sábado, 28 de julho de 2012

Manifesto contra o filé ao molho madeira

Se tem duas coisas que acontecem em abundância na igreja dos meus avós, certamente são casamentos e funerais. Toda semana, invariavelmente, alguém se casa e alguém morre, e meus avós são convidados para ambos os eventos. Posto que tenho horror a caixões, coroa de flores e, hm, gente morta, desde pequena sempre gostei de acompanhá-los nos casamentos, ao melhor estilo arroz-de-festa do mundo, tirando uma noite de sábado para ser paparicada por todos que passam e comentam "já viu como está grande a neta da irmã Cristina e do irmão Edvaldo?", ouvir muitas histórias de moléstias da coluna e dos olhos e fazer um ranking dos melhores (e piores) buffets e vestidos de noiva. Por causa dessa turnê casamenteira, tive a oportunidade de marcar presença em festividades do Oiapoque ao Chuí da pirâmide social, chegando a conclusão que se existe um denominador comum para eles, além da noiva usar sempre branco, é o do filé ao molho madeira no cardápio. 

Quando você para pra pensar em termos práticos sobre as melhores opções de comidas a serem servidas num evento como um casamento (sim, eu já fiz essa análise), o filé ao molho madeira - acompanhado de rondeli quatro queijos - acaba sendo a escolha mais democrática. Contempla aqueles primos com alergia a frutos do mar, os amigos vegetarianos, as crianças e todas as exceções que acabam por tolher a criatividade do mais inventivo chef. Se você não nada no dinheiro para conseguir servir alternativas sofisticadas e criativas para todas as particularidades dos seus convidados, acaba tendo que se contentar com o filé ao molho madeira. Para a maior parte dos convidados, no entanto, principalmente aos habitués desse tipo de festa, que maçada! A certeza do filé ao molho madeira simplesmente aniquila a maior expectativa daqueles que, assim como eu, tem o ritual da alimentação em grande conta. Sou dessas que assim que é convidada pra qualquer tipo de festa já pensa na comida e não nego, e que graça tem esse exercício se você já tem a certeza de que o que espera por você é filé ao molho madeira e rondeli quatro queijos?

O problema nem é o prato em si, mas o que fazem com ele. Buffets tem o talento especial pra cobrar muito dinheiro em troca de uma coisa absolutamente banal e sem gosto. Já fui em muitos casamentos na minha vida e posso dizer com segurança que na esmagadora maioria deles o prato tinha o mesmo gosto de papinha de neném, ou seja, de nada. Em maio fui ao casamento da filha da minha tia-avó, também conhecida como a tia rica da família. Por conta desse adjetivo, imaginem só minha expectativa com relação aos comes e bebes da festa. Tinha certeza absoluta de que lá sim eu encontraria um cardápio decente que seria um marco na minha vida, mas com exceção da genial ilha de comida japonesa, me deparei com o arroz-com-feijão dos eventos e quando o comi e senti o mesmo gosto de mesma coisa de todas as outras festas, me senti como imagino que o Hitler deve ter se sentido ao ouvir as notícias ruins vindas de Stalingrado: agora ferrou. 

Estou com 18 anos e mais ou menos desde quando saí da barriga da minha mãe venho alimentando uma coleção de antipatias, restrições pessoais, falta de tolerância e rabugices com relação a várias das coisas que me rodeiam, ficando pior a cada ano. Pelo andar da carruagem, me imagino daqui a alguns anos ou abraçando a misantropia de vez ou despirocando totalmente e fazendo tudo que um dia eu condenei, tipo uma tatuagem de borboleta no tornozelo e adoção de tênis de salto ao meu guarda-roupas. Por ora, gosto de me imaginar no futuro como uma dessas pessoas esquisitas e livres que despacham tudo que possui potencial mínimo pra lhes encher os pacovás: não terei carro, nem celular, e se Deus me ajudar também não terei Facebook ou Instagram, usarei apenas leggings pretas e comerei o mesmo prato, no mesmo restaurante, nas raras vezes em que sair de casa pra isso. 

Minha manicure um dia me contou uma história de uma cliente noiva que estava organizando o casamento do século, com direito ao melhor salão e ao melhor buffet da cidade e tudo que lhe era de direito, até que alguns meses antes da cerimônia a mulher engravidou, teve que cancelar tudo e acabou se casando numa cerimônia na fazenda da família, pra pouco mais de cinquenta pessoas, numa festa em que se serviu galinhada feita pelas tias e doces de compota de sobremesa. Se fosse comigo, seria bem capaz de que fizesse uma peregrinação anual à Terra Prometida para agradecer por essa maravilhosa guinada do destino, porque a ideia de trocar uma festa num salão chique e meio cafona em que se serviria filé ao molho madeira com rondeli totalmente insípidos, por uma na fazenda com galinhada no cardápio me parece absolutamente genial e perfeitamente adequado ao meu eu futuro que dá uma banana para o mundo e as convenções sociais. 

No dia mais feliz da minha vida eu quero poder comer uma coisa que me deixe feliz e realizada, e se até lá não tiver dinheiro para contratar o buffet da Nina Horta (porque nela eu confio), declaro desde já que no meu enlace matrimonial será servido um panelão de galinhada, desses de festa de igreja, e a mesa de sobremesa contará com dois tachos de cobre gigantescos: um com doce de leite e outro com brigadeiro de colher. Nada de cerimonialistas de terno surrado andando pra lá e pra cá dizendo aos outros onde se sentar e me mandando cortar um maldito bolo fake recheado de ameixas, amêndoas e muito glacê ao som de Kenny G. Os convidados poderão juntar ou separar as mesas como quiserem, e eu quero bolo de chocolate com recheio de cocada branca (de preferência feito pela minha avó) e Carpenters na trilha sonora. Depois de uma festa assim, fica difícil demais não ser feliz pra sempre, porque tenho uma teoria, que preciso elaborar melhor, que comprova que o alto índice de divórcios atual se deve, em parte, ao filé ao molho madeira servido no casamento, já que por mais de primeira que seja a carne dos bifes, só consigo associar uma vida meio sem sal a um prato tão igualmente insípido. 

Nia Vardalos me entenderia



17 comentários:

  1. Nunca comi filé (ou qualquer outra coisa) ao molho madeira. É sem graça assim? E também nunca fui num casamento pra poder ficar dando opinião, mas não gosto de nada cheio de protocolos, muita formalidade e comida ruim. A ideia do seu casamento parece mais divertida (apesar de também nunca ter comido galinhada Oo).

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  2. Mamãe está aqui do meu lado, riu muito do seu manifesto e mandou dizer que o casamento dela teve churrasco! Olha, eu acho que é por isso que meus pais estão juntos até hoje, viu? Ou melhor, EM PARTE por isso, como você disse. Hahaha!

    Mais um post GENIAL, Annoca! Você está certíssima! Consegui até sentir o gosto do filé ao molho madeira ao ler seu texto. E, sim, é insípido. Cadê a criatividade, Brasil? E, digo mais, cadê o TEMPERO dessas comidas? Por isso que eu dificilmente janto em casamento e aniversários de 15 anos.

    Beijos!

    P.S: Mamãe disse uma coisa INCRÍVEL agora. Filha, quem sabe esse negócio da comida não é um acordo entre os buffets pra que tem mais divórcios e, por consequência, outros casamentos? Hahahaha! Gênia, né?

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  3. Quero um convite pro seu casamento! Adoro galinhada, adoro doce de leite e adoro eventos simples e criativos.
    Eu sou suspeita para falar porque, bem, odeio casamentos. Acho um grandessíssimo desperdício de tempo, energia e, principalmente, dinheiro.

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  4. Olha, eu quero festão no meu casamento, mas um festão cheio de coisas legais. Tipo, meu bolo COM CERTEZA vai ser de chocolate com morango. Não existe outra hipótese, não suporto bolo branco! E sabe os salgadinhos? Tipo, sei lá, mini-ravioles de rúcula com tomate seco? HAHAHA, nem a pau, gata. No meu casamento vai ter bolinha de queijo e é isso aí! <3
    E você vai estar lá, claro. E nada de filé ao molho madeira, não existe mais sem graça!

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  5. HAHAHAHAHAHAHA Morri de rir, Anninha! Genial o post! Eu odeeeio casamentos e esses tipos de eventos que servem sempre a mesma coisa. Odeio aqueles salgadinhos e pratos tão refinados que a gente nem sabe o que tem ali, que misturam morango com, sei lá, queijo suiço e não chamam atenção, só servem pra tirar fotos bonitinhas que sairão na coluna social. Fico de saco cheio de ir em festas assim, porque cansam. Já não basta ter que se vestir toda produzida, ainda tenho que engolir comida sem noção?! Tô fora dessas e do filé ao molho madeira. Vou servir o que me der na telha (não uma galinhada, mas um bom e velho strogonoff, com certeza).

    Beijos! <3

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  6. Estou com água na boca após ler seu cardápio matrimonial!
    Eu até gosto da carne com o macarrãozinho lá, mas acho que deve ser porque não comi muitas vezes na minha vida.
    Bom, no casamentos dos meus pais teve carne louca que até sobrou, e eles estão juntos há 20 anos. Acho que você realmente descobriu o segredo do crescente índice de divórcios!
    ;**

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  7. HAHAHAHA Anna, adorei sua teoria!!!!!!!!!
    Mas tenho que confessar que das minhas primas que casaram e tiveram filé ao molho madeira, tds ainda estão casadas hauhauhauah
    De qq forma, penso que eu casamento vai ser meio assim também, com uma comida simples e significativa pra mim e pra todos! E tive a sorte de ir em outros casamentos que tiveram comidas diferentes dessa, mas que infelizmente não agradaram meu paladar vegetariano!!
    Tenho certeza q sua festa será um sucesso e se vc puder me manda um convite, morri pelos doces já!!!!
    Beijão!

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  8. Eu já fui a poucos casamentos. O povo da minha família nem casa. Me convida para o seu casamento? Amo galinhada. Adorei seu texto.

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  9. Quando você fizer uma festa assim, me convida. Eu juro que vou menos por consideração a você e somente pela comida, haha!

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  10. No meu ~aniversário de quinze anos~ teve filé a molho madeira e rondelli de espinafre! ahhaha, foi quase! Claramente foi a minha mãe que escolheu o cardápio porque eu provavelmente escolheria uma coisa do tipo coração de galinha com farofa e vinagrete (isso na época).

    Se for fazer mais alguma festa na vida, tenho vontade de fazer algo tipo galinhada na fazenda também, casamento padrão é uó. Nem gosto e faz muito tempo que não vou. Semana que vem vou ter que ir até em igreja, socorro!

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  11. Minha experiência na área de casamentos é redizidíssima, Anninha. Então vou aceitar sua palavra e concordar que essa história de menu oficial de TODOS os casamentos do mundo é muito chata. Prometo para você que vou tentar ser mais criativa quando chegar a minha vez, mas tenho que dizer que vai ser difícil, porque se tem um grupo chato para comida, é a minha família.

    Beijos!

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  12. "me senti como imagino que o Hitler deve ter se sentido ao ouvir as notícias ruins vindas de Stalingrado: agora ferrou."
    "tenho uma teoria, que preciso elaborar melhor, que comprova que o alto índice de divórcios atual se deve, em parte, ao filé ao molho madeira servido no casamento"
    cara, adoro esse blog! HAHA

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  13. Tinha expressado minha opinião sobre esse tema degustativo importante, mas o blog comeu meu comentário. aff, suspira
    Enfim, achei pesado tratar o filé ao molho madeira com tamanho desprezo. Não sou entendida em festas de casamento, mas todas as vezes que comi filé ao molho madeira me senti carregada ao paraíso. Só que nunca comi num casamento. Vai ver eles fazem uma variedade diferente, caprichada na falta de gosto. Vou passar longe. Aguardo o convite para o seu casamento porque sinto boas premissas.
    Beijo, Annoquinha!

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    1. Mi, eu também amo filé ao molho madeira fora dos casamentos. São os buffets que acabam com eles. :(

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  14. Não sei se a memória me falha, se eu não reparei direito, mas não me lembro de ter visto o tal filé nos casamentos que compareci. Sempre teve churrasco, disso tenho certeza. E bem-casado. Cara, como eu odeio esse doce! No meu casamento não terá bem-casado. Aliás, por favor né, o casamento deveria ser como uma impressão digital, uma identificação na tribo, sei lá. Hoje em dia tá tudo tão padronizado :\

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  15. SAUDADE, BEBÊ!! <3

    Então. Eu até que gosto de velórios, eu acho meio macabro, sabe? Meio Tim Burton, sei lá. haha. Gosto quando o morto não é ente querido, claro. Mas não frequento. Porque da última vez que eu fui (e foi de um ente querido, juro! Eu não sou papa-defunto não, eu só fui em 3 velórios na vida!) passei mal. Porque aquela coisa missa-defunto-flores-CHEIRO MUITO ESTRANHO vão assim entrando em mim e quando eu vejo já estou pra lá das estribeiras. Eu nunca desmaiei na vida, mas da última vez foi quase.
    Eu também não frequento muito casamentos. Quase que nem os da família. Por ser cansativo, por ser demorado, por eu achar que uma missa de uma hora é quase uma eternidade, se o padre falasse a moral da história só em uns 5 minutos já estava de bom tamanho. Mas, principalmente, porque eu tenho medo da banalização. Porque eu não sou lá a favor do casamento em si, aquela coisa de ser feliz pra sempre e na alegria e na tristeza e tals. Tenho meus poréns sobre o assunto, mas apesar disso eu ainda acho a cerimônia encantadora. Eu me emociono, corre lagriminha pelo canto do olho, eu acho tudo lindo e tals. Mas tenho medo de ir muito e acabar enjoando.
    Dito isso, devo dizer também que só me lembro de ter comido filé ao molho madeira uma vez na vida. E foi numa balada. E, sei lá, eu devia estar com tanta fome (ou tão introvertida em lugar estranho por festa estranha de gente esquisita) que enfiei a cara no filé ao molho madeira pra meio que tentar interagir com toda a situação. Gostei. Talvez não pelo filé em si, mas mais por ter encontrado alguma coisa com a qual eu me sentisse mais em casa - comer.
    Já pensei muito sobre cardápios de casamento também. Não no filé ao molho madeira em si, mas na massa. Massa é sempre uma boa opção. Agrada a gregos e a troianos. Só não agrada os anoréxicos. Mas eu não convivo com gente que não gosta de comer. [Sou dessas que assim que é convidada pra qualquer tipo de festa já pensa na comida]²
    ~comentário aleatório: você é tão rabugenta, por isso que eu te amo tanto!~
    Eu acho o máximo você querer servir um panelão de galinhada no seu casamento. Mas eu, pensando pela mesma linha de raciocínio, se casar nessa vida ainda, vou mandar servir sopa de ervilha. E espero ansiosamente o convite para o seu casamento. Lembrando que eu estarei o tempo todo meio posicionada perto da mesa das suas sobremesas. Mesmo porque eu vou amar o Carpenters na trilha sonora.

    Beijo (que eu vou te dar pessoalmente daqui a poucos dias!!) <3<3<3

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  16. Anna, adorei o seu cardápio. Posso comentar? Os de quinze anos também são, em sua maioria, todos iguais. Fazer o que, né? Agradar a gregos e troianos é mais difícil do que tentar ter um dia feliz, haha.

    E eu espero ansiosa para a galinhada! Não precisa ser necessariamente no seu casamento...

    Beijos.

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