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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ode a Harry Styles

É uma verdade universalmente desconhecida que quando descobri o One Direction eu achava todos meio feios.

gente o Louis hahahaha
Como era preciso tomar uma decisão, elegi o Harry como meu favorito porque ele era o que tinha o cabelo menos ridículo e o sorriso mais adorável. O bom de ser fã de boyband é que a situação capilar é um critério completamente plausível para se avaliar alguém, e eu me encontrei nesse fandom porque respeito muito gente que leva cabelo a sério. 

Escolher o seu membro favorito de uma boyband é uma decisão equivalente ao vestibular. Aquilo vai moldar seu destino pra sempre e você pode até mudar de ideia depois, mas não sem antes encontrar dúvidas e crises existenciais pelo caminho. Fiz a minha escolha baseada num punhado de cachos e duas covinhas, e era com eles que deveria prosseguir.

isn't she lovely?
Foi um caminho tortuoso que nos trouxe até aqui (you and me got a whole lotta history etc): a voz estranha do período da puberdade, a fase crítica do cabelo crescendo, o episódio das tranças que eu prefiro fingir que nunca aconteceu, e muitas (MUITAS) tatuagens equivocadas. Fui tentada no meio do caminho, mas resisti todo esse tempo sem vender minha alma por um par de óculos (oi Niall) ou experimentar do fruto proibido de Zayn Malik.

Mas como diz a Bíblia Sagrada, aquele que perseverar será salvo. Então isso aconteceu:

oh

my

GOD

perdão, me excedi um pouco aqui
Hoje já é uma verdade universalmente conhecida que Harry Styles é o cara de 20 e poucos anos mais bonito do mundo. São os olhos, aquele queixinho, a voz rouca, o impecável senso estético, e aquele cabelo tão bonito que tenho certeza que várias marcas de condicionador sonham em tê-lo como garoto propaganda. Só porque atingimos peak Harry Styles em 2016 - em 2015 eu disse que tínhamos chegado em seu ápice, em 2014 também, de modo que acredito que ele vai explodir o universo em mil pedacinhos com sua beleza ali pra 2020 - não significa que a jornada só teve pedras no caminho. Nós nos divertimos bastante. Eu não trocaria ela por nenhuma outra.


De 2010 pra cá, Harry Styles se tornou um dos popstars (popstars?) mais interessantes e importantes (!) do momento. Me perdoem por ligar o raio problematizador num dia que deveria ser só de fangirling e celebração, mas preciso falar sobre esse modelo de masculinidade que o Harry propõe através de suas escolhas na moda e sua postura no geral. Com inspiração óbvia e declarada no Mick Jagger e no David Bowie, Harry ousa cada dia mais, tanto no tapete vermelho como na vida real. Ternos com estampas florais, camisas de seda com estampas variadíssimas (todas delicadas, elegantes, exóticas e gloriosamente abertas), lenços no pescoço, colares, anéis, calças justas (muitas vezes femininas), flores e borboletas rabiscadas pelo corpo.

Harry brinca o tempo inteiro com papéis de gênero - coisa que pouquíssimos caras com a mesma visibilidade que ele se atrevem a fazer - e incorpora vários trejeitos femininos. Cruza as pernas, dança como mulher no palco, é explicitamente carinhoso com outros homens e costuma falar sobre relacionamentos de forma neutra. Harry me fez pensar muito sobre o discurso da Emma Watson na ONU: embora eu concorde que ela deveria ter usado o alcance da plataforma para falar de questões mais urgentes e relevantes para o feminismo no momento, o efeito do machismo nos homens é um tópico a ser conversado. Fiquei pensando nisso principalmente depois de viver dois episódios em que dois caras tiveram uma reação completamente ridícula e desproporcional por medo de perderem suas carteirinhas de macho. Um deles se sentiu ameaçado por uma festa. O outro por uma... música. Só tem viado aqui. Isso é coisa de boiola.

Enquanto isso, no reino encantado de Harry Styles...

 ¯\_(ツ)_/¯
Na urgência de negar qualquer característica feminina (sempre vistas como algo negativo), homens são impedidos de demonstrar vulnerabilidade (algum dia vou parar de falar sobre isso?), rejeitam todo traço de comportamento que remeta às mulheres, e precisam reafirmar constantemente sua condição de Homem. Isso se reflete na forma como eles se relacionam consigo mesmos, com os outros, com as outras, podendo se estender inclusive para as roupas. Além de nociva, é uma cultura chata para caramba.

É por isso que o Harry surge como um sopro gostoso e necessário de criatividade e ousadia, um ponto de alívio num mainstream cheio de egos masculinos que precisam se reafirmar constantemente, validando um modelo único de representação que na maioria das vezes é agressivo e pouquíssimo gentil com as mulheres - ainda que eles tenham cara de bom moço. Calma, caras. Ser homem não é só isso. Ou melhor, ser homem não é isso. Essa é a mensagem de Harry Styles pra vocês.

QUE HOMEM
E já que estamos no assunto, uma anedota interessante. Na edição mais recente da minha newsletter (olha o clickbait aí gente), contei o caso de um cara que de início muito tinha me impressionado. A gente se paquerou por uns dias, mas acabamos nos desencontrando em algum ponto entre Uberlândia e Curitiba. Foi aniversário dele e, apesar de enterrada qualquer chance de romance num futuro próximo, decidi ser fofa e desejar parabéns pro moço. O clima entre a gente era sempre de muitos risos e piadinhas, de modo que pra mim mandar a icônica canção "22", da minha guia espiritual  e melhor amiga famosa Taylor Swift, fazia todo sentido do mundo na minha cabeça. Ele estava fazendo 22 anos e o que mais eu posso desejar numa ocasião assim além de que ele seja happy-free-confused-and-lonely-in-the-best-way? Pois é. Como resposta, recebi a seguinte frase: meio boiola pra mim, não acha?

 Enquanto isso, no reino encantando de Harry Styles...


I rest my fucking case. Por ora, só me resta dizer: feliz aniversário, Hazza. Que você possa sempre ser happy-free-confused-and-lonely-in-the-absolut-best-way. Eu fiz umas contas aqui e acho que a gente pode ser perfeito um pro outro. Me liga quando descobrir a mesma coisa.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Prazer, Sandy






Não sei direito como começar esse texto. Não é que eu não saiba o que escrever, mas são tantas coisas que não sei muito bem por onde começar. Na verdade, foi mais ou menos assim que essa história começou (de novo): estava ouvindo música de um jeito displicente, fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo, quando o modo aventura do Rdio começou a tocar uma música da Sandy.

Soube logo de cara que era ela porque não é um tipo de voz que não se identifica logo de cara, mas todo o resto me pareceu estranho. "Eu mudei o meu cabelo. Me tatuei, troquei de carro e de amor. Tenho alguns bons amigos e ainda me sinto tão só". O lirismo da voz de princesa da Disney estava ali, inconfundível, mas ainda assim. Quem é essa pessoa? Voltei a música, ouvi de novo e de novo, até que de repente não estava mais fazendo um milhão de coisas, apenas uma: ouvindo o cd da Sandy.


Parece bizarro isso, mas a sensação que tive durante a meia horinha que dura Sim foi que estava recebendo a Sandy no meu quarto, e que ela estava sentada na minha cama com as pernas cruzadas, descalça, encostada na parede, me contando onde esteve nos últimos anos. E eu ouvia, fascinada, aquela mulher de 30 e poucos anos me contar que se acha jovem pra ser velha e velha pra ser jovem, e que toda a vida que ela achava que tinha pra viver aos 20 e poucos de repente se tornou curta e rápida pra tudo que ela queria viver.

Foi como reencontrar uma melhor amiga de infância com quem não se fala há muitos anos e querer ser amiga dela de novo. A Sandy foi meu primeiro ídolo, a primeira pessoa que eu quis ser que não fosse minha mãe ou minha avó. Eu imitava as roupas e o corte de cabelo, tinha os produtos licenciados e minha fase riponga mística começou, obviamente, por causa do seu papel em Estrela Guia. Foi com o Diário da Cristal que comecei a ler sobre signos, numa época em que eu colecionava pedras bonitas, queimava incensos em casa (pro horror dos meus pais) e usava anel nos dedos dos pés. A Sandy era como aquela prima mais velha, perfeita aos olhos deslumbrados da garota que queria ser exatamente daquele jeito. Igual. Perfeita. Talvez até demais.


A Sandy era perfeita demais, muito Sandy. Certinha, simétrica, meiga e correta, sempre com aquela cara de quem tem um Bom Ar acoplado na bunda (perdão pela imagem mental). E o problema é que - surpresa! - eu sempre fui assim meio Sandy na vida, ou pelo menos foi nessa caixa que sempre tentaram me colocar. Sem nem perceber (ou querer) eu tinha mesmo ficado igual a ela, pelo menos aos olhos dos outros. Não sei se é pela voz de criança, a introversão, sei lá: sempre fui a meiga, a garota certa e quieta, que nunca faz nada de errado, não se exalta e nem sai da linha. Ou pelo menos era (é?) assim que as pessoas me viam (veem?).

Nunca me identifiquei com nada disso, sempre me incomodei com a expectativa equivocada que isso gera a meu respeito, porque ao mesmo tempo, de um jeito muito louco, sentia (sinto?) uma necessidade irracional de fazer jus a essas expectativas. É por isso que sempre gostei de fazer tudo certinho, por isso que morro de medo de errar, é por isso que a vida às vezes me apavora. A vida não é certinha e racional, acontecem coisas e nem sempre temos controle sobre elas. Nem sempre temos controle sobre a gente e isso não precisa ser uma tragédia. Pelo menos é o que eu venho tentando dizer pra mim mesma nos últimos anos, num exercício custoso e diário de dizer mais sim do que não, de saltar e ir, ainda que com medo.

Porque uma hora a gente supera, né? A gente se supera. Ainda bem. Não que seja fácil, mas eventualmente a gente chega lá. A Sandy, pelo menos, chegou. Chorei horrores ouvindo "Sim", completamente desavisada do efeito que a música teria sobre mim. "Eu disse sim pro mundo, eu disse sim pros sonhos e pra tudo que eu não previa", era a fase de revisões finais do livro, o fim de um processo que me virou do avesso, meses inteiros dormindo e acordando abraçada com um monstro que sussurrava todos os dias pra mim que aquilo era loucura, que eu não era o suficiente. "Eu disse sim pra tudo que eu podia, e eu podia mais do que eu sabia" ao ouvir isso, desmontar era a única opção. Porque era isso, sabe? Eu tinha acabado de escrever um livro, que eu jamais imaginei que eu pudesse escrever. E se não fosse o livro, poderia ser outra coisa. Todos os sins que me doem tanto o tempo inteiro, mas que na maioria das vezes, ao final do processo, me cobrem com uma certeza de que é possível ser muito mais do que imagino.


As pessoas sempre tentaram desesperadamente enfiar a Sandy nessa caixinha de Sandy, mas ela continuou sendo a Sandy - só a Sandy - esse tempo inteiro. Quando disse pra revista que aos 16 anos ainda não tinha beijado, ou quando confessou, anos depois, que fazia terapia (numa época em que fazer terapia não era tão banal assim), que não se achava bonita. Hoje eu consigo ver que essa imagem de aparente inocência nunca foi sinônimo de fragilidade, muito pelo contrário. Sandy parou de cantar com o irmão, lançou dois discos, virou apresentadora de TV, cortou o cabelo, ficou loira, fez propaganda de cerveja, foi pro carnaval, deu entrevista pra Playboy, casou, virou mãe - meio que conseguiu tudo, mas aí você ouve "sim pro inexplicável, eu disse sim, eu caso", e a idealização cai por terra. Sandy tem dúvidas, é torta, escuta Bon Jovi e se sente sozinha. Ufa, eu também.

Ouvir o disco foi como ouvir ela me contar tudo isso com uma honestidade inesperada, quebrando aquela barreira impenetrável de antes, quando eu realmente não sabia quem ela era. Conhecia os cortes de cabelo, os figurinos de palco, seus uuh-uuuhs e ooohs, mas não a enxergava direito por trás das músicas traduzidas, assinadas por produtores. Eu conhecia a Sandy perfeita, e não tem nada mais desumanizador do que um ideal de perfeição - e isso vale pra nós duas.

Agora ela estava ali, e eu também, e era como se a gente estivesse se reencontrando e se conhecendo pela primeira vez, ao menos tempo. Prazer, Sandy. Quem diria, né? Sandy, que mulher. O mundo dá muitas voltas, mas estou aqui, uns quinze anos depois, querendo, de novo, ser um pouco como ela.

Amiga, me ensina?

> Depois de ouvir o disco pela primeira vez fui logo mandando a Analu ouvi-lo também, porque quando se tem uma metade é assim, você simplesmente sabe quando a pessoa precisa tanto daquilo quanto você. E aí que quando estávamos planejando nossos calendários do BEDA, ela disse que dia 11 postaria sobre a Sandy, sem saber que há alguns dias eu tinha planejado a mesma coisa pro mesmo dia. Acabei de ler o post dela, que é praticamente idêntico ao meu, e nunca falamos sobre o que iríamos escrever. Parece até piada. Que bom que não é.
>> Esse texto sobre a Sandy se casa muito bem com um que eu escrevi ano passado, sobre a Jenny Lewis, minha cantora favorita. De jeitos diferentes, elas cantam sobre as mesmas coisas e vale muito a pena conhecer;
>>> Semana que vem vou gravar um vídeo de perguntas, então me ajudem aí perguntando qualquer coisa. Sobre mim, minha vida, meu cachorro, a vida, o universo e tudo mais. Mas perguntem. Por favor. Pode ser nos comentários, peloTwitter, por e-mail, enfim, você escolhe. Mas vamo ajudar a blogueira aí, ok? Beijos de luz.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ode aos meus amigos

Para ler ouvindo (porque eu escuto essa música pensando nos meus amigos e sempre choro, e porque eu não poderia escrever um post sobre amizade sem a minha melhor amiga famosa):


As pessoas sempre me perguntam se eu estou namorando, mas raramente me perguntam sobre os meus amigos. Aliás, as pessoas falam mais sobre um namorado que eu nem tenho do que sobre os meus amigos, que estão aqui todos os dias. Não é estranho? Costumo brincar que nunca fui namoradeira e nem encontrei o amor da minha vida porque gastei minha cota de sorte ficando amiga das melhores pessoas do mundo. É brincadeira (eu ainda tenho um saldo positivo de sorte pra gastar com o amor da minha vida, né? NÉ???), mas é verdade também. Eu realmente sou amiga das melhores pessoas do mundo.  


Sei que é moda dizer que se tem poucos, mas bons, amigos. Todo mundo prefere. Concordo, acho que é melhor mesmo se ter um amigo de verdade do que 10 amigos-até-a-página-seis, 20 colegas e 300 conhecidos no Facebook, mas, como eu disse, tive muita sorte na vida. Eu tenho muitos amigos. Descobri isso esses dias quando fui contar o número de pessoas que considerava minhas amigas de verdade e me faltaram dedos nas mãos pra contabilidade. Isso é muito, não é? Tenho muitos e ótimos amigos. 

Digo isso sem medo de parecer exibida e sem vontade de ser modesta porque considero os meus amigos um milagre, e acho que milagres têm que ser celebrados. Fui assistir Paper Towns semana passada e fiquei um tempão pensando no texto que abre o filme, em que o Quentin diz que seu milagre era ter sido vizinho de Margo Roth-Spiegelman: dentre todas as estados, todas as cidades, todos os bairros e todas as casas, ela foi morar justo do lado dele. Não era exatamente uma loteria, mas é como se fosse.

spoiler: o milagre não era a Margo
Quando eu era mais nova eu pensava muito sobre isso, sobre esses acasos milagrosos que acabam mudando o rumo das nossas vidas. Tinha o menino bonitinho da sala, aquele que todas as meninas gostavam, e tinha uma menina que era vizinha e amiga dele da vida toda. Eu pensava: sempre tem uma menina pra ser vizinha do menino que a gente gosta, e essa menina nunca sou eu. Do mesmo jeito que eu não era a menina sorteada pra fazer trabalho no grupo dele, e a professora nunca me escolheu pra sentar perto do garoto que poderia ser meu namorado.

Eu escapei de todos esses milagres, e quando tinha 12 anos e assistia A Nova Cinderela, costumava me lamentar pensando que se alguém fosse chamar a atenção de um equivalente a Austin Ames, essa pessoa não seria eu. Não seria eu que perderia o celular no dia do baile pra ele encontrar, e nem seria comigo que um cantor italiano trombaria no meio da rua pra depois me convidar pra fazer um show com ele #referências A vida inteira, todos esses clichês de comédias românticas que sempre precisam de um pequeno milagre, um golpe de sorte ou um empurrão do destino pra acontecer, nunca aconteceram comigo. 

No entanto, quando meus pais foram procurar uma escola pra mim depois do jardim de infância, eles rodaram a cidade inteira e ficaram entre duas opções. Numa tarde de sábado, eles saíram comigo pra que eu visitasse as duas e escolhesse a que eu gostasse mais. Antes, uma parada. Uma amiga da minha mãe queria muito que ela conhecesse a escola onde os filhos dela estudavam, um lugar pequeno e pouco conhecido, e foi lá e marcou uma visita, meio que sem minha mãe pedir (ou querer). Pra não fazer desfeita, a gente foi lá ver qual era antes de ir pras outras escolas. Resultado: eu e meus pais amamos tanto aquele lugar que nem chegamos a visitar os outros dois colégios. 

Fizemos a matrícula na segunda-feira e foi lá, no ano 2000, que eu conheci os meus melhores amigos. Dentre todas as escolas, de todas as cidades, entre todas as salas, e todas as panelas, foi ali que a gente se encontrou e é aqui, juntos, que estamos até hoje. Não é um milagre?


Da mesma forma, com o fim da escola, eu poderia muito bem ter feito mais um ano de cursinho e tentado vestibular em São Paulo, como minha mãe queria. Ou eu poderia ter ido estudar em Belo Horizonte, como meu pai queria. Ou eu poderia ter feito Direito, como todas as pessoas queriam. Mas eu fiquei aqui, no Jornalismo, e no primeiro período eu fiz amigos, que hoje escreveram um livro comigo, sem nunca brigar - e todo mundo disse que a gente brigaria. Logo eu, que estava morrendo de medo de estar num lugar onde eu não conhecia ninguém, eu que nunca soube muito bem fazer amigos (!) porque a última vez que havia feito isso foi com seis anos de idade, caí numa sala cheia de gente que ri comigo, com quem eu faço planos pro futuro, com quem eu acabo de alugar um apartamento na praia pro feriado. Não é exatamente uma loteria, mas é como se fosse.

Por fim, tem aquela história que vocês já conhecem. São milhões de pessoas vagando a esmo na internet entre textões e gifs de gato, mas eu caí no grupo do Facebook com as amigas que me fazem pensar que não quero reescrever as nossas linhas que se não fossem tortas não teriam se encontrado. É tanto amor que eu escuto músicas românticas da Sandy e penso nas minhas amigas. Eu poderia ter ido dormir mais cedo naquelas primeiras folias, eu poderia ter saído do grupo pra estudar pro vestibular, eu poderia ter acreditado que era loucura viajar 600 quilômetros pra me encontrar com pessoas que eu nunca tinha visto antes, mas olha onde isso me trouxe. Embora haja tanto desencontro pela vida, ela nos trouxe até aqui. Não é um milagre digno de filme?


Quis escrever tudo isso não pra dizer olha só como eu sou legal e tenho amigos legais, mas porque eu acho que a amizade é subestimada no mundo que vivemos. As pessoas dizem que quem tem amigos tem tudo, mas são essas mesmas pessoas que dizem depois que você sempre faz novos amigos e tudo bem. Ou então acham graça de você se despencar pro Rio de Janeiro pra surpreender sua amiga sem uma real necessidade, só porque sim, porque ela merece, porque a gente merece e quis assim. Ou então acreditam que os amigos meio que ficam ali pra tapar os buracos entre a vida familiar, seu trabalho, e seu relacionamento amoroso - nunca sendo uma prioridade, sendo os primeiros a ser deixados de lado quando a correria começa.

Não existe uma propaganda do Boticário ou da Coca-Cola pro dia do amigo, e as pessoas preferem qualquer história mais ou menos de romance do que ouvir minhas histórias com meus amigos, que são muitas, e eu adoro contá-las - logo eu, que detesto falar sobre minha vida pros outros. A sociedade me vê como uma fracassada e as pessoas me consideram sozinha porque não namoro ninguém, mas esquecem que enquanto eu estou "sem ninguém" eu fico até de madrugada sentada numa mesa conversando abobrinhas e rindo horrores com meus amigos, ou que desestabilizamos linhas de metrô, dançamos abraçadas aos berros e vimos o sol nascer juntas - seja depois de uma noite memorável ou depois que o mundo acabou, mas ficou tudo bem. How do you feel by the end of the day, are you sad because you're on your own? No, I get by with a little help from my friends. 


Saberei que encontrei a pessoa certa quando achar alguém com quem eu faça tanta questão de gastar meu tempo, meu dinheiro e minhas noites de sono como eu faço com meus amigos. Na loteria da vida eu não saí com o roteiro de comédia romântica anexado no meu destino, mas consegui os meus amigos. Na vida todo mundo tem um  milagre, e eles são o meu. Ainda bem. 

Feliz dia do amigo pras minhas pessoas - as melhores do mundo. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Ode ao One Direction

Não sei se todo mundo sabe, mas eu não tinha nem 14 anos quando criei esse blog. 

Ele era um pouco diferente, eu era muito diferente, e a maioria das coisas foi se construindo ao longo do tempo - organicamente, como se costuma dizer hoje em dia. Os marcadores, por exemplo, aquelas gavetas onde eu arquivo os posts ignorando completamente as dicas dos especialistas. Use palavras-chave, eles dizem, assim fica tudo mais organizado para o seu leitor e seus acessos vão crescer, yada yada yada. Na época era mais importante ser divertido do ser eficiente (e continua sendo) por isso fui criando marcadores enigmáticos que só fazem sentido na minha cabeça. Um exemplo é a Jonas Brothers.

Sempre que eu marco um post na categoria Jonas Brothers alguém nos comentários acha graça, ou pergunta o motivo, ou começa a me xingar sem muitos motivos. A verdade por trás disso é que eu queria categorias específicas pras coisas que eu gostava e outra pra coisas que eu não gostava. Livros, discos e filmes bons caíam no marcador Totalmente Excelente, um bordão do Rockgol meio auto-explicativo. Já livros, discos e filmes ruins iam direto pra gaveta dos Jonas Brothers, porque na época eles representavam tudo aquilo que eu não gostava.


A adolescência é aquela fase maravilhosa da vida em que todas as nossas ações são milimetricamente calculadas visando a auto-afirmação. A gente precisa se afirmar como uma ex-criança, tão diferente dos nossos pais, esses alienígenas caretas, e também precisa arranjar um jeito de mostrar que é diferente e muito mais legal que as pessoas da nossa idade - já que nunca consegui ser popular, o jeito era assumir a posição de too cool for school e ver filmes que ninguém conhecia, ler livros enormes que ninguém lia, e gostar de bandas diferenciadas-descoladas-diferentes-daquelas-merdas-pasteurizadas-que-os-jovens-ouvem-hoje-em-dia-meu-deus-o-horror-o-fim-da-civilização. 

Pra mim, os Jonas Brothers representavam isso e eram o mal que eu devia combater com meu ótimo e refinado gosto. Eu pensei também em chamar o marcador de Justin Bieber ou Hanna Montana, mas eu tinha uma raiva especial dos Jonas Brothers, que nem lembro mais de onde veio. 

Com o tempo eu fui crescendo, abrindo minha cabecinha, e ficando menos idiota. Era difícil falar mal da Hannah Montana sabendo toda a letra de Party In The USA e sabendo performar tão bem o clipe de 7 Things como eu sabia (e ainda sei). Era difícil me livrar das garras do amor gostoso que eu começava a sentir pela Taylor Swift quando era muito mais maravilhoso cantar Love Story no intervalo das aulas. Eu comecei a ceder lentamente ao apelo do pop (lembrando que nem minha arrogância adolescente me impediu de ser fanzoca assumida da Britney Spears), mas ainda protegida pelo argumento do guilty pleasure. Ai, pareço legal mas desligo o scrobble pra ouvir Miley Cyrus. Ui, durmo com uma camiseta do Strokes mas entro no Youtube todo dia pra ver o clipe de You Belong With Me, hihihi. 


Foi mais ou menos em 2012 que eu conheci o One Direction. Eu comecei a assistir X Factor um ano depois deles terem sido revelados no reality, e meu guilty pleasure favorito da temporada era torcer pelo Emblem3 (SDDS), que uma vez apresentou uma música deles, What Makes You Beautiful. Foi um caminho sem volta. 

Até então, eu nunca tinha tido uma boy band na minha vida. Eu era muito criança na época áurea dos Backstreet Boys e do N'Sync, e ainda que eu consiga cantar as músicas no karaokê (e dançar as coreôs na balada) e tenha uma opinião bem elaborada sobre o Justin Timberlake, eu não vivi o frisson das boy bands - que tá se repetindo aí com o show dos BSB e as amigas emocionadas porque vão ver seus mocinhos depois de anos, e eu acho isso sensacional. Eu acho que todo mundo precisa de uma experiência boy band na vida, porque isso te proporciona uma das melhores coisas na vida, que é o fangirling irracional. 



Gente, ser fã é muito bom. Ser fã retardada é melhor ainda. Com o One Direction eu tive a chance de não apenas ser fã, mas de ser fã retardada e sentir aquela alegria sem sentido por conta de um gif ou dos incontáveis vídeos deles fazendo gracinhas e sendo adoravelmente retardados. A Brodie Lancaster definiu a experiência directioner (e de qualquer fandom) com perfeição quando escreveu que gostar de One Direction era viver um sentimento of having no inhibitions, of being overwhelmed with adoration and excitement, and of feeling it all in the company of thousands of other fans who get it.


I have a tendency to over-analyze everything in my life, but when it comes to One Direction, I can give my mind a rest. That’s not to say I don’t spend a hefty chunk of my time thinking about Harry’s forearms or Louis’ state of mind or how Zayn feels about art; I just mean that, unlike most things I love, I don’t feel the need to intellectualize my love for this band. They’re five adorable humans who make addictive pop music and say dumb, funny things and loving them has taught me that those things are just as valid as serious or obscure bands that give me cool cred points with my peers.

Minha experiência definitiva do 1D foi quando fui com meus amigos assistir o documentário deles, This Is Us, no fim de semana de estreia. Depois da primeira sessão um grupo de meninas desceu a escada rolante do shopping aos berros. Eu lembro que foi na mesma época que aquele cara atirou em umas pessoas na sessão de Batman e eu fiquei assustadíssima antes de perceber que era tudo coisa de fã. Um outro grupo ficou na porta do cinema cantando enlouquecidamente todas as músicas, as meninas abraçadas, com camisetas combinando, vivendo o melhor momento da vida delas. A gente estava meio deslocado ali (definitivamente as pessoas mais velhas, tirando os pais acompanhando as menores de 12 anos), mas essa distância acabou quando o filme começou todo mundo cantou as músicas, riu bastante, chorou um monte também e fez parte dessa grande experiência audiovisual que é o This Is Us. 

Fui no cinema com um amigo muito fã, uma amiga mais ou menos fã, e outra amiga que nem conhecia o grupo, só foi porque não tinha nada melhor pra fazer. Essa última saiu chorando (literalmente) de empolgação da sala porque, sério, é muito difícil não se apaixonar por esses cinco meninos lindos, tatuados, brincalhões e patetas, que são fofos com velhinhas, que tiram as calças uns dos outros no palco, e que fazem uma música tão viciante. Eles são divertidos e lindos, como os Beatles (sim, os Beatles) eram divertidos e lindos no início da carreira - e o One Direction tem a vantagem de viver numa época onde clipes maravilhosos como Best Song Ever e Night Changes podem existir. 

O 1D mostrou pra mim como foi inútil e ridículo gastar tanta energia odiando as coisas na adolescência, porque gostar é muito melhor, sempre. Eu não gosto de tudo e nem abandonei totalmente meu lado hater que insiste em aparecer, mas, hoje, idiota pra mim é você se não se permite gostar de uma coisa só porque todo mundo gosta, só porque não é descolado, só porque o tipo de gente que gosta é o tipo de gente que chora em porta de hotel e acampa duas semanas na porta de um estádio. Negar isso é não poder ouvir Diana andando na rua e ter que se segurar mil vezes pra não cantar junto, é não colocar Kiss You pra tocar num passeio de carro com os amigos e deixar de transformar o trânsito numa dance party. 

Estou escrevendo tudo isso porque hoje o Zayn anunciou sua saída da banda e eu fiquei em pedaços. Os outros quatro vão continuar, mas a gente sabe que esse é só o começo do fim da nossa vida e que boy bands tem um prazo de vida bem curtinho. A gente vai sobreviver, eu e todas as meninas de 13 anos que choram nesse momento, mas sempre é chato lembrar que nosso oásis de felicidade gratuita não é tão perfeito assim, é horrível pensar que as coisas acabam e que nunca mais vai ser a mesma coisa. 

SONHOS


REALIDADE


No fundo eu acho que a saída dele faz todo sentido e torço de coração para que ele coloque a cabeça no lugar e seja feliz - mas se eu tiver que apostar, o Harry vai ser o Justin do futuro. 

O que me consola é que daqui uns dez anos eles devem se reunir de novo e sair fazendo shows pelo mundo, e eu vou pagar mil reais pra estar pertinho do palco, e eu vou cantar, e vou gritar, e vou morrer de amores e ser muito fã, muito retardada, porque a vida não vale a pena se a gente não tiver uma boy band que nos lembre sempre que feelings are the only facts.

Hoje não arquivo mais em Jonas Brothers as coisas ruins que encontro por aí, mas deixo o espaço pra tudo que seja divertido demais pra se dizer não. 


* Update: acabei de ler esse texto sobre a importância do fangirling and it's everything. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ode à Taylor Swift

Aviso aos navegantes: esse blog entrou em 1989 e não pretende sair tão cedo. 


Eu queria ter escrito esse post no dia 13 de dezembro, aniversário da Taylor Swift, só que a vida me atropelou e eu só estou conseguindo fazer isso agora. Coincidência ou não, no dia 13 de dezembro eu não pude sentar por quarenta minutos para escrever isso porque estava ocupada assistindo Grease dublado com minhas amigas, trocando dicas de esfoliante, falando bobagens, me maquiando e sendo maquiada, respirando uma nuvem de spray de cabelo, fazendo coques, tirando fotos, andando de salto alto, tomando champanhe e cantando feliz. Foi um dia para honrar a tradição da Taylor Swift mais do que qualquer texto poderia fazer, um dia para ser happy, free, confused and lonely, sempre do melhor jeito. 

Outro dia interessante foi em junho (ou teria sido julho) de 2013, inverno curitibano, em pleno carro do pai de Analu. Estávamos eu, ela, Taryne e Milena voltando pra casa, quando Analu pluga o iPod no carro, olha pra gente no banco de trás e diz: "Olha o que eu vou colocar pra gente cantar". E então começou "We're Never Ever Getting Back Together". Ou teria sido "22"? Talvez a primeira foi "I Knew You Were Trouble", não importa. O caso é que cantamos todas elas, primeiramente um pouco tímidas e poucos segundos depois já sustentando agudos inimagináveis, com os braços pra cima e uma dança livre e espontânea que não deve ter sido muito bonita de se ver. 

Praticamente alheio a tudo isso, o pai de Analu tamborilava os dedos no volante ao ritmo da música. Quando ele parou o carro, me dei conta que já estávamos na garagem e foi como se tivessem me arrancado de um universo paralelo maravilhoso em que paixões se manifestam em cores e a gente pode ser tudo o que a gente quiser. 

Pra mim as músicas da Taylor Swift sempre evocam um sentimento maravilhoso de cumplicidade. De cúmplice mesmo, como alguém que compartilha um segredo importante com você, ou de dividir algo especial com outra pessoa e ter certeza que ela, e talvez só ela, saiba como aquilo é especial, raro e único. O dicionário diz que existe cumplicidade onde há entendimento. 

É por isso que eu fico tão na defensiva quando vem dizer que as músicas da Taylor Swift giram em torno dos caras que ela namora. Ela escreve, sim, e muito, sobre os homens na vida dela, mas as músicas nunca são tão sobre eles como são sobre ela, sobre como ela se sentiu, e sobre como ela enxergou aquela experiência, sobre o que ela tirou daquilo e tudo que ela passou. E pode ser que eu esteja hiper-analisando (e é claro que eu estou hiper-analisando, mas bear with me), mas ela escreve sobre esses caras não para eles, mas primeiro para ela e depois para outras meninas - e os caras que façam o que quiser com isso. 

São músicas sobre experiências e sensações típicas do universo feminino (de um recorte bem específico desse vasto mundo, claro, mas vamos lá), e é por isso que eu nunca vi nenhum cara dizer que se identifica com alguma das suas músicas, por isso que eu acho que eles sempre escrevem e falam tanta besteira sobre a música dela, e por isso que já vi as mulheres mais improváveis se confessarem, às vezes com uma indesculpável vergonha, fãs da menina: a gente se entende, a gente é cúmplice disso. 

Eu posso não ter uma lista enorme de ex-namorados por aí, mas em alguma medida eu vivo e sinto muita coisa do que ela coloca nas suas letras; e posso nunca ter tido um relacionamento à distância, mas sei o que é uma saudade de quem canta "I don't wanna miss you like this"; posso questionar várias de suas letras e posicionamentos, mas eu também já disse e pensei besteiras sobre os outros quando eu era mais nova, a diferença é que eu não era uma pop-star. E eu posso não ter conhecido as pessoas que ela e nós não temos as mesmas amigas, mas eu sei exatamente o que é pensar que as melhores pessoas do mundo são aquelas que são livres. 

As músicas da Taylor Swift sempre estão presentes nos momentos em que eu me sinto mais livre (até mesmo livre pra sofrer e amargar um recalque em paz), e é por isso que eu não aceito que reduzam isso que ela faz a uma coletânea sobre ex-namorados. É sempre sobre ela, antes de tudo, que compartilha esse segredo importante e deixa que a gente o transforme em algo especial que é nosso também. 

Enfim, há uns meses a Analu tinha me convidado para postar junto com ela uma lista das minhas músicas favoritas da Taylor. Ela fez isso no finzinho do ano, eu vou fazer isso agora. Se você conhece e gosta, venha dar pitaco nas minhas escolhas (e fazer as suas também, olha que legal), se você não conhece, é uma boa oportunidade de se render. 

MEU TOP DEZ QUINZE DA TAYLOR SWIFT
(em nenhuma ordem particular)


1) RED: Você pode deixar de ver qualquer vídeo daqui em diante, mas, por favor, veja esse. É pura magia rubra da Taylor Swift acontecendo. Eu tenho muita dificuldade em aceitar de que eu nunca vou ver um show dessa turnê, provavelmente é a maior saudade de algo que eu não vivi que eu tenho na vida #profunda e nos meus sonhos em que eu estou com minhas amigas aos berros à espera dela subir no palco, é essa música que abre o show. 

2) YOU BELONG WITH ME: Isso é o que sempre acontece toda vez que essa música toca. Por mais infantil que seja a letra, é música para dançar no quarto, cantar com a escova de cabelo, e ter vontade de se pendurar na janela (ou no pescoço de alguém) e berrar a letra. Amo a intensidade do refrão e o desespero verdadeiro que a música é cantada, porque PORRA COMO VOCÊ NÃO CONSEGUE VER QUE TEM QUE FICAR É COMIGO??????

3) OURS: Ouvi essa música pela primeira vez num especial que ela gravou pelo VH1, o Storytellers, onde os artistas contam a história por trás de cada música. Achei muito fofa a forma como ela falou que escreveu essa música pra um cara que todo mundo dizia que ela não devia namorar, pra dizer pra ele que não importava o que os outros dissessem, aquele amor era deles e de mais ninguém. Não é a coisa mais fofa do mundo? É sim. Also: "life makes love look hard. stakes are high, the water's rough, but this love is ours". 


4) TREACHEROUS: Sou apaixonada pela atmosfera dessa música. Coloque ela pra tocar quando estiver deitada no escuro, prestando bastante atenção na letra, que vai ficar fácil de entender. É uma história de amor delicada, traiçoeira, e eu adoro que na turnê ela canta a música enquanto anda numa passarela super estreita, fazendo movimentos de bailarina, meio que ilustrando essa delicadeza perigosa e a tornando irresistível. #semióticas 

5) OUR SONG: A história por trás dessa música também é muito ótima: Taylor escreveu pro namoradinho de escola e a apresentou pela primeira vez no show de talentos da escola nova, onde ninguém sabia que ela escrevia e cantava. Foi uma surpresa tipo: olha que legal, eu sei cantar, escrevo umas músicas  BTW ESSA É PRA VOCÊ. Ai que saudades dessa adolescência que nunca vivi. (O vídeo está meio esquizofrênico, mas amo as pessoas cantando junto, as meninas dançandinho no fundo, e PELO AMOR DE DEUS ESSA ROUPA). 


6) 22: De todas as músicas da Taylor Swift, essa é a que é mais minha. Ou melhor, minha não, nossa. Porque é a trilha sonora oficial da gente, e acho que não existe nada mais Taylor Swift do que escolher uma música que seja seu tema com suas cúmplices no mundo. #bichas


7) STYLE: Na ausência de um vídeo com áudio oficial da música, vamos de um sempre bem-vindo gif do nosso James Dean com seu long hair slicked back and white t-shirt. Outro grande momento MINHA MÚSICA que eu e Tay compartilhamos, e não existe realmente um motivo para eu gostar tanto de Style para além da batida maravilhosa. No fundo, talvez eu goste de pensar que eu e Harry Styles também nunca vamos sair de moda. 


9) BLANK SPACE: Eu paro tudo que eu estiver fazendo para cantar essa música - e depois, se possível, eu peço pra tocarem de novo pra eu cantar ela inteira mais uma vez. Se do Ru Paul's Drag Race eu participasse, um concurso de lipsync com essa música eu ganharia. E para além da loucura do clipe, eu adoro a guinada que essa música representa na carreira dela. Orgulhosa de você, miga!


10) ALL TOO WELL: Eu disse que se fosse pra vocês verem um só vídeo dessa lista, que era pra ver o de "Red". Mas eu menti, é pra ver esse também, porque são tantos sentimentos que minhas palavras não vão ser suficientes. Vocês precisam dos gritos, das jogadas de cabelo, das encaradas pra câmera, das vezes em que ela quase chora e dos pais emocionados no final. É uma das minhas músicas de fim de namoro (meu nicho favorito de música, risos) favoritas e meu Deus como eu amo os berros de WELL YOU CALL ME UP AGAIN JUST TO BREAK ME LIKE A PROMISE SO CASUALLY CRUEL IN THE NAME OF BEING HONEST... I'm a crumpled up piece of paper lying here, cause I remember it all, all, all too well. VRÁ.


11) LOVE STORY: Foi a primeira música da Taylor Swift que eu ouvi. Eu nem conhecia ela, mas odiava de graça porque eu era adolescente e sentia que tinha a obrigação moral de odiar tudo que o resto das pessoas gostavam. Mas eu ouvia essa música no rádio todo dia indo pra escola e amava, mas nunca soube de quem era. Quando tive a grande revelação foi mais fácil abraçar meu lado creiço do que resistir, e por várias e maravilhosas manhãs eu berrei essa música na sacada da minha sala na escola. Esse clipe não é a coisa mais loucamente brega e adorável que vocês já viram na vida?


12) OUT OF THE WOODS: Eu odiei essa música da primeira vez que ouvi, e hoje ela é uma das minhas favoritas do 1989. Eu odiei ela porque achava repetitiva demais, e hoje isso é uma das coisas que eu mais gosto nela. Adoro a batida, o refrão que se repete eternamente e imagino que isso deve ser incrível numa pista de dança, com luzes que pisquem e pulsem no mesmo ritmo. Se um dia eu desenvolver uma espécie louca de Tourette, é bem provável que eu fique repetindo ARE WE OUT OF THE WOODS????? no ouvido das pessoas. 


13) WE ARE NEVER, EVER GETTING BACK TOGETHER: Não lembro se coloquei isso na minha lista de coisas-para-fazer-antes-de-morrer, se não, que conste agora que eu preciso muito cantar essa música no karaokê antes de morrer. Já tenho até coreografia pronta e decorei as falas dela no meio da música, preciso muito. 


14) ENCHANTED: Quando eu falo que a Taylor é uma compositora fantástica para escrever sensações muito específicas e ao mesmo tempo universais. essa música é um exemplo incrível disso. Sabe isso de conhecer uma pessoa legal, voltar pra casa flutuando baixinho, sonhando alto e pedindo pelo amor de Deus para que ela não tenha mais ninguém na vida dela? Pois é. PLEASE DON'T BE IN LOVE WITH SOMEONE ELSE. Tipo, por favor, por favor mesmo. Pelo amor de Deus. 


15) BEGIN AGAIN: Engraçado, eu tinha pelo menos umas quatro músicas disputando esse lugar na minha lista de favoritas da Taylor. Músicas que eu escuto mais e por mais tempo, que eu tenho histórias pra contar. Mas nos últimos dias eu não consigo parar de ouvir Begin Again e acho que seria injusto deixar ela de fora. É uma letra que sempre me lembra uma das minhas crônicas favoritas, O Amor Acaba. Porque o amor acaba, pra começar de novo em outra esquina - ou numa quarta-feira, em um café qualquer por aí. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ode a Meninas Malvadas

Texto escrito originalmente para a Revista 21

O mundo das garotas é uma selva.

Hoje faz dez anos que Meninas Malvadas estreou nos cinemas, e nesse meio tempo o filme foi de comédia adolescente de muito sucesso a objeto de culto, popular o bastante para já ser considerado um clássico contemporâneo. Eu não vivi a Beatlemania e os filmes do John Hughes jamais serão um retrato da minha experiência concreta de juventude, mas fico muito feliz em saber que cresci com Harry Potter e que Meninas Malvadas faz parte do consciente coletivo da minha época.


Embora seja um dos filmes mais queridos pelas pessoas e que seja raro encontrar quem nunca o tenha assistido ao menos uma vez, tem muita gente que acredita que as pessoas idolatram o filme ironicamente ou sentem vergonha em admitir que gostam dele de verdade, por mais bobinho que ele seja.

Pra começo de conversa, esse papo de gostar ironicamente é uma das coisas mais bestas que eu já ouvi, e que culpa a gente deve ter por achar que, em pleno 2014, precisa se desculpar ou se justificar por gostar do que gosta. Dito isso, nesse dia tão significativo para a cultura pop, queria defender a ideia de que não, Meninas Malvadas não é esse filme bobinho que alguns pensam que ele é, só porque é engraçado, só porque é sobre adolescentes, só porque é (olha só que coisa) sobre garotas.

Espero que vocês estejam de rosa, afinal, hoje é quarta-feira.

Como eu ia dizendo lá no começo, o mundo das garotas é uma selva. Essa ideia nos é vendida o tempo inteiro e não é de hoje: pense em quantos filmes você já assistiu que tinham no centro uma disputa entre meninas; quantas pessoas já te falaram que não se pode confiar em mulher; quantas meninas já te disseram que acham muito mais legal ter amigos homens, já que entre as garotas sempre rola inveja e competição;  quantos filmes já mostraram uma mulher tentando sabotar a amiga bem sucedida ou querendo acabar com a vida da namorada atual do ex. Meninas Malvadas é sobre isso também, mas de um jeito diferente.

Cady Heron (Lindsay Lohan) usa esse paralelo da selvageria duas vezes ao longo do filme: na primeira delas, a garota recém-chegada da África pensa consigo mesma que aquelas tensões ocultas que ela sentia entre as garotas do seu colégio – uma hostilidade constante e densa que pairando no ar, que todas fingiam não ver sorrindo falsamente umas para as outras – seriam facilmente resolvidas no mundo animal, onde ela poderia avançar livremente na direção dos cabelos de Regina George (Rachel McAdams) e lidar com as diferenças entre elas usando a força bruta. Depois, mais para o final do filme, quando o Livro do Arraso vem à tona, a cena é que vemos é de garotas grudando nos cabelos umas das outras, finalmente sucumbindo àquela tensão velada e descarregando fisicamente todas as frustrações, inseguranças, hostilidade e decepções que sentiam consigo mesmas e com as outras.

Muita gente não sabe, mas o filme foi baseado num livro que é uma espécie de manual para ajudar os pais de garotas adolescentes a ajudar suas filhas a sobreviver no microcosmo escolar, um ambiente que parece afetar as meninas de um jeito diferente. Isso porque a gente vive numa sociedade que não é apenas machista, mas que odeia as mulheres. Não é de hoje, não é da época das nossas avós; é uma construção social talvez tão velha quanto a roda essa ideia de que o feminino precisa estar sobre constante suspeição, como se por trás de toda essa delicadeza que a publicidade adora louvar existisse um fruto podre escondido. E como toda boa construção, essa ideia está de tal forma cimentada nos nossos inconscientes que a gente a confunde com a realidade, e é assim que a gente acredita mesmo que as mulheres são umas pérfidas neuróticas desalmadas, que nossas amigas no fundo querem puxar nosso tapete, que estamos cercadas de inimigas.


Depois do rompante selvagem que citei acima, as garotas do colégio são levadas para o ginásio da escola e Tina Fey, que escreveu o filme e interpreta a professora de Matemática mais ferrada do mundo, as força a encontrar e exorcizar os próprios demônios. Num exercício simples, as meninas veem que não só todas já foram vítimas de alguma fofoca ou maldade vindas de uma garota (além de Regina George), como todas também já fizeram fofoca ou alguma maldada contra outra garota (Regina George inclusa). O que isso significa? Que todas as meninas são mesmo seres desprezíveis e sem caráter, ou que esse ódio todo vem de seres humanos – falhos, como somos todos – que ainda não sabem lidar direito com as próprias frustrações e inseguranças e direcionam esse ressentimento para quem está mais próximo e parece ter algo melhor do que ele, seja um cabelo brilhante, uma nota em Matemática ou uma postura confiante?

É desse modo que Meninas Malvadas humaniza a selva que alguns juram ser o mundo das garotas, mostra que na maioria esmagadora das vezes não faz o menor sentido odiar tanto uma garota qualquer e que a existência de uma menina legal nos arredores não é uma afronta ou ameaça direta a tudo aquilo que existe de legal em você. Meninas Malvadas é um filme que estimula a sororidade, ou seja, a irmandade feminina. Essa ideia, dentro do movimento feminista, se desdobra em diversas problemáticas que valem a pena ser entendidas se você quiser se aprofundar no assunto, mas que no momento, de início, interessa extrair que para nós, mulheres, não está fácil e nem nunca foi, mas o fardo é menos pesado quando paramos de brigar entre nós, especialmente se é uma briga que não é nossa.


Por fim, Meninas Malvadas é um filme absolutamente divertido e pouco moralista, com diversas citações brilhantes que elevam a nossa expressão pessoal a uma dimensão diferente e muito mais interessante (além de ser um dos poucos que o roteiro é rico em pérolas tanto no idioma original como na tradução para o português, tanto que não consigo me decidir entre o que é mais legal: fetch ou barro). No dia de hoje, em que ele completa dez anos, você vai provavelmente ler diversas compilações das melhores frases do filme, mas a mais importante, definitivamente, é essa:

“Vocês tem que parar de chamar umas às outras de vadias e putas. Isso só faz com que seja aceitável que os homens as chamem de vadias e putas”.

Meninas Malvadas não é um filme perfeito e nem uma epítome feminista, mas definitivamente não é um filme bobinho. O mundo das garotas não é e nem precisa ser uma selva.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Crônica de um céu laranja na minha janela

Ou: ode às crônicas
Ou, ainda: se tudo der errado eu viro mocinha do tempo
(E também poderia ser: sdds Hilary Duff)

No começo desse semestre uma professora nova foi se apresentar e entre uma coisinha ou outra que disse sobre a vida e o trabalho, ela contou que gostava de escrever crônicas. Tendo dado boas risadas com sua breve autobiografia e folheando sua tese de doutorado com uma tema super legal e agradecimentos ao Pearl Jam no fim, eu já era fã antecipadamente, sem que ela precisasse dizer qualquer outra coisa, mas ela foi lá e disse: sobre crônicas, Ingrid falou que elas eram a melhor e mais autêntica forma de se contar uma história, melhor até que o próprio jornalismo - que nada mais é que a narrativa diária da nossa vida besta e que mesmo assim insiste em ser tão mecânico e frio. 

Uma coisa, ela disse, é ouvir a previsão do tempo ou ler uma nota falando sobre o calor, outra bem diferente era ler uma crônica que descrevesse o mormaço em Uberlândia numa tarde de sexta, em que você olha pela janela e as folhas das árvores não se mexem. Dois parágrafos sobre a onda de calor e as secas da época passam batidos, mas quando o Antonio Prata escreve que o o governo do Astro Rei tem sido bem despótico, você sabe que vai lembrar pra sempre daquele verão de 2014 em que ia para a faculdade com cheiro de Sundown (e de praia, de cloro, e de piscina) porque não aguentava mais tostar os ombros andando na rua.

Essa aula aconteceu em meados de novembro, quando o verão ainda nem era o verão e eu ri da minha professora paulista que caíra recentemente de paraquedas nesse mundão velho sem porteira que é o interior de Minas: ha, ingênua, ela ainda não viu nada. O calor, esse sobre o qual se escrevem crônicas, notas de repúdio, exclamações de elevador e matérias de dois parágrafos sobre a seca, foi começar mesmo em 2014. Pelo menos aqui em Uberlândia foi muito simbólico chegar na cozinha para tomar café da manhã no dia primeiro de janeiro e ter a nítida sensação de que o acordo civilizatório com as altas temperaturas havia chegado ao fim, e como um presidente muito afoito, bastou o ano entrar para a quentura tomar posse e governar nossas vidas - até a última sexta.

Sexta-feira, dia 14 de fevereiro de 2014, eu estava numa sala com ar condicionado e janelas fechadas, sem contato com o mundo exterior, quando uma colega entrou atrasada e molhada: uai, tá chovendo? Estava, assim como choveu pelo resto do dia, e durante todo o fim de semana, assim como chove agora. Passei quase uma hora ilhada esperando minha mãe atender o celular para fazer a bondade de me dar uma carona, mas tudo bem. O guarda-chuva cor-de-rosa estava de férias em casa, empoeirado em algum fundo de armário e eu tinha ficado na mão, mas tudo bem. Estava chovendo. Era Valentine's Day e as pessoas insistiam em ficar falando disso por aqui como se fosse coisa nossa, e eu lembrava de um filme ótimo para se ver nessa data, A Nova Cinderela, quando a Hilary Duff diz que esperar pelo seu ~príncipe~ era tão decepcionante e inútil quanto esperar pela chuva durante uma estiagem. No final do filme, é claro, eles se beijam na chuva ("e este verão abafado parece a ambientação perfeita para uma desgraça em um conto vagabundo, desses em que chove quando o protagonista sofre por amor", escreve Pratinha em "Estiagem") e eu pensava com meus botões que naquele dia ter um encontro com a chuva era bem mais desejável que o próprio Chad Michael Murray. 


Mas, divago: eu queria falar sobre a janela do meu quarto e a mania que tenho de dormir com ela aberta. A janela fica bem acima da minha cabeceira, de modo que quando eu deito de barriga pra cima e levanto um pouquinho o queixo, eu consigo ver o céu. E depois de anos de janela aberta (e uma garganta bem mais sensível, devo admitir) eu aprendi a ler o céu e saber o que ele reserva para o dia seguinte. Tenho essa fantasia brejeira de um dia me ver sentada de cócoras no quintal de casa, rodeada por netos, e aí lamber o dedo, levantar o braço e prever que horas a chuva cai. 

Nas últimas semanas, fui me deitar todos os dias vendo um céu limpinho me espiar caindo no sono, na maior parte das vezes cravado de estrelas. Às oito da manhã isso significa um céu opressivamente azul e sem nuvem alguma, com várias camadas de Sundown nos ombros (e aquele cheiro de piscina, e férias, e vida, me lembrando que eu não deveria estar tendo aula). Mas, nos últimos dias, quem tem me dado boa noite é um céu alaranjado, tanto que até parece que as noites são mais claras. Às oito da manhã isso significa um céu branquinho, às vezes cinza, e tem dias que eu acordo com a testa meio molhada graças aos pingos de chuva. O guarda-chuva cor-de-rosa trabalhou bastante durante o fim de semana. 

'Depois de 16 dias de estiagem, volta a chover em Uberlândia', é o que diz uma manchete do jornal local, e os dois parágrafos explicam todos os fatores envolvidos na questão e informam como deve ser. Não há nada ali, no entanto, que evoque a sensação de ir dormir com a promessa perfeita de um céu laranja na janela acima da cabeceira, depois de semanas do governo despótico do Astro Rei. E é por isso que a gente escreve, para tentar engarrafar numa crônica a brisa gelada de toda a noite de chuva. 

Que bom que elas existem. 

sábado, 19 de outubro de 2013

Porque excessivamente grave é a Vida

Ou: Ode à Vinícius de Moraes

Não sei ler poesia. Não consigo sentar na varanda (porque quando penso em poesia penso em uma figura leve e tranquila sentada em uma varanda com um livro aberto no colo, como se fosse ela mesma saída de um poema) e ler três ou trinta versos. Quer dizer, até consigo, mas não consigo aquela iluminação poética que só quem sabe ler poesia consegue atingir. É por isso que eu gostava tanto das aulas de literatura na escola e ficava tão feliz quando era época de poesia, porque quando o professor segurava na nossa mão e entregava a iluminação poética ali no quadro, aquela que eu não consigo alcançar sozinha, eu podia flutuar naqueles versos, mesmo que segurando firme na cintura dos professores, como se estivesse na garupa de um moto-táxi ao meio-dia de uma segunda feira.

Mas eu sempre li Vinícius. Com um livro dele no colo, aquele velho, surrado, mofado e rasgado de 1978 que eu roubei da minha avó, era como se eu estivesse não em uma varanda olhando o céu com ele graciosamente pousado no colo, mas sim numa esteira de vime sentindo preguiça no corpo em uma tarde em Itapuã. E mesmo sem eu entender direito a gente se entendia como numa simbiose maluca de almas, e talvez por isso, em uma aula inteira de literatura dedicada ao Soneto da Simplicidade, eu tenha dessa vez flutuado sozinha nas palavras, porque o professor me entregou de mão beijada de novo a iluminação poética, mas ela já era tão minha que eu não precisava sentar na garupa.

Mas o Manuel Bandeira sempre foi meu poeta favorito, porque fazia todo sentido do mundo ele sê-lo. Minha avó lia Manuel Bandeira pra mim quando eu ainda nem sabia ler, e nos almoços de família todo mundo me pedia pra eu recitar Neologismo e Trem de Ferro e certamente existe por aí alguma gravação perdida de uma Anna Vitória de quatro anos declamando te adoro, Teodora por aí, rindo horrores do trocadilho, sem fazer a menor ideia do que todas aquelas palavras significavam. Mas, com o tempo, aqueles versos fizeram mais e mais sentido, assim como todos os outros carregados daquela melancolia contemplativa que eu sempre gostei tanto e que a cada ano que passa eu tenho gravada em mim com mais intensidade. Bandeirinha, o tuberculoso que sabia que a morte estava sempre à espreita, tão ciente da finitude de todas as coisas, que escreveu que a vida às vezes era boa e bem por isso era também cruel. Eu não precisei saber de poesia pra amar o Manuel Bandeira porque ele foi o poeta da minha alma.

Mas o copo nem sempre está meio vazio, e por isso os versos de Vinícius são como uma janela aberta num quarto todo cinza, uma flor nascendo na calçada de uma cidade feia, o infinito de nossa vidinha em dias numerados. Vinícius amava sem medida nos versos e na vida, casou sei lá quantas vezes, quebrou a cara ouras tantas e nos incentivava a morrer de amor sempre que for possível. Defendia os namorados públicos e dizia que eles deviam ser patrimônios de qualquer cidade, confiava no uísque a ponto de chamá-lo de cachorro engarrafado e preferia morrer do coração a passar uma vida comendo alfaces em vão. O tal eterno enquanto dure que todo mundo adora usar pra falar de amor serve de lema pra uma vida inteira, um estímulo pra cair de cara, boca e pular de barriga na existência, porque excessivamente grave é a Vida. Vinícius é o Poetinha do meu coração.

Mas como não consigo ser só cinza fria ou eterna enquanto dure, resolvi que tenho quatro ventrículos dois ventrículos e dois átrios (obrigada, Mayra, que bom que eu não faço nada na área de saúde!) em bom estado no meu coração e posso muito bem dividir um pra cada um, porque eu não sei ler poesia mas esses dois me ensinaram a ver a vida de forma poética. Tenho três livros de poemas aqui em casa, um do Bandeirinha, um do Vinícius e um de uma autora polonesa cujo nome não sei escrever, que eu ganhei de presente e ouvi que ele era inteirinho eu. Não tive coragem de ler e pelo mesmo motivo venho evitando a poeta da vida da Analu, que ela me recomenda umas três vezes por semana, tudo isso porque não sei ler poesia e já acho que tive sorte demais ao encontrar esses dois senhores que me ajudam quando a vida não basta. 

Mas hoje o dia é só do Vinícius e é do lado dele que o coração tem que bater mais forte, cem anos não é pouca coisa, principalmente pra quem que vivia e escrevia como se sempre fosse o último no sentido mais ensolarado e cheio de redenção possível. Bandeirinha me ajuda a viver com os pés flutuando no abismo e Vinícius planta flores ao redor dele. Eu acredito em Deus, e a forma que olho pra Ele tem muito da união entre essas duas coisas, mas sei que se não acreditasse era pra Vinícius que eu acenderia uma vela. 

Parabéns, meu Poetinha, um abraço e um cheiro pra você.
Obrigada por tudo.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ode à MTV

Ou: 6 Coisas que sinto falta na MTV
Ou, ainda: My MTV

Quando eu comecei a ver MTV, há uns seis anos, as pessoas já diziam que o canal não era tão bacana quanto foi um dia e que legal mesmo era a MTV da época deles, sentença esta que já saiu da minha boca também, que afirmei algumas vezes que o canal hoje não estava com nada e que legal de verdade era a minha MTV. De um jeito ou de outro, ela foi importante pra um monte de gente, e não deixa de ser triste que esteja saindo do ar pra se tornar sabe Deus o quê. Hoje começa a maratona de despedidas do canal, que vai reunir VJ's antigos num especial onde os melhores programas vão ser relembrados - pra quem estiver de bobeira na frente da TV deve valer à pena assistir e matar as saudades. Mas, pensando nisso, resolvi fazer o meu próprio My MTV, com as coisas mais legais que eu vi por lá e o que eu mais sinto falta.

Disk MTV


Foi através do Disk MTV que eu conheci o Strokes e isso é argumento suficiente pra eu não precisar escrever mais nada. Eu tinha 13 anos e não conhecia a banda, às vésperas da estreia do novo clipe deles, You Only Live Once, rolou todo um frenesi de expectativa e em todos os programas eles anunciavam que no Disk MTV daquele dia ia rolar o novo clipe do Strokes, que seria incrível e estavam todos empolgados. Eu não sabia do que se tratava mas me enchi de ansiedade também, e eu não tenho palavras pra dizer como aquele clipe mexeu comigo: os caras de branco tocando numa espécie de contêiner que ia se enchendo de um óleo escuro e nojento até praticamente submergi-los. E as guitarras. Aquelas guitarras do Strokes que eu nunca superei e jamais vou superar. Poderia citar ainda outros momentos marcantes como, por exemplo, a vertiginosa ascensão (e misterioso desaparecimento posterior) do ícone Dogão, mas vou me ater ao que mais me marcou na minha história com o programa: o dia em que eu ouvi Strokes pela primeira vez.

MTV +


A maioria do conhecimento inútil que eu ostento sobre artistas e bandas de rock, que quando me surge nas conversas eu juro que não sei de onde veio, na verdade eu aprendi com esse programa. Era bem simples e nunca foi muito popular, mas eu adorava: apresentado pelo Léo e pela Marina Person, que se revezavam, ele contava uma pequena biografia sobre músicos, bandas e até movimentos e estilos. O relato das trajetórias sempre vinha acompanhado de algumas curiosidades inúteis e interessantes, dessas que não servem pra nada senão para soltar durante uma conversa, fazendo com que os outros se perguntam como é que você sabe tanto sobre a morte do Sid Vicious. Aliás, algumas semanas eram temáticas e esses eram os melhores programas. A minha favorita, claro, foi sobre famosos que morreram de forma misteriosa, fonte de onde tirei essas histórias do Sid Vicious e onde conheci o The Doors.

Hermes e Renato


Acho que foi por causa de Hermes e Renato que eu comecei a curtir o lado mais sem noção do humor. Cheio de sátiras e muito besteirol, o programa ainda é uma das coisas mais engraçadas e erradas que eu já vi na TV. Eu assistia meio escondido porque era cheio de palavrões, bobagens, e eu devia ficar sem entender a maioria das piadas, mas ainda assim era muito engraçado. A novela Sinhá Boça foi a minha produção favorita, junto com o Tela Class, programa em que eles pegavam uns filmes B policiais e faziam a redublagem e o Massacration, banda fake de metal com os clipes mais doentes e hilários do mundo. Tem bastante coisa no Youtube e vale muito à pena assistir. Sério.

Top Top MTV


Mais um programa com parada de clipes, mas com os melhores critérios do mundo. O tema do programa sempre era divertido e inusitado, como as dez melhores tretas internas da música, artistas que todo mundo pensa que são gays mas não são, vegetarianos, foras da lei, etc. Foi por causa do Top Top MTV que eu ouvi The Cure pela primeira vez, lembro que eles ganharam o primeiro lugar em um dia que o tema foi especial sobre o dia das crianças, com o clipe Boys Don't Cry. Era cheio de curiosidades também: esse mesmo especial de dia das crianças, por exemplo, me ensinou que, na época do White Stripes, o Jack e a Meg só usavam vermelho, branco e preto nas roupas e na estética dos clipes porque essas eram as cores que os bebês enxergam com maior intensidade. Não é o tipo de coisa que muda a sua vida, mas é legal pra caramba saber disso (não sei por que, já que a primeira vez que tenho a chance de compartilhar esse relevantíssimo fato). 

Beija Sapo


Por que não existe mais esse tipo de programa onde as pessoas tentam arranjar um namorado na TV? Eu sei, tem o Vai Dar Namoro e um dos meus sonhos é ir pra platéia gritar que as mulheres só foram arrumar o cabelo, mas uma pequena competição com o nível de vergonha alheia e falta de noção assumidas como acontecia na MTV não existe mais. Apenas saudades. O legal do Beija Sapo era mesmo o fator esculhambação da coisa, com Daniela Cicarelli fazendo comentários indiscretos e desnecessários, o ótimo quadro que revelava o quarto (e as bagunças, e as gavetas de cueca) dos concorrentes e o prêmio de consolação, quando alguém da platéia tinha que gritar SOCORRO, CICARELLI pra beijar os sapos (ou sapas) que não foram escolhidos. Sério, o que aconteceu com esse tipo de lixo televisivo e por que a gente aguenta Zorra Total há mais de dez anos e ninguém quis reavivar o Beija Sapo?

Rockgol


Por fim, aquele que é definitivamente o meu programa favorito de todos os tempos da MTV Brasil: Rockgol - de domingo ou de segunda, pra mim tanto faz. Rockgol era uma roda de conversa sobre futebol, onde os apresentadores e convidados (normalmente um jogador e um músico) comentavam sobre os jogos da semana, o que estavam fazendo da vida, etc. Era realmente a coisa mais divertida da televisão e acredito que comecei a gostar de futebol por causa do programa, que me mostrou como um monte de caras correndo atrás de uma bola pode ser algo legal. Algumas pessoas eram figuras carimbadas na bancada (ou no sofá) da atração e os melhores programas eram aqueles em que o Denilson, na época jogador da seleção, e o Nasi, ex-vocalista do Ira!, também conhecido como Wolverine Valadão, participavam. O programa durou até esse ano, mas pra mim ele acabou quando o Paulo Bonfá e o Marco Bianchi deixaram o comando, eles eram a alma daquilo e a razão de toda graça, com as milhares de piadas internas, os bordões, os patrocinadores falsos (saudades Paulo Bonfá Ringling Brothers Capillar Consultants) e a leitura de e-mails da Deise, de São Conrado (você lembra de mim?). Meu quadro favorito era o Jogo Duro de Assistir, em que eles cobriam algum jogo da série J numa cidade de interior e narravam os eventos como se fosse uma final de Copa do Mundo. E por falar em competição, o Rockgol realizava todo ano o Campeonato Rockgol, onde os músicos formavam times de futebol e competiam entre si. Era absolutamente fantástico porque a maioria jogava mal pra caramba, os nomes dos times eram hilários e as narrações do Bonfá e do Binchi, impagáveis. Eles usavam fantasias, perucas, chapéus engraçados e inventavam várias músicas durante os jogos. Meu sonho é que eles lancem um DVD com, se não todos, ao menos os melhores programas da história do Rockgol, eu compraria na pré-venda. Não é à toa que uma categoria aqui do blog se chama totalmente excelente: entendedores entenderão.

Bônus: Felipe Solari



Pausa para pedreiragem, para sentir falta dos tempos gloriosos com o VJ mais bonito e charmoso que a MTV Brasil já teve, o Orlando Bloom brasileiro, Felipe Solari. Ele fez vários programas, e o que mais me lembro é do Domínio MTV, uma espécie de jornalzinho que ele apresentava junto com a Kika - e eu e minha amiga Rinna morríamos de ciúme dos dois flertando ao vivo. Aliás, Rinna era (é) minha companheira de obsessão pelo Solari e eu preciso dizer que uma vez ela encontrou com ele na praia e não teve coragem de chegar nem ao menos perto para ver se ele era tudo aquilo mesmo. Tenho tios paulistas que foram praticamente vizinhos da MTV por muitos anos, e sempre que eu ia para lá passar as férias, a gente comia bastante na padaria/pizzaria que fica bem do lado do prédio da emissora. Já consegui avistar vários VJ's, mas minha eterna frustração é de nunca ter visto o Solari. Nem de longe. Até hoje a gente sofre, porque agora ele namorada a Laura Neiva e a gente fica sofrendo pelo Instagram, porque aqueles dois são tão lindos que é difícil coexistir. Tentamos muito topar com ele no Lollapalooza, mas só achamos o Cazé Peçanha.

Minha época de passar a tarde na frente da TV vendo MTV e de saber de cor o horário dos programas e das reprises e de esperar ansiosamente pelo VMB já passou há um bom tempo, mas não deixo de ficar meio triste pelo fim do canal. Recentemente, quando eles voltaram a passar praticamente só clipes, peguei o hábito de ligar a TV e ficar ouvindo música, casualmente passando na frente e vendo um clipe e outro. Não faz nem duas semanas que fiquei a manhã toda deitada no sofá só vendo um clipe atrás do outro, adoro os vídeos e sempre descubro músicas e bandas novas, foi assim que conheci um monte de artistas que são importantes pra mim. Minha última lembrança querida com a MTV vai ser a de um domingo em que eu acordei muito cedo e assisti, na sequência, toda a videografia do The Cure, seguida da do Smashing Pumpkins - acredito que a gente nunca assiste o clipe de Tonight Tonight o suficiente. Foi um bom domingo.