domingo, 27 de março de 2011

Felicidade clandestina

Quem primeiro me contou essa história foi minha professora de ballet, que leu a crônica pra gente ao final de uma aula. Me identifiquei de imediato com a Clarice criança, menina pobre do Recife que amava livros e não podia tê-los. Sofreu com uma tortura lenta, arquitetada pela mente ardilosa da menina ruiva e gorda, filha de um dono de livraria, que lhe prometera emprestar Reinações de Narizinho mas, dia após dia, inventava desculpas à menina que, ingenuamente, batia na porta de sua casa, na crença cega que um dia poderia conseguir o livro. Quando a mãe da ruiva descobre a crueldade da filha, imediatamente entrega o livro à Clarice e diz para que ficasse com ele o quanto quisesse. Ela, mal acreditando no que havia acontecido e querendo aproveitar com mais intensidade a experiência de ter o livro - que antes parecera tão irreal - inventava barreiras entre ela mesma e ele, fingia que o havia perdido só para encontrá-lo, "(...) fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga..."

Meses atrás, ano passado ainda, li uma coluna do Álvaro Pereira Júnior falando a respeito de um livro que ele lera e que o empolgara e surpreendera muito. Adorei o que ele escreveu sobre a história e quis aquele livro desesperadamente. Recortei a coluna do jornal, para lembrar-me de procurar pelo livro na internet, mas acabei perdendo o papel. Cabeça de vento que sou, não me lembrava nem do nome nem do autor da obra, e perdi algum tempo tentando encontrar aquela coluna publicada em algum site ou blog, mas nada. Até que no final do ano, o mesmo colunista fez sua lista de melhores do ano e adivinham qual livro foi o eleito? Aquele, que eu tanto queria ler. "One Day", de David Nicholls. Dessa vez não recortei a coluna, mas guardei todo o caderno do Folhateen e deixei aberto na minha mesa, para não esquecer. Achei pra comprar na Livraria Cultura, mas como era época de festas de fim de ano, deixei pra pedir depois do Natal, evitando aquela dor de cabeça com o caos que os Correios viram nessa época. Acabei esquecendo. De novo.

Quando estava em São Paulo, em janeiro, passei na Cultura e procurei o livro, mas eles não o tinham em estoque na loja do Bourbon, onde eu estava, só no Conjunto Nacional. Sem tempo de dar um pulinho lá, voltei pra Uberlândia sem o livro. Chegando aqui, encomendei-o, imprimi o boleto e pedi pra minha mãe pagar quando fosse ao banco. Mamãe, claro, não só esqueceu de pagar como também perdeu o boleto e não me avisou. E eu aqui, esperando feito idiota o livro chegar. Parecia que quanto mais eu não conseguia o livro, mais vontade de lê-lo eu tinha, só de pirraça. Lá fui eu novamente fazer o pedido e dessa vez dei um jeito de um mesma pagar.

Sou tão esperta que fiz o pedido logo antes do Carnaval, de modo que o feriado atrasou ainda mais a chegada do dele. Assim que a folia acabou, acessava umas três vezes por dia o site de acompanhamento de pedidos para ver onde meu pacote estava. Quando vi que havia chegado em Uberlândia e estava a caminho, uma lágrima caiu. Interfonei pra portaria do prédio mais de uma vez naquela tarde, para saber se havia chegado alguma coisa pra mim. Todo esse estardalhaço por um livro parece pouco, mas eu estava com ele na cabeça há, no mínimo, uns seis meses. E quando eu quero uma coisa a esse ponto, o de se passarem seis meses e eu não esquecer, é porque eu realmente quero muito. Na mesma noite, estava tranquila em casa assistindo My Fair Lady, quando mamãe chega com uma caixinha de papelão nas mãos, "ah, isso aqui chegou pra você, o que é?". Abri a caixinha num desespero digno de criança em manhã de Natal, e soltei um "ai meu Deus que LINDO" ao tirar o livro do plástico bolha.

Pra completar, a edição era linda. Por nunca tê-lo visto, além da arte da capa na internet, não sabia o que esperar. Se tem uma coisa que amo nos livros importados é que as edições são geralmente muito bonitas e caprichadas, por mais que o acabamento seja meio vagabundo. A capa dele era maravilhosa, com um papel especial, título em alto relevo, cores bonitas... dá licença que tenho um fetiche com edições bonitas? Li duas páginas naquela noite, precisava ir dormir mas ao mesmo tempo não me aguentava. Coloquei o livro ao meu lado no criado e acordei mais feliz ao ver que ele estava ali. Coisa boa ficar feliz por tão pouco.

E, desde então, ando me fazendo de Clarice-menina diante do seu Reinações de Narizinho, ainda mais porque, ao virar de cada página, tenho achado o livro mais empolgante, divertido e envolvente, provando que toda a espera valeu a pena. Quero muito virar todas as páginas, mas ao mesmo tempo, não quero que ele acabe. E ficamos assim, o livro e eu: leio um capítulo, faço alguma outra coisa, pego outro livro e leio mais um pouco, até que volto à ele, releio o capítulo (sou uma dessas) e quase sem ver avanço umas trintas páginas e o ritual se repete, numa mistura de ansiedade e cautela, como uma menina apaixonada que ainda não se habitou à ideia que pode beijar o primeiro namorado quando bem entender.



22 comentários:

  1. Nossa Anna, nem lembro quanto tempo faz que eu não passo por aqui, você como sempre, cada vez melhor (: Amei muito o novo lay do teu blog, ficou muito muito fofo! Adorei o texto :*

    ResponderExcluir
  2. Ah, como compreendo essa sensação! Embora esteja triste porque agora eu sou imune a algo que eu amava - cheiro de livro novo!

    ResponderExcluir
  3. Eu fiz isso com meu Harry Potter e as relíquias da morte, alguns anos atrás, quando ele foi lançando. Estava lendo um livro da Meg Cabot que meu avô tinha me dado. Fui com meu pai no shopping, olhei aquela vitrine lotada de Harry Potters, entrei na livraria, me agarrei no meu exemplar como se fosse a coisa mais importante do mundo. Quando cheguei em casa, terminei o da Meg Cabot, e peguei o Harry no colo. E acho que demorei uma meia hora pra abrir, porque peguei, fiz carinho, virei, li a parte de trás umas 3x.. E era bem assim. Eu lia um capítulo, fechava, pensava, fazia carinho.. hahahahaha. Eu queria muito ler, mas não queria que acabasse. Mas lá pelo meio dele já não tinha mais jeito. A história ficou muito viciante, e eu acho que na madrugada que eu terminei eu li umas 150 páginas de uma vez, hahaha.
    Nossa, falei demais! Mas foi só pra dizer que eu te entendo completamente. Mas to precisando arranjar um livro que me seja tão precioso assim, de novo.
    Beijos!

    ResponderExcluir
  4. Anna, adoro seus posts. São sempre sobre coisas do dia-a-dia mas você faz com que elas sejam incríveis e deliciosas de serem lidas! Também sou assim com livros, tenho fetiches com capas. Como disse a Ana Lu no comentário acima, também fiz isso com Harry Potter e as reliquias da morte. Enfim, amei. O seu layout tá lindo lindo, beijão :*

    ResponderExcluir
  5. Anna, vc tá escrevendo cada vez melhor! Sério! Parabéns!

    ResponderExcluir
  6. Eu também tenho um pouco disso, principalmente com livros. Fico enrolando, leio pouco...até que vejo que tá acabando e me dá um desespero. Dá uma bela tristeza, viu!

    ResponderExcluir
  7. aaahhh, eu tenho vontade de ler esse livro! um amigo meu me passou uma resenha muy curta num blog há alguns meses, e eu anotei mentalmente que tinha me interessado mas nunca comprei porque decidi esperar pela tradução. em que pé você tá da leitura? :) conta alguma coisa quando tiver terminado! você viu que vai ter filme? não conheço a história, mas achei escolha do elenco muito digna hihihihihihi

    ResponderExcluir
  8. aai, que legal!
    tive disso com harry potter 7, quanto mais perto do fim mais eu ficava com vontade de ler, mas sem querer que acabasse.
    adoreei o post!

    ResponderExcluir
  9. Acho que nunca fiz isso com livro nenhum. :x
    Mas faço isso com séries! :D
    Faça uma resenha do livro depois, Anna!

    Beijo

    ResponderExcluir
  10. Eu sempre acabo me identificando com os teus posts! Fiz isso com todos meus livros do Harry Potter, principalmente com o último que eu não queria que acabasse nunca. Também fiz isso com alguns livros da Marian Keyes, porque né, eles são ótimos.
    Enfim, sempre que pego um livro com uma história muito boa vou adiando ao máximo o término dele.
    Coisa de gente louca. hahaha
    Beijo Anna.

    ResponderExcluir
  11. É um desespero querer algo e não ter de imediato. Acaba tornado-se uma situação frustrante, mas em compensação a espera cria uma expectativa gostosa, e quando a realidade supera a expectativa, melhor ainda. Gostei da dica, vou ler o livro. Beijos.

    ResponderExcluir
  12. Ahhhh, que lindo!!! Mas ao contrário de vc, eu já devoro o livro, fico muito ansiosa pra saber a história toda...rs. Esperamos pela resenha! ;)

    beijos!

    ResponderExcluir
  13. Ah Anna...!
    Quando me viciei em Jane Austen, passei a adquirir todas as edições que encontrava. Nisso, só de Orgulho e Preconceito, já tenho nove.
    Adoro edições importadas também, são mais especiais. E livros orientais, já viste? Um luxo só.
    Beijão.

    ResponderExcluir
  14. A história de amor entre uma menina e o livro de edição bonita kkkk

    Também me identifico bastante com a Clarice, já perdi a conta de quantos livros custei a conseguir e a enrolar para o prazer que eles proporcionavam durar o maior tempo possível!

    bjs :*

    ResponderExcluir
  15. Ahaha! Lembro que eu era bem assim quando criança e assinava gibis da Mônica... Quando eles chegavam, eu ficava racionando páginas pra não acabar muito rápido. Quando cresci, perdi isso, acho que porque sempre li livros bastante longos. Acho que ainda tenho isso com meus mangás... Mas, a emoção de receber coisas via correio continua a mesma, adoro!

    ResponderExcluir
  16. ADOREI o conto "Felicidade Clandestina" e me identifiquei muito com ele. Sou dessas também que tenta adiar e adiar um livro, mas quando dei por mim, já o devorei por inteiro. É claro que depois de algum tempo, eu o releio. Mas é tão bom ter um livro que a gente esperou tanto tempo pra ter, né?

    Beijos!

    ResponderExcluir
  17. Engraçado, que ao decorrer desse lê não lê eu fico alimentando expectativas sobre a história. É um ciúme sistemático e uma vontade de entrar no mundo da história, fazer do meu gosto! Ah...Desculpas a todos que gostam de esportes radicais, nada me trouxe mais animação e adrenalina do que terminar um bom livro! E o que é melhor, sem sair do chão!

    ResponderExcluir
  18. Que texto mais lindo!!! E que aflição de espera!!!
    Acabei de deixar o recado pra vc lá no FB sobre a música da Mallu Magalhães, que eu não paro de escutar (!) e que lembro de você porque é a tua cara. Parei tudo oque eu estava fazendo e vim ler teu blog... finja que eu não estou tão ausente... e se lembrar que estou, me perdoe, você bem sabe os motivos. Seu blog é um antídoto que serve pra eu sonhar um pouco...
    beijos!

    ResponderExcluir
  19. Oi, Anna,

    Adorei seu texto! Passei por isso com "O conto do Amor", do Contardo Calligaris. Adoro as colunas dele na Folha e fiquei com um pouco de medo de o livro não ser tão bom quanto eu esperava. Fui ler apenas uns dois anos depois que ele lançou e gostei muito. Agora é ter coragem para comprar o novo, que é fininho e sei que vou ler naquela angústia de saborear com medo que acabe logo, rsrs

    Bjs

    ResponderExcluir
  20. Entendo você totalmente. Sou apaixonada por livros e consigo ler 400 páginas em um dia só, porém, há livros que eu gosto tanto e aprecio tanto lê-lo, que enrolo e demoro a ler só para a história não acabar de vez e eu ficar com aquele vazio interior. Sem falar os livros que quando acabo de ler, leio novamente.

    ResponderExcluir
  21. Eu comprei esse livro mas não tive oportunidade de ler, ele é numero 8 da minha lista.

    ResponderExcluir