quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Filminhos da vez #12: os últimos e os primeiros do ano (e algumas coisas para não ver no carnaval)

Então. Eu não falo de filmes aqui desde agosto, se não considerarmos o SO CONTAGIOUS AWARDS que escrevi sob os efeitos entorpecentes da preguiça e do esquecimento. Sei que ninguém realmente se importa, mas é preciso manter essa locomotiva girando - afinal, o Oscar está aí, né? Então eu vou falar sobre o que andei vendo nesses quase oito (!) meses, mas só o que eu lembro, e só o que eu estou a fim de comentar, porque a internet não precisa de mais uma opinião sobre Que Horas Ela Volta? e realmente não faço ideia do que aconteceu no último James Bond (alguém registrou algo para além daquela abertura medonha e o cabelo lindo da Léa Seydoux?).

Para evitar esses esquecimentos, abri uma conta no Letterboxd para registrar o que tô assistindo esse ano. Tenho um perfil no Filmow há alguns bons anos, mas ele vem sendo deixado de lado há um tempo e perco completamente a vontade de atualizá-lo sempre que vejo aquela interface medonha. Não vou migrar os filmes antigos, então perdoem a bagunça e me adicionem lá. 

The Skeleton Twins (Craig Johnson, 2014): Esse filme deu início a uma obsessão real pelo Bill Hader. O fato dele protagonizar o filme junto com a Kristen Wiig pode enganar, principalmente porque Brasil ele foi traduzido como Irmãos Desastre, mas ó: não é uma comédia. É um filme sobre suicídio de uma sensibilidade absurda, talvez porque use de senso de humor mas nunca de forma leviana, banalizando a seriedade do tema ou pior, romantizando-o. Ele é cheio de escolhas pouco ortodoxas e também engana quem estiver esperando um Filme Sobre Suicídio, mas acho que é justamente por isso que funciona tão bem. O relacionamento dos dois é cheio de nuances, com ternura e mágoas na mesma medida, e me apaixonei completamente por eles (principalmente pelo Bill Hader). Tem Blondie na trilha sonora e outras coisas legais. 

Trainwreck (Judd Apatow, 2015): Então. Realmente acho que a Amy Schumer é uma voz importante no cinema mainstream. Uma mulher que subverte aquilo que se espera das mulheres do seu meio, principalmente das mocinhas. Objetivamente, gosto do que ela faz nesse filme, que é inverter os papéis tradicionais de gênero numa comédia romântica - ela é a porra louca que não acredita em monogamia, faz muito sexo, bebe e usa drogas, enquanto ele é o bom moço, nerd, desajeitado que vai mudar a trajetória dela - mas, pessoalmente, odiei. Achei grosseiro. Good for her, not for me. Achei a história frágil, não comprei o romance deles, e não teria feito esse monte de concessões não fosse o Bill Hader final, que tem dancinha e Uptown Girls tocando. Eu não consigo ignorar uma dancinha brega, muito menos o Billy Joel. 

It Follows (David Robert Mitchell, 2014): FINALMENTE UM BOM FILME DE TERROR. Quer dizer, não sei se ele pode ser classificado como terror, talvez suspense, ou filme-com-coisas-estranhas-inexplicadas-e-inexplicáveis-acontecendo. Tem absolutamente tudo que eu gosto: adolescentes + mistérios + coisas estranhas + subúrbio. A atmosfera (construída graças a uma fotografia FABULOSA e uma trilha sonora incrível) é uma mistura de Twin Peaks com As Virgens Suicidas. Não chega exatamente a dar medo, mas dá uma afliceta sincera e só por ela já amaria esse filme pra sempre. O que mais? A mitologia pode ser uma alegoria para o sexo, algo que ainda não sei se foi genial ou de péssimo gosto, mas AMEI. Só recomendo passar longe se você gosta de histórias com muitas explicações e detesta finais abertos.

Goodnight Mommy (Severin Fiala, Veronika Franz, 2014): Olha, pensem numa decepção. Fiquei completamente obcecada pelo trailer. Um filme de terror austríaco com duas crianças presas numa casa isolada com a mãe, que depois de operar o rosto parece ter ficado meio demônia??? Tô 100% dentro. Ele vai muito bem até a metade, constrói um climão que é creepy as fuck, a mãe com a cara enfaixada é realmente perturbadora, e só aquelas crianças falando em alemão já são motivo pra gente ficar meio incomodado. Só que ali na metade o filme sofre uma virada que eu estou até agora sem entender. O tom muda completamente, o feitiço se quebra, e ainda rolam cenas bem longas de tortura, tortura bem filme-austríaco-alternativo, sabe? E pensar que esse foi o primeiro filme que eu vi em 2016, hahaha. Que vibe boa.

6 Years (Hannah Fidell, 2015): Me interessei por esse filme por causa de um texto que li sobre ele que dizia que o roteiro foi praticamente todo feito na base do improviso, com os atores envolvidos no processo. É a história de um casal que namora desde a escola e as dificuldades de um relacionamento longo. Tendo visto o filme, acho que essa história de improviso foi inventada pra aliviar a barra da produção por conta de um roteiro TÃO RUIM. Mas assim, um cocô atômico de ruindade, sabe? Ele me deixou tão irritada, tão confusa, tão HKARHKAR que eu pensei que fosse a febre (assisti na minha semana de dengue), mas todo mundo odiou e se irritou, então tudo bem. Dei uma estrela e meia porque os atores são lindos demais, então dá pra colocar no mudo e ficar vendo o tanto que o Ben Rosenfield é bonitinho.

Aloha (Cameron Crowe, 2015): ¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¡¡¡¡¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,??????!!!!???¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,???,,,,!!¡¡¡??,,,,,??¿¿¿¡¡¡¡¿¿¿¿¿!!!,,.¿¿!!..,.,¿¿¿??!!...,,,,¿?¿¿,,¿¿??????????????¿¿¿¿¿!!Gostaria de fingir que esse filme nunca aconteceu, salvando apenas a cena do Bradley Cooper e o John Krasinski conversando com legendas como se fosse um curta que o Cameron Crowe gravou quando estava sem nada pra fazer. Ah, e o figurino da Emma Stone. E o cabelo da Rachel McAdams.

The Intern (Nancy Meyers, 2015): ENFIM UM BOM FILME EM 2016. In Nancy Meyers I trust. Seis anos depois (!) do seu último filme, enfim podemos desfrutar novamente do texto gostoso, bem humorado, honesto e sentimental (sem ser meloso) dessa que é uma das minhas roteiristas do coração (o Hair Pin fez uma mesa-redonda excelente sobre ela, que eu recomendo demais para fãs e não iniciados). Tem a Anne Hathaway e ela é uma jovem de muito sucesso profissional com problemas para administrar a vida pessoal (batido, eu sei, mas muito bem desenvolvido). Tem o Robert De Niro, ADORÁVEL. Coadjuvantes divertidos. Dilemas. DRAMA. Nova York. Queria morar no filme, ser amiga daquelas pessoas, e ter o Robert De Niro como meu estagiário/melhor amigo. Nancy Meyers, te amo tanto.

Monte Carlo (Thomas Bezucha, 2011): Uma das melhores coisas que me aconteceram em 2015 foi virar fã da Selena Gomez, porque esse amor recém-descoberto me levou a esse filme. Tem coisa melhor que um filme idiota? Não tem. Principalmente se é um filme idiota protagonizado pela Selena Gomez e pela Leighton Meester, passado em Paris e Monte Carlo, com essa sinopse maravilhosa oferecida pela Netflix: "Em uma viagem à Paris, três amigas fingem ser ricas quando uma delas é confundida com uma herdeira britânica". Como que não para tudo que tá fazendo pra assistir? É besta e completamente fora da realidade? ÓBVIO, mas se fosse pra ver filme realistão e sério eu tava fazendo maratona do Oscar, né, amigas (pensa numa preguiça). Recomendo a todos e sugiro que se tornem #selenators também.

Carol (Todd Haynes, 2015): Vamos lá. Na teoria, eu amei esse filme. Digo na teoria porque concordo irrestritamente com toda crítica elogiosa que leio sobre ele. Consigo enxergar todos os pontos fortes, sendo o principal deles talvez mostrar uma relação entre duas mulheres por um ponto de vista que não é fetichizado e nem heterossexual. Consigo admirar a sutileza, o poder do silêncio, dos olhares, e se eu fosse, por exemplo, escrever sobre ele em um veículo sério, as pessoas achariam que eu adorei. Na teoria. Porque na prática ele não me causou impressão nenhuma. É difícil admitir isso, mas preciso ser sincera. Apesar de ver tudo que ele tem de bom, ele não mexeu comigo. Quando terminou, eu e Analu nos olhamos e: ¯\_(ツ)_/¯. É um filme de amor, de paixão, mas que não me causou emoção alguma. Desculpa.

Joy (David O. Russell, 2015): Gente, hahahah. Esse filme é tão ruim. TÃO RUIM. Vocês sabem que eu não gosto do David O. Russell e temos uma rixa de anos, que se reacende a cada nova temporada de premiações. Dos seus filmes, achei Silver Linings bem ok. Esquecível, mas inofensivo. Trapaça eu achei truqueiro, usa uma capa de filme engenhoso quando é bem raso e fraquinho. Agora Joy é RUIM. RUUUUIIIMMMMM. Não tem lado pra defender ele. Parece um telefilme de um jeito que os telefilmes ficariam ofendidos com a comparação. Pensa num roteiro CAGADO. Numa história que não faz o menor sentido. Até a produção do filme é confusa e aleatória, o figurino é incoerente, os cenários são estranhos, é tudo muito ruim. Espero que esse seja o filme que faça a Academia botar a mão na consciência e pensar: este homem é louco.

E é isso. Não foi uma leva muito boa dessa vez e acho que é essa meu dedo podre recente que tem me deixado com tanta preguiça de começar a ver os filmes do Oscar. Sinto que vou odiar todos. Mas como não consigo ficar de fora dessa folia, devo começar minha maratona nesse carnaval (vida social bombando) e aí tecerei os comentários de costume - mas a vontade mesmo é rever todos os filmes da Nancy Meyers.

E aí, qual foi o mais legal que você assistiu e me recomendaria para começar com alguma empolgação?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ode a Harry Styles

É uma verdade universalmente desconhecida que quando descobri o One Direction eu achava todos meio feios.

gente o Louis hahahaha
Como era preciso tomar uma decisão, elegi o Harry como meu favorito porque ele era o que tinha o cabelo menos ridículo e o sorriso mais adorável. O bom de ser fã de boyband é que a situação capilar é um critério completamente plausível para se avaliar alguém, e eu me encontrei nesse fandom porque respeito muito gente que leva cabelo a sério. 

Escolher o seu membro favorito de uma boyband é uma decisão equivalente ao vestibular. Aquilo vai moldar seu destino pra sempre e você pode até mudar de ideia depois, mas não sem antes encontrar dúvidas e crises existenciais pelo caminho. Fiz a minha escolha baseada num punhado de cachos e duas covinhas, e era com eles que deveria prosseguir.

isn't she lovely?
Foi um caminho tortuoso que nos trouxe até aqui (you and me got a whole lotta history etc): a voz estranha do período da puberdade, a fase crítica do cabelo crescendo, o episódio das tranças que eu prefiro fingir que nunca aconteceu, e muitas (MUITAS) tatuagens equivocadas. Fui tentada no meio do caminho, mas resisti todo esse tempo sem vender minha alma por um par de óculos (oi Niall) ou experimentar do fruto proibido de Zayn Malik.

Mas como diz a Bíblia Sagrada, aquele que perseverar será salvo. Então isso aconteceu:

oh

my

GOD

perdão, me excedi um pouco aqui
Hoje já é uma verdade universalmente conhecida que Harry Styles é o cara de 20 e poucos anos mais bonito do mundo. São os olhos, aquele queixinho, a voz rouca, o impecável senso estético, e aquele cabelo tão bonito que tenho certeza que várias marcas de condicionador sonham em tê-lo como garoto propaganda. Só porque atingimos peak Harry Styles em 2016 - em 2015 eu disse que tínhamos chegado em seu ápice, em 2014 também, de modo que acredito que ele vai explodir o universo em mil pedacinhos com sua beleza ali pra 2020 - não significa que a jornada só teve pedras no caminho. Nós nos divertimos bastante. Eu não trocaria ela por nenhuma outra.


De 2010 pra cá, Harry Styles se tornou um dos popstars (popstars?) mais interessantes e importantes (!) do momento. Me perdoem por ligar o raio problematizador num dia que deveria ser só de fangirling e celebração, mas preciso falar sobre esse modelo de masculinidade que o Harry propõe através de suas escolhas na moda e sua postura no geral. Com inspiração óbvia e declarada no Mick Jagger e no David Bowie, Harry ousa cada dia mais, tanto no tapete vermelho como na vida real. Ternos com estampas florais, camisas de seda com estampas variadíssimas (todas delicadas, elegantes, exóticas e gloriosamente abertas), lenços no pescoço, colares, anéis, calças justas (muitas vezes femininas), flores e borboletas rabiscadas pelo corpo.

Harry brinca o tempo inteiro com papéis de gênero - coisa que pouquíssimos caras com a mesma visibilidade que ele se atrevem a fazer - e incorpora vários trejeitos femininos. Cruza as pernas, dança como mulher no palco, é explicitamente carinhoso com outros homens e costuma falar sobre relacionamentos de forma neutra. Harry me fez pensar muito sobre o discurso da Emma Watson na ONU: embora eu concorde que ela deveria ter usado o alcance da plataforma para falar de questões mais urgentes e relevantes para o feminismo no momento, o efeito do machismo nos homens é um tópico a ser conversado. Fiquei pensando nisso principalmente depois de viver dois episódios em que dois caras tiveram uma reação completamente ridícula e desproporcional por medo de perderem suas carteirinhas de macho. Um deles se sentiu ameaçado por uma festa. O outro por uma... música. Só tem viado aqui. Isso é coisa de boiola.

Enquanto isso, no reino encantado de Harry Styles...

 ¯\_(ツ)_/¯
Na urgência de negar qualquer característica feminina (sempre vistas como algo negativo), homens são impedidos de demonstrar vulnerabilidade (algum dia vou parar de falar sobre isso?), rejeitam todo traço de comportamento que remeta às mulheres, e precisam reafirmar constantemente sua condição de Homem. Isso se reflete na forma como eles se relacionam consigo mesmos, com os outros, com as outras, podendo se estender inclusive para as roupas. Além de nociva, é uma cultura chata para caramba.

É por isso que o Harry surge como um sopro gostoso e necessário de criatividade e ousadia, um ponto de alívio num mainstream cheio de egos masculinos que precisam se reafirmar constantemente, validando um modelo único de representação que na maioria das vezes é agressivo e pouquíssimo gentil com as mulheres - ainda que eles tenham cara de bom moço. Calma, caras. Ser homem não é só isso. Ou melhor, ser homem não é isso. Essa é a mensagem de Harry Styles pra vocês.

QUE HOMEM
E já que estamos no assunto, uma anedota interessante. Na edição mais recente da minha newsletter (olha o clickbait aí gente), contei o caso de um cara que de início muito tinha me impressionado. A gente se paquerou por uns dias, mas acabamos nos desencontrando em algum ponto entre Uberlândia e Curitiba. Foi aniversário dele e, apesar de enterrada qualquer chance de romance num futuro próximo, decidi ser fofa e desejar parabéns pro moço. O clima entre a gente era sempre de muitos risos e piadinhas, de modo que pra mim mandar a icônica canção "22", da minha guia espiritual  e melhor amiga famosa Taylor Swift, fazia todo sentido do mundo na minha cabeça. Ele estava fazendo 22 anos e o que mais eu posso desejar numa ocasião assim além de que ele seja happy-free-confused-and-lonely-in-the-best-way? Pois é. Como resposta, recebi a seguinte frase: meio boiola pra mim, não acha?

 Enquanto isso, no reino encantando de Harry Styles...


I rest my fucking case. Por ora, só me resta dizer: feliz aniversário, Hazza. Que você possa sempre ser happy-free-confused-and-lonely-in-the-absolut-best-way. Eu fiz umas contas aqui e acho que a gente pode ser perfeito um pro outro. Me liga quando descobrir a mesma coisa.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Minha amiga Amy Poehler

Então eu li o livro da Amy Poehler, e já vou avisando que adorei. Foi exatamente dessa forma que eu, quase um ano atrás, comecei um post falando sobre o livro da Lena Dunham - a diferença é que eu não gostei do livro dela. 

É inevitável traçar um paralelo entre Not That Kind Of Girl e Yes Please: ambos são livros de memórias de duas mulheres com bastante visibilidade na televisão, algum envolvimento com comédia e feminismo, relativamente jovens (Amy tinha 43 quando escreveu o livro), e que nunca fizeram nada de efetivamente grandioso para publicar um livro sobre suas vidas antes dos cinquenta. Aliás, ultimamente existe um verdadeiro filão desse tipo de autobiografia no mercado e a impressão que eu tenho é que todo mundo (menos eu, risos) está publicando livros sobre sua própria vida e seus vinte centavos a respeito do universo e tudo mais. Reconheço aí um oportunismo das editoras, mas não consigo ser contra e acho válido - só que não é sobre a Kéfera que eu vim falar.

Meu ponto é que apesar de enxergar esses pontos citados acima, eu sempre defendi aqui as pessoas e suas histórias. A vida é uma experiência tão maluca e única para cada um que, de verdade, cada vida tem potencial para um livro. O negócio é que nem todo mundo pode, sabe, ou quer contar sua história, e aqueles que podem não são necessariamente aqueles que sabem fazer isso. E assim é a vida.

De qualquer modo, minha opinião sobre livros-de-memórias-de-mulheres-ilustres-mas-não-tanto é que eles podem ser bons e interessantes de acordo com o quão boa e interessante é a autora para você. Todos os livros desse tipo que li tinham em comum o fato da voz da autora ser muito forte e presente e eu tenho certeza que muitas pessoas adoraram a autobiografia da Lena Dunham porque gostam e se identificam com a sua voz. Good for them, not for me. Na maior parte do tempo eu acho a Lena Dunham um saco, então eu achei a maior parte do seu livro um saco. 

Por outro lado, eu amo a Amy Poehler. 

E quando eu digo que eu amo a Amy Poehler não é desse jeito banal como a gente ama tudo na internet, um guarda-chuva de simpatia que cobre desde os shibas do Vine até o Lídio Mateus. Eu amo a Amy Poehler de verdade, um amor que mistura identificação e aspiração, um amor que começou antes mesmo de eu saber quem ela era, há mais de dez anos, quando assisti Meninas Malvadas pela primeira vez.

como que não ama essa pessoa???
Com o tempo fui montando um mosaico de referências que me revelavam quem era essa mulher, mas nosso relacionamento teve início mesmo quando eu comecei a assistir Parks and Recreation (assistam Parks and Recreation) e sua personagem, Leslie Knope, se transformou na minha Personagem Feminina Favorita da Televisão (olha a responsabilidade), nesse mesmo misto de identificação e aspiração. Depois de alguns anos acompanhando a série e conhecendo outras facetas da Amy, tipo seu maravilhoso projeto voltado para empoderar garotas adolescentes, o Amy Poehler's Smart Girls (o site foi um dos responsáveis por alavancar a hashtag #askhermore no Oscar do ano passado, chamando atenção da imprensa para a necessidade de se fazer perguntas mais elaboradas para as mulheres no tapete vermelho, que fossem além do que elas estavam vestindo, e o movimento só cresce), eu estava convencida de que ela e a Leslie eram a mesma pessoa, o que só me fez amá-la ao quadrado. 

Assim, fica fácil entender que eu leria uma lista de compras qualquer que ela escrevesse, e a ideia de ter um livro inteiro em que ela conta sua vida e tudo que aprendeu no meio do caminho foi pra mim como a realização de um sonho (apesar da série Ask Amy ser de grande ajuda). Não sei vocês, mas sempre que admiro muito uma pessoa, seu trabalho e suas ideias, eu automaticamente começo a sonhar com o dia em que ela vai escrever um livro contando só pra mim (e para outras milhões de pessoas) tudo que ela sabe e pensa, porque isso na maioria das vezes é o mais próximo que eu vou chegar de ser amiga dela, e eu queria ser amiga de muita gente que nem sabe que eu existo. Taylor Swift, quando vai vir o seu? 

Infelizmente é provável que eu nunca tenha a oportunidade de sair para tomar uma cerveja (eu ia escrever café, mas a Amy Poehler não me parece uma pessoa que sai pra tomar café) (eu sou uma pessoa que sai pra tomar café, mas eu tomaria uma cerveja com a Amy Poehler) com a Amy, de modo que me agarrei a esse livro como uma oportunidade preciosa de tê-la comigo e ouvir tudo a respeito de quem ela é, o que ela fez, e o que ela pensa. #amor #verdadeiro

So here we go, you and me. Because what else are we going to do? Say no? Say no to an opportunity that may be slightly out of our comfort zone? Quiet our voice because we are worried it is not perfect? I believe great poeple do things before they are ready. This is America and I am allowed to have healthy self-esteem. 

can I hear AMEN?
No livro, ela conta sua história de forma mais ou menos linear, valendo-se de anedotas, fofocas de bastidores, e pitacos sobre temas que vão de sexo e hábitos de sono a maternidade e drogas. Descobrimos então que Amy Poehler cresceu numa família de classe média amorosa e aparentemente normal, que sempre a apoiou em suas aspirações de atriz e comediante - e acho importante a forma como ela reconhece o privilégio disso. Conhecemos a trajetória que a levou dos teatros de improvisação de Chicago para os palcos de Nova York, depois para o Saturday Night Live até chegarmos em quem ela é hoje, atriz premiada com um o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia, grande amor das nossas vidas, melhor pessoa do mundo, etc.

E ela ralou muito para chegar onde está agora. Nisso, Amy e Leslie são exatamente a mesma pessoa: as duas estão tentando chegar lá, às vezes com um empenho excessivo, de um jeito equivocado, mas elas estão tentando com força e não têm vergonha de mostrar isso. De repente ficou cafona ser a pessoa que tries too hard, mas gosto muito mais de gente que se importa e se esforça do que daquelas pessoas que fingem que tudo que conseguiram veio porque elas são mesmo muito especiais e merecem toda aquela atenção (desculpa, estou falado da Lena de novo). Eu sou uma garota que tenta. Às vezes demais. Eu me importo. E se fosse atriz, por exemplo, eu com certeza iria dizer que prêmios nem importam tanto assim e que ser indicada já é honra o suficiente, mas ia ficar muito chateada por não ganhar, jamais esqueceria quem ganhou no meu lugar, e teria na gaveta uma coleção de discursos prontos para quando meu nome fosse finalmente chamado.



No livro, a Amy fala sobre todos os prêmios que perdeu (foram muitos) (as pessoas não sabem de nada), compartilha os discursos que ela escreveu e nunca recitou, fala sobre como é sentar no colo do George Clooney durante uma premiação, e no final diz que prêmios são como pudim, e todo mundo ama pudim. Viu? Se importar é legal. A Amy se importa.

Muita gente disse que esse livro é uma ótima leitura para pessoas que não tem a vida toda no lugar, porque a Amy supostamente é uma pessoa que não teve a vida no lugar por muito tempo e só foi chegar lá depois de mais velha. Discordo, e acho que ela também: é bem verdade que Amy Poehler só ficou realmente famosa depois dos trinta e muitos, mas isso não significa que ela era um fracasso antes - e talvez a gente também não seja. Uma das coisas que mais me marcou nesse livro é a parte em que ela escreve que as pessoas gostam de histórias de sucesso, mas ninguém quer ouvir sobre os anos em que ela foi garçonete para se sustentar, todo o tempo em que ela trabalhou em shows pequenos com seus amigos até que alguém se destacasse um pouquinho mais e tivesse a oportunidade de conhecer pessoas, que conhecem pessoas, que conhece alguém que concorda que ela seria perfeita para tal papel.

A gente não é um floco de neve, a gente não é especial demais, a gente não deve esperar que as portas se abram diante de nós porque a gente é tão legal que o mundo nos deve esse reconhecimento. Só que isso não é sinônimo de fracasso. A gente pode muito bem fazer o nosso melhor, trabalhar duro, dar conta da nossa parte até conseguir abrir a porra da porta. No entanto, um adendo: aprendi com a Amy de que carreira, trabalho e criatividade são coisas diferentes. Ela fala que a carreira é sempre como um péssimo namorado que não se importa com nossos sentimentos, não quer nos apresentar para a família e nunca perde a oportunidade de flertar com outras pessoas. Já a criatividade é como uma senhorinha de risada gostosa que adora abraçar, e é a ela que devemos servir. Porque a criatividade nos guia, nos dá alegria e nos preenche. A criatividade é algo que ninguém pode tirar de nós e ela que tem que ser o centro. Porque a carreira não está nem aí, e a gente pode fazer como ela e também dormir com outras pessoas, mas é a nossa criatividade e nossas paixões que vão fazer essas experiências penosas de contatos, favores, sapos e sorrisos forçados valer alguma coisa.

MARAVILHOSA METÁFORA!!! Amy Poehler é minha amiga pois falamos a mesma língua. É exatamente pra ouvir coisas desse tipo que eu queria sair para tomar uma cerveja com ela. E amigas como somos, depois de palavras de sabedoria assim ela daria uma piscadela e poderíamos passar todo o resto do tempo falando sobre seus filhos adoráveis, sobre quando seu obstetra morreu um dia antes de ela dar a luz e o Jon Hamm (o Jon Hamm!) falou para ela get her shit together porque eles tinham um programa para apresentar, e principalmente sobre como é beijar o Adam Scott - de acordo com Amy, ele sempre tem o hálito fresco e as cenas de beijo com o Ben eram o que ela mais gostava de gravar em Parks and Recreation (fiquei um pouco decepcionada que a bunda do Adam Scott não foi mencionada em nenhum momento) (assistam Parks and Recreation).


Isso é Yes Please, o livro que me fez BRODER de Amy Poehler.

Apesar de não ter gostado do livro da Lena Dunham, escrevi naquele post que admirava a honestidade e a coragem da dela de bancar a própria história. Com a Amy Poehler é parecido, mas com um adicional: admiro a coragem e a honestidade, mas, principalmente, agradeço por ela fazer questão de nos lembrar que é preciso dizer sim pro mundo e para as coisas, sem nunca esquecer que não se vai a lugar nenhum sozinho. Agora tenho mais uma amiga pra me acompanhar.

I love saying "yes" and I love saying "please". Saying "yes" doesn't mean I don't know how to say no, and saying "please" doesn't mean I am waiting for permission. "Yes please" sounds powerful and concise. It's a response and a request. It is not about being a good girl; it is about being a real woman. 


YES! PLEASE!

And thank you very much.



>> Texto ótimo da Jana Rosa sobre o livro, com uma lista de todas as coisas que ela amou e eu também, mas deixei de mencionar porque não sabia como encaixar no texto;

>>> No Recreio, minha newsletter, já é uma realidade e foi de longe a melhor coisa da minha semana e provavelmente a melhor ideia que tive em 2016. Na primeira edição traduzi uns trechinhos do livro para meus exclusivérrimos assinantes. Ainda dá tempo de assinar pra receber esse texto, OLHA A OPORTU. Yes please?