sexta-feira, 25 de julho de 2014

What was I thinking when I said hello?

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva do Rotaroots, grupo criado para reunir blogueiros de raiz que sentem falta da blogosfera moleque e pé no chão. Para participar, junte-se a nós no grupo do Facebook mais cheio de nostalgia que já se teve notícia e coloque seu link no rotation. O tema desse mês é: A primeira vez que eu ouvi minha banda favorita
Não lembro exatamente se era janeiro ou julho, mas sei que era São Paulo e que chovia lá fora, exatamente como acontece agora na minha janela enquanto escuto Either Way, mais uma de muitas e muitas outras vezes, que começaram a ser acumuladas naquela manhã cinza de janeiro ou julho, certamente em 2009.


Meu tio foi pegar o jornal lá fora e voltou já rasgando uma caixa da Amazon, como se tivesse seis anos de idade e encontrasse um Nintendo 64 embaixo da árvore de Natal, com seu nome na etiqueta. Dentro da caixa estava um vinil do Sky Blue Sky, sexto álbum de estúdio do Wilco, o primeiro deles que eu ouvi, com a capa mais bonita do mundo inteiro, ainda mais bonita no formato enorme e sofisticado do vinil. Eu nunca tinha ouvido falar daquela banda, e lá estava meu tio, um homem feito, quase chorando de felicidade por conta de um vinil. Ele, que coleciona discos, me contou que raramente compra vinis novos, mas que esse lançamento do Wilco foi um presente de aniversário dele pra ele mesmo, uma auto-indulgência que valeu cada dólar gasto e todos os dias de espera, porque o Wilco é esse tipo de banda.

Eu não fazia ideia do que esperar do Wilco. Meu tio tem um gosto bem diversificado, e sua coleção vai de Racionais a Jenny Lewis, Radiohead a Snoop Dogg, Roberto Carlos a Death Cab For Cutie. Qualquer coisa podia sair daqueles alto-falantes. Mas, mesmo se eu soubesse o que me aguardava, acho que nada poderia me fazer antever o efeito que a primeira música, Either Way, causaria me mim. Nem trinta segundos de música e Jeff Tweedy já tinha derretido minhas tripas, a primeira de muitas e muitas outras vezes, nesses cinco anos de Wilco na minha vida.


(Trivia: uma vez mandei essa música para um mocinho aí, num delírio romântico que me fez acreditar que se ele gostasse daquilo tanto quanto eu, experimentaríamos um outro nível de conexão emocional, seja isso o que for. Ele nem amou tanto assim, e agora que o romance não vingou, acho que fiquei mais chateada por ele não ter gostado de Wilco do que por ele não ter ligado pra mim.)

O resto das férias se passou com o disco girando todos os dias na vitrola da sala, e não demorou para que eu aprendesse a assobiar algumas melodias e cantarolasse baixinho as minhas favoritas. O Wilco não se parecia com nada que eu, aos quinze anos, tivesse ouvido antes. Não conhecia nenhuma banda que fizesse um som tão sofisticado, tão limpo, que misturava arranjos de piano a solos de guitarra de mais de três minutos, com aquelas letras que eram ora cheias de urgência, ora de uma tristezinha resignada, mas sempre com uma esperança de fundo apesar da invariável melancolia. Afinal, what would we be without wishful thinking?


Voltei pra casa com Wilco na cabeça, nos fones e a discografia deles num pendrive, mas demorei anos para desbravar alguma coisa além do Sky Blue Sky, meu velho conhecido. Hoje já gosto bem mais de outros trabalhos, como Yankee Hotel Foxtrot (o favorito do mundo inteiro), Summerteeth, The Whole Love e Kicking Television, mas demorou um pouco até que a gente se encontrasse. Acho que precisei desses anos para maturar as coisas dentro de mim e abrir espaço pro Wilco finalmente ter a chance de deixar de ser só a banda diferente daquele verão (ou será que foi inverno?) de 2009 para ser uma banda toda minha, e contar um pouco da minha história - mais ou menos o que eu gosto de acreditar que o Jeff quis dizer quando escreveu que this world of words and meanings makes you feel outside something you feel already deep inside you've denied na letra de On And On And On.

Foi só nesse ano que Wilco se tornou a minha banda favorita. Esse conceito é algo tão absoluto e definitivo  que a afirmação ainda me assusta, por isso vou me apoiar no conforto do momento e dizer que pelo menos nos últimos seis meses não existiu nenhuma outra banda que eu tivesse necessidade de ouvir todos os dias, invariavelmente, nem qualquer outra coisa que provocasse o mesmo efeito que uma música do Yankee Hotel Foxtrot, que se toca uma vez, aleatoriamente, tem que ser seguida do CD inteiro, de novo e de novo e de novo.

E sempre que o dia está muito ruim, como ontem esteve horrível, eu me permito dez minutos de delírio nos quais eu fujo pra Chicago para vê-los tocando, e grito e pulo ao som de Pot Kettle Black estragando o vídeo que eu tento inutilmente gravar.


Quando eu disse isso pra um amigo, ele falou que eu era nova demais pra gostar tanto assim da banda e que eles fazem músicas pra homens de meia-idade, provavelmente em crise. Todos os rabiscos que já fiz na seção de apreciação ao Wilco que mantenho num caderno (sim) depõem contra isso, e meu pai nunca achou nada demais na banda apesar das minhas tentativas de aproximar os dois, mas se isso for verdade, farei questão de coçar minha careca imaginária com consternação sempre que experimentar a sensação de ter minhas tripas derretidas por Jeff Tweedy e sua turma, nos primeiros trinta segundos de uma música qualquer.





segunda-feira, 21 de julho de 2014

Winter has come: coisas para fazer no inverno

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva do Rotaroots, grupo criado para reunir blogueiros de raiz que sentem falta da blogosfera moleque e pé no chão. Para participar, junte-se a nós no grupo do Facebook mais cheio de nostalgia que já se teve notícia e coloque seu link no rotation. O tema desse mês é: 5 coisas para fazer no inverno
Inverno em Uberlândia é mais ou menos assim: de manhã faz um frio desgraçado, à tarde a gente morre de calor com as roupas de frio que usou pra sair de casa cedo, e à noite a gente volta a tremer de frio e jura que só vai sair de sapato aberto de novo em setembro. Todos os dias a mesma coisa. Aí de um lado ficam as pessoas que acreditam no frio, como eu, que saem encapotadas todos os dias, e aquelas que ficam se perguntando se esse ano não vai ter inverno de novo, enquanto passam do lado do meu moletom e do meu gorro de shorts e Havaianas. 

Apesar disso, sempre tem um período de uns quinze dias mais ou menos em que todo mundo concorda que o inverno chegou e que a constante é o frio. Como essa época aparentemente chegou por aqui, resolvi aproveitar a proposta de meme do Rotaroots e listar logo algumas coisas para curtir melhor esses dias que sempre passam rápido demais. 

#1 Tomar chá


Outono e inverno pra mim são sinônimos de Temporada da Boca Queimada. Isso porque eu dou um jeito de tomar chá de manhã, à tarde, e à noite, e mesmo com toda essa constância não fui capaz de adquirir a destreza necessária pra fazer isso sem queimar minha boca ao menos uma vez por dia. Adoro coisas quentes, muito quentes, e sempre subestimo a capacidade dos chás de arrancar fora um pedaço do meu céu da boca. Claro que dá pra tomar chá em qualquer época do ano, e chá gelado é uma delícia no calor, mas felicidade mesmo é sentir aquele mate te esquentar o corpo inteirinho e dar coragem pra abrir as janelas e encarar o dia, ou então ir pra cama mais cedo com uma caneca de chá de camomila e uma reprise de Downton Abbey na TV. 

#2 Ser gótica sem ser julgada


Só no inverno mesmo pra sair de casa inteira vestida de preto durante o dia sem que ninguém te olhe torto por causa disso. Quer dizer, não posso adivinhar o que se passa na cabeça das pessoas, mas gosto de acreditar que ninguém se importa se saio às nove da manhã embaixo de um céu azul de jaqueta de couro e coturno pra ir pra faculdade - afinal, tá frio pra caramba e cada um se vira da forma como acha melhor. Esses dias fui num show numa noite especialmente fria, e que coisa maravilhosa levar o look pirigótica que vejo no Pinterest para a vida real, ao menos uma noite na vida. Preto, couro e botas também não são privilégio do inverno, mas por experiência própria digo que é muito mais agradável estar vestida de acordo com o contexto do que ser a única de coturno do rolê - o que te coloca automaticamente na condição de criatura das trevas perto da galera alto astral, ou simplesmente te deixa com cara de viciada em heroína, como minha mãe adora dizer. 

#3 Andar por aí


Eu adoro andar a pé. Passear pelo centro da cidade é um dos meus programas favoritos, em qualquer cidade que eu esteja. Gosto de prestar atenção nas pessoas, nas casas, ver vitrines, ouvir música, me enfiar em desvios, tudo isso. O problema é que no calor (e em Uberlândia, fora do inverno, faz calor sempre) é um pouco complicado ser feliz nesses passeios, porque envolve o sol rachando a cabeça, a franja que gruda na testa, o rosto que fica brilhando, o suor que insiste em pingar. Ou seja, um monte de contras que atrapalham a delícia que é sair andando por aí. No inverno dá pra bater perna o dia inteiro, e mesmo quando o corpo esquenta, existe aquele contraste gostoso com o ar geladinho do dia, e o cabelo fica maravilhoso mesmo depois de uma tarde de bobeira no centro da cidade.

Ano passado eu passei alguns meses visitando uma instituição que atende moradores de rua, pra fazer uma reportagem. E a casa ficava nos limites da cidade, praticamente. Eram mais ou menos umas duas horas de ônibus, e aqui em Berlandinha isso é muita coisa. A salvação da minha vida foi que o período de mais visitar coincidiu com o frio, porque não sei se seria possível sobreviver pegando três ônibus e andando um monte com equipamento pra cima e pra baixo no calor. #dramasreais #jornalismodadepressão

#4 Tomar sol


Sol é sol em qualquer estação, mas eu amo muito dias frios de muito sol. Lembro da época da escola, quando no inverno a gente sempre ia pro pátio aberto ficar lagartixando ali pra esquentar de manhã cedo, e nos dias que eu tenho aula de manhã, sempre passo o intervalo tomando café e curtindo um solzinho na cabeça. Em casa, adoro deitar com Chico, o poodle, na sacada do apartamento, de modo que ficamos os dois ali curtindo um banho de luz e sentindo a vitamina D agir nos nossos organismos. 

#5 Livros, séries e filmes temáticos


Lembro que a primeira vez que assisti O Iluminado, eu estava em São Paulo em pleno inverno. E foi um inverno daqueles. Lembro que fazia mais ou menos uns sete graus lá fora enquanto eu assistia Jack Torrance enlouquecer no hotel Overlook fechado pra temporada de neve. A combinação de climas contribuiu totalmente pra construir uma atmosfera mais bacana pra ver o filme, e por mais bacana vocês entendam: muito mais tétrica, o que é ótimo. Outras sugestões: maratona de Game Of Thrones, o primeiro filme da trilogia Millenium, Deixa Ela Entrar, O Diário de Bridget Jones e Feitiço do Tempo. 




quarta-feira, 16 de julho de 2014

DIY do dia: somos todas Kurt Cobain

Longe de mim endossar a patrulha de quem se importa se a mocinha de coroa de flores no cabelo e camiseta do Ramones precisa jogar Blitzkrieg Bop no Google pra ver como escreve ou saber do que se trata, mas algo morre dentro de mim sempre que vejo blogs de modas ensinando o bê-a-bá da moda grunge ou aquelas saias rasgadas nas araras da Renner.

Longe de mim chegar aqui com um discurso de que nossos ídolos que morreram aos 27 de overdose estão em cólicas no túmulo de vergonha da gente, embora eu acho que estejam, porque faço parte dessa engrenagem que transformou um mundo num lugar em que se compra uma calça rasgada e manchada numa loja de departamentos, com exemplares idênticos em várias cores e tamanhos, que podem ser encontrados nos melhores shoppings do país - afinal, reconheço que não existe nada melhor do que entrar na Renner e comprar camisa xadrez por quilo. 

GET THEIR LOOK! 
Acontece que há uns meses o universo me deu a chance de subverter as normas comuns, desafiar a sociedade e provar que existe dentro de mim o que quer que seja de um espírito libertário e irreverente que me autoriza a cantar All Apologies com um pouco que seja de autoridade moral, o que quer que isso seja.

Estava eu caminhando, lépida, faceira e atrasada, rumo ao ponto de ônibus. O vento passava pela minha pele, a brisa do outono desfilava sobre a minha figura, mas algo não parecia certo. Eu estava sentindo o ar frio do fim do dia onde não devia. Em outras palavras, eu tinha saído de casa com a blusa furada. Não era um furo qualquer, era um furo desses que acontecem quando o ferro de passar roupa fica grudado no tecido, a pessoa tenta arrancar de qualquer jeito e depois enfia de volta no armário, na esperança de você não usar mais aquela blusa ou então nunca reparar que tem um buraco maior do que seu punho aberto nas costas.


Como é de costume, eu estava atrasada. O ônibus passaria a qualquer minuto, sem me deixar tempo algum pra correr de volta pra casa e trocar de roupa. Eu não tinha nenhuma blusa de frio que quebrasse meu galho, muito menos a opção de usar esse incidente fashion como desculpa pra matar aula. E como situações desesperadoras pedem medidas desesperadas: num só impulso rasguei a blusa até o fim.

Bastou segurar nos dois lados do furo e desfiar o resto, o que ficou fácil porque o tecido era uma sedinha genérica bem fina. Amarrei as duas pontas num nó e dei uma bagunçada no cabelo, só pra garantir que estava tudo dentro de uma mesma proposta - tudo isso a tempo de fazer sinal pro ônibus parar.

Kurt motivacional
Quando contei a história pras minhas amigas, a Couth achou tão inventivo que sugeriu que eu fizesse um post com DIY e tudo, então fica aí a dica pras amigas:

Você vai precisar de 01 incidente doméstico e 02 mãos firmes pra rasgar o tecido - e 01 sutiã bonitinho pra usar por baixo, porque ele pode aparecer do lado, dependendo do tamanho do rasgo.

Feito o processo, ganhe as ruas da sua cidade ao som de Jesus Doesn't Want Me For Sunbeam, para melhor efeito dramático, ou corra por aí ouvindo Modern Love, incorporando a Frances Ha que existe em você, que corre e dribla as adversidades do dia-a-dia com muito estilo e bom humor. Ou faça como eu, siga empoderada pelo espírito rock'n'roll que existe no seu coração, e continue o caminho ouvindo Miley Cyrus e pensando que aquela calça desfiada que você viu na vitrine da Riachuelo ficaria incrível com seu novo trapo de estimação, a peça mais hypada da estação.