sábado, 4 de dezembro de 2010

Aquele dos peitos

Estávamos no metrô, meu primo Pedro e eu, indo encontrar meus tios para jantarmos logo após assistirmos Harry Potter. Eu ainda estava em êxtase com o filme e falava sobre isso e comentava com ele cada detalhe, matracando em 33 rotações, como diria Vinícius, só que até o ponto de ficar chata. Estava na inglória missão de explicar pra ele toda a história de As Relíquias da Morte, o que é coisa complicada já que mesmo tendo lido o livro mais de uma vez, é complicado explicar todo o rolo pra uma pessoa que não leu nem o sexto nem o sétimo livro. Estavam no trem uns gatos pingados, e um garotinho bem novinho que provavelmente estava na mesma sessão que a nossa, já que também falava do filme sem parar.

Descemos na estação Sumaré. Eu estava com uma roupa toda simpática, fingindo que era Alexa Chung, com uma camisa cor-de-rosa (se Blake usa nós usamos também), short de tachinhas e minhas botas de combate favoritas, meu cabelo estava de bom humor até que de repente OH MEU DEUS EU ESTAVA QUASE SEM ROUPA. Ponto de exclamação.

O que ocorreu foi que no intervalo entre um passo e outro,todos, t-o-d-o-s os botões da minha camisa se abriram. De uma vez. E não foi como se eles simplesmente tivessem se desabotoado mas permanecido no lugar, pacificamente. Não: eles se abriram e escancararam minha camisa, me deixando com o umbigo, o sutiã e tudo mais pro mundo ver. A sorte foi que eu percebi. Quem me conhece sabe que é a minha cara não reparar, porque eu sou muito distraída. É a minha cara olhar pra trás pra procurar a menina quase sem roupa que uma pessoa apontou, riu e comentou com a outra.

Segurei a roupa e fui correndo pra um cantinho entre duas paredes pra me recompor. Eu pensava que esse tipo de coisa só acontecia em Friends. Não é muito o tipo de coisa que aconteceria com a Rachel? Consigo até imaginar ela saindo da Bloomingdale's de roupa nova, se achando, e então a blusa se abre inteira no meio da rua sem que ela perceba. Rachel então vai andando e todas as pessoas fazem gracinhas, assobiam, e ela pensa que isso é por causa que ela está mesmo arrasando. Até que ela chega no trabalho, entra no elevador com o Ralph Lauren e ele então a alerta de sua seminudez. É a cara da Rachel, é a cara de Friends.

Passado o susto continuei andando, fingindo-me inabalável. E podia ter acabado por aí que já seria vergonha e pânico suficiente pra semana inteira. Mas não. Enquanto subia as interminavéis escadas da estação Sumaré aconteceu de novo. Sim. Todos eles, de novo, em conjunto. Se houvesse algum tipo de Olimpíadas dos Botões os da minha blusa ganhariam medalha de ouro na modalidade Debandada em Sincronia. Só que dessa vez não tinha cantinho pra eu me enfiar e poder abotoá-los de novo. Tive que segurar firme a camisa, como se fosse um quimono, até o patamar da escadaria para me encolher (garantindo que caso acontecesse algo a Avenida Sumaré inteira não me veria desnuda) e me ajeitar. Sabe quando a gente sonha que foi sem roupa pra escola? A sensação é essa, ainda que por 10 segundos.

Ficamos esperando minha tia no viaduto Dr. Arnaldo e eu olhando pra blusa a cada 10 segundos para garantir que nenhum desastre ocorreria. Pior seria saber que passaria todo o jantar nessa aflição, já dali iríamos pro restaurante. Eu podia ouvir, no zum-zum-zum dos carros um cantarolar sádico do mundo, "Os botões da blusa que você usava... iam pouco a pouco me deixando ver no meio de tudo um pouco de você...". Entrei no carro e aconteceu de novo. Mas dessa vez foram só três botões, até porque no banco de trás não tinha jeito mesmo de ninguém ver, para quê o esforço?

Ao fundo, além de Roberto Carlos, ouvia nitidamente o som das claques, as risadas automáticas das comédias americanas. Só faltava aquilo, e eu ser a Jennifer Aniston, pr'aquilo virar um episódio de Friends.