sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Chão-terapia

Papai não se cansa de dizer que acha que é uma falta de respeito e decoro enorme essa coisa de ir de chinelo pra escola. Na época dele, sempre ouço essa história, sair de Havaianas era mico dos grandes, só isento de reprovação para aqueles que haviam estourado o dedão do pé jogando bola. O patriarca Rocha chegou a dizer que, se fosse ele diretor de uma escola, proibiria o uso de bermuda e chinelos. Aí ele me vê quase todos os dias saindo do colégio com minhas calças de malha largas, que mais parecem de pijama (e muitas vezes são) e minhas queridas Havaianas roxas, e fico imaginando o quanto ele deve se controlar pra não brigar comigo, como faz sempre que estou de moletom quando na rua a média é de uns 35ºC na sombra. Tem dias que ele só olha para meus chinelos e resolve reclamar das minhas unhas pintadas de rosa, mas eu sei o que ele realmente queria criticar. Ah papai, esse amante do decoro, o que diria se visse sua menininha de chinelos, calça quase-de-pijama, moletom e ainda por cima estirada no chão da sala de aula?

Tenho amigos que desde o começo do ano tem essa mania de deitar no chão da sala na hora do recreio. No começo, confesso, ficava olhando meio indignada, tentando me manter firme no pedestal da dignidade, matutando comigo mesma que a pessoa tem que estar muito fora da casinha, perdida na vida e desesperada para se jogar no chão assim, na frente de todos, e ali ficar, feito uma leitoa cansada. Só que um dia desses, pra variar, eu estava numa crise daquelas de sinusite e passando mal pra caramba. Minha cabeça pesava e doía tanto que minha impressão era que mais cedo ou mais tarde eu não ia conseguir mais sustentá-la firme no pescoço e ia cair fungando num canto. Na hora do recreio, cansada de sofrer, peguei minha mochila, enrolei meu moletom como um travesseirinho, e me deitei ali no chão da sala, com os olhos fechados e cara de sofrimento, para ver se melhorava. Mil pessoas entraram, me olharam ali, e, naturalmente, me julgaram. Mas quando eu levantei, estava bem melhor.

Foi assim que aos poucos eu fui me tornando adepta à chão-terapia, e vou contar uma coisa pra vocês: chão é vida. Essa coisa de ficar sentada o dia todo coloca minha coluna em frangalhos, ainda mais porque eu não me encaixo direito na cadeira da escola, porque tenho pernas compridas, e por causa disso fico toda torta e de mal jeito. Ano passado, cansada de parecer uma velha reumática aos 16 anos, comecei a fazer pilates e foi a melhor coisa que me aconteceu: as dores sumiram quase que por completo e eu podia suportar seis horários de aula e uma tarde de estudos na midiateca sem voltar pra casa gemendo. Só que com a loucura de vestibular, tive que abandonar minha ginastiquinha feliz no início do ano, e desde então tenho penado. Ainda bem que existe o chão.
Aí a gente pensa que o vestibular já nos tirou tudo - tempo para ver filmes, sonhos bons, tardes de sono, tempo para ir ao salão, vontade de viver - até se pegar deitada no chão da sala de aula, com as pernas apoiadas numa cadeira, se alongando ali na frente de todo mundo. Nesse momento, você percebe que a falta de dignidade desconhece limites e o buraco é sempre mais embaixo. No entanto, toda essa desglamurização em classe pública se torna pouco importante diante dos benefícios do chão. A gente deita, se estica, coloca as vértebras no lugar e se estrala inteira, e num lapso de segundo percebe que o mundo é bom. 15 minutos de chão e meus problemas quase somem, estou pronta pra mais duas aulas

Em minha defesa, não tenho muito o que dizer além disso. Resolve argumentar que a terapia tanto funciona que já consegui novas adeptas, que de início me olhavam feio, ali esparramada, e que agora me acompanham no nosso ritual desesperado de recreio? Sempre que estou fatigada e de mal com a vida me estiro no chão, fico ali alguns minutos com a coluna no lugar e as pernas esticadas, olhos fechados e respirando fundo, até que as coisas voltem a ter sentido e eu consiga arrastar meu corpinho por esse mundão de meu Deus. Ensinei a técnica para minha mãe e não é raro o Chico flagrar nós duas esticadas na sala, uma parecendo mais maluca e fora de si que a outra, mas ela não tem reclamado do resultado. Recentemente descobri também que dormir no chão é uma beleza: num churrasco de família, me deitei ali na beirada da piscina e fiquei dormindo por toda uma tarde, e acordei renovada.

Agora que contei meu segredo, vocês já sabem: em caso de emergência, se estiquem no chão.



13 comentários:

  1. Ahhh, Anna! Eu lembrei da minha época de colegial. Eu passava muito tempo no colégio. Tinha aula de amnhã e de tarde, consequentemente almoçava lá direto e não deitava no chão da sala, mas no pátio mesmo. Naquele horário depois do almoço, que dava um sono, uma preguiça... e na minha escola não tinha essa coisa de midioteca ou coisa do tipo, rsrs. A gente sempre dizia que tinha que ter uma salinha de descanso para aqueles que ficavam direto no colégio, pq a gente quase dormia estiradas no chão...rsrs
    Mas era tão gostoso! rsrs

    Beijos!

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  2. Chão é uma coisa SUPER amor, gente! Aqui é super frio, mas basta uma oportunidade de dia mais quente e eu me taco no chão. Na casa da minha avó, em Baixo Guandu, 40 graus na sombra e piso frio, adivinha. Tem dia que o sofá tá vazio, e a galera esparramada no chão. O chão da varanda da vovó então, adoro deitar lá.. <3 CHÃO terapia para todos, JÁ! Lembrei agora de um dia, em uma aula de teatro no semestre passado, minha primeira aula na sala da Airen. Ela tava lendo o nosso texto deitada no chão. De repente ela pulou, sentou, olhou pra gente e falou: "CARA, eu AMO o meu trabalho! Que outra pessoa pode trabalhar deitada no chão??" Foi ali que eu decidi que quero ser atriz e dar aulas de teatro, porque além da minha paixão por isso, eu vou poder rolar no chão durante o trabalho! hahaha
    Beijos, Anninha!

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  3. Mas a gente "deitava na relva", referência clara ao Pequeno Príncipe. Deitavamo-nos em qualquer lugar: podia ser na frente dos laboratórios de Informática, na grama, ou na arquibancada. Ninguém tava nem aí. Todo mundo fazia. Anormal seria se eu fosse contra.
    Bons tempos.
    Beijão.

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  4. Não confio em quem não anda descalço, nem deita no chão, nem gosta de abraçar gente.
    Passar vergonha é o que há Anna!
    E se eles te olham torto é porque não deitam no chão.
    Não confie nessa gente.

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  5. Quando eu vi o nome do post, quase dei pulinhos de alegria. O conteúdo, nem se fala. Deve fazer uns dois anos que, sempre que eu tô triste, sento no chão da sala. Pode ser no meio da aula, bateu uma tristeza, eu sento de indiozinho no chão e tudo fica bem. Parece coisa de gente louca, mas funciona. Dia desses tava tendo aula com o diretor da escola, sentei no chão e acho que ele ficou tão assustado que nem disse nada, só perguntou se estava tudo bem. Mas bom mesmo foi na aula de ed. física que fiquei com preguiça de fazer e fui pra sala de aula com mais duas amigas. Ficamos lá, esparramadas no chão, ouvindo música e contemplando a vida. Sou adepta e recomendo a chão-terapia ;)

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  6. PS: Esqueci de comentar que tenho o dom de deitar em chão de cozinha. Não posso ir na casa de uma amiga comer, ou ficar á toa, me esparramo do lado da geladeira mesmo!

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  7. Nossa, adoro o chão. Andar descalça é o que há.

    Também tenho dores nas costas e sei que o chão é a melhor terapia.
    Sabe outra coisa gostosa sobre deitar no chão? Em dias de calor e deitar no chão fresquinho. Nada melhor.
    Ahh, mas uma coisa. Deitar no chão e suspender as pernas para o alto formando um angulo de 90º com os joelhos. Também é muito para melhorar a circulação e o encaixe dos quadris com a coluna.

    Ahhh também adoro o chão-terapia para ler um bom livro.

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  8. Nesses primeiros dias de calor na primavera, fui obrigada a deitar no chão ao lado do meu cachorro. Tão fresco, tão revigorante, tão aconchegante! Geladinho! Minhas costas também agradeceram e levantei mais refrescada. Mas ainda sou iniciante, acho que vai demorar um pouco pra começar a levar essa técnica pra fora de casa :D

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  9. Adorei sua saída para a falta de aulas de pilates! hahahaha. Na UFSC, temos a opção de nos estirar nos pufes da Biblioteca (que reabriu essa semana com o fim da greve dos servidores êêê).

    beijo!

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  10. Sou muito a favor da chão-terapia. Era praticante nos tempos de colégio e, agora na faculdade, sempre me sento no chão dos corredores da faculdade. (É, nunca deitei no chão do corredor).
    Bom que você pode ir de chinelo pra aula. Eu não podia. Então a solução era tirar o tênis (escondido) e ficar de meia. O sossego existia até algum preconceituoso ver e gritar pro mundo que sentia um cheiro de chulé vindo da minha direção - e do meu grupo de amigos, que gostavam das meias também. Hoje, posso usar chinelo na faculdade e dou graças por poder colocar os pés no chão sempre que quero.
    Gosto também de sentar com as pernas cruzadas, estilo perninha de índio mesmo. Essa prática é deeesde os tempos de colégio e não abandono tão cedo!

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  11. Se seu pai viesse ficar um tempo no Rio ele ia ter surtos, porque aqui você só vê gente de havaianas, se for nos lugares de praia então, que o pessoal anda descalço hahahaha. Eu nunca fiz isso de deitar no chão do colégio porque era muito sujo rs, mas quando chegava em casa eu fazia isso, já cansei de dormir no chão na minha antiga casa, ainda mais que lá o chão era de ardósia e sempre era geladinho. E no colégio todo mundo aqui vai de bermuda mas não pode usar chinelo, só na faculdade. Beijo

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  12. Chão é MARAVILHOSO! Não tenho essa liberdade de ir pra escola de chinelo (o caso é que tenho que usar uniforme e ele não combina com chinelo), mas nesses dias de calor infernal eu daria tudo para poder ir pra aula com shorts e havaiana, sem brincadeira. Quanto ao chão, na escola não dá para eu me esticar, tendo em vista que a sala fica lotada na hora do recreio e tenho medo de ser pisoteada, porém, em casa e no teatro é bem raro me ver fora do chão. Dormir em um chão de grama, como aqueles de parques, sabe? Então, é a melhor coisa do universo! Faça isso assim que tiver oportunidade! Sério. Muito bom! Chão <3
    Meu professor de física disse que é bom deitar nele porque as energias vão pra terra e é assim que você se relaxa, faz sentido! haha
    Enfim, beijos!

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  13. Praticava muito no recreio, quando fazia magistério... Nada melhor que o chão para aguentar muitas aulas, trabalhos e blábláblá.
    Ótimo post! :)

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