sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A minha é Corvinal - foi mal?

Eu cresci ouvindo que tinha que ser inteligente. Não era algo opressivo (nem sempre), mas estava ali. Meus pais me criaram pra ser inteligente. Não um gênio ou um prodígio, mas simplesmente boa naquilo que eu fizesse - fosse caligrafia, o A B C, tabela de multiplicação, história, português, vestibular e qualquer profissão que eu escolhesse. A escolha por uma faculdade de jornalismo não emocionou muito meus pais que sonhavam com uma médica ou uma diplomata, mas eles não deixaram de me apoiar por isso, só pediram que então eu fosse a melhor jornalista que eu pudesse ser.


No começo era fácil, e até a oitava série consegui tirar de letra isso de ser boa nas coisas. Como a Analu escreveu no blog dela esses dias, eu fui uma criança e tanto, e logo aprendi que "se eu tinha um charme nessa vida, era esse. Eu era inteligente. Eu conseguia fazer as coisas. Eu era aprovada em tudo o que eu me predispunha a fazer." Até que (sempre tem um até que) a coisa começou a desandar. Fui pra uma outra escola no ensino médio, uma escola grande, e lembro até hoje da primeira devolutiva das provas que fizemos. Não lembro detalhes, mas foi mais ou menos assim: se antes minha menor nota era 8, dessa vez a maior tinha sido um 7,5. Tirei o meu primeiro vermelho. Chorei de soluçar na frente de todo mundo e a professora parou a aula pra ir conversar comigo, porque humilhação pouca é bobagem. Eu tinha falhado. Como ia explicar aquilo pros meus pais?

À noite, meu pai me levou pra comer um sanduíche e conversar. Ele disse que aquilo não era o fim do mundo, mas não passou a mão na minha cabeça: disse que era normal estranhar no começo e que agora em diante eu tinha que me esforçar um pouco mais e logo pegaria o ritmo. O que eu senti foi como se o meu melhor, que antes tinha garantido que eu fosse, se não a primeira, pelo menos a segunda ou a terceira da turma, agora custava a me colocar na média. 


É verdade que eventualmente me acostumei ao ritmo da escola e minhas notas melhoraram bastante, mas nunca mais fui a melhor. Me garantia nas humanas, passava sempre raspando em física e matemática, estudava química e biologia feito uma maluca. Quando o boletim chegava no fim do bimestre, sempre acontecia um troço meio chato que era eu ter que explicar por que continuava tirando 6 em algumas matérias sendo que minha única obrigação na vida era estudar. Se era difícil pros meus pais entenderem que tinham coisas que a menininha inteligente deles não dava conta, que tinha um limite ali, se eles lutavam pra aceitar essa quebra de expectativa,  imagine como era pra mim. No começo eu sofria, chorava, adoecia, e ia atrás de plantões e professores particulares, mas depois aprendi a não ligar tanto assim. Fui criando uma rejeição a esse ideal de perfeição, ao estereótipo da garota inteligente melhor em tudo, coloquei a culpa no sistema - eu era realmente muito boa em culpar o sistema.

Escrevi um comentário num post da Sharon sobre cinema dizendo que eu adorava cinema e música quando era mais nova, e sonhava em ser crítica quando crescesse. Só que em determinado momento percebi que eu sabia demais e me divertia menos com as coisas, então comecei a investir meu tempo consumindo aquilo que me divertia e com o que eu me identificava. Não que eu não me divertisse com o cânone, muito menos que as coisas divertidas sejam ruins, mas cês entendem a diferença simbólica de Jurassic Park e um filme do Godard, né?

Era uma vida confortável essa de abraçar as imperfeições e a diversão depois de tantos anos me preocupando em ser e melhor em tudo - e depois sofrendo por nem sempre (quase nunca) chegar lá. Era um alívio. Eu estava muito feliz com essa identidade que construíra pra mim mesma, via isso como um ato de amor próprio e, ao mesmo tempo, rebeldia. De garota chata fã de Radiohead que passava dois dias chorando por conta de uma nota 5, eu agora lia livros adolescentes sem pedir desculpas, e dava risada das minhas notas ruins (gargalhei quando tirei meu primeiro zero? gargalhei) dançando Shakira. A vida era boa.

Até o dia que eu fiz o teste do chapéu seletor no Pottermore e descobri que era uma corvinal.


Querido leitor, se você não se importa com Harry Potter e acha isso demodê por favor dê meia volta e saia já daqui , fique sabendo que uma coisa importante sobre mim é o fato de que eu levo cultura pop a sério e acho que esse tipo de coisa diz muito sobre quem somos. Antes de fazer o teste, eu queria muito ser da Lufa-Lufa. Minha nova postura diante do mundo era totalmente lufana, eu queria fazer parte dessa galera gente boa, parceira, de coração bom e que mora perto da cozinha. 

Corvinais são famosos por sua inteligência, mas dizem as más línguas que são arrogantes. Eles querem ser os melhores em tudo e tiram seu valor disso, representando basicamente tudo que eu lutava com tanta força pra tirar de mim. Normalmente acontece o movimento contrário: as pessoas querem ser corvinais (ou grifinórios), se revoltam quando se descobrem lufanos, e depois abraçam a personalidade despretensiosa e gentil dos texugos. Tudo que eu queria era ser relax e gente fina, mas sou essa pessoa pilhada e megalomaníaca, que quer tudo certinho e pira num livrão. Eu não queria ser essa pessoa, me devolve minha sala comunal perto da cozinha porque tenho certeza que lá as pessoas estão ouvindo Taylor Swift fazendo uma ciranda e aqui nessa torre estão me obrigando a fazer um teste de aptidão, SOCORRO!!11 

Minha revolta durou o tempo necessário para ler a carta de boas vindas, porque de repente eu estava chorando e me sentindo muito abraçada (eu me importo com essas coisas mesmo, e você que é feio?). Com aquela mensagem, descobri que corvinais tem essa coisa de ser espertos, mas o mais importante é que eles são únicos e até meio excêntricos, e celebram a individualidade de forma criativa ou investindo em novas descobertas. Corvinal é a casa de pensar fora da caixa, inventar moda e questionar o status quo. De gente que às vezes pensa demais, mas que não tem nada de errado com isso. Ler aquela carta naquele dia me mostrou que aquilo que fazia com que eu me sentisse chata e diferente poderia, sim, ser o meu charme. 

spirit animal
A obrigação de ser infalível já me machucou muito, e a autocobrança é algo com que eu tenho que lutar todos os dias, o tempo inteiro. Preciso constantemente me lembrar de que tudo bem errar e não ser sempre a melhor. Preciso fazer força pra ser leve e correr atrás de uma folia na cozinha. Mas existe, e sempre existiu, muito de mim nessa personalidade cabeçuda. Se eu não tirasse uma realização muito genuína nos estudos, acho que as expectativas dos meus pais jamais teriam grudado com tanta força. Elas ficaram porque eram minhas também, desde sempre e eu tenho redescoberto elas agora que voltei a estudar.

Não que eu tivesse parado, mas só agora fazendo minha monografia que voltei a ter uma rotina pesada de estudos. Porque eu escolhi um tema tão difícil que nem eu sabia explicá-lo (sério, eu tive que pedir ajuda pra um professor explicar pra mim mesma o que eu queria com meu projeto) (eu ainda não sei explicar direito, por isso não vou fazer isso agora), e vou usar o método mais complexo por aí. Existiam mais o menos uns 6485 jeitos de fazer isso de forma mais fácil, só que eu escolhi a difícil. Não por ser difícil, mas porque senti aquela coceirinha de me desafiar a fazer algo grande, que me assustasse na mesma medida que me fascinasse. 

Li esses dias na newsletter da Isa Sinay (recomendo muito) um troço que me identifiquei muito profundamente: 

"Eu, embora ame muitas coisas na vida e não ame meu trabalho todos os dias, sou o tipo de pessoa que sim, se realiza no que faz profissionalmente. Mas mesmo assim foi algo muito libertador quando eu percebi que essa era eu, mas não todo mundo. Porque se realizar em algo é muito mais sobre se encontrar naquilo, sobre aquilo aplacar uma ambição e uma vontade em você. A minha vontade se satisfaz nas pessoas que eu ensino e na construção de raciocínios longos e complexos sobre coisas que a princípio não interessam a ninguém. Eu me sinto feliz nas horas infinitas que eu tenho passado lendo sobre um assunto tão pouco agradável quanto o Holocausto. Eu até quase me sinto feliz nas horas que tenho passado estudando sobre história do hebraico. No entanto, mesmo no tédio, mesmo no "mddc, não quero saber sobre mudanças sintáticas no período pós-exílio da Babilônia" eu estou satisfeita com as minhas escolhas, algo meu está em casa ali."

Não estou estudando nada tão complexo como o Holocausto, muito menos a história do hebraico, mas são coisas que me fazem vibrar por dentro, é uma felicidade quase idiota, porque ainda estou na fase de me ferrar muito e acho que vai ser assim até no final. Mas está ali, gritando pra mim. Tão alto que às vezes fico com medo de me transformar numa acadêmica delusional que define a si mesma e aos outros de acordo com o lattes ou o quanto essa pessoa sabe de Foucault. Já gastei muito caractere e saliva falando contra o modelo acadêmico das coisas, pregando que é muito mais ser divertido e produzir identificação do que ser formalmente bom. Odeio gente arrogante e pretensiosa, metida a inteligente, e odiaria me transformar em alguém assim, mas ao mesmo tempo tô aqui lendo Hegel e achando o máximo e orgulhosa por estar conseguindo produzir algum raciocínio em cima disso.

Tenho problemas?

Provavelmente esse textão não fez o menor sentido pra vocês, mas hoje li esse texto incrível na Pólen sobre aceitação lufana (quão ótimo é escrever para uma revista que trata com seriedade esse tipo de tema?) e ele me fez pensar sobre minha aceitação corvinal, e sobre como nas últimas semanas tenho feito as pazes com a Anna Vitória CDF que eu fui um dia - ou nunca deixei de ser, só estava ali batendo papo na cozinha com os elfos.

Foi essencial pra minha sanidade jogar pra cima a obrigação de ser boa em tudo, que fazia com que meu entusiasmo pelas coisas fosse oprimido por esse imperativo de ser perfeita. Igualmente necessário tem sido redescobrir aquela chama da empolgação, e escrevo isso hoje pra não me esquecer dela: não me importo se for a mais inteligente, tirar a nota mais alta ou fazer o melhor trabalho, contanto que ao final dele eu tenha feito o melhor no que seja melhor pra mim. 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Os melhores shows da minha vida

Olha, se tem uma coisa que faz a vida ser show, é ir em shows (dsclp). Shows de música são uma das coisas que eu mais amo no mundo inteiro, e eles continuamente se provam maravilhosos mesmo com todo o contexto que nunca é favorável. Shows são caros, desconfortáveis, cansativos, insalubres, reúnem as melhores e as piores pessoas do mundo num mesmo lugar (e as piores sempre vão estar perto de você), é sempre um perrengue pra ir e pra voltar (e piora bastante quando você mora no interior e precisa viajar sempre 600km pra qualquer show grande) e você sempre corre o risco do artista estar num dia ruim e entregar uma apresentação meio bosta, fazendo com que todo esse esforço seja em vão. Mas, mesmo assim, vale a pena correr o risco. Eu acho. 

Sempre escrevo sobre os shows que vejo aqui no blog logo quando eles acontecem, mas como recordar é viver, resolvi fazer uma lista mais breve contando um pouquinho sobre cada um, porque estou morrendo de saudades e com uma vontade muito errada de colocar um showzinho no meu calendário ainda esse ano (alguém me leva na mala pra ver o Belle and Sebastian, por favor, nunca pedi nada pra vocês). 

Los Hermanos e Radiohead no Just a Fest (2009)


Com 15 anos eu não fiz festa e nem fui pra Disney, mas meu pai me levou pra ver o show do Radiohead. Adoro essa história primeiro porque me faz parecer muito cool (acredite, eu estava me sentindo MUITO COOL naquele momento), e segundo porque foi um dos presentes mais lindos e inesperados que ganhei na vida. Tipo, quais as chances do meu pai ter sozinho a ideia de me levar pra ver um show de uma banda que ele mal conhecia e de quem eu mal falava, mas amava muito mesmo assim? Sabe aquela coisa que você acha tão improvável de acontecer que nem chega a sonhar com ela? Então, eu nem sonhava que um dia teria essa oportunidade, mas ela chegou um mês depois do meu aniversário de 15 anos.

E aí veio a outra surpresa, talvez a maior, que nem meu pai poderia imaginar: o Los Hermanos tocaria no mesmo dia, o primeiro show depois do hiato, uma graça deles que nem os fãs imaginariam que viria. Mas veio. E eu estava lá pra ver. 

Costumo brincar que meu pai ainda me deve um show dos Los Hermanos de verdade, porque perdemos o começo presos no trânsito, coisa que não teria acontecido se tivéssemos saído na hora que eu sugeri. Lembro da minha aflição na fila ouvindo "Todo carnaval tem seu fim", de começar a chorar de desespero lá fora, e entrar em colapso ao ouvir "O vento" assim que finalmente conseguimos entrar. Mas, mesmo com esses erros de percurso, eu jamais trocaria esse momento com Los Hermanos que eu tive, porque foi o meu momento, sabe? Posso assistir milhões de outros shows deles que nenhum vai ser como aquele. 

Além de estar vivendo o ápice do meu amor pela banda e ser imensamente apaixonada por todas aquelas músicas, eu também tinha acabado de ter meu coração quebrado depois de uma não-história-de-amor toda embalada por Los Hermanos. "Sentimental" foi a penúltima música, e embora estivesse me preparando pra ela durante todas as outras, senti aquilo com tanta força que achei que fosse morrer, cantando entre soluços e pensando que não podia ligar para a pessoa que eu mais queria que ouvisse aquilo. "Eu sei não é assim, mas deixa eu fingir, e rir..."


Recuperada a estabilidade emocional, era hora de ver o Radiohead. Foi o primeiro show grande que eu vi e não tinha como saber, mas eu estava presenciando o melhor show que veria na vida. Sei que ainda sou nova, tenho muitos shows pela frente e nunca vi o Wilco, mas se nem o Paul McCartney superou o Radiohead, acho difícil que qualquer outro supere a banda. Foi tudo absolutamente perfeito e muito impressionante, as luzes no palco, os telões que mostravam detalhes inesperados (tipo o olho do Thom Yorke), e todas as pessoas tão hipnotizadas, encantadas e felizes, genuinamente felizes, por estarem ali. Era como se estivéssemos todos - incluindo a banda - num transe coletivo de puro amor e reverência à música. 

Aí veio a chuva e aquela coisa louca que foi "Paranoid Android", selando pra sempre meu destino de fã que iria pra pra sempre procurar aquela emoção de novo em todos os shows subsequentes. O show está disponível na internet por conta de um projeto colaborativo MUITO LEGAL que foi feito na época, juntando registros de todas as pessoas que estavam lá para montar a apresentação. Lembro de acompanhar o Rain Down pelo Orkut (!) e até hoje reassisto e fico muito feliz porque algo assim existe, uma das minhas melhores memórias registradas de forma única. Eu não era a única pessoa sendo transformada naquela noite. God loves his children.

Switchfoot em Ribeirão Preto (2010)


Lembrar do Switchfoot é lembrar de toda a minha história com a Anaisa, uma das minhas melhores amigas. Tudo o que vivemos em mais de dez anos de amizade teve junto a presença do Jon Foreman, mesmo na época quando ainda não o conhecíamos. As músicas do Switchfoot são trilha sonora para nossas aventuras absurdas, as loucuras sem sentido, os planos malucos, as noites sem dormir, os sonhos, os choros e tudo de mais profundo que nos une. Ver o show da banda foi viver isso tudo na máxima potência, anos de emoção e memórias condensados em duas horas. 

Levamos cartazes pro show pedindo "Gone", nossa música favorita, a música da nossa vida, e por conta deles fomos parar na beirada do palco (!), chamadas pelo Jon (!!), enquanto ele cantava "Gone" (!!!). A casa era pequena e o Jon era um maluco que se pendurava nas estruturas do palco e jogava o corpo pra frente, ficando com o rosto a centímetros de distância de quem estava na grade, me deixando ver de perto o azul claro absurdo dos seus olhos. A gente gritou, chorou e morreu diversas vezes, era a nossa noite com o cara que mais amávamos no mundo, tão perto que chegava a suar na nossa cara, e foi tudo o que sonhamos e talvez um pouquinho mais. 

Paul McCartney no Morumbi (2010)

que homem
Ver o Paul McCartney também era algo que eu não imaginava que fosse viver. Não sei se vocês lembram, mas há pouquíssimo tempo ainda era coisa rara essa brincadeira de shows internacionais no Brasil. Quando acontecia, era um evento. Se eu não me engano, essa turnê do Paul foi a primeira que passou por aqui depois de mais de 15 anos. Eu não era nem nascida no último show que ele fizera aqui, e já tinha aceitado que morreria sem ver um beatle. Até que o Paul estava diante de mim.

Lembro de passar o show inteiro tão estupefata que demorei algumas músicas para conseguir reagir apropriadamente. Só ficava olhando embasbacada aquele velhinho lindo com seu elegante terno azul. Nunca vou esquecer do terno azul e do fato de que depois de três horas de show o Paul não estava suado. Fiquei tão extasiada de emoção que só fui chorar quando ele foi embora, foi como acordar de um sonho bom. Como assim vão tirar ele da gente? Não, pelo amor de Deus, deixa esse homem aqui. Ainda acho que foi por isso que ele escorregou e caiu antes de sair do palco, era muita gente não suportando a ideia dele ir embora.

Assim como a Couth, até agora não acredito que esse show aconteceu e eu estava lá, mas as lembranças às vezes me tomam no meio do dia e fico arrepiada lembrando: os primeiros acordes de "The long and winding road" e minha alma em pedaços, o português de gringo lindo antes de "My love" - "essa música é para minha gatinha Linda" (não sei se vocês sabem, mas sou uma heavy shipper de Paul e Linda) - as fotos do George aparecendo ao som de "Something" no ukulele, dançar "Band on the run" abraçada com desconhecidos, melhores amigos instantâneos unidos pela magnitude daquele momento: estávamos diante de um beatle, e ele era maravilhoso demais pra ser verdade. Mas era.

The Killers no Lollapalooza (2013)


Pensa numa aventura errada. Pois é, essa é minha história no Lollapalooza de 2013. Foi um troço que começou e terminou errado demais, e até hoje a única explicação que tenho para estar aqui hoje viva contando essa história envolve um milagre, um ônibus misterioso e uma dose cavalar de sorte depois de porções estratosféricas de azar. Só que no meio disso tudo teve um show que fez todo o perrengue valer a pena. 

Foi como se a vida tivesse entrado em stand-by assim que eles abriram o show com "Mr. Brightside", pra só voltar a funcionar ao fim de "When you were young", que fechou a apresentação. Eu comecei a pular na primeira música e só parei na última, carregada pelas pessoas. Chovia quando eles tocaram "All these things that I've done" (chuvas são muito importantes pro impacto emocional dos shows), e eu estava abraçada com os meus amigos dizendo que "I've got soul but I'm not a soldier", como a gente disse que faria tantas vezes sonhando com esse momento, que mesmo cheio de obstáculos, atrasos e doenças (eu já contei que o Matheus estava com dengue e passando mal?), estava acontecendo e era incrível.

E meu Deus do céu como o Brandon Flowers é lindo.

Arctic Monkeys na Arena HSBC (2014)

QUERO
HAHAHAH EU NUNCA VOU SUPERAR ESSE HOMEM DEITADO NO PALCO
É muito difícil separar esse show de tudo que veio antes dele, e tudo que veio depois. Porque eu estava no Rio de Janeiro com as minhas amigas, vivendo um dos melhores fins de semana da minha vida, e estar diante de Alex Turner perdendo a voz tentando cantar "Fluorescent Adolescent" tão rápido quanto ele foi mais um elemento dessa colcha de retalhos maravilhosa. Tínhamos virado a noite dançando até morrer numa festa incrível e tiramos força não sei de onde para estar ali de pé, pulando e gritando histericamente.

Fomos parar no meio de uma roda punk com caras malucos se batendo e fazendo algazarra, mas eram caras malucos se batendo e fazendo algazarra muito do bem. As pessoas se afastaram com medo, e nós ficamos ali, lépidas e faceiras, curtindo o espaço aberto e aproveitando a brecha pra fazer muita festa. E aí tinha o Alex Turner, o cara mais gostoso e incrível do mundo, tão lindo que até doía, com aquela guitarra, aquela roupa ridícula, aquele cabelo que ele insistia em arrumar toda hora, dizendo coisas que não dava pra entender porque o menino tem uma dicção horrível, e lembro de no final pular com tanta força ouvindo "R U Mine" que quase caí e derrubei várias pessoas. E teve Mardy Bum, rápida, só no violão, que eu jamais vou esquecer. 

Quando tudo fica difícil penso nele se oferecendo pra ser meu aspirador de pó e depois fazendo o apelo: "can't we just laugh and joke around?", sim, Alex, a vida é muito curta pra fazer cara feia, vamos rir e fazer piadas, no fundo isso é tudo que importa.

Bônus: top 5 6 shows que eu preciso ver antes de morrer
  • Wilco - O sonho do Wilco no Brasil nunca morre, mas já tenho uma poupança em andamento para vê-los no Solid Sound em 2017, e quem viver verá meu óbito ao som de "Pot kettle black";
  • Taylor Swift - Mas nem que eu tenha que caçar essa abusada no inferno;
  • The Strokes - Eu tinha vestibular no dia seguinte ao show que eles fizeram no Planeta Terra e tentei me consolar imaginando que seria horrível - o Julian é imprevisível e era a turnê do Angles (do Angles!!) - mas no dia seguinte li no jornal que eles só tocaram músicas antigas e que tinha sido incrível (chorei horrores), e guardo mágoa desse dia até hoje - até porque nem passei na prova. Vida, você me deve essa;
  • Death Cab For Cutie  - Sinto que esse sonho está cada dia mais próximo, Ben Gibbard (que agora está gato) que me aguarde;
  • Jenny Lewis - Quero as dancinhas, quero participação especial das HAIM, quero as histórias entre uma música e outra e, sobretudo, quero o coralzinho de "Acid tongue" pra eu chorar horrores, e minha spirit animal em todo o seu esplendor e maravilhosidade (com várias músicas do Rilo Kiley no set), dá pra ser?
  • St. Vincent - Nem dava bola pra ela até assistir pela TV o show que a Annie fez no Lolla desse ano e ficar obcecada e ir atrás de todas as suas apresentações no Youtube. Se quiserem ver uma deusa da guitarra em ação e questionar sua sexualidade, faça a mesma coisa e venha sonhar com um show dela comigo;

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O que eu aprendi escrevendo por 25 dias, todos os dias

A primeira coisa, e a mais importante, é que as ideias não acabam, mas se multiplicam.

Se executá-las fosse tão fácil como tê-las, do BEDA poderíamos pular, sem sustos ou sufocos, para um BEDS, ou até quem sabe um BEDO. Pena que escrever não tá tão fácil quanto pensar em escrever.

Não estou nem entrando no mérito de discutir se as minhas ideias são boas ou ruins (uma delas envolve cortes de cabelo e sonhos platinados), isso é outra coisa. Para pensar se uma ideia é boa ou ruim, ela precisa existir antes de tudo, e há muito mais coisas envolvidas num processo criativo (sim, escrever uma lista de bobagens exige um processo criativo, me deixem, sou complexa) do que supõe a vã filosofia de quem acredita que é *só* sentar e escrever.

Eu já sabia disso, mas é sempre bom lembrar: NUNCA é só sentar e escrever, pelo menos pra mim. Se for assim pra você, parabéns, te invejo pra sempre. Você provavelmente dorme, trabalha e estuda mais que eu, e com certeza já terminou de ver Sense 8 e Orange is The New Black.

Uma constatação preocupante: minhas prioridades são absolutamente distorcidas. O certo seria pensar em monografia, trabalho e BEDA, necessariamente nessa ordem, com as necessidades básicas costuradas aí no meio. Certo? Certo. Pena que eu sou tão errada que não consigo pensar em nada enquanto o BEDA  não está resolvido. Em minha defesa, eu sempre tento, mas não dá. Só consigo me concentrar nas minhas obrigações depois que minha diversão (risos) está concluída. Desculpa, mãe. Eu levo essa merda muito a sério, ainda bem que tá acabando.

Aí tem o negócio das flutuações de humor. A primeira semana foi linda, cheia de uma ansiedade gostosa, e cada dia era uma conquista a ser comemorada. A segunda viu a euforia passar e o desafio ganhou ares de comodismo. Na terceira senti saudades de algo que nem tinha acabado, e cheguei a acreditar que poderia fazer isso pra sempre. 

Risos. Risos eternos.

Hoje eu estou tão esgotada que só não jogo tudo pro alto porque a única coisa mais piada pronta do que abandonar o desafio nos primeiros dias seria largá-lo a menos de uma semana do fim. Teria me sacrificado durante todo o processo pra nunca poder contar os louros da vitória. As if!

Ao escrever por 25 dias, todos os dias, aprendi que qualquer detalhe insignificante na minha rotina (e até a própria rotina) pode ser tema de um texto, passando então a significar alguma coisa, nem que seja a força. Descobri que as pessoas se interessam de verdade pelo que eu escrevo, mas que até as listas cansam em determinado momento. Aprendi que nem o esforço repetitivo e cansativo faz ir embora a euforia quase ridícula (na verdade absolutamente ridícula) que é terminar um texto satisfeita com o lugar em que todas as palavras estão.

Nesses 25 dias provei mais uma vez que ter com quem dividir as grandes e pequenas coisas torna tudo automaticamente maior e melhor. Eu com certeza não teria durado um dia nessa se estivesse sozinha, e mesmo se tivesse conseguido não teria tanta graça de lembrar depois. Vi nesses dias que eu podia bem mais do que eu sabia, mas que é impossível escapar da crônica sobre a falta de assunto. Ou tempo. Ou vontade. Ou tudo isso junto. Desculpa?

Descobri que minha cabeça nunca para de narrar as coisas, e que a escrita é como coração de mãe e de cachorro: quando a gente pensa que chegou no limite, aparece uma pedra no meio do caminho cheia de detalhes que imploram pra ser descritos minuciosamente. Ou você acaba tropeçando nela, quebra o dedão e até comemora - agora tens aí algo sobre o que escrever, e mais uma vez o dia foi salvo.

Às vezes você passa o dia angustiada por não conseguir desenvolver nenhum dos seus textos, mas antes de escrever que aprendeu nesses 25 dias que tem alguns dias em que não dá mesmo (e tudo bem!), quando você vê lá se foram mais de 10 parágrafos escritos no caderno, à mão mesmo, sobre não conseguir escrever. 

O que eu aprendi escrevendo todos os dias, por 25 dias, é que tem dias em que não dá mesmo. E tudo bem. Hoje foi um deles, mas já tá acabando.

Até amanhã.