terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Batistar.

Eu nunca vou me esquecer de quando eu entrei naquela escola pela primeira vez e vi minha futura professora de prézinho com um sorriso de boas vindas e uma camiseta do Piu-Piu. Eu amei aquela escola logo de cara, fiquei fascinada com os coelhinhos, o lago, a hortinha de cenouras e a biblioteca cheia de almofadas no chão e uma infinidade de livros. E na primeira aula de educação física eu fui praticamente torturada porque não sabia jogar queimada (!) no auge dos meus seis anos de idade.

Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que choveu e eu não tive medo, por estar demasiado entertida numa história sobre as tartarugas que deixam seus ovinhos na praia, para que quando choquem as little-tartarugas corram sozinhas até o mar enfrentando tão precocemente um caminho de areia e perigo que para elas devia ser infinito. E ao invés de reparar na chuva levantei o dedinho e comentei com tia Terezinha que nas férias visitei o projeto Tamar e comprei umas canecas muito legais. Canecas que eu tenho até hoje.

Eu nunca vou me esquecer de quando eu tive que contar uma história pra toda a turma. Lógico que escolhi um dos volumes da Bruxa Onilda que naquela época era minha personagem preferida. Mamãe e vovó me ajudaram a fazer bruxinhas penduradas em suas vassouras para dar de lembrança a turma, e todo o pessoal riu da minha interpretação da bruxa de aprontando para ir a festa dos monstros.

Eu nunca vou me esquecer do meu primeiro livro preferido, De Paris, Com Amor que na terceira série eu li e reli tantas vezes e me sentia tão absolutamente importante por ter nove anos e estar lendo livros destinados a crianças de onze! Nessa época tive minhas primeiras aulas sobre poesia, e chegando em casa peguei um livro do Vinícius e decorei vários sonetos, que eu me lembro até hoje. Mas com certeza o que eu mais amava era Tarde em Itapuã.

Eu nunca vou me esquecer dos recreios na sala do figurino, onde eu, Amanda e Naná passávamos analisando as fantasias e criando peças de teatro. E da nossa primeira peça então? Totalmente escrita, dirigida, ensaiada, figurinada (?) e produzida por nós para os pequetitos. Meu personagem era uma onça chamada Gina (sempre tive um lado selvagem, haha) e houveram alguns rolos com a fantasia de Naná - que era uma galinha chamada Gite (não tínhamos malícia nessa época) - mas todos amaram, e é uma pena que nossos projetos não passaram de folhas rasgadas que agora estão na minha pasta cor-de-rosa lá na despensa.

Eu nunca vou me esquecer de todas as pincuínhas-a-la-quarta-série que sempre dividiam a turma, ganhava quem organizasse o melhor clubinho com as melhores lembrancinhas e as melhores canções-tema. E todas as trocas de estojo vão ficar pra sempre, todas as aulas que eu e Amanda abríamos nosso estojo, apoiávamos a tampa na garrafinha de água e fingíamos que aquilo era um laptop. As coleções de caneta colorida, os macaquinhos da Kipling, as mil Melissas coloridas e os penteados malucos vão estar pra sempre comigo.

Eu nunca vou me esquecer do canto direito da arquibancada no ano passado. Dos recreios amontoados, de todos os sente-e-esquente, do motel dos periquitos, da parede não investida, das visitas ao Panqueca e sua enorme família, do Caio constantemente com algum membro fraturado, das cantorias, das não-aulas de matemática nas segundas feiras, de todas as músicas e coreografias, das cenas de novela durante as aulas de português, das ligações do mano brown, de onde o sol não bate e de todas as coisas que preferimos não comentar.

Eu nunca vou me esquecer de todo o universo Batistar que foi meu universo durante nove anos, e que eu espero que nunca deixe de ser, mesmo comigo a um quarteirão de distância e ao mesmo tempo tão longe. É como se durante toda a minha vida escolar eu estivesse dentro de um redoma, e agora chegou a minha hora de sair disso e enfrentar a vida feito as little-tartarugas do começo desse post.

Apesar da possibilidade de encontrar um infinito de areia quente, no final o mar me espera.



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