Eu sinto saudades de ver TV. Mesmo. Desculpa mundo, mas eu fui uma criança de apartamento criada com vó e enquanto as outras crianças do meu prédio estavam lá embaixo ralando o joelho brincando de polícia e ladrão, eu estava em casa assistindo Sessão da Tarde porque não sou obrigada a ser eternamente café-com-leite e há limites pra toda a humilhação. Honestamente, não acho isso ruim, não sinto que minha infância foi menos importante ou significativa e não sou apocalíptica do tipo que acredita que eu seria uma pessoa melhor se tivesse quebrado um braço naquela época que todo mundo tem uma história de braço quebrado pra contar. Minha infância de apartamento me apresentou aos livros e também fez com que eu fosse amiga das pessoas que gostavam de mim esquisita e fresca como sempre fui, sem jamais me rotularem de café-com-leite - e por isso eu sou amiga delas até hoje.
Mas eu estava falando sobre TV. Porque além dos livros e dos amigos tão desajustados como eu, eu também via muita TV. Minhas atividades da manhã só começavam depois que eu assistisse, na sequência, As Trigêmeas, Doug e Ginger; eu me envolvia das novelas de um jeito pouco saudável a ponto de o primeiro livro que eu tentei escrever ser uma releitura de Mulheres Apaixonadas onde eu mudei tudo que eu achava estar errado com a trama do Maneco; e eu já fingi estar com dor de barriga na escola pra poder ir pra casa e assistir Elvira - A Rainha das Trevas na Sessão da Tarde. Sinto falta disso tudo, mas sinto falta, principalmente, do ritual de se estar na frente da televisão, que tinha graça justamente por não ter ritual algum. Era um relacionamento imprevisível e sem cobranças, onde eu me colocava na frente da tela disposta a fazer o melhor do que ela tivesse a me oferecer.
É fato que o modelo de televisão de antigamente, da minha infância, não funciona mais nos dias de hoje. Sei disso porque eu, a noveleira das noveleiras, tenho dificuldades de acompanhar as novelas porque elas não se ajustam à minha rotina e me cansa ter um compromisso no mesmo horário, seis dias por semana. Eu quero ver novela a hora que me der na telha. Além disso, tem os intervalos comerciais, insuportáveis pra qualquer pessoa que se acostumou a ver programas sem interrupção pelo computador. Mas, sobretudo, nossa vida mudou a ponto de não conseguirmos mais sentar na frente da televisão sem o compromisso de ver algo pré-estabelecido, simplesmente com a vontade de distrair a mente e assistir a algo bem idiota. Ir ver TV com hora marcada, como eu faço hoje, não tem nada a ver com o ato brejeiro e preguiçoso de se ver televisão na minha infância.
Eu sinto falta de não saber o que está passando e passar a tarde inteira acompanhando a programação de um canal sem necessariamente ter me planejado pra isso. Amo o Netflix com cada partícula do meu ser, do couro cabeludo ao dedão do pé, mas o excesso de possibilidades me angustia e às vezes eu só queria um botão de shuffle onde eu não tivesse que escolher, e pudesse ver qualquer coisa aleatória. Eu nunca vou assistir de livre e espontânea vontade Jordan, A Médica Legista, que eu sempre vejo no catálogo, mas quem garante que ela não me ofereceria um tipo de diversão sem culpa e compromisso que só uma maratona inesperada da Warner nos dias dourados sabia servir? Sempre digo que vou usar um dia das férias para ver TV durante o dia todo sem compromisso, mas basta meia hora ali pra que eu fique angustiada pensando que eu poderia estar vendo algum seriado, algum filme e meu Deus eu nunca vou terminar Parks and Recreation se continuar nesse ritmo.
Vivemos em um mundo extremamente sistemático e racional, e é natural que essa lógica invada nossa vida para além das coisas práticas como trabalho e estudos, mas também no lazer. Combinado a isso, temos uma liberdade de escolha que só coexiste com uma vida de listas de afazeres e metas quando colocamos a diversão em uma planilha e é aí que a graça acaba. Sempre vai existir um infinito de coisas a serem vistas, livros a serem lidos, séries incríveis que você não pode perder de jeito nenhum a serem assistidas e isso tudo entra no caminho e invade os pensamentos quando a única coisa que eu quero é assistir um episódio de Mundo Amish ou América Aérea, mas perco a concentração porque me preocupo com aquele filme que eu deveria (como se alguém fosse me cobrar isso) estar vendo.
O irônico disso tudo é que quando era criança meu sonho era ter acesso a um serviço parecido com o do Netflix, que me ofereceria todos os desenhos e filmes do mundo ao alcance de um clique, sem depender do dia ou da hora, porque as melhores coisas passavam na hora do jornal do meu pai ou então quando eu já deveria estar dormindo. E hoje, com o mundo no meu computador, eu só queria o descompromisso de ver Mythbusters numa manhã de domingo, só porque era aquilo que estava passando no momento.
Ser humano é uma droga.
