domingo, 19 de janeiro de 2014

Somos todas Frances Ha


Um dos meus trechos favoritos de The Bell Jar, da Sylvia Plath, é um logo no começo no qual a Esther diz que o melhor truque para se lançar mão quando você está num jantar chique e não sabe qual colher usar é simplesmente fazer o que te dar na telha, mas com uma arrogância segura de quem sabe perfeitamente o que está fazendo. Assim, mesmo se você estiver errada, ao invés de pensarem que você não é fina o suficiente, as pessoas vão olhar pra você como alguém original e muito, muito esperta. Eu acho esse conselho uma sabedoria para levar não apenas para a mesa, mas para a vida.

No fundo, fico pensando se por trás de uma fachada de confiança as pessoas não estão todas se perguntando qual é a colher apropriada para aquela sopinha chique. Eu acho que estão. 

O negócio é que elas disfarçam bem demais, e o que resta sou eu fazendo um uni-duni-tê mental antes de me arriscar no garfo mais à direita, enquanto penso que só pode ter alguma coisa muito errada acontecendo para eu ser a única que não sabe quantos dentes tem um garfo de peixe. Acho que é por isso que eu sempre gostei tanto de ficção realista, que esbofeta, cospe na minha cara, me faz querer nunca mais sair da cama - mas ao mesmo tempo me diz: queridona, pelo menos você não se ferrou sozinha. 

É por isso que eu adorei Girls e ainda adoro a proposta da série, mesmo que tenha abandonado no meio da segunda temporada. Eu escrevi bastante sobre ela, mas nunca aqui no blog, o que é bem engraçado. Mas o que eu gostava, basicamente, era de ver o universo feminino retratado de uma forma mais crua, com personagens exorcizando demônios muito cabeludos, do tipo que a gente se identifica até na espinha mas não tem coragem de admitir em voz alta. Eu adoro isso e a abordagem tough-love funciona comigo que é uma beleza. Mas em Girls é tudo tão torto que até meu coração gelado clama por clemência, e eu cheguei num ponto que estava odiando tanto aquelas personagens, aquelas situações, e aqueles diálogos, que larguei.

E aí, quase um ano depois de eu jogar a toalha, Frances Ha entrou na minha vida. Me parecia um filme de Tumblr como tantos por aí e eu sabia que ia amar porque sou presa fácil de fotografia bonita e frases de impacto, mas eu não sabia que amaria tanto assim. O que me encanta em Frances Ha é basicamente o fato de ser um filme realista e doído demais sobre crescimento, sem deixar de ser um filme doce. Todo mundo precisa de colo, um beijinho na testa que ajude a seguir em frente, uma música do David Bowie, que seja.


O filme conta a história de Frances, uma mocinha de vinte e tantos anos vivendo em Nova York e tentando ser alguém. Minha fala favorita dela no filme é: eu ainda não sou uma pessoa de verdade. Isso é dito quando o cartão de crédito dela não passa logo quando ela convida um amigo descolado para jantar por conta de sua restituição de imposto de renda. Orgulhosa, ela resolve ir correndo a um caixa eletrônico para sacar o dinheiro e muitos quarteirões e um tombo depois, ela consegue. Eu poderia fazer um paralelo dessa cena com um milhão e meio de situações da minha vida, da mesma forma que poderia fazer um paralelo desse filme com um milhão e meio de situações da minha vida.

É bem verdade que Frances não sabe o que está fazendo, e não ajuda o fato de as pessoas ao seu redor estarem com a vida tão encaminhada, com cada vez menos espaço para ela e seus movimentos desengonçados. Ela toma quinhentas porradas do destino, mas como diz a letra de Modern Love, que toca enquanto ela rodopia por Manhattan, ela segue tentando. Uma das sequências mais desoladoras pra mim é quando ela resolve ir para Paris, numa fuga desesperada de seus problemas e: é uma merda. Frances passa o fim de semana sozinha, dorme durante a maior parte dele, encontra todas as lojas fechadas e nem tem coragem de contar para a melhor amiga da sua aventura, porque ela sabe a mentira patética que foram aqueles dias.


Só que tudo é tão lindo, sabe? A própria Greta Gerwig, protagonista e uma das roteiristas, é aquele tipo de pessoa que a gente não sabe se é muito bonita ou muito feia. Ela está sempre descabelada, usando umas roupas que ficam no limiar entre o descolado e o estranho-de-um-jeito-ruim, com tiradas que às vezes são ótimas e em outras são simplesmente inapropriadas. Mas a fotografia é toda em preto e branco para homenagear a nouvelle-vague e é impossível não lembrar de Manhattan, do Woody Allen. A trilha é incrível, os personagens, de modo geral, são bem abraçáveis, e as cenas de dança são lindas. Alerta de spoiler: o final é feliz. 

Dá pra ser realista sem cuspir na cara. Não é menos corajoso deixar uma nesga de esperança. E não faz mal associar as desventuras de Frances com um milhão e meio de situações na vida. O fato de as pessoas amarem tanto esse filme e afirmar identificação profunda só mostra que no fundo elas estão tentando tanto quanto eu e você. Algumas mais descabeladas, outras menos, mas é mais fácil respirar no lado adulto da vida quando olho pra pessoa na minha frente e penso que ela também pode não saber comer peixe do jeito certo, ou que aquele entrevistado está tão assustado como eu, qualquer que seja o seu motivo. 

Foi para registrar para a posteridade essa pequena iluminação para vida que resolvi que faria o novo layout do blog com a temática Frances-Hazística, para todas aquelas vezes que eu tivesse certeza absoluta de que eu era uma mentira e nunca mais conseguiria escrever um parágrafo que prestasse, eu olhasse para Frances correndo, cantarolasse Modern Love e pensasse: ufa, tá tudo bem. Mas se algum dia eu fui boa em matéria de editar layout e configurar HTML5, esse dia passou - um paralelo na vertente design/programação da sequência de Frances correndo para sacar o dinheiro e pagar o jantar. Não ficou do jeito que eu queria, mas ficou assim. Ainda não está tudo pronto porque longo é o trabalho e breve o fim de semana, mas a gente vai dando um jeito.

(Eu juro que minha intenção era fazer um post de dois parágrafos falando sobre o layout novo. Talvez meu professor esteja certo quando diz que eu preciso de foco na minha vida)

Ps.: Fiquei muito feliz com a repercussão do meu post sobre a Jennifer Lawrence! Confesso que postei morrendo de medo do fandom alucinado da moça, mas as respostas foram, em sua maioria esmagadora, muito positivas. O que foi mais legal: um monte de gente que ama a J-Law e queria ser amiga dela gostou do post e trocou ideias muito bacanas nos comentários. Fiquei felizona e com vontade de escrever mais polêmicas, hahaha. (Sério, alguém tem alguma sugestão?)

12 comentários:

  1. Gostei muito desse texto e como você conseguiu analisar tão bem o filme, linkando com a vida mesmo. Eu assisti há umas semanas e não sabia o que esperar e, apesar de às vezes me sentir agoniada pela falta de sorte da Frances em se ajeitar na vida, me identifiquei com ela, e acho que a atriz tem muito carisma.

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  2. Como eu não conhecia seu blog antes? :O
    Assim como o filme é incrível em traduzir tantos sentimentos, seu post é perfeito em traduzir aquilo que foi minha relação e conexão com ele, em especial com a personagem principal. Fico imensamente mais confortável ao constatar também que não sou a única e podemos todas dar as mãos em breve e fundar um clube, ou só pegar uma outra sessão de cinema com pipoca mesmo. :)

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  3. Amiga, sabe que eu vivo pensando isso, e aquela quote de "O oceano no fim do caminho" que diz que na verdade ninguém no mundo é adulto só me confirmou. Ninguém tem como ter certeza de tudo o que faz. A gente só pode se esforçar pra fingir que tem, rezando pra acertar!
    E eu AMO o nome desse filme desde que ouvi pela primeira vez. Sei lá porque. Acho lindo, poético, sem sentido nenhum, mas me tocou muito. Preciso assistir. Te amo!

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  4. Antes de tudo: amiga, além de talentosa na escrita, seus layouts arrasam demais! Teach me, master! ahahahahaha

    Esse post me instigou mais a assistir ao filme do que aquele outro que você tinha escrito, mas porque você mostrou mais a fundo do que realmente se trata e, meu deus, é tão bom ver que não somos às únicas se sentem sem rumo e deslocadas às vezes. Me senti acolhida só com o post, que dirá o filme!

    E como não amar um post em que David Bowie foi citado por você, ein?? :D

    Amei tudo!

    Beijos <3

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  5. Eu simplesmente AMEI esse filme. Eu me identifiquei muito com a Frances, já que estou nessa época dos vinte e poucos anos e tá difícil a vida. Eu me vi naquele filme, e é legal que retratem algo tão realista e mesmo assim cheio de amor. Ele entrou para a minha listinha de favoritos.
    Ficou uma fofura esse layout novo.
    Beijo

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  6. "presa fácil de fotografia bonita e frases de impacto" Talvez você tenha acabado de definir minha relação com o cinema. huum.
    Olha, eu amei Frances Ha e fico aliviada de finalmente ler um texto bom sobre o filme. Tudo nele é maravilhoso e eu tô bem seduzida por essa temática dos 20 e poucos anos. Essa quote do blog é uma das coisas que carrego na alma por onde eu vou e vez ou outra penso num post e percebo que ela encaixa direitinho nele. O que isso quer dizer sobre a nossa geração, só o futuro irá dizer.
    Amei o texto, amei o layout novo, ai você é o máximo e sabe disso. <3
    Beijo!

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  7. Acho que fui uma das únicas pessoas do mundo todo que não sentiram toda essa magia em torno do filme. Ele é bom, lindo de se ver e realmente tem frases marcantes, mas talvez tenha ido com tanta expectativa assisti-lo, que me decepcionei um tanto. Como minha amiga sempre diz: a expectativa é o primeiro passo para a decepção. hahaha
    Enfim, achei seu texto MUITO bom e seu ponto de vista conseguiu me fazer ver a história de Frances Ha com outros olhos, vou assistir novamente e ver se sinto algo mais profundo.

    Beijo

    ps: o layout ficou lindo, mas confesso que vou sentir saudades da Audrey que era sua cara!
    ps2: outro dia escrevi sobre o filme e meu ponto de vista: http://carolinanazatto.wordpress.com/2014/01/07/achei-frances-ha-so-ok/

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  8. Eu ainda não assisti esse filme, mas é o segundo blog hoje que entro e vejo elogiarem tanto. Fiquei com vontade, pretendo assistir assim que puder!
    Sobre o post da J-Law, eu passei um tempão escrevendo um comentário e quando fui postar a página deu erro e eu perdi tudo :/ Mas foi um ótimo post, de verdade!!
    Beijo
    Reenoceronte

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  9. Eu to aqui toda apaixonadinha com direito a muito mimimi pelo seu layout novo moça.
    Frances Ha é clássico, Frances Ha é vida e não tem como falar mal do filme, não importam o que digam é cinema bom pra caramba (eu queria falar um palavrão pra causar mais impacto mas em respeito ao novo "ar" do blog não vou falar.)
    E ah, eu li o post passado sobre a J-Law porém já estava atrasada pra comentar e não sabia se ficaria feio então não comentei, mas se toda polêmica que você fizer for ser daquela maneira, pode fazer sempre!

    Novembro Inconstante

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  10. Não conheço Frances Ha, mas no meio do post já abri uma nova aba aqui no navegador e procurei pra baixar rsrs.
    Também ameeei o post passado sobre Jennifer Lawrence, porque você traduziu exatamente o que eu penso sobre ela haha

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    1. Ana Mattos você consegui baixar? Tô procurando aqui e não consegui :(

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  11. Gostei do layout novo!
    Nossa, suas resenhas são sempre tão maravilhosas. O que mais gosto é quando você mistura acontecimentos pessoais em filmes, livros e músicas. Acredita que não conhecia nada do que você escreveu? Anna Vitória é utilidade pública! haha Vou atrás do filme, da série e do livro.

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