, não só esqueceu de pagar como também perdeu o boleto e não me avisou. E eu aqui, esperando feito idiota o livro chegar. Parecia que quanto mais eu não conseguia o livro, mais vontade de lê-lo eu tinha, só de pirraça. Lá fui eu novamente fazer o pedido e dessa vez dei um jeito de um mesma pagar.
Sou tão esperta que fiz o pedido logo antes do Carnaval, de modo que o feriado atrasou ainda mais a chegada do dele. Assim que a folia acabou, acessava umas três vezes por dia o site de acompanhamento de pedidos para ver onde meu pacote estava. Quando vi que havia chegado em Uberlândia e estava a caminho, uma lágrima caiu. Interfonei pra portaria do prédio mais de uma vez naquela tarde, para saber se havia chegado alguma coisa pra mim. Todo esse estardalhaço por um livro parece pouco, mas eu estava com ele na cabeça há, no mínimo, uns seis meses. E quando eu quero uma coisa a esse ponto, o de se passarem seis meses e eu não esquecer, é porque eu realmente quero muito. Na mesma noite, estava tranquila em casa assistindo My Fair Lady, quando mamãe chega com uma caixinha de papelão nas mãos, "ah, isso aqui chegou pra você, o que é?". Abri a caixinha num desespero digno de criança em manhã de Natal, e soltei um "ai meu Deus que LINDO" ao tirar o livro do plástico bolha.
Pra completar, a edição era linda. Por nunca tê-lo visto, além da arte da capa na internet, não sabia o que esperar. Se tem uma coisa que amo nos livros importados é que as edições são geralmente muito bonitas e caprichadas, por mais que o acabamento seja meio vagabundo. A capa dele era maravilhosa, com um papel especial, título em alto relevo, cores bonitas... dá licença que tenho um fetiche com edições bonitas? Li duas páginas naquela noite, precisava ir dormir mas ao mesmo tempo não me aguentava. Coloquei o livro ao meu lado no criado e acordei mais feliz ao ver que ele estava ali. Coisa boa ficar feliz por tão pouco.
E, desde então, ando me fazendo de Clarice-menina diante do seu Reinações de Narizinho, ainda mais porque, ao virar de cada página, tenho achado o livro mais empolgante, divertido e envolvente, provando que toda a espera valeu a pena. Quero muito virar todas as páginas, mas ao mesmo tempo, não quero que ele acabe. E ficamos assim, o livro e eu: leio um capítulo, faço alguma outra coisa, pego outro livro e leio mais um pouco, até que volto à ele, releio o capítulo (sou uma dessas) e quase sem ver avanço umas trintas páginas e o ritual se repete, numa mistura de ansiedade e cautela, como uma menina apaixonada que ainda não se habitou à ideia que pode beijar o primeiro namorado quando bem entender.
Meses atrás, ano passado ainda, li uma coluna do Álvaro Pereira Júnior falando a respeito de um livro que ele lera e que o empolgara e surpreendera muito. Adorei o que ele escreveu sobre a história e quis aquele livro desesperadamente. Recortei a coluna do jornal, para lembrar-me de procurar pelo livro na internet, mas acabei perdendo o papel. Cabeça de vento que sou, não me lembrava nem do nome nem do autor da obra, e perdi algum tempo tentando encontrar aquela coluna publicada em algum site ou blog, mas nada. Até que no final do ano, o mesmo colunista fez sua lista de melhores do ano e adivinham qual livro foi o eleito? Aquele, que eu tanto queria ler. "One Day", de David Nicholls. Dessa vez não recortei a coluna, mas guardei todo o caderno do Folhateen e deixei aberto na minha mesa, para não esquecer. Achei pra comprar na Livraria Cultura, mas como era época de festas de fim de ano, deixei pra pedir depois do Natal, evitando aquela dor de cabeça com o caos que os Correios viram nessa época. Acabei esquecendo. De novo.
Quando estava em São Paulo, em janeiro, passei na Cultura e procurei o livro, mas eles não o tinham em estoque na loja do Bourbon, onde eu estava, só no Conjunto Nacional. Sem tempo de dar um pulinho lá, voltei pra Uberlândia sem o livro. Chegando aqui, encomendei-o, imprimi o boleto e pedi pra minha mãe pagar quando fosse ao banco. Mamãe, claro, não só esqueceu de pagar como também perdeu o boleto e não me avisou. E eu aqui, esperando feito idiota o livro chegar. Parecia que quanto mais eu não conseguia o livro, mais vontade de lê-lo eu tinha, só de pirraça. Lá fui eu novamente fazer o pedido e dessa vez dei um jeito de um mesma pagar.
Sou tão esperta que fiz o pedido logo antes do Carnaval, de modo que o feriado atrasou ainda mais a chegada do dele. Assim que a folia acabou, acessava umas três vezes por dia o site de acompanhamento de pedidos para ver onde meu pacote estava. Quando vi que havia chegado em Uberlândia e estava a caminho, uma lágrima caiu. Interfonei pra portaria do prédio mais de uma vez naquela tarde, para saber se havia chegado alguma coisa pra mim. Todo esse estardalhaço por um livro parece pouco, mas eu estava com ele na cabeça há, no mínimo, uns seis meses. E quando eu quero uma coisa a esse ponto, o de se passarem seis meses e eu não esquecer, é porque eu realmente quero muito. Na mesma noite, estava tranquila em casa assistindo My Fair Lady, quando mamãe chega com uma caixinha de papelão nas mãos, "ah, isso aqui chegou pra você, o que é?". Abri a caixinha num desespero digno de criança em manhã de Natal, e soltei um "ai meu Deus que LINDO" ao tirar o livro do plástico bolha.
Pra completar, a edição era linda. Por nunca tê-lo visto, além da arte da capa na internet, não sabia o que esperar. Se tem uma coisa que amo nos livros importados é que as edições são geralmente muito bonitas e caprichadas, por mais que o acabamento seja meio vagabundo. A capa dele era maravilhosa, com um papel especial, título em alto relevo, cores bonitas... dá licença que tenho um fetiche com edições bonitas? Li duas páginas naquela noite, precisava ir dormir mas ao mesmo tempo não me aguentava. Coloquei o livro ao meu lado no criado e acordei mais feliz ao ver que ele estava ali. Coisa boa ficar feliz por tão pouco.
E, desde então, ando me fazendo de Clarice-menina diante do seu Reinações de Narizinho, ainda mais porque, ao virar de cada página, tenho achado o livro mais empolgante, divertido e envolvente, provando que toda a espera valeu a pena. Quero muito virar todas as páginas, mas ao mesmo tempo, não quero que ele acabe. E ficamos assim, o livro e eu: leio um capítulo, faço alguma outra coisa, pego outro livro e leio mais um pouco, até que volto à ele, releio o capítulo (sou uma dessas) e quase sem ver avanço umas trintas páginas e o ritual se repete, numa mistura de ansiedade e cautela, como uma menina apaixonada que ainda não se habitou à ideia que pode beijar o primeiro namorado quando bem entender.