Nos últimos meses de férias prolongadas devido à greve, tive a chance de riscar mais um item da minha lista postada aqui ano passado de coisas que gostaria de fazer nesse ano: a maratona de alguma série. Sim, sobrevivi a quase uma semana de dedicação praticamente exclusiva a uma só atividade, fazendo do apertar de botões do controle remoto e do trocar os DVDs do aparelho meu maior exercício, entrando num total estado de um só pensamento e assunto, divagando sobre corujas e tortas de cereja nos momentos mais inapropriados e fazendo referências que ninguém entendia.
Acompanhada do meu primo Pedro, assisti Twin Peaks inteirinha. Para os iniciados na arte das maratonas meu feito parece quase café-com-leite, tendo em vista que a série tem apenas duas temporadas, sendo a primeira composta por apenas oito episódios, mas para uma principiante, devo reconhecer sem falsa modéstia que foi uma conquista notável. Há alguns anos eu havia assistido a primeira temporada, mas o seriado é tão bacana e cheio de detalhes que reassistí-lo foi tão emocionante quanto a primeira vez, e não duvido que daqui há alguns anos - ou meses? - eu esteja no pique para repetir a missão.
Maratonar Twin Peaks foi fácil não apenas por causa dos detalhes que se perdem com facilidade e dos episódios que funcionam melhor quando vistos de uma vez só, mas principalmente porque, embora não tenha visto muitos seriados para afirmar com mais firmeza, ela é a série mais legal que já vi na vida. Nesse legal, adicionem aí fantástica, interessante, intrigante e perturbadora, adjetivos que vem a calhar muitíssimo bem a essa - sim, usarei um termo deveras pretencioso e forte - obra prima da tv americana.
Pra começar, ela saiu da cabeça do David Lynch. Lynch entrou na minha vida quando ouvi meus tios dizerem horrores sobre seu Império dos Sonhos, único filme que, segundo minha tia razoavelmente cinéfila, era doente e perturbador e insuportável ao ponto de ela ter tentando dormir no cinema para ver se passava logo e não conseguiu. Acho que meu interesse pelas coisas é estimulado pela psicologia reversa, porque bastou ouvir isso - e os detalhes sórdidos do filme, como uma família de coelhos humanizados - para eu querer desesperadamente ver tudo que esse cara já fez. É claro que não entrei de cabeça no universo lynchiniano com uma coisa tão extrema. Comecei com Cidade dos Sonhos - meu preferido até agora, palmas e gritos efusivos, por favor -, seguido de Veludo Azul, Coração Selvagem - absurdo e ao mesmo tempo irresistivelmente adorável -, Eraserhead - trauma grifado três vezes com tinta fluorescente - e aí sim, mais recentemente, Império dos Sonhos. Este último, como minha tia já me alertara, é doente, perturbador e insuportável, não consegui ver tudo, mas confesso que não deixei de achar fascinante.
Tendo em vista minha história de amor com ele, imaginar um seriado idealizado, escrito, produzido, algumas vezes até dirigido e interpretado por ele é como ver um sonho. Um sonho bizarro e cheio de simbolismos, mas um sonho. Twin Peaks é basicamente isso, o universo lynchiniano condensado em 30 capítulos de uma forma mais refinada, que chega até nós em dosagens um pouco menores, nos afastando do forte impacto dos filmes. O mote da série é o assassinato misterioso de Laura Palmer e as investigações lideradas pelo agente especial do FBI, Dale Cooper, para solucioná-lo. Parece tudo muito simples e claro, mas aí entra o elemento David Lynch na história e o que temos é uma barafunda que mescla investigação policial com intervenções sobrenaturais, pistas encontradas em sonhos, personagens adoráveis e bizarros, anões que falam de trás pra frente e trilha sonora kitsch inesquecível.
A pacata cidade de Twin Peaks pode ser comparada com Stars Hollow, de Gilmore Girls, sendo essa última uma cidade pequena com moradores excêntricos e adoráveis, enquanto a primeira é uma cidade pequena cujos habitantes além de excêntricos e adoráveis, são também bizarros e - por que não? - meio assustadores. Sim, os twinpeakeanos (!) são demais, mas o personagem mais legal da série caiu ali de para-quedas. Sim, falo do Agente Cooper, esse ser humano maravilhoso, dono de um carisma absurdo, métodos de investigação pouco-ortodoxos, inteligente de fazer arrepiar, charmoso e educado para suspirar, com uma capacidade de poetizar coisas pequenas como as árvores e o café nosso de cada dia como ninguém. Não quero viver num mundo em que não possa pedir um café preto como a meia-noite de uma noite sem luar.
Minha maratona chegou ao fim há mais de um mês, e ainda hoje não consegui me desligar totalmente do seriado. Ainda preciso assistir ao filme que o sucedeu e dar um jeito de arranjar o livro escrito pela filha de Lynch para complementar toda a maluquice. É claro que a essa altura do campeonato já li não sei quantas mil teorias malucas sobre os milhares de significados que se podem atribuir a todos os símbolos e pirações de Lynch e Mark Frost e estou me segurando para não digitar o nome da série na Amazon só para me sentir inferior enquanto não tiver em cada toda e qualquer parafernália de colecionador que esses americanos conseguiram inventar para vender um pouco mais às custas de pessoas desequilibradas e propensas à obsessões irrelevantes.
Dessa minha primeira experiência com maratonas, tenho algumas poucas coisas para dividir com aqueles que desejam uma aventura inofensiva como essa: arranjem uma companhia tão no pique de mergulhar de cabeça na história como você e com quem você possa dividir suas impressões e que vai te entender quando você tiver epifanias sobre o roteiro durante o jantar; escolham um período de dias em que você pode se dedicar integralmente ao feito, deixando seus maiores esforços para a hora de se alimentar e levantar do sofá; tenha certeza de que escolheu um seriado realmente viciante, desses que deixam a vida impossível de ser seguida enquanto você não assistir ao último episódio.
Sobre Twin Peaks, concluo apenas que:
- North Bend, cidade no estado de Washington usada como locação para a maior parte das filmagens pulou para uma das primeiras colocações na lista de lugares que preciso conhecer antes de morrer;
- Assistam, por favor, e saibam apreciar todos os momentos de total non-sense e absurdo, como os cavalos que aparecem do nada, o humor absurdo do texto, as falas da Log Lady e os marcantes momentos musicais;
- Quero ser Audrey Horne;
- As corujas não são o que parecem.


