sábado, 11 de maio de 2013

A(s) outra(s) felicidade(s) clandestina(s)

Quem tem o costume de ler o blog já deve ter percebido que eu amo a expressão felicidade clandestina e adoro utilizá-la das mais diferentes formas. Esse termo, criado pela Clarice Lispector num conto em que ele aparece no título, dá nome àquela alegria que a gente tem diante de algo que talvez não deveria ser nosso, da forma como a gente se esquiva de certos prazeres propositadamente só para depois se jogar de cabeça neles e a felicidade ser multiplicada. Vou avançar um pouquinho nessa definição e enfiar nesse balaio de clandestinidade os prazeres mais conhecidos como guilty pleasures, aqueles que nos enchem de culpa mas que continuamos cultivando. Muito além daquele livro que a gente queria ler há tanto tempo e que precisa se sentir descobrindo-o a cada minuto, os guilty pleasures englobam os livros que a gente tem vergonha de ler, mas ainda assim não resiste. Quem nunca? Quem sempre? 

Eis aqui a lista dos pecados inofensivos que adoro cometer:


Pipoca - Pipoca me permite entender porque as pessoas continuam tomando porres homéricos apesar das ressacas brutais. Eu tenho ressaca de pipoca, muita, e enquanto meu estômago está em chamas eu juro que nunca mais vou perder o controle daquele jeito, mas basta sentir aquele cheiro maravilhoso de pipoca recém pipocada na panela para que toda memória ruim de azia e vontade de morrer vá embora e dê lugar para a pergunta: moço, quanto é o saquinho? As consequências não seriam tão trágicas se eu tivesse alguma espécie de moderação, mas não vejo sentido em estar viva se não for pra comer um balde inteiro sozinha. Meu amigo Matheus, que sofre da mesma compulsão que eu, uma vez disse que o cinema deveria vender um combo de pipoca, refrigerante e Sonrisal. Meu estômago agradeceria.


Novela - Quando vejo a propaganda de alguma novela nova na TV, fico torcendo para que ela seja péssima. Não porque eu tenha um problema pessoal ou ideológico com a Globo ou com os atores e a equipe de produção, mas simplesmente porque eu preciso me livrar da necessidade de acompanhá-la. Novela é um troço que atrasa nossa vida. Literalmente. Uma hora (um pouco mais se for a das nove), seis dias por semana, quem dá conta? Eu, claro. Depois que me apego aos personagens é um caminho sem volta e lá estou eu todos os dias me odiando profundamente por estar perdendo tanto tempo com aquilo, torcendo para ela acabar logo e me devolver minha vida, mas no fundo amando muito porque ver novela é bom demais. Ai que saudades de A Vida da Gente!


Dormir tarde - Eu sou uma pessoa que precisa dormir. Quer dizer, todas as pessoas precisam dormir, mas eu preciso dormir bem mais do que a média para ter um dia feliz e produtivo. Tipo umas dez horas de sono. Mas de nada adiantaria dormir das 3h até às 13h, por exemplo. O ideal mesmo seria das 22h às 8h, porque além de precisar dormir, e dormir cedo, eu gosto muito de acordar cedo. O dia rende, eu fico disposta, bem humorada, com cara de saudável. O negócio é que eu não consigo dormir cedo e mesmo nas férias, quando não são as obrigações que me mantém acordada, acho um desperdício me recolher antes da meia-noite. É tão silencioso durante a madrugada, tantos filmes pra ver, tanto livro pra ler, tanta besteira pra conversar! Sempre chega aquele momento que eu sei que preciso desligar tudo que eu tenho, pular na cama e apertar bem os olhos, que depois de passada certa hora é um caminho sem volta, mas são raríssimas as vezes que consigo me vencer. Dormir antes da meia-noite faz o dia seguinte nascer cantando e sorrindo, mas as melhores músicas ainda tocam durante a madrugada.

Pretty Wild: melhor reality ever
Reality shows - Quem acha o BBB um circo de horrores nunca assistiu um canal de TV americano como a E!, o TLC ou o Discovery Home&Health. Eles sim levam a loucura, a doença e o exibicionismo a um nível que chega a dar falta de ar em quem assiste. Eu assisto, claro, e amo demais. Hoje em dia acompanho bem menos porque me falta tempo, mas já tive fases de seguir fielmente toda e qualquer besteira absurda que esses canais divulgam. Meu reality do coração é Keeping Up With The Kardashians e morro de saudades da época em que eu tinha tempo de passar todas as minhas tardes de sexta-feira na frente da TV, acompanhando as maratonas e sentindo todo e qualquer impulso de inteligência do meu cérebro escorrer lentamente. Muita culpa, mas muito, muito amor.


Revistas ruins - Ainda bem que as revistas estão cada dia mais caras e que minha mão de vaca é maior que meu vício por lixos editoriais, senão meu quarto estaria soterrado de revistas femininas e de celebridades. Não sei explicar minha fixação mórbida por esse tipo de publicação, mas não consigo passar por um consultório de dentista ou da espera no cabeleireiro sem devorar o máximo de Caras e Cláudias possíveis. E, novamente, os americanos sempre conseguem elevar a doença para níveis antes impensáveis, prova disso é minha pequena coleção de tabloides, presentes de um amigo que me conhece tão bem que sabia que a melhor lembrancinha possível pra mim seria uma pilha de revistas com as Kardashians na capa. Jornalismo (e humanidade) vai com Deus dá melhor (pior?) estirpe, mas não resisto. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Indie queen

Seria bem mais fácil escrever esse post se eu digitasse ao som de uma música como 'The long and widing road', profunda e cheia de significado. Seria um texto lindo se eu dedicasse alguns parágrafos para falar sobre a minha relação com 'The times are a-changin'', e vocês me achariam muito inteligente se eu dissesse que passei os últimos dois dias ouvindo 'Both sides now', tendo várias epifanias sobre a vida, o universo, e tudo mais. 

A verdade, no entanto, é que passei os últimos dois dias ouvindo sem parar uma música que conta a história de uma garota que era emo e agora gosta de hard core antiguinho, e que para de dar bola pro mocinho da canção porque encontrou uns amigos com muita maconha que roubaram sua atenção. Falo de 'Victoria indie queen', canção do Beeshop dedicada a uma garota que não usa mais o cabelo curto e tem umas atitudes punk bem desagradáveis. Desenterrei essa música das cinzas numa dessas madrugadas das férias quando, depois de uma quantidade de tempo pouco saudável na frente do computador, a gente tem umas ideias bem sem critério. No meu caso, foi procurar no Youtube se aquele show bem antigo do Beeshop ainda estava por lá.

E não é que estava? O mesmo pelo qual eu me apaixonei e tão ardentemente desejei estar presente no há muito ido 2008, quando as pessoas ainda não conheciam seu outro projeto paralelo e que as 4 musiquinhas em inglês disponíveis no MySpace, com letras românticas e delicadas, eram meu tesouro secreto. Aquele que eu já tinha assistido tantas vezes que sabia até o jeito que  Lucas mudaria as músicas, a forma como ele omite o nome da sua outra banda - que, por alguma razão que nunca vou entender, aparece na letra - e troca por um WHAT, e até o jeito dele agradecer a platéia no fim da apresentação. Mesmo depois dele ter lançado um CD, sempre vou preferir as demos do início da carreira, e no caso da música da Victoria, vou preferir a versão do show (que não é oficial, muito menos bem gravada) à qualquer outra. Arranjo sofisticado e bom sistema de captação de som algum substitui o jeito único e adorável de pronunciar chocolate flavoured popcorn do Lucas naquele show. 

Então,  na madrugada nebulosa querendo se fazer fria que separou a segunda da terça, eu fiquei ouvindo, e ouvindo, e ouvindo sem conseguir parar. E aí, na madrugada oficialmente fria que separou a terça da quarta, assisti Young Adults, filme do Jason Raitman escrito pela Diablo Cody, que traz Charlize Theron fazendo o papel de rainha da vergonha alheia, voltando à sua cidadezinha natal disposta a reconquistar seu namorado da época do colégio, agora casado, feliz, e pai de primeira viagem de um bebê bem fofo. Durante todo o caminho de Minneappolis até Mercury, ela vai ouvindo uma mesma música, sem conseguir parar. Nunca fui uma pessoa chegada no repeat, minha faixa mais ouvida no LastFm conta com exatas e modestas 50 execuções, mas nesses últimos dias, assim como Mavis Gary, eu ouvi a mesma música sem conseguir parar. 

Meu cabelo ainda é curto e eu tenho um fraco perigoso por magrelos tocando em bandas indies, não fumo maconha e nem tomei Ritalina, prefiro ficar longe de linhas de tiro e as luzes de festa mais me espantam do que atraem, e por isso é difícil dizer que ouvi tanto e senti tantas coisas por acreditar que aquela música era minha. Tampouco ela está associada a algum evento específico pra explicar a saudade que experimentei acompanhada com o som da guitarra e ainda é cedo demais pra dizer que eu passei um tempão ouvindo de novo  e de novo uma música da minha época. Mas tenho pra mim que se algum dia eu pirar e resolver mudar de vida, saindo de carro por aí pronta pra tomar alguma decisão precipitada (e provavelmente errada), é bem provável que eu passe todo o caminho ouvindo 'Victoria indie queen'. Enquanto essa parte da história não chega - e levando em conta o trauma que a personagem da Charlize deixou em mim, eu prefiro que não chegue nunca - escrevo esse texto que vocês dificilmente vão entender.

terça-feira, 7 de maio de 2013

A descoberta do mundo


(Para Taryne)

É sempre complicado ter em mãos um livro que vem carregado de expectativa, principalmente se ela é muito alta. Quando você não tem opinião formada sobre um livro, ou quando já desgosta dele antes mesmo de abrir, o que vier de positivo é lucro. Quando a situação se inverte, você tem muito mais a perder uma vez que, na sua cabeça, já existe um livro perfeito em potencial esperando para ser devorado. Infelizmente, há muito mais entre livros perfeitos em potencial e livros de fato perfeitos do que suportam nossa vã filosofia e nossos ávidos corações leitores. 

 Foi nesse campo minado de expectativa e ansiedade que me vi pronta para abrir o meu segundo John Green – alguns meses depois da catártica e absolutamente life changing experiência que a leitura de “A Culpa É das Estrelas” foi para mim. Meu segundo John Green e o primeiro dele:  falo de “Quem é você, Alasca?”, primeiro romance do autor, publicado nos Estados Unidos em 2005 (!) e que rendeu a ele o prêmio Michael L. Printz, da American Library Association. 

Conheci então o narrador e protagonista da história, Miles Halter, um adolescente meio sem amigos que resolve ir estudar em um colégio interno na esperança de encontrar fora de sua zona de conforto o seu Grande Talvez. Esse alvo escrito em maiúsculas surgiu em sua vida devido ao seu curioso hábito de memorizar últimas palavras de pessoas notáveis e a referência vem justamente da sua favorita, proferida por François Rabelais, grande intelectual da Renascença: I go to seek a Great Perhaps ou como manda a nossa pátria mãe, Eu vou em busca de um Grande Talvez. O que é esse famigerado e portentoso Talvez nem o Miles sabe, mas o que ele tem certeza é que ele não se encontra dentro de casa, em sua triste festa de despedida que ninguém se deu ao trabalho de ir. 

Chegando lá, ele conhece seu colega de quarto e futuro melhor amigo, Chip Martin, O Coronel, para todos os efeitos. Conhece também Alasca, uma garota enigmática e quase mítica por quem, como todo bom livro sobre adolescentes pede, ele irá se apaixonar. Tudo isso foi acontecendo no livro sem que eu sentisse aquelas ondas satisfação e amor que me dominaram logo nas primeiras páginas de “A Culpa é Das Estrelas”, o que me deixou morrendo de medo da Mágica do Livro Perfeito nunca acontecer, mas não vamos passar a carrocinha na frente dos bois. 

Mesmo na condição de amiga de Miles, carinhosa e jocosamente apelidado de Pudge, Alasca Young é o grande mistério do livro, pelas mais diversas razões. Ela é imprevisível, um espírito livre e, ao mesmo tempo que se comporta como a garota mais animada do mundo, ela também é auto-destrutiva ao ponto de dizer que fuma demais porque quer morrer mais rápido. Ela é a rainha das pegadinhas do colégio e possui uma coleção de planos maquiavélicos para perturbar a ordem do lugar e infernizar a vida dos garotos ricos do local, e esse lado fanfarrão contrasta com sua enorme coleção de livros, a Biblioteca de Sua Vida – se Miles busca seu Grande Talvez, o que ela quer é saber como sair do labirinto, referência à derradeira frase de Símon Bolivar encontrada no seu livro favorito, O General Em Seu Labirinto, de Gabriel García Marquez. 

É no meio desse Grande Talvez, o labirinto misterioso, os primeiros porres da vida e uma série de últimas palavras que John Green consegue fazer sua arte, que é a de inserir temáticas um tanto quanto existenciais e filosóficas em histórias que à primeira vista parecem ser tão somente romances adolescentes. Tem sido assim com todo livro dele que leio e ouso dizer que é justamente em “Quem é você, Alasca?” que o escritor acerta seu alvo em cheio porque ele é, antes de tudo, um livro sobre descobertas. Miles sai de casa em busca da vida fora de sua zona de conforto e se aproxima de pessoas que mostram pra ele o que é chamuscar o chão com sua intensidade. Beber escondido dentro da escola, enterrar bitucas de cigarro e uma primeira namorada permitem que ele descubra a adolescência e ao final de todas as páginas é bem possível que ele tenha descoberto o mistério da vida, seu Grande Talvez, a saída do labirinto. 

Esses últimos não no sentido pretensioso de ter todas as respostas do mundo, mas as suas respostas – o que significa dizer que ele descobriu a si mesmo, ao menos naquele momento. E foi assim, gradualmente e, de repente, de uma hora para outra (tudo em família) que “Quem é você, Alasca?” se revelou um ótimo livro, que ficou na minha cabeça por semanas e foi – por que não? – uma descoberta em si, diferente daquilo que eu esperava e, principalmente por isso, especial de um jeito próprio, o meu Grande Talvez.

(Esse post foi escrito para ser publicado originalmente na revista virtual Gazeta Feminina, onde indico livros todo mês na seção Mais Uma Dose, mas eu gostei tanto e tava querendo escrever sobre ele há tanto tempo que resolvi postar aqui também. E aí que como que pelo destino encontrei um CD chamado The Great Perhaps, de uma banda bem amor, e acabei escrevendo sobre essa coincidência divertida lá no Move That Jukebox - overdose de Alaska para compensar todos os meses que levei pra falar sobre ele!)