quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Tragédia existencial nº1



Eu nunca sei direito o que responder quando me perguntam se eu sou uma pessoa otimista ou pessimista. Nunca sei se enxergo o copo meio cheio ou meio vazio. Uma saída interessante é responder com o título de uma música do Paramore: for a pessimist, I'm pretty optimistic. A época de ouvir essa banda e gostar já passou, mas vai dizer que não é uma frase bem interessante?

No início da adolescência eu era uma garota bem florzinha, no sentido mais puro da coisa: eu via florzinhas em tudo e em todos. O mundo era um enorme campo de margaridas e as pessoas infelizes só não tinham encontrado o perfume certo. Lá pelos 16, me bateu aquela escuridão de não ver mais sentido nas coisas. A minha vida - e a de todas as pessoas do mundo - parecia um apanhado de ambições, sonhos e rotinas que não passavam de um grandiloquente grito no vácuo. Às vezes eu tinha a impressão que eu era a única que percebia que não estávamos indo a lugar algum, apenas insistindo em andar numa esteira para evitar o abismo que nos esperava. A noite dissolve os homens, os suicidas tinham razão - ah, Drummond, eu queria me casar com esse poema!

Acho que o Drew Baylor também. Ele é o protagonista de Elizabethtown e, no início do filme, esvazia todo seu apartamento, distribui tudo o que tem, porque resolve se matar. Drew quer se matar porque é posto de frente com essa tragédia que é a nossa existência: depois de oito anos se dedicando a um projeto, vê ele fracassar com requintes de crueldade quando chega ao mercado. Quase um bilhão de dólares em investimentos foram perdidos, ele estava demitido e seu nome, na lama. Só que, na verdade, não há nada que ele poderia ter feito. Aliás, ele fez tudo como deveria fazer. Estudou, pesquisou, pensou, teve ideias, refinou-as, trabalhou duro e apostou. Dá pra tentar prever o mercado e as pessoas, mas nunca dizer com certeza o que elas querem e o que irão desprezar. O sucesso dos sneakers de salto está aí para nos mostrar isso.

Quando Drew está pronto pra enfiar uma faca no peito, seu celular toca. É sua irmã contando que seu pai morreu. Porque nada está tão ruim que não possa ser piorado. Assim sendo, Drew adia seus planos de suicídio e parte num voo noturno rumo ao Kentucky, estado onde fica a pequena cidade de Elizabethtown, em que moram seus parentes e onde seu pai estava quando um ataque do coração lhe tirou a vida. O que era pra ser uma longa viagem cheia de sonhos nostálgicos e muita auto-comiseração acaba se tornando uma oportunidade para que ele conhecesse Claire. Ah, Claire! Claire Colburn é a aeromoça um tanto quanto inconveniente que, na falta de passageiros para lhe ocupar o turno de serviço, fica puxando papo com Drew, falando incansavelmente sobre o significado do nome das pessoas, o que ela pensa disso, a vida, o universo e tudo mais. E ele só queria dormir.

É claro que ao longo do filme os dois dão um jeito de se encontrar de novo. Depois de um dia um tanto quanto assustador cheio de parentes barulhentos, crianças encapetadas e ferrenhas discussões a respeito do destino do cadáver do seu pai, Drew queria conversar. E ligou pra Claire. E eles conversaram a noite inteira, sobre a vida, o universo, e tudo mais. E Drew descobriu que Claire era sua alma gêmea, só que muito mais cheia de luz. É por isso que eu vejo sentido na atuação totalmente inexpressiva do Orlando Bloom - que eu gosto de fingir que tem um propósito artístico e subjetivo: para fazer um contraste à luminosidade que é a Kirsten Dunst, com aquele cabelo lindo, o sorriso fácil, o gorro vermelho, a magreza que irrita e as roupas tão simples mas que lhe caem tão bem que ela poderia debutar assim. 


Eles se encontram no meio da estrada para ver o sol nascer, mais especificamente nesse quadro que agora ilustra o topo da imagem do blog, um presente que ganhei da minha amada amiga rodopiante Taryne. Elizabethtown é meu filme favorito de todos os tempos porque ele abre uma janela naquele quarto escuro que a gente se encontra quando encara a tragédia da vida de frente. Ela pode ser hardcore e inclemente, mas existe beleza nisso tudo. Existe graça, misericórdia, luz. Não estamos de todo condenados. Eu sou apaixonada por essa perspectiva da tragédia que se redime e foi assim que eu parei de decorar a parte em que o Drummond fala da noite, para escrever na minha agenda que até mesmo no poema mais triste do mundo a aurora chega. Ainda que tímida e inexperiente das luzes que vai ascender, ah, aurora!, expulsando a treva noturna. Havemos de amanhecer.

Eu demorei um tempinho razoável para entender isso tudo, mas sempre senti que existia um motivo muito especial que me conectava a esse filme. Por mais que eu ame o Cameron Crowe, reconheço que não é a coisa mais legal que já vi na vida. Mesmo assim, Elizabethtown me acompanhou na fase florzinha, na fase dark e na fase da aurora, e gosto de acreditar que ele foi um dos responsáveis por esse crescimento. Em todos esses momentos, assistir a ele fazia com que eu me sentisse bem e conectada comigo mesma, com as coisas que eu acredito, a vida, o universo e tudo mais. Só recentemente que tive o insight que ele praticamente condensa tudo que sinto de um jeito bem simpático, com citações que renderiam várias tatuagens nas costas e uma trilha sonora tão especial e marcante que basta ouvir alguma das músicas e eu quero falar com sotaque sulista americano. 


Gosto dele, acima de tudo, porque ele mostra que a vida dói, mas que existe beleza nisso. Ele ensina que fracassos existem e que a gente não deve nada a ninguém. Que ficar triste é muito mais fácil e muito melhor do que a gente imagina, porque é uma forma de redenção. E que a gente tem que saber quando é hora de se jogar nos braços dela. Mas é preciso também saber sair dali, levantar, e fazer os outros se perguntarem por que ainda estamos sorrindo. 

Eu poderia dizer tudo isso quando me perguntam se sou uma pessoa pessimista ou otimista, mas perdi o dia inteiro tentando fazer esse texto nascer, de modo que ainda é mais fácil usar o título da música do Paramore. E torcer para a pessoa não reconhecer.