domingo, 7 de dezembro de 2014

Sobre registrar, dirigir e esquecer: uma história sobre o show do Arctic Monkeys

Eu já tinha desistido de escrever sobre o show dos Arctic Monkeys porque fiz exatamente aquilo que eu sabia que iria fazer, mas mesmo assim me permiti acreditar que dessa vez seria diferente: deixei passar o calor do momento. E, não sei como funciona para vocês, mas acredito no calor do momento como fator de suma importância quando quero escrever algo numa pretensão besta (que me é, porém, muito cara) de fazer com que quem leia se sinta exatamente como eu me senti -- naquele momento, no seu calorzinho gostoso. 

Só que na sexta-feira passada eu estava em um bar com meus amigos, já na fila para pagar, quando começou a tocar Mardy Bum. Foi como se as quase três semanas que me separavam do show tivessem sumido pelos ares e eu estivesse de novo virando geleia ao ouvir aquele "Well, now then Mardy Bum..." sair da boca do Alex Turner. Naquele dia 13 a música foi tocada na guitarra acústica, só a primeira parte, por um Alex com uma voz tão mais grossa e diferente do que aquela que a gente ouve no Whatever People Say I Am, That's What I'm Not (e isso é ótimo!), que me deixou ir embora pra casa sem o solo que eu tanto queria, e sem a redenção da parte em que ele diz "But I can't be arsed to carry on in this debate that reoccurs, oh when you say I don't care, BUT OF COURSE I DO, YEAH, I CLEARLY DO!". 

Ou seja, foi diferente do que eu esperava, bem menos do que eu queria, mas mesmo assim ouvir aquela música de novo me levou de volta pr'aquele momento, e dessa vez foi perfeito (como tinha sido desde o começo, apesar do jeito torto) e quando a moça do caixa me perguntou se era crédito ou débito a primeira coisa que saiu da minha boca foi ar-gu-men-ta-ti-ve. 

Aí eu pensei: dane-se, vou contar como foi mesmo assim.


Tenho por regra odiar e jurar de morte todas as pessoas que ficam fotografando e filmando os shows que assistem. Acho uma estupidez sem tamanho gastar um dinheirão no ingresso para ver o show através da tela do celular, mas isso seria problema só da pessoa se além disso não atrapalhasse quem está por perto. Não é como se numa pista sobrasse muito espaço pessoal para você levantar seu celular e é frustrante pra caramba perceber que o rostinho lindo do gatinho do rock lá do palco foi bloqueado por um pau de selfie inconveniente de alguém da plateia.

Apesar disso, fiz dois vídeos no show do Arctic. O primeiro deles foi logo na abertura, quando gravei um pouquinho de "Do I Wanna Know?" à pedido de uma amiga. O segundo foi quando as pessoas levantaram seus celulares enquanto o Alex cantava "No. 1 Party Anthem" e estava tão claro que era como se as luzes do lugar tivessem sido acesas. Foi lindo, foi sublime, foi algo impactante o bastante para que Mr. Turner saísse do seu transe musical introspectivo para dizer que queria estar no meio de nós. Eu nem pensei, só liguei a câmera, porque sabia que queria guardar isso para ver depois.

E foi o que eu fiz logo quando acordei no dia seguinte, e me senti imensamente grata por ter tido o insight de filmar aquilo, permitindo que eu vivesse aquele momento de novo e de novo, até cansar.

First Person é o tema desse mês da Rookie, minha coisa favorita da internet. Em seu editorial no dia primeiro, a Tavi contou um pouco sobre como é ser uma pessoa constantemente obcecada em registrar as coisas que vive e como funciona a cabeça de quem tenta ser diretora de arte da própria vida. Esse é um dos pontos que mais me fazem identificar com o trabalho dela, essa ânsia por registrar, lembrar, e viver momentos que, no futuro, sejam como filmes perfeitos em nossas cabeças.

Meus amigos frequentemente se irritam comigo pela frequência com que eu tento dirigir artisticamente nossas saídas ao invés de ver onde a noite vai nos levar - A gente pode usar essas cores, andar por essa rua, ouvir essa música? Essa coesão molda o momento e o transforma na cena de um filme. Eu não sei direito como deixar que essas experiências se desenrolem e ser surpreendida pela forma como elas me afetam; eu quero saber que vou escrever os detalhes estéticos daquele dia mais tarde e ficar satisfeita diante de como tudo se encaixa: a gente usava casacos de pele e cachecóis de lã pela Lafayette enquanto ouvia Blonde on Blonde. 
{Tavi Gevinson porcamente traduzida por mim}

O problema dessa documentação é que uma foto, um vídeo e uma gravação nunca vão se equiparar à experiência do presente. A mediação, qualquer que seja ela, transforma a realidade que ela registra numa ficção, ainda que seja um fac-símile perfeito. Parece, mas não é. E fico aqui pensando no que a gente pode estar perdendo enquanto, ao invés de ~aproveitar o momento~, tenta registrá-lo de alguma forma; ou então no quão inútil pode ser acreditar que você vai conseguir capturar aquele instante. É sobre isso que trata o último texto que o Jon Foreman escreveu em seu blog, que eu li hoje de manhã.

O vídeo de "Do I Wanna Know?" não ficou tão legal assim, porque foi interrompido na hora em que um jato de cerveja atingiu em cheio eu e minhas amigas, molhando meu cabelo, minha roupa e até um pouco do celular. O vídeo tem nossas exclamações de nojo quando percebemos que aquilo não era água, e mal dá pra ouvir o que a banda está tocando porque as pessoas estão cantando junto, bem mais alto que o microfone.

Nem passou pela minha cabeça compartilhar esse vídeo, mas esse registro zoado me parece bem mais legítimo quando penso no que foi, de fato, estar lá naquela noite, mais real do que aquele aparentemente perfeito da outra música. 

Por fim, resolvi não subir nenhum deles. São dois vídeos distintos que contam duas histórias diferentes: uma sobre desastre e outra sobre o infinito em um instante. Resolvi escrever esse texto para me lembrar que aquilo que eu vivi se encontra no meio dos dois, porque um show não existe sem bagunça e sem a inconveniência das pessoas (e eu que vi tudo praticamente no meio de uma rodinha punk que o diga) (tinha muito espaço pra dançar e foi realmente tranquilo) (mas eu não recomendaria), mas a gente não seguiria pagando dinheirões por isso não fosse pelos momentos em que o tempo parece suspenso no ar junto com as pessoas segurando seus celulares sobre a cabeça, enquanto o artista cantarola uma de suas músicas favoritas. 

A Tavi defende a documentação, apesar de tudo, porque ela acredita (e eu também) que a gente transforma a vida num filme para cristalizar momentos reais. Nossos filmes particulares são como um greatest hits da vida, e que mal há em querer uma coleção assim? 

Já o Jon Foreman também defende os registros porque o que os legitima é o fato de que, de um jeito ou de outro, nós fomos lá correr atrás dessas experiências. Eles não serviriam para nada se fossem histórias inventadas da nossa própria vida, seriam uma ficção vazia baseada porcamente em fatos reais. E não sei vocês, mas eu não pretendo parar tão cedo. 

No próximo show só espero que eles toquem Mardy Bum de novo, dessa vez inteira.

Mas se registrar é a arte de esquecer, então talvez a arte da vida seja encontrada na sua presente atenção ao momento. Talvez você e eu somos a pintura, o poema, o gravador. Ondas de luz e som passam por nós, e nossa tela responde com ações próprias: experimentando essa alegria e a passando adiante. Então tire fotos das ondas de cor que passam por você. Escreva sobre isso. Grave o momento da melhor forma que puder. Mas saibe que essas ondas que quebram na sua costa não podem ser capturadas por mãos humanas, mas elas nos acenam para que a gente volte para suas águas profundas e navegue nelas novamente. 
{Jon Foreman, vergonhosamente traduzido por mim}

E como eu só falei groselha até aqui, um top 5 dos meus melhores momentos no show, para virar filminho e passar na minha cabeça antes de eu morrer:

  1. Do I Wanna Know? na abertura, cantada tão alto por todo mundo que eu não conseguia ouvir a voz do Alex. Depois de um banho de cerveja, em volta de um monte de gente errada. Mesmo assim. Meu Deus, this is happening!
  2. Arabella, minha música favorita do AM, com todo o louvor do seu solo maravilhoso e Alex dançandinho de braços abertos igual o clipe;
  3. No. 1 Party Anthem iluminada pela luz dos celulares;
  4. Fluorescent Adolescent encerrando a primeira parte do show. Pulei e gritei tanto que achei que fosse realmente morrer;
  5. Dobradinha de Mardy Bum e RU Mine pra encerrar o show, com o refrão repetido 3x depois que a música acabou, e eu pulando em todas quase caindo, existindo com dificuldade, mas sem um pingo de vontade de ir embora.
Hors concurs: essa coisa absurda de linda e deliciosa e errada que é Alex Turner. Mesmo calado, mesmo sem fazer gracinhas, mesmo mudando minhas músicas favoritas. Esse homem deitou no palco na minha frente e foi maravilhoso por 90 minutos, com licença. 

Se eu vou superar Alex deitado: jamais (Foto)


























*Eu disse que ia contar sobre como foi o show mas acabei viajando na maionese. Escrevi uma resenha mais ou menos séria sobre ele pra outro site, caso estejam interessados: Arctic Monkeys na HSBC Arena no Rio de Janeiro;
* Os textos da Tavi e do Jon merecem ser lidos na íntegra e no original, não deixem de fazer isso: First Person e Recording Is The Art Of Forgetting - Enjoy Yourself. 



sábado, 29 de novembro de 2014

Suzana Vieira das TAGs

Queridos leitores, ando com minha cabeça lá pelas tabelas. É impressionante como Chico Buarque vem a calhar nessas horas de sobrecarga. Por exemplo: apesar de você amanhã há de ser outro dia, graduação em Jornalismo/2014/vidinha. Quer mais? Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor, e dou risada do grande amor/diploma/futuro/vidinha. Eita nóis. 

Por mais que eu esteja numa fase de apego com meu homem dos olhos azuis-verdes, pra respirar no meio de uma semana zicada nada como apelar para os bastiões do poder da nossa cultura pop. Temos que mudar a tônica de cabeça na baixela para who run this mothafucka pra ver se a coisa anda. Então resolvi hoje responder a essa maravilhosa TAG inventada pelo André, que gentilmente me indicou para responder. Estou há se-ma-nas trabalhando nisso, porque cada item demanda uma reflexão profunda baseada em uma dance party de pelo menos umas trinta músicas. 

A TAG das Divas™, que é destruidora mesmo, consiste em associar livros às divas pop do momento. Como complemento, depois de cada item coloquei minha música favorita da referida, para valorizar a pesquisa empírica que fiz antes de responder as perguntas. Não é maravilhoso? É sim, então vamos lá.

que mulheEeEeEerrrr
1) Beyoncé: indique um livro de tirar o fôlego
Acho que já li uns três livros desde que li Garota Exemplar, da Gillian Flynn, mas é impressionante como ele não saiu da minha cabeça até agora. Eu já tinha visto o filme quando li, e mesmo assim o livro não deixou de desgraçar minha cabeça - aliás, ouso dizer que ele só potencializou o desgraçamento. Além de ser um thriller muito bom, tem tantas questões importantes sendo discutidas que eu poderia passar horas debatendo essa história. Quando terminei de ler fiquei um tempão atordoada, pensando no que tinha acontecido, bem o que acontece sempre que termino de ouvir Love On Top e penso cá com meus botões: como essa mulher faz isso? 


2) Katy Perry: indique um livro que deveria ser mais reconhecido


Tá, se a Katy Perry realmente precisasse ser mais reconhecida, ela deveria ser, sei lá, a Beyoncé? Desculpa, nunca será. Mas enfim. Northanger Abbey é um livrinho da Jane Austen que acho que deveria ser mais lido e reconhecido. Se não fosse por Orgulho e Preconceito, inclusive, ele seria o meu favorito da autora. É um dos livros mais diferentes dela porque é uma paródia aos romances góticos da época, e essa sátira é feita de um jeito espirituoso e genuinamente engraçado, através de uma protagonista muito divertida e carismática. O romancinho não é nem de longe a melhor parte, e isso é fantástico. Como não poderia deixar de ser, tem crítica social feminista também, e o estilo narrativo dele é maravilhoso. Se você gosta de Jane Austen, leia, se você não gosta, vai começar a gostar por causa dele. Juro.


3) Taylor Swift: indique um livro sobre superação, ignorar os haters e seguir em frente


Eu não gosto de histórias de superação. Sei lá, acho que a maioria se perde em algum momento pra ser levada por um lado piegas que meu coração gelado e exigente tem dificuldades de lidar. Poucos chegam lá, tocando no lugar certo sem cair em saídas melodramáticas fáceis. Eleanor & Park, da Rainbow Rowell, é assim. Eleanor e Park são dois adolescentes confusos, desconfortáveis consigo mesmos, perdidos. Como todos, mas um pouco pior. Ao longo da história eles se dão as mãos e ficam imensos, brilham no escuro, enfrentam a pressão dos colegas, suas questões familiares, e superam, principalmente, a eles mesmos. Dá gosto de ver como eles crescem juntos, como eles transformam um ao outro, como um torna o outro melhor na mesma medida. Esse livro é muito lindo. Vocês deveriam ler.


4) Avril Lavigne: indique um livro que, por mais que envelheça, continue atual;
5) Miley Cyrus: indique um livro que começa meio tímido, meio bobinho Disney, mas acaba despirocando e mudando os rumos

Tomei a liberdade de unir essas duas categorias porque pra ambas só consigo pensar em um livro: The Bell Jar, de Sylvinha Plath. Acho ele atemporal porque as coisas que Esther sente fazem tanto sentido hoje como faziam nos anos 60, quando ele foi escrito, principalmente no que diz respeito à desigualdade entre os gêneros que a personagem lentamente começa a perceber. O que, se a gente for pensar, é triste demais. 50 anos e pouquíssima coisa mudou. Risos. O livro começa com os relatos da Esther, que deveria estar vivendo a melhor fase da sua vida, mas não estava e ela não sabe bem por quê. No entanto, a personagem entra numa espiral de loucura e depressão que só vai piorando ao longo da história, e é então que ela despiroca (meio que) e as coisas ficam bem brutais. No Disney material here.

6) Christina Aguilera: indique um livro que não deu certo com você

Vou usar esse espaço para falar de um livro que, tal qual a Lotus Tour da nossa querida Xtina, tinha tudo pra ser mas não foi - e não é só comigo. Todo Dia, do David Levithan, conta a história de uma pessoa de gênero não identificado que todos os dias acorda num corpo diferente. Por 24h elx tem a chance de ser aquela pessoa, viver sua vida, conhecer seus amigos, etc. Era a única vida que A. conhecia e lhe parecia boa, até, claro, o momento que elx se apaixona. O quão superlegal é isso? Um ser que vai pulando de corpo em corpo, uma discussão massa sobre gêneros a ser feita, uma metáfora sobre as mudanças da adolescência, e tudo isso vai por água abaixo ao ser mal desenvolvido pra caramba. Uma pena, ainda sou apaixonada por essa ideia que nunca foi. 

8) Britney Spears: indique um livro que tem uma narrativa tão sem graça quanto um show com playback Querido André, achei ofensivo, por isso apaguei. Não posso responder a uma coisa dessas quando a Britney Spears é minha diva pop favorita. Passei um bom tempo conjecturando a respeito dessa questão metafísica de qual livro Neidoca seria se um livro ela fosse, e concluí que essa mocinha que as pessoas adoram gongar é a eterna princesinha da América. Vocês riem da Britney mas não vivem sem ela, e todo mundo aqui dança Toxic na balada com lágrimas de felicidade nos olhos que eu sei. Todo mundo quer um pedaço dela. Por isso vou usar a categoria pra um gênero que vira e mexe as pessoas se justificam por gostar, colocam como prazer culposo, dizem ler pra criticar com propriedade, etc, que é o chick lit. Amigas, se libertem. Pode gostar de chick lit sim, pode rir, pode chorar, pode querer casar com os mocinhos. Pode se divertir sem culpa. Do mesmo jeito que pode sempre pedir Britney pro DJ, porque nenhuma pista de dança permanece a mesma quando toca ...Baby One More Time.

BRITNEY ESTAMOS COM VOCÊ
9) Adele: indique um ator que tenha uma voz própria e única
Gabriel García Márquez, sem nem precisar pensar. Acho a literatura dele muito forte e muito única, o jeito como suas histórias sugam a gente para mundos extraordinários onde chove por anos, garotas bonitas sobem aos céus e as pessoas passam meses inteiros sem dormir. 

10) Lady Gaga: indique um livro bizarro que você custou a entender

Quando li Memórias Sentimentais de João Miramar, do Oswald de Andrade, pela primeira vez, só faltei jogar o livro na parede, tamanha a incredulidade. É um livro modernista, bem modernista, modernista tr00, e na primeira leitura várias partes não fizeram o menor sentido. No entanto, a segunda leitura foi dirigida pelo meu querido professor de Literatura do terceiro ano, então tudo se iluminou, sabe? Eu procurava onde eu tinha visto falta de sentido e insanidade e simplesmente não encontrava. Oswald de Andrade era um gênio injustiçado por mim. Claro que se não fosse pelo professor eu continuaria sem entender lhufas, mas adorei essa iluminação intelectual. Será que se eu ligar pro Peterson ele me explica esse clipe de Yoü and I?

11) Lana Del Rey: indique um livro para quando você estiver morta melancólico

A deprê bate logo na capa, porque as pessoas veem você lendo algo como Como Ficar Sozinho e já vem cheias de palpite achando que é alguma autoajuda. Não é não, mas talvez você precise de uma para superá-lo. Esses ensaios de Jonathan Franzen são cheios de melancolia e desilusão, alguns tão tristes que beira o insuportável, como aquele em que ele conta como foi o fim da vida de seu pai doente com o mal de Alzheimer. O campeão da melancolia é o relato da viagem que ele fez pra uma ilhota absolutamente isolada no Chile, lugar que ele visitou para depositar parte das cinzas de seu melhor amigo suicida, David Foster Wallace. Sei que vocês adoram odiar o Franzen na mesma proporção que ele ama odiar tudo, mas cara, esse livro é realmente bom. Queira estar morta ou seu dinheiro de volta.

12) Madonna: indique um livro que nunca perde a majestade na sua estante

Quer falar sobre guilty pleasure, fale sobre não conseguir parar de gostar do trabalho do Woody Allen, apesar de tudo. Sério, vamos conversar sobre isso, fazer um grupo de apoio e tudo mais. Por favor. Até lá, sigo amando o meu Conversas Com Woody Allen, um livro que reúne entrevistas que o Eric Lax fez com o cineasta desde o começo de sua carreira, que acaba dando um ponto de vista legal sobre vários de seus filmes. É um livro realmente interessante e inspirador para quem gosta do trabalho dele e dos temas abordados nos seus filmes. Sempre tiro dali alguma coisa importante, e sustento com orgulho meu livrão de capa dura da Cosac Naify que comprei com um dos meus primeiros salários pois sou bobinha assim mesmo. 

13) Gretchen (estou chorando): indique um livro nacional que tenha todo o piripipi necessário para te conquistar: Sou monotemática e não posso indicar algum livro nacional que não Dom Casmurro, do Machado de Assis. Ele vem da minha época favorita da literatura nacional, da minha escola literária favorita, que é o realismo, é o tipo de livro que eu mais gosto, a crônica urbana, com narrador não-confiável, personagens densos, quase indecifráveis, um final em aberto, uma moral bem ambígua e uma narração maravilhosa de meu Deus. Machadão é insuperável. 


Nunca sei quem indicar pra essas coisas porque nunca sei quem realmente gosta disso, mas se você tiver achado legal e quiser fazer também, por favor, faça. E deixe nos comentários para eu ver depois, ok? Espero que tenham achado divertido - eu adorei brincar! Obrigada pela indicação, André!



terça-feira, 25 de novembro de 2014

Diário de viagem: Rio de Janeirinho

"Tripulação, pouso autorizado no aeroporto Santos Dumont. São oito horas e cinquenta dois minutos, tempo encoberto, temperatura de 22º, e pelo que eu tô vendo aqui a coisa não tá muito bonita não".

Foi assim que o Comandante Sincerão anunciou a chegada no Rio de Janeiro, e lá fui eu grudar meu nariz na janelinha do avião, porque aquele pouso na Baía de Guanabara é uma coisa que eu não vou superar tão cedo. É o melhor jeito de ser recebida pela cidade, ainda que estivesse chovendo, cinza, e nublado. Oi Rio, cheguei. Eu disse que voltaria.

E trate de ficar bonito porque não foi pra isso que eu saí de casa
Há duas semanas tive a chance de ir pro Rio de Janeiro passar um maravilhoso fim de semana sendo amada pelas minhas queridas amigas dessa terra bonita de meu Cristo Redentor, que me levam pra passear, me ensinam life hacks cariocas e me fazem extrapolar todos os meus limites pessoais no que tange à integridade física da pessoa humana. Mas eu sobrevivi pra contar essa história, e olha que teve um Alex Turner ali no meio pra colocar tudo a perder (o show é um caso a parte, depois eu conto), e é isso que vocês vão ler agora.

Enfim, estamos no Rio, eu acabei de desembarcar e corri para fazer festa com Giuliana Rebeca e Gabriela Couth, travessura essa que me deixou presa para fora da área de desembarque antes de pegar minhas malas (queria dizer que foi a primeira vez que quase perdi minhas malas, mas não). No fim das contas deu tudo certo, mas eu realmente queria saber o que é que o aeroporto Santos Dumont tem contra mim. 

Saindo de lá fomos tomar café na Confeitaria Colombo do Forte de Copacabana, uma coisa bem sofisticada, toda uma vibe café da manhã de blogueira acontecendo. O que as fotos não mostram é que tivemos que defender nossa comida dos pombos do lugar e que boa parte do tempo foi gasta observando as pessoas caírem enquanto tentavam subir na prancha de stand-up paddle na praia de Copacabana. Mas a vista, os pãezinhos não identificados e o café estavam bem de parabéns. 




Subimos no Forte pra admirar a vista, fingir compreender o conceito por trás das selfies com o canhão sendo tiradas ao nosso redor, tudo isso enquanto eu tentava com todas as minhas forças não ser dominada pela minha vertigem. Além da Confeitaria, o forte tem uns barzinhos simpáticos e o Museu do Exército, uma proposta interessante se você curte essa vibe bélica meio século XVIII. Grande época. O que eu achei mais legal, além da comida e da vista, é que na costa rola uma espécie de Stonehenge tupiniquim que eu quis muito fotografar, mas fiquei com medo de chegar na extremidade e o vento me derrubar. Momentos. 

Depois de algumas horas de bonding moments na casa de Vovó Couth -  com direito a pintar as unhas dos pés, ouvir Miley Cyrus, Taylor Swift e Beyoncé, e comentar as evoluções capilares de famosas que amamos - foi hora de sair pra comer. De novo. Porque lógico. Perguntaram no Instagram se a única coisa que a gente faz da vida é comer, e eu vos pergunto o que pode ser mais importante que empada, pastelzinho e caipirinhas na muretinha da Urca? 

Fomos no Bar Urca, que a Couth vive recomendando, e não existe jeito mais correto do que aproveitar o fim de tarde. Mesmo com a garoa leve e o dia cinza, é a vista da Baía de Guanabara, com seus barcos e garças contemplativas, é o bairro antigo e as janelas velhas dos prédios, é a empada maravilhosa e os companheiros de mureta cantando Anna Júlia e outras pérolas nacionais dessas que todo mundo sabe cantar. Sem falar nos caras lindos que passavam correndo ou de bicicleta. Eita cidade de homem bonito, Jesus conserve.










































Lá no bar encontramos a menina Paloma, a única responsável do rolê, que passou o dia trabalhando enquanto nós só fizemos comer e falar bobagens. Voltamos para a casa de Vovó para carregar um pouquinho as baterias porque a noite seria longa. Eu já contei pra vocês que eu estava praticamente virada? Pois é, na noite anterior fui dormir à uma da manhã, para acordar às três pra pegar o avião. Ou seja. Era essa Anna Vitória que estava com planos de ir para a balada mais tarde e eu juro que duvidei que isso aconteceria até o último minuto. Porque já eram mais de dez da noite e nós estávamos vendo o DVD da Beyoncé e cochilando enquanto caía uma tempestade lá fora, mas não sei como conseguimos sair desse estado para nos colocarmos belas e antes do relógio bater a uma novamente, lá estávamos nós, na fila da Gafieira.

Eu, virada, na chuva, na fila da balada. Pois é.

A questão é que quando uma pessoa como a Giu avisa que vai te levar numa festa que vai fazer você querer morrer e ser enterrada na pista de dança, você precisa acreditar. Principalmente quando ela diz que vai ser tão bom que você só vai sair dali na hora que te expulsarem. Eu duvidei, principalmente quando deu umas três e meia e eu senti minha barrinha de energia chegar no vermelho, mas por um plot twist desses que ninguém acredita, dançamos até o esgotamento e, sim, só fomos embora quando soou o alarme expulsando a gente do lugar. 

EXPECTATIVAS:


REALIDADE:


Que festa maravilhosa. Quis morrer e ser enterrada na pista e senti que todas as minhas dance parties sozinha em casa foram um treinamento pra noite que eu iria dançar Clara Nunes, Chico Buarque e Novos Baianos até amanhecer, com direito a pequenos interlúdios de Beatles, Oasis e Beirut - sendo esse último responsável pelo momento em que um cara chegou na nossa roda e disse nunca ter visto uma dança tão sensacional quanto a nossa. Teve também o cara que veio dizer que eu estava sendo desagradável com o DJ, só porque cruzei os braços e fiz cara de bosta quando ele tocou Djavan. O cara me manda um Djavan às cinco da manhã e a desagradável sou eu?

Pelo menos a marra deu totalmente certo e logo o cara se tocou e voltou a tocar música boa, e lá estávamos nós pulando abraçadas jurando de pés juntos que quando a gente ama não pensa em dinheiro, só se quer amar se quer amar se quer amar. Não sei se seria capaz de tamanha abnegação, mas quando a gente ama eu tenho certeza que não pensa nos pés moídos, nem no cansaço das vinte e sete horas acordada, mas só no infinito acontecendo ao nosso redor.


No sábado não tivemos tempo de fazer muita coisa além de acordar, colocar nossas ressacas em stand-by e juntar nossas trouxas rumo à casa de Paloma, do outro lado da serra. Fizemos uma transição rápida entre a vibe boemia carioca e a faca na botinha, porque tínhamos um importante encontro marcado com Mr. Alex Turner, no show dos Arctic Monkeys logo mais. Farei um post só pro show, porque é tradição aqui no blog, mas adianto que foi incrível, desgraçou minha cabeça, o Alex é uma delícia que eu dificilmente vou superar, e eu e Giu quase caímos de tanto pular R U Mine, mas se eles continuassem repetindo o refrão, eu continuaria pulando feliz da vida. 


Depois da experiência de quase morte que foi a noite pós-show, pro domingo restou pouca opção senão rolar um pouquinho no quarto e ignorar a triste realidade aeroportuária que nos aguardava logo mais. Para não repetir a experiência do voo perdido da outra visita - e eu, pessoa corajosa, comprei uma passagem no mesmo voo, no mesmo horário, no mesmo aeroporto - saímos com bastante horas de antecedência. Não perdi o avião, voltei pra casa e lá se foram duas semanas, mas eu ainda não consegui parar de ouvir Mardy Bum e lembrar da gente, rir de novo das mesmas bobagens, repetir mentalmente os mesmos diálogos e me sentir extremamente grata por saber que achei mais uma casa - não um teto numa cidade linda que eu amei logo de cara, mas em pessoas maravilhosas, meninas lindas, que transformaram três dias num flawless weekend. 

E há boatos de que em dezembro tem mais!