domingo, 28 de março de 2010

O carinha do aeroporto.

Não existe lugar melhor pra se estar do que um aeroporto, em época de Natal, num dia chuvoso. E era lá que eu estava, tomando um chá de cadeira, porque meu voo estava atrasado por conta do mau tempo. Vi-o pela primeira vez na fila do check-in, estava na minha frente. Confesso que o que me chamou atenção a princípio fora o perfume, desses que vão adentrando pelas narinas, e ocupando todos os sentidos, e depois de um tempo você até consegue enxergar todas as notas de cheiro em forma de notas musicais.

Era alguns centímetros mais alto que eu, vestia camisa social azul claro, com mangas dobradas, colarinho desabotoado, gravata afrouxada. Toda aquela roupa de escritório dava-lhe a aparência de cara sério e bem mais velho, mas abstraindo o vestuário, os cabelos penteadinhos, os óculos de grau, não tinha mais de vinte e cinco anos. Tinha a barba bem feita, pele lisinha, e por trás do perfume, um cheirinho de banho tomado com sabonete comprado pela mãe; mãe que aliás estava com ele, e que ele beijara ternamente a testa ao se despedir. O filhinho da mamãe, garoto prodígio da família.

Depois do check-in fui procurar algo pra fazer até que meu vôo saísse. Passei um tempo na revistaria folheando todas as Vogue do mundo, tomei bem devegar dois cafés com mamãe, e como não dava mais para fazermos hora na cafeteria devido à quantidade de gente esperando uma mesa vaga, fomos esperar em outro lugar. Imaginem minha surpresa ao ver que haviam dois lugares vagos justo ao lado dele! Sentei-me. Ele estava por demais compenetrado em sua leitura para notar qualquer movimento a seu redor. Meu coração quase saiu pela boca quando, depois de muitos malabarismos para parecer discreta, vi que livro ele lia: antologia de contos de Machado de Assis, um volume que tenho em casa.

Cruzava e descruzava as pernas, nem sabia mais em que página da palavra cruzada eu estava, tamanha era minha aflição e curiosidade para descobrir qual dos contos ele estava lendo. Que vontade de ser cara de pau e descontraída para puxar assunto com desconhecidos, não seria ótimo engrenar uma conversa, uma vez que estávamos eu e ele ali, reféns de um mau tempo que não nos deixava embarcar? Opa, a mulher da voz serena convida os passegeiros para a sala de embarque. Olho o meu cartão, ele também, nos levantamos quase ao mesmo tempo. Estávamos no mesmo vôo.

A vontade de enfiar a cabeça em qualquer lugar para nunca mais sair foi inenarrável quando mamãe, com seu jeito todo mãe, avisou para a aeromoça que eu estava embarcando sozinha. Menor desacompanhada, essas coisas. E ele ali na frente. Que cena patética deve ser sido aquela. Na fila para ir para o avião, torci o tempo inteiro que a TAM fosse desorganizada e tivesse poucos guarda-chuvas, e nos fizesse dividir com a pessoa da frente. Chuviscava fino ainda. Pra minha tristeza, haviam suficientes, a aeromoça bem penteada e sorridente abriu aquele guarda-chuva vermelhinho e me entregou. Ele ia na frente, de certo aborrecido de estar andando com seus sapatos sociais no chão molhado de chuva do dia inteiro.

Ele entrou na parte de trás da aeronave, e eu na da frente. Se minha última esperança era de que ele se sentasse ao meu lado, ela já não mais existia. E até hoje quando pego aquele livro de contos, me pergunto qual ele estaria lendo.

(Essa história aconteceu mesmo, no fim de 2008. Lembrei do caso dia desses, numa conversa, e procurei o rascunho da crônica. Só finalizei, porque estava incompleto.)

24 comentários:

  1. Tenho a impressão de que quando homens mais velhos que se encaixam na descrição supracitada por vossa senhoria lêem clássicos, estão se iniciando no mundo literário, acho um tanto quanto, broxante. Não achei apropriada a associação de sentidos olfato/audição quando você relaciona perfume com notas musicais, I mean, que droga você tava usando? De qualquer forma, ainda prefiro aquele do cheiro da lavanda (acho que é esse o nome).

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  2. Devo discordar da pessoa do comentário acima, eu também associo cheiros a músicas.
    Devo admitir que já me atrai por vários caras mais velhos que eu e com uma descrição dessas também, o último foi um com ar distraido e cara de perdido. Mas agora a graça é atrair-me sempre pela mesma pessoa, a cada dia vejo um detalhe mais lindo sobre o meu namorado, que não é tão mais velho, na verdade só 4 meses, e isso acabou com a minha capacidade de "olhar em volta" e achar carinhas no aeroporto...

    beijos

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  3. Conheço a situação. Sempre que vou no aeroporto, fico dando uma olhadinha pra lá e pra cá, e sempre tem um garoto/homem que faz meu coração disparar. Nada de amor a primeira vista, se é isso que está pensando (XD), mas é só a sensação que eu sinto quando vejo alguém bonito (de preferencia homem '-'). Ainda fico feliz da vida quando percebo que ele vai pegar o mesmo vôo que eu, cruzo meus dedos e rezo para que ele se sente do meu lado (oque nunca acontece, mas não custa sonhar), hehe! :D


    Bjuss, =*

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  4. Adoorei Anna. Ultimamente estava achando alguns textos românicos muito clicês, mas nunca acho isso do seus :)
    Beeijos

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  5. Ah Anninha que lindinho! Aeroportos em época de Natal são fantásticos mesmo. Lembra-me muito "Esqueceram de mim". Eheheh!

    Quem sabe em um outro Natal você encontre um rapaz intelectual como aquele, hein!

    *ps.: perfumes são sensacionais para nos apaixonarmos ainda mais pela pessoa, né? Hihihi!d

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  6. Eu amo ler crônicas. Muito mara essa crônica, bem interessante. só o fim que foi triste. Acho que todos nós já passamos por isso. Um amor platônico a primeira vista. *-*
    Adorei.
    Kissus ;*

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  7. Já tive muitos romances platonicos de aeroporto. Sem contar os de livrarias, lanchonetes, colegio, etc.

    Fiz um post pra você, http://sobrefatalismos.wordpress.com/2010/03/23/a-nova-audrey/

    Beijinho.

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  8. Que fofo, Anna! Eu sempre espero encontrar o amor da minha vida em algum voo, fico olhando pros lados pra ver se ele ou o Evaristo Costa não estão lá, só pra garantir.
    Teve um voo que eu peguei recentemente que tava lotado de argentinos lindos, ah, que maravilha...!

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  9. Cara, não me imagino numa situação dessa! auhauhuahua

    mas ficou muito lindo, nhw
    amo crônicas >.<
    beijos

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  10. Sinceramente?
    Se não fosse verdadeira esta história, não mudaria nada pq vc escreve muito bem, OU por outra... Vc está escrevendo cada dia melhor.
    Uma verdadeira roteirista, uma contista... ah nem sei mais eu babo, ensopo o teclado babando com suas narrativas e o melhor, eufico imaginando as cenas. Vi o aeroporto, como num filme... o rapaz, as pessoas... é, Anna.. te ler e ir a um cinema mto especial!!
    Cada vz mais me dá vontade de te elr e aplaudir! Parabéns!!!
    Bjos..e obrigado por aparecer no Lush!! \o//

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  11. Ah Anna, muito muito fofa essa história! Queria poder encontrar contos deliciosos assim nas coisas naturais, também... Beijos.

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  12. Posso dizer que me identifiquei com o texto? Eu sei que parece meio bobo, mas vira e mexe me pego "apaixonada" (no seu sentido mais fraco da palavra) por essas pessoas que parecem simplesmente legais e simpáticas a primeira vista. Fico toda toda, sem me mover ou saber o que fazer, sendo que o indivíduo ao lado deve estar nem aí para o que eu faço. Triste, mas ao mesmo tempo tão divertido :D

    Beijos
    (Lizzy Bennet visita seu blog! E foi muito estranha...)

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  13. Muito legal, ainda mais por ser uma história verdadeira...! Eu adoro ver o que as pessoas ficam lendo, quando encontro alguém que está lendo algo que li (ou estou lendo) acho incrível tb! Dá uma vontade imensa de saber o que a pessoa está achando, o que mais gostou... Mas admito que também nunca tive coragem de falar com nenhuma dessas poucas pessoas que se encaixaram no perfil!!!

    um beijo grande!

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  14. Adoro quando os fatos do cotidiano viram uma histórinha que quando os outros lêem e criam expectativas, como nos contos.

    Adorei o post, queria que vc tivesse puxado assunto com ele ¬¬ mas no seu lugar acho que eu agiria da mesma maneira.

    O ruim é que é sempre assim: menores viajando desacompanhados devem sentar na frente ¬¬

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  15. Bom, eu nao sou fa de aeroporto nem um poucO! geralmente eu sempre to nervosa querendo ir logo e com Deus claro *morro de medo* -__-
    mas que essa historia eh linda, isso eh!
    E mesmo eu, com toda minha timidez, acho que teria aproveitado a chance de perguntar qual conto ele lia!
    Ainda mais vc que deve saber tudo sobre Machado de Assis, ainda mais tendo o livro :P
    De vez em qdo a gente tem que colocar a mascara do "to-nem-ae" e aproveitar as situacoes que pouco acontecem :DDD

    Pelo menos te valeu uma memoria boa e um post bem legal ;]]]

    Beijos

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  16. Nooossa, já aconteceu situações parecidas comigo em aeroporto e em excursões, uma vez, por incrivel que pareça ainda dei sorte do garto sentar ao meu lado, pena que isso não acontece sempre né?
    beijos!

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  17. Nossa se isso acontecesse comigo eu ia me matar! Eu nunca ia ter coragem de puxar conversa, eu queria ser cara de pau em horas como essas. Mas que chato, viu? Amei seu blog, layout lindo demais. xx

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  18. Quando se esta em tédio sempre vc nota mais nos detalhes, e sempre tem algum carinha que a pessoa olhe melhor. Adorei o texto, vc escreve super bem, é interessante, seus textos são até grandinhos mas da vontade de ler. Muito legal mesmo. Mas vc deveria ter cido mais cara de pau, ja que ninguém tava fazendo nada, podia tentar conversar, rsrs. Ah e vlw as visitinhas no blog da minha turma! :D

    Beijos

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  19. Na minha cidade não tem aeroporto, o aeroporto mais perto é na capital ( 4 horas de distancia) e só fui uma vez, mas caras mais velhos atrarem em qualquer lugar! #fato.
    beijos

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  20. alguém aqui gosta de mocços mais velhos, hã?

    é, eu também já tive desses desconhecidos.. hihi

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  21. Eu juro que tinha visto um post falando alguma coisa do BBB10 (deixei pra voltar depois pra ler com calma). Sumiu! :S

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  22. Ola amiga! Muito obrigada pelas dicas sobre o make lá no meu blog! Ah, eu li o texto, muito bom, bem eu não relaciono cheiros a música, porque eu sou extremamente apaixonada por musica, e pra mim não tem nada que se compare a ela rsrs. Ah, e como eu nunca viajem de avião, tb não vivi nada parecido, tipo me sentir atraida por um sujeito que eu não conheço, mas que tem caracteriscas com as quais eu me identifico bem a mostra. E isso, bjão, amo seu blog!

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  23. Ai meu Deussss! Agora até eu quero saber!!!! Por que você não cochichou para a aeromoça te trocar de lugar e colocar ao lado do moço? Eu aposto que ela daria uns risinhos e atenderia seu pedido, porque a TAM é super legal! (rsrsrs)
    beijo, querida!

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  24. Olá!
    Gostei muito do seu perfil! Vim te fazer uma visitinha!Seu blog é como um filme chick flick! Gostei!

    Ai ai ai!
    Agora fica a gente aqui esperando que um dia vc esbarre no Mr. Culto outra vez pra vê no que vai dar!!!

    Eu lendo esse post e a minha "safena" em tempo de papocar! aaaaaaaaaaaaaahhhhhh!!!

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