terça-feira, 1 de maio de 2012

Ode às meias



Não contavam com minha astúcia, né?

Pois eis que estava eu no último domingo tomando um banho morno pela manhã, ouvindo o lado B do In Rainbows e observando a chuva cair pela janela. Gemia junto com o Thom Yorke enquanto pensava no que tinha na cabeça quando resolvi me inscrever pro processo seletivo para uma bolsa de iniciação científica na faculdade, a se realizar naquele dia mais tarde. Num domingo de feriado prolongado. Num domingo cinza, chuvoso e frio. E eu estava tomando banho pra ver se criava coragem pra sair de casa e ir fazer a prova.

Saí, enfim, debaixo daquele cobertor natural, me enfiei dentro do meu velho roupão amarelo e fui pro meu quarto. Me vesti muito sem vontade, imaginando como seria lindo poder ficar ali na cama pra sempre, até que fui calçar as meias antes do All Star e senti uma felicidade sobrenatural. As meias que peguei sem ver eram dessas muito macias, que na sola possuem uma camada extra de algodão, formando uma espécie de colchãozinho quente e fofo para os pés. Enquanto eu e meu guarda-chuva cor-de-rosa andávamos até a universidade, senti que estava levando comigo um pouquinho do aconchego de casa, o qual eu já aguardava ansiosamente para reencontrar.

Eu amo meias. Não só nos domingos de chuva em que sou obrigada a sair pra fazer prova, mas as enxergo sempre como um consolo diante das dificuldades do dia-a-dia. Sou uma pessoa bastante caseira, e embora cachorrista, tenho certeza que se fosse um animal doméstico, eu seria um gato bem gordo e preguiçoso. Portanto, sempre que saio e sou obrigada a trocar meu pijama por um jeans, as meias me lembram da felicidade que deixei em casa. E até mesmo quando estou em casa, feliz da vida, amo ficar andando de meias. Primeiro porque tenho idade mental de uma criança de sete anos, logo, ando escorregando da mesma forma como fazia na minha tenra infância. É bom também porque dá pra ficar rodopiando e fazendo as piruetas da época do ballet. Além disso, não preciso me preocupar com chinelo. Gosto de andar descalça, mas odeio pisar na cozinha e no banheiro sem sapatos. Manias minhas, posso? Sendo assim, sempre que vou pra um desses cômodos, quando não estou de meias, preciso achar o chinelo. E se eu já guardei o telefone na geladeira, obviamente nunca sei onde enfiei os benditos. De meias não passo por esses problemas. Posso flanar tranquilamente do sofá para a cozinha, e dela para o quarto, banheiro e por toda a casa, sem a menor preocupação.

Você consegue pensar em algo ruim quando olha pra essa imagem?

Além disso, meias são felizes. Você pode estar vestida de executiva high-class e ao mesmo tempo usar meias das Meninas Super Poderosas sem que ninguém saiba. Ir para a faculdade like a boss pro fechamento da sua primeira matéria, toda cheia de importância, com meias de sapos alados. Não apenas como consolo no cumprimento dos afazeres diários, meias funcionam também como consolo para a chata maturidade e falta de graça da vida quase adulta. Uma materialização daquele resto de infância que a gente carrega dentro de si. Uma lembrança de que um dia as coisas já foram espetaculares. Não sei quanto a vocês, mas eu me recuso a usar meias brancas e tristes. Só tenho coloridas e de bichinhos, da forma mais patética que vocês conseguirem conceber.

Como se não bastasse, meias são chiques. Não temos apenas meias soquetes, mas meias-calças, meias três quartos, meias sete oitavos, meias de renda. Isso sem contar naqueles especiais  que, apesar de quase invisíveis, possuem o poder fantástico de maquiar minhas pernas branquelas e cheias de roxos e fazer com que eu saia o mais próximo possível de uma Angelina Jolie. Elas apertam, e limam minha dignidade quando tenho que prender a respiração de modo a ficar quase embalada à vácuo para caber ali dentro, mas o resultado é espetacular.

Sempre quis uma dessas

Uma miscelânea charmosa e divertidíssima de estilos, uma pena que dependem da colaboração do clima para que sejam levadas para passear. Minha amiga Carol uma vez disse uma coisa ótima: uma afronta à dignidade da pessoa humana é o fato de morarmos numa cidade que não nos permite usar meia-calça todos os dias. Ainda morarei num lugar onde eu possa usá-las ao menos uma vez por semana, e só assim serei feliz e realizada, com uma coleção enorme delas, de todas as cores, estampas e estilos.

Uma imagem que vale por todo o post.