terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Doismilestresse


Peço perdão antecipado pelo limite ultrapassado no trocadilho que dá título a esse post, mas essa aglutinação brega é a melhor coisa para dar conta desse meu ano que vai chegar ao fim daqui a algumas horas. Foram três períodos da faculdade em um ano com poucas férias e quase nenhum feriado, um dia-a-dia sem noção e sono suficiente; muito trabalho, mas muita coisa boa e muito crescimento. Por aí tenho ouvido que 2013 foi um ano para fazer jus à fama de azarado de seu último decimal e acompanhei muita gente passando por maus bocados nesses últimos doze meses, mas acho injusto dizer que o meu também foi ruim só porque atravessei a linha de chegada com meio metro de língua pra fora e uma bandeirinha branca. 

Nunca estive tão cansada, é verdade, mas não foi tudo de todo ruim. Aliás, meu 2013 foi uma coleção de dias estressantes em que eu acordava pensando que não ia dar conta, mas o que me fazia levantar era o fato de sempre ter algo bom me esperando lá na frente. Atravessei pequenos desertos, mas encontrei um oásis no fim em todas as vezes. Não consigo reclamar disso. 

Há exatas duas semanas eu e meus amigos da faculdade fizemos uma festa de final de ano. Como cada um é de um canto e não passamos Natal e Ano Novo juntos, a festa era pra unir essas duas comemorações e nos dar um gostinho do que era viver essas datas juntos. Era uma brincadeira, claro, mas fizemos direitinho e o jantar foi comido com pompa de ceia de Natal e à meia-noite nos abraçamos, trocamos votos de tudo de bom nessa vida, uma garrafa de champagne barato foi passando de mão e mão na roda e naquela noite eu voltei pra casa sentindo uma energia diferente, como se eu tivesse mesmo vivido o Natal e o Ano Novo num intervalo de poucas horas. Como minha família não tinha grandes planos para as festas desse ano além dos de sempre (cada ano mais preguiçosos), resolvi que aquele noite tinha sido o meu Natal e meu Ano Novo e talvez por isso os dias que se seguiram, até hoje, passaram fazendo com que eu me sentisse em um limbo bizarro, presa num vão que não era 2013, mas não tinha frescor da folhinha nova no calendário. Sumi da internet, da vida e até um pouco de mim, por isso não vejo a hora de acordar amanhã com aquela sensação maravilhosa de que algo novo está começando, ainda que seja mais do mesmo. 

Para não perder o costume, um pequeno balanço (inspirado no post da Juliana Cunha):

O que foi legal em 2013
- Fui pro Nordeste com a minha família duas vezes e matei minhas saudades do mar;
- Dois encontrões mafiosos;
- São Paulo com os amigos, Lollapalooza, show do Killers;
- Consegui uma iniciação científica com um tema que me interessa de verdade;
- Fiz matérias que mudaram minha cabeça de lugar e me ensinaram mais sobre o que eu sou, o que eu penso e acredito;
- Escrevi bastante - ainda que o blog tenha ficado em quarto plano;
- Aprendi a dirigir de verdade e perdi o medo do trânsito;
- Aprendi a passar delineador;
- Descobri que fotografia é legal;
- Criei coragem pra ficar ruiva e gostei do resultado;
- Senti o quanto meus pais me amam e se importam comigo - nunca duvidei disso, mas esse ano eles demonstraram isso de uma forma diferente e muito mais intensa. São os melhores do mundo;
- Consegui participar mais (no sentindo Charlie da coisa);

O que não foi legal em 2013
- Percebi que não dou conta de fazer tudo que tenho vontade de fazer e tive que largar coisas no meio do caminho;
- Vi que meu pai estava mesmo certo quando dizia que uma hora meu corpo ia cobrar a conta e fiquei muito doente e muito surtada por achar que eu dava conta de tudo;
- Dormi pouco e comi mal;
- Não passei na prova do Detran;
- Bati o carro;
- Só fiz bagunçar meu quarto e bagunçar ainda mais sobre a bagunça e agora eu muito sinceramente não sei como proceder;
- Vi poucos filmes;
- Me irritei desnecessariamente com as coisas ao meu redor;
- Me senti mais ovelha negra do que nunca;

Coisas que quero fazer em 2014, mesmo não acreditando em resoluções de Ano Novo
- Tirar carteira de motorista, pelo amor de Deus, isso já tá ficando ridículo;
- Levar o francês mais a sério e estudar de verdade - não só quando tem prova ou quando é dia de entregar o livro;
- Me organizar melhor para parar de virar noites ou acordar quatro e meia da manhã pra terminar algum trabalho;
- Viajar: com a Máfia, com os amigos e com a família;
- Ler um livro nacional por mês;
- Fazer cartões de Natal para as pessoas que eu gosto (nota mental: começar a fazer na Páscoa);
- Tentar de verdade manter um diário de papel, mesmo que ele seja feito só de quotes, letras de música e recortes de jornal;
- Encarar a papelada e tudo de chato e angustiante que envolve eventualmente estudar fora do país;
- Ler mais jornais e revistas e não só os colunistas que eu gosto e as páginas de artes;
- Fazer força para dormir antes da meia-noite, pelo menos durante a semana (ou no mínimo quando eu tiver que acordar antes das 9h);
- Aprender a mexer na minha câmera analógica e fazer coisas legais com ela;
- Atualizar o iOS do meu celular;
- Comprar um estojo e um caderno novos (pois é);
- Ir mais à igreja;
- Arrumar de verdade meu armário e não só organizar marromenos pra menos de um mês depois estar tudo uma zona de novo;
- Fazer algo legal no meu aniversário e não ficar surtada e deprimida e querendo me esconder das pessoas;
- Dizer mais sim do que não (mas com sabedoria).

New year's resolution - to write something of value
New year's resolution - to write something would be fine


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Discoteca 2013

Seguindo a tradição iniciada ano passado, vou novamente listar aqui os CDs que mais gostei de ouvir no ano de 2013. Não sou nada apegada a lançamentos e por isso nem ousarei fazer uma lista de favoritos lançados esse ano, essa é só uma listagem absolutamente subjetiva sobre os discos fizeram o meu ano, que contemplará trabalhos dos anos 60, coisas que entraram na lista da Pitchfork de melhores do ano e também aqueles que caíram no ostracismo porém fizeram meu coração. 


"More Adventurous", Rilo Kiley: Esse CD vai completar 10 anos ano que vem e foi a última coisa realmente relevante que o Rilo Kiley produziu - e ainda assim é o meu disco querido de 2013. Estou começando a achar que Rilo Kiley é a banda da minha vida (mais sobre isso em alguma outra oportunidade) porque a elegi ano passado como a banda do ano e não consigo não fazer uma dobradinha nesse. "More Adventurous" esteve comigo de janeiro a dezembro e tem tudo a ver com o que eu vi, fiz, pensei e senti no ano que passou e com tudo que eu vejo, faço, penso e sinto na vida, no geral. Não é a trilha daqueles meses, nem é sobre mim e alguma outra pessoa, mas é a minha, e só minha, alegria egoísta, pau pra toda obra, tatuagem na alma, etc e tal. Jenny, Blake, tamo junto, nos fones e na vida. 
Musiquinha do coração: "Portions for foxes", "Does he love you?"


"Summerteeth", Wilco: Se 2004 não parece remoto o bastante, o segundo disco do meu ano é de 1999. Wilco é uma das minhas bandas favoritas há anos e esse ano o que não faltou foram boatos de que eles finalmente viriam tocar no Brasil. Nada foi anunciado e minhas esperanças estão começando a minguar, mas tenho ouvido Wilco loucamente como se assim pudesse atrai-los pra cá. Nunca tinha prestado atenção no "Sumerteeth", mas graças ao shuffle, que colocou "She's a jar" pra tocar despretensiosamente, tenho passado os últimos meses mergulhada em paixão por esse CD sensacional de 17 faixas, todas elas me fazendo estremecer de amor, identificação e desespero por que COMO PODEM SER TÃO BONS??, POR QUE TODAS AS PESSOAS DO MUNDO NÃO AMAM WILCO TANTO QUANTO EU??? Enfim. Preciso de um show deles. Logo. 
Musiquinhas do coração: "A shot in the arm", "She's a jar", "Via Chicago"


"Monomania", Clarice Falcão: Haters gonna hate o quanto quiserem, eu amo essa mulher. "Monomania" é o melhor nome possível para esse álbum de estreia, porque o efeito dele em mim é de sempre dizer que vou ouvir uma música em específico e me pegar ouvindo ele inteiro, várias vezes seguidas, sem conseguir parar. Não sei por que todo mundo cobra que todo lançamento da música brasileira precisa ser fierce enquanto não temos nada contra cantorinhas fofas americanas. Vamos amolecer esses corações e ser mais felizes, por favor!
Musiquinhas do coração: "Talvez", "Capitão Gancho", "Macaé". 


"The Next Day", David Bowie: Faço minhas as palavras da Lya para resumir minha relação com David Bowie: Não conheço o quanto gostaria. Não ouço o quanto deveria. Respeito pra cacete. Não sou letrada nele, não sei discorrer sobre sua discografia, mas sempre o achei um dos caras mais legais do mundo e nutria um carinho distante porém genuíno. Em 2011 o Flaming Lips lançou uma música se perguntando se ele estaria morrendo, por causa de sua reclusão de anos, e fiquei devastada quando li esse texto ano passado sobre a decadência do camaleão. Então, vibrei quando ele lançou esse CD esse ano, não o disco de um velhinho decadente, mas um puta trabalho que mostra tudo que ele ainda pode fazer. Fiquei feliz de finalmente poder fazer parte de um pedacinho da história da sua carreira e a capa genial de "The Next Day" ainda me deu um gancho bem ótimo pra um trabalho da faculdade que fiz sobre indústria cultural, haha.
Musiquinhas do coração: "Valentine's day", "The stars (are out tonight)", "Dancing out in space".


"AM", Arctic Monkeys: Pego muito no pé dos macaquinhos do Ártico e nossa relação é cheia de altos e baixos (mais sobre isso em outra oportunidade), mas "AM", o álbum do ano pra um monte de gente respeitada, fez com que eu me curvasse em definitivo pro talento desses caras para muito além do charme da bossa de Sr. Alex Turner. "AM" é um trabalho foda da primeira à última música e fico genuinamente satisfeita quando vejo bandas que começaram como sensações hypadas indiezinhas com guitarrinhas rápidas fazerem música de gente grande. O que dizer sobre a turnê desse disco que nunca vi de perto mas já sinto falta pacas?
Musiquinhas do coração: "No.1 party anthem", "Do I wanna know?", "Arabella".


"Days Are Gone", HAIM: HAIM é mais do que a melhor banda dos últimos tempos da última semana surgida em 2013, é um estilo de vida. Alana, Danielle e Este são três irmãs sensacionais da Califórnia que fazem um som que parece um Fleetwood Mac revisitado, cantam sobre os dramas das mocinhas modernosas do século XXI, são pessoas sensacionais e performers fantásticas. Assistir suas apresentações ao vivo e suas entrevistas (todas) no Youtube e salvar todas as suas fotos sendo lindas e inspiradoras numa pastinha do Pinterest é tão necessário quanto ouvir esse disco, um dos meus tesouros desse ano que passou.
Musiquinhas do coração: "My song 5", "Don't save me", "The wire".


"Modern Vampires Of The City", Vampire Weekend: Acompanho Vampire Weekend desde o comecinho, ainda que eu nunca tenha sido fanática por eles. De todo jeito, fica um orgulho gostoso, muito parecido com o que sinto pelos Arctic Monkeys, ao vê-los superando os cinco minutos de amor no coração da indiezada e construindo uma carreira consistente, com trabalhos cada vez mais bacanas. Não tem uma música desse CD novo que eu não goste e ainda que eu não tenha decidido se vou ou não ao Lollapalooza do ano que vem, se eu decidir encarar o Vampire definitivamente vai ter um peso grande nessa decisão. Acho que vai ser demaisão vê-los ao vivo numa fase tão ótima - Ezra Koenig, te amo, te quero. E é sem dúvidas a capa mais bonita de 2013.
Musiquinhas do coração: "Hannah Hunt", "Unbelievers" e "Step".


"Battle Born", The Killers: E por falar em Lollapalooza, esse ano tive a chance de ver o Killers, uma das minhas bandas favoritas da vida. Definitivamente não é a melhor fase deles, e esse CD, lançado ano passado, não me empolgou nem um pouco no início, mas fiz uma imersão nele pra poder aproveitar o show. No fim das contas fiquei chateada que eles não colocaram mais músicas dele no setlist, como "Heart of a Girl" e a cafonérrima (porém querida) "Here With Me". Também foi um dos CDs que mais ouvi dando voltas no quarteirão pelo bairro quando estava aprendendo a dirigir, então ele sempre vai me lembrar de coisas importantes e especiais desse ano.
Musiquinhas do coração: "Miss Atomic Bomb", "The way it was", "Runaways".


"Prolonging The Magic", Cake: O Cake foi outro fruto do Lollapalooza, mas ao contrário do Killers, ele nunca foi uma das minhas bandas favoritas. Na verdade, nunca realmente parei pra ouvir Cake até esse ano, e resolvi baixar a discografia pra aproveitar bem o show - que foi uma delícia! "Prolonging The Magic" foi o disco com o qual eu mais me apeguei, o que foi ruim só porque não é um trabalho muito popular e só duas músicas foram tocadas. Mesmo assim, tenho um carinho enorme por ele e pela banda, que é oficialmente a minha trilha sonora do volante (mais sobre isso em outra oportunidade).
Musiquinhas do coração: "Mexico", "Guitar" e "Walk on by"


"Sacode!", Nevilton: Conheci essa banda simpática através da coletânea "Jeito Felindie", que entrou na minha Discoteca 2012. Baixei o CD mais novo deles, lançado esse ano, pra conhecer um pouco mais e me apaixonei. Acho que finalmente superei o Los Hermanos e por isso estava sentindo falta de uma banda de rock nacional para amar. O som do Nevilton lembra Los Hermanos nos seus primeiros anos, mas com um vigor diferenciado e com muita qualidade. A vibe é de viagem pra praia com os amigos, ainda que eu tenha ouvido sentada na janela do ônibus aqui mesmo em Uberlândia. 
Musiquinhas do coração: "Crônica", "Noite alta", "Friozinho" e "Bailinho particular".


"If You Can Believe Your Eyes And Ears", The Mamas and The Papas: A única coisa boa que a temporada de Dexter trouxe pra mim foi o estímulo pra começar a ouvir The Mamas and The Papas. Não sei o que dizer sobre o por que amei e me apeguei tanto e tão rápido, por que pra mim parece impossível que alguém não ame e se apague a esse quarteto dos anos 60 que nos faz sonhar e flutuar. E Mama Cass, a grande estrela e melhor vocalista, é diva para todo sempre amém. Esse CD de 66 é perfeito para se ouvir nas épocas mais caóticas da vida, porque colocam paz no coração juntamente com as harmonias maravilhosas do grupo. 
Musiquinhas do coração: "Monday monday", "Go where you wanna go", "I call your name". 


Trilha sonora de "The Bling Ring": Sou obcecada pela história real de Bling Ring desde 2010, quando o caso vazou pra mídia e o reality show Pretty Wild estreou na E! Por causa dessa curiosidade permanente, me refastelei esse ano com o livro (decepcionante) e a dramatização no cinema (ótima) do caso dos adolescentes de classe média que invadiam casas de celebridades pra roubar suas roupas e pertences. Quem dirigiu o filme foi meu amor de Coppolinha e é claro que ela matou a pau. Das muitas coisas que chamam atenção, uma delas é a trilha sonora, com muito rap, hip-hop e letras de ostentação - tudo a ver com o espírito do filme. Nunca fui muito ligada a esses batidões, mas tenho curtido cada vez mais, um dos motivos pra trilha do filme não sair do meu celular. 
Musiquinhas do coração: "Crown on the ground" (Sleigh Bells), "Bad girls", "Sunshine" (M.I.A).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vestida para não lidar

Eu tenho esse par de tênis, sabe, bem bonitos até. Quer dizer, eles eram lindos há quatro anos atrás, quando foram comprados. Os detalhes em dourado ainda tinham brilho, e a parte branca não tinha ficado encardida pelo uso. É um par de tênis com uma vibe meio skatista, ou o mais próximo disso que uma pessoa como eu (que faz as unhas toda semana e passa blush todos os dias) pode chegar: a vontade de arranjar um namorado skatista e ir num show do Blink 182. 

Eu usava eles quase todo dia pra ir pra escola, daí os detalhes em dourado que hoje são apenas um amarelo forte meio tristinho e a parte branca toda encardida, motivos que me levaram a deixá-lo ali no fundo do armário. Também tem o fato de que era uma coisa ok de se usar com calça jeans e o blusa de uniforme da escola, mas desde que abandonei essa vida ingrata de colegial, meu tênis de skatista-com-batom-vermelho não casa mais com meus trajes civis. Me sinto uma daquelas mães que insistem em usar as roupas da filha de 15 anos e ninguém avisa que ela já passou dessa fase - não que eu tenha deixado de ser 14 anos no coração e sabe Deus como eu ainda canto com fervor All The Small Things no carro e no banho, mas é bom tentar manter as aparências. 

O negócio é que mesmo que esses tênis não saiam mais comigo com a frequência de antes, eu nunca consegui me desapegar deles. Vira e mexe eu abro o meu armário e eles são a única coisa que eu quero, porque são os meus sapatos de não-lidar, ideal para aqueles dias em que eu saio da cama com vontade de voltar pra ela, incapaz de encarar de cabeça erguida o dia que me espera. Dias que já começam com o pé esquerdo, com muito sono acumulado e dor nas costas, em que eu passaria de bom grado a chance de interagir com algum ser humano. Meus tênis de não-lidar ainda existem no armário para me ajudar naqueles dias em que eu não tô pra vida, e nessas ocasiões eles são meus sapatinhos de cristal. 

Esse par de tênis pode não ter mais detalhes em dourado e estar meio encardido para todo sempre amém, mas ele é o sapato mais macio que eu tenho. Além disso, eu consigo calçá-lo sem precisar de desamarrar os cadarços e depois amarrá-los de novo, ainda que ele fique com aquela aspecto largo e largado - e eu automaticamente começo a ouvir Nobody's Fool tocando ao fundo, por mais que o primeiro CD da Avril Lavigne esteja esquecido na gaveta há anos (mentira). Se tem uma coisa com a qual eu não gosto de lidar nesses dias de não lidar é com cadarço, mas o pouco de dignidade que me resta me impede de apelar pra um tênis de velcro ou, pior ainda, um Crocs com meia. 

Aí vocês me dizem que não faz sentido eu me dar ao trabalho de calçar um tênis quando posso simplesmente sair de Havaianas e dar uma banana para a sociedade bem calçada uberlandense, mas já teorizei aqui uma vez sobre o poder exercido pelas meias no meu ânimo. Um colchão quentinho e macio para os pés que aquece a alma, um restinho de infância nos pés desafiando a monotonia da vida adulta e o monopólio das meias brancas, uma resistência silenciosa em forma de desenhos das Meninas Super-Poderosas numa fachada de universitária mais ou menos séria. Como complemento perfeito, os tênis de não-lidar, servindo de escudo às meias amuleto, que me lembram que já vivi dias melhores e outros hão de vir.

Somando a esse desleixo ideologicamente construído, a boa e velha legging preta e uma camiseta de banda - alternativa socialmente aceitável que substitui àquela camiseta brinde de congresso (ou lembrança da feira de ciências de 2008) que é um pijama perfeito para noites não-lidáveis, mas no dia-a-dia é sempre bom estabelecer limites. E é assim, querida leitora, que você fica pronta para encarar um dia que passaria melhor se não encarado, mas ninguém aqui está com a vida ganha. Pegue aqueles óculos escuros gigantes, providencie Blink e Avril Lavigne para ouvir no talo com fones de ouvido, e espere pacientemente que o dia passe sem maiores danos.

No meu caso, fico sentada com a mão no queixo evitando qualquer interação, mas não vou mentir que ainda não desisti daquele namorado skatista.

Hoje não, Rodrigo

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Shadow-kissed Anna

Começou um pouco antes disso, mas nós fomos reparar há duas terças-feiras atrás, quando eu e meu amigo Rodolfo tivemos a mesma ideia sobre o trabalho de diagramação que tínhamos que fazer. Assim que eu perguntei pra professora se era possível fazer da forma como eu tinha imagino, ele olhou pra mim e disse: você roubou a minha ideia. Nem era uma ideia tão boa ou revolucionária assim, por isso não achei nada demais. Mas, na quarta-feira daquela mesma semana, aconteceu de novo: enquanto a professora nos explicava a respeito do trabalho de Radiojornalismo, que consistia em capturarmos o som da cidade, eu tive uma ideia de como fazer o meu. Essa sim, modéstia a parte, foi boa. Tão boa que eu não consegui esperar até o intervalo para dividi-la com minha dupla, e enquanto eu dizia pra ela que nós íamos na missa de domingo fazer a captura de som, logo na fileira ao lado o Rodolfo dizia exatamente a mesma coisa para sua dupla.

Ela, que estava mais perto, ficou me olhando embasbacada. Eu e Rodolfo tivemos a mesma ideia e falamos ela exatamente na mesma hora. Ele foi um cavalheiro, me deixou ficar com a ideia da missa e começou a pensar em outra coisa, mas foi aí que nós começamos a reparar que aquilo era no mínimo estranho. Anna, para de entrar na minha cabeça, foi a forma que ele arranjou de reconhecer o fenômeno. 

A terceira ocorrência, na segunda-feira da semana seguinte, foi a mais assustadora de todas. De novo, eu disse uma coisa que ele estava pensando há muito tempo e não tinha contado pra mais ninguém. De novo, a gente se olhou embasbacado com a coincidência, as pessoas ao redor estavam lá para comprovar que não foi nada combinado, e eu comecei a achar que talvez eu estivesse mesmo passeando pela cabeça do meu amigo. Falei que ele deveria tomar cuidado comigo, que estava possuída por uma esponja sugando tudo que passava por suas ideias. Rimos. Esquecemos. A gente sabe que foi grande. A gente sabe o que estava fazendo no momento. A gente sabe que foi grande o suficiente para nos deixar pensando que de fato estivéssemos nos comunicando por telepatia. E agora a gente esqueceu completamente o que foi. 

Nos últimos dias, tem acontecido direto. No domingo, por exemplo, ele me mandou vários (vários mesmo) exemplos de logo que havia feito pro nosso jornal-laboratório. Eu escolhi dois que havia gostado mais, os mesmos dois que ele tinha definido como seus preferidos. No dia seguinte, mostrei pra ele a capa que eu tinha feito para o jornal, usando como ilustração e manchete uma matéria que eu inventei, mas bem que queria colocar em prática algum dia. Ele tinha pensado na mesmíssima pauta. Hoje fazia frio quando eu acordei, frio o bastante para eu vestir um roupão quentinho antes de ir pra cozinha fazer meu chá. E aí, no início da tarde, o céu se abriu todo azul, fez calor, e eu me arrependi da blusa de mangas compridas que usava. Rodolfo chegou na sala de aula de suéter, xingando o calor que tinha voltado. Meia hora depois o céu ficou cinza e começou a chover. Nós olhamos pra fora. Essa cidade está ESQUIZOFRÊNICA, dissemos juntos. Ênfase no adjetivo. Esquizofrênica. Ninguém pensa nisso ao mesmo tempo se não estiver sendo vítima de uma sintonia telepática brutal. Não é como gritar gol depois de um lance certeiro, não é como berrar de susto na cena do palhaço de Poltergeist. 

A única maneira que encontrei pra explicar esse transmimento de pensação intenso que tem rolado entre a gente tem a ver com os livros da Richelle Mead. Sim, os vampiros. Não, não só não desapeguei como agarrei firme na Vampire Academy (graças ao maravilhoso e cintilante clube do livro da Irena) e em menos de uma semana cheguei ao terceiro volume - minuto de silêncio pela minha dignidade. E aí que no livro a protagonista Rose tem um elo de espírito com sua melhor amiga Lissa, e vira e mexe ela se vê na cabeça da amiga, sentindo o que ela sente, pensando o que ela pensa, vendo o que ela vê. É um elo que funciona de um lado só: enquanto Rose sente literal e visceralmente suas tristezas, angústias e até mesmo está presente nas pegações da amiga, Lissa não consegue compartilhar dos sentimentos da outra mais do que qualquer pessoa normal conseguiria. Isso acontece porque (talvez isso seja um spoiler) Lissa salvou Rose da morte, graças a seu poder de cura que veio de brinde com seus dons do espírito. Assim, é como se Rose tivesse um pedaço da alma de Lissa consigo, o que permite esse elo bizarro que às vezes é uma mão na roda posto que além de amiga, Rose é a guardiã de Lissa, único membro restante de uma família real de vampiros e perseguida por muita mal intencionada (I KNOW RIGHT!!!!) Pesquisando sobre esse fenômeno, Rose descobriu que havia outras ocorrências assim na literatura vampiresca, e que pessoas como ela eram chamadas de shadow-kissed, beijada pelas sombras, um jeitinho cafona de chamar aquela pessoa que já olhou nos olhos da morte e voltou pra contar a história. (fim do talvez-spoiler).

Isso é o que eu chamo de estar com a cabeça no lugar.

E aí tudo se encaixou. Ainda não consigo me lembrar daquele dia loucaço em que eu morri num acidente de carro e o Rodolfo me salvou, mas o elo definitivamente é real. Ou isso ou o simples fato de que eu tenho um amigo com quem eu me dou tão bem que agora a gente pensa as mesmas coisas e tem as mesmas ideias, e que bom que nós trabalhamos muito juntos.

A melhor parte disso tudo é que segundos antes de ele sugerir que essa maluquice virasse uma crônica eu já tinha decidido qual seria o texto de hoje. Nem falei isso na hora para não aparecer marmelada, mas acreditem em mim. Richelle Mead explica.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Lembrança de Itapuã

Sexta-feira, durante aula que parecia não acabar resolvi dar uma olhada no Facebook - não me julgue, caro leitor, eu sei que você também faz isso. Entre gente xingando o Joaquim Barbosa, gente exaltando o Joaquim Barbosa, gente xingando quem xinga ou exalta o Joaquim Barbosa e contagens regressivas para o fim de semana, me deparo com uma foto da minha mãe. De chapéu, óculos escuros e vestido azul de verão, lá estava ela passando uma tarde em Itapuã e fazendo pose ao lado da estátua de Vinícius de Moraes, que agora existe na praia imortalizada por seu poema.

Falando com ela ao telefone no dia seguinte, descubro que de Itapuã mamãe vai levar a foto e a lembrança dos calafrios que fizeram com que ela deixasse a praia em menos de dez minutos. Uma viagem tenebrosa de táxi e duas paradas para vomitar depois e ela estava de volta ao hotel, onde passou os últimos dias de cama, enrolada em lençóis empapados de suor. A culpa era de um camarão com procedência duvidosa que ela, mineira empolgada, comeu em seu primeiro jantar em Salvador. Somando a doença ao péssimo café da manhã do hotel, às praias sujas e ao preço abusivo de tudo - "R$6 uma garrafa de água, imagina na Copa!", o resultado foi a volta da viagem adiantada em dois dias. 

O problema é que as únicas pessoas que souberam dessa pequena grande intempérie das férias de mamãe foram as amigas que estavam com ela e eu. Para o microcosmo que acompanha suas aventuras pelo Facebook, foi uma viagem incrível, pois a ordem lá é ser feliz.

A rede social exibe para o mundo a melhor versão de nós mesmos, construída com esmero por meio de fotos das festas e das férias, um registro eterno daquele efêmero instante em que o meu cabelo estava mais bonito do que nunca e daquela noite em que eu troquei o misto quente de todos os dias por um fotogênico prato de gente grande. No Facebook, até o suco de couve receitado pela nutricionista parece ter gosto de ambrosia. 

No mundo real, acordo de mau humor, tenho olheiras, pontas duplas e posso pegar intoxicação alimentar, desventuras às quais estou suscetível, assim como o resto mundo, pelo simples fato de ser humana. Todavia, essa falibilidade parece insuportável num mundo moderno que me dá controle sobre quase tudo, daí a sedução exercida por redes como Facebook, que me permitem editar minha própria vida de modo a mostrá-la da forma mais curtível possível. 

É uma ilusão patética que criamos, para nós e para os outros, doentia ao ponto de eu sentir inveja da cor do meu próprio cabelo nas fotos, da mesma forma como me frustrei vendo fotos da minha mãe na praia enquanto eu estava na aula. Um pesquisador de Stanford concluiu que por mais sorridentes que estejamos em nossas fotos de perfil, o Facebook é a rede social que mais deixa as pessoas tristes, pois o contraste entre o mundo real e o universo paralelo altamente curtível acaba com o ânimo de qualquer um.

Mentira boa é aquela que nos faz esquecer da verdade, já dizia minha avó, e por isso nós comparamos os bastidores da nossa vida ao espetáculo da vida dos outros - frase maravilhosa que a Analu me disse um dia, mas que a própria não tem certeza se é coisa da sua cabeça ou se foi retirada de algum lugar -, sem lembrar que todo álbum de viagem aparentemente perfeito guarda algum caso de vôo atrasado ou intoxicação alimentar. Ninguém fotografa esses momentos de humanidade pura, mas é um consolo interessante lembrar deles, principalmente numa tarde de sexta-feira, durante aquela aula que não acaba nunca. 

Pensarei nisso da próxima vez que estiver entediada e resolver dar uma olhada no Facebook – ou talvez eu escolha a dedo uma citação de Foucault e diga que estou assistindo à melhor aula da minha vida.

(Apelei e aproveitei uma crônica que escrevi para uma matéria da faculdade, mas juro que é porque o dia foi foda e está longe de acabar. Mesmo numa semana terrível, a missão suicida segue firme, quem vai me acompanhar?)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Aquele com o dedão

Todo mundo tem uma história de dedo amassado na porta do carro pra contar, e se ainda não tem pode esperar - e nem adianta prestar atenção antes de fechar a porta. Aliás, todo mundo tem duas histórias de dedo amassado na porta do carro pra contar, sendo a primeira delas culpa dos pais ou adulto responsável e a segunda é nossa mesmo, naquele dia que não prestamos atenção antes de fechar a porta.

Bom, sexta-feira eu consegui cumprir minha cota obrigatória.

Depois de passar anos ouvindo mamãe contar, às vezes com lágrimas nos olhos por conta de uma culpa que teima em não ir embora, sobre aquele dia que ela fechou meus quatro dedos na porta do carro, agora finalmente posso confiar na minha própria memória na hora de descrever para os outros essa dor visceral. Não gritei como fiz aos quatro anos, mas assim como minha mãe fiquei em dúvida se tinha inchado muito rápido ou se meus dedos são gordos daquele jeito mesmo. 

Depois de esperar a semana inteira e uma aula que parecia não ter fim, saí da faculdade borboletando ansiosamente rumo ao shopping. No meio da faixa de pedestres da primeira rua que eu tinha que atravessar para chegar até lá, sinto os grossos pingos de chuva na minha cabeça. De vestido, sandália aberta e sem guarda-chuva, não tive muita opção senão voltar para o campus e mendigar uma carona pra um amigo. Esperei uns bons vinte minutos porque ele enfrentou um cosplay de dilúvio até chegar lá e achou que não fosse conseguir ficar inteiro pra me contar a história, mas no fim das contas lá estávamos nós no estacionamento, vivos e secos, contemplando o horizonte de uma noite de sexta que nos prometia exatamente aquilo que nós, jovens universitários com 35 anos no coração, mais queríamos da vida: Hambúrguer! Filme! Açaí!

Inebriada por essas perspectivas, não prestei atenção antes de fechar a porta e no meio do caminho tinha um polegar, tinha o meu polegar no meio do caminho e meu Jesus Cristinho como doeu.

I'm Jack's broken heart.

A dor de um dedão amassado na porta do carro é o tipo de cacetada que nos acorda pra vida, o tipo de impacto que faz nascer um clube da luta, o tipo de dor que nos lembra da nossa humanidade. A porta do carro foi com tudo no meu dedo, mas eu senti uma coisa ruim no corpo inteiro e só olhando pra minha mão espremida na porta que eu percebi de onde vinha a perturbação. Foi tão forte que de repente eu não sentia mais nada e comecei a rir junto com meu amigo, gargalhar e exclamar em voz quase alta como eu era burra. E no meio da gargalhada eu senti lágrimas quentes na margem dos meus olhos porque as risadas mandaram a adrenalina fora e a dor veio, pulsando, e eu tinha a impressão que a qualquer momento meu dedo ficaria gigante e vermelho, maior que a minha cabeça, como numa história em quadrinhos onde ele ocuparia o quadrinho inteiro, dividido apenas com as onomatopeias das minhas exclamações de dor e talvez as estrelas e passarinhos em volta da minha cabeça.

I'm Jack's raging bile duct.

Dor, gente, fazia tempo que eu não sentia tanta dor. Ao menos não uma dor tão direta. Vocês já pararam pra pensar que basicamente tudo o que a gente vive atualmente é uma experiência mediada e não direta? Seja a tragédia nas Filipinas que faz chorar quando vista pela TV ou aquela cólica horrorosa, que por mais doída que seja ainda acontece entre você e seu útero que contrai nas horas mais impróprias. Fechar o dedão na porta provoca uma dor intensa, brutal e absolutamente direta, só perde para um soco no nariz vindo de um gancho de esquerda nos fundos de um restaurante, pela madrugada.

I'm Jack's wasted life.

Fui no banheiro, passei uma água no rosto, deixei muita água correr no dedo pulsando e fui encarar a fila. E entre a preocupação com o fato de que o filme que iríamos ver não aparecia no telão animado da bilheteria - mais um obstáculo nos separando da noite de sexta perfeita - e a realização de que eu provavelmente perderia minha unha, o mundo começou a girar. Igual filme, talvez pior, eu comecei a ver pontinhos pretos e coisas desfocadas, os sons ficaram distantes e parecia que eu não tinha energia para pegar um chiclete na bolsa e tentar espantar aquilo. Enfim o quadrinho que me mostra vendo estrelas e com vários passarinhos sádicos girando ao redor da minha cabeça. Não sei como não desmaiei no caminho que percorri trançando as pernas até o banco mais próximo.

I'm Jack's cold swet.

E aí, depois do pior as coisas sempre ficam bem. Ou talvez o fato do meu sonhado hambúrguer ter vindo errado, ou a energia acabando no meio do filme e até mesmo o completo desastre de trem que o remake de Carrie - A Estranha se mostrou ser - tudo isso se juntou para que eu esquecesse completamente do meu dedo. Eu nem teria pensado mais nele não fosse pelo fato de que a vida fica muito mais difícil quando não se tem um polegar opositor pra te ajudar a segurar o garfo com firmeza ou descrever freneticamente o quão ruim é o remake de Carrie para a Taryne no Whatsapp. Não é irônico que uma dor assim tão direta se mostre um obstáculo para experiências que nos fazem experimentar a vida de forma mediada do modo como faz um smartphone? Amassar o dedão na porta do carro nos lembra que somos humanos justamente porque ele nos tira um dos traços evolutivos que possibilitou justamente que fossemos complexos o bastante para sonhar com hambúrgueres, produzir filmes e ir ao cinema. E ao mesmo tempo, estúpidos o suficiente para não prestar atenção na hora de fechar a porta.

I'm Jack's inflamed sense of rejection.

Acordei sábado às seis da manhã com dor. O dedo pulsado, dolorido e enjoado. Tentava voltar a dormir mas olhando aquele roxo que se formada na parte de trás quis muito alcançar meu celular e digitar no Google algo que tivesse a ver com gangrena provocada por uma pancada, só para descartar as possibilidades, sabe como é. Depois pensei na minha unha e na tristeza que seria perdê-la. Pior ainda se alguém viesse me dizer que eu poderia ter evitado isso se tivesse colocado gelo na hora, coisa que não fiz porque meu amigo querido, Matheus Fernandes, disse que eu estava sendo manhosa e que não tinha sido nada. Virei pro outro lado e pensei que se minha unha viesse a cair eu iria lhe enviar os restos mortais pelo correio, como numa mensagem mafiosa. Nada de peixe enrolado no jornal ou cabeça de cavalo sangrando na cama, mas uma unha de dedão infeliz, para ele nunca mais subestimar a minha dor.

I'm Jack's smirking revenge.

Fechar o dedão na porta nos lembra que somos humanos e todo mundo mundo vai passar por isso um dia. E essa é a história do meu.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Te peguei no colo

Ontem minha prima Mariana completou 11 anos de idade, e bem quando eu estava escrevendo uma mensagem pra mandar pra ela, percebi que sem ver tinha escrito que não acreditava que eu já tinha pego ela no colo. Me assustei com essa frase não só porque é absurdo que a prima que eu até hoje vejo como um bebê tenha vividos anos que não cabem mais nos dedos da mão, mas sim porque eu sempre odiei ouvir que os outros já me pegaram no colo. Nada contra colos, nada contra os outros, mas não gosto de adultos nostálgicos, principalmente esses que, diante de evidências da passagem do tempo, adoram lamentar os anos idos como se fosse uma coisa muito ruim crescer.

Acho que é por isso que nunca gostei muito de fazer aniversário, pois isso significa que vou ter que ouvir de um monte de gente que parece que foi ontem que eu cabia em seus colos e que droga eu não ser mais um neném. Como se eu fosse uma pessoa muito pior hoje do que quando babava em suas roupas e como se eu tivesse culpa de alguma coisa. Se pudesse escolher eu também ficaria pra sempre na época em que podia fingir dor de barriga para não ir pra escola e assistir Convenção das Bruxas na Sessão da Tarde, por mais que ache que infância é a fase mais superestimada de todas - mas isso é caso pra outro post. O negócio é que odeio a nostalgia deprimente dos adultos ao meu redor e pior ainda quando ela vem de algum amigo dos meus pais que eu não vejo há quinze anos que vem me perguntar se eu lembro daquela vez que vomitei depois de comer um monte de danoninhos. É claro que não lembra, você era tão pequena. Acredita que já te peguei no colo? 

Só que a Mariana fez 11 anos ontem e a única coisa que eu conseguia pensar era naquela tarde que eu cheguei atrasada na escola porque fiquei na maternidade esperando para segurar ela colo. Li em uma dessas listas de coisas que todo mundo deveria fazer antes de morrer que era preciso ver alguém nascer e se desenvolver para ter uma vida completa. Por mais que meu susto tenha muito daquele pasmo existencial que tão bem descreveu o Antonio Prata ao dizer que vira e mexe descobre que uma coisa que ele pensava ter acontecido há dois anos já conta cinco, o que me atormentou mesmo foi pensar que aquela menina que na minha cabeça tinha parado nos seis anos já é um ser humano tão cheio de ideias, vontades, sonhos e segredos como qualquer outro, como eu fui quando tinha a idade dela e como sou hoje. 

A gente tende a olhar para a nossa infância como se fosse uma vida paralela à nossa, com lembranças que são um misto de registro pessoal e tudo que apreendemos das fotografias, histórias que nossos pais não cansam de repetir e também aquelas que inventamos sem querer. Mas, veja bem, com onze anos eu já era muito eu, se é que vocês me entendem. Euzinha, amiga de muitos dos meus melhores amigos, fãs de bandas que gosto até hoje, vivendo muitas das histórias que hoje conto pros outros e são as mais engraçadas e malucas que eu tenho. Aos onze anos, eu já tinha um blog, queria escrever um livro e fiz uma revista com as minhas amigas na aula de redação da escola. Aos onze anos eu era apaixonada pelo filho da minha professora de Português seis anos mais velho que eu, e a gente conversava sobre The O.C. (!) e eu comecei a ouvir Pearl Jam pra ele me achar muito legal. Aos onze anos eu já tinha uma coleção de blusas de bolinha e só não pintava minhas unhas de preto porque minha mãe não deixava.

Ou seja, pouca coisa mudou de lá pra cá. Hoje eu pinto as unhas de preto, gosto de verdade de Pearl Jam e quando encontrei o filho da professora de português no shopping há um tempo atrás me senti vesga por ter pensado por muitos meses que ele era o cara mais bonito da escola.

Assim como o Antonio Prata (de novo, sempre ele) que não se recupera do susto de olhar sua filha bebê dormindo no berço e perceber que ela existe ("Olivia, você não existia e agora existe: olha só o que você fez, sua doida!"), não me recupero do baque de pensar que, meu Deus, a Mariana também existe. Não só existe como já leu todos os Harry Potter, os Diário da Princesa (essa série eu chegarei nos vinte sem ter concluído) e muito mais livros que eu na idade dela. Ela existe e assiste coisas que eu nunca ouvi falar e quando ouço nome fico me perguntando se é filme, série ou boneca nova da Mattel - mas mesmo assim eu fiz com que ela adorasse A Noviça Rebelde, Grease e o próximo passo é apresentar-lhe Audrey Hepburn. Ela adora One Direction, já desencanou da Lady Gaga e eu espero que daqui uns nove anos ela ainda lembre de todas as letras e possa cantá-las bem alto quando estiver sozinha em casa. E que o One Direction leve logo aos Beatles, mas tudo bem ter um post do Harry no quarto, porque ele é mesmo lindo. Mas Violetta nunca vai ser tão bom quanto The O.C.

Pensando nisso, concluí que tenho coisas muito mais importantes para dizer do que voltar o holofote pra mim e atrapalhar o aniversário dela com minhas lembranças nostálgicas. Muito melhor que isso é dizer que:

1) Prepare-se



2) Acredite


3) Eu prometo que vai ser 


4) Mariana, minha flor, eu te peguei no colo, mas os melhores dias da sua vida virão agora. Aproveite, seja muito feliz e conte comigo para assistir Grease quantas vezes quiser.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Filminhos de férias e etc #2

Eu juro que eu acreditei que veria um filme por dia nas minhas férias. Não consigo nem sentir raiva da minha ingenuidade, porque acreditar nisso mostra que, apesar dos pesares, eu ainda acredito em mim e não tô podendo dispensar isso nos últimos dias. É claro que eu não só não vi um filme diferente todos os dias como não vi quase filme nenhum. A culpa eu garanto que é de Parks and Recreation e dos YAs que li nas últimas semanas, e dito isso não vou chorar mais o leite derramado e as férias desperdiçadas. Vou colocar aqui o que consegui assistir e o que andei vendo nos últimos dias.

Reality Bites (Ben Stiller, 1994): Pois é, eu também não sabia que o Ben Stiller já tinha dirigido um filme - e olha que esse não é o único. Ando vendo muitos filmes sobre jovens de vinte e poucos anos que não sabem o que fazer da vida meio que já me preparando para quando chegar minha vez de enfrentar essa barra, e esse filme é um exemplo do sub-gênero. Quer dizer, em partes. Gosto imensamente da primeira metade do filme, que mostra a turminha da Winona Rider tentando virar gente depois da faculdade enquanto a personagem dela registra tudo em filme para fazer um documentário sobre sua geração, mas não entendo como ele termina sendo uma comédia romântica, ignorando completamente alguns personagens, como a genial Vickie, interpretada pela Jeneane Garofalo. Mas no fim das contas eu jamais vou conseguir desgostar de um filme coming of age dos anos 90 com a Winona Rider no elenco.

Bridesmaids (Paul Feig, 2011): Esse filme parece ser uma comédia pastelão do Judd Apatow como tantas outras, mas foi abraçado por muitos críticos e também feministas, por ser supostamente empoderador e cheio de girl power. Bom, é bem verdade que as personagens femininas são mostradas de uma forma mais tridimensional que boa parte dos filmes, principalmente se a gente pensa nas comédias mais comerciais. No entanto, a meu ver, o filme ainda peca por insistir em reforçar o estereótipo de que é impossível que uma amiga veja a outra triunfar sem sofrer um surto psicótico. Também tiraria a sequência escatológica que só me deixou com vergonha alheia. Apesar dos pesares, ele consegue ser bem divertido e tocante em alguns momentos, mas o hype definitivamente não se justifica pra mim.


Serra Pelada (Heitor Dhalia, 2013): Acho que gostei tanto de Serra Pelada porque não esperava nada dele e por isso fui surpreendida, e também porque a vibe me lembra, e muito, filmes de gângster, coisa que eu adoro - em específico Scarface. O roteiro gira em torno da história de dois amigos que vão para o garimpo de Serra Pelada tentar a sorte, e o mote tem a ver com ambição desmedida e delírios de poder. Muita gente disse que o filme tinha ares de western, mas acho que a lama na qual os personagens chafurdam tem mais a ver com o império da cocaína em Miami de Scarface. Claro que o Juliano Cazarré jamais será um Tony Montana da vida, mas também não faz feio. Outra coisa que adorei foi a trilha sonora, só com músicas bregas, e a estética meio kitsch do filme, o que é bem legal. Senti que alguns personagens, como o do Wagner Moura, foram pouco explorados, mas no geral Serra Pelada me agradou bastante.


Gravidade (Alfonso Cuarón, 2013): Umas duas semanas antes
desse filme estrear, saí com meus amigos e nós passamos quase a noite toda falando sobre ele e nossas expectativas de que seria um filme fantástico que mudaria nossas vidas e percepções. Quando isso acontece, a realidade tem tudo para dar uma avacalhada nos nossos sonhos, mas Gravidade entregou exatamente aquilo que eu estava esperando: um filme como eu nunca tinha visto antes. Acho que o Cuarón foi extremamente feliz e esperto ao apostar em um roteiro tão simples mas, ao mesmo tempo, profundo e tão próximo do espectador. Ele não cedeu aos impulsos de fazer um filme absurdo de ficção científica cheio de explosões e fez todo mundo prender a respiração por uma hora e meia só retratando como somos pequenos diante da imensidão do universo. Foi uma experiência sensorial e cinematográfica incrível e fico triste por todas as pessoas que não tiveram a chance de vê-lo no cinema, não acho que a televisão conseguirá passar a mesma impressão. Escrevi uma resenha mais completa para a Revista 21.

Kick-Ass 2 (Jeff Wadlow, 2013): Se Gravidade conseguiu ser mais incrível que as minhas mais altas expectativas, Kick-Ass me fez ver que quanto maior o salto, maior a queda. Eu adoro o primeiro filme porque ele é cheio de quebra de expectativas, com um herói magrelo e nerd que de fato só apanha. Tem toda aquela ultraviolência e o humor nonsense que fazem de Kick-Ass um filme fantástico. O problema do segundo é que ele se parece menos com a brincadeira do primeiro, e aí a violência incomoda e muito do humor parece mais constrangedor do que qualquer outra coisa. Não sei vocês, mas eu passei o filme inteiro me sentindo mal por todos os personagens e acho que essa não era a proposta. Os pontos altos são o Jim Carrey (!), McLovin' e Chloe Moretz, pra variar, mas é sempre bom ver o menino Aaron Taylor-Johnson que cresceu pra caramba desde o último filme. Risos.

O lugar onde tudo termina (Derek Cianfrance, 2012): Se esse filme tivesse uns 40 minutos a menos de duração, é bem provável que eu amaria sinceramente. Ele tem tudo que eu mais gosto: personagens ferrados, sinas shakespearianas e mágoas de família, mas é tão grande e enrolado que fica difícil manter a boa vontade, e o final clichê não ajuda - saudades tragédia. Acho que o Cianfrance ficou meio culpado depois da porrada que deu em todo mundo em Blue Valentine, e aí resolveu fazer um filme onde coisas ruins acontecem, mas há esperança no final. Gosto bem mais dele mostrando que o suicidas tinham razão. Nota de rodapé: embora com uma participação pequena, sempre maravilhoso ver Ryan Gosling com cabelo descolorido e um monte de tatuagens misteriosas.

Os suspeitos (Dennis Villeneuve, 2013): Esse filme nos faz ver que o problema nunca é a duração do filme, mas sim um roteiro que não nos prende até o fim. Porque, assim como o filme do Cianfrance, Os Suspeitos tem duas horas meia - horas essas que eu não vi passar porque estava muito ocupada encolhida de tensão na poltrona do cinema. O thriller gira em torno do desaparecimento de duas garotinhas e é bem amarrado, executado e tem personagens muito intrigantes. Saí do cinema me sentindo mal, tensa e até com dor de cabeça, mas acho isso incrível porque mostra que o filme realmente permite que a gente se entregue à história, e isso não tem preço. Acho que o único thriller que me deixou com mais medo (sim, medo!) e apreensão foi O Silêncio dos Inocentes. Ou seja! Nota de rodapé: Jake Gyllenhaal com suas camisas de gola claustrofóbica e tatuagens misteriosas me deixou absolutamente hipnotizada.

Jogos Vorazes: em chamas (Frances Lawrence, 2013): Que. filme. foda. Juro que não esperava que ele
fosse me empolgar tanto, tendo em vista minha relação conturbada com a trilogia, mas a verdade é que saí do cinema querendo aplaudir, gritar, ir pra guerra com a Katniss e assistir tudo de novo na sequência. Me arrisco a dizer que gostei mais do filme do que do livro - embora o segundo seja o queridinho de todo mundo, não lembro de ter ficado tão empolgada assim. Adorei o fato de ele ser um entretenimento incrível, com sequências espetáculo e tudo que as superproduções de Hollywood dão direito, mas ao mesmo tempo desenvolve direitinho os personagens e aborda todas as questões pertinentes da história cheia de críticas sociais. Todo meu amor à Jena Malone, uma deusa maravilhosa no papel de uma das minhas personagens favoritas Johanna Mason. Queria muito que o cinema americano desse mais valor pra ela. No mais, já sofrendo de ansiedade pro próximo filme.

Frances Ha (Noah Baumbach, 2012): Mais novo filminho do coração. Frances Ha é Girls com uma garota só e uma dose a mais de açúcar, porque a gente também precisa sonhar e nem sempre tá com saco para o realismo da Lena Dunham. Mais um do sub-gênero jovens-perdidos-nesse-mundão, ele conta a história de Frances, uma dançarina tentando virar adulta em Nova York, levando um monte de rasteiras da vida e estourando o cartão para passar um fim de semana em Paris. A protagonista é tudo que a mocinha de Bridesmaids queria ser e falhou miseravelmente e é cheio de coadjuvantes queridos - inclusive Adam Driver, que interpreta o asno do Adam em Girls. É um filme lindo (filmado em PB, a cara de Manhattan), real e inspirador, que mostra que você pode estar na lama e mesmo assim não ter surtos psicóticos ao ver as pessoas ao seu redor conseguindo alguma coisa da vida. Quero ser melhor amiga da Frances, correr com ela pelas ruas de NY, usando vestidos com legging pro resto da vida, ao som de David Bowie. Quero apenas correr de mãos dadas por NY junto com Frances, usando vestidos com legging pro resto da vida e ouvindo David Bowie.



domingo, 24 de novembro de 2013

A problemática cartesiana das estrelas

Somos todos frutos de uma conspiração que sonhava com um mundo descrito em uma planilha do Excel, ou pelo menos é assim que eu vejo a modernidade. Eu, você, o seu Zé na portaria e a paquera nossa de cada dia no Facebook, somos herdeiros diletos de circunspectos homens que uma bela manhã resolveram dar boas vindas às luzes do conhecimento, recebendo junto com ela um sistema de pesos e medidas, o método científico e a cisão definitiva entre cérebro e coração. Não sou Ignatius J. Reilly, protagonista do livro Uma Confraria de Tolos, que sente saudades do mundo perfeito que nunca conheceu da Idade Média, mas estou disposta a escrever uma extensa denúncia contra o nosso século; vou me lembrar de sua falta de teologia e geometria, mas gostaria de endereçar alguns xingamentos em caixa alta ao responsável pela sistematização da nossa existência, porque eu não aguento mais racionalizar cada aspecto da minha vida nos minutos antes de dormir.

Estou falando, claro, da dificuldade que é classificar em estrelas os livros que li.

Eu sei que algumas pessoas gastam anos escrevendo teses inteiras sobre a leitura e o ato de ler, mas vamos nesse momento escolher a simplicidade de aceitar que ler nada mais é do que abandonar nossa existência patética para, por minutos ou horas, entrar em outro mundo, história e vida - com o adicional de que muitas vezes esse universo distante e esse personagem aleatório falam exatamente sobre a nossa existência patética, uma vez que, como genialmente colocou minha amiga Milena, todas as histórias são sobre nós. Eu sei, ler é a melhor coisa do mundo, mas não é esse o meu ponto.

Meu ponto é que é impossível condensar toda essa experiência quase mística em cinco míseras estrelas que pouco dizem por si só. Elas não exprimem os insights que eu tenho a respeito de passagens de livros do John Green mesmo meses depois da leitura, muito menos conseguem traduzir tudo que eu aprendi com os ensaios do Franzen e tampouco fazem jus à delícia que é chorar com um chick-lit sabidamente ruim porém maravilhoso. Eu sei que sempre existe a opção de deixar um parágrafo para a posteridade no Skoob explicando que aquelas três estrelas querem dizer "ótima ideia, execução chocha" ou então que aquelas cinco foram dadas porque, apesar de não ser o melhor livro do mundo, eu amei tanto a leitura que seria incapaz de lhe retirar qualquer fagulha brilhante de mérito.

Mas, como nem sempre há tempo e disposição para deixar essa explicação a quem interessar possa e porque eu realmente preciso escrever sobre as estrelas, fica aqui a minha indignação. A parte boa é que eu tenho a sorte de conhecer pessoas tão malucas como eu, que não só sofrem ao dar estrelas aos livros como também gostam de teorizar a respeito. A Analu, por exemplo, sempre causa polêmica com as três estrelas que ela adora dar aos livros, enquanto a Tary vive revisando suas classificações porque sabe que no calor do livro recém fechado nós fornecemos pareceres pouco confiáveis. Couth costuma comparar com a classificação de outros livros, para ter um parâmetro, e a Milena consegue ter critérios mais complexos que os meus.

Então, para fins de consulta posterior, desencargo de consciência e também para encurtar possíveis justificativas, compartilho com vocês meus critérios estelares:


A estrela solitária é o prêmio de consolação dedicado aos livros que não foram agradáveis em nenhum sentido, ou seja, aqueles que são tecnicamente ruins e cuja leitura não deu prazer algum. Se contar com o adicional de ter me deixado nervosa, some a estrela e entra um ponto triste e sem graça no lugar.
Exemplo: Gossip Girl 1 - Cecily Von Ziegesar


As duas estrelas são para aquelas leituras que não foram boas, definitivamente, mas que também não foram um desagrado completo. Elas servem também para classificar aqueles livros que, embora reconhecidamente bons, não foram agradáveis de ser lidos. Acho bem possível separar a técnica da apreciação, pois já livros que reconheci serem ótimos mas que não gostei nem um pouco de ler (Iracema) e outros que sei que são ruins, mas que gostei de ler de todo jeito. Mas, no geral, as duas estrelas representam aquela coisa de bom não foi, mas não perdi muito do meu tempo. 
Exemplo: Por Isso A Gente Acabou - Daniel Handler

                                                    

As três estrelas são, de longe, as mais complexas. Elas traduzem muita coisa e sua má compreensão pode gerar mágoas para uma vida inteira. Quando eu, Anna Vitória, classifico um livro como três estrelas, quero dizer, de modo geral, que aquele foi um livro bom que não mudou a minha vida, aquela leitura agradável que daqui há uns dois meses eu já vou ter esquecido. Em alguns casos, dou três estrelas para livros que tem boas premissas mas pecam na execução ou aqueles que tinham tudo para ser ótimos mas escondem um MAS bem grande embaixo do tapete. 
Exemplo: Todo Dia - David Levithan


Simpatia é quase amor seria o jeito carnavalesco de definir as quatro estrelas. Eu também diria que recebe quatro estrelas aquele livro que você chama pra morar junto com você, mas que ainda não se sente segura para casar. Quatro estrelas é o é bonitinho, mas da literatura ou o clássico não é você, sou eu. Ou seja: no meu Skoob, ganha quatro estrelas o livro que eu adorei, mas que não considero perfeito, ou então aquele livro excelente que eu não amei com fervor religioso. 
Exemplo: O Oceano no Fim do Caminho - Neil Gaiman


As cinco estrelas são fáceis de ser explicadas e dadas, pelo menos pra mim. Qualquer livro que eu ame sinceramente e considere também excelentes do ponto de vista literário são dignos delas. Essa parte técnica eu avalio bem do meu jeito, de acordo com as coisas que eu considero importantes e prestando atenção em tudo aquilo que me incomoda. Se passar por essa porta estreita, ou seja, sem pisar em nenhuma mina terrestre das minhas antipatias (são tantas!), ele já é vitorioso. Já o amor é aquela coisa, né. Tem que bater lá no fundo de um jeito específico, pular no mínimo três vezes como uma pedra bem lançada no laguinho, tem que durar na minha cabeça e nas minhas ideias por um tempo razoável e me fazer querer tatuar alguma quote na alma e me fazer suspirar olhando a cidade enquanto penso: ler é a melhor coisa do mundo. 
Exemplo: A Culpa É das Estrelas - John Green


terça-feira, 19 de novembro de 2013

12 coisas que me lembram que viver é bom


A Amanda, do Maçãs Verdes, inventou esse meme simpático e delicioso que consiste em listar as 12 coisas que abrilhantam nosso dia-a-dia. Fui convidada a respondê-lo e faço isso com muita alegria e facilidade, porque sou uma pessoa que se alegra com coisas ridiculamente simples. Depois de fazer minha lista concluí que se eu estiver bem alimentada e ouvindo a música certa, é difícil não estar bem.

1 - Chuva

Vocês sabem que eu sou maluca e adoro quando chove. Muito. Sou uma pessoa que quando abre a janela do quarto de manhã cedo e dá de cara com um dia pesado, cinza e úmido, começa a cantarolar como o Joey e seu vizinho naquele episódio de Friends. A chuva atrapalha muito minha vida, sim, e o universo sempre conspira para que eu termine qualquer dia chuvoso pingando e com as meias molhadas, mas isso não me impede de preferir mil vezes um dia de chuva a um dia de sol escaldante. Amo acordar e dormir com o barulho da chuva, adoro o cheiro que ela deixa no ar, fico horas olhando a chuva caindo pela janela e aposto corrida de pingos de chuva no vidro molhado. Gene Kelly me compreende.

2 - Love On Top

Algumas horas antes da minha primeira prova de Teorias da Comunicação I, eu estava desesperada. Desesperada porque não achava que havia estudado o suficiente, em pânico porque a impressão que eu tinha era que já havia esquecido de tudo que eu estudei, surtada porque sabia que eu ia me dar mal. Liguei para um amigo meu, surtamos no telefone, prometemos largar o curso assim que saíssemos da prova e eu comecei a ouvir Love On Top antes de sair de casa. E foi mágico. Quatro minutos e meio pulando no quarto com Beyoncé, um tempo suspenso no ar em que a única coisa que havia do mundo real eram os berros dela no refrão eterno. Essa pequena terapia me fez ter coragem de encarar o mundo por cima, olhar bem nos olhos da minha prova e me preparar para o que viesse. E por isso que, até hoje, esteja eu num dia bom ou ruim, Love On Top sempre proporciona esse momento de êxtase e fuga da realidade. Nem que seja por quatro minutos e meio.

3 - Café da manhã

Ok, não é qualquer café da manhã. Até porque essa é uma refeição que eu tento fazer todos os dias e nem sempre é especial. Cafés da manhã abrilhantam meu dia quando tem algo muito gostoso pra comer. Não precisa ser da pompa e circunstância de uma refeição de hotel, mas saber que tem croissant, pão de queijo fresco e iogurte grego já me faz levantar da cama animada e dar de ombros pros cinco minutinhos a mais de sono que a cama me pede. Pegar um dia de café bom na cantina da faculdade combinando com pão de queijo saindo no forno na hora do meu intervalo é o retrato de uma manhã gloriosa. Hotéis nordestinos com tapioca feita na hora me fazem querer dormir cedo só pra acordar logo e poder descer pra tomar café. Cheiro de café fresco, meio-amargo-mas-não-muito, vindo da cozinha, me tira do quarto flutuando como um personagem de desenho animado. Se tiver bolo e morango, então, pode acreditar que vou ficar duas horas na mesa.

4 - Conversar abobrinhas

Existe coisa melhor que falar besteira? Não, não existe. Poucas felicidades se comparam àquela que vem depois que você se dá conta que devia estar em casa há mais ou menos duas horas, mas passou todo esse tempo falando bobagem com alguém. Adoro conversar trivialidades, discutir a vida de personagens fictícios como se fossem reais, relembrar momentos divertidos, pirar na batatinha, criar teorias inúteis, e rir muito disso tudo, de preferência. Seja pessoalmente, antes, depois ou durante alguma aula, por telefone, whatsapp ou chat do Facebook: conversar sobre banalidades sempre deixa meu dia melhor.

5 - Quebras inesperadas de rotina

Jenny Lewis já disse que all the immediate unkowns are better than knowing this tired and lonely fate. Eu odeio rotina. Odeio saber o que me espera, odeio saber dos meus passos antes de dá-los ou prever o que alguém vai dizer antes mesmo de essa pessoa abrir a boca. Odeio quando os dias são iguais aos outros e percebi que os vivi no stand-by, sem me dar conta do que aconteceu no intervalo de tempo que separou a manhã da noite. Por isso, eu amo quando esses padrões se quebram e eu sou forçada a prestar atenção no que acontece ao redor. Não estou falando de pegar um jatinho pra jantar em Roma, mas de coisas simples como sair pra tomar sorvete depois da aula, fugir pra ir no cinema no meio da semana, comer pastel e tapioca na feira (tudo sempre acaba em comida), vontades que vem do nada satisfeitas, caminhos alternativos e convites inesperados. 

6 - Ligar a TV e encontrar um filme que adoro no começo

Adoro quando estou zapeando os canais da TV cheia de preguiça e de repente encontro um filme que adoro muito prestes a começar. Se eu tiver tempo, pode ter certeza que vou assistir, seja pela segunda ou trigésima vez. 

7 - Expectativas

Dizem por aí que você deve criar tudo nessa vida, menos expectativas. Crie unicórnios ou uma poupança da Caixa, mas esqueça das expectativas. Concordo em partes. Idealizar o futuro pode gerar frustração, mas é tão gostoso ter coisas boas pelas quais ansiar! Novamente, não falo de coisas grandiosas. Eu sou o tipo de pessoa que passa a quarta-feira sentindo uma ansiedade gostosa porque à noite tem Saia Justa na TV ou, como a Analu lembrou genialmente, acorda feliz só de pensar que no outro dia vai poder dormir até mais tarde. Dizem que o segundo antes do beijo é melhor que o beijo em si, e às vezes, naquelas vésperas de viagem, nos minutos antes de alguém chegar, ou até nos patéticos segundos que separam o ônibus virando a esquina e a volta pra casa, eu quase acredito que isso é verdade.

8 - Cochilos

Eu falo tanto sobre cochilos nesse blog que é até redundante dizer que dormir faz meu dia muito melhor. Dormir é uma benção, se for fora de hora é prazer triplicado, e se o sono acontecer no lugar de outras coisas mais importantes, eu chego a flutuar. Nem a culpa e o desespero que costumam acompanhar o despertar, depois de dez minutos ou quatro horas de sono inapropriado, conseguem eclipsar as ondas de felicidade que sinto no meu corpo e no meu cérebro, do tipo que só o sono dos justos traz até você.

9 - Momentos esteticamente perfeitos

Quem chamou minha atenção para eles foi a Tavi Gevinson, que escreveu sobre aquelas cenas da nossa vida que são tão perfeitas e esteticamente apropriadas que nem um filme da Sofia Coppola faria melhor justiça às nossas lembranças. Normalmente são instantes breves de perfeição absoluta que muitos nem registram, mas flagrá-los me deixa definitivamente mais feliz. Atravessar de carro um viaduto vazio ao som de Forgive Me. Cantarolar baixinho um trecho de música e ser acompanhada pelas pessoas ao redor até se dar conta de que todo mundo está cantando Claudinho e Buchecha no meio do campus. Ver o sol se pôr boiando de barriga pra cima sozinha num mar sem ondas. Andar de braços dados na Avenida Paulista ao fim do dia de um fim de semana perfeito. Chuva fina caindo sobre sua cabeça na hora da sua música preferida, no show de uma das bandas favoritas. 

(socorro, eu sou muito brega)

10 - Me sentir bonita

Não estou falando de ocasiões especiais ou momentos pós-salão de beleza, mas nesses dias singelos em que o cabelo acorda no lugar certo, o rosto está viçoso, a gente estreia uma roupa nova ou percebe que escolheu a roupa perfeita para aquela ocasião específica. Dias de batom colorido, vestido rodado, salto alto depois de anos de sapatilhas ou aquele dia em que me elogiam quando estou de short jeans, havaianas e camiseta de banda. 

11 - Livros

Seja o ritual de começar um livro novo (que a Analu também descreveu e eu me identifiquei muito), ganhar um livro de presente, passar um tempão em uma livraria fazendo carinho nos livros e desejando todos, longas e animadas conversas literárias, ficar completamente entorpecida por conta de uma leitura, querer comer aquelas páginas com chantilly ou me encolher para me enfiar dentro delas e me cobrir com as letras, organizar a estante, recomendar um livro pra alguém, passear no sebo e na biblioteca e até mesmo dormir em cima de um livro depois de três linhas lidas ao fim de um dia muito longo. 

12 - Chico, o poodle

E, por fim, a cereja do bolo. Como não ver o dia brilhar tendo do meu lado esses sete quilos de amor, ternura e barriga cor-de-rosa? Chico, o poodle, com seu jeito apático e sua preguiça interminável tem o poder de melhorar meus melhores dias e fazer dos piores um pouco mais doces. Amo sentir ele quentinho e respirando nos meus pés enquanto durmo, adoro nossos longos passeios pelo bairro, a forma como ele esquenta minha barriga a ponto de aliviar a cólica, suas manias de ser humano, o fato de ele amar roupas e lenços e até mesmo sua travessura favorita, que é roubar minhas meias. Eu e minha mãe passamos o dia falando dele, rindo dele, olhando pra ele e suspirando de amor e, mesmo sendo um cachorro, ele é uma das minhas pessoas favoritas do mundo. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Vampiros e eu: round 3

Eu tinha 14 anos quando li Crepúsculo. Lembro que de repente comecei a ouvir falar sobre a saga em tudo quanto é lugar e uma menina mais antenada da minha sala me contou tudo sobre a série, disse que eu precisava daquilo na minha vida e me passou os livros já lançados em pdf.  Eu e minha amiga Anaisa lemos tudo juntas em uns três dias, e eu lembro de ligar pra ela num desespero muito sincero porque era muita idealização e tensões romântica e sexual pro meu pobre coração de garota-da-oitava-série lidar. Foi uma semana de frenesi intenso por causa do vampiro que brilha no sol e que pula a janela pra te ver dormir, uma semana de apreciação despudorada e acrítica até eu ver que a Bella era mala o bastante pra eu não ter condições de continuar lendo aqueles livros, sete dias até eu perder a paciência. Mas foi uma boa semana. 

Eu tinha 15 anos quando li Drácula. A saga Crepúsculo tinha chegado nos cinemas e vivia seu auge de público e repercussão, em tudo quanto é lugar se ouvia falar da revolucionária (!) série de livros que transformou os vampiros sanguinários em príncipes encantados politicamente corretos e vegetarianos. Eu já estava começando a achar essa ideia um pouco patética e como sempre fui fã de uma treta, resolvi ir beber na fonte que Stephanie Meyer tinha bebido - e depois cuspido e profanado. Li Drácula e ele se tornou um dos meus livros favoritos e foi a melhor leitura do ano de 2009. A estrutura da narrativa feita com páginas de diário de diversos personagens e cartas enviadas entre eles me conquistou, a figura do Conde Drácula era sedutora  por ser misteriosa, intrigante, mas, ao mesmo tempo, absolutamente repulsiva.

Acho que, por causa de Drácula, eu nunca consegui comprar muito bem esses romances de vampiro. Apesar do apelo sedutor inegável da figura, sempre os associei a cadáveres ambulantes e eu nunca consegui tirar da minha cabeça o impacto da descrição da morte lenta e gradual de Lucy, que noite após noite foi tendo sua vida sugada por um vampiro. Eles podem ser ser maravilhosos, fortes, sedutores, galãs, brilhar no sol, virar pó no sol, promover uma carnificina na piscina pra te honrar, mas quando penso em vampiro sempre vou me lembrar da nefasta morte da Lucy.

E como fantasia nunca foi muito minha praia, deixei os vampiros de lado.

EXPECTATIVA


REALIDADE


Até que, aos 19 anos, eu li Laços de Sangue. Recebi esse lançamento do selo jovem da Companhia das Letras, Seguinte, que está promovendo a autora, Richelle Mead, no Brasil. Eu nunca tinha ouvido falar na moça, nem no livro e nem em nenhuma outra coisa que ela tivesse escrito. A única coisa que sabia era que se tratava do primeiro volume de uma série, a Bloodlines, e que mais uma vez entraria nesse território onde vampiros estão misturados com os humanos. Comecei a leitura cheia de preguiça e má vontade.

O livro é narrado por Sydney Sage, uma garota que faz parte do grupo dos alquimistas, um grupo que cuida para que os humanos não descubram que existem vampiros entre eles e pra fazer o controle de danos ocasional quando eles se envolvem em alguma enrascada. A missão de Sydney nesse livro é proteger uma jovem princesa vampira do reino dos Moroi (pois é), e precisa fazer isso se disfarçando de irmã dela e morando em um colégio interno em Palm Springs. Junto com elas está Eddie, um dampiro (mestiço entre humano e vampiro, pois é) que é guardião da princesa Jill, e além disso Sydney tem que lidar com alguns vampiros que moram na cidade e com seu superior, uma presença incômoda que a lembra de burradas feitas no passado.

As primeiras páginas foram uma tortura. Embora eu leia bastante YA's, fazia tempo que não lia algo do tipo e estava totalmente desacostumada com livros de fantasia para adolescentes. Eu achava tudo brega, exagerado e caricato, aquele universo não me convencia e me parecia cheio de pontas soltas, com coisas que eu não conseguia entender direito. Foi então que eu descobri que a série Bloodlines é, na verdade, um spin-off da série de maior sucesso da autora, a Vampire Academy, que foi surpreendentemente elogiada por todas as pessoas com quem comentei que estava lendo um livro da Richelle Mead. Aí, tudo fez mais sentido, até mesmo o grande erro de Sydney, que nunca é explicado no livro, e os personagens aos quais ela faz referência com frequência mas que são pouco explorados na trama. 

Isso me fez desencanar um pouco dos buracos na história que me incomodavam e me permiti envolver com a leitura. Não sei se fui eu que mudei de atitude ou foi a história que começou a fluir, mas sei que se as primeiras 50 páginas foram um suplício, as 100 últimas foram embora em um dia. A trama começa a se desenrolar e vem cheia de algumas surpresas bem interessantes. Os personagens tomam alguma forma e relações bacanas são criadas. Ships acontecem, pra variar, e fiquei feliz ao ver que, pelo menos nesse volume, não rolou nenhum triângulo amoroso que eu chutei que aconteceria assim que os personagens masculinos foram apresentados. Laços de Sangue termina de um jeito que até eu, logo eu, me coloquei a pesquisar sobre os volumes seguintes porque meio que preciso saber como isso vai se desenrolar. São seis livros and counting e não sei até onde minha paciência vai me permitir ir, mas sei que estou disposta a ler O Lírio Dourado. E talvez o primeiro livro da Vampire Academy. Assim, por curiosidade. Tipo, se tiver o Adrian.

Estava lendo o livro no ônibus quando uma menina de uns 14 anos se sentou do meu lado. Ela disse que meu livro era lindo e pediu pra folhear. Toda animada foi lá mostrar pra mãe, me perguntou sobre a história e disse que definitivamente iria procurar pra comprar. Se eu não tivesse que terminar pra escrever esse texto eu daria o livro pra ela na hora, porque todo mundo merece sete dias de euforia num universo paralelo, por mais absurdo e errado que ele pareça à primeira vista. Vida longa de uma semana aos vampiros que brilham no sol, às tatuagens com propriedades especiais e aos Moroi boa gente de Palm Springs.