sábado, 2 de abril de 2016

Com que filme eu vou

OLÁ INTERNET!

Esse é mais um daqueles posts em que eu disfarço falta de assunto com TAG meme esperto. Mentira, tem bastante assunto, tipo o nOvO dIsCo dO zAyN, a conjuntura política atual (PRIMEIRO DE ABRIL! kkkkk), o iminente lançamento do último volume de Raven Cycle e o fato de que até hoje não falei sobre esses livros por aqui embora eles sejam a coisa mais importante da minha vida. Mas hoje eu vou falar de filmes. Porque é sexta-feira, porque eu gostei desse meme que vi em vários blogs e não sei exatamente onde surgiu e, sobretudo, porque eu quero. Meu blog, minhas regras. Espero que vocês possam aproveitar alguma dessas indicações e se divertir no processo. 

     1) Um filme para assistir sozinha: Melancholia (Lars Von Trier, 2011)


Essa é uma resposta que talvez mereça um alerta de gatilho ou algo do tipo. Ou melhor, é um filme que demanda um alerta. Veja bem, Melancholia se diz um filme sobre o fim do mundo, mas na verdade é sobre depressão. O Lars Von Trier realizou ele com o objetivo de mostrar como se sentia, e quando deprimido ele se sentia exatamente como se aquilo fosse o fim do mundo. Na cabeça dele era. Então tem esse filme. Várias horas (acabei de pesquisar e nem são tantas assim, mas o filme é tão denso que parece durar uma eternidade). Tudo escuro. Planetas se chocando. Imagens bem doidas. Kirsten Dunst maravilhosa no fundo do poço. Aquela trilha sonora, Tristão e Isolda bem alto, grandioso, quase assustador. É uma experiência intensa, e para aproveitá-la da forma como se deve você precisa se jogar, por isso acho que é um filme pra se ver sozinha. Não é filme de conversinha, reações e comentários. É filme pra você chegar ao fim das duas horas desgraçada da cabeça e perguntando PQ MEU DEUS, mas é muito bom (inclusive saudades). 

     2) Um filme para assistir quando está chovendo: One Fine Day (Michael Hoffman, 1996)


Nem é só porque esse filme tem uma cena impagável da Michelle Pfeiffer em cima de um carro (!) embaixo de chuva (!!) usando uma camiseta de dinossauro (!!!) procurando a filha desaparecida do George Clooney (!!!!). Também não é só porque é A MELHOR comédia romântica. É porque ele sempre me passa uma sensação gostosa de ser um filme que se assiste naqueles dias em que chove demais e você simplesmente decide que não vai sair de casa e substitui as obrigações por uma tarde gostosa na frente da televisão. E porque tem a Michelle Pfeiffer. E o George Clooney. E The Chiffons na trilha sonora, crianças fofas (uma delas é a Mae Whitman!), Nova York e a melhor cena de beijo. 

     3) Um filme para te fazer dormir: My Fair Lady (George Cukor, 1964)


Cheguei num ponto da minha vida que aceitei que se eu for assistir um filme, QUALQUER FILME, que não seja no cinema depois das nove da noite, eu vou dormir. Eu durmo vendo filme de terror, eu durmo vendo filme de guerra, eu durmo com romance, filme de época e comédia besteirol. Eu dormia vendo Breaking Bad. Então eu sou uma pessoa que dorme. Ainda assim, existem alguns extremos e My Fair Lady é um deles. O filme é uma graça, as músicas são ótimas, tem a Audrey Hepburn e tudo mais, mas é um musical de três horas. Tem até um intervalo no meio! Estou com vontade de rever My Fair Lady desde que Totalmente Demais estreou, já que tanto o filme como a novela são baseados na história de Pigmaleão #referências. A novela começou em novembro e já está acabando, mas até hoje não consegui chegar na minha cena favorita, já que eu sempre durmo. ¯\_(ツ)_/¯

     4) Um filme para assistir bêbada: Superbad (Greg Mottola, 2007)


Acredito que eu faço a linha bêbada alegre. Ou isso ou eu nunca bebi o suficiente para atingir outros estágios, mas acho que está muito bom assim. Gosto de ficar (ainda mais) bestinha, achar graça de tudo e fazer um monte de piadas ruins. Isso é que é viver. Então a gente tem Superbad, um bro-movie que é uma comédia besteirol com amigos nerds que querem causar na última festa antes do fim do ensino médio. É um filme que não tenho muita vontade de rever por medo do raio problematizador estragar ele pra mim e não quero que ele estrague porque já me diverti TANTO assistindo que é melhor deixar minhas memórias dessa bobajada maravilhosa intactas. É muito besta, mas rende aquelas risadas gostosas e fáceis que só a mistura de Brasil e Cuba (mojitos e caipirinhas) garante.

Como menção honrosa gostaria de citar Um Convidado Bem Trapalhão (o título original é The Party, mas esse é bem melhor), um filme bem antigo que quase ninguém conhece. É com o Peter Sellers e cheio de comédia física, coisa que eu gosto muito, e que fica ainda mais engraçado se você já está com uma propensão alcoólica pro riso. A cena dele perdendo o sapato no laguinho é impagável. Recomendo horrores.

     5) Um filme para passar enquanto você está fazendo outra coisa: Harry Potter


Então, sou meio contra esse item porque definitivamente não sou uma pessoa que deixa filme rolando enquanto faz outras coisas. Detesto ruído de televisão e sou o tipo de maníaca que quando tá vendo um filme, tá vendo um filme. Mas aí lembrei que Harry Potter está sempre passando na TV, principalmente aos domingos, e vira e mexe deixo ele rolando mesmo sem estar muito empenhada em assistir. Sabe domingo de preguiça você ali na sala meio vendo televisão, meio fazendo qualquer coisa na internet, às vezes fingindo que trabalha, meio dormindo? Pois é. 

     6) Dois filmes para serem assistidos em sequência: Sixteen Candles + Pretty in Pink




A resposta mais óbvia para essa pergunta, que a Cacá sabiamente chegou na frente e deu, seria O Poderoso Chefão 1 e 2. São dois filmes *perfeitos*, que eu tento assistir pelo menos uma vez no ano. No entanto, além de já ter rolado essa resposta, não podemos esquecer que são dois filmes ENORMES, com 3 horas (talvez um pouco mais) cada. Então né. Por isso escolhi o combo Sixteen Candles e Pretty in Pink: não é uma sequência, mas são dois filmes do John Hughes que tem a Molly Ringwald como protagonista, romancinhos fofos para amarmos, bailes de colégio com alguma pitada de constrangimento e coadjuvantes A+. O legal é que em Sixteen Candles a personagem Sam é bem novinha e insegura, enquanto Andy Walsh, de Pretty in Pink é maravilhosa e cheia de opiniões, ou seja, é praticamente uma digievolução. A trilha sonora de ambos é bem característica de filmes dos anos 80 (True!!!) e os figurinos são muito bons.

Era pra ser dois filmes, mas é praticamente impossível não querer emendar The Breakfast Club com esses dois aí, completando a trindade sagrada da Molly Ringwald.

     7) Um filme para (não) assistir com o namorado: Up (Pete Docter, 2009)


Além de ser uma pessoa que dorme, eu sou uma pessoa que chora. Muito. E eu não sei o que acontece, mas filmes infantis, principalmente os da Pixar, me deixam muito sentimental. Óbvio, são filmes sentimentais, mas é que comigo a coisa bate com força, sempre fico meio pensativa e melancólica com animais falantes e toda aquela sensibilidade lúdica. Pois bem. Eis que com 15 aninhos fui assistir Up no cinema com um rapaz, meu primeiro ~date~ oficial. Estava tudo indo de acordo com o esperado: mãozinha dada, cabecinha no ombro, cafuné no cabelo... até que eu comecei a chorar por causa do filme. Mas assim, choraaaaaaaaar. Você já viu Up? Gente, não se faz uma coisa assim. Fui na inocência pensando que seria uma grande aventura de velhinhos com balões e levei um tiro de bazuca no meu coração. Chorei de soluçar, fiquei triste pelo resto da tarde e, é, foi isso. Emoções demais num primeiro encontro: sugiro que evitem.

     8) Um filme para assistir com amigos: Meninas Malvadas (Mark Waters, 2004)


Porque um critério básico pra ser meu amigo é saber recitar as falas de Meninas Malvadas em inglês & português junto com o filme e nunca, jamais, desperdiçar uma chance de vê-lo de novo e de novo. 

     9) Um filme para assistir com a sua mãe: Stepmom (Chris Columbus, 1998)



Tipo de filme que minha mãe gosta: filmes infantis, filmes bestinhas de Sessão da Tarde e DRAMAS.

Stepmom é um filme de Sessão de Tarde, não tão bestinha porém com MUITO DRAMA. É drama de família, coisa que eu adoro, com crianças e gente doente, coisa que minha mãe adora, com a Julia Roberts e a Susan Sarandon, que nós duas adoramos. É uma história bem linda da relação de uma mulher com a atual esposa do seu ex-marido e os filhos entre as duas, tem uma mensagem de sororidade e girl love muito bacana, e é triiiiiiiiste que só. Assistimos sempre que passa na televisão e eu quase morro de tanto chorar.

     10) Um filme para assistir com o seu pai: Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994)


Tipo de filme que meu pai gosta: filmes com o Tom Hanks, filmes genéricos de pai desses com o Liam Neeson ou o Denzel Washington que passam no Tela Quente, e filmes do Tarantino.

Meu pai gosta de todos os filmes do Tarantino, mas Pulp Fiction é meu favorito por várias coisas específicas que eu e ele gostamos muito: Vincent e Mia Wallace, Samuel L. Jackson de modo geral, o último ato do filme inteiro e essa cena da overdose acima. Acho que é uma questão principalmente de senso de humor, porque o do meu pai é bem peculiar. Ele não acha graça de quase nada, mas ri das bobajadas de Pulp Fiction. Ele também tem uma memória péssima pra filme, mas sabe várias citações desse, tipo Zed's dead, baby, Zed's dead.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Máquina de lavar

Para ler ouvindo:



A televisão foi a primeira coisa a ser trocada. Nesses doze anos já foram duas. Depois foi o móvel da sala: o antigo agora fica no corredor, dando lugar ao aparador de madeira rústica que minha mãe tanto queria. O sofá ganhou outro forro e as cadeiras também; já é tempo, aliás, de trocar tudo de novo. O microondas foi ideia minha, um dia acordei sismada que o nosso estava emitindo radiação. Não tem como confiar num microondas de mais de dez anos. Já a geladeira foi ideia da minha mãe. A nossa antiga, grande, vazava sem explicação e fazia uns barulhos muito estranhos no meio da noite. Era o nosso bicho papão doméstico, que sempre assustava minhas amigas que vinham dormir em casa. Ela foi substituída por outra, bem menor, que inexplicavelmente abria do lado contrário.

Não tinha nada de errado com ela além disso, mas um dia acordei com uma geladeira enorme me esperando na portaria. Minha mãe sismou que aquela era muito pequena e resolveu trocar. Sobrou pra mim administrar tudo isso, ela esqueceu de me ensinar o que fazer quando entregam uma geladeira na sua casa e obviamente esqueceu também de estar em casa para recebê-la. Não bastasse a geladeira, minha mãe comprou um novo fogão. Eu não pensei que esse dia fosse chegar tão cedo. Nosso fogão era velho, caquético, e só acendia com fósforo, mas segundo ela não se fazem mais fogões desse jeito e comprar outro era assinar um contrato dizendo que ela nunca mais ia passar cinco anos sem trocar o fogão. Depois que ganhamos aquele forno elétrico até parei de me incomodar com o antigo e fiquei até meio triste de vê-lo ir embora, mas não muito. Foi uma mágoa que durou até eu ver que o fogão novo tinha aquela boca gigante no meio, excelente para se fazer um arroz em dez minutos. 

Daí tocam o interfone e avisam: tem um fogão e uma geladeira pra você. Eu não sabia o que fazer. Pedi ajuda pro porteiro, a quem eu peço tantas ajudas ridículas que deve achar que sou meio boba, e ele perguntava as coisas e eu só dizia "não sei". O que vocês vão fazer com as coisas antigas? Não sei. Elevador ou escada? Não sei. Não é mais fácil deixar isso na garagem? Não sei. Onde fica o registro do gás? Não sei moço, nem sabia que gás tinha registro. Olá, meu nome é Anna Vitória e eu sou idiota. No fim das contas o fogão novo foi instalado (o porteiro sabia onde era o registro do gás), o antigo foi para a garagem, a geladeira nova ficou no lugar e a antiga foi pro meio da sala. Depois que eles foram embora comecei a chorar, e até hoje, diante dos desafios da vida, eu e Analu sempre ponderamos que pelo menos não é um entregador de geladeiras surpresa no meio do dia.

No fim do último mês trocamos a máquina de lavar, o último resquício do casamento dos meus pais que ainda existia aqui em casa além de mim. 

Gente, a máquina de lavar. Eu poderia escrever um livro sobre nossa antiga máquina de lavar. Pra começar, desde que me entendo por gente a máquina está meio estragada. Cada dia era uma coisa diferente, mas ela nunca esteve completamente funcional. Minha mãe era a única que mexia nela porque era a única que conseguia fazer com que ela funcionasse. Ela tem essa alavanca que em teoria era só puxar para iniciar a lavagem, mas nada é tão simples quanto parece. Não é força, é jeito - dizem - mas era um jeito tão, mas tão específico que parecia bruxaria. Ou pegadinha. Já consegui fazê-la funcionar algumas vezes, no entanto nunca sabia como e muito menos conseguia repetir o feito. Simplesmente acontecia. Minha mãe era a única que colocava a mão lá como se nada fosse e botava a máquina pra funcionar. Além disso a máquina pulava e fazia barulhos horríveis. E quando eu digo pulava, quero dizer que um dia ela apareceu no meio da cozinha, alagando a casa inteira. Quando digo barulhos horríveis, quero dizer ruim o suficiente para assustar Francisco, o poodle, que não se abala com nada e não apenas latia pra máquina como morria de medo dela. Minha avó passou alguns anos acendendo velas pra que ela nunca explodisse com a gente dentro de casa. 

Minha mãe, no entanto, insistia em repetir o discurso do fogão: não se fazem mais máquinas de lavar como antigamente e comprar uma nova é aceitar que a cada cinco anos (com sorte!) terei que sempre comprar uma nova. Na cabeça dela isso economizava mais dinheiro do que gastar uns 200 reais de dois em dois meses com o mecânico, presença cativa aqui em casa. Seu Raimundo frequenta tanto nossa área de serviço que me viu crescer, de tempos em tempos batendo ponto por aqui, repondo peças, perguntando da escola, a faculdade, não acredito que você formou, o que a máquina aprontou dessa vez? 

Eis que no início do ano minha mãe resolveu: quero uma máquina de lavar nova. Assim, do nada. De repente ela não suportava mais olhar a máquina antiga, tudo era ruim, meu Deus esse barulho, não aguento mais, sua avó está certa, a máquina vai explodir. Coube a mim a missão de escolher uma nova, então eu pesquisei, li mil resenhas, e em três dias sabia mais sobre máquinas de lavar do que soube durante minha vida inteira (o que era bem pouco, pra ser sincera). Poderia citar os prós e contras de uma front load contra uma top load, e até sabia o que diabos era uma front load e uma top load. Pensando em tamanho, energia e preço, escolhemos o modelo, fizemos o pedido e esperamos esse novo paradigma acontecer.

De acordo com o site era pra máquina ser entregue no dia catorze de março, mas ainda era fevereiro quando cheguei em casa e o porteiro disse: tem uma coisa aí pra você. Quando chego na porta de casa, lá está ela, uma máquina de lavar surpresa no meio da tarde. Sem entregador! O que você vai fazer com ela?, perguntou o porteiro. Excelente pergunta, seu José, inclusive queria saber se o senhor tem uma sugestão. 

Seu José me ajudou a colocar a máquina dentro de casa e ela ficou ali no meio da sala até minha mãe resolver o que faríamos com a antiga. Até que foi rápido: Marta, nossa diarista, reivindicou a posse da máquina que ela temeu por todos esses anos que trabalhou aqui, e num dia em que eu não estava em casa (glória) ela foi retirada e a nova foi colocada no lugar com pouca cerimônia. Seu destino foi longo e bom... Não a choreis, diria o poeta.

Já a máquina de lavar nova, que bonita ela é. Coube ao Seu Raimundo as honras de instalá-la, o que ele fez meio borocochô, talvez pensando que não poderia mais contar com o dinheiro quase fixo que ganhava aqui em casa às custas da antiga. Ele me chamou dentro de casa pra me ensinar a mexer, pediu que eu prestasse atenção, só faltou dizer que só ia explicar uma vez. Demonstrou todas as funções daquele painel digital bonito, disse o que a gente podia e não podia fazer, ensinou truques, avisou mil vezes pra não deixá-la na tomada sem necessidade, nunca esquecer o botão de play e pause. Agora tenho uma máquina com play e pause, logo eu, vinte e dois anos lidando com uma máquina que tinha uma única alavanca que eu não sabia puxar. Assentia com a cabeça, entendendo horrores, quando na verdade esquecia tudo tão logo ele ia falando. Depois que ele foi embora fui ler o manual e submeti minha mãe à mesma seção de do's e don'ts, tendo certeza absoluta que ela também não prestava atenção em nada e ia fazer tudo do seu jeito.

Então agora temos uma máquina de lavar de verdade e estou experimentando seus benefícios pela primeira vez, maravilhada, como uma dona de casa de classe média dos anos 50. Por conta de todo o jogo de cintura que a antiga envolvia, a problemática da alavanca, os pulos e barulhos e tudo mais, eu raramente lavava roupa. Eu lavo, você estende, era o que minha mãe sempre dizia, e estender roupas é meu calvário particular. Lavar, no entanto, é uma alegria, me acalma. Gosto de separar as cores e os tipos, usar os ciclos certos, exagerar sem querer no amaciante, ficar ali de cara com a tampa transparente vendo tudo girar, as roupas ficando limpas quase que como mágica, o cheiro gostoso que fica quando elas saem dali. Somos um pontinho azul no meio do nada, poeira das estrelas e vamos todos morrer mesmo, muito provavelmente matando uns aos outros, mas mesmo assim fomos longe o suficiente pra inventar uma máquina que lava roupas. Isso é que é evolução.

Falando assim é como se eu lavasse roupas todos os dias, o que é uma mentira. A verdade é que eu sou metódica, o que me deixa completamente incapacitada de dividir a máquina com a minha mãe. Só uso quando ela viaja, porque tem que ser do meu jeito e eu não suporto vê-la ali apertando os botões sem nenhuma destreza, fazendo tudo como acha que deve, e a gente sempre acaba brigando. Ela, com uma autoridade segura de quem faz isso há anos e sabe melhor, e eu que cheguei agora, achando que sei tudo porque domino o brilhante painel digital. Diante da máquina de lavar reproduzimos a mesma dinâmica desses últimos anos, cada uma a seu tempo deixando pra trás aquilo que não era bom e construindo uma história de novas peças, novos cheiros e programações mais avançadas - assustadas diante de tudo que é novo, porém não menos encantadas com a possibilidade de novos ciclos.

Rápido. Dia-a-dia. Delicado. Cama & Banho. Água quente e fria. Play e pause. Que maravilha é a máquina de lavar.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Diálogo?

Às vezes eu lembro de umas coisas aleatórias. Hoje lembrei que o nome do primeiro disco do NX Zero é Diálogo?, assim, com uma interrogação no final. Acho incrível como um sinal de pontuação faz toda a diferença. Eu provavelmente não lembraria se fosse simplesmente Diálogo. Diálogo? deixa as coisas mais dramáticas, como uma conversa que você pega no meio, um casal falando alto num restaurante em que todo mundo fala baixo: 

- Diálogo? Diálogo, Lidiane? - ele diz, logo antes de jogar o guardanapo de tecido no prato e se levantar de repente, fazendo a mesa toda balançar. As pessoas que antes já falavam muito baixo agora pararam completamente de falar para observar a cena. Marcos chegou rápido até a esquina enquanto Lídia cortava mais um pedaço do cordeiro, os olhos fixos no prato, tentando entender o que tinha dito de tão errado. Diálogo, ué. Ele sair assim só mostrava como ela estava correta. 

Eu poderia continuar pelo resto da noite. 

***

O negócio é que eu lembrei que o nome do primeiro disco do NX Zero é Diálogo?, o que me fez lembrar que ouvi NX Zero pela primeira vez num programa da MTV chamado Chapa Coco, com o Felipe Solari e um outro cara que eu sei o nome. A banda estava no estúdio porque era a estreia do primeiro clipe deles. O Di usava camiseta branca com um colar de sementes vermelhas e eu achei ele o maior gatinho, por isso fui assistir o clipe de novo logo que o programa acabou. Essa seria uma lembrança relevante se eu tivesse sido uma grande fã de NX Zero na minha adolescência - a gente sempre tem histórias sobre como foi ouvir bandas importantes pela primeira vez - mas não. Foi só uma coisa que eu lembrei.

Eu estava pensando sobre diálogos (Diálogo?) porque li uma resenha de Batman vs. Superman que dizia já no título: dava pra resolver conversando, e eu sabia que concordava com aquele texto mesmo antes de assistir ao filme. Saindo do cinema repeti a mesma coisa, dava pra resolver conversando, e hoje, quando me perguntaram como tinha sido o filme ontem, disse que um diálogo pouparia Batman e Superman de uma tremenda dor nas costas e Gotham (ou foi Metropolis?) de uma destruição quase completa. 

É uma premissa bem estúpida colocar os dois heróis mais importantes (de acordo com algumas pessoas) para lutar entre si se eles estão fundamentalmente do mesmo lado. Sei lá, os dois não querem o bem e a paz mundial? Na minha módica opinião a gente troca uma ideia antes de resolver as diferenças no braço, principalmente quando esse braço significa quebrar uma cidade inteira. Então eles estão lá quebrando a porra toda e no fim é tudo por causa de um mal entendido. Que poderia ter sido evitado se os bonitões CONVERSASSEM. 

- Diálogo? - pergunta Bruce Wayne sem disfarçar o escárnio enquanto sai do restaurante às pressas com uma lança de kriptonita das mãos - Eu não tenho tempo pra diálogos. - disse, agora com uma voz mecânica e grave que não era mais a sua, mas a de Batman.

***

Eu queria que as pessoas conversassem. Veja bem, conversar é diferente de falar, argumentar, discutir. Conversar, sabe? Diálogo. Uma pessoa fala. A outra escuta. Pondera. Depois responde. É uma troca.

Desde que estourou todo esse rebosteio pelo país tem me incomodado muito a gritaria generalizada, com as pessoas berrando na cara umas das outras aquilo que acreditam e deixam de acreditar, incapazes de ouvir o que o outro lado diz. Acredito que a polarização é uma configuração estúpida para qualquer sociedade, a começar pelo fato de ela não ser real, já que a vida não existe no preto ou no branco, mas num caminho possível entre os dois. Enquanto a gente só ouve quem diz a mesma coisa que a gente e repete só aquilo que a gente já concorda, deixando de ouvir quem está do outro lado, demonizando qualquer posicionamento que fuja à nossa cartilha perfeita de como as coisas devem ser e o que estiver diferente merece morrer, sério, a gente não vai pra lugar algum. 

Imagine aquele monstro do filme, oportunamente batizado de Apocalypse, e é mais ou menos assim que vamos continuar vivendo. 

Entrando no Facebook

- Diálogo? - pergunta Apocalypse, de acordo com o tradutor residente - AJKDHKNNKJHKJFHEIBSKSNKKBGWKGBSODJSINRGKBKBCDHDJJSJSKSDNNSHUAAAAAA [destroys everything in kryptonian monster language]

***

Esse mês eu li Modern Romance, livro sobre relacionamentos na era digital escrito pelo Aziz Ansari (!). Logo no início ele fala sobre a situação ridícula que a modernidade (ou a pós-modernidade, caso você prefira assim) nos coloca que é a de ficar calculando quanto tempo devemos esperar pra responder a mensagem daquela pessoa que a gente gosta. Porque, sabe como é, não dá pra responder muito rápido senão vai parecer que a gente está ali com o celular na mão esperando aquele oi, ainda que a gente esteja. Ninguém quer se mostrar muito disponível e nem ser aquela pessoa que gosta demais. Então a gente espera dez minutos. Vinte. Sete a mais do que a outro esperou pra responder, porque não sou eu que vou sair perdendo caso alguém esteja acompanhando o placar.

Enquanto isso tem dois bobocas de olho no celular e no relógio, perdendo o maior tempo e tendo crises de ansiedade, enquanto tudo seria resolvido com um diálogo. 

- Oi, gostei de você.

- Eu também.

- VAMO SE BEIJAR?

- Bora

A Taylor Swift (lógico) já escreveu mais ou menos sobre essa sensação em The Story Of Us: Now I'm standing alone in a crowded room and we're not speaking / And I'm dying to know is it killing you like it's killing me? 

A parte mais idiota disso tudo é que 1) o maldito do jogo funciona e 2) mesmo sabendo que é estúpido a gente joga junto. Recentemente me vi no meio de uma dessas histórias de mensagens e silêncios calculados, morrendo um pouco a cada vez que pegava meu celular e não via ali nenhuma notificação, pensando que tudo isso seria evitado se eu tivesse um pouquinho mais de coragem de dialogar. Eu tenho esse monte de filosofias, mas infelizmente ainda não sou adepta de todas elas. Por causa desse monte de bobeiras uma história nunca começou, e nem estou dizendo que seria uma boa história, mas seria melhor que esse disco furado na faixa introdutória. 

Algumas histórias não aconteceriam se houvesse diálogo, vide Batman vs. Superman, mas outras tantas se perdem quando a gente escolhe não dizer nada. Já era para eu ter superado esse caso, eu já tinha superado esse caso, mas às vezes eu lembro de umas coisas aleatórias, como lembrei do Diálogo?, disco do NX Zero, que me lembrou de Batman vs. Superman, e da Conjuntura Política Atual, mas também me lembrou de Fresno, e de como aquele moço gostava de Fresno na adolescência, o suficiente para se lembrar, assim como eu, de como tinha ouvido a banda pela primeira vez, e a gente estava no mesmo show, e tudo isso me fez pensar nos nossos diálogos que nunca aconteceram, jamais vão acontecer, e tudo isso me trouxe até aqui. 

- Diálogo? - ela disse, descrente, como se falasse para si mesma ou para ninguém.