Lá estava eu deitada no sofá, encolhida embaixo do meu cobertor lilás com uma bolsa de água quente na barriga numa bruta terça feira, quatro da tarde, assistindo Friends. Motivo? Nasci mulher. Mas isso são outras quinhentas reclamações, a história que quero contar hoje é diferente. Eu estava lá deitada, quase morrendo, quando meu celular apita. Uma mensagem. Pensei que deveria ser da minha mais fiel correspondente, a Tim, que não passa um dia sem me mandar mensagens que não me interessam, mas não, não dessa vez. Eis que eu li:
"vic linda ate hj naum consegui te eskecer e qria saber se rola nois d novo /pedro xxx" (sic)
Nesse momento, algo dentro de mim começou a se agitar. Vocês sabem que existe algo na minha pessoa que atrai bizarrices, tombos e gente estranha que cisma com a minha cara e, apesar da na maior parte das vezes isso mais me aborrecer do que divertir - apesar de que episódios do tipo costumam render altas histórias engraçadas para contar aqui - , eu sempre torci para que alguém, por acidente, começasse e enviar mensagens pro meu celular. Só pela graça. E mesmo sem saber se esse era o caso da mensagem - e não só alguma amiga minha querendo me encher o saco - senti que ali havia potencial para divertir minha tarde solitária de dor e peso na consciência por não estar estudando. Fiquei com dó de trollar de imediato e mandei um singelo "oi??" como resposta, para ver se obtia melhor esclarecimento sobre meu remetente. Eis que minutos depois recebo de volta:
"na vdd agnt nunk fico mas é q eu to mto afim" (sic)
Ok. Antes o Pedro queria um revival com a Vic e agora a história já é outra, eles nunca ficaram antes. Fico pensando nessa Vic, recebendo essa mensagem assim no meio do dia. Seria ela tosca o suficiente para se alvoroçar diante de tão tocante declaração de amor ou apenas uma pobre coitada atormentada com um encosto vileno no seu pé? Resolvi dar mais uma chance para o príncipe encantado escapar da oportunidade de virar história aqui e disse-lhe, pacientemente, que ele estava mandando mensagem pra menina errada. Mas ele, intrépido, não se fez vexado:
"né n ah do exitus msm vc é mto linda /pedro. eu so feio por isso se vc naum quiser eu vo entender mas eu qro te amar qro te encontra vc pra mim e tudo minha terra meu ceu meu mar. tchugurugundagtcurunn" (sic)
Pedro, meu caro, imagino que você deva sofrer de problemas de auto-estima. Primeiro porque parece valorizar muito a lindeza da tal Vic, já que não cansa de destacá-la, e isso é bom, porque mulheres amam ser elogiadas; depois porque você, antes mesmo de ficar com a menina, já está aí se desvalorizando e achando que o fato de eu ter dito que não era a destinatária correta dos seus amores era sinônimo de um toco. Já fizeram isso com você antes? Fingiram amnésia ou inventaram uma irmã gêmea? Dicona: não desvalorize seu produto assim de cara, você compraria alguma coisa que te alerta na embalagem que não presta? Sobre a parte da música eu vou me abster de comentar, porque né. Kid Abelha das antigas, deve ter feito sucesso na época dos meus pais e vai ver esses versos já ajudaram vários caras a conquistarem suas amadas, mas estamos em 2011 e a coisa agora é diferente - não, não estou falando pra você escrever uma letra do Luan Santana. Quer dizer, quem sou eu pra falar, né? Vai que a Vic curte. Eu não, mas tenho que te cumprimentar pela transcrição genial do tchururu da música, eu não teria feito melhor.
Respondi, de novo, que eu não era a menina que ele queria estar ~azarando~ via SMS, e ele pareceu entender. Ou não:
"intaum desculpaa foi a muie errada. mas msm assim rola alguma coisa?"
Foi a gota d'água. Homens, por quê? Se nós somos as loucas, vocês não facilitam, mas muito contribuem. Nesse momento cansei de ser legal e respondi - com palavras completas, acentos e vírgulas - que só podia ser palhaçada ele estar me perguntando aquilo sendo que: a) a gente não se conhecia b) ele tinha se declarado pra outra menina há poucos minutos c) se ele pensava que chamar alguém de 'muie', principalmente se esse alguém sou eu, conduz a algum tipo de envolvimento, ele estava muito enganado ou convivendo com garotas idiotas. Não resisti, desculpa. Resposta?
"esse meu jeito de falar nao reflete minha cultura. vc é linda sou amg de uma amg sua" (sic)
Minha mensagem deve ter ficado um pouco grande, porque acho que enquanto o Tico lia o que estava escrito e o Teco ajudava a entender, os dois neurônios simplesmente jogaram ao vento todo aquele esclarecimento que muito trabalhosamente o fiz chegar sobre eu.não.ser.a.tal.da.Vic e nem conhecer ele e muito menos a menina. Nesse momento comecei a pensar que deveria ter o dedo da Carolina nessa história, porque estava inacreditável demais até para um acontecimento da minha vida. Se aquilo fosse verdade, minhas esperanças para com o futuro da humanidade diminuiríam para quase serem perdidas de vista. Por isso, resolvi dar corda para ver se algo acontecia, e perguntei qual amiga.
"tehtezinha"
Ele estava falando sério. E, apesar de aquilo estar engraçadíssimo, resolvi falar mais sério ainda e respondi que não iria falar de novo que eu não era a Vic, que não conhecia ele, que não era amiga de Tehtezinha alguma, não estudava no Exitus e não iria ficar com ele.
"ok bjoooos sua linda"
E essas foram as derradeiras palavras do guerreiro Pedro, que provavelmente deve ter chegado na escola hoje espalhando pra todo mundo que a Vic era uma vaca metida e arrogante que não tem coragem de dizer não e fica inventando desculpas esfarrapadas, e quiçá emendou que nem se ela viesse de joelhos ele ficaria com ela, por mais que ela fosse areia demais pro caminhão dele. Isso, claro, até o dia que ele, depois de olhar as fotos dela no Facebook pela milésima vez, resolvesse engolir o orgulho e tentar mais uma vez, pedir desculpas. Abriria então o Vagalume e talvez procurasse na letra de Garotos (estou sendo muito otimista? Amar Não É Pecado é mais provável?) algum verso que pudesse atingir o coração de gelo da Vic. Enviaria-lhe então outro sms, como se acenasse uma bandeira branca, e eu só espero que dessa vez seja esperto para ao menos acertar o número. Ou não.
Sério, onde é que vamos parar?