quinta-feira, 21 de maio de 2015

Como pegar mulher na balada

Querido leitor, não precisa olhar para os lados desconfiado, você entrou no blog certo.

Eu sei, eu sei. O título não tem nada a ver com a minha linha-editorial, até porque recentemente eu disse aqui mesmo que me orgulhava por manter há sete anos um blog onde você vai até o final dos arquivos e não encontra nada de útil pra sua vida, mas hoje eu resolvi abrir uma exceção. Estou ciente dos riscos que corro com esse título e que provavelmente vou abrir as porteiras do inferno de um jeito pior do que quando resolvi escrever sobre o Chico Buarque dando umas beijocas em pleno oceano atlântico, mas essa é uma causa nobre.

Resolvi escrever esse pequeno manual prático porque minhas experiências na noite têm me feito perceber que os homens não fazem a menor ideia do que estão fazendo com suas vidas. Sempre que vejo alguém pagando micão em praça pública me pergunto se a pessoa não tem um amigo bacana pra segurar na sua mão e dizer: amiga, pare. Caras, hoje eu vou ser essa amiga pra vocês. Uma amiga que vocês não merecem, mas eu vou fazer essa força em nome de um bem maior.

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Digo não merecem porque na última festa que fui minha amiga foi obrigada a chamar a segurança pra se livrar de três caras sem noção que não deixavam a gente em paz. Sabe o que é ter que sair no meio de Hips Don't Lie (Shakira Shakira) pra ir atrás de ajuda porque um grupo de moços achou que a gente tinha obrigação de beijar todos eles só porque estávamos numa despedida de solteira, bem lindas de coroa na cabeça? Pois é, bem desagradável. Só não foi pior do que o tempo que tivemos que aguentar eles nos cercando e olhando daquele jeito, numa pilha muito errada, mesmo depois de já terem ouvido uns 33 nãos. Aliás, ruim mesmo foi ser obrigada a ver um desses caras colocar o dedo na cara da minha amiga e falar com ela de um jeito ameaçador e escroto, só porque ela decidiu que não era obrigada a aguentar aquilo e foi pedir ajuda. 

Pedir ajuda. No meio de uma festa. Porque os caras não. conseguem. ficar. de. boa. 

Pensam que acabou aí? Não acabou aí. A santa segurança da balada fez os moços saírem de perto da gente e nós também nos mudamos de lugar, só por precaução. Estava tudo indo muito bem, dançávamos ao som do sofisticado funk carioca, quando uma dupla de caras muito bêbados veio atormentar. Levaram um não, porque não. Não conseguiram ficar de boa. Quebraram a coroa que estava na cabeça de uma das minhas amigas, tentaram arrancar o véu de noiva (sim) da cabeça da outra. 

Era uma ocasião especial demais para que aquilo matasse o meu ânimo, mas esse é o tipo de coisa que mata totalmente o meu ânimo, e um dos motivos pelos quais eu morro de preguiça de sair de casa. Se for pra aguentar homem me puxando pelo braço e sendo um neanderthal comigo, prefiro dançar sozinha no meu quarto, obrigada - mas eu ainda acho que pessoa nenhuma tem o direito de estragar minha noite ou me forçar a ficar em casa.

Então, se você, moço, que por ventura esteja lendo esse post e pensando qual a melhor forma de pegar uma mulher na balada (estou falando aqui de uma relação heterossexual porque é o que a minha experiência abrange), qual é o pulo do gato, eu vou contar o segredo pra você. Pega o bloquinho aí:

1) SEJA UM SER HUMANO RAZOÁVEL


Não precisa ser um Aaron Paul, tampouco a Beyoncé. Basta ser uma pessoa tranquila e dotada de um mínimo de bom senso. Coloque a mão na consciência antes de agir e pense aí consigo mesmo se a atitude que você está prestes a tomar se enquadra no espectro de ações que um ser humano razoável tomaria. Puxar a menina pelo braço, pelo cabelo, ou começar a dançar se esfregando nela sem ter recebido nenhum encorajamento não se enquadram nesse grupo, ok?

2) NÃO SEJA UM BABACA


Existem babacas e babacas, mas num contexto social de uma balada, principalmente no que diz respeito à interação com outros seres humanos tendo em vista o engajamento num lancinho qualquer, eu acho que o mínimo que você deve fazer pra não ser um babaca é tratar as pessoas (incluindo as mulheres) como seres humanos, porque é o que elas são. Não, cara, as meninas não estão ali pra te entreter (e ainda que estejam, elas merecem respeito também), e são mais do que uma boca, um par de peitos e uma bunda. Eu sei que você só quer agradar, e nada agrada mais do que um cara que te enxerga como gente. 

3) PRESTE ATENÇÃO NOS SINAIS 


Sinais que NÃO indicam necessariamente que uma garota está a fim de você:
  1. Dançar (sozinha, com os amigos ou até com você) de um jeito sexy usando roupas curtas;
  2. Dançar (sozinha, com os amigos ou até com você) de um jeito sexy;
  3. Dançar (sozinha, com os amigos ou até com você);
  4. Estar bêbada;
  5. Estar sozinha;
  6. Não ter namorado;
  7. Gostar de homens;
Sinais que indicam necessariamente que uma garota não está a fim de você:

"A linha entre insistir e desrespeitar não é tão tênue assim. Existem códigos e sinais que demonstram se a pessoa está interessada e, por mais que eles não sejam tão claros e muitas vezes sejam bem confusos, um não é sempre claro. O não está ali, a menina pode te dizer, pode largar o braço dela da sua mão, virar a cara etc. Pegue esse não e prossiga sua vida. Continuar depois daqui é desrespeito, falta de noção, falta de conhecimento sobre as leis, falta de humanidade. É dizer que a opinião daquela mulher não importa tanto quanto a sua, é dizer que ela é inferior e por isso você pode o que vocês quiser, mesmo sem ela deixar e querer."
Brena O'Dwyer, na Capitolina
  1. Dizer que não está a fim de você (tigrões, eu sei que vocês cresceram ouvindo que não de mulher é talvez, mas entenda isso de uma vez por todas: não é não);
  2. Dizer que não está mais a fim de você: olha, tá permitido mudar de ideia, viu? Não é porque ela te deu bola no início que é obrigada a ir até o fim, não é porque ela te beijou que vai querer beijar de novo, não é porque ela topou ir pro cantinho contigo que ela vai ter que ficar lá o tempo inteiro. Antes, durante e depois: se falou não, tira a mão e dá licença que é não mesmo. 
  3. Não estabelecer contato visual contigo mesmo que você esteja encarando ela há duas horas, ou então parado no seu espaço pessoal tentando desesperadamente segurar um olhar;
  4. Desviar a cabeça sempre que você dá uma investida ou dizer que vai ali retocar o batom e não voltar nunca mais;
  5. Dizer que não fala português;
  6. Chamar a segurança pra te tirar de perto dela;
Sinais que indicam que uma garota pode estar a fim de você:
  1. Dizer: "Oi, tô a fim de você". 
  2. Retribuir seus olhares lânguidos, sorrir e dar espaço pra você chegar;
  3. Te beijar de volta;
  4. Te beijar primeiro;
Coisas que NÃO vão fazer uma garota mudar de ideia e ficar a fim de você:
  1. Passar o resto da festa parado perto dela, encarando como se ela fosse um frango de vitrine;
  2. Puxar ela pelo braço;
  3. Puxar ela pelo cabelo;
  4. Encostar em qualquer parte do corpo dela;
  5. Beijar ela a força;
  6. Invadir seu espaço pessoal;
  7. Ameaçá-la de qualquer forma;
  8. Chamar ela de linda;
  9. Chamar ela de gostosa;
  10. Chamar ela de vagabunda;
  11. Chamar ela de sapatão;
A única coisa que realmente vai fazer uma garota ficar com você:
  • A vontade dela.

Eu sei que parece muito, principalmente porque muitos homens cresceram com uma ideia equivocada de que a vida das mulheres gira ao redor deles, que não dá pra se divertir sem se atracar com um cara no meio da pista, e que nossas roupas, nosso decote e o jeito que a gente dança são um código secreto que grita ME BEIJA, mas não é.  Sei que tem quem ache que basta a vontade ou a insistência pra que a gente mude de ideia e fique com eles de todo jeito, mas não é bem assim não, tá? 

Sei que é difícil desconstruir essas certezas e aceitar que a dinâmica é muito mais complexa porque envolve a autonomia e a vontade de duas pessoas, não de uma só. Sei que os sinais parecem complicados de início, mas se até eu que sou 87% idiota consigo me fazer entender mesmo no escuro e com música alta, vocês também conseguem. Sorriso, cheiro bom e senso de humor ajudam bastante, mas na dúvida, lembrem-se sempre: sejam seres humanos razoáveis e não sejam babacas. Se organizar direitinho todo mundo se beija, e se não rolar tem outros troféu. 


E pra não dizer que não falei das flores, recado pras meninas: a única coisa que deve fazer você ficar com um cara é a sua vontade. Não deixe um babaca estragar sua noite ou sua vida, na dúvida GRITE. 

>> Não me interessa se nem todo homem, etc. O que me importa é que todas as mulheres estão sujeitas a serem intimidadas por algum homem idiota, em algum momento. Sejem menas. 
>>> Não é a primeira vez que eu escrevo sobre isso: Manifesto contra quem pensa que assédio é motivo pra dar risada.
Alguns links para saber mais:

Gosto de fazer essa link party em posts mais sérios ou cujo tema é maior que eu primeiro porque a internet está cheia de gente maravilhosa e gabaritada que pode discorrer sobre eles muito melhor que eu, depois porque outras visões são sempre importantes. Se você conhecer ou tiver escrito algum texto bacana sobre o assunto, indica nos comentários pra eu colocar aqui também! :)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Um dia depois dos outros

(20122013, 2014)

À meia-noite do dia quatro de maio de 2015, eu estava entrando em casa. Com uma mala de rodinha e uma bolsa pesada, tentando fazer pouco barulho, quatro dias depois de ter saído para visitar o grande amor da minha vida, a cidade do Rio de Janeiro. 

Era lá que eu estava há um ano, nesse mesmo dia, e quando me dei conta da coincidência só conseguia pensar em uma coisa: não posso perder esse voo de novo. Em 2014, na minha primeira viagem ao Rio, perdi o voo de volta pra casa no dia 3 de maio, e ganhei o dia 4 de presente - um dos dias mais mágicos da minha vida. Em 2015, infelizmente, perder o voo do dia 3 não era uma opção, e ainda que isso fosse resultar numa história maravilhosa, uma prova incontestável de que destino existe e esse projeto é mágico, às vezes a gente precisa fazer o que é certo em detrimento de um bom caso. Eu não podia perder aquele voo. 

Eu não perdi aquele voo. 




































Tão logo entrei em casa, fui logo me atirando no chão para ser recebida por Francisco, o poodle. Ele pulou em mim, me cheirou toda, e ficamos ali rolando juntos no chão por um bom tempo. Era só nesse momento que eu pensava algumas horas antes, no aeroporto gelado de Belo Horizonte, enquanto esperava o horário da minha conexão. Aprendi com o tempo que na viagem de ida todo santo ajuda e qualquer espera é uma festa, mas na volta todo minuto é insuportável e a solidão de um aeroporto é bizarramente opressora. Só pensava em chegar, abraçar meu cachorro e deitar na minha cama.

Minha mãe não aguentou me esperar acordada, então só passei no seu quarto, dei um beijo e deixei ela dormir em paz, não sem antes ouvir as palavras mágicas: "tem janta pra você em cima do fogão". Mães. Tomei banho, vesti meu pijama, e, antes de comer, precisei encarar minha mala. Ai, a mala. Eu costumo evitar a mala de viagem por pelo menos uma semana, pois esse é meu jeitinho de negar a realidade, mas ela estava cheia de coisas muito molhadas e sujas e eu precisava lidar pelo menos com isso antes de esquecer o resto no canto do quarto, até minha mãe ameaçar colocar fogo em tudo. 

Primeiro saiu a roupa da praia, toalha, biquíni e minha canga de bolinhas, que há pouco mais de doze horas estavam estiradas nas areias de Copacabana, curtindo um banho de mar de um incrível domingo carioca. Eu tinha acordado às oito da manhã mesmo tendo ido dormir às quatro, primeiro pra me despedir de Iralinha, e depois porque eu tinha prometido para Tary e Lilica. Queria estar bem morta até a hora que coloquei os pés na areia, mas bastou a primeira onda batendo na barriga - primeiro gelada, depois sensacional - pra todo o esforço ter valido a pena. 


Depois, tirei de lá meus tênis vermelhos, sujos de areia e balada, meus Vans guerreiros que dançaram comigo a noite inteira, e que pularam Sandy & Junior, Britney Spears, e Claudinho e Buchecha, que pisaram muito nos pés de um carioca lindo, que correram na Avenida Atlântica no fim da noite e que viram o sol nascer da areia, de frente pro mar. Eu ia ter que lavar meus tênis em algum momento, mas não naquele dia. 

Jantei arroz com frango assado e assisti meio episódio de Modern Family antes de dormir na minha cama muito vazia, na minha casa muito silenciosa.

Acordei pouco depois das onze da manhã sentindo todos os músculos do meu corpo doerem. Pra completar, o dia estava cinza, chuvoso e frio. Na maior parte dos dias, essa é minha configuração climática ideal. Sou do tipo de gente que abre a janela cantando para receber uma manhã nublada. No entanto, not today, Satan, not today. Até ontem eu estava no Rio, caramba, e aquele dia feio era uma evidência jogada na minha cara de que o sonho tinha acabado. Meu plano era sair de vestidinho e Havaianas, reforçando meu processo de carioquização, mas o máximo que consegui foram sapatilhas, jaqueta jeans e um vestido longo - porque calça jeans já era pedir demais. 

Almoço com meus avós algumas vezes na semana, já que nem meu pai nem minha mãe tem tempo de ir em casa almoçar. Na segunda foi assim, e depois do almoço mostrei pra eles todas as fotos da viagem e ouvi de novo todas as histórias do tempo que minha bisavó morava num apartamento em Copacabana. 

Uma coisa engraçada que noto depois de toda aventura especial que vivo é que as pessoas ao meu redor estão sempre perguntando como foi, e eu queria muito poder sentar e contar todos os detalhes, mas nunca consigo. Algumas vezes eu nem sei se quero - primeiro porque eu acho que relato nenhum vai fazer justiça a tudo que foi, e segundo porque certas coisas são tão especiais que gosto de guardar só comigo. 

A história da gente, da Máfia, sempre foi algo muito difícil pras outras pessoas entenderem, entre família e até meus melhores amigos, porque não é algo que se vê todo dia, não é algo normal. Eu também não acreditaria muito se só ouvisse falar das amigas da internet da minha filha, e minha avó ainda acha que essas viagens que fazemos são "congressos de blog". Então, por mais que eu mostre as fotos e diga: olha nossa casa, como era linda, e aqui a decoração que fizemos pra festa, as coroas que usamos, o dia amanhecendo, a Urca, os livros e essa noite foi foda... Eles não vão saber. E, algumas coisas, se for pra entender pela metade, entender torto, achar besteira ou exagero, eu prefiro que nem saibam. As fotos da festa ficaram ótimas. Foi incrível, sim. O Rio é lindo. Me passa o arroz?















































Fui pra faculdade, mas minha aula acabou bem mais cedo do que o esperado, o que me deu algumas horas livres que eu poderia ter usado para lavar os tênis e a roupa suja de praia, pra adiantar o trabalho daquela semana, que seria puxada, pra arrumar meu quarto e transcrever uma entrevista, mas decidi que não era obrigada a ser útil naquela segunda-feira e fui logo pro sofá, assistir aos capítulos que perdi da novela das seis. Antes da metade do primeiro eu já estava dormindo, pra acordar de novo às oito da noite. Conversei um pouco com a minha mãe, depois fui pro Skype com o Matheus, pra depois voltar pra novela e dormir em poucos minutos, encerrando o dia. 

Lembro que, no primeiro Encontrão, a Analu disse uma coisa que nunca saiu da minha cabeça: "fodeu, agora a gente vai saber o que é saudade". Estar com minhas amigas é incrível demais, e dói na mesma medida quando nos separamos, como uma ressaca emocional. Numa conversa que tivemos logo quando cheguei, disse pra ela que usamos esses nossos momentos juntas e todas as modas que inventamos pra fazer tudo aquilo que temos vontade, mas sempre achamos impossível. É como passar alguns dias num mundo paralelo em que a vida sorri pra você e tudo é permitido. Na teoria, a gente também era impossível. Por isso é tão difícil voltar e a realidade parece tão mais sem graça no começo.

O que a gente esquece quando volta pra casa é que a gente continua sendo a gente, mesmo separadas. Juntas, nós vimos que as coisas, elas acontecem, mas só porque em grande parte das vezes nós que fizemos elas acontecerem. Não precisa acabar quando termina, e às vezes tudo que a gente precisa fazer pra conseguir o que quer é ir lá e... fazer. Cantar na rua num dia qualquer. Aguentar mais meia hora pra ver o sol nascer. Sair de coroa por aí. Não entrar naquele avião. Largar tudo e entrar de todo jeito. Ser tão feliz quanto a gente acha que tem direito, não só um dia, mas todos os dias. As coisas sempre acontecem.



























Até ano que vem.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Amor platônico nº 67

Você sabe que encontrou seu lugar no mundo quando sua paixão de cinco minutos é correspondida. Eu e o cara do metrô do Rio de Janeiro nos amamos por dez. 


Foi assim: estávamos eu e minhas amigas, onze garotas alopradas que, desde que andaram de ônibus juntas pela primeira vez, há três anos, perceberam que não dá para fazer isso sem perturbar a ordem do lugar. A gente é insuportável mesmo e eu nos odiaria se estivesse vendo de longe. Quem, afinal, pensam que são essas garotas barulhentas que precisam estar sempre coladas umas nas outras, cantando o tempo inteiro, sendo espaçosas, sentando no chão do trem, rindo até cair, e conversando com quem está duas ou três fileiras atrás? Somos nós, sim senhor, amigas que se encontraram do nada, e que se veem, com muita sorte, duas vezes ao ano, e que precisam, sim, causar todo o estardalhaço que causamos por onde passamos. Aceita que dói menos. 

Quando você encontra suas pessoas no mundo, de repente não se importa mais com o que os outros pensam. 

E aí que nós estávamos vindo da mureta da Urca, depois de um fim de tarde de overdose de Rio de Janeiro e tudo que ele oferece, depois de ocasionais cervejas, jogos, pôr-do-sol e muitos, muitos gritos e nós estávamos indo para a livraria. Se o Rio é nossa cidade, a livraria Cultura é nosso quartel general. Mas no meio do caminho tinha um garoto, tinha um garoto no meio do caminho, e ele estava sentado sozinho num banco enorme e vazio do metrô e a gente sentou do lado dele, e a gente que sobrou sentou de frente pra ele, e nem toda a folia do mundo me tirou aqueles três segundos em que cai a ficha que você está cara a cara com um cara bonito do metrô. 

Ele era como todos os caras bonitos de metrô e paixões de cinco minutos perdidas em cidades maravilhosas parecem ser: moreno barbudo, cara de bobo, All Star branco no pé e aquela doçura carioca que, vocês me desculpem, os paulistas nunca terão. Três segundos e minha vida se revelava novamente um maldito de um clichê, com a única diferença de que, pela primeira vez na vida, depois de 21 anos de muitos amores platônicos de cinco minutos ou cinco anos, eu aparentemente estava sendo correspondida. I was enchanted to meet you, too. 




















Com ou sem os caras bonitos, a gente agiu naturalmente e seguiu fazendo a-gentices como sempre. Muda de banco, troca de lugar, dá risada, finge que briga, faz charminho, tem crise histérica de riso, inicia conversas paralelas em grupos menores, fala de livros, da festa de ontem, vamos comer bolo e tomar champanhe na volta, tô com fome, ai minha panturrilha, vou tomar banho primeiro, etc. E ele ali no meio daquele pudim de estrogênio, às vezes disfarçando, meio cruzando os braços e olhando pro teto, e de repente descaradamente prestando atenção, com uma expressão divertida no rosto. 

Até que, com um pouco de atraso, todas nós tivemos nossos três segundos coletivos de consciência de que estávamos cara a cara com um cara bonito do metrô. 

Pensei que fosse a única a ter reparado nele, mas minhas amigas não me decepcionam e logo estávamos todas naquela telepatia de garotas que, com olhares e risadas, sabem exatamente o que a outra está pensando. Todas nós estávamos pensando que ele era lindo e que estávamos sendo retardadas diante de um cara lindo, porque gritamos o tempo inteiro pra de repente calar a boca, cochichar e rir. Através do reflexo na janela, Giuliana Rebeca me observa ali, 100% sem saber lidar, e diz: eu já te saquei, viu? 

Porque eu estava olhando pra ele, e ele estava olhando pra mim, e eu comecei a fingir que não estava olhando pra ele, mas ele olhava tanto pra mim que não tinha como não olhar de volta, e quando eu finalmente pensava em outra coisa eu sentia ele olhando de novo pra mim, então eu olhava pra ele, e aí eu queria começar a rir, e ele segurava a risada do lado de lá, então ele olhava pra cima, e eu olhava de novo, só pra testar (meu Deus! que cara fofo!), e a gente ficou se olhando por três segundos quase insustentáveis e uma música da Taylor Swift tocava no meu coração. Please don't be in love with someone else?

Então acabou, como todas as paixões de cinco minutos estão fadadas a acabar, e eu gosto de acreditar que teria dado meu telefone pra ele se morasse ali, e eu quase dei meu telefone pra ele mesmo não morando ali, mas decidi que já tenho motivos suficientes pra morrer de saudades do Rio e não preciso de mais um. O que fiz foi olhar pra ele, olhar de verdade, deixar ele ter certeza de que eu estive olhando o tempo todo enquanto imaginava que poderíamos ser nós dois na praia algum dia e que poderia ser ele me rodopiando na gafieira, cantando Cartola ao romper da manhã, e ele me olhava assim meio de lado, já saindo, indo embora, louca por ele.

Só de escrever esse texto fiquei com um frio na barriga e tenho certeza que o Happn perdeu um maravilhoso publieditorial. Se eu morasse no Rio, tenho certeza que já estaria casada - mas, por enquanto, é isso que se oferece.